O crescimento da produtividade desde 2022 deve-se mais a um uso mais intensivo de tecnologia existente após o fim da pandemia do que à introdução de IA. A adopção de IA tem aumentado, sim, mas ainda está muito longe do pico. A Goldman Sachs estima que possa demorar quinze anos a lá chegar; a OCDE aponta para vinte. Conseguirão as actuais empresas de IA sobreviver tanto tempo? Poderão as bolsas esperar tanto tempo sem a bolha rebentar antes?
ilustração: Ricardo Ferreira
A Alphabet (Google) anunciou em 22 de julho os seus resultados financeiros. À primeira vista, foram espectaculares: a facturação registou um aumento de 24%, crescendo a receita do negócio da “nuvem” 82%. O lucro por acção foi de 9,11 dólares, um valor muito elevado. No entanto, a base de mais de dois terços destes lucros foi a contabilização de 77 mil milhões de dólares de ganhos “não realizados” decorrentes da aquisição de acções da Anthropic, uma importante empresa de modelos de IA. Por outras palavras, os “ganhos” são apenas “no papel”: dependem de as acções da Anthropic continuarem em alta.
A Google é uma das chamadas empresas de hiper-escala, as mega-companhias tecnológicas que têm investido verbas imensas na IA na esperança e expectativa de que esse investimento gere fortes aumentos dos lucros no futuro.
O investimento da Google em IA injectou tanto dinheiro em empresas de IA como a Anthropic e a OpenAI e em centros de dados capazes de operar IA com dispendiosos “circuitos electrónicos” fabricados pela Nvidia, que as suas enormes receitas líquidas deixaram de cobrir o custo do investimento. Os “fluxos de caixa livres”, o nome usado na gíria, passaram a ser negativos pela primeira vez na história da Alphabet.
Este ano, a Google tem estado, tal como os seus rivais Meta, Microsoft e Amazon, a aumentar maciçamente o investimento em IA, construindo a respectiva infra-estrutura. As quatro “hiperscalers” estão, em conjunto, a caminho de gastar mais de 725 mil milhões de dólares em 2026. Até à divulgação dos resultados desta quarta-feira, a Google era vista como a hiperscaler em melhor posição para aguentar a “corrida ao armamento” em IA, conseguindo amortecer a pressão financeira graças aos fluxos de caixa provenientes do seu vasto negócio de busca. Porém, o ritmo a que está a queimar dinheiro para financiar o investimento em IA passa a impor-lhe recorrer ao endividamento e/ou à emissão de acções. A Alphabet já contraiu quase 100 mil milhões de dólares de dívida. Em Junho, avançou para a sua primeira venda de acções em mais de duas décadas, na mira de angariar cerca de 85 mil milhões de dólares adicionais.
Tudo isto nos indica que a “bolha” bolsista — é mesmo o que é — associada à IA está cada vez mais perto de rebentar. As empresas de hiper-escala são extremamente lucrativas em função dos seus actuais negócios, com lucros que estão cerca de 59 por cento acima da tendência. Mas os explosivos volumes de investimento em IA efectuados por estes hiper-escaladores são de tal ordem, que até esses lucros são sugados pela IA como água a evaporar-se no deserto do Saara.
Tudo isto nos indica que a “bolha” bolsista associada à IA está cada vez mais perto de rebentar.
Conforme se sustentou em publicações anteriores, a economia dos EUA é uma aposta de tudo ou nada na IA. O valor em bolsa dos hiper-escaladores representa agora cerca de 40% da capitalização bolsista total do índice S&P 500. Ao mínimo sinal de que, primeiro, eles não consigam sustentar o actual ritmo de crescimento de investimento; e, segundo, estejam a consumir os lucros sem obter retorno dos investimentos em IA, o valor das suas acções poderá cair a pique e arrastar consigo todo o mercado bolsista.
A economia capitalista dos EUA está suspensa em equilíbrio instável num vértice de IA. Tudo há-de correr bem se os modelos de IA passarem, primeiro, a ter muita procura e começarem a ser usados pelas empresas americanas e globais, assim insuflando rentabilidade nos hiper-escaladores e, subsequentemente, no resto do sector empresarial; e se, em segundo lugar, a difusão geral do uso de tecnologias de IA em todos os sectores da economia tiver também como corolário a aceleração dos níveis de produtividade, guindando porventura a economia dos EUA a uma nova era de prosperidade.
Antes do advento da bolha da IA, as tecnologias da informação americanas já eram o motor de um crescimento económico relativamente mais rápido nos EUA do que no resto das economias do G7, durante a Longa Depressão da década de 2010.
Contudo, na década de 2010, todas as economias do G7, incluindo os EUA, sofreram uma desaceleração do crescimento do PIB real, do investimento e da produtividade. Depois, passada a recessão da pandemia, a maioria das economias voltou a sofrer de inflação e a ver-se na iminência de um novo período de “estagflação” (crescimento lento ou nulo a par de inflação alta e acelerada), como não se via desde a década de 1970. Agora, a guerra no Irão volta a acelerar a inflação dos preços da energia. Apesar de taxas de juro baixas ou nulas e de injecções monetárias (quantitative easing), a política monetária dos bancos centrais não conseguiu, na década de 2010, reanimar as economias. E, desde 2020, a política monetária dos bancos centrais não está a conseguir impedir o aumento da inflação, mesmo recorrendo a taxas de juro mais elevadas (o BCE) e apertando a criação de moeda (o Banco de Inglaterra). A razão é esta: as economias só podem crescer sem a inflação aumentar se aumentar a produtividade do trabalho.
O novo presidente da Reserva Federal nomeado por Trump espera que a IA provoque um grande salto de produtividade. Afirma Kevin Warsh que “a IA talvez seja a mudança mais significativa na nossa economia desde que sou adulto. A IA vai ser uma força de desinflação considerável, aumentando a produtividade e reforçando a competitividade americana.” Mais considera ele que as melhorias de produtividade derivadas da IA impulsionariam “aumentos significativos dos salários disponíveis, em termos reais. Um aumento de um ponto percentual da taxa de crescimento anual da produtividade duplicaria os níveis de vida no espaço de uma única geração.” Tem razão. Mesmo um aumento de apenas 1 ponto percentual do actual crescimento da produtividade dos EUA ao longo de 20 anos não só comprimiria a inflação, como proporcionaria receitas capazes de pôr termo aos défices dos orçamentos públicos, sem necessidade de aumentar impostos nem fazer cortes de despesas. Os rácios da dívida pública sobre o PIB diminuiriam.
