Inteligência Artificial

A IA produz um conhecimento médio medíocre e um bloqueio do conhecimento novo
categoria-educação Inteligência Artificial Educação Ludismo Pedagogia edicao-2026-10-01 (43)

A IA produz um conhecimento médio medíocre e um bloqueio do conhecimento novo

Entrevista com Mauro Jarquín Ramírez1, 2ª parte Mauro Jarquín, professor da UNAM, México, defende que a IA não é inteligente, produz conhecimento medíocre, bloqueia novos conhecimentos e a criatividade. A cadeia produtiva da IA reconfigura a produção mundial, dos minérios à energia, mas o seu centro é a expropriação maciça

Mauro Jarquín Ramírez, Jornal Maio
A IA produz um conhecimento médio medíocre e um bloqueio do conhecimento novo
categoria-educação Inteligência Artificial Educação Ludismo Pedagogia edicao-2026-09-24 (42)

A IA produz um conhecimento médio medíocre e um bloqueio do conhecimento novo

Entrevista com Mauro Jarquín Ramírez1, 1ª parte Mauro Jarquín, professor da UNAM, México, defende que a IA não é inteligente, produz conhecimento medíocre, bloqueia novos conhecimentos e a criatividade. A cadeia produtiva da IA reconfigura a produção mundial, dos minérios à energia, mas o seu centro é a expropriação maciça

Mauro Jarquín Ramírez, Jornal Maio
IA e produtividade
categoria-economia Produtividade Inteligência Artificial edicao-2026-09-17 (41)

IA e produtividade

O crescimento da produtividade desde 2022 deve-se mais a um uso mais intensivo de tecnologia existente após o fim da pandemia do que à introdução de IA. A adopção de IA tem aumentado, sim, mas ainda está muito longe do pico. A Goldman Sachs estima que possa demorar quinze

Michael Roberts
O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista António Carlos Cortez
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Inteligência Artificial Escola Universidade

O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista

As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.

António Carlos Cortez
A Magnifica Humanidade de Leão XIV Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião Encíclica Humanidade Inteligência Artificial Papa edicao-2026-06-18 (32)

A Magnifica Humanidade de Leão XIV

Na encíclica Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), o Papa alerta para três campos concretos que os avanços digitais ameaçam, que não podem ser descurados, porque são fundamentais para assunção da dignidade e felicidade humanas: a verdade, o trabalho e a liberdade.

Pe. José Luís Rodrigues
A bolha do investimento em IA
categoria-economia Big tech Bolha especulativa Inteligência Artificial Economia edicao-2026-06-18 (32)

A bolha do investimento em IA

Em dezembro de 1996, o então presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, caracterizou o boom nas ações de tecnologia, meios de comunicação e telecomunicações como mostrando sinais de “exuberância irracional”. Quase 30 anos depois, podemos dizer o mesmo sobre o boom da IA, com os sinos a tocarem a

Michael Roberts
A IA e a expropriação do conhecimento
categoria-ciência Big tech Inteligência Artificial Educação Trabalho edicao-2026-06-11 (31)

A IA e a expropriação do conhecimento

A Inteligência Artificial Generativa é um artefacto para a expropriação intelectual dos professores e dos estudantes e corresponde a uma estratégia política das big tech para a precarização total da força de trabalho mundial.

Roberto Leher
Captura híbrida por IA
Colonoscopia Inferno Inteligência Artificial categoria-crónica edicao-2026-06-04 (30)

Captura híbrida por IA

Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

Maria Augusta Tavares
Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas
categoria-ciência Despedimentos Inteligência Artificial Tecnoterrorismo edicao-2026-06-04 (30)

Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas

O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários seria substituir toda a força de trabalho humana por IA. Só que esta hipótese gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo qu

André Carmo
Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas
categoria-ciência Inteligência Artificial Luditas Tecnofobia Tecnoterrorismo edicao-2026-05-28 (29)

Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas

De uma penada, aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado, rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando são rotulados de tecnofóbicos e olhados com sobranceira repugnância.

André Carmo
A IA é mal-educada e escreve mal
Inteligência Artificial categoria-educação edicao-2026-05-21 (28)

A IA é mal-educada e escreve mal

Hoje, a entrada acelerada da Inteligência Artificial (IA) nas escolas e nas universidades coloca uma interrogação que já não pode ser ignorada. Não se trata apenas de saber se a tecnologia é útil ou inevitável. A questão é mais profunda e mais exigente

José Paulo Santos
Inteligência artificial e capital
categoria-ciência Humano Inteligência Artificial edicao-2026-04-16 (23)

Inteligência artificial e capital

Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?

Rui Pereira
categoria-educação Inteligência Artificial Educação Ludismo Pedagogia edicao-2026-10-01 (43)

A IA produz um conhecimento médio medíocre e um bloqueio do conhecimento novo

Entrevista com Mauro Jarquín Ramírez1, 2ª parte

Mauro Jarquín, professor da UNAM, México, defende que a IA não é inteligente, produz conhecimento medíocre, bloqueia novos conhecimentos e a criatividade. A cadeia produtiva da IA reconfigura a produção mundial, dos minérios à energia, mas o seu centro é a expropriação maciça de conhecimentos. Segunda parte da entrevista de Raquel Varela e Roberto della Santa, com tradução de Octávio Lima e Adriano Zilhão.

É muito interessante teres dito que, no México, temos um governo progressista e que este tem uma abordagem muito semelhante no que diz respeito ao suposto desenvolvimento das forças produtivas em geral, porque se retirarmos do contexto o facto de falarmos de “progressista”, num sentido de liberal esclarecido, social-democrata ou reformista... Se pensarmos, por exemplo, como pensava Walter Benjamin, a noção de progresso como uma contrapartida da barbárie no modo de produção capitalista – desenvolvimento e barbárie andam de mãos dadas, em suma, como abordas esse dualismo entre progresso e barbárie, o pensamento das teses sobre o conceito de história, como abordas a reivindicação de um novo ludismo.

Considero que, fazendo referência às teses sobre a história, o apelo ao ludismo, em termos da prática educativa, é um apelo para accionar o travão de emergência, anticapitalista e revolucionário, perante uma locomotiva descontrolada conduzida por um aceleracionismo reaccionário que põe em causa a educação pública, o trabalho docente, a criação de conhecimento, etc. O comboio da história parece actualmente seguir um percurso que nos está a colocar em contracorrente do Iluminismo. A partir da obra de autores como Curtis Yarvin e Nick Land, tem sido designado por Ilustração Negra ou neo-reacção. Uma configuração social em que a herança progressista do Iluminismo é supérflua – os direitos humanos, o Estado de Direito, a democracia, etc., são supérfluos. E são supérfluos precisamente porque são camisas de força de um princípio fundamental no seu raciocínio: a aceleração do capitalismo e, neste momento, remover essas barreiras supérfluas à aceleração do capital, tem muito que ver com a liberdade do capital tecnológico para continuar a produzir aquilo a que eles chamam de “inovação”.

O apelo ao ludismo educativo — que, a partir de outras perspectivas e posições políticas, também tem sido defendido por figuras como Charles Logan, Philip Nichols e Antero García — defende que o actual desenvolvimento das forças produtivas do capital, nas relações de produção actuais e com as correlações de forças políticas dominantes, nos está a conduzir não só a um agravamento dos maus tratos à vida em geral, à vida biológica do planeta e à desumanização quotidiana das pessoas, mas, na essência, nos está a conduzir, na minha opinião, a um abismo.

Neste sentido, a educação pública, que podemos considerar como consequência do Iluminismo, é alvo fundamental de ataque desta neo-reacção, porque o que muitas vezes se defende a partir dela, como a igualdade, a protecção ambiental ou a democracia, pode acabar por limitar a inovação monopolista sem fim que se propõe num capitalismo cada vez mais regulado por lógicas libertárias e por perspectivas radicais do capitalismo.

Então, entendo esse travão de emergência em termos luditas, em primeiro lugar, ao reconhecer a materialidade do desenvolvimento tecnológico, ou seja, uma leitura materialista da tecnologia que reconheça o seu condicionamento capitalista, uma reflexão desenvolvida de forma interessante por Jathan Sadowski. Por outro lado, como forma particular de anti-capitalismo na educação, que actualiza um conjunto de discussões e discursos presentes no pensamento crítico. Durante muito tempo, o anti-capitalismo foi apontado contra o discurso do capital humano na educação, algo que serviu de ponto de partida para um conjunto de posições críticas, como a campanha contra a padronização educativa. Parece-me que, neste momento, é necessário actualizar alguns elementos, porque várias das críticas que fizemos na altura, como a que se dirigia contra a padronização da educação, entendida como mecanismo de produção de capital humano num contexto de capitalismo industrial, apresentam actualmente alguns problemas.

A oferta tecnológica atual da “megamáquina” educativa tem como um dos seus principais atractivos a superação da padronização. O que as empresas tecnológicas e os evangelistas da tecnologia na educação nos dizem agora é que o modelo educativo em que um professor dá aula a todo um grupo é um modelo obsoleto. Do que precisamos agora é de personalizar a educação, ou seja, utilizar a tecnologia, neste caso a IA, para gerar perfis específicos das necessidades de cada aluno, a fim de “personalizar a sua educação”. 

Há algum tempo, perguntei a colegas aqui na América Latina: como respondemos agora às empresas tecnológicas, quando parece que elas estão a fazer o que exigimos há muito tempo? Ou seja, atender às necessidades de cada aluno. Agora é isso que elas oferecem, em termos de mercado e com um apoio académico realmente frágil quanto à sua funcionalidade. Perante isto, uma pedagogia ludita — ou seja, uma abordagem anticapitalista na educação — revela-se, na minha opinião, importante.

Bem, na verdade, se me permites, não queremos incomodar-te muito, mas eu trabalho muito com escolas, vou a muitas escolas, dou muitas palestras, e o que vejo é que, em primeiro lugar, mesmo dentro da esquerda, a ideia de que a educação é uma ferramenta para o mercado de trabalho, de que a escola não é um lugar de conhecimento e de aprendizagem, está muito disseminada. Até os pais acham que é melhor que os filhos aprendam alguma coisa para poderem trabalhar. Em segundo lugar, a maioria dos sindicatos está a aceitar a inteligência artificial, apenas pedem regulamentação. Achas que é possível regulamentar a inteligência artificial? Essa é uma questão. E a outra é: quando entrávamos na escola há 10 anos, já tínhamos aulas inteiras em PowerPoint, com o auxílio disto e daquilo, e de outra coisa. Então, já vemos os professores “semi-dispostos”, prontos para receber a inteligência artificial. Não achas? Não caiu do céu, porque os professores, muitos deles, já não criavam as suas próprias aulas.

No contexto latino-americano, e também no México, acontece algo semelhante. Ainda prevalece uma série de narrativas sobre a inevitabilidade tecnológica, que sugere que, se os professores não adoptarem a tecnologia educativa — em particular a IA —, ficarão condenados a ficar para trás e, com isso, a prejudicar os seus alunos, ao não os preparar para o “século XXI”. Mesmo sectores mobilizados do magistério, com uma história política de luta, ainda não desenvolveram, até ao momento, uma posição a este respeito, em grande parte porque, nos últimos anos, tiveram de lutar, enquanto organização, contra um conjunto de políticas governamentais em matéria de educação e segurança social que se revelaram prejudiciais aos interesses das comunidades educativas e do corpo docente. Tudo isto porque, recordemos, embora a IA tenha uma história de várias décadas, o seu desenvolvimento, fundamentação teórica e expansão têm muito que ver com o neoliberalismo, seja na sua vertente conexionista-hayekiana, seja através da promoção de políticas de austeridade.

Desculpa, vou repetir: a verdade é que nós, que estudámos teorias da educação, do desenvolvimento da psique, Vygotsky, etc., sabemos que o processo de trabalho é o processo da cultura. Então, a ideia de que me entrego a algo cedo é a negação do trabalho, é a negação da cultura. Porque a paixão de dar aulas... é até passar pelo sofrimento de criar uma turma. Sofrimento e prazer. Até a sublimação, psicanaliticamente, é... Só há sublimação quando há transição do sofrimento para o prazer, não é?

Veio-me à mente a abordagem crítica de Marx relativamente ao divino e à alienação do humano em Deus, presente na obra de Feuerbach. Para Feuerbach, a figura de Deus acaba por privar o ser humano das suas faculdades, porque é essa figura divina que concentra as aspirações, os anseios, etc. Neste sentido, parece-me que algo semelhante acontece, em termos actuais, com a inteligência artificial. Estamos num momento em que, cada vez mais, nós, as pessoas, cedemos ou renunciamos, pelo menos parcialmente, à nossa capacidade criativa, à capacidade de conhecer o mundo, de o interpretar.

É o novo deus?

Se seguirmos à risca a propaganda dos círculos mais radicais do Silicon Valley, parece que sim. Sem querer extrapolar ou exagerar a abordagem, parece que avançamos para o aprofundamento de uma alienação social como talvez nunca tenhamos experimentado antes, como talvez não se tenha experimentado desde tempos em que, retomando o ponto anterior, o centro da sociedade era abertamente Deus ou o divino. Considero que isto é importante, porque estamos, então, a falar de uma tecnologia que, em certa medida, pode moldar processos fundamentais da nossa sociedade. 

Parece que avançamos para o aprofundamento de uma alienação social como talvez nunca tenhamos experimentado antes.

Assim, quando nos perguntamos se é possível regulamentar a IA — um debate promovido, em grande parte, como única perspectiva viável por parte de governos e organizações multilaterais —, teríamos primeiro de responder ao que entendemos por IA. Ou seja, por IA estamos a considerar um conjunto de “ferramentas de produtividade” específicas; os algoritmos que permitem o seu funcionamento; a grande quantidade de dados com que os modelos são treinados, ou também, de forma mais ampla, a sua materialidade? A IA tem como condição sine qua non uma infra-estrutura física composta por centros de dados, cabos submarinos, estruturas que orbitam a Terra, etc. 

Assim, se afirmamos que é necessário regulamentar a IA, parece-me que devemos considerar as suas dimensões e ter em conta que um projecto de tal magnitude implica tocar em interesses profundos do capital tecnológico global; e, neste ponto, parece que a discussão clássica sobre o capitalismo, no que diz respeito aos termos de propriedade em torno do que se poderá designar como meios de produção digitais, ganha nova actualidade. Parece-me que a encíclica recentemente publicada pelo Papa responde, em certa medida, a essas preocupações. Ora, o problema é que tanto a IA como a ideia de Deus são, em última análise, produto de um conjunto de relações sociais. Tal como determinadas forças sociais actuavam, e actuam, para que a ideia de Deus desempenhasse um conjunto de papéis numa determinada ordem social, da mesma forma o capital tecnológico propõe que a IA cumpra ou favoreça uma série de tarefas e condicionamentos sociais. 

Desta forma, esse caminho aceleracionista de inovação sem fim tem também que ver com os debates sobre como regular, em termos legais e políticos, o desenvolvimento tecnológico, por todas as implicações que isso pode ter, entre outras coisas, na educação. Há já algum tempo, foi apresentado na Argentina algo a que chamaram “a primeira professora de inteligência artificial”, que consistia basicamente num programa utilizado na sala de aula e que “dava a aula” em vez de um professor ou professora. Uma iniciativa que, ao que parece, até ao momento não se revelou bem-sucedida. O CEO da empresa que a promovia afirmou num programa de televisão que o uso da IA nas escolas da América Latina era relevante, porque, se não fosse utilizada, a diferença entre a América Latina e os países desenvolvidos não seria de natureza económica ou social, mas sim biológica. Isso, por outro lado, é basicamente uma recuperação do transumanismo que floresceu no Silicon Valley e que é tão impulsionado por setores tecno-reaccionários liderados publicamente por Peter Thiel. 

A tudo isto, a megamáquina educativa, conceito que desenvolvo com base na obra clássica de Lewis Mumford, não consiste num grande aparelho que opera na educação e se situa acima dela, mas sim num conjunto complexo, dinâmico e em constante fluxo de instituições, actores, ideias, narrativas, artefactos e prefigurações. Esta megamáquina é atravessada por narrativas tecno-solucionistas e, de forma cada vez mais clara, também por projectos reaccionários e princípios transumanistas e eugénicos.

O que são o transumanismo e o eugenismo que referes?

Na introdução a Pedagogia Ludita, menciono como um promotor de tecnologias digitais educativas, impulsionador de uma iniciativa capitalista de integração tecnológica nas escolas, que foi alardeada como “a primeira professora de IA na América Latina”, afirma que a adoção de tecnologia nas escolas é uma questão biológica. Este não é um pormenor despiciendo, pois encerra uma tradição transumanista e eugenista complexa, como já referi, de longa data em Silicon Valley, que tem ocupado um espaço cada vez maior na megamáquina educativa.

Este tipo de retórica apresenta a adoção da tecnologia digital como uma possível melhoria da própria condição humana ou como um caminho para alcançar, literalmente, a imortalidade. A este propósito, a entrevista de Ross Douthat a Peter Thiel é extremamente reveladora. Nela, é provável identificar alguns elementos daquilo a que Timnit Gebru e Emile P. Torres chamaram “pacote TESCREAL”. Ou seja, uma amálgama de princípios ideológicos (Transumanismo, Extropianismo, Singularitarismo, Cosmismo, Racionalismo, Altruísmo Eficaz e Longoprazismo) que constituem o tecno-otimismo radical de Silicon Valley, profundamente relacionados, entre outras coisas, com o projeto corporativo de desenvolver aquilo a que os líderes e magnatas da tecnologia chamam inteligência artificial geral (IAG), um sistema tecnológico com capacidade de inteligência e consciência virtualmente humana; uma enteléquia que tem estado no centro das perspetivas mais catastrofistas e otimistas sobre a tecnologia. Embora esta formação ideológica não surja explicitamente quando falamos de educação e tecnologia, a realidade é que o projeto tecnológico na educação, impulsionado pelo capital, agora com conotações abertamente reacionárias, é muito mais do que a procura de maior eficiência. Estamos a assistir a uma tentativa de constituição, a partir de diferentes polos de poder e de dinheiro, de uma mudança civilizacional.

Existem, classicamente, no imaginário, no pensamento socialista, pelo menos duas grandes visões antagónicas sobre o futuro do trabalho nos romances do final do século XIX, e as posições opõem-se, como sabes, com William Morris, por um lado, a defender que todo o trabalho humano é trabalho criativo – assim, todas as oportunidades para produzir mercadorias, desde calças a armários, carros, o que for, teriam quase naturalmente o carácter de trabalho artístico; não se despreza, não há alienação entre trabalho intelectual e trabalho material, e uma série de outras posições que já são apresentadas desde 1890. Esta confronta-se com outra, que surgiu depois da publicação de um romance na América do Norte, que é Olhando para Trás: A utopia futurista de Edward Bellamy (Looking Backward 2000-1887), em que o futuro do trabalho é como um estado super-centralizado, em que só há trabalho entre os 35 e os 45 anos, e tudo o que é a libertação do trabalho é o tempo livre e o lazer, tal como é. Então, queria dizer o seguinte. Imagina uma revolução socialista mundial, na fase superior de desenvolvimento humano já comunista, com a propriedade totalmente comunitária, sem mercadorias, sem hierarquias, sem desigualdade, uma sociedade igualitária. Teríamos algo a ganhar com a inteligência artificial generativa e os modelos de linguagem de grande escala? Pergunto isto porque penso um pouco nos governos progressistas, mas quero ir mais além. Não só aqueles que criticamos, que não são do nosso campo, por assim dizer, mas também os nossos camaradas que pensam: “Bem, isso é mais do que isso, é como um tear, é como um carro, é como um computador”. “Não se pode parar o progresso humano.”

