a população trabalhadora e jovem vive uma situação insuportável, causada pelos baixos salários, pela impossibilidade de aquisição ou arrendamento de habitação resultante do império da especulação imobiliária — na qual estão pesadamente implicados os membros do governo e deputados da direita, como revelava o jornal Público de 19 de Outubro;
a esta situação se soma a destruição do serviço nacional de saúde, do ensino público e a degradação dos transportes públicos que os governos têm promovido, retirando à população trabalhadora grande parte dos direitos colectivos que lhes permitiam sobreviver apesar dos baixos salários e promovendo a vergonhosa super-exploração dos trabalhadores imigrantes, quer no trabalho quer nas inaceitáveis condições de habitação;
enquanto isso, a inflação não pára de subir, nomeadamente a dos combustíveis e da alimentação, reduzindo drasticamente o salário real da generalidade dos trabalhadores e o rendimento e a viabilidade de pequenos agricultores, artesãos e micro e pequenas empresas;
o projecto de OE 2027 apresentado pelo governo propõe reduzir o investimento público em 31% e, em particular, o da habitação em quase 70%; cortar o orçamento da saúde em mais de 250 milhões e aumentar o da despesa militar em mais de 500 milhões; aumentar a massa salarial da função pública 2,3%, o que representa um corte brutal do poder de compra dos funcionários; aumentar de 6.700 para 8.200 milhões os pagamentos de juros da dívida pública, grande parte da qual resultante da nacionalização dos prejuízos da banca privada, Banif, BPP, Espírito Santo, etc.; “desagravar” o IRS dos salários médios e mais altos em um a três cafés por semana, concedendo ainda mais subsídios fiscais aos grandes senhorios e fundos imobiliários (“rendas moderadas”) e empresas (redução do IRC); continuar a usar o excedente da segurança social, que representa salário diferido dos trabalhadores, para compensar o défice orçamental causado pelos benefícios concedidos ao grande capital e à finança que parasita a dívida pública;
esta situação ocorre e se agrava num quadro de guerras e genocídios que alastram pelo mundo, tendo-se o governo português comprometido com a NATO/UE a aumentar a despesa militar até 5% do PIB nos próximos dez anos (passando dos actuais seis mil milhões de euros (o dobro do que era há cinco anos) para algo como 25 mil milhões de euros — ou mais), contribuindo, assim, para o alastramento das guerras;
enquanto isso, se multiplicam os desastres ambientais e as agressões às populações do interior, como no Barroso, o negócio dos campos gigantescos de painéis solares, etc.;
a situação descrita afecta toda a população trabalhadora e praticamente toda a juventude que vive, estuda e trabalha em Portugal e nos demais países da Europa e do mundo,
a juventude e a população trabalhadora, em Portugal e nos países europeus vizinhos, está a revoltar-se e mobilizar-se em massa, com toda a justiça, sendo, porém, alvo de repressão violenta dos governos e forças policiais,
os sindicalistas, trabalhadores e jovens reunidos em encontro nacional da Plataforma Unitária de Sindicatos decidem:
manifestar a sua solidariedade incondicional com as mobilizações dos jovens e trabalhadores, em, Portugal, em França, Espanha, Itália, Alemanha e no mundo contra a guerra, pelo direito à habitação, por um ensino e saúde públicos de qualidade e salários, condições de trabalho e pensões que lhes permitam viver com dignidade; e apelar aos sindicatos e centrais para que se associem, apoiem e protejam as acções da juventude trabalhadora e estudantil pelo direito à habitação;
condenar com toda a veemência a repressão que o governo português fez abater sobre os acampamentos de jovens no Porto e em Lisboa e exigir o fim de toda a repressão das mobilizações de jovens e trabalhadores no nosso país e no resto da Europa e do mundo;
exigir a obrigatoriedade de declaração e publicação de todos os fogos devolutos e sua mobilização imediata para alojar as famílias trabalhadoras; exigir a retirada imediata da proposta de novo regime do arrendamento urbano e a revogação de todas as medidas da “lei Cristas”, exigindo o imediato alojamento condigno de todas as famílias trabalhadoras e famílias pobres e vulneráveis, incluindo as imigrantes — até lá ficando proibidos os despejos e congeladas as rendas, travando a sua insuportável subida;
exigir a expropriação dos fundos imobiliários e um termo à transformação da habitação, direito constitucionalmente garantido, num negócio milionário; fixação das rendas em função do rendimento das famílias, num máximo de 30%; garantia de alojamento digno de todas as famílias e lançamento imediato de um plano nacional de habitação, para isso usando as verbas previstas para a despesa militar, os benefícios fiscais para o patronato e o pagamento dos juros ilegítimos da dívida pública;
exigir um aumento geral de salários de 15% para compensar a inflação acumulada, um aumento imediato do salário mínimo para 1.100 euros e indexação automática dos salários e pensões a um cabaz representativo das despesas das famílias trabalhadoras, controlado pelos sindicatos; semana de 35 horas sem redução de salário; fim da precariedade; contratos de trabalho para todos; transporte para e do trabalho gratuito e garantido pela empresas dos trabalhadores de empresas com efectivos superiores a 50;
exigir o financiamento adequado do SNS, da escola pública e do transporte público e reverter todas as medidas tendentes à privatização da saúde, do ensino e dos transportes;
exigir a redução da carga fiscal sobre os produtos de primeira necessidade e combustíveis, onerar os produtos de luxo e expropriar os super-lucros dos operadores energéticos;
rejeitar qualquer tentativa de subversão da segurança social, que é património dos trabalhadores, e de entrega dos seus fundos aos mercados de capitais; e rejeitar qualquer tentativa de voltar a contrabandear, agora medida a medida, o pacote laboral do governo, que foi derrotado pelas nossas greves gerais;
apelar à rejeição do projecto de orçamento para 2027 e a que as centrais sindicais, CGTP e UGT, e todas as direcções sindicais, comissões de trabalhadores e ORTs preparem a greve geral para impedir a sua aprovação na Assembleia da República;
apoiar o apelo das centrais sindicais do Estado espanhol a uma greve geral pela habitação e apelar ao apoio das centrais e direcções sindicais e ORTs portuguesas;
apelar à unidade e convergência da luta de todos os trabalhadores e jovens europeus, com os seus sindicatos e organizações, contra as medidas do capital e de Bruxelas, que a todos afectam, e contra as quais se preparam, já em Novembro, mobilizações de grande envergadura e greves gerais no Estado espanhol, França, Reino Unido, Bélgica, Itália, Alemanha e outros países.
Não aceitamos o caminho da miséria e da guerra! A mobilização fraterna da juventude e dos trabalhadores dos países europeus e de todo o mundo pode e deve pôr fim à caminhada para o abismo económico, social e ecológico.
*Estiveram representados no encontro os seguintes sindicatos: SNPVAC (aviação), SITEU (enfermeiros), S.TO.P (profissionais da educação), STCC (call centres), STGSSP (grandes superfícies), STASA (indústria automóvel), Sindicato dos Estudantes e os movimentos sociais Solidários e Rede Ecossocialista, tendo participado individualmente sindicalistas de vários outros sindicatos. Estiveram presentes como observadores representantes da associação Habitação Hoje.
Continuamos a falar da violência policial como se não fosse normativa em vez de excepcional, com a particularidade de os alvos serem frequentemente os invisíveis.
Os episódios sucedem-se e são invariavelmente com pessoas em situação de fragilidade perante um poder cuja natureza tem sido a do abuso, uma vez que manter a ordem perante um mundo desordenado apenas poderia resultar em violência, sobretudo quando essa parece ser cada vez mais a única ferramenta disponível para as forças policiais.
Odair Moniz, Cláudia Santos, o episódio da esquadra do Rato, a morte de um cidadão marroquino em Olhão, os episódios frequentes na esquadra de Alfragide são os que estão frescos na nossa memória e aqueles que tiveram atenção mediática. A excelente investigação do podcast Fumaça sobre violência policial (https://fronteiradomedo.pt/) oferece uma perspectiva mais profunda, preocupante e que não é episódica, mas classista com expressões racistas e xenófobas.
Os espancamentos dos manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I às 3 horas da manhã foram justificados pela PSP, neste como na maioria dos casos, como resposta à provocação de um pequeno grupo. Não sabemos qual a provocação, mas sabemos, porque é habitual, que qualquer exigência de um direito é considerada provocação no momento presente. Além de apelidado como egoísmo pelo mesmo primeiro-ministro que nos aconselha a mentalidade Ronaldo como solução. Pois aqui estamos.
É assim em Paris, em Madrid e em Portugal.
Nem a estratégia nem o resultado são novos.
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Na era cavaquista – e Montenegro tem vindo a reproduzi-la, traduzindo a austeridade em autoritarismo – era frequente as manifestações terminarem em cargas policiais, sob o mesmo pretexto, o da provocação, da desordem e dos desacatos, invariavelmente com uma gritante desproporcionalidade de resposta perante pessoas desarmadas.
Dois dos pressupostos teóricos essenciais para a manutenção da democracia, cada vez mais representação do que representativa, têm vindo a ser sistematicamente corrompidos e a situação do Porto ilustra-o na perfeição.
A atitude totalitária, misto de laxismo e cesarismo de Pedro Duarte – análoga à de Montenegro e Moedas – ao declarar que seria implacável com os manifestantes, e a consequente brutalidade da polícia, devem no mínimo levantar suspeitas sobre a idoneidade da conduta de ambos os intervenientes e sobre a violação da separação dos poderes judicial e executivo.
O outro pressuposto é simplesmente o da igualdade.
Onde está a carga policial, a crítica política ou a aplicação musculada da lei quando a extrema-direita incorre em ilegalidades como a invasão de rádios, manifestações do grupúsculo 1143 ou simulações de assaltos?
Essa duplicidade de critérios assenta na polícia como ferramenta para reprimir protestos resultantes do colapso económico. Thatcher fê-lo frequentemente para impedir as greves dos mineiros precisamente no momento em que o neoliberalismo se começava a apoderar dos mecanismos democráticos, acelerando a sua necrose.
Essa cooptação das instituições, primeiro via promiscuidade económica, e depois asfixia, começa agora a ter inegáveis efeitos no nosso quotidiano individual, não apenas de forma puramente económica, mas na forma como isso impacta as relações de poder.
A crise da habitação é apenas a face mais visível do estado natural de crise variável do metacapitalismo, com vários outros picos simultâneos, como o custo de vida, a falência do SNS e do ensino, e esse carácter multifactorial eleva-a de crise para um ataque com várias frentes.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver
Se em 2008 a descodificação da situação era bastante mais clara, podendo resumir-se o problema ao resgate dos bancos associado à degradação das nossas condições de vida, agora o catálogo de bodes expiatórios permite ao Governo desviar o foco da estrutura para a conjuntura, culpando populistas como Trump e as suas réplicas e as guerras, remetendo-se para uma posição de incapacidade.
O ridículo desta emergência é estarmos reduzidos ao grau zero das exigências a uma democracia esvaziada orientada no sentido ascendente, funcionando como facilitadora e porta giratória para o mundo corporativo. A crescente e permanente ausência de Estado, sobretudo nas zonas periféricas, em situações de calamidade como a do comboio de tempestades ou na simples gestão da tríade saúde/educação/habitação, demonstra como as instituições públicas nos defendem apenas quando coagidas, mas sobretudo como a nossa capacidade de organização para lá das suas fronteiras as pode substituir com mais sucesso e celeridade.
A confirmação inequívoca da real ameaça ao poder político que o poder popular constitui é a mudança do discurso de Pedro Duarte e de Montenegro, trocando ameaças por vontade de negociar.
Nessa negociação reside a armadilha. As cedências serão feitas na exacta medida do necessário para desmobilizar pessoas suficientes para fragilizar os protestos, caracterizando-os novamente como prototerrorismo e estancando o descontentamento dos restos de uma classe média que acredita na sua restauração até à agudização seguinte, continuando a perda de direitos num mundo cujo progresso económico tem sido à custa do retrocesso social.
Não há maior evidência do desequilíbrio da relação de poderes do que na atitude institucional face à ocupação dos espaços públicos por manifestantes a exigir apenas o cumprimento das promessas, não de Abril, mas da democracia liberal, voluntariando-se para reunir os fragmentos desse sonho, reprimindo-os política e policialmente.
Simultaneamente, essas mesmas forças colocam-se voluntariamente na dependência das elites económicas que ocupam ilegal e permanentemente os espaços públicos de acesso às praias em locais como a Comporta e a Arrábida ou na destruição total de Covas do Barroso.
Tudo isto acontece num cenário rentista, extractivo, onde as gerações mais novas vivem pior do que os seus pais, apesar do alardear constante da boa saúde da economia, sem qualquer tradução nas nossas vidas, as dos seus deserdados.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver.
Desde a contra-revolução islâmica contra a verdadeira revolução de 1979, parte da esquerda nacional e internacional passou a subordinar a análise de classe e género à sua interpretação unilateral do anti-imperialismo. Os protestos das mulheres contra o uso obrigatório do véu, por exemplo, foram marginalizados, contribuindo inadvertidamente para a consolidação da ordem religiosa e patriarcal, que passou a ser apresentada como garantia de “autenticidade cultural”, sinal distintivo em relação ao Ocidente e marcador de independência nacional. Foi tomando forma uma narrativa dominante que vê a Revolução Iraniana exclusivamente pelo prisma anti-ocidental, assim apagando as forças laicas, feministas, queer, curdas, socialistas e outras forças progressistas. Esta ideologia é estruturalmente incapaz de reconhecer a legitimidade de lutas internas em Estados anti-ocidentais. Povos não ocidentais são reconhecidos unicamente como objecto do imperialismo ocidental; a experiência vivida, a memória colectiva e as subjectividades políticas de grupos subalternos — mulheres/comunidades queer, minorias étnicas e as classes populares — são sistematicamente depreciadas como distracções insignificantes ou invenções do Ocidente.
Após o colapso da URSS, em 1991, esta orientação subsistiu na forma de um terceiro-mundismo estatista: transferiu-se a lealdade às populações para a lealdade a Estados “anti-americanos”, subordinando-se os direitos das mulheres, das pessoas queer e das minorias à “unidade anti-imperialista”. Esta perspectiva, simultaneamente eurocêntrica e orientalista, ignora a subjectividade dos povos não ocidentais. Só leva a sério a violência que emana do campo dos EUA e recusa-se a reconhecer que as populações do Sul Global possam lutar genuinamente por direitos e liberdades democráticos.
A “unidade anti-colonial” transforma-se assim em autoritarismo nacionalista. E aceita a lógica de um “estado de emergência” aparentemente permanente: dá-se prioridade ao poder do Estado, à segurança e à influência geopolítica (por exemplo: “Lutamos na Síria para não termos de lutar em Teerão”).
O campismo transforma a memória anticolonial num instrumento de legitimação de Estados pós-coloniais autoritários. Faz do Estado o agente da resistência e priva os povos tanto da sua legitimidade como da sua subjectividade política. Trai, deste modo, memórias subalternas que tantas vezes se constituíram contra o próprio Estado. Paradoxalmente, Estados como o Irão são apresentados como “independentes do capitalismo global”, quando eles não deixam de ser máquinas de exploração interna e de militarismo, exactamente preocupadas em integrar-se no capitalismo global e em competir com outros Estados nesse palco.