Mas trará a IA tal pulo da produtividade? De 2005 a 2019, o crescimento da produtividade nos EUA situou-se, em média, em cerca de 1,5% ao ano. O ritmo manteve-se igualmente lento durante e imediatamente após a pandemia (2020-2022). Ora, a produtividade do trabalho está em aceleração desde 2022. A produção por hora cresceu cerca de 2,5% ao ano do final de 2022 até ao início de 2026, excedendo em 1 ponto percentual o ritmo pré-pandémico.
Está então a IA a cumprir as expectativas? A maior parte da aceleração no crescimento da produtividade do trabalho advém da aceleração do crescimento daquilo a que a economia convencional chama produtividade total dos factores (PTF). A PTF não é algo real, que se possa medir; é simplesmente um resíduo matemático, depois de analisados os vectores do crescimento da produtividade. Mais trabalhadores a trabalhar mais, somados a mais máquinas a funcionar durante mais tempo: é isso que extrai mais produtividade do trabalho. A PTF é um resíduo, que se presume reflicta o impacto da “inovação” (por exemplo, da IA).
Mas o aumento da PTF nos EUA ainda não é fruto da aplicação de IA à economia. Segundo economistas do Barclays, a adopção de IA tem sido gradual e constante, não rápida e transformadora, continuando a maioria das famílias e empresas a declarar uma exposição limitada à tecnologia. O aumento do crescimento da produtividade desde 2022 deve-se mais a um uso mais intensivo de tecnologia existente após o fim da pandemia do que à introdução de IA.
Como o sabemos? Bem, os economistas do Barclays examinaram o Inquérito à População em Tempo Real (RPS) feito a nível nacional pela Fed de St. Louis junto de adultos norte-americanos em idade activa. O inquérito mais recente mostra que, embora a IA tenha entrado nas rotinas de trabalho de 45% dos inquiridos, o tempo de utilização da IA é minúsculo. Admitindo um dia de trabalho de oito horas, o inquérito mostra que o utilizador médio de IA passou de cerca de 20 minutos de utilização no final de 2024 para cerca de 30 minutos em meados de 2026. E o que não se sabe é se os trabalhadores estão a usar esses 2% do seu tempo de trabalho diário para serem mais produtivos em geral ou para verificar e corrigir o que quer que a IA produza… ou para relaxar!
A maioria dos inquéritos sobre a adopção da IA pelas empresas mostra, de facto, modesto progresso. O inquérito quinzenal “Business Trends and Outlook Survey”, da Repartição do Censo (US Census Bureau) dá apenas 21% das empresas a usar conscientemente IA, 69% declararam não a utilizar, e 11% não tinham a certeza! Um documento para discussão do Conselho de Governadores da Reserva Federal concluiu que “as tendências da produtividade aos três níveis têm-se mantido relativamente estáveis ao longo do tempo, sugerindo microganhos de produtividade sem resultado agregado”. Aparentemente, as experiências ao “nível micro” medem mais a produtividade ao nível da tarefa, por exemplo, a velocidade a que um programador produz código, do que a produção do posto de trabalho ou da empresa. Uma melhoria de 10% numa tarefa não implica necessariamente ganhos proporcionais para a empresa, se os custos de ajustamento ou outros estrangulamentos presentes noutros pontos do processo de produção comerem tais ganhos de produtividade ocorridos a montante.
A Reserva Federal dos EUA fez uma série de complicadas análises de regressão aos dados do inquérito RPS, concluindo não haver sinais de a IA estar a ter qualquer efeito positivo: as correlações entre as taxas de adopção ao nível sectorial e melhorias de produtividade são “estatisticamente indistinguíveis de zero”. Melhorias que se observem “tendem a ser mais reflexo da persistência de diferenças inter-sectoriais do que de uma aceleração determinável do crescimento da produtividade atribuível à IA”.
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No entanto, os optimistas da IA continuam a ser isso mesmo — optimistas. Apontam a “curva em J” que o impacto de novas tecnologias na produtividade geralmente descreve. Começa por haver um efeito lento, ou mesmo negativo, na produtividade enquanto as empresas investem muito na tecnologia. Depois é que há a explosão. Observou-se esse tipo de curva em J no crescimento da produtividade da indústria transformadora dos EUA, que caiu em meados da década de 1980, acelerando bruscamente depois da recessão de 1991 e até meados da década de 2000.
Só que mesmo essa visão optimista tem as suas condicionantes. Para começar, parece que os trabalhadores expostos à IA estão a resistir a usá-la. Um inquérito realizado em Abril pelas empresas de IA Writer e Workplace Intelligence — ambas com interesse comercial na adopção da IA — a 2400 trabalhadores do sector do conhecimento indicou que 29% dos empregados admitiram sabotar activamente a estratégia de IA da sua empresa. Entre os trabalhadores da Geração Z (com menos de 25 anos), esse valor chegou a 44%, contra 41% no ano anterior. Um inquérito separado da WalkMe a executivos e empregados de 14 países, realizado no mesmo mês, indicou que mais de 54% dos trabalhadores tinham, nos últimos 30 dias, evitado as ferramentas de IA da empresa e realizado o trabalho manualmente. Os responsáveis pelo inquérito concluíram que o que está por trás desta resistência activa e passiva, e mesmo passiva-agressiva, é um “medo de obsolescência”. Da mesma forma, The Economist relatou como, após um pico inicial, a utilização da IA pelos trabalhadores norte-americanos diminuiu, ao esmorecer o entusiasmo inicial.
No início do século XIX, no alvorecer da revolução industrial na Grã-Bretanha, um grupo de tecelões qualificados tentou por vários meios resistir à introdução da tecelagem mecânica, inclusive sabotando e destruindo máquinas. Chamaram-lhes luditas. Ao que parece, uma nova forma de ludismo está a reaparecer com a IA. Tal como os luditas tinham boas razões para querer proteger a fonte da sua subsistência, também os trabalhadores da Geração Z as têm agora.
