Os rios da consciência
4.ª e última parte: O sonho de Augusto
Abalaram os quatro dali para Santo Amaro. Era uma caminhada de mais de duas horas, para poupar o dinheiro do comboio, mas valia a pena, o negócio era tentador. De resto, o passeio à beira-mar era aprazível.
Finalmente chegaram a Santo Amaro – moídos é certo, mas ansiosos por ver o tal barco. Bateram à porta do armazenista, que os levou ao devido local. Abriu-se o portão do armazém e pouco a pouco, no meio da penumbra, as pupilas foram-se abrindo para a presença de uma embarcação coberta de lonas e velas rotas, altaneira, amparada por estacas. Arredadas as lonas, revelou-se uma magnífica canoa de bastardo, esguia como uma faca, uma preciosidade como Augusto não via há muitos anos. Tinha uns sete a oito metros de comprido, pequeno calado, menos de três metros de boca. O quarteto de visitantes pôs-se a rondar a embarcação, inspeccionando-a minuciosamente.
– Reparem no espigão metálico de proa. Isto era uma canoa de bastardo de combate – anotou o pescador.
– De combate? – admirou-se Eduardo. – Era um barco da marinha de guerra?
– Não, a marinha de guerra não tem beldades destas. Isto é menino para correr acima de 30 nós ou mais com vento moderado. É de combate porque antigamente havia às vezes combates entre bairros rivais no Tejo. Já para não falar na necessidade de dar caça à pilhagem de corso vinda de fora.
O arrais subiu a um escadote, içou-se à altura do convés e sacou de lá um cadernal. Mirou-o de vários ângulos, revirou-o e por fim sentenciou:
– Este cadernal, com este desenho e estas roldanas de bronze, já não se fabricava quando eu entrei nas artes marinhas. Este barco há-de ter mais de oitenta anos!
O mestre calafate dirigiu-se a um monte de ferramentas que estava ali à mão de semear, agarrou numa espátula e pôs-se a raspar ao de leve as obras vivas do veleiro. Raspou, examinou, cheirou, e por fim emitiu o seu diagnóstico.
– Espantoso! Por mais velha que esta canoa seja, a madeira ainda cheira a resina. Está incrivelmente bem conservada. Depois de bem calafetada e pintada, este barco é um achado. Pelo que estou a ver, as obras vivas são feitas de mogno e pinho nórdico não sangrado; o convés deve ser de teca. E o mastro parece em muito boas condições. Já o velame … é lixo, vai ser preciso encomendá-lo todo de novo.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Augusto entrou em profunda meditação. Por um lado, seria difícil alguma vez na vida conseguir uma embarcação de vela tão ágil como aquela. Por outro lado, uma canoa de bastardo é uma embarcação de dificílima manobra; exige uma tripulação muito experiente. O Eduardo não estava à altura de cambar uma vela daquelas, com mais de 15 metros quadrados; e com Leogarda não podia ele contar para as manobras de bordo. Além disso, ele próprio já não era o jovem atlético de outros tempos. E de resto não podia pensar só em si. Se adquirisse um barco à vela, teria de pensar em comodidades adequadas à família – cabina, beliches, cozinha de bordo, casa de banho … Ora a canoa tinha o convés raso; abaixo do convés, apenas o espaço suficiente para gatinhar em busca do cordame, das velas, das âncoras e demais aparelho indispensável à manobra. Era um barco todo ele concebido para combater e navegar a grande velocidade – velocidade e agilidade eram as suas principais armas, além do esporão metálico.
Para adequar o barco à família e transformar aquele cavalo selvagem numa aprazível embarcação de lazer, teria de levantar o convés, construir uma cabina, instalar um motor, encomendar dois jogos de velas (o equivalente a mais de cinco anos de salário de guarda-freio). E retirar o espigão de proa, que certamente não seria do agrado da guarda marinha nos tempos correntes.
Os seus sonhos de pré-reformado acabavam de se diluir nos grãos de areia do cálculo, lavados pela maré da sua realidade proletária.
Fosse ou não viável tal transformação, Augusto jamais teria meios para a sustentar. Ainda que a canoa viesse praticamente de borla, o negócio era inviável para ele. Esta triste conclusão arrancou-lhe por fim umas quantas lágrimas de frustração, discretamente disfarçadas na penumbra do barracão.
Deu aos amigos e ao filho um relato das suas conclusões, não se poupando a detalhes, para que os mestres não se desiludissem quanto ao grande amor que ele já nutria pela embarcação.
Despediram-se do armazenista com muitos agradecimentos, raparam os bolsos à cata de moedas para pagar o bilhete de comboio para Lisboa e lá regressaram, cabisbaixos e meditabundos. Augusto sentou-se à janela, do lado do mar, donde não tirou os olhos até chegar ao Cais do Sodré. Os seus sonhos de pré-reformado acabavam de se diluir nos grãos de areia do cálculo, lavados pela maré da sua realidade proletária.
De resto, ainda bem que não se meteu em trabalhos. Poucos anos passados, logo após o derrube da ditadura, a vela passaria a ser considerada pela suposta “vanguarda revolucionária” não uma arte popular, como sempre fora, mas um luxo de ricaços. E arrais, calafates, pescadores e outras artes tradicionais foram, conforme previu Mestre Matias, proletarizados e varridos da face da terra, para dar lugar a uma indústria de entretenimento sem sentido e, como todas as indústrias capitalistas, violentamente destrutiva.
(fim)