Sim. A questão do tempo livre é, creio eu, algo em que também é preciso refletir bastante. Na educação, qual é uma das supostas vantagens da adopção da tecnologia digital, particularmente da IA, para os professores? Poupar tempo. No discurso das grandes empresas tecnológicas, uma das funções esperadas da tecnologia digital é que os professores poupem tempo. Tempo “livre” que possam dedicar a coisas relevantes, ou mesmo gratificantes. É assim que apresentam a questão do tempo livre, e sabemos disso através de uma discussão clássica no marxismo. Uma obra que considero particularmente interessante, onde isso é discutido de certa forma, é O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue. Tem um parágrafo muito bonito em que, essencialmente, se defende que a disputa histórica entre o trabalho e as máquinas não se resolveu com mais tempo livre, mas que o desenvolvimento tecnológico fez que esse tempo, que a tecnologia, digamos, de certa forma, “poupa” ao trabalho tenha sido também dedicado à produção.

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Algo semelhante está a acontecer actualmente nas escolas, tal como vários estudos têm demonstrado. Neil Selwyn já publicou alguns artigos nos quais mostra que o uso ou a integração da IA no trabalho em sala de aula, em determinadas tarefas, não gera propriamente mais tempo livre, devido ao conjunto de actividades que rodeiam a adopção tecnológica e que consomem tempo de trabalho dos professores.

Assim, tendo isso em conta, creio que, para mim, uma sociedade comunista deveria essencialmente proporcionar-nos tempo livre, mas a forma tecnológica actual, derivada da sua organização política, não permite que a tecnologia nos proporcione mais tempo livre, porque o tempo excedente, por assim dizer, é também ocupado em processos de produção ou de reprodução social do capital, o que é algo muito mais complexo.

No entanto, se pudéssemos, neste momento, esboçar uma potencial utilidade deste tipo de tecnologia numa sociedade comunista, parece-me que tal utilidade poderia ser encontrada e discutida no debate clássico sobre a possibilidade do cálculo económico, travado nas décadas de 1930 e 1940 entre Oskar Lange, o economista soviético, e Ludwig von Mises, um dos fundadores da Escola Austríaca de Economia.

Naquela época, o que Von Mises defendia era basicamente — o que é interessante, pois esse é um dos pilares teóricos dos reaccionários chamados libertários — que o Estado não tem capacidade para cumprir a sua missão de satisfazer as necessidades da sociedade, essencialmente porque não consegue fazer um cálculo económico sobre o que esta necessita. É claro que o Estado tem uma burocracia e que a burocracia opera na sociedade e, por sua vez, gera, em teoria, informação. No entanto, a informação por ela gerada não tem a qualidade daquela que, segundo ele, é gerada no mercado, o que os economistas austríacos e outras expressões do radicalismo de mercado (como Quinn Slobodian as denomina) conhecem como sistema de preços. Para a tradição económica austríaca, o sistema de preços das mercadorias é basicamente um sistema de informação sobre as necessidades das pessoas, que o Estado não pode ter. Muito menos quando temos um Estado que, por exemplo, impõe determinados preços máximos às mercadorias. Ou seja, um Estado que intervém na economia, essa é a sua formulação. Se considerássemos válido esse debate sobre a impossibilidade do cálculo económico no socialismo, parece-me que esta tecnologia poderia eventualmente vir a ser útil, dada a sua enorme capacidade de acumular e dar algum sentido a volumes gigantescos de dados relativos às necessidades e interesses de cada uma das pessoas na sociedade. Ou seja, se conseguíssemos encontrar uma forma em que esta capacidade de extracção da IA servisse claramente para identificar as necessidades populares e atendê-las através de um diagnóstico preciso em termos quantitativos, geográficos, etc., com o objectivo de gerar correlações e projecções sobre formas de satisfazer tais necessidades, parece-me que, nesse sentido, essa tecnologia poderia ser útil para a construção de uma sociedade comunista, de uma sociedade fundada na igualdade.

Uma megamáquina socialista? Queremos voltar ao termo “megamáquina educativa”: qual seria um programa de acção para o novo ludismo? Para a educação, o que estamos a fazer não é apenas uma integração genética, dessa personalidade em particular, num mecanismo que descreveste de forma brilhante, mas também na reprodução mais ampla do humano, em termos de linguagem, pensamento, sociabilidade, trabalho, coisas diferentes e centrais para a humanização do humano, porque somos uma espécie distinta das outras, que não nascemos prontos como, por exemplo, um antílope, uma abelha, uma árvore. Então, tudo isso não é apenas uma excursão de curto ciclo, mas de longa duração e não apenas do indivíduo, mas do género humano, e essa excursão é mais difícil porque vivemos sob a hegemonia capitalista, que nega a longa duração e a existência do género humano. Nem sequer existe sociedade, como dizia Margaret Thatcher. 

Uma espécie de IA revolucionária. Ora, o problema é que, por definição, este tipo de tecnologia que temos — lembremos o que Langdon Winner defende — requer um determinado desenho social, que é o desenho social do capital. O que acabo de referir está, de certa forma, presente na órbita do chamado aceleracionismo de esquerda, que, em algumas versões, parece-me que acaba por reproduzir uma visão um tanto fetichizada da tecnologia. 

No livro, menciono algumas ideias específicas, a título de proposta, que tenho discutido em diferentes espaços, relativamente à possibilidade de construir uma prática ludita na educação:

  • Não aceitar novos acordos com empresas de tecnologia que impliquem aumentar a dependência estrutural das nossas escolas e centros de investigação dos gigantes tecnológicos, com especial ênfase nas empresas que participaram activamente no genocídio contra o povo palestiniano e na repressão e perseguição das comunidades migrantes nos Estados Unidos. 
  • Impedir colectivamente a construção de novos centros de dados, principalmente de empresas da Big Tech, considerando publicamente o custo ecológico e para o bem-estar humano que isso representa.
  • Defender as culturas indígenas contra a expropriação do seu conhecimento, mascarada de inclusão por parte de empresas produtoras, sobretudo de IA generativa.
  • Criar estruturas para um avanço estratégico em diversos âmbitos estatais, com o objectivo de delinear e, eventualmente, construir uma política digital soberana de infra-estruturas e gestão de dados própria.
  • Impulsionar o desenvolvimento de plataformas educativas públicas, ou seja, que sejam financiadas e administradas pelo sector público, e não com empresas por trás que designam como público o que é essencialmente um serviço privado, por exemplo, a chamada “nuvem pública” da Microsoft. Impulsionar, assim, uma infra-estrutura que permita desenvolver actividades formativas e de acompanhamento pedagógico reguladas pelo Estado e com controlo democrático, na qual participe uma diversidade de actores educativos, com centralidade e o corpo docente organizado, ou seja, os sindicatos.
  • Fortalecimento das capacidades tecnológicas das universidades públicas através de um aumento do seu financiamento à investigação e desenvolvimento tecnológico.
  • Políticas fiscais claras e progressivas em relação às empresas tecnológicas, bem como normas rigorosas sobre a utilização de dados por parte das empresas digitais.
  • Outra questão é que, na medida do possível e com vista a um projecto de desconexão no futuro, apostemos num afastamento gradual do eco-sistema tecnológico na educação, particularmente no que diz respeito a pacotes de software de escritório, como o Word, motores de busca na Internet, serviços de correio electrónico e programas de IA generativa.

Como podem ver, estas propostas são, na verdade, alguns pontos de partida, que devem ser trabalhados a partir das comunidades educativas, num exercício de discussão aberta e democrática. Na Pedagogia Ludita, o que proponho, na verdade, é a construção de um movimento pedagógico que parta de uma leitura materialista da tecnologia, com vista a construir alternativas viáveis para este contexto tão complicado para a educação pública, o cuidado do planeta e a própria dignidade humana. Ora bem, considero que é necessário traduzir esta discussão em termos didácticos e é aí que encontro um espaço para um aprofundamento necessário. 


LER A PRIMEIRA PARTE DESTA ENTTREVISTA

A IA produz um conhecimento médio medíocre e um bloqueio do conhecimento novo
Entrevista com Mauro Jarquín Ramírez1, 1ª parte Mauro Jarquín, professor da UNAM, México, defende que a IA não é inteligente, produz conhecimento medíocre, bloqueia novos conhecimentos e a criatividade. A cadeia produtiva da IA reconfigura a produção mundial, dos minérios à energia, mas o seu centro é a expropriação maciça
categoria-educação Inteligência Artificial Educação Ludismo Pedagogia edicao-2026-09-24 (42)

A IA produz um conhecimento médio medíocre e um bloqueio do conhecimento novo

Entrevista com Mauro Jarquín Ramírez1, 1ª parte

Mauro Jarquín, professor da UNAM, México, defende que a IA não é inteligente, produz conhecimento medíocre, bloqueia novos conhecimentos e a criatividade. A cadeia produtiva da IA reconfigura a produção mundial, dos minérios à energia, mas o seu centro é a expropriação maciça de conhecimentos. Entrevista de Raquel Varela e Roberto della Santa e tradução de Octávio Lima e Adriano Zilhão.

ilustração: Ricardo Ferreira

Maio: Estamos a viver uma espécie de invasão apocalíptica do digital nas escolas, que já não parecem escolas. O primeiro argumento da maioria das pessoas é o do bom senso – ou seja, da hegemonia política do Estado e das empresas, passada pelos media –, é que “a inteligência artificial é como um automóvel, é como um computador, uma ferramenta como qualquer outra. A questão é democratizá-la, usá-la bem, etc.” O que pensas sobre isto?

Mauro Jarquín: É o discurso tecno-optimista promovido pelas empresas tecnológicas, que gradualmente vem ocupando também um lugar importante entre as comunidades educativas e os governos; mesmo naquelas com tendências ou narrativas progressistas, anti-imperialistas e soberanistas. Isto deve-se ao facto de, pelo menos em princípio, a tecnologia digital parecer ser tão neutra no seu desenvolvimento e aplicação, quanto inevitável na sua adoção.

O conjunto de métodos estatísticos denominado “inteligência artificial” (um nome, IA, que tem favorecido a proliferação de diversos mitos) tem sido cada vez mais discutido em termos de uma tecnologia de uso geral, ou seja, que não se situa apenas no âmbito da produção ou do aumento da produtividade do trabalho, mas cuja utilização se estende a múltiplas esferas da vida social, nas quais a educação se revela estratégica.

Considero que, em termos epistemológicos e estratégicos, não é possível afirmar que a IA é apenas uma ferramenta, porque se analisarmos a utilização de determinadas ferramentas e artefactos à luz da história da educação, como o quadro de ardósia, a calculadora, etc., deparamo-nos com artefactos que, na sua essência, são objeto da acção humana e que respondem imediatamente a essa acção. O quadro recebe a acção humana de escrever; a calculadora recebe a acção humana de um comando para realizar uma operação; o problema com a IA é que se trata de uma tecnologia que não apenas recebe a acção humana, mas que, no seu funcionamento, produz sentido, reformula práticas sociais. E, em última instância, é uma tecnologia que requer um conjunto de pré-requisitos sociais para funcionar.

Recordando um pouco o ensaio clássico de Langdon Winner, “Do Artefacts Have Politics?” (1980) [Os artefactos têm política?], o autor defendia que um artefacto podia ou não ser político em função de dois critérios centrais: em primeiro lugar, se, para o funcionamento desse artefacto (ou tecnologia), é necessária uma ordem social específica e, além disso, se o seu funcionamento produz uma sociabilidade específica. Nesses termos, esse artefacto funciona também como uma construção sócio-técnica. E quando falamos de IA, podemos ver que ambos os critérios se cumprem de forma clara. Assim, um primeiro mito que é preciso questionar é que a IA seja uma “ferramenta” que se encontra, simplesmente, à disposição de quem a utiliza. A IA não é um mero instrumento. É uma articulação sócio-técnica que tem a capacidade de produzir efeitos naqueles que a utilizam, tanto a nível individual como social.

Não é possível afirmar que a IA é apenas uma ferramenta, porque (…) se trata de uma tecnologia que não apenas recebe a acção humana, mas que, no seu funcionamento, produz sentido, reformula práticas sociais.

Há muito quem diga que a IA não é uma ferramenta, é um agente. Concordas?

Concordo com a primeira parte da proposição, mas a segunda parece-me mais problemática. Portanto, considero que a IA, tomando em consideração a sua capacidade produtiva – particularmente a IA generativa, onde se tem concentrado em grande medida o debate académico – não é uma mera ferramenta. Consiste numa articulação sócio-técnica que, operando, produz. Ainda assim, não assimilaria esta capacidade produtiva de forma directa à condição da IA de agente. É verdade que a noção de “agente de IA” se está a ampliar cada vez mais ao uso comum, tanto no meio empresarial como no universitário. E também é verdade que há una rica tradição de discussão acerca da capacidade de agência dos objectos, na obra de Bruno Latour ou Alfred Gell, por exemplo. 

Ora bem, ainda que a discussão teórica seja bastante rica, afigura-se-me que, neste momento, o ponto de interesse é outro: é político. Discutir se a IA é um agente ou não quando o projecto de inteligência artificial geral (IAG) vai prosperando no seio de uma classe tecno-capitalista eugenista e transumanista, e quando a aposta pela antropomorfização da dita tecnologia dialoga também com a possibilidade de um reconhecimento jurídico nesse sentido, faz que tenhamos de considerar todas as consequências políticas potenciais sobre as nossas posições teóricas ou premissas epistemológicas. 

Até que ponto a aceitação generalizada da IA como agente implicaria abrir caminho a uma interpretação mais humanizada dela? Em que medida pode uma apreciação mais humanizada da IA – não apenas em termos estéticos, mas inclusive ontológicos – aproximar-nos da potencial construção de uma legislação que a invista, por exemplo, de direitos? Em que medida nos pode tal discussão afastar da realidade material de que deriva a sua produção, à qual subjazem forças políticas, tendências ideológicas e interesses humanos? 

Mauro, mas todas as ferramentas nos transformam de alguma maneira. Quando inventámos a faca isso transformou a nossa alimentação, linguagem, etc.

Embora se possa, de maneira geral, dizer que os artefactos e formas tecnológicas têm a capacidade de originar mudanças nas pessoas que as utilizam (por exemplo, a diminuição da capacidade da escrever à mão (no caso do teclado do computador, a potenciação da “força”, no caso de um martelo ou roldana, ou mesmo de reconfigurar os espaços de atenção (como a aposição de um quadro numa sala de aula), estas ferramentas/artefactos são objecto e depositário da acção humana com um fim específico, e a sua operação responde-lhe directamente (escrever, martelar, mostrar letras e/ou figuras), acabando por ampliá-la, intensificá-la ou robustecê-la. 

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Algumas diferenças essenciais para o uso acrítico da IA residem em que o uso da tecnologia representa um deslocamento do processo pelo qual se leva a cabo uma acção para um fim; é o utilizador que define, no essencial, o que quer fazer (obter informação, resolver dúvidas, conseguir uma criação gráfica ou textual), mas quem define a maneira de chegar a esse resultado é a IA. Dá-se, então, uma “perda de controle” do processo criativo. Não só isso, porém; encontramo-nos amiúde com um processo de produção subjectiva dos utilizadores da tecnologia a partir da adopção dos resultados conseguidos através dos modelos de IA enquadrados em critérios de verdade devidos ao seu “discernimento técnico” (como sucede quando se dão de barato vieses e/ou imprecisões contidas em respostas textuais ou gráficas relativas a problemáticas sociais). Em termos gerais, há diferença num duplo movimento: delega-se o processo criativo, e toma-se o resultado, alheio ao nosso conhecimento e controle, como ponto de partida para a interpretação do mundo ou para nele tentar incidir.

Embora a produção de artefactos requeira um conjunto de processos sociais articulados, principalmente no contexto da lógica do capital, a produção de IA representa um conjunto de transformações profundas nas forças produtivas a nível global. Estamos, no fundo, a falar de uma revolução tecnológica de uso geral e, concomitantemente, da concretização de um complexo articulado de cadeias globais de valor cujo fim é a produção da IA e da sua materialidade, conforme mostram Kate Crawford e Vladan Joler na sua Anatomy of AI system. Isto implica, de igual modo, a reconfiguração de uma nova morfologia global do trabalho, em que convergem diferentes formas de trabalho, como a extracção de minérios (muitas vezes em condições de super-exploração) no Sul Global, o treino de modelos de IA (também em grande medida em condições de super-exploração) ou, no caso da educação, o Trabalho Educativo Digital (TED) desenvolvido nos centros educativos e pelas comunidades educativas, que discuto no livro.

Podes explicar isso com mais pormenor, por exemplo, para os trabalhadores que nos estão a ouvir, os pais que têm filhos na escola? É possível concretizar um pouco esta teoria?

Quando utilizamos um modelo de linguagem e fazemos uma pergunta, o que o modelo de linguagem faz, essencialmente, é expropriar de forma generalizada o conhecimento existente na sociedade, aquilo que Marx, nos seus “Grundrisse”, discutiria em termos de “intelecto geral”. Essa máquina não pode funcionar sem um processo de expropriação, e a expropriação é, na sua essência, um dos fundamentos da reprodução do capitalismo. É importante referir que falamos de uma expropriação que não se desenvolve apenas em relação ao conhecimento protegido por direitos de autor e publicado por editoras, mas também aos saberes quotidianos das pessoas, expressos em blogues, fóruns, etc. Por exemplo, a empresa tecnológica Anthropic anunciou uma parceria com a Teach for All com o objetivo de promover o uso da IA na educação, garantindo ela que o que se procura é que a posição do corpo docente não seja “de consumidor passivo de ferramentas de IA, mas de co-arquitecto que molda a forma como a IA se desenvolve”, desenvolvendo conteúdos e propostas didácticas locais, integradas no ecossistema da empresa. Produtos do intelecto docente que serão expropriados pelo que denomino a megamáquina educativa do capitalismo digital, através do exercício expropriador da IA.

Quando utilizamos um modelo de linguagem e fazemos uma pergunta, o que o modelo de linguagem faz, essencialmente, é expropriar de forma generalizada o conhecimento existente na sociedade.

Ou seja, professores (e alunos) trabalham, fornecem dados e testes, projectos didácticos às empresas.

Outra dimensão desta discussão, muito mais debatida em termos públicos, é que, quando fazemos uma consulta, quando solicitamos um resultado a um modelo de linguagem ou que produz imagens, o resultado que nos é dado é uma projecção do conhecimento social apropriado, muitas vezes com certos enviesamentos. É neste ponto que reside a discussão sobre a possibilidade de criar novas ideias quando centramos excessivamente o nosso trabalho intelectual nos modelos de linguagem, o que pode conduzir a um círculo vicioso que não promove a ruptura de determinadas ideias nem a constituição de novos conceitos que respondam à nossa realidade em constante mudança.

Um conhecimento médio medíocre que se propaga como o aceitável e um bloqueio ao conhecimento novo… O exacto contrário do que uma escola e uma universidade devem ser…

Sim. Outro ponto a discutir nesta matéria é que, no âmbito estritamente educativo, a IA parece tornar-se um novo local de verdade quando nos referimos à vida quotidiana dos centros educativos. Alguém poderia dizer que isso tem uma função progressista, ao questionar o lugar histórico do corpo docente como sujeito que enuncia a verdade na sala de aula, podendo dar azo a um processo de maior discussão aberta nas salas de aula. No entanto, isto não acontece frequentemente, porque essa deslocação do “lugar da verdade” não é necessariamente acompanhada pela generalização de uma discussão profunda, mas parece ser uma transferência de autoridade, agora para uma instância incontestável, neutra e superior. Isto tem consequências políticas também num sentido mais amplo.

Há algumas semanas, foi anunciado que, em El Salvador, os alunos do ensino básico teriam, cada um, um tutor de IA, que seria o modelo de linguagem utilizado pela “rede social” X, de Elon Musk: o Grok. 

