Jornal Maio

A bola e o tricô

2.ª parte

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-reitor continuava irredutível e furibundo.

Ainda sobravam uns minutos do intervalo entre aulas. A suar, sentindo o peito a explodir, Ó correu escadas abaixo para jogar à bola com os amigos e esquecer aquilo tudo.

Eram oito lanços de escadas. O Texas estava instalado numa das escarpas da Lapa, de modo que na frontaria ostentava dois pisos acima da rua e nas traseiras, colina abaixo, revelava-se um edifício de quatro andares. O pátio de recreio ficava ao nível da sub-sub-cave e era aí que os rapazes saltavam ao eixo, jogavam à apanhada e davam uns chutos na bola.

Ao nível do rés-do-chão, mas com janela para as traseiras (e, portanto, sobranceira ao pátio de recreio), ficava a sala dos professores. Nessa sala ocorria todos os dias, por volta das 10.30, um ritual sagrado: o professor que estivesse desocupado durante o período de aulas antecedente preparava para os colegas um café aromático, feito numa máquina “de balão” – uma máquina de café que consistia em dois balões de vidro pirex, aquecidos por uma lamparina. 

Por essa época surgiu uma nova moda de calçado: os sapatos de pala, sem atacadores. E assim, num belo dia primaveril, um dos colegas do Ó apareceu no recreio com uns sapatos de pala, os primeiros a pisarem o chão do liceu. Meteu-se o rapaz a jogar à bola e a certa altura disparou um tremendo chuto à baliza. O problema, porém, é que o sapato lhe saltou do pé, foi atrás da bola, girou pelos ares num arco caprichoso e foi bater na janela da sala dos professores; partiu a vidraça e, como se isso não bastasse, acertou em cheio na máquina do café, reduzindo-a a estilhaços. Aquilo foi uma heresia pior do que cuspir em todas as santinhas. Gerou-se uma enorme comoção no corpo docente, senão mesmo, nos primeiros instantes, uma raiva assassina; o eco da indignação subiu as escadarias e chegou ao gabinete do vice-reitor, que desceu seis lanços de escadas a galope e, horrorizado perante os estilhaços da máquina de café, emitiu logo ali um edital: a partir daquele momento seria proibido jogar à bola no pátio e andar em correrias. Os contínuos (chamam-se hoje auxiliares) foram enviados em todas as direcções, apreenderam bolas, caricas, berlindes e todos os demais objectos circulares ou projectáveis que lhes apareceram pela frente, atiraram berros à cara dos alunos e puseram-nos em sentido. O dia terminou envolto num inquietante nevoeiro de trituração e revolta que desfocava as letras nas ardósias e tornava os ouvidos moucos às palavras dos professores.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-reitor continuava irredutível e furibundo.

Ao segundo dia, o Ó, inspirado no confronto que tivera há dias com o professor de Religião e Moral, teve uma ideia. Em grande segredo, começou a passar palavra entre os alunos. Nesse dia os rapazes regressaram a casa numa grande excitação e cada um inventou uma desculpa qualquer (trabalhos manuais, ou coisa assim) para sacar alguns materiais às mães.

 

Era um espectáculo digno de ser filmado, com novelos de lã de todas as cores; toda a gente em silêncio, apenas se ouvia o tique-tique das agulhas.

 

Ao terceiro dia, todos os alunos presentes ao primeiro tempo de aulas chegaram com bom avanço antes do toque da campainha, a fim de prepararem o cenário combinado. Os contínuos acharam aquilo inusitado, mas não pensaram muito no assunto. Quando o vice-reitor atravessou os portões da escola, foi encontrar os 700 alunos estacionados em todos os lanços das escadarias, do primeiro ao último, sossegadamente sentados nos degraus a fazerem tricô. Era um espectáculo digno de ser filmado, com novelos de lã de todas as cores; toda a gente em silêncio, apenas se ouvia o tique-tique das agulhas. Siderado, sem dizer uma palavra, o vice-reitor subiu ao seu gabinete como pôde, pisando os degraus com dificuldade entre aquela massa de corpos e agulhas. Enfiou-se no gabinete e pouco depois tocou a campainha a chamar um contínuo.

Novamente foram enviados os contínuos pelos corredores do liceu, a colarem nas paredes novo edital: passava a ser novamente possível jogar à bola. Mas, claro está, o vice-reitor não dava o braço a torcer completamente: preservava a sua dignidade com algumas limitações e o aviso de que qualquer prejuízo adveniente de brincadeiras estouvadas seria cobrado aos alunos e respectivas famílias. O Ó acertara em cheio: não era suportável ver uma massa de rapazes dedicados a tarefas supostamente feminis. Felizmente, ao contrário da sede do Liceu Pedro Nunes, O Texas não era misto.

(fim)

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