É exactamente na sua relação com as margens colonizadas do Irão que esta lógica revela com máxima clareza a sua violência. O campismo não se limita a apagar a pluralidade das forças de oposição iranianas. Enraizado numa concepção quase colonial e securitária da soberania e das fronteiras, reproduz também hierarquias internas, relegando para segundo plano ou mesmo desqualificando as lutas étnicas curdas e de outros povos não persas. A este respeito, desde a jihad de 1980 contra o Curdistão até aos mais de 100 ataques recentes a partidos curdos iranianos exilados no Curdistão iraquiano durante a guerra, os campistas têm-se amiúde mostrado ainda mais hostis aos curdos do que o próprio governo iraniano, minimizando ou marginalizando a legitimidade da sua resistência.
Estas violências fazem parte de uma história mais antiga, agravada pelo apoio activo — ou pelo silêncio — de alguns actores do mundo árabe e de alguns segmentos da esquerda. O genocídio de Al-Anfal, levado a cabo por Saddam Hussein durante a Guerra Irão-Iraque, que custou a vida a cerca de 180 mil curdos simplesmente por causa da sua identidade, ilustra esta dinâmica. Ao trauma da repressão assassina acrescentou-se o apoio de parte do mundo árabe e a negação do genocídio por parte de intelectuais.
Mais recentemente, em 2018, a ocupação de Afrin, no Rojava, pelo Exército turco foi acompanhada de violência, expulsão e destruição sistemáticas. Em resposta, o chefe do Hamas, Khaled Mashaal, afirmou: “A vitória em Afrin é um símbolo da vontade da Turquia. Se Deus quiser, apresentaremos grandes epopeias em ajuda ao nosso povo”, antes de passar a elogiar a direcção do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan e do seu partido, o Partido da Justiça e Desenvolvimento, no poder há mais de vinte anos.
Estes acontecimentos produziram, infelizmente, uma ruptura duradoura nos laços entre as lutas curdas e as do mundo árabe ou persa, bem como com certas partes da autoproclamada esquerda anti-imperialista, que tantas vezes evitou reconhecer e apoiar a luta curda.
Instrumentalização estatal das sanções ocidentais
A recente guerra contra o Irão não apareceu de repente; foi longamente preparada por um regime de sanções que funciona como uma tecnologia imperial de produção de vulnerabilidade social, como já se tinha demonstrado no Iraque. As sanções não se limitaram a empobrecer a população, alimentar a inflação, corroer os cuidados de saúde e o emprego e enfraquecer as capacidades colectivas de resistência; ajudaram, também, a gerar condições favoráveis para a escalada militar. Confinando o país a uma economia eternamente sitiada, normalizaram o estado de excepção, consolidaram os aparelhos rentistas e securitários do Estado e passaram os custos da crise para cima das classes populares. Ao fazê-lo, prepararam o terreno tanto material como ideológico para a guerra: uma sociedade exausta, fragmentada e reduzida à luta pela sobrevivência fica mais exposta a projectos de militarização externos. As sanções mostram, assim, o que realmente são: não uma alternativa à guerra, mas uma das suas formas preparatórias.
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No entanto, se bem que reais e devastadoras, as sanções não são, por si só, responsáveis pelas condições de vida indignas num país rico em recursos como o Irão. Contra as leituras “campistas” que reduzem todas as formas de desigualdade social no Irão às sanções ocidentais, a análise também deve enfrentar a economia política do próprio Irão: uma ordem capitalista marcada por uma privatização dura, precariedade laboral generalizada — a informação disponível indica que mais de 90 por cento dos contratos são temporários — e um regime de dominação e privação organizado internamente, sustentado em parte na exploração extrema e na expropriação de trabalhadores racializados e indocumentados, especialmente afegãos e baloches. Para os campistas, os protestos populares no Irão são interpretados como descontentamento económico, causado inteiramente pelas sanções, obscurecendo, assim, o papel central das políticas do próprio Estado. Uma consequência desta lógica campista é que, ao minimizar a dinâmica real da oposição interna à República Islâmica, ela estabelece uma falsa equivalência, assente na transviada noção de que tal “descontentamento económico” está em consonância com o projecto reaccionário pahlavista de mudança de regime por cima. Ao contrário do que afirmam os campistas, opor-se à mudança pró-imperialista de regime não passa por rejeitar ou deslegitimar a revolta interna contra a República Islâmica.
Não se pode atribuir a pobreza generalizada no Irão unicamente às sanções; ela mergulha igualmente raízes numa economia política rentista e na monopolização das importações, ambas instrumentalizadas pela República Islâmica. As suas políticas de segurança e regionais não são simplesmente reacções à pressão externa. Pelo contrário: tais políticas são parte integrante da lógica de sobrevivência do Estado, canalizando recursos para instituições coercivas e projectos ideológico-militares, enquanto a população fica exausta e empobrecida. Como argumenta Kayhan Valadbaigi, as sanções ajudam a intensificar a concentração de riqueza na oligarquia, consolidando as estruturas de poder. Passam os custos para cima dos mais vulneráveis, justificam a repressão e enriquecem ainda mais a oligarquia. As políticas de choque económico — flutuações para o dólar, eliminação da taxa de câmbio preferencial — apresentam-se como medidas calculadas de “sobrevivência” num contexto de vulnerabilidade.
Além disso, os campistas apagam a violência da República Islâmica contra o povo. Assassinatos, tortura, execuções, disparos sobre feridos em hospitais e ataques a cerimónias fúnebres são ignorados ou negados e, assim, legitimados. Apoiando uma teocracia autoritária e anti-imperialista, esvazia-se a linguagem da emancipação de todo o conteúdo real.
Deixem de julgar uma causa pela forma como é instrumentalizada
A propagação do campismo autoritário faz-se em grande parte pelas redes sociais. Aí, a legitimação de Estados autoritários entrelaça-se com um anti-ocidentalismo redutor e, em alguns casos, com anti-semitismo e padrões de pensamento conspirativos.
Apesar das assimetrias objectivas entre Israel (apoiado pelo Ocidente) e a República Islâmica (sob sanções ocidentais), mecanismos políticos e simbólicos semelhantes operam para ambos: bandeiras dos EUA e de Israel em certos comícios “pró-Irão”; bandeiras do Estado iraniano (ou da República Islâmica) e retratos de Ali Khamenei em algumas mobilizações pró-palestinianas. Todos estes gestos são susceptíveis de transformação de lutas legítimas em justificações para a violência, ao mesmo tempo que desacreditam tanto a resistência iraniana como a palestiniana. A mesma lógica se aplica à agora famosa palavra de ordem “Mulher, Vida, Liberdade” (Jin, Jiyan, Azadî). Apropriada pela extrema-direita ocidental, pela extrema-direita iraniana na diáspora e por correntes pró-genocídio, tem sido instrumentalizada para apoiar a violência militarizada.
Esta lógica não é específica ao Irão. Como David Brophy argumentou em relação ao Xinjiang, há partes da esquerda internacional que têm tratado a repressão dos uigures e de outros povos muçulmanos menos como uma questão de direitos nacionais e violência estatal do que como um problema de propaganda, financiamento ou manipulação geopolítica ocidental; no caso de Vijay Prashad e Tings Chak, esta postura desculpabilizadora chegou ao ponto de se basear em fontes fabricadas, aparentemente geradas por IA. Mas a instrumentalização cínica dos direitos humanos pelos Estados ocidentais não torna menos real o sofrimento a que tal linguagem se reporta.
Sabemos perfeitamente como movimentos progressistas e radicais do Sul Global muitas vezes acabam apropriados pela direita, uma vez divulgados no Ocidente. Mas esse processo não nos pode fazer abandonar o dever de solidariedade. O caso do movimento queer ilustra-o bem: o “branqueamento cor-de-rosa” por Estados como Israel não anula nem a força emancipatória da queerness nem a necessidade de solidariedade com queers que enfrentem repressão seja em que contexto for. A legitimidade de uma resistência depende unicamente do seu conteúdo emancipatório e da sua implantação entre os oprimidos, nunca da sua apropriação.
O campismo contribui de formas muito concretas para a perpetuação de injustiças históricas e contemporâneas. Pela dispersão e fragmentação cria um vácuo político, que é gradualmente preenchido pela direita e pela extrema-direita, tanto na região como em todo o mundo. A extrema-direita iraniana na diáspora ocupa este vácuo, simplificando a revolução e diabolizando o “anti-imperialismo”. Pode, deste modo, apresentar-se como única força de mudança. Homogeneizando artificialmente populações inteiras (“Todos os ucranianos que resistem à Rússia são nazis.” “Todos os revolucionários sírios são jihadistas.” “Todos os iranianos que se revoltam apoiam Israel ou os monárquicos.”), o campismo torna-se cúmplice da ascensão das forças imperialistas e reacionárias.
A extrema-direita é extrema-direita em toda a parte
Na Europa, nenhuma esquerda coerente aceitaria aliar-se às bandeiras da extrema-direita com o argumento de que uma potência inimiga estava a atacar o país. No entanto, para o Irão, alguns consideram aceitável exigir que os Iranianos se apaguem e alinhem atrás de forças reaccionárias, nacionalistas, fanáticas e até fascizantes. Implícito em tal assimetria está, na prática, que os povos do Sul Global devam contentar-se com uma escolha entre dominação imperial e barbárie interna. Ora, precisamente, a República Islâmica é um Estado que deve ser chamado pelo que é: uma formação fascizante, uma extrema-direita não ocidental, especialmente no que diz respeito a minorias étnico-nacionais e aos imigrantes afegãos.
Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte.
A recente declaração “antiguerra” sobre o Irão expõe o impasse político do “campismo”: um discurso antiguerra que permite que certos segmentos da esquerda convirjam com meios fascistas, anti-semitas, neonazis e conspiracionistas. A declaração reúne signatários de meios políticos aparentemente opostos: por um lado, figuras anti-guerra campistas “descolonizadoras”, como Vijay Prashad, Sandew Hira, Ramón Grosfoguel, Boaventura de Sousa Santos, Munyaradzi Mushonga, Ajamu Baraka, Nordine Saïdi e Paulina Aroch Fugellie; e, por outro, uma série de figuras — incluindo Dieudonné, Alain de Benoist, Thomas Werlet, Jean-Michel Vernochet, Christian Bouchet, Marion Sigaut, Jacob Cohen, Pierre-Antoine Plaquevent e Arnaud Develay —, bem como organizações como a RN, Égalité & Réconciliation, L’Œuvre française e o Mouvement France Résistance, todas associadas a correntes conservadoras, de extrema-direita, nacionalistas ou fascistas. Esta justaposição ilustra como uma forma puramente geopolítica de anti-imperialismo se pode tornar compatível com a política de extrema-direita. Neste contexto, o regime iraniano e o seu criminoso chefe supremo, Ali Khamenei, ressurgem nas vestes de “voz contra a arrogância e o terrorismo”, enquanto, sob a bandeira da política anti-guerra, se normaliza uma tolerância profundamente preocupante para com a violência dos Estados pós-coloniais contra as suas próprias populações.
A coerência política exige recusar, tanto para os Iranianos como para qualquer outro povo, qualquer instância de acomodação do fascismo em nome de um “mal menor” geopolítico. Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte. Assim como não marchamos com os fascistas, nem debaixo das bandeiras deles: lutamos contra eles, mesmo quando eles se apropriam do vocabulário da liberdade para lhe inverter o significado.
Identicamente ao estalinismo, que tanto contribuiu para desacreditar o socialismo, o “campismo” no Irão enfraquece a esquerda e fortalece a extrema-direita. Aprofunda, enquanto isso, a divisão Norte-Sul e legitima a repressão de movimentos anti-tirania no Sul. O resultado é o isolamento das forças emancipatórias, a desconfiança dos exilados para com a esquerda, no Norte (incluindo as correntes da descolonização) e o colapso da solidariedade internacional.
O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.
As prisioneiras feministas curdas condenadas à morte na prisão de Evin são capazes de manifestar a sua solidariedade com a resistência palestiniana — mesmo correndo o risco de perder parte do seu apoio no Irão. Já os anti-imperialistas autoritários e identitários se mostram, instalados no conforto do Ocidente ou de outro sítio, incapazes de demonstrar solidariedade comparável com as lutas populares no Irão. Chegam, o que é ainda mais grave, a negar ou duvidar da verdadeira dimensão do sofrimento.
É urgente deixar o “campismo” para trás. Caso contrário, não se conseguirá reconstruir uma esquerda genuinamente emancipatória nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular, como tentam fazer redes como a Peoples Want. O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.
1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.
A intervenção policial no Porto e em Lisboa na noite de 24 para 25 de outubro para desmobilizar as manifestações contra a crise habitacional foi mais um capítulo do uso do aparelho coercivo do Estado em benefício de uma classe exploradora e rentista.
Politicamente morto, o ministro Luís Neves é a representação do que de mais podre existe neste sistema: alguémque se serviu durante anos da sua posição no poder estatal para beneficiar economicamente e que encabeça agora uma operação violentíssima e desproporcional contra manifestações pacíficas. Fá-lo como prova de vida e para rogar o perdão do Chega, que contra ele fez obsessiva campanha durante todo o verão, para agora se deixar seduzir pela sua ação autoritária.
Esta deriva não devia ser surpresa. A elite económico-financeira defende à bastonada os seus interesses, a história demonstra-o. Neste caso, essa elite está não só a influenciar a cúpula governativa, como está ela mesma lá instalada: veja-se o património imobiliário daqueles que nos pedem mais sacrifícios ou para largarmos o “egoísmo”.
Não se agride só a luta pela habitação e as garantias constitucionais que nos restam, mas a experiência verdadeiramente democrática das assembleias populares que, em pequena escala, envolve politicamente as novas gerações, ao contrário do sistema farsante desta república oligárquica. Quando convidado para discursar nas comemorações do 10 de junho de 2019, o inenarrável João Miguel Tavares, passista amargurado e representante da miséria moral e intelectual do “comentariado” mediático, clamou poeticamente à classe política: “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Agora que os jovens acreditam na construção de uma alternativa ao Estado económico e social que nos sufoca, é o mesmo pobre Tavares que, paradoxal mas significativamente, se levanta, não contra a emergência habitacional, mas contra as acampadas e as ideias “comunistas” que lá detetou.
A passividade de António José Seguro perante um dos mais visíveis atropelos às liberdades civis desde abril de 1974 é também um lembrete para os que encostam a esquerda à ditadura do voto útil e do mal menor. Abdicamos da construção de alternativas políticas em nome da defesa da democracia… e levamos bastonadas.
A revolta deve traduzir-se em formulação política. Não queremos defender o statu quo das sádicas alterações ao NRAU aprovadas recentemente pela direita. Queremos que o statu quo seja radicalmente transformado. Urge controlar as rendas e a compra do nosso parque habitacional por investidores e fundos especulativos estrangeiros (e nacionais) e a ampliação da habitação pública, por via de mais construção, recuperação e expropriação de imóveis sem utilidade social.
Apresentemos propostas, pautemos o debate, construamos uma alternativa que conquiste a maioria social.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome masculino que designa 1) conversa entre duas ou mais pessoas; 2) troca de ideias ou opiniões com o propósito de chegar a um entendimento; 3) Em literatura, teatro, televisão, cinema: conjunto das falas ou réplicas ditas em discurso direto pelas personagens de uma obra.