Ora, por que razão escolheu o governo salvadorenho esse modelo de linguagem? Recorde-se que a posição política do presidente de El Salvador, Nayib Nukele, se insere na esfera de influência da Conferência de Acção Política Conservadora (CPAC), que representa uma espécie de extensão da política imperialista norte-americana e, além disso, um foco central da reacção global. O que o governo salvadorenho afirma é que este modelo de linguagem não é um modelo “woke”, é um modelo que busca a verdade. Ou seja, trata-se de um modelo que, nos seus resultados, na sua concepção e, pelo menos em grande parte, na informação que poderá fornecer às consultas das escolas em El Salvador, não irá conter aquilo a que a extrema-direita global chama agora de “wokismo”; isto é, conteúdo que possa ser considerado favorável a temas como a igualdade social, o respeito pelos direitos das mulheres, o respeito pela diversidade sexual, etc.

A questão para os educadores, parece-me, passa também pela palavra-chave “linguagem”. Porque expropriar a linguagem é expropriar aquilo que nos torna especificamente humanos e converter — converter mal, de forma pobre e completamente plana — aquilo que é um património público a que Marx chamou “intelecto geral”, em algo que pode ser traduzido em zeros e uns, com uma recombinação algorítmica que é probabilística. Ou seja, a máquina não sabe nada, não pode saber nada, e o seu tratamento é... vamos ver, queijo azul ou amarelo? E depois, no contexto, chega a uma resposta.

O exercício de expropriação da linguagem e sua consequente produção manipulada e sem alma pela IA generativa dominante colocam-nos num cenário onde o conhecimento colectivo também faz parte da subsunção tecnológica desenvolvida pela tecnologia do capital. Raymond Williams costumava dizer que a linguagem era uma forma de indicar a realidade. E, neste sentido, é também uma estrutura a partir da qual moldamos os nossos quadros interpretativos do imediato, problematizamos o mundo e concebemos formas de nele intervir. Para além do debate clássico sobre se a linguagem é ou não uma superestrutura, no qual até Estaline se aventurou, a verdade é que esta apropriação subtil e — aparentemente — voluntária da linguagem colectiva por artefactos e tecnologias privadas representa, como afirmas, uma subsunção desse “intelecto geral”. Ora, quando consideramos este cenário em termos educativos, deparamo-nos com que a adoção acrítica da IA generativa aumenta consideravelmente a probabilidade de as mediações que ocorrem nas salas de aula e viabilizam os processos de ensino e aprendizagem serem determinadas, ou pelo menos moduladas, por agentes externos através das suas tecnologias digitais, como os modelos de linguagem. Assim, os significados, a construção discursiva, em suma, as formas de indicar a realidade que se pretende sejam conhecidas colectivamente a partir das instituições educativas, estão imbuídos de conteúdos ideológicos específicos sob a forma de enviesamentos. Isto não é difícil de verificar. Façamos perguntas a diferentes modelos linguísticos sobre a guerra entre a Rússia e a Ucrânia (que se estende à NATO) ou entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, e veremos como representam o que se passa no mundo e em que medida o resultado desta manipulação linguística projecta formas ideológicas específicas.

(continua)


  1. Mauro Jarquín Ramírez é professor da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), coautor de No pasarán. Por qué la extrema derecha quiere controlar la educación pública y qué hacer para defenderla (2025) [Não Passarão. Por que quer a extrema-direita controlar a educação pública e o que fazer para defendê-la]. É também autor de Pedagogía ludita. Contra la megamáquina educativa del capitalismo digital (CLACSO, 2026).

LER A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA

A IA produz um conhecimento médio medíocre e um bloqueio do conhecimento novo
Entrevista com Mauro Jarquín Ramírez1, 2ª parte Mauro Jarquín, professor da UNAM, México, defende que a IA não é inteligente, produz conhecimento medíocre, bloqueia novos conhecimentos e a criatividade. A cadeia produtiva da IA reconfigura a produção mundial, dos minérios à energia, mas o seu centro é a expropriação maciça
categoria-economia Produtividade Inteligência Artificial edicao-2026-09-17 (41)

IA e produtividade

O crescimento da produtividade desde 2022 deve-se mais a um uso mais intensivo de tecnologia existente após o fim da pandemia do que à introdução de IA. A adopção de IA tem aumentado, sim, mas ainda está muito longe do pico. A Goldman Sachs estima que possa demorar quinze anos a lá chegar; a OCDE aponta para vinte. Conseguirão as actuais empresas de IA sobreviver tanto tempo? Poderão as bolsas esperar tanto tempo sem a bolha rebentar antes?

ilustração: Ricardo Ferreira

A Alphabet (Google) anunciou em 22 de julho os seus resultados financeiros. À primeira vista, foram espectaculares: a facturação registou um aumento de 24%, crescendo a receita do negócio da “nuvem” 82%. O lucro por acção foi de 9,11 dólares, um valor muito elevado. No entanto, a base de mais de dois terços destes lucros foi a contabilização de 77 mil milhões de dólares de ganhos “não realizados” decorrentes da aquisição de acções da Anthropic, uma importante empresa de modelos de IA. Por outras palavras, os “ganhos” são apenas “no papel”: dependem de as acções da Anthropic continuarem em alta.

A Google é uma das chamadas empresas de hiper-escala, as mega-companhias tecnológicas que têm investido verbas imensas na IA na esperança e expectativa de que esse investimento gere fortes aumentos dos lucros no futuro.

O investimento da Google em IA injectou tanto dinheiro em empresas de IA como a Anthropic e a OpenAI e em centros de dados capazes de operar IA com dispendiosos “circuitos electrónicos” fabricados pela Nvidia, que as suas enormes receitas líquidas deixaram de cobrir o custo do investimento. Os “fluxos de caixa livres”, o nome usado na gíria, passaram a ser negativos pela primeira vez na história da Alphabet.

Este ano, a Google tem estado, tal como os seus rivais Meta, Microsoft e Amazon, a aumentar maciçamente o investimento em IA, construindo a respectiva infra-estrutura. As quatro “hiperscalers” estão, em conjunto, a caminho de gastar mais de 725 mil milhões de dólares em 2026. Até à divulgação dos resultados desta quarta-feira, a Google era vista como a hiperscaler em melhor posição para aguentar a “corrida ao armamento” em IA, conseguindo amortecer a pressão financeira graças aos fluxos de caixa provenientes do seu vasto negócio de busca. Porém, o ritmo a que está a queimar dinheiro para financiar o investimento em IA passa a impor-lhe recorrer ao endividamento e/ou à emissão de acções. A Alphabet já contraiu quase 100 mil milhões de dólares de dívida. Em Junho, avançou para a sua primeira venda de acções em mais de duas décadas, na mira de angariar cerca de 85 mil milhões de dólares adicionais.

Tudo isto nos indica que a “bolha” bolsista — é mesmo o que é — associada à IA está cada vez mais perto de rebentar. As empresas de hiper-escala são extremamente lucrativas em função dos seus actuais negócios, com lucros que estão cerca de 59 por cento acima da tendência. Mas os explosivos volumes de investimento em IA efectuados por estes hiper-escaladores são de tal ordem, que até esses lucros são sugados pela IA como água a evaporar-se no deserto do Saara.

Tudo isto nos indica que a “bolha” bolsista associada à IA está cada vez mais perto de rebentar.

Conforme se sustentou em publicações anteriores, a economia dos EUA é uma aposta de tudo ou nada na IA. O valor em bolsa dos hiper-escaladores representa agora cerca de 40% da capitalização bolsista total do índice S&P 500. Ao mínimo sinal de que, primeiro, eles não consigam sustentar o actual ritmo de crescimento de investimento; e, segundo, estejam a consumir os lucros sem obter retorno dos investimentos em IA, o valor das suas acções poderá cair a pique e arrastar consigo todo o mercado bolsista.

A economia capitalista dos EUA está suspensa em equilíbrio instável num vértice de IA. Tudo há-de correr bem se os modelos de IA passarem, primeiro, a ter muita procura e começarem a ser usados pelas empresas americanas e globais, assim insuflando rentabilidade nos hiper-escaladores e, subsequentemente, no resto do sector empresarial; e se, em segundo lugar, a difusão geral do uso de tecnologias de IA em todos os sectores da economia tiver também como corolário a aceleração dos níveis de produtividade, guindando porventura a economia dos EUA a uma nova era de prosperidade.

Antes do advento da bolha da IA, as tecnologias da informação americanas já eram o motor de um crescimento económico relativamente mais rápido nos EUA do que no resto das economias do G7, durante a Longa Depressão da década de 2010.

Contudo, na década de 2010, todas as economias do G7, incluindo os EUA, sofreram uma desaceleração do crescimento do PIB real, do investimento e da produtividade. Depois, passada a recessão da pandemia, a maioria das economias voltou a sofrer de inflação e a ver-se na iminência de um novo período de “estagflação” (crescimento lento ou nulo a par de inflação alta e acelerada), como não se via desde a década de 1970. Agora, a guerra no Irão volta a acelerar a inflação dos preços da energia. Apesar de taxas de juro baixas ou nulas e de injecções monetárias (quantitative easing), a política monetária dos bancos centrais não conseguiu, na década de 2010, reanimar as economias. E, desde 2020, a política monetária dos bancos centrais não está a conseguir impedir o aumento da inflação, mesmo recorrendo a taxas de juro mais elevadas (o BCE) e apertando a criação de moeda (o Banco de Inglaterra). A razão é esta: as economias só podem crescer sem a inflação aumentar se aumentar a produtividade do trabalho.

O novo presidente da Reserva Federal nomeado por Trump espera que a IA provoque um grande salto de produtividade. Afirma Kevin Warsh que “a IA talvez seja a mudança mais significativa na nossa economia desde que sou adulto. A IA vai ser uma força de desinflação considerável, aumentando a produtividade e reforçando a competitividade americana.” Mais considera ele que as melhorias de produtividade derivadas da IA impulsionariam “aumentos significativos dos salários disponíveis, em termos reais. Um aumento de um ponto percentual da taxa de crescimento anual da produtividade duplicaria os níveis de vida no espaço de uma única geração.” Tem razão. Mesmo um aumento de apenas 1 ponto percentual do actual crescimento da produtividade dos EUA ao longo de 20 anos não só comprimiria a inflação, como proporcionaria receitas capazes de pôr termo aos défices dos orçamentos públicos, sem necessidade de aumentar impostos nem fazer cortes de despesas. Os rácios da dívida pública sobre o PIB diminuiriam.

Mas trará a IA tal pulo da produtividade? De 2005 a 2019, o crescimento da produtividade nos EUA situou-se, em média, em cerca de 1,5% ao ano. O ritmo manteve-se igualmente lento durante e imediatamente após a pandemia (2020-2022). Ora, a produtividade do trabalho está em aceleração desde 2022. A produção por hora cresceu cerca de 2,5% ao ano do final de 2022 até ao início de 2026, excedendo em 1 ponto percentual o ritmo pré-pandémico.

Está então a IA a cumprir as expectativas? A maior parte da aceleração no crescimento da produtividade do trabalho advém da aceleração do crescimento daquilo a que a economia convencional chama produtividade total dos factores (PTF). A PTF não é algo real, que se possa medir; é simplesmente um resíduo matemático, depois de analisados os vectores do crescimento da produtividade. Mais trabalhadores a trabalhar mais, somados a mais máquinas a funcionar durante mais tempo: é isso que extrai mais produtividade do trabalho. A PTF é um resíduo, que se presume reflicta o impacto da “inovação” (por exemplo, da IA).

Mas o aumento da PTF nos EUA ainda não é fruto da aplicação de IA à economia. Segundo economistas do Barclays, a adopção de IA tem sido gradual e constante, não rápida e transformadora, continuando a maioria das famílias e empresas a declarar uma exposição limitada à tecnologia. O aumento do crescimento da produtividade desde 2022 deve-se mais a um uso mais intensivo de tecnologia existente após o fim da pandemia do que à introdução de IA.

Como o sabemos? Bem, os economistas do Barclays examinaram o Inquérito à População em Tempo Real (RPS) feito a nível nacional pela Fed de St. Louis junto de adultos norte-americanos em idade activa. O inquérito mais recente mostra que, embora a IA tenha entrado nas rotinas de trabalho de 45% dos inquiridos, o tempo de utilização da IA é minúsculo. Admitindo um dia de trabalho de oito horas, o inquérito mostra que o utilizador médio de IA passou de cerca de 20 minutos de utilização no final de 2024 para cerca de 30 minutos em meados de 2026. E o que não se sabe é se os trabalhadores estão a usar esses 2% do seu tempo de trabalho diário para serem mais produtivos em geral ou para verificar e corrigir o que quer que a IA produza… ou para relaxar!

A maioria dos inquéritos sobre a adopção da IA pelas empresas mostra, de facto, modesto progresso. O inquérito quinzenal “Business Trends and Outlook Survey”, da Repartição do Censo (US Census Bureau) dá apenas 21% das empresas a usar conscientemente IA, 69% declararam não a utilizar, e 11% não tinham a certeza! Um documento para discussão do Conselho de Governadores da Reserva Federal concluiu que “as tendências da produtividade aos três níveis têm-se mantido relativamente estáveis ao longo do tempo, sugerindo microganhos de produtividade sem resultado agregado”. Aparentemente, as experiências ao “nível micro” medem mais a produtividade ao nível da tarefa, por exemplo, a velocidade a que um programador produz código, do que a produção do posto de trabalho ou da empresa. Uma melhoria de 10% numa tarefa não implica necessariamente ganhos proporcionais para a empresa, se os custos de ajustamento ou outros estrangulamentos presentes noutros pontos do processo de produção comerem tais ganhos de produtividade ocorridos a montante.

A Reserva Federal dos EUA fez uma série de complicadas análises de regressão aos dados do inquérito RPS, concluindo não haver sinais de a IA estar a ter qualquer efeito positivo: as correlações entre as taxas de adopção ao nível sectorial e melhorias de produtividade são “estatisticamente indistinguíveis de zero”. Melhorias que se observem “tendem a ser mais reflexo da persistência de diferenças inter-sectoriais do que de uma aceleração determinável do crescimento da produtividade atribuível à IA”.

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No entanto, os optimistas da IA continuam a ser isso mesmo — optimistas. Apontam a “curva em J” que o impacto de novas tecnologias na produtividade geralmente descreve. Começa por haver um efeito lento, ou mesmo negativo, na produtividade enquanto as empresas investem muito na tecnologia. Depois é que há a explosão. Observou-se esse tipo de curva em J no crescimento da produtividade da indústria transformadora dos EUA, que caiu em meados da década de 1980, acelerando bruscamente depois da recessão de 1991 e até meados da década de 2000.

Só que mesmo essa visão optimista tem as suas condicionantes. Para começar, parece que os trabalhadores expostos à IA estão a resistir a usá-la. Um inquérito realizado em Abril pelas empresas de IA Writer e Workplace Intelligence — ambas com interesse comercial na adopção da IA — a 2400 trabalhadores do sector do conhecimento indicou que 29% dos empregados admitiram sabotar activamente a estratégia de IA da sua empresa. Entre os trabalhadores da Geração Z (com menos de 25 anos), esse valor chegou a 44%, contra 41% no ano anterior. Um inquérito separado da WalkMe a executivos e empregados de 14 países, realizado no mesmo mês, indicou que mais de 54% dos trabalhadores tinham, nos últimos 30 dias, evitado as ferramentas de IA da empresa e realizado o trabalho manualmente. Os responsáveis pelo inquérito concluíram que o que está por trás desta resistência activa e passiva, e mesmo passiva-agressiva, é um “medo de obsolescência”. Da mesma forma, The Economist relatou como, após um pico inicial, a utilização da IA pelos trabalhadores norte-americanos diminuiu, ao esmorecer o entusiasmo inicial.

No início do século XIX, no alvorecer da revolução industrial na Grã-Bretanha, um grupo de tecelões qualificados tentou por vários meios resistir à introdução da tecelagem mecânica, inclusive sabotando e destruindo máquinas. Chamaram-lhes luditas. Ao que parece, uma nova forma de ludismo está a reaparecer com a IA. Tal como os luditas tinham boas razões para querer proteger a fonte da sua subsistência, também os trabalhadores da Geração Z as têm agora.

Os optimistas da IA Erik Brynjolfsson, de Stanford, e ADP Research estão a rastrear 4,6 milhões de trabalhadores de mais de 730 profissões no seu Canaries Dashboard. Observam uma contracção de mais de 4% ao ano dos postos de trabalho para trabalhadores com idades entre 22 e 25 anos em profissões expostas à IA. Uma análise da Goldman Sachs indica que os sectores mais bem colocados para extraírem ganhos de produtividade cedo são os da informação, serviços profissionais, seguros e sector financeiro — ora, é exactamente nestes sectores que os inquéritos à “sabotagem” encontram taxas de resistência mais altas.

A economista americana da Goldman Sachs Elsie Peng é adepta da tese da curva em J para o caso da IA. O seu estudo sobre a adopção de tecnologia pela indústria observa um puxão ligeiro nos primeiros quatro anos, mas ganhos estatisticamente significativos só após oito, e um impacto máximo de cerca de 0,6 pontos percentuais ao 12.º ano. Admitindo o lançamento do ChatGPT em 2022 como o equivalente da estreia do computador pessoal em 1981, a curva em J apontará para que o “grande prémio” da produtividade só apareça, na melhor das hipóteses, por volta de 2030, atingindo o auge por volta de 2034. Pela análise de Peng, só quando uns 50% das empresas adoptaram tecnologias de informação e comunicação (TIC) terão aparecido aumentos significativos da produtividade do trabalho fruto dessa tecnologia. Não quando a compraram, nem quando fizeram pilotos com ela. Quando a adoptarem no seu funcionamento básico.

A “curva em J” de Peng faz eco do argumentado pelos economistas da OCDE há já algum tempo: que as tecnologias transformadoras, depois de desabrocharem, demoram, historicamente, cerca de 20 anos a surtirem ganhos significativos de produtividade ao nível macroeconómico. A manter-se tal padrão no caso da IA generativa, ela não vai render a sério antes do início ou meados da década de 2030, ou mesmo mais tarde. Há, assim, um longo caminho a percorrer até que a generalização da IA seja capaz de trazer um aumento significativo da taxa de crescimento da produtividade do trabalho.

O pulo do crescimento da produtividade em que deposita todas as suas esperanças o presidente da Reserva Federal, Warsh, ainda parece vir longe. Então e os lucros? Para já, toda a facturação que as empresas de modelos de IA estejam a gerar fica muito, muito aquém dos custos de investigação e desenvolvimento da IA e de construção de centros de dados pelo território dos EUA fora. Mais: a Goldman Sachs estima que cada dólar de investimento em equipamento de TIC requer, pelo menos, mais 1,70 dólares de investimentos complementares “intangíveis” — em software, sistemas de dados e na categoria mais difícil de medir: reorganização. A procura do uso de centros de dados é actualmente 15 vezes inferior à capacidade destes.

E a dívida vai-se acumulando. A Bloomberg estima em mais de 500 mil milhões de dólares a dívida vincenda relacionada com centros de dados de IA. A Nikkei Asia noticiou esta semana que Meta, Google, Amazon, Microsoft e Oracle acumularam, nos últimos cinco anos, cerca de 1,65 biliões (triliões americanos) de dólares em dívida vincenda, a que acrescem mais umas centenas de milhares de milhões de dólares em dívida “fora do balanço”, portanto dívida que a estrutura do grupo empresarial permite à empresa não contabilizar no passivo.