Os optimistas da IA Erik Brynjolfsson, de Stanford, e ADP Research estão a rastrear 4,6 milhões de trabalhadores de mais de 730 profissões no seu Canaries Dashboard. Observam uma contracção de mais de 4% ao ano dos postos de trabalho para trabalhadores com idades entre 22 e 25 anos em profissões expostas à IA. Uma análise da Goldman Sachs indica que os sectores mais bem colocados para extraírem ganhos de produtividade cedo são os da informação, serviços profissionais, seguros e sector financeiro — ora, é exactamente nestes sectores que os inquéritos à “sabotagem” encontram taxas de resistência mais altas.
A economista americana da Goldman Sachs Elsie Peng é adepta da tese da curva em J para o caso da IA. O seu estudo sobre a adopção de tecnologia pela indústria observa um puxão ligeiro nos primeiros quatro anos, mas ganhos estatisticamente significativos só após oito, e um impacto máximo de cerca de 0,6 pontos percentuais ao 12.º ano. Admitindo o lançamento do ChatGPT em 2022 como o equivalente da estreia do computador pessoal em 1981, a curva em J apontará para que o “grande prémio” da produtividade só apareça, na melhor das hipóteses, por volta de 2030, atingindo o auge por volta de 2034. Pela análise de Peng, só quando uns 50% das empresas adoptaram tecnologias de informação e comunicação (TIC) terão aparecido aumentos significativos da produtividade do trabalho fruto dessa tecnologia. Não quando a compraram, nem quando fizeram pilotos com ela. Quando a adoptarem no seu funcionamento básico.
A “curva em J” de Peng faz eco do argumentado pelos economistas da OCDE há já algum tempo: que as tecnologias transformadoras, depois de desabrocharem, demoram, historicamente, cerca de 20 anos a surtirem ganhos significativos de produtividade ao nível macroeconómico. A manter-se tal padrão no caso da IA generativa, ela não vai render a sério antes do início ou meados da década de 2030, ou mesmo mais tarde. Há, assim, um longo caminho a percorrer até que a generalização da IA seja capaz de trazer um aumento significativo da taxa de crescimento da produtividade do trabalho.
O pulo do crescimento da produtividade em que deposita todas as suas esperanças o presidente da Reserva Federal, Warsh, ainda parece vir longe. Então e os lucros? Para já, toda a facturação que as empresas de modelos de IA estejam a gerar fica muito, muito aquém dos custos de investigação e desenvolvimento da IA e de construção de centros de dados pelo território dos EUA fora. Mais: a Goldman Sachs estima que cada dólar de investimento em equipamento de TIC requer, pelo menos, mais 1,70 dólares de investimentos complementares “intangíveis” — em software, sistemas de dados e na categoria mais difícil de medir: reorganização. A procura do uso de centros de dados é actualmente 15 vezes inferior à capacidade destes.
E a dívida vai-se acumulando. A Bloomberg estima em mais de 500 mil milhões de dólares a dívida vincenda relacionada com centros de dados de IA. A Nikkei Asia noticiou esta semana que Meta, Google, Amazon, Microsoft e Oracle acumularam, nos últimos cinco anos, cerca de 1,65 biliões (triliões americanos) de dólares em dívida vincenda, a que acrescem mais umas centenas de milhares de milhões de dólares em dívida “fora do balanço”, portanto dívida que a estrutura do grupo empresarial permite à empresa não contabilizar no passivo.
Receitas que empresas do género da OpenAI e da Anthropic estejam a colher provêm apenas dos investimentos que as empresas de hiper-escala fazem no seu negócio. A utilização do ChatGPT ou do Claude não está a dar lucro nenhum. Parte da razão é que as empresas de IA não têm cobrado aos utilizadores o verdadeiro custo das unidades de computação usadas (tokens). As empresas de IA estão, por isso, a tentar fazer passar os consumidores de tarifas fixas para preços por uso. Só que o resultado tem sido um aumento exponencial do custo que as empresas utilizadoras têm de pagar para usar IA, de maneira que, vendo as facturas de IA a inchar, elas estão a largar a política de maximização das unidades de computação (token maxxing) e a passar a uma política de racionamento das mesmas. Acresce que as empresas norte-americanas estão a passar a usar modelos de IA de “código aberto”, provenientes da China, que quase conseguem igualar o desempenho dos modelos norte-americanos, mas a uma fracção do custo.
Primeiro, foi o DeepSeek a cair como uma bomba no sector, no início de 2025. Agora há o modelo mais recente da IA chinesa, o Kimi K3, recém-lançado pela startup Moonshot AI, sediada em Pequim. Os modelos chineses são 112 vezes mais baratos do que os da Anthropic por milhão de unidades de computação (ou seja, pelo preço do “barril de inteligência”). Um token custa 56 dólares na Anthropic, 26 dólares na OpenAI, 1,50 dólares na Meta, 1 dólar na xAI e no Google, e 0,50 dólares nos modelos chineses. Não admira, assim, que a proporção de unidades de computação usadas por empresas norte-americanas que recorrem a modelos de IA chineses tenha chegado ao valor recorde de 58%. As empresas norte-americanas passaram a usar mais os modelos de IA chineses do que os desenhados nos EUA.
Os optimistas não desistem, porém. Alguns remetem para o chamado paradoxo de Jevons, segundo o qual os incrementos de eficiência (devidos à IA) farão aumentar a procura, do mesmo passo que vai caindo o custo unitário do gasto com IA. Daí resultará a tal rentabilidade de que as empresas de IA andam à procura e que as bolsas esperam. Contudo, nas apresentações de resultados do primeiro trimestre de 2026, apenas 2% das empresas do índice S&P 500 mencionaram produtividade relacionada com a IA. Entre as que o fizeram, a tónica esteve quase sempre na redução de custos, não no aumento da facturação. Muitas são, pois, as dúvidas quanto às expectativas de transformação de investimentos da ordem das centenas de milhares de milhões em lucros — em facturação, nem se fala.