EM NOVILÍNGUA:
Doze longos dias depois de a polícia de choque ter dialogado com os manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I, no Porto, com argumentos contundentes, que deixaram dezenas de feridos, o PR António José Seguro finalmente decidiu expressar algumas ideias, quem sabe talvez mesmo uma opinião, afirmando que “a cultura portuguesa é de diálogo, não é de violência nem de confronto”. Mas logo acrescentou, sem nunca condenar a atuação policial, que “para exercermos a liberdade, temos de nos respeitar todos e, para nos respeitarmos todos, temos de cumprir a lei”. Ora a lei, e acima dela a Constituição, já o esclareceram dezenas de juristas, está do lado dos manifestantes, não da polícia. Atrás de quem se esconde outro “desaparecido”, o PM Luís Montenegro, que lá afirmou que "o Governo está sempre disponível para dialogar". O diálogo, ora aí está. Diálogo em que o porta-voz de PM e PR é a polícia: os manifestantes falam de habitação, a polícia responde com o bastão. ASP
A Frente Sindical pela Defesa do Trabalho (FSDT) decretou uma greve geral de 72 horas entre 21 e 23 de outubro. Os sindicatos reclamam a redução do custo de vida, melhoria das condições de trabalho, proteção social e maior respeito pelos direitos dos trabalhadores. As reivindicações incluem ainda a reintegração dos trabalhadores despedidos, o respeito pela liberdade sindical e pelos direitos dos trabalhadores. Fonte: La Tribune des Travailleurs, 28 de outubro de 2026.
O termo mockumentary designa um género de cinema, ou televisão, que apresenta aos espetadores elementos ficcionais no formato de documentário, essencialmente como forma de satirizar uma situação concreta, ou o formato documental em si mesmo.
Ainda que o termo venha dos anos 60 do século XX, foi popularizado por Rob Reiner, a partir do seu notável This is Spinal Tap, notável mockumentary acerca de uma banda rock britânica ficcional, em tournée pelos Estados Unidos. O filme, de 1984, satirizava alguns documentários da época (The Song Remains the Same, dos Led Zeppellin, por exemplo) e foi um grande sucesso para um realizador estreante, que depois veio a ser um dos grandes nomes do cinema americano.
A Hard Day’s Night (Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso, no título português), de Richard Lester, com os Beatles, realizado em 1964, é visto como um dos primeiros exemplos do estilo, que se desenvolveu sobretudo a partir do momento em que os arquivos de cinema e televisão passaram a estar mais disponíveis e a ser mais fáceis de consultar e de utilizar, permitindo a manipulação de imagens originalmente colhidas com propósitos totalmente diferentes.
Seria uma questão de tempo até que a televisão utilizasse o conceito, e duas das mais bem-sucedidas séries americanas de comédia assumiram o formato: “Uma Família Muito Moderna” e “The Office” (esta última, a partir de um original britânico).
Um dos nomes consagrados do cinema americano, que é incontornável quando o tema é o mockumentary, é Woody Allen. Nascido Allan Stewart Konigsberg, escrevia para televisão há já quase 15 anos quando assinou o seu primeiro argumento cinematográfico: What's New Pussycat (1965), realizado por Clive Donner. A sua carreira prosseguiu, com dezenas de realizações de diferentes filmes e a escrita de argumentos originais, de forma muito bem-sucedida, não isenta de polémicas, como as motivadas essencialmente por factos da sua vida pessoal.
Seguiu-se uma série de filmes de cariz significativamente diferente, onde Woody Allen se foi aproximando do melodrama, tendo chegado perto do que teria sido o trabalho de Ingmar Bergman, se alguma vez o realizador sueco tivesse trabalhado na América (sobretudo Stardust Memories, de 1980). The Serpent’s Egg (O Ovo da Serpente, em Portugal), que Bergman fez na América em 1977, por ser um elemento atípico na sua filmografia, não invalida o argumento.
Até que, em 1983, Woody Allen nos apresentou Zelig, a quinta essência do que é o mockumentary.
Leonard Zelig é um personagem que acompanhamos a partir dos anos 20 do século XX. Dos Roaring Twenties até ao início da Segunda Guerra Mundial. Podemos acompanhar o ambiente da América desses denominados anos loucos da década de 20, a que se seguiu a Grande Depressão, e depois a guerra. E, a par de um exercício de pura nostalgia, partimos de uma premissa cómica muito pouco comum, a saber: Zelig tem a capacidade de se adaptar, de forma total, ao meio em que se insere. Mais do que alguém com empatia ou mera capacidade de adaptação intelectual, ele assume as características físicas e psicológicas das pessoas que estão à sua volta. Muda de padrões de discurso, de características físicas (até de raça), chegando a engordar ou a fazer crescer apêndices capilares, se isso contribuir para se confundir com o grupo onde estiver inserido.
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Podemos interpretar esta premissa – a de adaptar literalmente o seu físico e comportamento psicológico do “outro”, moldando-se como cópia – como sendo o de levar, ainda mais longe as premissas do livro O Homem sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. A outro nível, conhecemos a mesma premissa aplicada à análise da personalidade de atores célebres. Existe um episódio dos Marretas com Peter Sellers em que o ator confessa que não tem uma personalidade que seja própria, evoluindo de acordo com as personagens que interpreta, assim como, mais recentemente, tivemos Jim Carrey a encarnar quase literalmente, se possível, Andy Kaufman, no Man on the Moon (Homem na Lua, no título português), de Milos Forman.
Leonard Zelig, uma vez conhecida a sua capacidade excecional, é rapidamente descrito como “o camaleão humano”, e começa a ser tratado como uma atração digna de um freak show (termo que é injustamente traduzido para português como circo de horrores). E rapidamente nos é mostrada a razão de ser desta anomalia: Zelig tem apenas uma profunda necessidade de ser amado e, para isso, de não sobressair de modo errado. Imita o outro para ser aceite. Chegamos a conhecer as condições em que a personagem cresceu, e as vivências que foi atravessando. A vida na América no início do século XX implicava fortes pressões de assimilação cultural e, particularmente relevante para um jovem judeu, de forte antissemitismo. A anulação do “eu” surge como um mecanismo de sobrevivência psicológica para a personagem, que desenvolve assim uma condição (clínica), mais do que um superpoder.
Muitas sequências do filme são particularmente bem conseguidas, exatamente em momentos em que Zelig partilha o ecrã com variadas personalidades relevantes daquela época, lado a lado, mas invisível aos outros, no culminar da sua necessidade de se dar com toda a gente, com efeitos comparáveis ao que muitos anos mais tarde vimos em Forrest Gump, pela mão de Robert Zemeckis.
Usando as melhores técnicas do mockumentary, Woody Allen vai acompanhando as imagens da época com comentários proferidos por personalidades reais e notórias, que dão uma maior credibilidade à ficção que nos é apresentada. Podemos encontrar vários vultos da intelectualidade nova-iorquina da altura em que o filme foi feito, como Susan Sontag, Saul Bellow ou Bruno Bettelheim.
O enredo, que como seria de esperar não é assim tão complexo, acaba com um final feliz, com a psiquiatra que acompanhava Zelig, e que por ele se interessou, a acabar por desenvolver por ele sentimentos de outra natureza (sentimentos retribuídos também por Zelig, claro!), e essa ligação amorosa (ligação pessoal) acaba por fazer desaparecer a anomalia que o tornava o (tal) “camaleão humano”.
Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço.
Uma questão que se poderá sempre colocar a propósito da criação artística é a de saber o que moveu o autor, desde o primeiro momento. Será sempre possível perguntar se existiu alguma motivação específica para o autor ter desenvolvido este projeto e não outro qualquer. As eventuais referências culturais a que já fiz referência terão um propósito de enquadramento na história que está a ser contada. Mas, afinal, o que terá motivado Woody Allen a criar um personagem como Zelig?
Um dos maiores cineastas da história, ele próprio um cómico de exceção, Charlie Chaplin fez refletir em certas obras algumas das situações que foi enfrentando na sua vida pessoal. A sua vida sentimental acidentada, com vários divórcios problemáticos, gerou o filme Monsieur Verdoux (O Barba Azul, em Portugal). Anos mais tarde, a perseguição política a que foi sujeito pelo governo dos EUA serviu de inspiração ao filme A King in New York (em Portugal, Um Rei em Nova Iorque).
A verdade é que todos nos cruzámos com pessoas com características parecidas com este Zelig. Todos nós já encontrámos ou lidámos com pessoas que são como esta personagem. Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço. Cada pessoa que encontramos que diga que ainda está à procura de si próprio é possível que seja alguém que tem vindo a deixar um rasto de personagens que foi copiando e que, depois de não serem necessários, são deixados para trás, como uma cobra que abandona uma pele antiga. Por vezes também fazem vítimas, deixando cadáveres no seu caminho. E copiam outros para serem aceites, validados, terem uma vida.
Zelig é, por isso, um grande filme de Woody Allen, injustamente esquecido quando falamos da sua filmografia. Mas é pena.
Escrevo na madrugada as últimas palavras deste livro: e tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se reconstrói e continua.
Acordam pouco a pouco os construtores terrenos, gente que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável, crianças que passam ao ar livre gargalhando. Como um rio lento e irrevogável, a humanidade está na rua.
E a harmonia, que se desprende dos seus olhos densos ao encontro da luz, parece de repente uma ave de fogo.
Carlos de Oliveira
«Quando a harmonia chega»
Terra de Harmonia, in Trabalho Poético
Livraria Sá da Costa Editora, 1998.
Raquel Varela conversa com Roberto Leher sobre os fundos financeiros na educação em Portugal e no mundo, e como a digitalização representa a destruição da educação.
A Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência.
ilustração: Ricardo Ferreira
Em 1961, Dwight D. Eisenhower, então ainda presidente dos EUA, proferiu seu famoso discurso de despedida, popularizando o termo ‘complexo industrial-militar’. Nele, Eisenhower alertava para os riscos crescentes de uma larga influência da indústria bélica e corporações privadas no Departamento de Defesa e, assim, na política nacional estadunidense. O termo ganhou crescente relevância para a compreensão geopolítica das dinâmicas entre capital corporativo e Estado, desde suas relações internas, até o estudo dos imbróglios internacionais atrelados à posição imperialista dos EUA — único país com centenas de bases militares ao redor do globo — e suas constantes interferências, diretas ou indiretas, na política nacional de diversos países.
Posteriormente, um novo termo seria frequentemente adicionado à equação: o complexo seria descrito nos termos ‘industrial-militar-académico’, expressando a tríade que organiza pesquisa e desenvolvimento tecnológico e científico atrelado aos interesses políticos, militares e do capital norte-americano, central na disputa internacional por hegemonia. É razoável reconhecer que a centralidade dessa relação na estruturação do poder estadunidense é anterior à própria emergência do termo, especialmente com a intensificação da relação entre os setores promovida pelos processos da II Guerra, que englobam tanto o desenvolvimento das armas nucleares, quanto a emergência das tecnologias digitais como conhecemos hoje. Não é difícil demonstrar, inclusive, como estas são duas facetas fundamentais e intimamente interligadas na dinâmica de domínio militar e político dos EUA desde o pós-guerra.
Com heranças teóricas do século XIX no campo da lógica e da matemática, a criptografia aparece como questão relevante já nas corridas tecnológicas da I Guerra, mas é com a corrida criptográfica em torno da máquina Enigma que irão se estabelecer tanto sua centralidade militar quanto os pressupostos fundamentais da computação moderna (famosamente, por Alan Turing, partindo de grandes contribuições do criptologista polonês Marian Rejewski). A computação torna-se assim de interesse militar logo na primeira metade do século passado, e seu papel no desenvolvimento de armas nucleares (e, posteriormente, na corrida espacial) também será fundamental, através de máquinas desenvolvidas para a automação do cálculo, operadas fundamentalmente por computadores (de facto, em sua maioria computadoras, desígnio de ofício para uma tarefa desempenhada principalmente por mulheres desde as navegações coloniais, pelo cálculo astronómico de rotas marinhas).
O desenvolvimento científico-militar encampado pelo Projeto Manhattan acelerou diretamente o advento dos primeiros computadores eletrónicos digitais, com John von Neumann exercendo papel fundamental. Matemático, físico, engenheiro e cientista da computação, foi dele a ideia de utilizar os problemas hidrodinâmicos e de fissão nuclear para teste dos primeiros códigos lógicos do ENIAC, primeiro dispositivo digital eletroeletrónico de grande escala, substituindo a computação eletromecânica do Harvard Mark I. Von Neumann tornar-se-ia o pai da arquitetura moderna do hardware computacional, utilizada até os dias de hoje. Posteriormente, desenvolveria, em Los Alamos, o MANIAC, voltado principalmente para simulações termonucleares, desenvolvimento armamentista, mas também em pesquisas genéticas, hidrodinâmicas e na física de partículas.
Tudo isso foi possibilitado também graças ao advento da teoria matemática da informação, desenvolvida por Claude Shannon, que apresentaria categorias fundamentais como a unidade fundamental do bit (contração do termo ‘unidade binária’, em inglês), a codificação binária da informática usada até hoje e a chamada teoria da ‘entropia informacional’. Esses desenvolvimentos se deram na época da efervescência cibernética, campo de estudos interdisciplinares que almejavam uma meta-linguagem transversal ao campo das ciências humanas e naturais — com seu início demarcado nas Conferências de Macy (1946-1953). A palavra, derivada do grego Kubernetes, tem raiz etimológica comum à noção de ‘navegação’ e ‘governo’. Com princípios e finalidades definidos por Norbert Wiener nos termos da “comunicação e controle no animal e na máquina”, a cibernética logo despertou o interesse militar nos EUA.
Os integrantes da cibernética, muitos que já frequentavam o então emergente complexo industrial-militar, são historicamente reconhecidos como pioneiros em diversos campos da tecnologia digital contemporânea, como foi o caso dos primeiros modelos teóricos de redes neurais artificiais, proposto por McCulloch e Pitts, ainda em 1943, antecipando um dos paradigmas fundamentais na tradição das inteligências artificiais — o paradigma conexionista, em contraste com o paradigma simbólico, ambos formalizados em 1956, no Darthmouth College. Em 1957, Frank Rosenblatt desenvolve o Perceptron, um modelo cognitivo fundacional na história das IAs conexionistas.
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Na época, quando trabalhava no Laboratório Aeronáutico de Cornell em Buffalo, onde rodou seu programa em um IBM 704, Rosenblatt conseguiu financiamento do ramo de sistemas de informação do Departamento de Pesquisa Naval norte-americano além do Centro de Desenvolvimento Aéreo de Rome (um laboratório voltado para pesquisas em ‘controle, comando e comunicação’) para desenvolver o Perceptron Mark I. O objetivo principal deste aparelho era a automação do reconhecimento de padrões, um dos primeiros sistemas algorítmicos para a aprendizagem de máquinas [machine learning] — termo que seria cunhado por Arthur Samuel em 1959 —, e que tinha como objetivo prático a análise de imagens desde a modelização dos padrões de formas geométricas. Temos os primórdios da corrida militar no campo das IAs que é, hoje, quase 70 anos depois, eixo central na dinâmica da guerra contemporânea.