Receitas que empresas do género da OpenAI e da Anthropic estejam a colher provêm apenas dos investimentos que as empresas de hiper-escala fazem no seu negócio. A utilização do ChatGPT ou do Claude não está a dar lucro nenhum. Parte da razão é que as empresas de IA não têm cobrado aos utilizadores o verdadeiro custo das unidades de computação usadas (tokens). As empresas de IA estão, por isso, a tentar fazer passar os consumidores de tarifas fixas para preços por uso. Só que o resultado tem sido um aumento exponencial do custo que as empresas utilizadoras têm de pagar para usar IA, de maneira que, vendo as facturas de IA a inchar, elas estão a largar a política de maximização das unidades de computação (token maxxing) e a passar a uma política de racionamento das mesmas. Acresce que as empresas norte-americanas estão a passar a usar modelos de IA de “código aberto”, provenientes da China, que quase conseguem igualar o desempenho dos modelos norte-americanos, mas a uma fracção do custo.

Primeiro, foi o DeepSeek a cair como uma bomba no sector, no início de 2025. Agora há o modelo mais recente da IA chinesa, o Kimi K3, recém-lançado pela startup Moonshot AI, sediada em Pequim. Os modelos chineses são 112 vezes mais baratos do que os da Anthropic por milhão de unidades de computação (ou seja, pelo preço do “barril de inteligência”). Um token custa 56 dólares na Anthropic, 26 dólares na OpenAI, 1,50 dólares na Meta, 1 dólar na xAI e no Google, e 0,50 dólares nos modelos chineses. Não admira, assim, que a proporção de unidades de computação usadas por empresas norte-americanas que recorrem a modelos de IA chineses tenha chegado ao valor recorde de 58%. As empresas norte-americanas passaram a usar mais os modelos de IA chineses do que os desenhados nos EUA.

Os optimistas não desistem, porém. Alguns remetem para o chamado paradoxo de Jevons, segundo o qual os incrementos de eficiência (devidos à IA) farão aumentar a procura, do mesmo passo que vai caindo o custo unitário do gasto com IA. Daí resultará a tal rentabilidade de que as empresas de IA andam à procura e que as bolsas esperam. Contudo, nas apresentações de resultados do primeiro trimestre de 2026, apenas 2% das empresas do índice S&P 500 mencionaram produtividade relacionada com a IA. Entre as que o fizeram, a tónica esteve quase sempre na redução de custos, não no aumento da facturação. Muitas são, pois, as dúvidas quanto às expectativas de transformação de investimentos da ordem das centenas de milhares de milhões em lucros — em facturação, nem se fala.

A aposta na IA assenta em duas grandes hipóteses. A primeira é a IA — acabar por — ser lucrativa. Só que não é por uma tecnologia surtir um grande aumento da produtividade que ela dá forçosamente um retorno robusto. A segunda hipótese é haver, e haver rapidamente, procura generalizada de IA. A adopção de IA tem aumentado, sim, mas ainda está muito longe do pico. Como acima se indicou, a Goldman Sachs estima que possa demorar quinze anos a lá chegar; a OCDE aponta para vinte. Conseguirão as actuais empresas de IA sobreviver tanto tempo? Poderão as bolsas esperar tanto tempo sem a bolha rebentar antes?


Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Inteligência Artificial Escola Universidade

O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista

As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.

COLUNA VERTEBRAL

Não é preciso recordar uma das grandes teses de Hanna Arendt expostas nesse livro fundamental, A Condição Humana, em cujas páginas perpassa, luminosa e profética, a ideia de que o progresso humano, assente na tecnologia, é um logro. Entre as duas vias – a da contemplação e a da actividade –, Arendt não tem dúvidas: o homem tem jogado o seu destino no conflito entre Marta e Maria, essas duas vias onde o espírito ou se dissolve, ou renasce. A única hipótese de salvação, diz Arendt, na senda de seu mestre Heidegger, é o regresso à “língua de tradição”, essa mesma que se opõe à “língua técnica”. Para simplificar, direi: ou a formatação em curso – desde a formação dos professores às práticas docentes tidas por inovadoras e muito sedutoras – vencerá a classe docente, ou os professores, de forma consciente e corajosa, compreendem que no campo da educação, tão importante quanto a dignificação salarial, é a visão contemplativa, isto é, a via do intelecto. Não há, na verdade, educação democrática se tudo obedece aos mesmos modelos e concepções de ensino e aprendizagem. Não há sequer democracia que resista se é nas escolas e nas universidades que as crianças, os adolescentes e os jovens adultos apenas aprendem a fazer operações meramente instrumentais, visando o resultado, a nota, mas não o saber. Tudo isto é ainda mais relevante quando, por um lado, crescem no mundo forças de ideologia nazi-fascista, ou de natureza totalitária, as quais, com o imenso poder financeiro e económico dos grandes mamutes digitais, pretendem explorar o mercado de trabalho e, fundamentalmente, mecanizá-lo e desumanizá-lo; mais grave porque, por outro lado, a educação está a servir de laboratório para essa política vampiresca em que as relações humanas se irão diluir, substituídas pelas máquinas dos algoritmos da eficácia. 

No caso de Portugal, país onde as diversas iliteracias atingem números elevadíssimos, onde a leitura de textos complexos é deficiente e cerca de sete em cada dez portugueses não entende senão mensagens simples, com apenas um ou dois verbos, onde os exames nacionais, depois de duas décadas de facilitismo nefando, caminham agora para a digitalização das avaliações, tudo isto tem proporções de hecatombe cultural. Claro que este governo e mesmo outros anteriores, tudo vendo sob a óptica do mais pobre progressismo, não pensou, não discutiu, não se aconselhou com os professores e com os que estudam o impacto negativo da IA no campo da educação. Não bastam os livros e os artigos, os ensaios e as provas reais de que a IA é inimiga do pensamento e da sensibilidade para que o ministro da Educação recue. Nem mesmo as advertências do papa Leão XIV na sua recente encíclica servem de aviso. Os políticos que o povo elegeu deturpam o poder e as políticas ao serviço desses eleitores. Depois de eleitos, a agenda que vence é a dos interesses privados e, no caso vertente, a agenda dos grandes grupos empresariais do digital que vêem na IA a arma que lhes faltava para dominarem o mercado do trabalho e, na origem, a educação. 

A educação está a servir de laboratório para essa política vampiresca em que as relações humanas se irão diluir, substituídas pelas máquinas dos algoritmos da eficácia.

Eis a razão, ou as razões, pelas quais em Portugal está praticamente tudo errado no que respeita às políticas educativas. Errada a ideia do “aprender a aprender”, que mais não foi do que mascarar de autonomia a aquisição de saberes, a qual não existe nem se consolida se o professor nada conta nesse processo. Errada a ideia de “rigor e excelência”, se desde a formação de professores nas universidades, passando pelas passagens de escalão em função de acções de formação – o mais das vezes absolutamente inúteis e secantes para os que são obrigados a fazê-las para passarem de escalão –, tudo se avalia não a partir do rigor (não pode haver onde nem sequer há, nas formações, bibliografia de referência e matérias verdadeiramente úteis e urgentes para o ensino das mais diversas disciplinas), nem, muito menos, a partir da excelência. Neste particular, o da “excelência”, é deplorável que ela passe por questões subjectivas: as classificações de “Excelente” dadas pelas escolas estão reservadas a um numerus clausus. Se o avaliado não for simpático para quem o avalia, pode nem mesmo ter uma classificação de “Muito Bom”, pois que neste reino da estupidez educativa, o “rigor e a excelência” – que nasceu quando do império de Maria de Lourdes Rodrigues – mais não são do que o princípio da arbitrariedade total. Que tem tudo isto que ver com a IA? Tudo. Façamos problema, como disse o Padre António Vieira. 

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Se antes da IA na educação a fraude no ensino-aprendizagem sempre existiu, com a IA, num país que não lê – muitos professores e a maioria dos estudantes -, que se espera que aconteça? O ChatGPT faz os trabalhos pelos alunos. Mas também fará o trabalho que compete aos professores. Como quem decide progressões e avaliações tem mentalidade gestora (sofre de uma doença incurável: o ódio ao livro, à memória, ao intelecto, ao saber rigoroso porque nascido de leituras), esse director ou directora irão privilegiar sempre os docentes adeptos do “progresso” e da “inovação”. A escola portuguesa, com as gerações de professores mais recentes já formatadas na ideologia oca do digital, transformar-se-á em sistema de certificação online de diplomas. O mesmo na universidade. Vence o técnico, o formador, não o professor que, com livros e sedutor e culto nas suas aulas, se entrega à arte de Comenius: fazer pensar e fazer sentir. E fazer isso com base num “saber de leituras feito”. Esse professor é detestado pelos colegas de profissão que nele vêem a extensão do que desconhecem. Num país que teve quase trezentos anos de Inquisição, sonha-se com um auto-de-fé onde o intelectual arda e arda bem!

Que tem tudo isto que ver com a IA, com o fim da democracia e da escola que quereremos que seja democrática e lugar de saber? Tudo. As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade. Falsificação de resultados, trabalhos feitos por plataformas digitais, professores transformados em formadores de centrais digitais onde crianças, adolescentes e jovens adultos aprendem a teclar, mas deixam de saber escrever, de saber pensar e de saber sentir, a IA promete-vos o paraíso. Sucede que é o paraíso do admirável mundo nojo: todos iguais, brutalizados, estúpidos e inimigos da liberdade. Eis a escola do futuro. Ah! E o professor que pensa e sente e tem memória e lê e comunica com magia? Esse já estava num verso de Cesário: o seu “velho professor das aulas de Latim”, pedindo esmola na rua. 

categoria-opinião Encíclica Humanidade Inteligência Artificial Papa edicao-2026-06-18 (32)

A Magnifica Humanidade de Leão XIV

A encíclica Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), do Papa Leão XIV, é um texto muito assertivo e rico de conteúdo que obriga a pensar sobre a realidade do mundo atual e os destinos da humanidade. 

Os primeiros capítulos são uma lição aturada sobre a doutrina social da Igreja, sem que deixe de ser retomada nos capítulos seguintes. O Papa sempre recorre a ela para relacionar acontecimentos novos com os ensinamentos antigos, dados pelos seus predecessores. 

Esta é a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas (MH). É um texto sem rodeios e sem pruridos linguísticos, claro e escorreito na exposição das ideias e intenções do Papa.

A encíclica foi dada a 15 de maio de 2026 e publicada a 25 de maio, para assinalar os 135 anos da Rerum Novarum, de Leão XIII. O tema da encíclica centra-se na ideia essencial que salta à vista de todos nós nestes tempos incertos que vivemos, quer pelas mudanças frenéticas da tecnologia (a inteligência artificial a desafiar a natural), quer pelos conflitos destrutivos que assolam o mundo com armas cada vez mais sofisticadas e mortíferas. 

Daí que se levante uma questão crucial: como manter a salvaguarda da dignidade humana e a aliciante aventura da inteligência natural na era da inteligência artificial (IA)?

Ao contrário daquilo que muita gente esperava, não encontramos uma palavra que seja no texto que sequer insinue uma diabolização da IA. Pelo contrário, reforça explicitamente ao que vem, nada de diabolizar a tecnologia e a IA. Diz que não é “um mal em si mesma”, mas alerta que não é neutral: “assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”, com o propósito desinteressado da dignidade humana e do bem comum.

Por um lado, propõe a metáforas bíblica: a torre de Babel, se a IA for usada para reforçar o uso do poder pela força, autossuficiência e o domínio de meia dúzia de poderosos sobre a maioria dos indefesos, que são encarados como meros dados para serem manipulados em função da cegueira do consumo.

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Por outro, apresenta uma segunda parábola, a da reconstrução de Jerusalém. Neemias “diante da cidade destruída, medita, coloca o problema na sua oração a Deus, pede ajuda, parte, organiza o trabalho, enfrenta resistências internas e externas, mas tijolo a tijolo, reconstrói com o seu povo as muralhas de Jerusalém”. 

A IA deve ser posta ao serviço de todos, desafia à responsabilidade partilhada e não a uma maioria de “resignados espectadores”, mas homens e mulheres que “entram nos estaleiros da história”, para ser “protegido o que ruiu e proteger o que está exposto”.

Acho fenomenal que a encíclica tenha sido apresentada, além de na presença de cardeais, mas também na presença impactante de um especialista em IA, Christopher Olah, da empresa de IA Anthropic, que disse o seguinte: “A inteligência artificial deve ser desarmada”, e indo ainda mais longe que o Papa Leão XIV, comparou-a à energia nuclear.

Usou a expressão cara ao Papa Leão XIV e que ele reflete no n.º 110: “desarmar”, que significa: “deve ser desarmada e tornada acolhedora”, ao serviço de todos e do bem comum, da ecologia e da dignidade humana. Não devem as decisões ser tomadas fora da consciência e da responsabilidade humana.

Tudo o que se trata vem a partir do mote que é a beleza do progresso humano, mas que requer sempre atenção aos valores e princípios éticos que o libertem “das lógicas que transformam em instrumentos de domínio, exclusão social ou morte”; é preciso que esteja ao serviço do bem universal.

O Papa alerta para três campos concretos que os avanços digitais ameaçam, que não podem ser descurados, porque são fundamentais para assunção da dignidade e felicidade humanas: a verdade, o trabalho e a liberdade.

Se à Igreja é pedido que não diabolize a IA, muito mais deve ser exigido aos sistemas educativos, que devem olhar a IA como desafio e não como concorrente a ser abatido.

Manter a prioridade da verdade, neste ambiente que nos rodeia cada vez mais manipulado pelos conteúdos automáticos e a desinformação. Valorizar o trabalho, diante de uma cada vez mais acentuada redução da pessoa à eficiência e até à sua completa dispensa das atividades ou a trabalho não remunerado. Nada deve dispensar a liberdade individual. Mas devem ser enfrentados os vícios digitais, combater a recolha de dados de forma desregrada e a submissão a comportamentos invisíveis.

Face a estes alertas, impõe-se um reforço na educação, que deve por isso ser confrontada com o maior desafio da sua história. Todo o sistema educativo deverá reinventar-se totalmente. Se à Igreja é pedido que não diabolize a IA, muito mais deve ser exigido aos sistemas educativos, que devem olhar a IA como desafio e não como concorrente a ser abatido. Porque se assim for, adivinhamos com toda a ser certeza quem vai ser derrotado. 

Perante os conflitos que parecem não deixar a humanidade, alerta para a automatização impessoal perante decisões entre vida e morte, que dilui a responsabilidade humana, por isso, impõe “a cultura do cuidado”, da “justiça e da paz”. Todos empenhados construtores da “civilização do amor”.

A par da educação, Leão XIV, reforça também o papel da família e das comunidades, para que usem as tecnologias de forma crítica, sem dispensar a corresponsabilidade entre quem a propõe e quem lhe sofre as consequências, particularmente, os mais pobres.

O Papa Leão XIV reflete atentamente a partir da história, pede perdão pela responsabilidade da Igreja Católica perante os tempos negros da escravatura, lembrando que a dignidade humana não depende da tecnologia nem do social nem das contingências económicas, mas apenas e só da beleza magnífica de ser humanidade.

Em conclusão, a IA é uma ferramenta fabulosa e vai marcar o passo do futuro da humanidade inteira. Será útil escolhermos sempre “construir o bem” e nunca dispensar o que somos, “pessoas humanas”, caso contrário, não escolhemos a reconstrução dos muros de Jerusalém, mas a confusão destrutiva de outra Babel.

categoria-economia Big tech Bolha especulativa Inteligência Artificial Economia edicao-2026-06-18 (32)

A bolha do investimento em IA

Em dezembro de 1996, o então presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, caracterizou o boom nas ações de tecnologia, meios de comunicação e telecomunicações como mostrando sinais de “exuberância irracional”. Quase 30 anos depois, podemos dizer o mesmo sobre o boom da IA, com os sinos a tocarem a rebate.

ilustração: Ricardo Ferreira

O gigante da banca de investimento Goldman Sachs considera que a IA é apenas “uma grande operação na economia dos EUA”. E a bolha do investimento em IA está a crescer ainda mais. Na última semana, a fabricante de modelos de IA Anthropic anunciou que estava a emitir ações para potenciais investidores no que é chamado, no jargão bolsista, de oferta pública inicial (IPO). A Anthropic estava a acompanhar a IPO da Space X de Elon Musk de uns enormes 1,8 biliões de dólares. Isto valorizaria a SpaceX no mercado em 92 vezes os seus rendimentos anuais!

A Alphabet, empresa-mãe da Google, também planeia angariar 85 mil milhões de dólares em novas ações – o seu primeiro aumento de capital em mais de duas décadas. Juntos, estas três gigantescas IPO poderão conseguir reunir um valor combinado de cerca de 4 biliões de dólares. Isto representa um terço de todo o valor das IPO dos EUA desde 1980 (ajustado à inflação)! E, no entanto, a SpaceX, a OpenAI e a Anthropic são atualmente deficitárias e o potencial comercial dos modelos de IA e, no caso da Space X, as viagens a Marte, permanece desconhecido.

A IA é um grande negócio para os investidores do mercado bolsista dos EUA e uma grande aposta na economia dos EUA. Isto porque a quantidade de investimento de capital feito pelas empresas chamadas “de hiperescala”1 em modelos de IA, centros de dados e outros equipamentos de IA é impressionante. Em percentagem do PIB dos EUA, deverá agora ultrapassar largamente a construção ferroviária do século XIX.

Em dezembro de 1996, o então presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, caracterizou o boom nas ações de tecnologia, meios de comunicação e telecomunicações como mostrando sinais de “exuberância irracional”. Quase 30 anos depois, podemos dizer o mesmo sobre o boom da IA, ​​com os sinos a tocarem a rebate. Este boom de investimento é já muito maior do que o investimento nas dot.com no final da década de 1990. Em 2025, as empresas dos EUA investiram quase 1,5 biliões de dólares em equipamento e software de TI. No auge da bolha das dot.com, era de 466 mil milhões de dólares, ou 829 mil milhões de dólares quando ajustado à inflação. Os gigantes Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle planeiam investir centenas de milhares de milhões nos próximos cinco anos em centros de dados para fornecer o poder computacional necessário para executar estes modelos de IA. Espera-se que os investimentos de capital aumentem 20% ao ano, uma taxa de crescimento nunca vista nesta indústria.

O crescimento do PIB dos EUA é agora impulsionado quase exclusivamente pelo aumento dos gastos em tecnologia. Se este valor começar a diminuir, a economia dos EUA entrará em recessão muito rapidamente – mesmo que os investimentos tecnológicos diminuam apenas um pouco, digamos 4 a 6 por cento, como aconteceu depois de booms tecnológicos muito menores na década de 1960 e durante a recessão de 2009.

Como mostrei no meu último post, os lucros das empresas nos EUA aumentaram significativamente. Mas, de acordo com um post recente de Brian Green, cerca de 80% do aumento dos lucros das empresas não financeiras dos EUA veio da Nvidia e das “sete magníficas”. O mercado bolsista está cada vez mais concentrado num punhado de ações ligadas à IA, que representam atualmente cerca de 40% da capitalização do S&P 500, segundo dados do Bank of America. A rentabilidade global está a ser exagerada por uma pequena fatia da economia que obtém retornos extraordinários na luta para desenvolver a capacidade da IA. O risco é que a economia, o ciclo de lucros e o mercado bolsista “estejam todos apoiados no mesmo estreito pilar. Se os retornos esperados das infraestruturas e plataformas de IA forem postos em causa, as consequências podem não parar numas poucas ações tecnológicas altamente valorizadas”.

O crescimento do PIB dos EUA é agora impulsionado quase exclusivamente pelo aumento dos gastos em tecnologia. Se este valor começar a diminuir, a economia dos EUA entrará em recessão muito rapidamente. 