A aposta na IA assenta em duas grandes hipóteses. A primeira é a IA — acabar por — ser lucrativa. Só que não é por uma tecnologia surtir um grande aumento da produtividade que ela dá forçosamente um retorno robusto. A segunda hipótese é haver, e haver rapidamente, procura generalizada de IA. A adopção de IA tem aumentado, sim, mas ainda está muito longe do pico. Como acima se indicou, a Goldman Sachs estima que possa demorar quinze anos a lá chegar; a OCDE aponta para vinte. Conseguirão as actuais empresas de IA sobreviver tanto tempo? Poderão as bolsas esperar tanto tempo sem a bolha rebentar antes?
Daniil Borisovich Elkonin, Aprendizagem coletiva desenvolvimental: a ação de análise sonora e o conceito de estrutura da palavra
Pedro e João editores, 2026
A obra definitiva de D. B. Elkonin sobre a análise sonora da palavra está agora disponível para o público de língua portuguesa.
Organizado e apresentado pelo Prof. Roberto Valdés Puentes, Aprendizagem coletiva desenvolvimental: a ação de análise sonora e o conceito de estrutura da palavra desmonta a falsa ideia de que o método fónico tradicional é suficiente para garantir a apropriação da leitura e da escrita.
O que este livro oferece:
A crítica fundamental à aprendizagem coletiva tradicional (silabação e soletração), mostrando as suas limitações para o desenvolvimento da consciência fonológica.
O passo a passo da metodologia da análise sonora, onde a palavra é tomada como signo provido de significado, e não como soma de sons vazios.
O conceito de materialização da ação: como o uso de fichas (modelos concretos) permite à criança “ver” e “manipular” os sons da fala.
A demonstração de que a verdadeira alfabetização é um processo desenvolvimental, que promove simultaneamente a aprendizagem e o desenvolvimento das funções psíquicas superiores (atenção, memória, percepção).
Este livro não é um manual, mas um convite provocador para que os educadores repensem o lugar da palavra e da criança no processo de alfabetização. Uma contribuição inestimável para a pesquisa e a prática educacional no Brasil.
A educação e a aprendizagem de qualidade em escolas e universidades continuam, em Portugal, a ser essencialmente apanágio do sector público. Contudo, à medida que se expande a educação digital, o Estado e as escolas públicas estão a desviar cada vez mais fundos para empresas privadas com fins lucrativos.
ilustração. Rita Comedida
A educação digital regida pela IA prejudica a qualidade do ensino e da aprendizagem nas escolas e universidades. Mas não só. Está também a tornar-se num negócio muito lucrativo para as empresas privadas. Algumas das maiores multinacionais estão a drenar fundos públicos para tentar dominar a prestação de serviços e programas de educação digital.
O valor total de contratos públicos adjudicados pelo Estado ascende a cerca de 25 mil milhões de euros, na sua maioria provenientes do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Mais de 60% dos procedimentos concursais do país não foram sujeitos a concorrência de jeito. Destes fundos, Portugal afectou 500 milhões de euros ao programa Escola Digital. O primeiro cheque do PRR cobriu a aquisição de 600 mil computadores por um custo estimado entre 180 e 240 milhões de euros.
Embora o Governo português não publique um valor agregado único que especificamente identifique os contratos relativos a software privados de tecnologia da educação separadamente dos contratos de equipamentos, a totalidade do valor dos contratos públicos para a digitalização das escolas, infra-estruturas de TI e equipamentos digitais reverteu, na realidade, para empresas privadas (o Estado não fabrica nem equipamentos nem software).
O maior vector específico de contratos públicos tem sido o Programa Escola Digital. No âmbito do PRR, a Secretaria-Geral da Educação e da Ciência (SGEC) levou a cabo concursos públicos centralizados de grande escala dirigidos a fabricantes privados de hardware e a consórcios de telecomunicações. Por exemplo, só uma das fases iniciais de aquisição de 350 mil computadores portáteis e respectivos pacotes de conectividade à Internet 4G totalizou 126,8 milhões de euros.
No total, foram postos a concurso e adjudicados a entidades privadas, no âmbito desta iniciativa, mais de 1,05 milhões de computadores, a par de serviços de telecomunicações comerciais. Para manter esta infra-estrutura a funcionar, o Ministério da Educação mudou de lógica, passando a recorrer a concursos públicos descentralizados, directamente geridos por agrupamentos de escolas. Afectaram-se a agrupamentos locais de escolas mais de 15,3 milhões de euros exclusivamente para concursos públicos dirigidos a prestadores privados de serviços de reparação de TI e de equipamentos informáticos, para reparar ou substituir dispositivos individuais dos alunos. Fornecedores privados do sector electrónico captaram cerca de 122 mil euros em contratos especializados para periféricos escolares, como extensões digitais, auscultadores e encaminhadores (routers). A despesa com tecnologia é absorvida em primeiro lugar por grandes multinacionais e grandes integradores de TI nacionais, mas pequenas e médias empresas (PME) portuguesas conseguiram, mesmo assim, cerca de 62% da globalidade dos contratos públicos.
Têm operações nos serviços de educação portugueses algumas multinacionais de primeira plana. A Goldman Sachs apoia o acesso à educação digital em Portugal principalmente através da sua iniciativa de formação empresarial em linha Goldman Sachs 10,000 Women, que disponibiliza módulos de formação digital gratuitos traduzidos para português. Tem disponíveis, através de parceiros de aprendizagem digital, dez cursos empresariais essenciais, totalmente acessíveis em português, para dar resposta às necessidades de empreendedores locais.
O principal veículo de que a Vodafone se serve no domínio da educação digital em Portugal é o Programa DigitALL, iniciativa da Fundação Vodafone Portugal projectada para a promoção da literacia digital, da cidadania e das competências STEM nas escolas. O DigitALL integra competências técnicas, comportamentais e sociais nos ambientes escolares, com foco no pensamento computacional, na robótica, na electrónica, nas artes gráficas, na animação, na modelização e na inteligência espacial. O programa chega a dezenas de milhares de alunos em centenas de turmas, municípios e escolas em todo o país e conta com o apoio da Direção-Geral da Educação (DGE).