Durante a segunda metade do século XX, a pesquisa e o mercado das IAs passaram por diferentes “primaveras” e “invernos”. É relevante notar que os desdobramento das tecnologias digitais durante a Guerra Fria também afetaram diretamente a conceituação teórica do pensamento militar. Em meio às tensões da era atómica e da corrida espacial, na chamada “polarização” entre o eixo capitalista e o socialista, o vocabulário militar expandiu a sigla C2[Comando e Controle] para C3I [Comando, Controle, Comunicações e Inteligência] e, finalmente, para C4ISTR[Comando, Controle, Comunicações, Computação, Inteligência, Vigilância, Obtenção de alvos e Reconhecimento], demonstrando cada vez mais a inserção dos imperativos digitais na lógica militar. Essa expansão é concomitante à proliferação da lógica paranóica (mas não delirante) instituída pelas armas de destruição em massa, inauguradas com a própria bomba atómica, impondo uma nova era da dissuasão, além da necessidade de novas tecnologias para controle ostensivo, vigilância e inteligência militar.
A era atómica, como bem analisada por Günther Anders, atualizou de modo radical os impasses geopolíticos, de certo modo antecipando a globalização pela via do negativo bélico — e foi o desenvolvimento e a disputa por hegemonia no campo das tecnologias digitais que veio responder a tais impasses. O acordo de Bretton-Woods, que funcionou como arquitetura do domínio financeiro imperial no pós-guerra, dando vantagens estratégicas para o dólar, possibilitou também o financiamento e avanço das pesquisas científicas nos EUA, dando uma vantagem económica assimétrica ao país, com o custo da violência imperial ao redor do globo. Curiosamente, o final do acordo acontece no mesmo ano em que o primeiro microprocessador é comercializado globalmente, ano que marca tanto um reordenamento da dinâmica financeira (e militar) no capitalismo global, quanto uma nova era da tecnologia digital. Também é o ano de lançamento do mercado de ações em forma eletrónica, com a Nasdaq, marcando o processo de financeirização do capitalismo global.
Nos anos seguintes, com o fim do rastreamento do dólar em ouro, a política internacional militar estadunidense incita o processo de predação do mercado petrolífero que transporta a lógica da guerra imperial para o “Oriente Médio”, fundando e mantendo, na base das desestabilizações, intervenções, e da bala, a configuração do petrodólar. Os anos 1980 são marcados pela generalização da temporalidade digital nas tecnologias militares, o “Tempo Real” diagnosticado pela dromologia de Paul Virilio, com novos sistemas de radares, satélites e computadores voltados ao monitoramento e alerta precoce de ameaças bélicas nucleares. A transmissão simultânea de incursões militares ganha, nos anos 1990, um marco fundamental com a Guerra do Golfo, na mesma época em que é lançada a World Wide Web — a rede global de computadores, lastro para as teorias da globalização e da era da informação.
Derivada do modelo militar norte-americano de 1969 (a ARPANET), a internet inaugura um processo de interconexão global que implica na produção, armazenamento e processamento de dados em escala massiva progressiva, o que possibilitaria posteriormente a emergência do Big Data e o treinamento de IAs, com os avanços em software e hardware, dando as bases para a plataformização contemporânea. Chegamos, enfim, ao início do ‘novo milénio’, marcado pelo ataque ao World Trade Center, que dá início à retórica da ‘guerra ao terror’ e cria as condições para desenvolvimentos digitais e militares que dão as bases do contemporâneo. A automação da guerra, antecipada por Virilio, irá encontrar, pela tecnologia dos aviões não tripulados, sua realização seminal em enxames de drones, a radicalização da alienação técnica de incursões e execuções em sua expressão digital — a relação entre sub-limiar e supra-limiar, analisada por Günther Anders frente à alienação do genocídio pela bomba, é atualizada digitalmente no extermínio localizado cada vez mais precisão.
Outro elemento fundamental será desdobrado após os ataques do 11 de setembro de 2001. Notando lacunas na integração de dados entre as agências estatais americanas de informação e inteligência, empreendedores ligados ao ramo de tecnologia de Silicon Valley encontram tanto uma motivação política quanto um nicho de mercado sensível e fundamental que irá se desdobrar na criação de uma das empresas mais sensíveis e fundamentais na fronteira entre militarização e digitalização contemporânea. Peter Thiel, que esteve envolvido em problemas referentes ao uso fraudulento da sua plataforma para transações económicas digitais, originada no "boom das dotcom", o PayPal, recebeu como resposta de seu sócio o desenvolvimento de um software que, utilizando técnicas algorítmicas, garantia a segurança de transações na plataforma. Batizado de Igor, o primeiro golpista interceptado pela ferramenta, a tecnologia anunciava uma nova era na integração de dados online.
Com o 11 de setembro, Thiel encontra então uma nova utilidade para seu software na urgência da guerra ao terror. Buscando estabelecer relações com o ramo de defesa do governo americano, irá entrar em contacto com Alex Karp, que torna-se um entusiasta do projeto. Será então, entre os anos de 2004 e 2005, que sua empresa passa a receber fundos do braço de investimento em capital de risco da CIA, a In-Q-Tel, possibilitando também a parceria entre seus engenheiros e analistas da central de inteligência, desenvolvendo o software de análise de dados que originou a, hoje conhecida, plataforma Gotham. É essa a história de surgimento da Palantir, que encontrou nos adventos do 11 de setembro tanto sua razão de ser quanto as coordenadas da digitalização que passam a fragmentar a (já deletéria) fronteira entre esfera civil e militar nas décadas seguintes.
Hoje, a empresa representa o principal núcleo corporativo, tecnológico e ideológico no processo ostensivo de justaposição da militarização como característica coextensiva da experiência cotidiana, mediada pelo digital. Unindo serviços para empresas e exércitos sob lógicas comuns em diferentes perspectivas, a Palantir integra um vocabulário filosófico — cortesia do próprio Karp, familiarizado com a teoria crítica, ex-estudante da Goethe-Universität Frankfurt, onde desenvolveu seu doutoramento em filosofia sobre a Agressão no Mundo da Vida [Aggression in der Lebenswelt] defendido em 2002 — ao discurso armamentista-empresarial, realizando a atualização do novo ‘complexo industrial-militar-digitalizado’ estadunidense pela integração de metadados, articulação em “tempo real” do “campo de batalha” e aceleração da “cadeia [produção] de morte”, em novos sistemas de vigilância e produção de alvos que prometem ser a vanguarda na defesa do legado ocidental pela manutenção do império norteamericano — como vemos no uso ostensivo do sistema Maven, tanto pelo exército de Israel (cliente fundamental da Palantir), quanto pelo exército dos EUA (por exemplo, na seleção da escola feminina Shajareh Tayyebeh, no Irão, como alvo militar, resultando no assassinato de 175 pessoas, em sua maioria crianças).
Com todo esse contexto, as manifestações públicas de Karp precisam ser interpretadas para além do personagem “excêntrico” e “exótico”, mas como a propaganda ideológica de um verdadeiro programa político. Muito longe de meras bravatas, sua retórica sobre impor medo aos inimigos políticos e estabelecer um combate ao multiculturalismo liberal (que tem como alvo “mulheres académicas progressistas” em contraposição aos “homens da classe trabalhadora)” são estratégias — partem de um doutor em filosofia que teve sua pesquisa de doutoramento focada na naturalização da violência na retórica pós-hitlerista alemã. A publicação que ficou conhecida como “manifesto da Palantir”, resumindo em 22 pontos o que é apresentado no seu livro A República Tecnológica, em co-autoria com Nicholas W. Zamiska, defende, entre diversos pontos, a era digital como superação da era atómica — elemento central na apologia do desenvolvimento de sistemas de armas autónomos movidos por IA.
Entre o pensamento posterior de Epimeteu e a antevisão de Prometeu, a Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência que ultrapassa em muitos sentidos — e condições ontológicas — as dinâmicas do século passado. Para combater esse programa totalizante e com explícitas conotações neofascistas — como expresso na defesa da superioridade de determinadas civilizações em relação a outras, que deveriam ser submetidas (ou exterminadas) pela força —, é necessário uma esquerda liberta, antes de tudo, das limitações simbólicas (i.e., também materiais) impostas pelos processos da última década, onde a neoliberalização formatou a gramática emancipatória em uma retórica de gestão das crises do capital. A era de gestão das crises está em processo de obsolescência, programada desde suas origens. Resta a nós lutarmos contra a automação da barbárie.
14/10/2026. Cidadãos de todo o país lançam hoje a iniciativaMega-Protesto, por “Transparência e Respeito pela Voz das Populações e dos Territórios”, e anunciam uma manifestação nacional no próximo dia 21 de Novembro. Perante os projectos extrativistas que ameaçam as suas regiões, movimentos de norte a sul vão convergir em Lisboa e exigir o cumprimento do Artigo 66.º da Constituição Portuguesa: “Todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender”.
“Nos últimos anos assistimos à tentativa de instalação de projectos sem qualquer preocupação ética. Neste momento, commais de uma centena de conflitos ambientais documentados, continuamos a destruir floresta, terreno agrícola e paisagens emblemáticas do nosso país, para instalar parques solares e eólicos, minas, centros de dados, agricultura intensiva ou projectos imobiliários. O aumento destas áreas intensifica o consumo de água, a desertificação dos solos, a poluição e as alterações climáticas. Reduz a biodiversidade e a capacidade de sequestrar carbono e reter água no solo”, denuncia Graça Passos, presidente do núcleo de Castelo Branco da Quercus, que tem contestado os projectos das mega centrais Sophia e Beira, da multinacional BP Lightsource.
“Com o vazio deixado pelo desmantelamento do mundo rural e com o apoio dos últimos governos, estamos a assistir à privatização progressiva dos comuns, como praias, água, sementes e agrodiversidade. Muitas empresas encontraram em Portugal um paraíso para satisfazer as suas fantasias predatórias. O resultado é uma ameaça exponencial sobre a soberania alimentar, a diversidade do tecido económico local e a qualidade de vida das populações”, afirma, desde o Alentejo, Guilherme Serôdio, porta-voz da Brava – Rede de Resistência Rural, outra das organizações apoiantes da iniciativa.
“O projecto da mina de lítio da Savannah e as restantes projectadas para o Barroso significam não apenas o fim da biodiversidade num território que é Património Agrícola Mundial. Significam a destruição de comunidades e das atividades económicas que elas praticam, comprometendo o território local e a qualidade da água. A empresa foi ilegitimamente sancionada pelo nosso próprio Governo, argumentando interesse público. Interesse de quem? Vivemos, há anos, sob um regime de vigilância privada, auxiliada pela GNR, ameaçados na nossa própria terra”, descreve Carla Gomes, da associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso, onde a população, sem resposta das instituições que deveriam salvaguardar os seus interesses, foi recentementeobrigada a parar a invasão dos terrenos baldios pela empresa Savannah Resources.
O Mega-Protesto vem, por isso, exigir igualmente o cumprimento do artigo 2º da Constituição – “A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular”. O manifesto nacional, hoje anunciado, afirma que “É hora de escolher entre a manutenção de um modelo que destrói a Natureza, privatiza os lucros e socializa os custos associados ou a salvaguarda da Vida, em toda a sua complexidade, do território e do nosso futuro comum.”
Esta é uma iniciativa cidadã, auto-financiada, informal, apartidária e pacífica, para identificar problemas e apresentar propostas pela proteção dos territórios e a preservação dos bens naturais, agrícolas, culturais e socioeconómicos. Propõe-se coordenar e unir na diversidade os movimentos que agem contra a imposição de projectos extrativistas, e convida os cidadãos, colectivos e organizações de todo o país a subscreverem o manifesto e a juntarem-se à mobilização.
A manifestação nacional de 21 de Novembro começará com uma concentração às 14H30 no Parque Eduardo VII, e partirá do Marquês de Pombal com destino à Assembleia da República.
Contactos de imprensa: Graça Passos, coordenação do Mega-Protesto - 919 615 500 Guilherme Serôdio, porta-voz da Brava - Rede de Resistência Rural - 912 575 776
Em França, a proverbial gota de água foi… uma gota de água. Melhor: gotas de água aos fios e jorros a caírem pelas paredes e tectos de liceus degradados. Mais a falta de professores. E turmas de 36. E um anunciado serviço militar “voluntário” — a caminho, muito mal disfarçado, de virar obrigatório. E um orçamento de guerra. E cortes nos serviços públicos: a “austeridade” de Macron para quem trabalha e estuda.
Na Alemanha, o anunciado serviço militar “voluntário” — a caminho, muito mal disfarçado, de virar obrigatório. Mais o anúncio de fazer da Alemanha a maior potência militar da Europa. E a entrega do sistema de pensões aos “mercados”. E o anúncio de despedimentos em massa e cortes salariais na Volkswagen e na indústria em geral.
No Estado espanhol, o despejo de uma mulher de 87 anos da casa onde vivia há 71. Às mãos gélidas de anónimos fundos imobiliários. Mais a privação da juventude da perspectiva, horizonte ou direito a ter casa e trabalho com contratos e salários decentes.
Em Itália: orçamento de guerra e austeridade de Meloni. E a implacável destruição da escola pública.
Na Bélgica, o governo que prepara um orçamento de austeridade com cortes drásticos nos serviços públicos. E a “reforma” do sistema de pensões.
Em Portugal, já se sabe: a furibunda repressão policial dos jovens a mando de um governo ao serviço da especulação imobiliária, que priva ostensivamente a juventude do direito constitucional a ter casa.
Em todos os países, as mesmas causas: guerra, austeridade, especulação imobiliária; o futuro negado aos jovens.
Porquê tal convergência, perguntar-se-á.
Tanto quiseram as classes dominantes dos imperialismos europeus eliminar a “ameaça” da rua, tanto quiseram desfazer-se da limitada, mas por vezes incómoda, democracia eleitoral, tanto quiseram centralizar todas as decisões importantes em Bruxelas e Frankfurt, nesse opaco exército de burocratas não eleitos e imunes a eleições e à “rua”, que agora se veem, todos eles, a braços com a sublevação quase simultânea, na rua, dos jovens e dos trabalhadores de todos os países.
Sob a pressão maciça do grande patrão de Washington, necessitado de passar os custos das suas guerras para cima dos vassalos menores, Bruxelas e Frankfurt espalharam ordens, as mesmas para todo o lado: guerra e austeridade. Diz-nos a física que as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos.
França
Quem procurar, na televisão portuguesa, notícias de França, vê violência, pilhagens e confrontos. No entanto, a realidade, por duas vezes em poucos dias, foram 800 mil manifestantes a desfilar, combativa, mas pacificamente, por dezenas de cidades francesas: estudantes liceais e universitários, bombeiros, trabalhadores, funcionários, professores. Uma realidade que levou o respeitável presidente socialista da Câmara de Marselha a acusar o governo de permitir deliberadamente a explosão da violência. E um anódino jornal de programação de TV, Télérama, a interrogar-se se as cadeias estatais encenavam imagens de violência em cadeia para não mostrar as manifestações…
Violência? Sim. Um aluno do ensino secundário teve uma mão arrancada pela polícia, outro um olho perdido para uma bala de borracha, um terceiro, a mandíbula fracturada.
A dimensão da repressão policial contra os movimentos da juventude é inédita”, denunciou a Liga dos Direitos do Homem no dia 15 de Outubro.