Como já referi em artigos anteriores, até agora o investimento maciço em IA foi financiado principalmente pelos lucros já obtidos pelos “sete magníficos”. Mas, dada a impossibilidade de encontrar receitas adicionais suficientes para autofinanciar os seus planos de investimento, estes e os seus fornecedores de hardware recorrem cada vez mais a financiamento externo para se financiar.

A primeira jogada é o “financiamento circular”, ou seja, através de investimentos cruzados entre a Microsoft, a OpenAI e outros. Na sua essência, uma megaempresa cheia de dinheiro, como a Microsoft, compra hardware à Nvidia, AMD e outros fornecedores. A Nvidia utiliza então esta receita para comprar uma participação multibilionária na OpenAI. A OpenAI utiliza depois esse dinheiro para obter computação nos centros de dados da Microsoft. A própria Microsoft também investe na OpenAI e celebra uma partilha mútua de receitas, onde algumas das receitas da OpenAI fluem para a Microsoft e vice-versa, à medida que as duas empresas utilizam os produtos uma da outra. Assumindo que a Microsoft gasta 100 mil milhões de dólares para encomendar hardware para centros de dados, a Nvidia, a AMD e outros fornecedores podem declarar esses 100 mil milhões de dólares como receitas. Depois usam esse dinheiro para investir na OpenAI (por exemplo), que de seguida usa esse dinheiro para reservar capacidade em centros de dados com a Microsoft. A Microsoft declara este investimento OpenAI como receita, transformando assim efetivamente as suas despesas de 100 mil milhões de dólares em milhares de milhões de receitas!

Mesmo isto já não é suficiente e, cada vez mais, as empresas de hiperescala começaram a recorrer a empréstimos para angariar dinheiro para investimento. Os gigantes tecnológicos dos EUA estão a emitir dívida em todo o mundo. A Google/Alphabet lidera o ataque.

Assim, primeiro, investiram recursos próprios; depois uns nos outros; pediram depois empréstimos aos bancos e aos chamados fundos de crédito privados; e estão agora a colocar o risco de sucesso ou fracasso nos investidores no mercado de ações. Se todo este investimento não produzir os retornos esperados, afetará fortemente o sector financeiro e a economia em geral.

Mas não se preocupem, dizem as empresas de IA e as de hiperescala, as receitas deverão crescer 15% anualmente. Se partirmos do pressuposto ousado de que não existem custos, então esta receita adicional é o lucro que se espera que estas empresas obtenham com os seus investimentos adicionais em centros de dados de IA. No entanto, mesmo com estes pressupostos extremamente otimistas, o retorno implícito do investimento é altamente negativo para todos, exceto para a Amazon.

Se as empresas de hiperescala precisarem de gerar, digamos, um retorno do investimento de 10%, terão de obter receitas adicionais de 2 a 5 biliões de dólares por ano. Esta é uma tarefa difícil para um grupo de empresas que gera atualmente receitas de apenas 1,5 biliões de dólares por ano. A outra opção é que o investimento planeado em centros de dados, chips de computador e outras áreas nunca se concretize – talvez quando os investidores em capital se tornarem mais cautelosos no sector, ou se o financiamento da dívida para centros de dados se tornar mais difícil de obter. Uma análise da JP Morgan  descobriu que mais de 60% da capacidade de centros de dados prevista para conclusão em 2027 ainda não está em construção e outros 7% estão atrasados. Que acontecerá se estas empresas anunciarem cortes em alguns dos seus planos de investimento?

Será que os heróis da IA, OpenAI e Anthropic, proporcionarão os retornos que as empresas de hiperescala e os seus investidores esperam e desejam? Os CEO das empresas estão otimistas. Nos últimos três anos, desde que a OpenAI lançou o ChatGPT, afirmam que os ganhos cumulativos de produtividade foram na ordem dos 0,3% a 1% ao ano. Para os próximos três anos, estimam que os ganhos de produtividade acelerem para 1,4%, estando os executivos dos EUA e do Reino Unido muito mais otimistas do que os da Alemanha e da Austrália.

Estes ganhos de produtividade, dizem eles, serão conseguidos através da redução do trabalho. Os líderes empresariais esperam que o número de trabalhadores nas suas empresas diminua cerca de 0,7% nos próximos três anos, novamente com os executivos dos EUA e do Reino Unido a esperarem quedas no emprego muito mais pronunciadas do que os executivos da Alemanha e da Austrália. Nos últimos três anos, os mesmos executivos não viram qualquer impacto da IA ​​no emprego. Portanto, tudo isso são expectativas. Além disso, o Inquérito sobre Tendências e Perspetivas Empresariais do Instituto de Estatísticas do Ministério do Comércio dos EUA (Business Trends and Outlook Survey of the US Census Bureau) mostra que as empresas com 50 ou mais trabalhadores não apresentam mais crescimento na utilização da IA ​​desde o segundo trimestre de 2025. As empresas ainda não têm a certeza de como utilizar a IA de forma eficaz e estão cada vez mais preocupadas com as desvantagens da IA ​​quando a utilizam.

Estas desvantagens incluem “alucinações” (i.e., ficções criadas pelo modelo de IA), que são inerentes aos LLMs2. Um estudo descobriu que, para um conjunto de treino de 32.000 palavras, a taxa média de alucinações em LLMs era de 6,8%. Quando este número foi alargado para 128 mil palavras, a taxa média de alucinações subiu para 10%. Isto representa muito tempo de correção e monitorização para os trabalhadores humanos.

Outro problema é que, como os LLM são concebidos para serem bons em tudo, não são muito bons em nada em comparação com as aplicações especializadas. Um relatório sobre a utilização de IA no desenvolvimento de software encontrou um impacto explosivo no início, com os programadores a criar ou editar quase 300% mais ficheiros, mas esse aumento foi reduzido para metade, 150%, quando as empresas receberam o número de trabalhos submetidos a revisão, e esse número, por sua vez, encolheu cinco vezes, para um aumento de cerca de 30%, no momento do lançamento completo do software.

Além disso, quando os investigadores analisaram se os aumentos na produção de software assistido pela IA levaram a um aumento da utilização por parte dos clientes, encontraram poucas provas disso. O aumento acentuado do lançamento de aplicações móveis durante o último ano não foi acompanhado por qualquer aumento de downloads – a maioria das novas aplicações não consegue captar nem sequer um público modesto.

Entretanto, a OpenAI gastou cerca de 6 mil milhões de dólares, que aumentaram para 17 mil milhões de dólares em 2026. Até 2028, os custos de inferência (treino) por si só deverão crescer para 121 mil milhões de dólares e as perdas estão projetadas em 85 mil milhões de dólares. O consumo de dinheiro da Anthropic é muito menor, mas ainda era de 3000 milhões de dólares em 2025. A menos que as empresas que constroem LLMs consigam obter grandes quantidades de novas receitas nos próximos anos, as perdas aumentarão exponencialmente, especialmente tendo em conta o facto de que o preço atual cobrado por “token”3 não é o verdadeiro custo da computação. Se as empresas de IA cobrassem o preço de custo por token, as perdas poderiam diminuir, mas a procura por LLMs poderia diminuir ainda mais.

Apesar disto, o entusiasmo em torno da IA ​​continua a ser tão grande que essencialmente todos os investimentos privados nos EUA são agora em hardware e software tecnológico. Nos últimos três anos, o crescimento médio anual dos investimentos em equipamentos de TI foi de 11%, e de 8% em software. Entretanto, os investimentos em todas as outras partes da economia dos EUA, em conjunto, diminuíram 1,6% por ano.

Hoje, a economia dos EUA é, na verdade, duas economias numa só. Há a economia tecnológica e há tudo o resto. Nos últimos quatro trimestres até ao final do primeiro trimestre de 2026, 93% do crescimento do PIB dos EUA deveu-se exclusivamente ao investimento em tecnologia (embora grande parte das compras sejam importações e não produtos fabricados internamente).

Isto significa uma bolha à espera de rebentar. No rescaldo da bolha das dot.com, o investimento fixo privado caiu mais de 12,7% entre 2000 e o final de 2002, quando a economia dos EUA entrou em recessão. No primeiro ano após o rebentar da bolha das dot.com, os investimentos em tecnologia caíram 12%, enquanto os investimentos fixos em geral caíram 7,6%.

Gita Gopinath, antiga economista-chefe do FMI, calculou que uma quebra da bolsa de valores centrada na IA, equivalente à que pôs fim ao boom das dot.com, eliminaria cerca de 20 biliões de dólares da riqueza das famílias americanas e outros 15 biliões de dólares no estrangeiro, o suficiente para estrangular os gastos dos consumidores e induzir uma recessão global. Esta é também a opinião do FMI. O FMI teme que as empresas de IA possam não conseguir gerar lucros proporcionais às suas elevadas avaliações. O colapso dos anteriores booms de investimento fez cair cerca de 1 ponto percentual, em média, do crescimento real do PIB dos EUA. Mesmo uma correção moderada nas avaliações das ações de IA reduziria o crescimento global em 0,4%. “Combinados com ganhos de produtividade total inferiores ao esperado e uma correção mais significativa nos mercados acionistas, as perdas de produção global poderão aumentar ainda mais, concentradas em regiões com forte presença tecnológica, como os Estados Unidos e a Ásia.” Um outro estudo concluiu que mesmo uma queda muito ligeira no investimento tecnológico, de apenas 3%, reduziria o crescimento real do PIB dos EUA em 1%, ou seja, metade da taxa atual. O impacto seria ainda maior na Europa.

Nada disto permite concluir que a IA não proporcionará, em algum momento, maior rentabilidade às empresas envolvidas e maior produtividade à economia dos EUA como um todo. Mas antes haverá um rebentamento da bolha de investimento, como ocorreu na mania ferroviária da década de 1870 e na bolha dot.com do final da década de 1990. Como outros estudos demonstraram, levará uma década ou mais para que a IA se torne uma tecnologia generalizada que produza resultados.

Para os trabalhadores, a IA representa um problema diferente. Para o capital e as megaempresas de comunicação social, o objetivo é tornar a IA numa tecnologia lucrativa, mas isso só pode ser feito através da redução de postos de trabalho e da cessação de qualquer tentativa de regular as suas aplicações e utilização. Se a IA tiver sucesso para o capital, será apenas à custa da maioria dos trabalhadores e das suas famílias.


  1. Conhecidas entre nós como “as sete magníficas” e também, parte delas, as Big Five ou Big Tech: Microsoft, Apple, Alphabet (Google), Amazon, e Meta (Facebook) (nota do tradutor).
  2. Large Language Models, ou Grandes Modelos de Linguagem, sistemas de inteligência artificial treinados com enormes volumes de texto (nota do tradutor).
  3. Os tokens são as peças fundamentais utilizadas pelos modelos de IA para processar informação. Em vez de ler a linguagem humana palavra a palavra, os modelos dividem o texto em partes mais pequenas chamadas tokens, que podem ser palavras inteiras, partes de palavras ou até sinais de pontuação (nota do tradutor – com o auxílio da IA).

Tradução de António Simões do Paço.

categoria-ciência Big tech Inteligência Artificial Educação Trabalho edicao-2026-06-11 (31)

A IA e a expropriação do conhecimento

A Inteligência Artificial Generativa é um artefacto para a expropriação intelectual dos professores e dos estudantes e corresponde a uma estratégia política das big tech para a precarização total da força de trabalho mundial.

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Já não é possível ignorar as lutas das e dos trabalhadores da educação em distintas partes do mundo contra as plataformas das big tech utilizadas nas redes de ensino para intensificar a jornada de trabalho, ampliar o controle e a vigilância sobre o trabalho, desqualificar intelectualmente os docentes e os estudantes, inviabilizar a autonomia da escola por meio da corrosão da liberdade de cátedra e interditar a agência de sua comunidade no autogoverno da instituição. De facto, muitas dessas lutas interpelam as mudanças curriculares sob a égide do capital, em especial, pela chamada inteligência artificial generativa (IA-Gen.), e a reestruturação dos livros e materiais didáticos como sistemas de ensino e plataformas por holdings educacionais sob controle de fundos de investimentos. Essas corporações afinal objetivam difundir o que é dado a pensar em milhares de escolas e, ao mesmo tempo, lograr modelar os perfis dos estudantes e docentes para que componham seus portfólios de negócios e sua base política.

No Brasil, em maio de 2025, no estado do Paraná, o sindicato dos trabalhadores da educação APP-Sindicato convocou a Semana de Luto e Luta em Defesa da Vida, com greve e mobilizações em todo o Paraná contra o uso de plataformas, o adoecimento e a pressão excessiva sobre os(as) educadores(as)2. Em Londres, em 8 de março de 2026 aconteceu uma massiva Marcha contra as Máquinas, interpelando as corporações de IA3. Nos EUA, pais, estudantes e professores criaram o movimento Schools Beyond Screens e lançaram neste ano uma petição chamada “Tirem as big tech das Mesas das Crianças”4. Após quase cinco décadas, ocorreu uma greve dos educadores de São Francisco (UESF) contra a substituição tecnológica dos professores5, logrando cláusulas semelhantes às da grande greve dos argumentistas de Hollywood em 20236 que estão servindo de referência para os demais sindicatos de trabalhadores da educação. Na Florida, em 8 de maio de 2026, por ocasião de uma formatura da Faculdade de Artes e Humanidades e da Escola Nicholson de Comunicação e Mídia da Universidade da Flórida Central, a oradora, vinda do mundo empresarial, afirmou que a “ascensão da inteligência artificial é a próxima revolução industrial” provocando uma sonora e massiva vaia dos estudantes que se formavam7. Em Nova Iorque, mobilizações interromperam o projeto de escola secundária de Manhattan Next Gen8, pois pais, professores e estudantes entenderam que a escola poderia ser um laboratório de IA. É significativo que os exemplos de lutas são muitos9, nem sempre diretamente contra as big tech e, por isso, necessitam ser coligidos e analisados.

Embora muitas vezes dissociadas de táticas e estratégias contra as expressões do capital na educação, essas lutas têm contribuído de modo extraordinário para dissipar águas turvas que dissimulam as aceleradas e radicais mudanças nas escolas, em especial após 2022, ano em que a IA-Gen. se popularizou. Sem essas lutas, o presente artigo não seria possível.

Os limites táticos e estratégicos dessas lutas advêm, parcialmente, de uma leitura ainda incipiente do significado da dissociação entre as big tech e i) o complexo militar e de vigilância; ii) a plataformização de todas as formas de trabalho, e iii) o uso de IA pelas corporações educacionais, questões retomadas adiante. Os estudos realizados no âmbito do Coletivo de Estudos em Marxismo e Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro10 propugnam que é imprescindível examinar, compreender e explicar tais nexos para explicar as mudanças no trabalho docente e nos processos de ensino e aprendizagem que têm provocado o derretimento da autonomia intelectual dos estudantes. Mais amplamente, preocupa a refuncionalização das escolas e universidades públicas que podem estar substituindo a formação crítica, sistemática, metódica, comprometida com a internalização profunda dos conhecimentos – base da autonomia intelectual necessária para que todos os que possuem um rosto humano possam fazer uso autônomo e crítico da razão – pela universidade operacional11 que sacrifica os processos em nome dos produtos, os valores ético-políticos e a busca processual da verdade em virtude dos vieses epistemológicos dos algoritmos que reproduzem os valores políticos de suas corporações comprometidas com o complexo militar e de vigilância.

A análise centrada nos processos de ensino e aprendizagem nas salas de aula, se não levar em consideração as nervuras políticas e econômicas das big tech, apaga problemas e pode inspirar formas de lutas inexequíveis. Dois exemplos são destacáveis. A Internacional da Educação, nas Resoluções de seu 10o Congresso, realizado em Buenos Aires, em 2024, propôs: “Impulsionar as competências das organizações afiliadas para colaborar com empresas tecnológicas na definição do conteúdo e das metodologias que possibilitam a aprendizagem e o ensino profissional”12 e a Federação Americana de Professores (AFT) pactuou parcerias com empresas como Microsoft, OpenAI e Anthropic que envolvem grandes somas de recursos (US$ 23 milhões) para estabelecer a Academia Nacional de Instrução em IA13.

Embora seja justificável a defesa da regulação estatal das big tech compreendendo aspectos importantes como privacidade, propriedade intelectual e o uso ético e responsável da IA, tal enfoque não enfrenta o cerne do problema que nem arranhado é pelas abordagens dissociadas da natureza e do caráter das big tech, de seus Grandes Sistemas de Linguagem e do caráter performativo de seus algoritmos.

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Existem diferenças específicas entre as big tech e as formas de privatização e mercantilização que foram difundidas nas escolas e universidades nos anos 1990. Um ponto a destacar é o tamanho dessas corporações. As sete gigantes, Alphabet (Google), Apple, Amazon, Microsoft, Meta (GAFAM), Nvidia e Tesla, estão sendo turbinadas por investimentos jamais imaginados. Somente as ações das corporações que atuam na IA nas bolsas estadunidenses correspondem ao valor total de todas as bolsas europeias reunidas14. Os investimentos previstos em infraestrutura, US$ 375 mil milhões em 2025 e mais de US$ 600 mil milhões em 202615,16 compreendem a ‘economia real’, como data centers, fábricas de semicondutores e fornecimento de energia e de água necessários para construir o poder de computação que a IA. exige. Além disso, é preciso computar os investimentos em mineradoras. Não menos importante, as vultosas somas aplicadas no desenvolvimento de supercomputadores e sistemas complexos, modelos de linguagem, todos eles indissociáveis da computação quântica. A Brookfield Asset Management estima que somente a infraestrutura de IA absorverá US$ 7 biliões nos próximos 10 anos17. Esse processo de acumulação é alavancado por investimentos de escala inédita e provoca mudanças disruptivas, monopolistas em todas as esferas da vida.

Contudo, a economia digital precisa ser realizada em curto intervalo de tempo, em virtude da obsolescência do setor, pirataria, novas abordagens tecnológicas, como foi o caso da Deep Seek, por exemplo. Por isso, a agressividade de ocupação dos mercados é um traço distintivo dessas corporações que enfrentam qualquer intento de regulação dos Estados. Nenhuma outra tecnologia foi tão concentrada e assumiu tal dimensão. Aproximadamente 6 mil milhões de pessoas utilizam quotidianamente smartphones, tornando o alcance das big tech planetário18.

Retomando a caracterização das big tech, o facto de serem corporações vinculadas ao complexo militar e de vigilância requer que seus sistemas de linguagem e seus algoritmos possam elaborar perfis das populações a partir dos quais: i) indivíduos poderiam ser alvos para os drones guiados pela IA.; ii) os sistemas de vigilância (na forma de aplicativos, câmeras de trânsito, reconhecimento facial) podem ser acionados para localizar trabalhadores não documentados, a exemplo da Palantir, iii) as corporações possam produzir hierarquias de humanidade, uma forma de racismo algorítmico, também utilizados nas guerras em que, por exemplo, drones identificam as pessoas palestinianas como alvos tidos como legítimos e, também, iv) as corporações podem se valer dos perfis dos estudantes de uma determinada escola, universidade, rede de ensino, territórios para personalizar o tipo de educação que as frações mais exploradas das classes trabalhadoras poderão receber, atualizando os novos dualismos educacionais. Essa hierarquia de perfis é intrínseca ao LLM e aos algoritmos.

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Os Grandes Modelos de Linguagem de propriedade de corporações são indissociáveis dos sistemas complexos de algoritmos que condicionam quotidianamente milhões de pessoas e organizações em todo o mundo, incluindo as escolas e as universidades nas quais circula a grande maioria dos mais de 1400 milhões de estudantes e trabalhadores da educação em atividade. Distintamente das tecnologias de informação e comunicação como a televisão, por exemplo, as atuais tecnologias digitais permitem interação do sujeito que recebe a mensagem com os seus emissores, ainda que o seu lugar seja inclementemente subordinado. Likes, partilhas, comentários, postagens e imagens mobilizam o desejo, sequestram a atenção e geram a percepção de integração em determinados grupos. E não somente isso. As interações, por sua vez, “educam” os algoritmos que, com isso, condicionam ainda mais profundamente os seus usuários.