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A Vodafone não tira qualquer lucro directo do programa de educação digital. O Programa DigitALL está estruturado como “iniciativa filantrópica”, sem fins lucrativos. É oferecido a escolas públicas, professores e alunos portugueses de forma totalmente gratuita. Recorre a um fundo de investimento em competências digitais europeu, de âmbito mais vasto, no valor de 20 milhões de euros. O Vodafone Connected Education é, além disso, vendido a clientes institucionais (como ministérios da Educação, autarquias e redes universitárias privadas).
Embora, no papel, o programa DigitALL não gere lucro, nem por isso a Vodafone obtém menos, e significativos, benefícios comerciais indirectos do investimento na educação digital. Ao introduzir ecossistemas digitais nas escolas, a Vodafone toma posição como parceiro-chave para projectos de mais largo alcance em infra-estruturas estatais e no sector público.
A nível global, a Vodafone põe estas relações a render através do seu braço comercial, a Vodafone Business Ventures, que vende a ministérios da Educação pacotes separados, pagos, de “educação ligada” (que combinam conectividade, equipamentos e segurança). Fornecer recursos tecnológicos numa fase precoce cria à cabeça familiaridade com a marca em dezenas de milhares de jovens estudantes — que representam futuros consumidores de contratos de telefonia móvel e banda larga. Promover a literacia digital contribui para alicerçar a formação de uma população tecnologicamente mais capacitada. Ter um público com literacia tecnológica puxa directamente, a longo prazo, pela procura interna de serviços de dados avançados, assinaturas 5G e ferramentas na nuvem, o que se reflecte nas receitas globais dos serviços comerciais da Vodafone Portugal (1340 milhões de euros anuais). Um investimento de, no máximo, 20 milhões de euros não é nada comparado com as receitas futuras provenientes de alunos e professores.
A Vodafone não pede um preço-consumidor único e estático. Os preços são antes feitos à medida, segundo o volume, a região e os componentes modulares. Em vez de exigir às escolas, à cabeça, enormes gastos de capital com hardware e equipas de TI, a Vodafone estrutura o pacote digital como despesa operacional mensal por aluno/educador. Um pequeno colégio privado com 200 alunos paga uma tarifa por utente significativamente mais elevada do que uma autarquia regional que adquira licenças para 50 mil alunos de escolas públicas. As escalas de preços baseiam-se nos níveis de software e incluem custos com outros fornecedores, como o Microsoft 365 for Education e a Trend Micro Security, adicionados à factura da Vodafone. A Vodafone aplica descontos significativos à componente de dados destes pacotes educacionais, cujos preços têm, historicamente, andado por descontos de 50% em relação às tarifas comerciais normais.
Os pacotes de dados costumam ser vendidos por montantes globais antecipados e previsíveis (por exemplo, pacotes fixos de 6 ou 12 meses que incluem dados ilimitados e um dongle de Wi-Fi móvel) em vez de por excedentes mensais repetidos sem prazo definido, de modo a estarem sincronizados com os ciclos orçamentais das escolas. O custo do dispositivo físico (tablets ou portáteis) altera drasticamente o orçamento final do pacote. O custo do tablet é amortizado ao longo de um contrato comercial de 24 ou 36 meses. A escola paga uma tarifa fixa que cobre o aluguer do equipamento, os dados e a segurança dos terminais. Se a escola já dispõe de equipamento próprio, a Vodafone propõe uma tarifa de “conectividade” muito mais baixa.
As grandes gestoras de investimentos internacionais, como a BlackRock, têm empatado fundos de “capital de risco” na tecnologia educacional em Portugal. O capital de risco vai para plataformas de educação, ferramentas de avaliação baseadas em IA e centros de expansão de tecnologias de ponta. A Shilling Capital Partners é um dos mais destacados fundos de capital de risco de Portugal para a “fase de arranque”. A sua estratégia centra-se em produtos digitais altamente escaláveis, tendo recentemente apoiado a Luca, uma plataforma digital de currículos escolares baseada em IA que angariou numa ronda “série A” (ronda de financiamento inaugural) 8 milhões de dólares destinados à expansão além-Península Ibérica. A Bynd Venture Capital é uma empresa ibérica de fase de arranque muito activa, que refere a tecnologia educacional entre os seus principais sectores-alvo. O foco da sua actividade são cheques de arranque para plataformas de software transfronteiriças. A Armilar Venture Partners é uma empresa veterana de deep-tech que gere mais de 600 milhões de euros. Embora seja muito selectiva, avalia projectos de tecnologia educacional que tiram partido de sistemas de dados complexos ou de software infra-estrutural avançado. A MAZE é uma empresa de capital de risco de grande visibilidade, interessada nos impactos, com sede em Lisboa. Afecta capital especificamente a empresas tecnológicas que versam sobre indicadores sociais, o que lhe dá uma posição de etapa financeira preferencial para plataformas de tecnologia educacional centradas na igualdade de oportunidades, no reapetrechamento em competências e numa educação acessível. Depois, há a Portugal Ventures, uma empresa de capital de risco apoiada pelo Estado. Funciona como investidor de referência, fornecendo a start-ups tecnológicas da área da educação digital fundos para aquisição de partes de capital em “fase de arranque” variáveis entre 100 mil e 1 milhão de dólares. A Techstars Global, com sede no Porto, tem uma plataforma digital integrada de avaliação escolar (Intuitive), enquanto a Demium Capital tem actividade em Espanha e Portugal, dando muito apoio a fundadores de empresas de tecnologia digital na região.
Em consequência de tudo isto, Portugal possui um ecossistema em crescimento de empresas e start-ups especializadas em educação digital, plataformas de e-learning e tecnologia educacional. A LeYa é propriedade da Infinitas Learning, um dos grandes fornecedores europeus de produtos e serviços para a educação e a aprendizagem. Por detrás da Infinitas está a NPM Capital, uma investidor holandês de primeira linha, que apoia as aquisições regionais daquela no sector da educação digital em toda a Europa.
O programa estatal de educação digital para as escolas, no valor de 500 milhões de euros, já gastos, está para aumentar, tal como a canalização de fundos das universidades e das escolas para cursos digitais regidos por IA
A DreamShaper é, ao contrário da LeYa, uma start-up privada, cujos principais proprietários são os fundadores originais e investidores de capital de risco. Por funcionar segundo um modelo de start-up apoiada em capital de risco, a empresa partilha a propriedade com os fundos de investimento institucionais que financiaram a sua expansão global, nomeadamente a Alpac Capital, uma das principais empresas portuguesas de capital de risco, a InovaBRA e a divisão de capital de risco do grande banco brasileiro Bradesco.