Os correspondentes estrangeiros notam que a juventude francesa se revolta — e que a violência policial atiça o conflito: “A França tem um problema de violência – que começa pela polícia” (Der Spiegel). O correspondente do britânico Guardian notava que, ao chegar à Praça da República, em Paris, no dia 17 de Outubro, “o ambiente era festivo, mas depois a polícia começou a lançar granadas de gás lacrimogéneo (...). Não vi o incidente que desencadeou tudo – se é que o houve (…). O método de gestão de multidões adoptado pelas autoridades desde que começou o dia deu o tom; rapidamente semeou o caos por toda a cidade de Paris”. La Repubblica nota que “os Black Blocs monopolizaram a atenção”, funcionando os provocadores como “idiotas úteis da direita”. Mesmo jornais de regimes autoritários, como o argelino, ironizaram: um governo “que se diverte a dar lições de liberdade ao resto do planeta e se esquece de varrer à porta de casa” (L’Expression).
“A dimensão da repressão policial contra os movimentos da juventude é inédita”, denunciou a Liga dos Direitos do Homem no dia 15 de Outubro. Nada menos que 7950 pessoas tinham sido detidas, segundo o Ministério da Justiça. Isto, antes das grandes manifestações de 17 de Outubro! 85% dos detidos eram menores de idade.
Uma coisa é certa: no terreno da repressão, Montenegro decidiu dar luta a Macron. Acontece que a violência de Macron é a violência de um regime na agonia. A violência de Montenegro… mesmas causas, mesmas consequências.
Itália
No dia 16 de Outubro, às dezenas de milhar, jovens liceais e universitários manifestaram-se em toda a Itália contra a guerra e contra a degradação das escolas, pela escola pública e contra o racismo acirrado pelo governo. O diário La Stampa regista 400 mil participantes entre Turim, Bolonha, Roma, Milão, Cagliari, Nápoles. No dia anterior, haviam ocupado dezenas de estabelecimentos de ensino. Enquanto os estudantes saíam à rua, no Sul do país agricultores e camionistas mobilizavam-se contra a subida dos preços, cortando estradas e o trânsito durante cinco dias. E os operários das siderurgias de Génova e Taranto entraram em greve contra a redução da produção e o layoff.
No dia 17, uma manifestação convocada pela maior confederação sindical, a CGIL, juntou cem mil manifestantes em Roma. Anuncia-se uma greve geral para o dia 20 de Novembro.
Espanha
O anúncio da morte de Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos despejada de sua casa em Madrid por um fundo imobiliário, provocou raiva e dor por todo o Estado espanhol, sentimentos que logo se transformaram em mobilização. Uma multidão de manifestantes invadiu as ruas no dia 8 de Outubro para lhe prestar homenagem. Seguiram-se marchas por todo o Estado. “Não morreu, assassinaram-na!”, “Habitação pública, rendas acessíveis, não aos despejos!”, “Aumento dos salários!”, “Maricarmen abriu-nos o caminho, continuamos o combate!”, eram as palavras de ordem dos manifestantes, que clamaram também pela greve geral. Apesar do frio, multiplicaram-se acampamentos de resistência pela habitação.
O governo Sánchez acabou por ir à gaveta buscar dois projectos de lei com medidas tímidas a favor dos inquilinos — sem tocar no essencial: a propriedade privada de 90% do parque habitacional, nas mãos dos bancos e das empresas de especulação imobiliária.
A timidez dos projectos de lei de Sánchez não impediu a sua rejeição pela maioria do Congresso, com o partido burguês catalanista Junts a juntar-se, para o efeito, à direita e extrema-direita neo-franquistas. O governo convocou eleições antecipadas para 29 de Novembro.
Os sindicatos de inquilinas e as associações de defesa da habitação apelaram aos sindicatos para que lançassem a greve geral. As centrais UGT e CCOO – assim como outras, como a ELA e a LAB no País Basco – convocaram-na efectivamente, para 11 de Novembro, dois dias antes do início da campanha eleitoral.
Entre manifestantes e sindicalistas, muitos tinham o sentimento de que uma greve geral de um dia, daí a um mês, não respondia à situação. “Não basta votar de quatro em quatro anos; se não nos mobilizarmos, continuaremos a perder os nossos direitos”, diziam muitos.
Alemanha
Depois de meses de mobilizações de jovens do ensino secundário contra a reintrodução disfarçada do serviço militar, novos e maiores protestos se anunciam para o dia 31 de Outubro, em muitas cidades alemãs, contra o serviço militar, a política de austeridade e o mau estado das escolas, apontando o exemplo da juventude francesa. Também na Suíça está prevista para Novembro uma greve da juventude.
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Aos protestos da juventude junta-se o anúncio de grandes conflitos de classe. A destruição de empregos industriais atingiu um ritmo de 15 mil por mês. Na Volkswagen, maior construtor mundial de automóveis, depois do anúncio de um corte de cem mil dos 660 mil postos de trabalho nos próximos anos, vazou para o domínio público, em meados de Outubro, um documento interno de estratégia que prevê o congelamento total dos salários no grupo, à escala mundial, até 2030 — na Alemanha, equivalente a uma redução do salário real de, pelo menos, 10%. A VW denunciou, entretanto, todos os contratos colectivos e acordos de empresa no país e anunciou uma “reorientação” da contratação. Novas negociações colectivas iniciam-se em finais de Novembro. A direcção do sindicato metalúrgico IG Metall manifestou a sua total oposição. Os acontecimentos mostram outra coisa: que cedências graves (o IG Metall aceitara um plano de redução de 50 mil empregos e de contenção salarial nos próximos anos) servem apenas para encorajar o patronato a ir mais longe.
Na Albânia, a juventude revolta-se contra o regime corrupto de Rama, que vende favores ao genro de Trump e é mera correia de transmissão das ordens de Bruxelas “com vista à adesão”. Na Sérvia, a revolta da juventude derrubou o presidente e primeiro-ministro Vučić. Na Bélgica, prepara-se uma greve geral contra o orçamento de austeridade…
Capitalismo e imperialismo, sinónimos de guerra e miséria, são a causa comum. A revolta e a revolução, o efeito comum.
Há poucos dias, a 13 de Outubro, o Governo publicou a Portaria n.º 454/2026/1, a tabela que faltava ao Regime Simplificado de Arrendamento Acessível. Em Lisboa um T1 é “acessível” até 1006 euros. No Porto, até 866. Em Gaia, 629; em Faro, 572; em Évora, 531; em Santarém, 425; em Beja, 392; em Castelo Branco, 312. Ponham ao lado o que ganha metade dos contribuintes de cada concelho, segundo o INE. O T1 “acessível” de Lisboa leva 87% do rendimento mediano de quem lá vive. O do Porto, 87%. O de Gaia, 70%. O de Faro, 60%. Nenhum concelho fica abaixo da velha regra dos 35%, a que durante anos definiu o que era uma renda suportável.
O INE diz que metade dos trabalhadores por conta de outrem recebe menos de 980 euros líquidos por mês. É o número que divide o país ao meio. Um trabalhador mediano que arrende o T0 “acessível” de Lisboa fica com 195 euros para comer, para o passe, para a luz. O T1 custa mais do que ele ganha. Um casal com dois salários medianos paga o T2 e sobram-lhe 651 euros. Pela regra dos 35%, o T0 de Lisboa exige 2243 euros líquidos por mês e o T2 exige 3740. Rendimentos de quadro superior, não do enfermeiro, do motorista, da professora, do operário que ergue precisamente estas casas.
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Como se chega a estes números? A portaria não parte do que as pessoas ganham. Parte do que o mercado cobra, 80% da mediana das rendas de cada concelho, mais 10% se houver estacionamento, mais 10% se a casa tiver classe A. Um desconto sobre um abuso continua a ser um abuso. E o inquilino foi apagado. O regime anterior exigia que a renda não passasse de 35% do rendimento de quem ia viver na casa. Era o único ponto do sistema em que o inquilino existia. O novo regime eliminou-o. Não há limite de rendimento nem taxa de esforço. Retirou-se da definição de acessibilidade a única pessoa a quem a acessibilidade diz respeito.
Para quem é isto, então? Para o senhorio. E não para qualquer senhorio. Em Lisboa, 31% dos novos contratos de arrendamento já têm como senhorio uma empresa ou um fundo, contra 23% no país, e esses senhorios cobram mais e aumentam mais depressa do que os particulares. Quem arrendar dentro dos tectos fica isento de IRS ou IRC sobre as rendas, sem prazo, e de IMT e IMI se comprar ou reabilitar para arrendar. Um fundo que já cobra 1300 euros por um T2 em Lisboa, e são milhares de casas, passa a cobrar o mesmo, deixa de pagar imposto e entra nas estatísticas como oferta acessível. Não baixou um cêntimo. Ganhou um benefício fiscal e um certificado de virtude.
Um fundo que já cobra 1300 euros por um T2 em Lisboa, e são milhares de casas, passa a cobrar o mesmo, deixa de pagar imposto e entra nas estatísticas como oferta acessível.
Fora de Lisboa o mecanismo é outro, e não é melhor. Em Castelo Branco, em Beja, em Santarém, em Viana, o tecto é o próprio mercado. Um T1 a 312 euros em Castelo Branco não é uma renda acessível que a lei criou, é a renda que já se pratica. Ali a portaria é uma isenção generalizada de IRS para praticamente todos os senhorios do concelho, sem contrapartida nenhuma. E com um íman. Quem cobra 250 descobre que pode cobrar 312 sem pagar imposto. O tecto deixa de ser um limite e passa a ser um alvo.
O perigo maior está nas cidades do meio, Gaia, Faro, Espinho, Évora. Periferia do Porto, turismo algarvio, litoral, cidade universitária, onde as rendas sobem mais depressa do que os salários. Como os tectos são revistos todos os anos a partir da mediana do mercado, cada subida das rendas sobe a mediana e cada subida da mediana sobe o tecto. Não é um travão. É um prémio ao aumento das rendas, com actualização automática, pago com o dinheiro que não vai para a habitação pública que falta há quarenta anos. Isto não é política de habitação. É política fiscal com nome de política de habitação.
A partir de agora os preços das rendas vão aumentar ainda mais.
São sete da tarde. Marta chega a casa depois de oito horas de trabalho. Ainda tem de preparar o jantar, dar banho à mãe, que já não consegue fazê-lo sozinha, e perceber como vai ajudar o filho adulto a pagar a renda da casa e a prestação do carro, porque o salário não chega para tudo.
Às três da manhã, a mãe, com demência, acorda. Quer sair, regressar a uma casa onde já não vive. Marta levanta-se, acalma-a, tenta convencê-la a voltar para a cama. Às sete, o despertador toca. É preciso ir trabalhar.
No dia seguinte, tudo se repete.
Marta não está sozinha. Há muitas mulheres a viver entre duas gerações que precisam delas. Chamamos-lhes “geração sanduíche”. De um lado, pais que vivem mais anos, nem sempre com autonomia. Do outro, filhos adultos que enfrentam salários insuficientes, precariedade laboral e uma habitação cada vez menos acessível. Pelo meio, mulheres que trabalham, pagam contas, cuidam e adiam a própria vida.
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Vivemos mais anos. E ainda bem. A longevidade é uma das maiores conquistas da humanidade. Mas a conquista de mais anos de vida trouxe responsabilidades para as quais a sociedade continua insuficientemente preparada. E a emancipação tardia dos mais novos veio prolongar, em simultâneo, as obrigações familiares.
Porque também aqui a desigualdade tem género.
Durante décadas, lutámos pela emancipação feminina, pelo direito ao trabalho, à independência económica e à participação pública. Mas ficou por cumprir uma parte fundamental dessa transformação: reorganizar o cuidado.
As mulheres entraram no mercado de trabalho, mas o trabalho dentro de casa nunca deixou verdadeiramente de lhes pertencer.
E esse trabalho tem um valor económico que raramente entra nas contas. Dar banho, alimentar, administrar medicação, acompanhar consultas, vigiar durante a noite. Horas de trabalho não remunerado que sustentam famílias e aliviam encargos aos serviços públicos. Quanto custaria assegurar profissionalmente todos estes cuidados?
Criámos o Estatuto do Cuidador Informal. Um reconhecimento importante, mas insuficiente. Reconhecer quem cuida não significa garantir-lhe rendimento, descanso, apoio técnico ou condições para continuar a trabalhar. Muitos cuidadores permanecem sem acesso efetivo aos apoios de que necessitam.
Perante respostas públicas insuficientes, listas de espera e serviços economicamente inacessíveis, o cuidado regressa ao lugar onde sempre foi mais fácil colocá-lo: dentro de casa.
E importa perguntar: estará o Estado a transformar a solidariedade familiar numa forma de desresponsabilização pública?
Quando cuidar deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação sem alternativas, estamos perante uma desigualdade social, económica e de género.
Quando faltam respostas, alguém reduz o horário, interrompe a carreira, abdica do descanso. E esse alguém continua a ser, demasiadas vezes, uma mulher.
Chamamos-lhe amor, dever filial, responsabilidade familiar. Mas quando cuidar deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação sem alternativas, estamos perante uma desigualdade social, económica e de género.
Quem tem dinheiro contrata ajuda. Quem não tem paga com o próprio tempo, com o salário que perde, com a saúde que se desgasta. Até a possibilidade de cuidar sem abdicar da própria vida depende da condição económica.
Conheço mulheres que adiam consultas, recusam oportunidades profissionais e vivem divididas entre aquilo que precisam de fazer e aquilo que sentem que não podem deixar por fazer. Conheço também a culpa. A culpa de não acompanhar os pais como gostariam, de não conseguir ajudar suficientemente os filhos, de desejar simplesmente descansar.
E pergunto: quem cuida da mulher que cuida? Quem lhe devolve as noites sem dormir, os anos de carreira, a saúde que se deteriora, a vida que ficou à espera?
Não se trata de retirar às famílias o direito de cuidar, nem de desvalorizar os vínculos que nos unem. Trata-se de garantir que o cuidado não seja imposto pela ausência de alternativas. Que existam serviços públicos e respostas de proximidade, apoios efetivos e uma distribuição mais justa das responsabilidades entre mulheres, homens e Estado.
Afinal, uma sociedade não pode medir o seu progresso apenas pelos anos que acrescenta à vida. Tem também de perguntar em que condições esses anos são vividos e quem suporta o esforço de os tornar possíveis.
Talvez o maior paradoxo seja este: conquistámos mais anos de vida, mas continuamos a organizar a sociedade à custa do tempo de vida de quem cuida. E esse tempo continua a ser, demasiadas vezes, o das mulheres.
Amanhã, Marta voltará a levantar-se às sete. A questão é saber até quando continuaremos a considerar que tudo isto é apenas responsabilidade dela.
Há um projeto mineiro que poderá transformar profundamente uma região onde estão as minhas raízes familiares: Peniche, Baleal e Ferrel. Descobri-o através de um vídeo de João Manzarra e fui investigar. Os números são alarmantes. A concessão C-185, denominada Royal China Clay, foi atribuída pelo Estado Português à empresa portuguesa Motamineral em 10 de maio de 20231. O projeto, submetido a avaliação de impacte ambiental2, prevê três explorações a céu aberto em Serra d’El-Rei, próximas de Casais de Mestre Mendo e Óbidos. As minas ainda não estão abertas.