O facto de não ser uma rua de sentido único reforça a penetrante ideologia do sujeito de que ele faz parte de uma comunidade, seja ela religiosa, política, futebolística, etc. As big tech, como amplamente documentado, estão operando politicamente e dirigem seus algoritmos para reter a atenção e mobilizar paixões em prol da extrema-direita neofascista19. O quadro é ainda mais grave em virtude de sua escala. O controle dos dados que consubstanciam os perfis formatados pelos algoritmos e pelas corporações é tratado por elas como bens privados e livres de qualquer regulação estatal.

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A partir das indicações desenvolvidas até aqui é possível retomar a discussão das corporações educacionais que estão se associando de modo subordinado às big tech. Estas são totalmente distintas das existentes há uma década. Atualmente, as corporações educacionais e grupos editoriais estão impulsionados pelos operadores financeiros e foram transformadas em sociedades anónimas, organizadas na forma de holdings e com ações nas bolsas de valores. Os investidores financeiros comandam as empresas nos conselhos de administração, um bastião de poder exclusivo. Prevalece a avaliação nos grupos educacionais de que a associação subordinada com as big tech é uma grande oportunidade para requalificar os negócios relacionados com os sistemas de ensino e as plataformas de trabalho. De facto, os currículos escolares, regra geral elaborados pelos aparelhos privados de hegemonia empresariais, como ocorreu com as Bases Nacionais Comuns Curriculares no Brasil, elaboradas pela aliança de dois conglomerados de APH (Lemann e Todos pela Educação) estão sendo operacionalizados por meio de planos de aula por IA e propagados nas escolas por intermédio de sistemas de ensino e plataformas de trabalho mediados pela IA-Gen.

Frequentemente, as próprias universidades e as redes de ensino, sob orientação governamental dos Ministérios da Educação e das Secretarias de Educação, adquirem esses sistemas e plataformas para suas escolas, aparentemente acreditando na possibilidade de um uso ético dos referidos artefactos para melhorar a eficiência do trabalho docente. Assim, incentivam os estudantes e professores a fazer um uso “responsável” da IA generativa, realimentando a megamáquina educativa do capital, como destacado em um estudo anterior (Leher, 2026)20.

A IA se apropria do acervo de conhecimentos que pertence aos povos, mas oferece aos seus usuários, espalhados por todo o mundo, produtos semelhantes a alimentos processados. Ela suprime os processos, deseduca os jovens ao afastá-los da leitura lenta e profunda, elabora resumos de textos que não serão lidos e inviabiliza os processos de elaboração criativa de textos. Uma pesquisa do MIT sobre o custo cognitivo de utilizar um Grande Modelo de Linguagem (LLM) na redação de ensaios concluiu que os participantes que utilizaram o ChatGPT para escrever apresentaram menor conectividade cerebral, pior memória do ensaio que acabavam de “escrever” e menor senso de autoria, uma vez que o pensamento foi externalizado21. Centenas de milhões de jovens têm sua capacidade de concentração comprometida, o que afeta o pensamento sistemático e concentrado. Formatos curtos, como o TikTok e o Instagram, deseducam a concentração interior. Milhões de jovens enfrentam sérias dificuldades para ler e utilizar a matemática básica. Com isso, o pensamento crítico vai se esvaindo cada vez mais, o que prejudica a capacidade de refletir sobre questões que são decisivas para o futuro da humanidade.

O impacto cognitivo de curto prazo da tecnologia é sombrio: vários estudos a associaram à perda de memória de curto prazo e descobriram que ela atrofia o pensamento crítico.

Desse modo, a expropriação sobretudo das classes trabalhadoras é realizada com a conivência das políticas nacionais e internacionais que deveriam proteger a formação intelectual dos estudantes. Com efeito, o impacto cognitivo de curto prazo da tecnologia é sombrio: vários estudos a associaram à perda de memória de curto prazo e descobriram que ela atrofia o pensamento crítico23,24.

Em Portugal, o Ministério da Educação e as câmaras municipais, sob a capa da inovação e da “abertura à comunidade” como ONGs, são os centros de entrada destes holdings nas escolas. No Brasil, atualmente na vanguarda mundial da mercantilização financeirizada da educação, os grandes grupos que atuam na educação possuem ações nas bolsas de valores e estão sob controle de fundos de investimentos, inclusive pelos maiores fundos como Blackstone, Apollo, KKR, Carlyle, Advent, e gestoras de ativos como BlackRock, a maior do mundo com ativos da ordem de US$ 10 biliões, e Oppenheimer, entre outros. No caso brasileiro, o setor privado é responsável por cerca de 70% das matrículas do ensino superior: dos 10 milhões de estudantes no ensino superior, 5,2 milhões estão na modalidade a distância – EaD (INEP, 2024) que não assegura sequer uma formação compatível com os objetivos legais minimalistas do ensino superior. A financeirização dos holdings educacionais produz uma nefasta monopolização das matrículas estudantis. De facto, embora existam 2600 instituições de ensino superior, apenas uma dezena de holdings já possui cerca de 60% dos estudantes e, no caso da EaD, a concentração dos dez maiores grupos alcança preocupantes 80% das matrículas.

Na educação básica, governos comprometidos com a austeridade contra o trabalho e a soberania popular sobre os assuntos públicos, adotam as tecnologias digitais nos moldes do “tecnossolucionismo”. Se as crianças não estão indo bem na alfabetização, as tecnologias irão resolver o problema. Se existem distorções entre a idade da criança e o seu nível de ensino, idem, tecnologias podem ‘corrigir’ o problema. Se a língua portuguesa é muito complicada, uma IA pode simplificá-la. Esse discurso neoliberal é empreendido por uma tecnocracia que se diz técnica, referenciada em supostas provas científicas e, com isso, afastam os professores de todas as decisões relevantes sobre a escola e as políticas educacionais. Essa perspectiva abriu largas autoestradas para a entrada das corporações educacionais nas escolas, por meio da comercialização de seus sistemas de ensino e plataformas de trabalho nas escolas. Desse modo, com a anuência e ação dos governos de austeridade, as corporações despejam nas salas de aula a educação processada, “macdonaldizada” e calibrada para os diferentes perfis sociais, realimentando as desigualdades sociais e naturalizando a separação das escolas para dirigidos e as escolas para dirigentes. Assim, por que ler Saramago se é possível difundir competências instrumentais condizentes com o mercado para os jovens pobres?

Tais ações são brutalmente coercivas. Os sistemas de avaliação erigidos pelas políticas neoliberais dos anos 1990 pela OCDE, as contrarreformas do Processo de Bolonha nas universidades europeias, a massificação da EaD no Brasil são processos indissociáveis da exigência de que os professores preencham demorados e inúteis plataformas diariamente, ampliando o controle, a exploração, a exaustão e o sofrimento laboral. Como destacado pelo movimento “Tirem as Big Tech das Mesas das Crianças” as escolas devem estar livres dessas corporações.

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A ofensiva das big tech cujo epicentro encontra-se nos EUA25 e das corporações educacionais a elas subordinadas, distribuídas em diversos países, mira o conjunto da formação das classes trabalhadoras e, como expressão do capital-imperialismo, está inserida na geopolítica e na geoeconomia mundiais. As movimentações do capital engendram outras expressões das lutas de classes em âmbito mundial. Como apontado, essas contradições se materializam na forma de lutas, greves, mobilizações dos trabalhadores da educação e dos estudantes. Não é possível a neutralidade ética. Os coletivos de pesquisa do campo crítico, sindicatos, jornais como o Maio não podem deixar de ser parte de um esforço unitário e coordenado para coligir e analisar as lutas que eclodem em toda a parte contra tal ofensiva do capital.

Existem iniciativas antissistémicas, mas ainda de magnitude modesta. No I Seminário Internacional Capitalismo Digital, Financeirização e Educação, realizado em julho de 2025 no campus da Praia Vermelha da UFRJ com a participação de pesquisadores de diversas universidades brasileiras e da Universidade de Barcelona e do Chile foi consensuada a criação da Rede Internacional de Estudos e Pesquisas sobre o Avanço do Capital por meio de Tecnologias Digitais na Educação. Em julho de 2026, na Universidade de Barcelona, acontecerá o II Congresso Internacional sobre Capitalismo e Educação, no qual a referida rede internacional poderá ganhar nova dimensão. Outra iniciativa afim é o projeto de investigação continental da Red Social para la Educación Pública en las Américas (Initiative for Democratic Education in the Americas) Políticas de las “nuevas” derechas hacia la educación pública, resistências y alternativas, cujo documento de trabalho foi discutido de modo sistemático ao longo de 2024 e de 2025 em dois seminários, o primeiro na Argentina (2024, CTERA) e o seguinte no México em 2025 (UNAM) com pesquisadores e ativistas sociais de Argentina, Canadá, Colômbia, Costa Rica, Equador, Estados Unidos, Guatemala, Honduras e México. Essas iniciativas, inclusive as greves indicadas no presente texto, embora limitadas, confirmam que está havendo um adensamento de ações contra as novas expressões do capital na educação.

Existem avanços tecnocientíficos que foram desenvolvidos na sociedade capitalista que, por meio de rupturas profundas, poderão ser apropriadas pelos povos em busca da soberania popular para além do capital.

Uma tarefa urgente é construir conexões mais orgânicas com as lutas sindicais e estudantis que se espalham pelo mundo. Quando a presidente da AFT, Randi Weingarten, afirmou que “achámos que precisávamos trabalhar com as maiores empresas do mundo. Fomos até elas”, o que prontamente foi acolhido pelas big tech que irão repassar mais de US$ 30 milhões para a constituição de centros de formação que irão acionar 400 mil docentes nos próximos anos26 é evidente que o tema alcança a grande política do capital! Sem um esforço coordenado dos sindicatos comprometidos com a desmercantilização da educação, logo a aliança das big tech irá ampliar a subordinação de outras grandes organizações sindicais.

Pensar as tecnologias na educação requer radicalidade. Não se trata, obviamente, de inseri-las em manuais sobre o bom uso da IA, como querem muitas universidades, nem de treinar professores para um uso adequado das mesmas.

Plataformas de comunicação virtuais, aplicativos de tradução, acesso livre aos acervos de museus e bibliotecas e programas de busca sofisticados, capazes de respostas que sejam excelentes pontos de partida para novos estudos, devem ser objetivos internacionalistas. Concretamente, existem avanços tecnocientíficos que foram desenvolvidos na sociedade capitalista que, por meio de rupturas profundas, poderão ser apropriadas pelos povos em busca da soberania popular para além do capital. Esse movimento está apenas se iniciando e somente avançará a partir do internacionalismo, pois tais plataformas não mercantis não podem se esgotar nos Estados em uma perspectiva chauvinista. É uma luta empolgante e necessária para o porvir da humanidade. Juntos, lograremos avanços!


1 Professor catedrático da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

2 APP Sindicato. https://appsindicato.org.br/retrospectiva-2025-maio-app-sindicato-intensifica-pressao-em-defesa-da-vida-e-contra-a-privatizacao/

3 Extinction Rebellion MARCH AGAINST THE MACHINES. March 08, 2026. https://extinctionrebellion.uk/2026/03/08/march-against-the-machines/

4 Natasha Singer. In Backlash Against Tech in Schools, Parents Are Winning Rollbacks. NYT, 29/04/2025,https://www.nytimes.com/2026/04/29/technology/parents-school-tech-backlash.html. Acesso em 15 maio de 2026.

5 Lacey Kaelani. San Francisco Teachers Strike First Time. Metaintro, 10/02/2026, https://www.metaintro.com/blog/sf-teachers-strike-first-time-47-years

6 Molly Kinder.Hollywood writers went on strike to protect their livelihoods from generative AI. Their remarkable victory matters for all workers. https://www.brookings.edu/articles/hollywood-writers-went-on-strike-to-protect-their-livelihoods-from-generative-ai-their-remarkable-victory-matters-for-all-workers/

7 Gabriella Gershenson. Graduates Boo Commencement Speech About A.I. NYT, 14/05/2026. https://www.nytimes.com/2026/05/14/style/ucf-commencement-ai-booed-gloria-caulfield.html

8 Frank Landymore. AI-Powered High School Scrapped After Protests Erupt Against It. Futurism.2/5/2026. https://futurism.com/artificial-intelligence/ai-high-school-cancelled. Acesso em 16 de maio de 26.

9 https://www.albany.edu/news-center/news/2024-study-teacher-strikes-are-effective-increasing-wages-working-conditions. Ver também: https://striketracker.ilr.cornell.edu.

10 https://colemarx.educacao.ufrj.br/publicacoes/

11 CHAUI, Marilena. A universidade operacional. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas/Sorocaba, v. 4, n. 3, 1999. Disponível em: Portal de Periódicos Uniso. Acesso em: 17 maio 2026.

12 INTERNACIONAL DE EDUCACIÓN. (2024). Resolución del 10º Congreso Mundial, Buenos Aires, Argentina, del 29 de julio al 2 de agosto de 2024. https://ctera.org.ar/wp-content/uploads/2024/12/RESOLUCIONES-DEL-10-CONGRESO-MUNDIAL-DE-LA-IE.pdf

13 https://www.aiinstruction.org

14 Stacey e Novik, 2025

15 Lucy Raitano, Dhara Ranasinghe and Chibuike Oguh. big tech’s $600 billion spending plans exacerbate investors’ AI headache. Reuters, 6/2/26. Disponível em: https://www.reuters.com/business/global-software-data-firms-slide-ai-disruption-fears-compound-jitters-over-600-2026-02-06/

16 Karen Weise. A.I. Spending Sets a Record, With No End in Sight. NYT, 29/04/26. https://www.nytimes.com/2026/04/29/technology/ai-spending-tech-data-centers.html.

17 DePillis, 2025

18 https://www.bankmycell.com/blog/how-many-phones-are-in-the-world.

19 Fuchs, C. (2026). Digital Fascism and Digital Capitalism. Philosophy & Social Criticism. https://doi.org/10.1177/01914537261434922

20 Leher, R. IA, TECNOFASCISMO Y EDUCACIÓN. Importancia estratégica de la pedagogía ludita. (Prólogo) In: Jarquín, M. La pedagogía ludita. Bs.As. CLACSO, 2026 (no prelo)

21 Meghan O’Rourke. Eu ensino redação criativa. Isso é o que a IA está fazendo com os alunos. NYT, 18/07/2025.https://www.nytimes.com/2025/07/18/opinion/ai-chatgpt-school.html.

22 ABBAS, Muhammad; JAM, Farooq Ahmed; KHAN, Tariq Iqbal. Is it harmful or helpful? Examining the causes and consequences of generative AI usage among university students. International Journal of Educational Technology in Higher Education, v. 21, art. 10, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s41239-024-00444-7. Acesso em: 15 maio 2026.

23 Noor Al-Sibai. Study Finds That People Who Entrust Tasks to AI Are Losing Critical Thinking Skills. Futurism. 18/02/2025. Disponível em: https://futurism.com/study-ai-critical-thinking. Acesso em 15/-5/26.

24 LEE, Hao-Ping et al. The Impact of Generative AI on Critical Thinking: Self-Reported Reductions in Cognitive Effort and Confidence Effects From a Survey of Knowledge Workers. In: CHI CONFERENCE ON HUMAN FACTORS IN COMPUTING SYSTEMS, 2025, Yokohama. Proceedings […]. New York: ACM, 2025. p. 1-22.

25 A China possui particularidades que não foram examinadas no presente texto.

26 https://fortune.com/2025/10/17/why-openai-microsoft-and-anthropic-are-funding-millions-in-teacher-training-ai-like-it-or-not-is-part-of-our-world/

Colonoscopia Inferno Inteligência Artificial categoria-crónica edicao-2026-06-04 (30)

Captura híbrida por IA

Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

Hoje são muitas as discussões sobre o uso da inteligência artificial. A minha neta de cinco anos, com a mesma certeza que ela tem de que eu sei fazer quase tudo, também já indica o uso da IA para solucionar os problemas que eu não sou capaz. Assim, com intimidade, ela diz: “Se a vovó não faz, a IA faz.” Maravilha de mundo: o que não puder ser feito pela avó será feito pela IA. Eu não me atrevo a contestá-la. Confesso que ainda não sou capaz de fazer análises sobre esta senhora, porque para fazer perguntas sobre qualquer coisa precisamos conhecê-la minimamente. Ora, se eu não sou capaz de perguntar, como vou responder, fazer afirmações? Contudo, se me permitem, eu tenho pensado que a IA pode vir a ser aplicada num procedimento que é particular às mulheres.

Sem querer excluir os meus leitores masculinos – se é que os tenho –, devo avisar que vou tratar de um assunto feminino. Não inclui todas as mulheres, mas convém à parte não imediatamente interessada ficar de orelha em pé. 

A partir de uma certa idade, não sei precisar, até porque há controvérsias, a saúde da mulher requer uns determinados exames. Ah, lembrei que um deles também é imposto aos homens. Dessa imposição deve vir o enunciado “quem tem cu tem medo”. Refiro-me à colonoscopia. Quem já a fez sabe que não me refiro especificamente ao constrangimento da invasão do nosso corpo, porque na hora da realização do exame, o/a paciente – com muita paciência – já está anestesiado/a.

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O sofrimento verdadeiro acontece no dia anterior, por conta dos efeitos de uma dose cavalar de laxantes, que nos põe repetidas vezes no trono, em posição idêntica ao Pensador de Auguste Rodin. Se eu acreditasse em profecia, diria que o escultor francês ao criar O Pensador, parte da monumental obra As Portas do Inferno, já previa o inferno a que seríamos submetidos na colonoscopia. Que miserável associação!

Eu peço desculpas. As Portas do Inferno, iniciadas em 1880 e trabalhadas ao longo de quase 40 anos, são um conjunto de esculturas de bronze que reúnem mais de 180 figuras humanas e foram inspiradas no Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri. Nada a ver com a colonoscopia, que surgiu na segunda metade do século XX e que visa tão somente a completa limpeza do intestino, para que o médico consiga visualizar a mucosa do cólon e detetar lesões, pólipos ou cancro.

Voltemos à IA e à sugestão que eu gostaria de poder fazer ao sistema de saúde pública. Quem já fez uma captura híbrida para HPV ou outros exames que requerem a visualização de estruturas microscópicas do colo do útero vai considerar plausível a minha reivindicação. 

Nenhuma mulher, nem no seu momento mais íntimo, se expõe tanto quanto nestes exames médicos.

Nenhuma mulher, nem no seu momento mais íntimo, se expõe tanto quanto nestes exames médicos. A gente sente vergonha, constrangimento, mal-estar, às vezes, cansaço, quando a dobradiça que conecta o fémur, a tíbia e a patela já passaram do prazo de validade. Posso garantir, é o meu caso. Na minha última experiência, o médico tinha o mesmo nome de um famoso compositor e pianista alemão. Para quebrar a barreira inicial perguntei a razão do nome, se os pais ouviam música clássica, se, se e se. Ao meu lado, uma enfermeira silenciosa, numa atitude de quem sugeria confiança e tranquilidade. O médico, por sua vez, durante todo o procedimento, quando não me dava explicações, cantarolava. Parecia dizer “relaxe”, já estou careca – era mesmo careca – de ver essa coisa escancarada a olhar para mim. Não sabia ele que o meu problema não era ela estar a olhar para ele, ao contrário, era ele a olhar para ela e a folheá-la como se foram as páginas de um livro. Pior, parecia um daqueles livros que a gente insiste na leitura, na tentativa de salvar o autor. Olhava sem nenhuma emoção. Virava pra lá, virava pra cá, lia, relia, metia-lhe uns ferros, coletava, registrava e ainda descrevia aquela imagem rosada refletida no monitor que estava à minha frente. Cansada da posição, morta de vergonha, tudo que eu desejava era fechar as pernas, vestir a minha roupa, sair dali e nunca mais cruzar com aquele médico. Mas ainda tive que fazer o esforço de sorrir e agradecer. 