A Bi-Bright é propriedade da Bi-silque S.A., um grande fabricante português com sede em Esmoriz (Aveiro). A Bi-silque é mais conhecida internacionalmente pela sua linha “Bi-Office” de material de escritório e escolar. Através da Bi-Bright, a empresa-mãe expandiu-se para a educação digital, combinando equipamento escolar tradicional com plataformas de software e tecnologias interactivas.
À medida que a IA e a educação digital se vão disseminando em Portugal, alarga-se também o papel das empresas privadas, das empresas de investimento multinacionais a empresas privadas de menor dimensão, passando pelos fundos de capital de risco. Toda a facturação e todos os lucros que elas obtêm advêm de contratos públicos com o Estado português ou directamente com as escolas.
A educação e a aprendizagem de qualidade em escolas e universidades continuam, em Portugal, a ser essencialmente apanágio do sector público. Contudo, à medida que se expande a educação digital, o Estado e as escolas públicas estão a desviar cada vez mais fundos para empresas privadas com fins lucrativos. O programa estatal de educação digital para as escolas, no valor de 500 milhões de euros, já gastos, está para aumentar, tal como a canalização de fundos das universidades e das escolas para cursos digitais regidos por IA — para poupar nos custos com força de trabalho humana. Mais lucros para as empresas privadas, menos empregos para professores, menos capacidade de aprendizagem dos alunos.
Na semana passada, o editorial do Maio deixava o seguinte “recado” à atenção de José Luís Carneiro e António José Seguro: com as próximas eleições legislativas agendadas apenas para 2029, daqui a três anos, iriam essas personagens “continuar a aguentar este Governo minoritário, que não faz outra coisa a não ser aplicar um programa que não foi sufragado pelos portugueses, que foi escondido de todos, e consiste, do pacote laboral à saúde e à habitação, em sacar dinheiro do erário público e dos nossos bolsos para despejá-lo nos bolsos de patrões e senhorios privados?”
Não era uma pergunta meramente retórica. Mas também não esperávamos que tivesse resposta tão rápida e explícita.
Recordemos o contexto.
23 de Setembro, Estado espanhol: a juventude subleva-se, com o apoio maciço da população, contra o despejo de Maricarmen, símbolo da transformação da habitação numa coutada dos fundos abutres e do seu negócio vil.
Uma semana depois, 30: o Governo Montenegro, com a abstenção activa do Chega, faz aprovar uma autorização legislativa para alterar o Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU) de modo a permitir criar incontáveis maricarmens nacionais.
À vista de todos, o Governo mostra-se decidido a legislar e governar, no essencial, com o Chega até ao fim da legislatura.
Ainda no mesmo dia, 30 de Setembro, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, anunciava, em entrevista ao Eco, tencionar propor à direcção do partido que os seus deputados se abstivessem na votação do Orçamento para 2027. Isto, porque o primeiro-ministro teria dado “sinais” e “garantias” quanto à revisão constitucional e outras condições prévias do PS.
É bom recordar que o Orçamento para 2027 vai plasmar as mais recentes ordens de Bruxelas e Washington para aumentar fortemente a despesa militar e cabimentar um aumento dos milhares de milhões em juros da dívida pública, estrangulando, “em contrapartida”, a contratação de funcionários públicos, reduzindo salários e pensões reais e prolongando a asfixia da escola, da saúde e do investimento públicos.
As “condições” do PS não tinham que ver com nada disto.
Adiante.
No 5 de Outubro, 116º aniversário da proclamação da República em Lisboa, o presidente Seguro fez um discurso invulgar. Deitando borda fora os habituais apelos nebulosos e solenes a “pactos de regime”, a entendimentos entre as “forças democráticas”, para resolver os “problemas das pessoas”, Seguro foi de uma clareza brutal: “Saúdo o Governo e o PS pelo caminho de aproximação” para o OE. “Oxalá outros partidos possam juntar-se” a tal “caminho de convergência” (RTP). Seguro mais avisou que queria absolutamente que o Governo se mantivesse até ao fim da legislatura: “Sem estabilidade política, não há resultados possíveis. Este é um bem que devemos preservar e uma vantagem competitiva” para chamar investimento.
O trio Montenegro/Seguro/Carneiro torna meridianamente clara a sua intenção: tudo fazer para que a coligação Montenegro/Ventura governe o país até às eleições de 2029.
Não há nada como a clareza, lá isso é verdade.
Também por isso nos permitimos chamar a atenção, não, desta vez, de Seguros e Carneiros, mas sim da generalidade da juventude e dos trabalhadores deste país.
Enquanto estas personagens cozinham ataques contra nós, considerem estes elementos de contexto, também eles muito informativos:
no Brasil, assistimos em directo, na primeira volta das eleições, às consequências dos compromissos de colaboração de classes em que a “esquerda” fez de estribo às políticas e políticos da direita burguesa (Lula governou com o vice-presidente Alckmin, homem de direita e seu antigo rival eleitoral, e com um congresso de deputados de direita): abrir caminho a que, a seguir, venha o político fascista;
no Estado espanhol e em França, assistimos e vibramos em directo, em contrapartida, com as consequências do levantamento independente e em massa da juventude e dos trabalhadores, que se começam a auto-organizar;
no Estado espanhol, o Governo de Sánchez viu-se obrigado a ir à gaveta buscar medidas tímidas, de que tinha desistido antes, para restaurar algumas protecções aos inquilinos; e, derrotadas estas medidas pela direita, tanto a espanholista como a “nacionalista” (catalã), Sánchez convoca eleições, para procurar canalizar eleitoralmente a revolta e evitar que as coisas se decidam na rua; entretanto, Maricarmen pôde regressar a casa e já não corre perigo de despejo;
em França, a mobilização em massa de milhares de estudantes liceais em centenas de escolas, com o apoio dos professores e da população, obriga o Governo Macron a declarar uma série de concessões significativas às reivindicações dos estudantes.
É verdade que, em todos estes locais, e também por cá, a procissão ainda vai no adro.