Os números impressionam. A concessão abrange 107,7 hectares. Os três núcleos ocuparão 10,9, 28,5 e 12 ha, respetivamente. São 514.000 m2 de intervenção direta, com escavações que poderão atingir 46 metros de profundidade, o equivalente à altura de um prédio de cerca de 15 andares. Prevê-se uma produção anual de 569.100 toneladas: 31.800 de caulino, 270.000 de areias lavadas e 267.300 de argilas comuns3. Durante 20 anos e meio! Foram inventariados 662 sobreiros, dos quais 471 poderão ser afetados. Mas a paisagem é provavelmente a menor das minhas preocupações.
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O que acontecerá à água e à estabilidade dos terrenos?
A exploração situa-se na bacia hidrográfica da ribeira de São Domingos, associada à albufeira que abastece Peniche. A Quercus questionou a suficiência dos estudos das águas superficiais e subterrâneas4.
Escavações desta profundidade exigem avaliar alterações dos níveis freáticos, drenagens, subsidência, fissuração e instabilidade dos terrenos.
Não são riscos imaginários.
Em Amyntaio, na Grécia, a atividade mineira esteve associada a rebaixamentos do nível freático que atingiram cerca de 70 metros, subsidência e fissuras. Em 2017, um deslizamento movimentou aproximadamente 80 milhões de metros cúbicos de materiais5.
Em Fushun, na China, foram documentados assentamentos, fissuras e danos em edifícios e infraestruturas próximos de uma exploração6.
Não significa que acontecerá o mesmo em Peniche. Significa que estes fenómenos existem e exigem estudos rigorosos.
O limite da escavação não é necessariamente o limite dos seus efeitos
Que habitações, estradas e terrenos agrícolas poderão ser afetados?
E depois existe a saúde pública. Sílica cristalina respirável, sabem o que é?
São partículas microscópicas, nomeadamente de quartzo, que podem penetrar profundamente nos pulmões.
A exposição excessiva pode causar silicose, doença pulmonar irreversível, associada a doença pulmonar obstrutiva crónica, tuberculose, doença renal e cancro do pulmão.
A Agência Internacional de Investigação do Cancro classifica a sílica cristalina inalada em determinadas exposições ocupacionais como carcinogénica para os seres humanos, Grupo 17.
A Quercus criticou a ausência de monitorização e quantificação específica deste contaminante no estudo ambiental.
Quem garante a qualidade do ar que as populações respirarão durante vinte anos?
Acrescentemos os milhares de camiões necessários ao transporte dos materiais, poeiras, ruído, vibrações, emissões e desgaste das estradas.
E chegamos a outra pergunta fundamental.
As câmaras municipais de Peniche e Óbidos emitiram pareceres desfavoráveis. A Quercus e a Zero levantaram sérias objeções.
Quanto vai o Estado ganhar com esta exploração?
Quanto receberá o Estado em contrapartidas, impostos e outras receitas? E que parte desse dinheiro será investida na região que suportará os impactos?
Que benefícios concretos terão as populações? Quem pagará eventuais danos? Que garantias financeiras existem para recuperar o território?
As câmaras municipais de Peniche8 e Óbidos9 emitiram pareceres desfavoráveis. A Junta de Freguesia de Atouguia da Baleia também. A Quercus e a Zero levantaram sérias objeções10.
Se as autarquias estão contra, por que não são as suas preocupações decisivas nesta discussão?
E de quem são os terrenos? A concessão não torna automaticamente a empresa proprietária da superfície. A legislação admite servidões e, mediante requisitos legais, expropriações por utilidade pública11.
A consulta pública decorreu entre 22 de julho e 1 de setembro de 2026. Em pleno verão.
Quantos habitantes souberam sequer que isto estava a acontecer?
Não afirmo que haverá uma catástrofe. Exijo que todos os riscos sejam avaliados antes.
Uma empresa pode terminar a exploração e partir. As populações ficam.
471 sobreiros. 514 mil m2. 569 mil toneladas anuais. Vinte anos e meio.
Não são pormenores. As pessoas que ali vivem também não.
Antes de chamarmos a isto progresso, precisamos de perguntar:
Quanto vale aquilo que está debaixo da terra e quanto vale aquilo que arriscamos perder à superfície?
Em 1998 comprei o meu T1 por 60.250€, num prédio com 25 anos, sem qualquer remodelação, com crédito a 30 anos, a 100%. A prestação representava 1/3 do meu ordenado.
Em 2020, o apartamento teria o valor de mercado de 80.000€. Em 2026, o valor de mercado é 160.000! Se for remodelado, chega aos 200.000.
Está tudo doido?! Em seis anos, o valor duplicou. Como?
Um T1, num prédio com 52 anos, num subúrbio que não tem nada de especial ou de novo?
É o mercado a funcionar? Para quem? Para os bancos, que emprestam o dobro, para cobrarem juros durante 50 anos, agora que quem tem dinheiro já não o deixa nos bancos para não ser entalado.
É o mercado a funcionar? Para quem? Para os bancos?
Nos arrendamentos, é o mesmo: em 2026 o preço é o dobro em relação a 2020.
E os reformados que vivem em casas alugadas?
A minha vizinha tem 72 anos, mora naquela casa há mais de 40. Tem uma pensão de 800€. Paga 150€ de renda. Gasta 200€ em medicação.
É verdade que 150€ está (hoje) abaixo do que será um preço justo, mas se o senhorio resolver aumentar para 400€ (ou 800€), ela faz o quê?
Vai para a rua? Para um quarto? Perde a sua independência? Vai ser um estorvo em casa dos filhos? Depois de uma vida de sacríficos, sempre na corda bamba, vive em sobressalto, sempre com medo de que a lei (ou a boa vontade do senhorio) mude. Trabalhou uma vida no duro para chegar a velha e continuar sem sossego.
Os estudos demonstraram que a IA melhora o desempenho dos alunos em questões práticas. No entanto, nos exames sem consulta, os resultados de aprendizagem evoluíram na direção oposta. Delegar o raciocínio e o pensamento criativo na máquina tem consequências diretas nas trajetórias educativas e nas futuras carreiras dos alunos.
ilustração: Mantraste
Será que os modelos de inteligência artificial (IA) podem ajudar a melhorar a educação dos nossos filhos e a investigação levada a cabo pelos nossos professores e cientistas? O ministro da Educação, Ciência e Inovação de Portugal, Fernando Alexandre, afirmou que seria um erro as escolas não recorrerem à inteligência artificial. Alexandre referiu o modelo americano do ensino básico e secundário (K-12), onde a IA já é utilizada para identificar lacunas de aprendizagem e adaptar o apoio pedagógico às necessidades de cada aluno. O objetivo em Portugal, sublinhou, é apoiar os professores, não substituí-los, e alargar ao ensino básico e secundário o que as universidades e até as empresas privadas já estão a fazer.
Em contrapartida, dezenas de professores de universidades e institutos politécnicos portugueses assinaram um manifesto apelando à proibição da utilização da IA nas universidades, para evitar a redução da curiosidade intelectual dos estudantes e reverter a trajetória de empobrecimento cognitivo. O manifesto defende que a utilização da IA elimina “o esforço, o trabalho e a dedicação” sob um “espesso manto de ignorância, preguiça, desonestidade intelectual, plágio e rapidez”, empobrecendo a capacidade de pensar. Além disso, tendo em conta os métodos de ensino centrados no aluno que têm vindo a ser adotados, os professores sentem-se incapazes de identificar com precisão práticas fraudulentas e, por isso, apelam à suspensão das ferramentas de IA nos processos de ensino e aprendizagem.
Quem tem razão? A IA irá melhorar o desempenho escolar ou prejudicará os conhecimentos e as competências, tanto dos alunos como dos professores? As evidências sobre o impacto da IA são cada vez mais numerosas. Um estudo recente realizado na China revelou que as ferramentas de IA ajudaram os alunos a concluir os trabalhos mais rapidamente e a obter melhores notas. Mas concluir tarefas não é o mesmo que aprender. O tempo dedicado aos trabalhos de casa pelos alunos que utilizaram IA diminuiu e as notas nos trabalhos de casa subiram, mas quando se tratou de testar os seus conhecimentos em exames em que as ferramentas de IA não estavam disponíveis, as notas baixaram.
Uma ferramenta de IA que fornece respostas prontas pode melhorar o desempenho dos alunos em questões práticas (onde a IA pode ser utilizada), mas baixa as notas em exames subsequentes sem consulta. Um estudo revelou que, seis meses após a adoção da IA, os alunos, em média, concluíam um trabalho de casa em cerca de 45 minutos, em vez dos 64 minutos que era a média antes da adoção. As suas notas nos trabalhos de casa subiram 18% em relação à média anterior à adoção. A IA aumentou, de facto, a produtividade nos trabalhos de casa: melhores resultados em menos tempo.
Os alunos que delegam os trabalhos escolares na IA generativa aprendem menos e não conseguem reproduzir os conhecimentos nos exames.
No entanto, nas notas dos exames sem consulta, os resultados de aprendizagem evoluíram na direção oposta. Seis meses depois, as notas dos exames mensais caíram 20% em relação à média anterior à adoção da IA, e a perda de aprendizagem foi ainda maior nos exames-chave para a obtenção de qualificações: 24% abaixo da média de referência nos exames de admissão ao ensino secundário e 18% nos exames de admissão ao ensino superior. Uma vez que os exames de admissão são o principal fator determinante para a admissão nas instituições de ensino, estas perdas têm consequências diretas nas trajetórias educativas e nas futuras carreiras dos alunos. É possível perceber por que razão isto acontece. Os alunos que delegam os trabalhos escolares na IA generativa aprendem menos e não conseguem reproduzir os conhecimentos nos exames.
Os próprios alunos reconhecem os efeitos prejudiciais da IA nas suas competências de aprendizagem. Num estudo realizado com estudantes universitários em Portugal, mais de metade dos inquiridos utilizava a IA para realizar as suas tarefas académicas e quase dois terços escondiam isso dos docentes. Quase 60% disseram aos seus professores que o trabalho era inteiramente da sua autoria. No entanto, os próprios alunos mostravam-se preocupados com a dependência excessiva da tecnologia de IA e com os riscos decorrentes da “mecanização da aprendizagem humana” e da “racionalização” dos processos educativos.
Um relatório sobre a utilização da IA nas escolas do Reino Unido, encomendado pela Oxford University Press, revelou que apenas 2% dos alunos com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos afirmaram não utilizar a IA nos seus trabalhos escolares, enquanto 80% afirmaram utilizá-la regularmente. Apesar da popularidade da IA, 62% dos alunos afirmaram que esta tinha um impacto negativo nas suas competências e no seu desenvolvimento escolar, enquanto um em cada quatro alunos admitia que a IA “torna demasiado fácil para mim encontrar as respostas sem ter de fazer o trabalho sozinho”. Outros 12% afirmaram que a IA “limita o meu pensamento criativo”, enquanto um número semelhante dizia que se sentia menos inclinado a resolver problemas ou a escrever de forma criativa.
O MIT, nos EUA, publicou um relatório extremamente honesto sobre o impacto da IA nos estudantes. Os estudantes que dependem de chatbots perdem o domínio da matéria e a confiança, e alguns caem no que o relatório denomina “rendição cognitiva”, recorrendo à IA ao primeiro sinal de dificuldade. Cerca de 46% dos estudantes de licenciatura do MIT inquiridos utilizavam a IA diariamente, mas 90% mostravam-se preocupados com a sua própria dependência excessiva. Os estudantes de licenciatura que sentem que a IA os torna substituíveis são agora mais numerosos do que aqueles que sentem que ela os torna mais capazes.
E têm, de facto, motivos para se preocuparem. A aprendizagem é fundamentalmente gratificante devido aos desafios intelectuais que envolve. Superar esses desafios ativa o sistema de recompensa do cérebro, produzindo dopamina que reforça a motivação e o envolvimento. A satisfação derivada deste processo — o ciclo esforço-recompensa — é uma pedra angular do desenvolvimento humano. No entanto, muitas ferramentas de IA, ao oferecerem soluções imediatas, contornam este processo. Por exemplo, as ferramentas que geram ensaios ou resolvem problemas complexos em segundos eliminam a necessidade de pensamento crítico ou criatividade, reduzindo o papel do aluno a mero consumo passivo. Embora estas ferramentas poupem tempo, muitas vezes desviam o foco da compreensão para a mera conclusão, prejudicando a profundidade e a riqueza da aprendizagem.
Para aprender algo em profundidade, é preciso debater-se com o assunto. É precisamente nesse esforço — classificar, comparar, reformular, esforçar-se por compreender o que se lê — que a aprendizagem ocorre. Os cientistas cognitivos chamam a isto “luta produtiva” ou “dificuldade desejável”. “Há um consenso na psicologia cognitiva de que é preciso conhecimento para adquirir conhecimento”, escreveu um psicólogo em 2000. “Sim, a Internet colocou um maná de informação ao nosso alcance. Mas, para podermos utilizar essa informação — para a absorver, para a acrescentar ao nosso conhecimento —, temos de possuir já um acervo de conhecimento. Esse é o paradoxo revelado pela investigação cognitiva.”
Isto aplica-se também ao setor empresarial. Num estudo controlado realizado com advogados nos EUA, foram-lhes atribuídas aleatoriamente ferramentas de IA para redigir patentes. O estudo concluiu que, com a IA, todos melhoraram. Posteriormente, as ferramentas de IA foram retiradas. O estudo revelou que os advogados que já possuíam experiência e competências tiveram um desempenho muito superior ao dos advogados mais jovens, que não possuíam competências prévias. Os advogados mais experientes já tinham desenvolvido um discernimento crítico ao longo dos anos. Ao utilizarem a IA, conseguiam avaliar as sugestões e interiorizar padrões. Os mais jovens saltaram essa fase de aprendizagem. Delegaram o seu raciocínio na máquina. Enquanto esta estava ativa, funcionava. Quando desligada, ficavam sem uma base sólida. A experiência prévia é um pré-requisito para extrair uma aprendizagem duradoura da IA. Aqueles que mais beneficiaram da IA foram os que menos aprenderam.
É por isso que a IA é fatal para o processo de aprendizagem. Basta digitar uma pergunta para ela produzir uma resposta fluente. A prosa é segura, o raciocínio plausível, as fontes (por vezes) credíveis. Mas a mente do utilizador permanece, em grande parte, ociosa. Os estudantes que recorrem à IA para escrever uma redação ou resolver um problema podem apresentar trabalhos excelentes, mas não desenvolveram um raciocínio de excelência. O resultado polido mascara a ausência de cognição por trás dele.
Esta tentação não tem nada de novo. O corretor ortográfico tornou-nos piores a escrever; as calculadoras enfraqueceram a nossa capacidade de fazer contas de cabeça. Mas essas tecnologias automatizaram competências de baixo nível. A IA supostamente automatiza o pensamento de ordem superior — precisamente as operações mentais que definem uma pessoa com boa formação.
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Os professores também estão vulneráveis à IA. A IA pode elaborar planos de aula, escolher materiais ou dar feedback em segundos. Mas eficiência não é o mesmo que especialização. Os professores capacitam-se através do ato deliberado de conceber aulas, antecipar equívocos, ler e responder aos trabalhos dos alunos. Delegar essas tarefas na IA é esvaziar a arte do ensino. O professor torna-se um editor do que a máquina produz, em vez de um autor do ensino. Com o tempo, isso só pode corroer o tipo de especialização pedagógica que distingue um novato de um especialista. A IA, quando utilizada de forma acrítica ou como um atalho, treina-nos a confiar no que lemos, em vez de o questionar. A sua conveniência convida à passividade intelectual. O efeito não é o esclarecimento, mas sim a anestesia.