Pois bem, não seria justo que a IA atuasse nessa área? Como disse, eu quase nada sei sobre a tal IA. Alguém poderia me dizer se a dita cuja tem condições de livrar a nós mulheres desse constrangimento? Mas, antes, convém perguntar quem substituiria o médico. Seria um monte de ferro a mover ferramentas? Um sósia do Brad Pitt ou do Javier Bardem? Poderíamos escolher o fundo musical? Teríamos direito a expressar fantasias? Por favor, que a emenda não seja pior que o soneto. Na dúvida, enquanto não nos forem garantidas as condições que merecemos, é mais seguro continuar com o conhecido ser humano. Já sabemos das suas (in)capacidades.

Mas para não deixar de borla o meu constrangimento, ao menos de um médico eu me vingo. Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

categoria-ciência Despedimentos Inteligência Artificial Tecnoterrorismo edicao-2026-06-04 (30)

Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas

2.ª parte

O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários seria substituir toda a força de trabalho humana por IA. Só que esta hipótese gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz?

Entre o apocalipse dos trabalhadores e o tecnoterrorismo: a IA como campo de batalha

A 5 de Maio, Robert Reich, perigoso esquerdista que trabalhou nas administrações dos presidentes Ford e Carter, foi secretário do Trabalho dos EUA durante o consulado de Clinton e integrou a comissão consultiva para a transição económica de Obama, assinava um texto intitulado “The AI Job Apocalypse Is Already Happening1”. Nele se assinalava o modo como, para fazer crescer os seus lucros, as grandes empresas estão a utilizar a IA e os potenciais ganhos de produtividade resultantes da sua integração nos processos produtivos como pretexto para cortar salários e postos de trabalho. Independentemente de a IA poder substituir os postos de trabalho cortados, e isso não parece ser a questão mais relevante, as grandes empresas estão a aproveitar essa possibilidade para despedimentos em massa.

Entre janeiro e abril de 2026, mais de 128 000 trabalhadores foram despedidos. A Meta despediu 8000, apontando para 10 000 até ao final de 20262, a Amazon 30 000, os seis maiores bancos de Wall Street mais 15 000, na Oracle o número pode ascender aos 30 000, o mesmo que a UPS espera despedir ao longo de 2026, a empresa química Dow anuncia 4500 e a Block aponta para uma redução de 40% da sua força de trabalho (± 4000 trabalhadores). Já em maio, a tecnológica norte-americana Cloudfare anunciou o despedimento de cerca de 1100 pessoas3 (20% da sua força de trabalho). Entretanto, Evan Spiegel, CEO da empresa norte-americana Snap, responsável pelo Snapchat, anunciou (imagina-se que numa daquelas sessões online sem direito a diálogo) o despedimento de cerca de 1000 trabalhadores, incluindo 16% do seu quadro de pessoal a tempo inteiro4.

Mesmo que muitas das pessoas despedidas não tenham ainda sido substituídas, ou possam sequer vir a sê-lo, pela IA, o turbo-capitalismo digital powered by AI empurra as grandes empresas neste sentido5. Afinal de contas, a competição feroz é a alma do negócio e, como é sabido, a noção de que os trabalhadores são variável de ajustamento fez escola. O facto de a IA ser capaz de realizar tarefas intelectuais que até há poucos anos só pareciam possíveis na ficção científica6, acentuando a fragilização dos trabalhadores de colarinho branco, só dá mais visibilidade ao fenómeno.

O hype é tanto que, no Dia do Trabalhador, se realizou no Beato Innovation District, a primeira edição do Agents Day, destinada a developers, founders e builders. Promovida pela CTO Portugal, comunidade de líderes em tecnologia e IA, foi anunciada como uma iniciativa que visava “colocar agentes de IA a trabalhar pelos humanos7”. Ao mesmo tempo, vai fazendo caminho o celestial canto dos administradores de empresas, para quem “a IA vai substituir os trabalhadores que não se adaptarem8”. Parafraseando Margaret Thatcher, poder-se-ia até dizer que a IA é o método, o objetivo é despedir trabalhadores.

No limite, toda a força de trabalho humana seria substituída por IA. O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários. Só que esta hipótese, explorada em The AI Layoff Trap9, e que decorre de uma lógica individual irrepreensível por parte de empresas que lutam pela sobrevivência na selva capitalista, gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz? Ou, recorrendo a terminologia marxista, desde quando é possível a substituição integral de trabalho vivo por trabalho morto? Mas, infelizmente, não é tudo. Parece que o aperfeiçoamento da IA só piora as coisas, dado que o impulso para substituir trabalho humano por IA se intensifica e acelera. Uma verdadeira corrida para o abismo ou para uma crise de sobreprodução de proporções bíblicas.

Num mundo profundamente desigual, em que o rendimento real dos trabalhadores caiu 12%, enquanto o dos CEO aumentou 54% entre 2019 e 202510, e onde os bilionários e os ultra-ricos dominam os media e a IA (mais de metade dos grandes grupos mundiais de media são detidos por bilionários, 9 das 10 maior empresas na área das redes sociais são geridas por apenas seis bilionários, algo que sucede com 8 das 10 maiores empresas de IA, com apenas três delas a possuírem quase 90% de quota de mercado11), o tecnoterrorismo impõe-se como discurso dominante que legitima despedimentos, instala o medo e a insegurança, constitui-se enquanto mecanismo ideológico disciplinador de uma força de trabalho amedrontada que, por isso, perde capacidade reivindicativa.

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Por outras palavras, trata-se de “uma narrativa futurista que amplifica ameaças hipotéticas para mascarar as contradições muito concretas do presente (...) [funcionando] como um espelho quebrado manejado pelo capital tecnológico: cada caco devolve uma imagem ampliada do perigo, mas nunca permite enxergar a totalidade. Em vez de descrever realisticamente o que a IA é capaz de fazer, projecta fantasias hiperbólicas que servem para legitimar a precarização, pressionar salários e justificar reformas regressivas12”. Até porque, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho13, apesar de 25% dos empregos no mundo estarem potencialmente expostos à IA, apenas 5-6% enfrentam ameaça de extinção; para além de, como também é evidenciado por esta organização, existirem inúmeros desafios metodológicos relacionados com a medição dos aumentos de produtividade resultantes da adopção da IA14.

Naturalmente, o impacto sobre o trabalho não se limita ao desemprego (real ou imaginário). Como se defende em “O trabalho explorado por trás da inteligência artificial15”, por trás de cada suposta conquista da IA existe um exército de trabalhadores precarizados que, nas mais das vezes, se encontram a milhares de quilómetros de Silicon Valley. Analistas de dados, motoristas de entrega, moderadores de conteúdos, são milhões os trabalhadores mal remunerados em todo o mundo – Venezuela, Bulgária, Índia, Quénia, Filipinas ou México são alguns dos locais onde se concentram – que executam tarefas repetitivas e monótonas indispensáveis ao desenvolvimento da IA, muitas vezes colocando as suas vidas em risco. Bem diz o povo, longe da vista, longe do coração. E assim se exporta e invisibiliza sub-desenvolvimento, trabalho indigno e miséria social, ao mesmo tempo que se varrem para debaixo do tapete os inúmeros riscos psicossociais associados ao uso da IA16 (ex: vigilância intrusiva, perda de autonomia e dignidade no trabalho, recolha de dados excessiva, etc.).

Por economia de espaço, abstemo-nos ainda de falar dos enormes custos ecológicos resultantes dos consumos de água, energia eléctrica, solo e outros recursos necessários ao funcionamento da infraestrutura da IA, centros de dados, servidores e restante parafernália tecnológica; do aprofundamento do fosso entre a metrópole imperialista e as periferias; ou dos efeitos da IA sobre a inteligência, a criatividade, a empatia, a ética e a saúde mental de crianças e jovens; ou da superinteligência que tem gerado fundados receios sobre a sua potencial capacidade para pôr fim à humanidade17.

Por uma IA ao serviço do povo!

Hoje, como no contexto de aparecimento dos luditas, o problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas. Aquilo que podemos observar é que, hoje, os principais beneficiários da IA são os grandes monopolistas da Big Tech. São eles que, num contexto de degradação generalizada das condições de vida – afinal, já levamos mais de meio século de contra-revolução neoliberal –, se empanturram em vil metal ao mesmo tempo que atiram com trabalhadores para o desemprego. Os donos da IA tornaram-se uma espécie de casta privilegiada que concentra todo o poder – económico, social, político e cultural –, enquanto os restantes, sem qualquer controlo sobre a arquitetura da IA, disputam as migalhas que caem da mesa com que se banqueteiam. Deve ser isto aquilo a que chamam “trickle down economics”.

E é por isso que, em vez de se discutir o alcance potencial da IA para promover um aumento generalizado do bem-estar, como, por exemplo, a possibilidade de todos trabalharmos menos horas sem qualquer perda de remuneração, antes pelo contrário aumentando salários, e termos todos mais tempo para viver, aceitando a lógica (que já vimos ser discutível mas é aquela que está na base do tecnoterrorismo vigente) de que a IA gera enormes ganhos de produtividade, aquilo que sucede são despedimentos em barda e uma chantagem permanente sobre os trabalhadores que, como é bom de ver, ou se adaptam ou sucumbem ao avanço inexorável da IA.

O problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas.

Porque é que não se usam os extraordinários avanços tecnológicos para libertar quem vive do seu trabalho, daquilo que nele é penoso, arriscado, desumano e alienante? Porque é que em vez de a tecnologia ser colocada ao serviço do povo trabalhador, para que este tenha todo o tempo para ser aquilo que deseja ser, é utilizada como cutelo sobre o seu pescoço? Porque, como sempre sucede no capitalismo, independentemente das suas metamorfoses ao longo do tempo, se privatizam os ganhos e socializam as perdas. Como defende Prabhat Patnaik, “se a humanidade está no limiar de grandes avanços científicos e tecnológicos, então a necessidade do socialismo, para tirar partido desses avanços, torna-se esmagadora. O socialismo torna-se então uma sociedade que não é apenas mais equitativa, mas que pode de facto fazer justiça ao engenho humano na introdução de profundos avanços tecnológicos, precisamente devido à sua natureza equitativa, precisamente porque é uma sociedade onde o trabalho e o produto são partilhados equitativamente entre todos18”.

Sendo produto de um empreendimento coletivo, a única forma aceitável de governo da IA passa pela socialização da sua propriedade19. Só assim, os seus efeitos deletérios sobre as classes trabalhadoras podem passar a ser uma carta fora do baralho ou, pelo menos, uma preocupação genuína, dado que seriam estes os donos da IA e os principais interessados em que ela não funcionasse como ferramenta digital de exploração. Por algum motivo, o recente manifesto da Palantir não menciona trabalhadores nem sindicatos. Porque sabe que “os trabalhadores por si só, se se organizarem, são capazes de parar as linhas de produção da morte. Uma greve geral no vale do Silício, ou mesmo nos próprios escritórios da Palantir, é o pesadelo deste projeto20”.

Com uma política anti-monopolista e a socialização da IA, mesmo os seus efeitos nocivos sobre a nossa “casa comum21” seriam potencialmente mitigados, até porque o trabalhador comum não tem possibilidades de construir um bunker numa ilha remota ou de sequer se imaginar a viver em Marte como fazem os multimilionários tecnofascistas. Enquanto a IA for pensada apenas e só com vista ao lucro e à acumulação de riqueza por meia dúzia de sociopatas, que perdem a maior parte do seu tempo atormentados com a possibilidade de perderem uns milhões22, não existe qualquer possibilidade de não operar enquanto ferramenta de produção de miséria social em massa.

Neste sentido, a IA corresponde a uma forma altamente sofisticada e complexa de extractivismo socioecológico. Parafraseando Proudhon, a “IA é roubo!” e reverter esta lógica passaria, por exemplo, por tornar público, universal e gratuito o acesso à tecnologia, inclusive à sua arquitetura mais elementar que hoje permanece debaixo de um manto de enorme opacidade (afinal, o segredo é a alma do negócio). Desmercantilizar a IA implica também que a sua infraestrutura fique sujeita a controlo democrático e transparente, que esta seja concebida enquanto propriedade comum da humanidade. Caso contrário, “não [se] pode controlar o seu futuro, não [se] é livre, não [se] é independente e não [se] pode decidir sobre o seu futuro nem proteger a sua democracia23” e a oligarquia tecno-digital reforça o seu poder totalitário. A este respeito, em Portugal, vale a pena salientar a proposta pioneira de criação do Instituto Nacional para a Computação Avançada, feita pelo PCP24.

Como se afirma em “Automation and AI: A Socialist Perspective on Workers’ Rights25”, um projeto socialista para a IA seria capaz de colocar os aumentos de produtividade e eficiência ao serviço do bem-estar de quem vive do seu trabalho. Como? Diminuindo erros e eliminando desperdícios nos processos produtivos; assegurando as tarefas repetitivas e libertando os trabalhadores para aquilo que é mais recompensador; substituindo os trabalhos sujos e perigosos, reduzindo acidentes e melhorando a segurança nos locais de trabalho; criando condições para o aparecimento de novas ocupações, altamente qualificadas e bem remuneradas; impedindo despedimentos sob pretexto de adopção da IA26; aumentando o tempo livre para atividades de lazer e ócio, jornadas de trabalho mais curtas e mais tempo de férias; levando a cabo grandes investimentos em serviços e infraestruturas públicas. Contudo, fazer avançar uma agenda tão progressista requer, naturalmente, que se combatam os inúmeros riscos e desafios que a IA coloca hoje ao trabalho. Para além do desemprego, da compressão salarial e das desigualdades crescentes, que já antes vimos, também a vigilância e o controlo permanentes devem ser combatidos, bem como a degradação do trabalho que o torna desumano.

Ao contrariar o tecnoterrorismo e os seus efeitos, indo à raiz do problema, uma perspectiva socialista da IA cria um novo horizonte de possibilidades para os trabalhadores, susceptível de libertar todo o potencial da tecnologia e colocá-lo ao seu serviço. A IA deve ser escravizada e não fazer de nós escravos. E essa foi a intuição inicial dos luditas que vale a pena recuperar para a atualidade e, em última instância, foi contra isso que se revoltaram há cerca de dois séculos, lançando a semente que viria a germinar num potente movimento operário e nos primeiros sindicatos. Não contra as máquinas, mas sim contra os grandes monopólios do capitalismo.

É por isso urgente “virar o jogo” e resgatar para o trabalho o potencial emancipador desta “nova” tecnologia. Rejeitando tanto as acusações preconceituosas dirigidas aos neoluditas de hoje, como a sua mais recente variação – “populismo IA27 –, desenvolvendo uma cultura contra-hegemónica esclarecida, consciente e crítica e uma alternativa socialista que coloque a IA, não enquanto fetiche28, mas sim como produto histórico-geográfico do capitalismo, no centro das suas preocupações, promovendo ação coletiva e lugares de encontro cara a cara, onde a empatia, a solidariedade e a confiança se constroem. Não num futuro longínquo onde apenas os historiadores da longa duração poderão ser capazes de vislumbrar retrospetivamente os ganhos civilizacionais resultantes da IA, deixando na penumbra o seu rasto de destruição e violência social, mas tão rapidamente quanto possível para evitar que este se torne cada vez mais real. Lutemos, pois, por uma IA ao serviço do povo!

(fim)


1 Ver https://robertreich.substack.com/p/how-can-the-stock-market-be-soaring?emci=dd2db07a-7d48-f111-8ef2-000d3a14b640&emdi=60051659-7549-f111-8ef2-000d3a14b640&ceid=3928027 (acedido a 5 de maio de 2026).

2 Ver https://www.publico.pt/2026/04/24/enter/noticia/meta-planeia-despedir-10-forca-trabalho-apostar-ia-2172372 (acedido a 8 de maio de 2026).

3 Ver https://www.publico.pt/2026/05/08/enter/noticia/cloudflare-despede-20-juntase-vaga-cortes-ia-2174028 (acedido a 9 de maio de 2026).

4 Ver https://sol.iol.pt/economia/noticias/snapchat-aposta-na-inteligencia-artificial-e-avanca-com-corte-de-mil-postos-de-trabalho/20260415/69dfbaac0cf2d0ed34b82dd3 (acedido a 8 de maio de 2026).

5 Ver, por exemplo: https://www.publico.pt/2026/04/29/p3/cronica/despedir-causa-ia-decisao-empresas-vao-desfazer-2172921 (acedido a 8 de maio de 2026).

6 Borges R (2026) Impactos da IA no trabalho intelectual e nos serviços públicos. Le Monde Diplomatique, Edição Portuguesa, n.º 235.

7 Ver https://dinheirovivo.dn.pt/empresas/1-de-maio-evento-agent-days-vai-colocar-agentes-de-ia-a-trabalhar-pelos-humanos (acedido a 6 de maio de 2026).

8 Ver, por exemplo: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/a-ia-vai-substituir-os-trabalhadores-que-nao-se-adaptarem/ (acedido a 8 de maio de 2026).

9 Disponível em https://arxiv.org/abs/2603.20617 (acedido a 5 de maio de 2026).

10 Ver https://www.oxfam.org/en/press-releases/top-ceo-pay-increased-20-times-faster-workers-pay-2025 (acedido a 8 de maio de 2026).

11 Oxfam (2026) Resisting the Rule of the Rich: Protecting Freedom from Billionaire Power. Oxfam International, p. 12.

12 Ver https://notasdissidentes.substack.com/p/tecnoterrorismo-e-o-espelho-quebrado (acedido a 3 de maio de 2026).

13 Gmyrek P, Berg J, Kamiński K, Konopczyński F, Ładna A, Nafradi B, Rosłaniec K, Troszyński M (2025) Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure, ILO Working Paper 140 (Geneva, ILO). https://doi.org/10.54394/HETP0387.

14 Ver ILO (2026) The Impact of Artificial Intelligence on Productivity: Evidence Across Levels of Aggregation, Research brief. International Labour Office.

15 Disponível em https://passapalavra.info/2023/05/148371/ (acedido a 4 de maio de 2026).

16 Ver Karimova T (2026) AI Systems at Work: A Changing Psychosocial Work Environment. ILO Working Paper 170. International Labour Office.

17 Ver https://vientosur.info/tesis-para-una-critica-ecosocialista-de-la-inteligencia-artificial/ (acedido a 11 de maio de 2026).

18 Disponível em https://resistir.info/patnaik/patnaik_01fev26.html (acedido a 2 de fevereiro de 2026).

19 Disponível em https://www.currentaffairs.org/news/the-only-ethical-model-for-ai-is-socialism (acedido a 11 de maio de 2026).

20 Disponível em https://www.esquerda.net/artigo/fascismo-digital-alianca-entre-o-capital-e-extrema-direita/98026 (acedido a 11 de maio de 2026).

21 Para uma reflexão em torno desta ideia ver https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html (acedido a 11 de maio de 2026).

22 A partir da análise dos ficheiros Epstein, é possível compreender que a urdimenta de planos e estratégias de preservação dos privilégios é a principal ocupação do tempo das elites globais. Ver https://the.ink/s/epstein (acedido a 11 de maio de 2026).