Mas os “sinais” que nós vemos não são os que veem Carneiro e Seguro: são que, se queremos impedir que se abata sobre as nossas cabeças já moídas o violento cacete que o Governo prepara, o melhor é não seguirmos o apelo à colaboração com os nossos verdugos.
Sigamos antes o exemplo da juventude e dos trabalhadores espanhóis e franceses.
Sigamos o exemplo das nossas próprias greves gerais contra o pacote laboral.
Em meados do século XIX, o avanço da produção industrial e a nova legalidade relativa para a ação operária criavam a possibilidade para iniciativas reformistas, oriundas da própria classe operária, dentro do sistema vigente. Nas condições criadas pela expansão mundial do mercado capitalista, setores de trabalhadores começaram a tentar contorná-lo, escapando ao destino cruel reservado à classe operária. Na Inglaterra, vinte e oito tecelões entraram para a história como os Pioneiros de Rochdale, iniciando o movimento que seria conhecido como cooperativismo, lançado em 1844 com a constituição da primeira cooperativa de consumo. Rapidamente, o cooperativismo estendeu-se para a Europa continental. Os dirigentes cartistas ingleses mais importantes criticaram-no de forma severa, o que não impediu que o cooperativismo progredisse de maneira cada vez mais rápida.
O cooperativismo era uma alternativa à luta de classes. Guido de Ruggiero, historiador liberal, resumiu assim o seu conteúdo:
“Marx imaginava a sociedade futura como unificada no trabalho, mas via a sociedade do seu tempo dividida em duas classes opostas, e acreditava acelerar a vinda da unidade estimulando em todos os sentidos essa cisão para provocar uma catástrofe resolutiva. Com isso acabou por agravar o mal presente sem conseguir aproximar o utópico bem futuro. Das suas lições os operários aprenderam só a parte que ensinava a organizar a luta contra o adversário, esquecendo ou perdendo da vista o facto de que, por cima de qualquer contingência da luta, existiu sempre uma mais elevada solidariedade de relações entre trabalho e capital... A realidade histórica, sempre mais rica e complexa do que a imaginação, criou eventos destinados a moderar ou desviar o impulso para a catástrofe final. Da própria organização do trabalho surgiu o movimento cooperativista que unificou, ainda em zonas muito restritas, as funções de capital e trabalho, fazendo os operários participarem dos frutos do seu capital”.
O problema consistia em que esse capital não era seu e em que, com o desenvolvimento capitalista, essas “zonas” se restringiram. No entanto, os seus inegáveis sucessos fizeram que um contingente significativo de trabalhadores se afastasse da luta de classes, e esse foi o motivo e o objeto da crítica dos socialistas cartistas ao cooperativismo.
Cooperativismo, sindicalismo e cartismo (ação política) mostravam diversas faces da ação operária. O cartismo antecipou debates posteriores do movimento operário, ao cindir-se em duas alas: 1) A ala partidária da força moral, confiante numa aliança com setores da burguesia e na pressão moral da justeza das suas reivindicações, que os levaria à vitória; esta ala baseava a sua ação no Sul da Inglaterra, onde predominavam os velhos trabalhos artesanais; 2) A ala partidária da força física, responsável pela organização das greves e convencida de que só a ação direta dos operários os levaria ao triunfo; a sua base de recrutamento era o Norte industrial, especialmente os operários de Manchester, núcleo da revolução industrial e do proletariado fabril moderno. A Carta, assim, antecipou debates ulteriores sobre reformismo e revolução. Em 1842, no auge do cartismo, foi feita uma petição que exigia o sufrágio universal e a resolução de problemas económicos prementes. Apesar dos três milhões de assinaturas que a acompanharam, a petição foi recusada pelo Parlamento inglês.
Nem a reforma eleitoral, nem o desenvolvimento do movimento cartista interessaram, porém, Robert Owen, para quem o sufrágio universal era uma simples “mania popular”. A pressão e a ação no Parlamento não obteriam, para Owen, alterações decisivas no sistema de produção, baseado na propriedade privada. Mas a classe operária era já uma presença incontornável no cenário político e social: na década de 1840, nas palavras de Eric Hobsbawm,
“a história europeia assumiu uma nova dimensão: o problema social, ou melhor, a revolução social em potência encontrava expressão típica no fenómeno do proletariado. Sobre a base de uma classe operária que crescia e se mobilizava, era agora possível uma nova e mais significativa fusão da experiência e das teorias jacobino-revolucionárias-comunistas com as socialistas-associacionistas”.
No cartaz de convocação da manifestação cartista de 10 abril de 1848, lia-se: “somos os escravos do capital, pedimos proteção para o nosso trabalho”. Do outro lado do canal da Mancha, a agitação operária encontrava também os seus veículos. Em 1840, na França, o sapateiro Pierre-Joseph Proudhon publicou O que é Propriedade?, panfleto de enorme repercussão, onde respondia à pergunta do título com uma resposta simples: “É um roubo.” Baseando-se em informações históricas, jurídicas e económicas, Proudhon procurava demonstrar que toda a propriedade tem na sua raiz um ato de roubo, atacando o conceito de renda, que seria o direito de exigir algo a troco de nada. Proudhon identificava uma parcela da população como produtores de riqueza (os trabalhadores) e outra como os seus usurpadores (os proprietários). Concluiu que a propriedade era impossível, só podendo existir como ficção jurídica imposta pela força através do Estado: os cidadãos só estariam livres da imposição da propriedade numa sociedade onde o Estado não existisse. Proudhon veio a ser, por isso, considerado o pai ideológico do anarquismo: ele, porém, era adversário de qualquer espécie de violência e do próprio conceito de revolução.
No seu relatório a respeito desse festival [comemorativo da proclamação da República Francesa de 1792], Engels escrevia que “atualmente a democracia é o comunismo.