O famoso filósofo e linguista norte-americano Noam Chomsky resumiu certa vez as limitações da IA em relação à inteligência humana. “A mente humana não é como o ChatGPT e similares, um motor estatístico pesado para a correspondência de padrões, que devora centenas de terabytes de dados e extrapola a resposta conversacional mais provável ou a resposta mais provável a uma questão científica. Pelo contrário, a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que funciona com pequenas quantidades de informação; não procura inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas sim criar explicações. Vamos deixar de lhe chamar inteligência artificial e chamá-la pelo que é: “software de plágio”, porque não cria nada, limitando-se a copiar obras existentes, de artistas, modificando-as o suficiente para escapar às leis de direitos de autor.”
As máquinas não conseguem conceber mudanças potenciais e qualitativas. O novo conhecimento provém dessas transformações (humanas), e não da extensão do conhecimento existente (máquinas). E só a inteligência humana é social e consegue vislumbrar o potencial de mudança — em particular, a mudança social — que conduz a uma vida melhor para a humanidade e para a natureza.
Mas a IA está a revelar o que já está a falhar nos sistemas educativos das economias modernas. Já há décadas que se assiste à destruição da investigação livre, da aprendizagem e da educação nas escolas e universidades, e à sua substituição por cursos e programas concebidos para preparar os alunos para o trabalho na indústria, com os professores sob pressão para obter resultados, em vez de ajudarem a desenvolver a capacidade de autoaprendizagem. Os alunos estão a responder aos incentivos que o sistema educativo lhes tem dado. Ensina-se que as notas são mais importantes do que a compreensão. A IA está apenas a agravar esta ruína da educação; expôs o que já estava a falhar.
Durante o período de austeridade severa da crise da dívida do euro, verificaram-se profundas reduções na despesa pública em Portugal, tal como noutros Estados europeus. Cerca de 15 000 a 50 000 postos de trabalho no setor da educação pública e no setor dos contratos de curta duração foram afetados ou suprimidos. Centenas de pequenas escolas públicas rurais ou com baixos níveis de alunos matriculados foram obrigadas a encerrar. Os apoios sociais ao ensino superior sofreram grandes cortes orçamentais, o que levou a um aumento do abandono escolar.
Ao contrário da maioria dos países da OCDE, Portugal é um dos poucos países onde o nível de escolaridade mais comum é inferior ao ensino secundário (38% da população adulta não possui um diploma do ensino secundário, um valor bem acima da média da OCDE, que é de 19%). A percentagem de alunos do terceiro ciclo do ensino básico matriculados em programas profissionais em Portugal diminuiu de 9% para 4% entre 2013 e 2023, ficando abaixo da média da OCDE de 7%. Este declínio tem sido em grande parte atribuído a cortes drásticos no financiamento da educação de adultos (o que levou ao fim do programa Novas Oportunidades, ao encerramento de centros de educação de adultos e a uma redução do número de formadores de adultos).
Portugal tem atualmente cerca de 1000 vagas de professores por preencher e muitos mais professores a aproximarem-se da aposentação. Os cortes nas despesas com a educação ao longo dos anos reduziram o número de professores qualificados. O Governo e os gestores escolares consideram que podem colmatar esta lacuna com a IA. Mas a resposta não é mais IA, mas sim mais pessoas.
O Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) informa que, na sequência da reunião realizada dia 27 de outubro de 2026, com representantes do Ministério das Infraestruturas e Habitação, foram registados desenvolvimentos positivos no processo de resolução do conflito laboral que opõe os trabalhadores à CP – Comboios de Portugal.
Durante a reunião, foi analisado o caderno reivindicativo apresentado pelo SFRCI, tendo os representantes ministeriais em conciliação com a administração da CP manifestado disponibilidade para dar seguimento às reivindicações colocadas pelo SFRCI, com vista à procura de soluções para os problemas que afetam os trabalhadores ferroviários por nós representados.
Entre as matérias abordadas encontram-se a valorização salarial e profissional dos trabalhadores através, da valorização do trabalho prestado em dias de descanso não compensado, a publicação dos acordos salariais e regulamentares no Boletim do Trabalho e Emprego, a revisão do Acordo de Empresa e do Regulamento de Carreiras, bem como o reforço da segurança ferroviária e a proteção dos trabalhadores contra as agressões.
Foi igualmente sublinhada a importância de encontrar respostas para matérias a considerar no Orçamento do Estado e no orçamento da CP para 2027, tendo em vista uma valorização efetiva dos profissionais que, diariamente, asseguram a prestação de um serviço público essencial.
Suspensão da greve como sinal de responsabilidade e confiança no diálogo
Perante os desenvolvimentos positivos registados e a disponibilidade manifestada pelo Ministério e Administração da CP para dar seguimento às reivindicações apresentadas, a Direção do SFRCI decidiu suspender o pré-aviso de greve previsto para o próximo dia 30 de outubro de 2026.
Esta decisão constitui um sinal de responsabilidade institucional e de abertura ao diálogo, demonstrando que o SFRCI privilegia a negociação e a procura de soluções concretas, sempre que exista vontade efetiva de responder aos problemas dos trabalhadores.
O SFRCI considera, contudo, que a disponibilidade agora manifestada deverá traduzir-se em medidas concretas, compromissos objetivos e resultados efetivos. Os trabalhadores não podem continuar a aguardar indefinidamente pela resolução de problemas que se arrastam no tempo, num contexto de aumento do custo de vida e de perda do poder de compra.
O SFRCI continuará vigilante e determinado na defesa dos seus associados/as
A suspensão do pré-aviso de greve não significa o abandono das reivindicações, nem constitui um cheque em branco à tutela ou à Administração da CP. Significa, isso sim, uma oportunidade para que o diálogo agora estabelecido produza os resultados que os trabalhadores legitimamente esperam.
Caso os compromissos assumidos não sejam concretizados, ou se não houver avanços efetivos na resolução das matérias reivindicadas, o SFRCI reserva-se o direito de retomar a luta sindical e de recorrer às formas de ação que considere necessárias, incluindo a convocação de novas ações de luta, nos termos legalmente aplicáveis.
Os problemas internos existentes, serão tratados com as respetivas direções de Operações e Comercial em reunião a realizar brevemente.
O SFRCI reafirma que continuará a defender, com firmeza e determinação, a valorização salarial e profissional dos trabalhadores, a melhoria das suas condições de trabalho, a segurança no exercício das funções e o respeito pelos direitos consagrados.
A Direção do SFRCI agradece a confiança e a mobilização dos seus associados/as e deixa uma mensagem clara: o diálogo é o caminho preferencial, mas a concretização dos compromissos é indispensável.
A luta pela dignificação dos trabalhadores ferroviários continuará até que as reivindicações encontrem respostas concretas e efetivas.
Lisboa, 28 de outubro de 2026,
A Direção do SFRCI Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante
Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica da Espanha dos anos 30.
A Frente Popular perante a guerra e a revolução
Perante a superioridade militar dos rebeldes, fortemente abastecidos pelas potências fascistas, os principais partidos da Frente Popular — republicanos, socialistas e comunistas — defendiam que era necessário apresentar a guerra como uma defesa da democracia burguesa para manter o apoio das classes médias e garantir a ajuda militar das democracias ocidentais, principalmente da Grã-Bretanha e da França. Esta posição significava suprimir, ou pelo menos ocultar, a revolução social em curso numa parte significativa da zona republicana.
Tanto na historiografia como na época, considerava-se que as classes médias, ou pelo menos um sector delas, eram representadas pelos partidos republicanos de esquerda. O facto de estes partidos terem tido um papel central nos governos republicanos de 1931 e 1936 reforçou a ideia da sua importância política. Contudo, a sua base social e eleitoral foi efémera. Fora da Catalunha, o único local onde teve um apoio massivo (ERC), a base social do republicanismo de esquerda era bastante limitada, basicamente entre a pequena burguesia urbana e sectores muito específicos como os professores.
Muito ilustrativos das limitações do seu apoio foram os resultados eleitorais durante os anos da República. Em 1931, sem incluir a Catalunha, foram eleitos 111 deputados republicanos de esquerda em coligação com o PSOE e o Partido Radical, e em 1936, 129 como parte da Frente Popular. Em 1933, sem fazerem parte de uma coligação a nível estatal, obtiveram apenas 14 lugares (contra 21 na Catalunha), 9 deles graças a acordos locais com os Radicais e 5 devido ao apoio, também local, do PSOE2.
A nível internacional, os aliados aparentemente naturais da República, as democracias liberais, com a notável exceção do México, não só abandonaram o governo legítimo, recusando-se a enviar-lhe as armas necessárias para se defender, como também promoveram a farsa de uma política de “não intervenção” que resultou no isolamento quase total da Espanha republicana. A participação da Alemanha e da Itália no Comité de Não-Intervenção foi o exemplo mais claro do cinismo desta política infame.
Na realidade, tanto a França como a Grã-Bretanha não tinham qualquer interesse em apoiar um governo aparentemente fraco num contexto de grande radicalização política e social. O governo da Frente Popular francesa, encurralado pelas classes dominantes, pelas cúpulas militares e pelo imperialismo britânico, reverteu rapidamente qualquer intenção de enviar armas para a República. O governo britânico considerava que Azaña era o “Kerensky de Espanha” e quando a guerra civil começou, que o “bolchevismo” estava prestes a tomar o poder. Abundavam as declarações entre os seus ministros sobre como Franco era a melhor opção para proteger os interesses imperiais e capitalistas britânicos3.
O estalinismo
Com a degeneração da revolução russa e a ascensão ao poder de Estaline, os partidos comunistas tornaram-se totalmente subordinados às necessidades políticas de Moscovo. A viragem para a política de frente popular por parte do Comintern foi condicionada, sobretudo, pela necessidade de conter a ameaça que a Alemanha nazi representava para a própria sobrevivência da URSS. Essa ameaça tornou urgente a criação, a nível internacional, de uma aliança com as democracias, sobretudo com a França, contra as potências fascistas. Assim, a frente popular foi a expressão nacional da política externa soviética. A adoção uniforme desta nova orientação pelos partidos comunistas nesse período não obedeceu a qualquer análise da situação sociopolítica de cada país.
No entanto, em contraste com a desastrosa linha anterior que identificava os partidos socialistas com o “social-fascismo” e os considerava como o maior perigo para a classe trabalhadora, a Frente Popular ajustava-se à necessidade de enfrentar a ameaça da extrema-direita e levou a um aumento da influência dos comunistas em muitos países, incluindo no Estado espanhol. Com o início da guerra, o PCE tornar-se-ia o partido político mais poderoso da zona republicana. Já em meados de 1937, atingiu o valor dos 300.000 militantes – dez vezes mais do que antes de julho de 1936 –, o PSUC, a sua filial catalã, mais de 50.000 e a JSU cerca de 250.000.
Este auge da sua influência deveu-se a vários motivos. A defesa acérrima da Frente Popular pelos comunistas atraiu para o partido gente recém-politizada que se opunha ao levantamento militar e ao fascismo, entre eles, sectores pequeno-burgueses assustados com os “excessos” da revolução e os ataques à propriedade privada. Ao defenderem a centralização militar e a disciplina férrea, os comunistas conquistaram também o apoio de muitos militares profissionais que se mantiveram fiéis à República. Mas, sobretudo, o apoio militar à República por parte da URSS contribuiu para o aumento do prestígio do PCE.
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Um fator que muitas vezes não é tido em conta para explicar o crescimento da influência comunista foi a perduração da sua imagem como “o partido da Revolução Russa” e a sua autoidentificação como revolucionários. O facto de o PCE, apesar do seu compromisso na defesa da democracia republicana, falar da necessidade de uma “democracia de novo tipo”, de uma “revolução popular” e de uma “guerra nacional revolucionária” foi um reflexo das realidades políticas e sociais na zona republicana. A ampla utilização de imagens soviéticas e de métodos revolucionários para mobilizar a população de Madrid em Novembro de 1936 constitui outro exemplo da relação aparentemente confusa dos comunistas com a democracia burguesa. Daí não ter sido difícil chegar à conclusão de que a Frente Popular era um interlúdio tático necessário, uma fase anterior à implementação do socialismo. Tais ambiguidades ajudam a explicar a atração do estalinismo para um sector importante da FJS4.
Por último, apenas o PCE (na Catalunha o PSUC), com a sua disciplina e a sua estrutura “leninista”, e não os sectores liberais e reformistas, foi capaz tanto de pôr fim à revolução social em curso na zona republicana como de dirigir politicamente o esforço de guerra da Frente Popular.
Os anarquistas perante o poder
Após a derrota do levantamento militar em quase dois terços do território espanhol, o poder foi exercido por numerosos comités, muitos deles da Frente Popular, com a participação direta da CNT. Na Catalunha, os comités refletiam a influência da revolução. Em grande parte designados por comités “revolucionários” ou “antifascistas”, a sua composição dependia da força local das diversas organizações. Em geral, os seus membros eram nomeados pelas suas organizações; poucos eram eleitos pela população local5.
Para colmatar a falta de coordenação e a fragmentação do poder nas primeiras semanas na zona republicana, foram organizados diferentes tipos de comités a nível regional e provincial, quase todos apoiados por organizações da Frente Popular a nível local, com a adição da CNT. A sua autonomia e radicalidade variavam consoante o local. O mais importante deles foi o Comité Central de Milícias Antifascistas (CCMA) na Catalunha. O Governo catalão, incapaz de lidar com a situação, propôs aos trabalhadores e às forças republicanas a criação de um comité unitário para coordenar a luta contra as forças sublevadas. Assim, no dia 21 de julho, o CCMA foi formado com uma maioria frente-populista, embora as decisões do novo comité refletissem a força da revolução6. Para além da organização militar, o CCMA tomou as primeiras medidas para controlar a economia, com o bloqueio das contas bancárias das pessoas que tinham apoiado o levantamento e medidas para ajudar as empresas nas mãos dos trabalhadores a continuarem a pagar salários.
Em grande parte do resto da zona republicana, foram criados comités que, tal como o CCMA, detiveram efetivamente o poder durante as primeiras semanas da guerra civil. A orientação política da maioria destes comités refletia a influência das organizações da Frente Popular. No entanto, a situação estava de tal forma polarizada que em vários locais atuaram de forma marcadamente radical, como aconteceu com os comités de Cartagena, Gijón, Málaga, Valência e, sobretudo, com o Conselho de Aragão, organizado em outubro e dominado pelos anarquistas.
Mas ao não se consolidar o poder dos comités, completamente fragmentado, a revolução não podia triunfar. Perante esta realidade, o futuro da revolução dependia da CNT, que durante a guerra duplicou o seu número de membros até atingir o 1,5 milhão de efetivos. Para os anarquistas, a revolução foi um facto, no sentido em que em grande parte do que viria a ser a área republicana, a classe trabalhadora controlava as ruas, as fábricas e a terra. No entanto, as organizações operárias não controlavam as comunicações, o comércio externo ou o setor bancário. Acima de tudo, com a organização do Exército Popular durante o outono de 1936, perderam o controlo do elemento-chave da guerra e da revolução: as forças armadas.
