Quando o telefone toca
Aquele “Bjinho onde quiseres” mexia-lhe até na honestidade. Confirmou os lençóis mudados, os pauzinhos de incenso, o champanhe. Na terça, logo pela manhã, sentou-se no sofá, junto do telefone e com o telemóvel ao lado..
Nada a fazer. O nervoso miudinho não o largava, nem a dormir. Já lá iam três dias a andar sobre brasas, três noites a fio a passar por elas, sem pregar olho, como puto em véspera de dia de anos. O que assim o trazia em pulgas não era, contudo, uma ânsia de menino. Longe estavam os tempos da bicicleta ou da primeira motorizada, que afinal acabara até por não ser a Sachs V5. Pouco importa. O que agora lhe transtornava a pacatez era um desejo de solteirão inveterado, que assentara arraiais em si no último sábado, por via de um lacónico SMS: “O meu marido é capaz de ter de ir ao Norte em trabalho.”
Escusado é dizer que o coração logo lhe ficara uma barata tonta, a bater de uma para outra excitação. Tinha de mudar os lençóis, esconder as cervejas e os cinzeiros, comprar champanhe. Assim que, na noite desse sábado, abriu um e-mail mais prometedor ainda, só não teve um AVC, um enfarte do miocárdio ou outra qualquer aguda perturbação fatal, porque pouco antes não resistira a acalmar o entusiasmo, tal como fazia quando, adolescente, se perdia na visão dos seios da Sophia Loren. Enfim. Benditas novas tecnologias. As entrelinhas da mensagem remeteram-no para um estado de graça superior ao de Barack Obama em cerimónia de posse: “Ele vai mesmo para o Norte. A Joana está a passar férias com os avós. Na terça telefono-te, para me ires buscar à estação. Bjinho onde quiseres.” Tinha mesmo de mudar os lençóis, deus dele!
O resto da noite passou-o a aspirar o apartamento até o vizinho de baixo lhe começar a bater com qualquer coisa no teto. Desfez-se dos cinzeiros, bebeu as cervejas que tinha no frigorífico, preocupou-se depois com o pó e acabou por se deitar no sofá, a lembrar-se de tudo o que havia a fazer. Mudar os lençóis. E levantou-se ainda. Fez a cama de novo, pôs tudo o que era roupa suja a lavar e voltou para a sala e a emissão sobre as aranhas da Amazónia, no National Geographic. O ruído surdo da máquina não o deixou sonhar a sério. Sabia que era por demais distraído e recordou, assustado, aquela vez em que deixara a mãe sozinha numa área de serviço da A8, quando, a caminho da aldeia, parara para abastecer e ela se demorara demais nos lavabos.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Domingo e segunda-feira seguintes esgotaram-se em inúmeros pormenores ínfimos. Distraído como era, viu e reviu tudo até à exaustão, a ponto de quase se esquecer de avisar a empresa da sua ausência nos próximos dias. A justificação adiou-a. Tinha um amigo numa agência funerária, apontou a necessidade na agenda. Depois veria que funeral de tio ou prima o havia impedido de comparecer ao serviço. Aquele “Bjinho onde quiseres” mexia-lhe até na honestidade. Confirmou os lençóis mudados, os pauzinhos de incenso, o champanhe. Na terça, logo pela manhã, sentou-se no sofá, junto do telefone e com o telemóvel ao lado.
Perto do meio-dia, triimmm… Era o fixo. “Sim?” Do outro lado, um dececionante silêncio. “Sim?” Nada. Pensou, então, que deveria ter sido um daqueles contactos eletrónicos só para ver a que horas o utente atente, para posterior chamada e tentativa de venda de qualquer semana de férias nos confins de um mundo paradisíaco. Pôs-se à janela a fumar um cigarro. E foi a vez do toque personalizado do telemóvel. Ao seu derretido “Estouu…”, retorquiu-lhe um tal António Convencido, da NT Comunicações, a perguntar se já conhecia o serviço ultra especial de televisão por cabo… “Não, não conheço, nem me interessa!” Desligou, respirou fundo, conseguiu até adiar nova cigarrada à janela desconsolada. Estava quase a dormir quando tocaram os dois aparelhos, quase em simultâneo. Atendeu primeiro o de casa. Era a menina de uma companhia de seguros. No outro, só ouviu uma voz a propor-lhe o mais vantajoso dos cartões de crédito.
Desistiu. Esquecido, ao primeiro disse: “Desculpe, estão a ligar-me do telemóvel, aguarde um pouco…” e pousou, devagarinho, o auscultador na mesinha. Ao segundo, calmamente, respondeu também: “Tenha paciência, só um momento, vou chamar o meu pai…”, enquanto deixava o aparelho, também ligado, na mesma mesinha sem um grão de pó. Recostou-se, então, a pensar no champanhe gelado e nos lençóis lavados da cama feita de novo. Adormeceu. E sonhou com o Matos Maia, do Rádio Clube dos anos 60, a responder no “Quando o Telefone Toca” ao: “Posso dizer a frase?”