No festival operário comemorativo da proclamação da República Francesa de 1792, celebrado em Londres em 1845, o manifesto de convocação declarou que “os democratas de todos os países desejam que a igualdade à qual aspirou a Revolução Francesa renasça na França e se estenda a toda a Europa”. No seu relatório a respeito desse festival, Engels escrevia que “atualmente a democracia é o comunismo. A democracia transformou-se em princípio proletário, princípio de massas”. A Liga dos Justos tinha organizado o festival junto com os cartistas ingleses e exilados revolucionários continentais. Em 1847, a última onda de atividade cartista conquistou a jornada de trabalho de dez horas: a primeira vitória “sindical” de alcance histórico da classe operária foi produto de um movimento claramente político. O Ten Hour Act culminou uma batalha de quase duas décadas (o Ten Hour Movement). A lei tornou-se possível graças à aliança tácita da burguesia industrial com a classe operária, em oposição à aristocracia latifundiária. Em troca da jornada de dez horas de trabalho, as classes trabalhadoras apoiaram os esforços dos representantes liberais para abolir a proteção cerealífera (o que era contrário aos interesses dos senhores da terra).
A restrição legal da jornada de trabalho enfrentou resistência dos proprietários de fábricas nos primeiros momentos da sua implantação. Muitos destes colocavam-se acima da lei, além de contarem com a recomendação dos juízes (originários da classe capitalista) para que os inspetores de fábrica do Estado fizessem “vista grossa à (não) aplicação da lei”. A “jornada de trabalho legalmente limitada”, segundo Marx, apenas “esclarece quando termina o tempo que o trabalhador vende e quando começa o tempo que a ele mesmo pertence”.
Em finais de 1848, depois do meeting de Kennington Commons, o movimento cartista já estava esfacelado e derrotado. No final dessa década, o movimento dividiu-se: os seus membros intelectuais e de classe média agruparam-se na Associação Nacional para a Reforma Parlamentar e Financeira; os seus membros operários, por sua vez, apoiaram a Associação Nacional da Carta (dirigida por Ernest Jones e George Harney) e a Liga Nacional da Reforma (dirigida por Bronterre O’Brien), ambas de programa socialista. Harney e Jones mantinham estreito contacto com os exilados operários e artesãos alemães, junto dos quais Marx e Engels gozavam de ampla influência.
Com o declínio e o fim do cartismo fechou-se a primeira etapa histórica do movimento operário, iniciada em 1795 e com centro na Inglaterra, durante a qual viveu e se desenvolveu a tradição de um radicalismo popular. Segundo Edoardo Grendi, “faltou a direção formativa e educativa de um partido político operário. Os frutos colhidos pelo sindicalismo só foram possíveis devido ao privilégio único (da Inglaterra) de uma economia imperial”.
A sua importância histórica pode ser medida pelo facto de ter lançado e dado uma base de massas a duas reivindicações centrais do operariado, que teriam influência decisiva em futuros movimentos e na própria estruturação contemporânea das sociedades capitalistas: a) a redução da jornada de trabalho; b) o sufrágio universal e secreto. Para Georges Rudé,
“o cartismo foi, de facto, um movimento popular rico e multifacetado, herdeiro de uma tradição política radical, mas também filho das más colheitas e da pobreza, das habitações precárias, da falta de saúde e do emprego que acompanharam o crescimento de uma nova sociedade industrial”.
O impacto das reivindicações cartistas, por outro lado, foi internacional, pois serviu de referência a movimentos operários de outros países. Em 1848, a questão do sufrágio universal foi um dos componentes da onda revolucionária que abrangeu toda a Europa. A redução da jornada de trabalho (para oito horas), por sua vez, seria a grande campanha em que se basearia internacionalmente a estruturação de partidos operários de massas. No entanto, a tentativa de usar o modelo sindicalista ou mutualista não somente para lutar por melhores salários, mas também para derrotar a sociedade existente e estabelecer uma nova, feita na Inglaterra entre 1829 e 1834, e durante o cartismo, fracassou, o que destruiu precocemente em Inglaterra o movimento proletário revolucionário, predispondo-o daí em diante para uma atuação reformista.
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A formulação programática mais transcendente foi o Manifesto Comunista, publicado em finais de fevereiro de 1848, em Londres, em língua alemã. Antes disso, Friedrich Engels tinha dado a conhecer um pequeno “catecismo” conhecido como Princípios do Comunismo. Marx levou os originais do “Manifesto” de Bruxelas, sua residência de exílio depois de expulso da Alemanha, para Londres, na última semana de fevereiro de 1848. A urgência foi ditada pela explosão da “revolução de fevereiro” em França. O Manifesto tinha sido encomendado pela Liga dos Justos, organização composta basicamente por operários e artesãos alemães exilados, ao próprio Marx. Quando o texto foi encomendado, em novembro de 1847, a opinião dominante era que a Europa estava em vésperas de uma revolução. Apesar do sentimento de urgência, Marx demorou a entregar o documento. No final de janeiro de 1848, a direção da Liga, residente em Londres, enviou a Marx uma carta impaciente:
“Informamos que o Comitê Regional de Bruxelas deverá proceder imediatamente à notificação do cidadão Marx de que se o Manifesto do Partido Comunista, cuja redação o mesmo consentiu em realizar, não chegar a Londres até terça-feira, 1º de fevereiro, maiores medidas serão tomadas contra ele. Caso o cidadão Marx não escreva o ‘Manifesto’, o Comitê Central exige a imediata devolução dos documentos que lhe foram cedidos pelo Congresso (da Liga dos Comunistas).”
A carta estava assinada por Bauer, Schapper e Moll, três operários alemães exilados em Londres, dirigentes da Liga. Marx apressou-se a concluir o documento solicitado. A publicação do Manifesto, em fevereiro de 1848, coincidiu com o início da esperada revolução. O “comunismo” diferenciava-se do “socialismo”, que era considerado uma doutrina burguesa identificada com os esquemas reformistas experimentais e utópicos dos ideólogos pequeno-burgueses. Os comunistas eram aqueles que estavam a favor do derrube revolucionário da ordem existente e do estabelecimento de uma sociedade igualitária. Em pouco mais de meio século tinha-se evoluído das primeiras e pequenas organizações operárias clandestinas até organizações maiores e à formulação de uma doutrina que propunha a constituição do proletariado como “classe dominante”. O movimento operário inglês não criou um modelo geral, mas evidenciou tendências e características que estiveram presentes em todos os países com desenvolvimento capitalista industrial. Desde os seus primórdios, o movimento operário (inglês, francês e alemão, nesta primeira fase da sua história) teve consciência de expressar as aspirações de uma classe universal.
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