23 Ver https://expresso.pt/sociedade/tecnologia/2026-05-10-isto-nao-e-uma-democracia-e-uma-oligarquia-tecnologica-b2872baa (acedido a 11 de maio de 2026).

24 Disponível em https://www.pcp.pt/cria-instituto-nacional-para-computacao-avancada-ip-laboratorio-do-estado (acedido a 11 de maio de 2026).

25 Disponível em https://jeffreystamberger.com/writing/automation-and-ai-a-socialist-perspective-on-workers-rights (acedido a 9 de maio de 2026).

26 A este respeito, na China, parecem existir já exemplos de sinal positivo. Ver, por exemplo, https://www.abrilabril.pt/internacional/justica-chinesa-decide-adocao-da-ia-nao-justifica-despedimento (acedido a 8 de maio de 2026).

27 Ver http://tiny.cc/4783101 (acedido a 11 de maio de 2026).

28 Disponível em https://monthlyreview.org/articles/the-fetishism-of-ai/ (acedido a 4 de maio de 2025).

categoria-ciência Inteligência Artificial Luditas Tecnofobia Tecnoterrorismo edicao-2026-05-28 (29)

Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas

1.ª parte

De uma penada, aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado, rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando são rotulados de tecnofóbicos e olhados com sobranceira repugnância. Seriam os novos luditas que, assim reza esta versão da história, teriam sido contra o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o futuro.

Num mundo onde a evolução devia
Livrar-nos do esforço ingrato
Para a humana criação
Se nos tira esse prazer
Pra que serve então?

AI, Cara de Espelho, 2026

A propósito de inteligência artificial generativa (IA), sobre a qual, só em 2026, já se escreveram milhares de artigos científicos, ensaios, crónicas e textos de opinião (alguns deles claramente gerados por chatbots porque o tom monocórdico do mangas de alpaca não engana), um dos epítetos com que são brindados aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado (se eu tivesse um euro por cada vez que li ou ouvi a expressão “não se pode parar o vento com as mãos” já não precisava de trabalhar), rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando, é a de serem neoluditas.

De uma penada, são rotulados de tecnofóbicos e olhados com o esgar de sobranceira repugnância que habitualmente se lança a quem não embarca no deslumbramento tecnológico vigente. Os luditas, assim reza esta versão da história, teriam sido contra o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o futuro. Eram gente ignorante e dogmática que via uma máquina a vapor e tratava logo de a destruir com uma moca. Hoje, saltando da revolução industrial para a digital, seria a vez de os neoluditas fazerem o mesmo com portáteis, tablets, smartphones, aspiradores, frigoríficos e quaisquer outros dispositivos digitais assentes em IA. Dois mundos diferentes, um mesmo inexorável destino – o seu triste fim.

Mas será que esta leitura faz jus ao papel desempenhado pelos luditas no contexto da revolução industrial? Que lições dessa história podemos nós retirar para melhor lidar com as circunstâncias atuais? Que caminhos podemos trilhar para que a IA seja colocada ao serviço de quem vive do seu trabalho? Este é o exercício que pretendo desenvolver neste texto e, para isso, começo por recuar no tempo para delinear os contornos do movimento liderado pelo “general Ludd”, passando depois à leitura da IA enquanto campo de batalha político-ideológica, concluindo com algumas notas a propósito da necessidade de desenvolver um projeto socialista para a IA.

Rage Against the Machine, ou talvez não

Embora não seja clara a origem da expressão ludita e exista um interessante debate historiográfico em torno desta matéria e assuntos conexos, em “Luddite Lessons”1 remete-se para um conjunto de atos de sabotagem, motins e ataques variados levados a cabo na segunda metade do século XVIII, que se prolongam pelo século XIX, por parte de artesãos do sector têxtil que, percebendo que o capitalismo industrial ameaçava as suas condições de subsistência e não tendo qualquer instância de mediação e/ou representação política formal, optaram por seguir a via da ação direta e dos protestos violentos, que dirigiam tanto à maquinaria como aos barões da indústria. A sua atuação era geograficamente muito localizada e não existia nenhuma estrutura organizada que articulasse as lutas em todo o Reino Unido. Neste contexto, emerge a figura (provavelmente mitológica) de Ned Ludd, uma espécie de Robin Hood de uma classe trabalhadora que se debatia com inúmeras desigualdades e injustiças.

O ludismo é, por isso, a um tempo, sintoma de mal-estar e manifestação de descontentamento social. A sua acção não decorria de um qualquer delírio tecnofóbico ou hostilidade primária contra a maquinaria, correspondendo, isso sim, à manifestação de um sentimento profundo de injustiça relativamente àqueles – os patrões da industrialização – que enriqueciam devido à degradação das condições de vida dos trabalhadores (muitos deles artesãos ou camponeses convertidos em operários) e à apatia de governos que não demonstravam qualquer vontade de intervir com vista à regulação das relações laborais2. Tratava-se, por isso, de um projeto político e económico que, através de um repertório diversificado de práticas subversivas (para E. P. Thompson tratava-se de um movimento quase insurrecional3), procurou rebelar-se contra os efeitos da industrialização sobre as vidas concretas dos trabalhadores e melhorar as suas condições de vida. Pretendia, essencialmente, assegurar os meios de subsistência mais básicos como, por exemplo, acesso a alimentação e vestuário, e limitar o recurso ao trabalho infantil. Neste sentido, o seu contributo para despertar consciências em torno da necessidade de construir uma sociedade mais igualitária e de denunciar o custo humano da mudança económica não pode ser descartado como irrelevante.

Para os luditas, a máquina não era simplesmente um sofisticado artefacto tecnológico feito de diversas peças, roldanas, manivelas e pedais que importava destruir. Ela significava o lugar onde o poder se materializava, era o símbolo maior da concentração de poder obscena do grande industrial e, ao mesmo tempo, da perda de autonomia e controlo sobre o tempo da vida quotidiana por parte dos trabalhadores assalariados. Os luditas não eram, por isso, antitecnologia, mas sim militantes em prol de sociedades menos desiguais que, frequentemente, desencadeavam a sua ação na sequência de episódios pontuais de flagrante injustiça social (ex: despedimentos em massa, cortes salariais, colheitas pobres, etc.). Na verdade, tratando-se maioritariamente de artesãos, correspondiam às camadas sociais mais qualificadas e dotadas de competências técnicas especializadas. Longe de serem tecnologicamente incapazes, seriam provavelmente as pessoas mais capazes de levar a cabo uma crítica qualificada do desenvolvimento tecnológico e dos seus efeitos sociais, económicos, culturais e políticos.

Com efeito, como assinala Steven E. Jones em Against Technology: From the Luddites to Neo-Luddism2, como especialistas no uso da tecnologia do seu tempo, que era justamente aquilo que lhes permitia ganhar a vida, os luditas procuravam essencialmente proteger o seu direito à tecnologia e não, como na habitual caricatura depreciativa, advogar o regresso a um tempo idílico e pré-tecnológico.

Tanto os luditas, no passado, como os neoluditas, hoje, parecem desempenhar uma função social da maior relevância, contestando a noção de que o desenvolvimento tecnológico é um fenómeno natural e não produto de escolhas humanas.

Dois séculos volvidos e, em 2015, Stephen Hawking, Elon Musk e Bill Gates seriam co-nomeados para o Luddite Award por manifestarem publicamente as suas reservas relativamente à evolução da IA5. Destacadas figuras do pensamento contemporâneo como Rachel Carson, Jacques Ellul, Ivan Illich, Langdon Winner ou, mais recentemente, Evnegy Morozov seriam também merecedoras desse epíteto6. O simples facto de se manifestar cepticismo relativamente ao sentido do desenvolvimento tecnológico ou de se expressar algum distanciamento crítico relativamente a entendimentos meramente virtuosos da inovação, sem ter em conta os inúmeros riscos e potenciais consequências nefastas destes processos sócio-técnicos, leva à colagem de rótulos como, por exemplo, o de neoludita, que operam sobretudo enquanto dispositivos estigmatizantes que inviabilizam a possibilidade do diálogo, da crítica e, em última instância, do pensamento.

O ludismo, sublinha-se em Breaking Things at Work7, encerra em si uma perspectiva crítica da tecnologia, sobretudo no que diz respeito aos seus efeitos sobre os processos produtivos e as condições de trabalho – a tecnologia não é neutra, mas sim um campo de batalha –, rejeita a lógica do aumento da produtividade e da eficiência como fins últimos a alcançar e assume uma condição eminentemente contrária às relações sociais do capitalismo, independentemente de este assentar na máquina a vapor ou no microchip8.

Neste sentido, tanto os luditas, no passado, como os neoluditas, hoje, parecem desempenhar uma função social da maior relevância, contestando a noção ingénua de que o desenvolvimento tecnológico é um fenómeno natural e não o produto de escolhas humanas (políticas, institucionais, jurídicas, etc.). Para além disso, ao fazerem das estruturas e sistemas de poder o objeto do seu questionamento, manifestando preocupações existenciais sobre o presente e o futuro, contribuem para um entendimento mais abrangente do desenvolvimento tecnológico, criando as condições necessárias para que a politização do debate em torno da tecnologia possa ocorrer. Que é como quem diz, a disputa pelo poder.

(continua)


  1. Cassidy J (2025) Luddite Lessons. The weavers lost the fight to save their livelihoods. As A.I. looms, can we do better? The New Yorker, April 21, p. 20-24.
  2. Para aprofundar a compreensão sobre quem eram os luditas e como se organizavam ver, por exemplo, Bailey B (1998) The Luddite Rebelion. New York University Press.
  3. Verhttps://jacobin.com/2015/07/making-english-working-class-luddites-romanticism/ (acedido a 3 de maio de 2026)
  4. Jones S E (2006) Against Technology: From the Luddites to Neo-Luddism. Routledge, p.9.
  5. Disponível emhttps://theconversation.com/if-elon-musk-is-a-luddite-count-me-in-52630 (acedido a 5 de maio de 2026).
  6. Alonso A, Arzoz I (2021) El desencanto del Progreso: Para una crítica luddita de la tecnología. Editorial Dykinson, p.31.
  7. Mueller G (2021) Breaking Things at Work: The Luddites Are Right about Why You Hate Your Job. Verso Books.
  8. Ver, para uma crítica profunda do “capitalismo tecnológico”, Sadowski J (2025) The mechanic and the Luddite : a ruthless criticism of technology and capitalism. University of California Press.
Inteligência Artificial categoria-educação edicao-2026-05-21 (28)

A IA é mal-educada e escreve mal

Hoje, a entrada acelerada da Inteligência Artificial (IA) nas escolas e nas universidades coloca uma interrogação que já não pode ser ignorada. Não se trata apenas de saber se a tecnologia é útil ou inevitável. A questão é mais profunda e mais exigente: o que acontece à formação intelectual e cívica dos alunos quando escrever deixa de ser um treino e passa a ser uma delegação?

Durante séculos, educar significou introduzir as novas gerações no mundo da linguagem, da cultura e do pensamento crítico. Esse processo nunca foi imediato nem confortável. Exigiu tempo, esforço, erro, silêncio, diálogo e mediação. Aprender implicou escrever, reescrever, hesitar, discutir, apagar, rasurar e voltar a começar. A escrita não foi apenas um meio de comunicação nem um instrumento de avaliação: foi, desde sempre, o lugar onde o pensamento se organizou e ganhou forma.

Hoje, a entrada acelerada da Inteligência Artificial (IA) nas escolas e nas universidades coloca uma interrogação que já não pode ser ignorada. Não se trata apenas de saber se a tecnologia é útil ou inevitável. A questão é mais profunda e mais exigente: o que acontece à formação intelectual e cívica dos alunos quando escrever deixa de ser um treino e passa a ser uma delegação? O que acontece ao pensamento quando a língua deixa de oferecer resistência e passa a ser substituída por um texto fluente produzido por um algoritmo?

A IA generativa apresenta-se como promessa de eficiência, rapidez e produtividade. Porém, no contexto educativo, essa promessa tem um custo elevado. Ao substituir o processo pelo resultado, a elaboração pela fluência e o caminho pela resposta pronta, corre-se o risco de simular aprendizagem onde ela não aconteceu. O problema central deixa então de ser a fraude — facilmente denunciável — para se tornar algo bem mais grave e silencioso: a erosão das condições que tornam possível aprender a pensar.

Em Portugal, esta reflexão não começa agora nem se desenvolve afastada das práticas reais de ensino. O pensamento pedagógico de Philippe Meirieu tem sido amplamente estudado, debatido e apropriado no seio do Movimento da Escola Moderna (MEM), uma das correntes mais consistentes da educação democrática portuguesa. A par de Meirieu, o trabalho desenvolvido por Sérgio Niza é absolutamente central. Ao longo de décadas, Niza construiu uma ideia de escola assente na cooperação, na exigência intelectual, na responsabilidade do aluno e, sobretudo, no trabalho sistemático com a escrita como dispositivo de pensamento e de cidadania.

No MEM, escrever nunca foi entendido como tarefa acessória, decorativa ou meramente técnica. Escrever é trabalhar a experiência, dar forma ao pensamento, comunicar com os outros, negociar sentidos e assumir posições. Escreve-se em processo, com mediação, com leitura crítica, com sucessivas reformulações. Há aqui uma convicção forte e inegociável: ninguém aprende a escrever sem escrever e ninguém aprende a pensar sem enfrentar a resistência da linguagem.

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É neste horizonte que a crítica do pedagogo francês Philippe Meirieu à IA deve ser compreendida. Na tribuna “ChatGPT ou la parole morte”, publicada em 2023, Meirieu sublinha que o verdadeiro perigo da inteligência artificial não reside na fraude que permite, mas no tipo de relação com o conhecimento que promove. Um texto produzido sem percurso, sem conflito intelectual e sem autoria pode ser linguisticamente aceitável, mas é pedagogicamente pobre. A palavra surge sem sujeito, sem responsabilidade e sem história. Responde depressa, mas não transforma. Facilita, mas não forma.

Na tradição da Escola Moderna, esta crítica ganha um significado ainda mais profundo. A palavra viva, aquela que educa, não nasce pronta. É conquistada com esforço, erro, diálogo e tempo. Ao oferecer textos “corretos” sem processo, a IA dispensa exatamente aquilo que constitui o núcleo da aprendizagem: o trabalho formativo da escrita. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de reconhecer que ela elimina o esforço onde a educação começa.

A investigação científica recente confirma esta intuição pedagógica. Os estudos sobre o uso da IA em tarefas de escrita mostram menor envolvimento cognitivo, menor ativação neural e maiores dificuldades de apropriação do texto por parte dos alunos. Quando o pensamento é exteriorizado de forma contínua, deixa de ser treinado. Não é substituído, mas progressivamente desresponsabilizado. Escrever deixa de ser um exercício de construção intelectual e passa a ser um ato de consumo.

Perante este cenário, não basta interpelar professores e escolas. Os pais e encarregados de educação têm aqui um papel decisivo e insubstituível. A educação não é responsabilidade exclusiva da escola, nem pode ser delegada apenas e sistematicamente nos profissionais de ensino. Quando a IA começa a ocupar o lugar da escrita, do estudo e do esforço intelectual, estamos perante um problema que afeta diretamente a formação dos jovens enquanto futuros cidadãos portugueses, capazes — ou não — de pensar criticamente, de argumentar, de escrever e de participar na vida democrática, assunto cada vez mais preocupante e sensível.

Uma escola que abdica do treino da escrita abdica da formação do pensamento crítico. Uma universidade que aceita textos produzidos por algoritmos abdica da sua função intelectual.

É urgente que os pais questionem práticas, exijam reflexão e recusem a normalização acrítica do uso da IA como substituto do trabalho escolar e académico. É urgente que façam ouvir a sua voz junto das escolas, das universidades e do próprio Ministério da Educação, exigindo políticas claras, responsáveis e pedagogicamente sustentadas. Não em nome do medo da tecnologia, mas em nome da defesa da Educação como formação do pensamento, da responsabilidade e da autonomia.

Uma escola que abdica do treino da escrita abdica da formação do pensamento crítico. Uma universidade que aceita textos produzidos por algoritmos abdica da sua função intelectual. Uma sociedade que se conforma com isso abdica, silenciosamente, da sua democracia futura.

A resposta à IA não pode ser a proibição ingénua nem a rendição tecnocrática. Exige coragem pedagógica, clareza ética e envolvimento coletivo. Exige recentrar a escrita no currículo como prática regular e exigente, valorizar o percurso do pensamento, recuperar o tempo longo da aprendizagem e assumir que nem tudo o que é rápido educa.

O trabalho que os professores do Movimento da Escola Moderna continuam a desenvolver em Portugal constitui, hoje, um verdadeiro exercício de resistência pedagógica. Ao insistirem na escrita como treino, como processo e como formação ética do sujeito, lembram-nos que educar não é acelerar, mas cultivar. Pensar exige tempo. Escrever exige esforço. Educar exige coragem — da escola, das famílias e das políticas públicas.

Se a IA é “mal-educada”, não é por ser tecnologia. É porque entra numa escola e numa sociedade que correm o risco de esquecer aquilo que as funda. Defender o treino da escrita profunda, tal como a leitura profunda, é defender a educação, a cidadania e o futuro comum. É uma responsabilidade que não pertence apenas aos professores, mas a todos nós.

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Inteligência artificial e capital

Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?

ilustração: Ricardo ferreira

Quando, por ocasião dos 50 anos de Abril e Novembro, uma turma de estudantes universitários elaborou uma série de trabalhos sobre esse período, constatou-se que todos os grupos que haviam escrito sobre o 25 de Novembro, de diferentes formas, partiam do mesmo pressuposto: a ação militar dos “moderados” tinha posto cobro a um “golpe da extrema-esquerda”, tinha evitado “a guerra civil e a ditadura” e instalado “a democracia”.

Foi fácil verificar que essa era uma resposta-tipo fornecida por todas as mais populares plataformas de inteligência artificial generativa então disponíveis. Ou seja, todos os textos dos estudantes eram diferentes, mas nenhum deles escapava à premissa base fornecida pela engenhoca.

A aceleração dos ritmos industrializados de ensino-aprendizagem com que se fabricalizou o ensino superior (esquartejado em cadeiras semestrais, saturado por turmas extensas, sobreposições inevitáveis de conteúdos, testes, trabalhos, provas, exames…) inviabilizou qualquer possibilidade de discutir seriamente quer o 25 de Novembro, quer a parametrização em que os dispositivos de IA o enquadravam, como e porquê.

O episódio ilustra com eloquência a conhecida e disputada tese da não neutralidade da técnica, por oposição à ideia generalizada de que as “tecnologias” são em si mesmas neutrais, só os seus usos lhes determinam a bondade ou maldade. De há muito que uma longa tradição de autores vem sustentadamente combatendo este ponto de vista. Uma nova técnica, como lembrava, há décadas, Neil Postman, muda tudo.

No caso da chamada inteligência artificial, cúspide até aqui das possibilidades geradas pelo que Touring chamou ao computador, “a máquina das máquinas”, a proposta é perigosamente extremista. Completar a inteligência humana, chamemos-lhe “natural”, por um dispositivo protético que potencie a primeira sem ser esmagada pelo segundo.

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Há, inclusivamente, quem se dedique a especular pelo prisma da filosofia política até que ponto um uso “socialista” desta ferramenta não poderia resolver no futuro problemas que os esboços socialistas passados não conseguiram solucionar. Mas essa é uma variante do modelo de raciocínio sobre a neutralidade da técnica. Numa reflexão penetrante, Evgeny Morozov expõe, sobre a IA, um ponto de vista diferente. Para o autor de “Socialism After AI” (https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/), a técnica não é “uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior”, uma perspetiva que constitui uma cegueira a respeito do problema de saber onde se situa presentemente o poder.

O poder de criar mundos

Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.

A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.

Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.

Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.

Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.

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