Face ao vazio deixado pela quase desagregação do Estado republicano, cedo se apresentou um dilema para os anarquistas. A 21 de julho, na assembleia regional da CNT catalã, um dia após a derrota da rebelião militar em Barcelona, Juan García Oliver, um dos líderes mais influentes do anarquismo radical, defendeu que a CNT tinha duas alternativas: “arriscar tudo”, o que significaria estabelecer “uma ditadura anarquista”, ou colaborar com as outras forças antifascistas. Como “uma ditadura” era um anátema para os anarquistas, e dada a presença significativa de outras forças (especialmente os socialistas), particularmente fora da Catalunha, optaram pela “colaboração”. Assim, quase desde o início, os dirigentes anarquistas viram-se encurralados na ambiguidade entre a sua defesa da revolução e a sua prática de colaboração com o Estado. Na realidade, a dicotomia não era entre “ditadura” ou “colaboração”, mas entre a unidade dos trabalhadores, para além das fileiras anarquistas, para a tomada do poder ou a subordinação à Frente Popular que, mais cedo ou mais tarde, significaria o fim da revolução.
Opostos à criação de outro Estado, acabaram por colaborar com o Estado existente, ou, para ser mais preciso no caso do Estado espanhol em 1936, com a reconstrução do Estado republicano. No início de novembro de 1936, com uma situação militar cada vez mais crítica, quatro anarquistas passaram a integrar o Governo Republicano.
O processo de contrarrevolução dentro da zona republicana atingiu o seu apogeu com os combates de rua do início de Maio de 19377. Uma semana depois, a formação de um Governo chefiado pelo socialista moderado Juan Negrín, sem a participação dos anarquistas, representou o reforço definitivo do Estado burguês e a supressão dos sectores mais revolucionários, especialmente o POUM, vítimas de uma feroz campanha de calúnias por parte do estalinismo. O último bastião da revolução foi o Conselho de Aragão, em mãos anarquistas, que foi dissolvido em agosto. Em fevereiro de 1938, a CNT, já totalmente empenhada na colaboração com o Estado republicano, regressou ao Governo.
É impossível saber se uma estratégia de guerra revolucionária teria triunfado, embora a defesa de Madrid seja ilustrativa neste sentido.
Era possível uma alternativa revolucionária?
É necessário considerar se havia uma alternativa à abordagem da Frente Popular de uma guerra em defesa da democracia à custa da revolução social. A estratégia militar do Governo republicano rejeitou o uso de táticas não ortodoxas ou revolucionárias, em parte devido à necessidade do Governo republicano de manter tanto o controlo da situação política na sua zona como à necessidade de se apresentar ao mundo como um governo liberal. No entanto, dada a grande vantagem material que o inimigo tinha, a adesão do Governo republicano a uma estratégia militar ortodoxa tinha poucas hipóteses de sucesso.
A ideia de que a Frente Popular e o aniquilamento da revolução foram apenas uma posição “prática” devido às necessidades militares da República é uma falácia.
A política frente-populista, sobretudo a sua subordinação aos interesses imperialistas, teve as suas consequências militares. Por exemplo, o facto de desde o início, por pressão do Governo britânico, a Marinha de guerra, nas mãos dos marinheiros, ter sido retirada do estreito de Gibraltar, deixou o caminho livre para as forças rebeldes transferirem milhares de tropas do Norte de África para a península. E a recusa, para não prejudicar os interesses do imperialismo francês, de declarar a independência de Marrocos e apoiar uma insurreição nacionalista na retaguarda fascista, também favoreceu as forças sublevadas.
Uma estratégia alternativa teria incluído a mobilização em massa da população (como seria o caso durante a batalha de Madrid em novembro de 1936), uma guerra defensiva e de posição, e o uso de ataques relâmpago e mais limitados, combinados com uma guerra de guerrilha, evitando assim confrontos massivos entre dois exércitos com capacidades claramente desiguais. Ao mesmo tempo, medidas como a declaração da independência de Marrocos e o apoio militar ao movimento independentista marroquino, ou a declaração da entrega de terras aos camponeses poderiam ter contribuído para minar a retaguarda inimiga8.
É claro que é impossível saber se uma estratégia de guerra revolucionária teria triunfado, embora a defesa de Madrid seja ilustrativa neste sentido. Além disso, a situação internacional, na qual tanto os partidos comunistas como os sociais-democratas exerciam grande influência, não era de todo favorável. É impossível saber qual o impacto que a existência de um poder revolucionário em Espanha teria tido no movimento operário para além das suas fronteiras. O precedente de 1917 levanta a possibilidade de que pudesse ter funcionado como estímulo e, consequentemente, ter conseguido que outras correntes políticas tivessem maior influência na luta de classes.
Guerra e revolução
Frequentemente, na historiografia sobre a guerra civil, a divisão entre as forças antifascistas é apresentada como uma divisão entre aqueles que queriam dar prioridade à guerra (comunistas, republicanos e socialistas) e a CNT e o POUM, que colocavam os interesses da revolução à frente dos da guerra: uma divisão entre guerra ou revolução. Nunca foi assim. Tanto a CNT como o POUM defenderam a necessidade de fazer ao mesmo tempo a guerra e a revolução, de levar a cabo uma guerra revolucionária. Ambas estavam intrinsecamente ligadas. O POUM, sobretudo, tinha uma política militar clara que propunha a criação de um exército revolucionário, tomando como modelo o Exército Vermelho soviético durante a guerra civil russa. Mas um Exército deste tipo não poderia ser construído sem um governo revolucionário baseado na democracia a partir de baixo, em comités de operários, camponeses e milicianos9.
O POUM defendia que, para consolidar a revolução, pelo menos na Catalunha, era necessária a tomada do poder pela classe trabalhadora. Ora, sem a CNT tal propósito era impossível. Conseguir convencer a CNT disso, ou pelo menos parte dela, cedo se tornou a principal preocupação política do POUM, mas, como se viu, teve de ultrapassar a convicção dos anarquistas de que qualquer forma de poder ou Estado revolucionário conduziria inevitavelmente a uma ditadura.
Em última instância, o grande ausente na revolução espanhola foi a existência de uma organização revolucionária com a força necessária para dirigir a tomada do poder. Uma série de obstáculos impediram o POUM, o “único partido da revolução”, segundo Andreu Nin, de se tornar essa organização. Para além dos seus próprios erros, a falta de uma base fora da Catalunha e a sua curta história — tinha sido fundado apenas um ano antes — foram obstáculos difíceis de ultrapassar. E sem uma direção política, a revolução estava condenada à derrota.
Referências
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Beevor, Antony (2005) La guerra civil española. Barcelona: Crítica.
Casanova, Julián (2010) De la calle al frente. El anarcosindicalismo en España. Barcelona: Crítica.
Claudin, Fernando (1975) The Communist Movement. From Comintern to Cominform. Harmondsworth: Penguin.
Durgan, Andy (1992) “The 1933 elections in Spain and the Defeat of the Left”, Journal of the Association of Contemporary Iberian Studies, vol. 5, n º 2. Londres.
(2013) “The People in Arms: Spain 1936”, in Gonzalez, Mike & Barekat, Houman (eds.), Arms and the People.Popular Movements and the Military from the Paris Commune to the Arab Spring, Londres: Pluto Press: pp. 123-148.
(2017) “La democracia de los trabajadores en la Revolución española, 1936-1937”, in Azzellini, Darío & Ness, Immanuel (eds.), Poder Obrero. Autogestión y control obrero desde La Comuna hasta el presente. Madrid: La Oveja Negra: pp. 211-242.
(2021) “90 aniversario de la II República. Razones de un fracaso”, viento sur, 175: 99–108.
(2022) Voluntarios por la revolución. La milicia internacional del POUM en la guerra civil española. Barcelona: Laertes.
(2025) El POUM. República, revolución y contrarrevolución. Barcelona: Sylone-viento sur.
Ealham, Chris (2026) La lucha por Barcelona. Clase, cultura y conflicto 1898-1937. Madrid: Ediciones La Tormenta.
Fraser, Ronald (1979) Recuérdalo tú y recuérdalo a otros. Historia oral de la guerra civil española. Barcelona: Crítica.
Guillamón, Augustín (2017) Insurrección. Las sangrientas jornadas del 3 al 7 del mayo del 1937. Barcelona: Editorial Descontrol.
Guillén, Abraham (1980) El error militar de las “izquierdas”. Barcelona: Hacer.
Maurín, Joaquin (2023) Hacia la segunda revolución. Toledo: El Perro Malo.
Moradiellos, Enrique (1996) La perfidia de Albión. El gobierno británico y la guerra civil española. Madrid: Siglo Veintiuno.
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Peirats, José (1989) La CNT en la revolución española. Madrid: Hamelyn.
Pozo González, Josep Antoni (2012), Poder legal y poder real en la Cataluña revolucionaria de 1936. Sevilla: Espuela de Plata.
1 Publicado originalmente em viento sur, n.º 201, 11 de julho de 2026. Tradução de António Simões do Paço.
2 Durgan (1992).
3 Moradiellos (1996).
4 Para exemplos das contradições na posição dos comunistas em relação à Frente Popular ver Fraser (1979) tomo II, p. 30 e Durgan (2022) pp. 30, 43-44.
5 Sobre os comités ver, por exemplo: Pozo (2012) e Durgan (2017).
6 Houve cinco delegados republicanos, três da CNT, três da UGT, dois da FAI e um de cada um do POUM, do PSUC e da Unió de Rabassaires.
7 Entre a bibliografia sobre as Jornadas de Maio de 1937 (Els Fets de Maig, em catalão), tem particular interesse Guillamón (2018).
8 Sobre o debate acerca da alternativa de uma guerra revolucionária ver: Claudin (1975) pp. 210-242; Guillén (1980); Fraser (1979) tomo II, pp. 27-38; Beevor (2005) p. 464; Durgan (2013).
a população trabalhadora e jovem vive uma situação insuportável, causada pelos baixos salários, pela impossibilidade de aquisição ou arrendamento de habitação resultante do império da especulação imobiliária — na qual estão pesadamente implicados os membros do governo e deputados da direita, como revelava o jornal Público de 19 de Outubro;
a esta situação se soma a destruição do serviço nacional de saúde, do ensino público e a degradação dos transportes públicos que os governos têm promovido, retirando à população trabalhadora grande parte dos direitos colectivos que lhes permitiam sobreviver apesar dos baixos salários e promovendo a vergonhosa super-exploração dos trabalhadores imigrantes, quer no trabalho quer nas inaceitáveis condições de habitação;
enquanto isso, a inflação não pára de subir, nomeadamente a dos combustíveis e da alimentação, reduzindo drasticamente o salário real da generalidade dos trabalhadores e o rendimento e a viabilidade de pequenos agricultores, artesãos e micro e pequenas empresas;
o projecto de OE 2027 apresentado pelo governo propõe reduzir o investimento público em 31% e, em particular, o da habitação em quase 70%; cortar o orçamento da saúde em mais de 250 milhões e aumentar o da despesa militar em mais de 500 milhões; aumentar a massa salarial da função pública 2,3%, o que representa um corte brutal do poder de compra dos funcionários; aumentar de 6.700 para 8.200 milhões os pagamentos de juros da dívida pública, grande parte da qual resultante da nacionalização dos prejuízos da banca privada, Banif, BPP, Espírito Santo, etc.; “desagravar” o IRS dos salários médios e mais altos em um a três cafés por semana, concedendo ainda mais subsídios fiscais aos grandes senhorios e fundos imobiliários (“rendas moderadas”) e empresas (redução do IRC); continuar a usar o excedente da segurança social, que representa salário diferido dos trabalhadores, para compensar o défice orçamental causado pelos benefícios concedidos ao grande capital e à finança que parasita a dívida pública;
esta situação ocorre e se agrava num quadro de guerras e genocídios que alastram pelo mundo, tendo-se o governo português comprometido com a NATO/UE a aumentar a despesa militar até 5% do PIB nos próximos dez anos (passando dos actuais seis mil milhões de euros (o dobro do que era há cinco anos) para algo como 25 mil milhões de euros — ou mais), contribuindo, assim, para o alastramento das guerras;
enquanto isso, se multiplicam os desastres ambientais e as agressões às populações do interior, como no Barroso, o negócio dos campos gigantescos de painéis solares, etc.;
a situação descrita afecta toda a população trabalhadora e praticamente toda a juventude que vive, estuda e trabalha em Portugal e nos demais países da Europa e do mundo,
a juventude e a população trabalhadora, em Portugal e nos países europeus vizinhos, está a revoltar-se e mobilizar-se em massa, com toda a justiça, sendo, porém, alvo de repressão violenta dos governos e forças policiais,
os sindicalistas, trabalhadores e jovens reunidos em encontro nacional da Plataforma Unitária de Sindicatos decidem:
manifestar a sua solidariedade incondicional com as mobilizações dos jovens e trabalhadores, em, Portugal, em França, Espanha, Itália, Alemanha e no mundo contra a guerra, pelo direito à habitação, por um ensino e saúde públicos de qualidade e salários, condições de trabalho e pensões que lhes permitam viver com dignidade; e apelar aos sindicatos e centrais para que se associem, apoiem e protejam as acções da juventude trabalhadora e estudantil pelo direito à habitação;
condenar com toda a veemência a repressão que o governo português fez abater sobre os acampamentos de jovens no Porto e em Lisboa e exigir o fim de toda a repressão das mobilizações de jovens e trabalhadores no nosso país e no resto da Europa e do mundo;
exigir a obrigatoriedade de declaração e publicação de todos os fogos devolutos e sua mobilização imediata para alojar as famílias trabalhadoras; exigir a retirada imediata da proposta de novo regime do arrendamento urbano e a revogação de todas as medidas da “lei Cristas”, exigindo o imediato alojamento condigno de todas as famílias trabalhadoras e famílias pobres e vulneráveis, incluindo as imigrantes — até lá ficando proibidos os despejos e congeladas as rendas, travando a sua insuportável subida;
exigir a expropriação dos fundos imobiliários e um termo à transformação da habitação, direito constitucionalmente garantido, num negócio milionário; fixação das rendas em função do rendimento das famílias, num máximo de 30%; garantia de alojamento digno de todas as famílias e lançamento imediato de um plano nacional de habitação, para isso usando as verbas previstas para a despesa militar, os benefícios fiscais para o patronato e o pagamento dos juros ilegítimos da dívida pública;
exigir um aumento geral de salários de 15% para compensar a inflação acumulada, um aumento imediato do salário mínimo para 1.100 euros e indexação automática dos salários e pensões a um cabaz representativo das despesas das famílias trabalhadoras, controlado pelos sindicatos; semana de 35 horas sem redução de salário; fim da precariedade; contratos de trabalho para todos; transporte para e do trabalho gratuito e garantido pela empresas dos trabalhadores de empresas com efectivos superiores a 50;
exigir o financiamento adequado do SNS, da escola pública e do transporte público e reverter todas as medidas tendentes à privatização da saúde, do ensino e dos transportes;
exigir a redução da carga fiscal sobre os produtos de primeira necessidade e combustíveis, onerar os produtos de luxo e expropriar os super-lucros dos operadores energéticos;
rejeitar qualquer tentativa de subversão da segurança social, que é património dos trabalhadores, e de entrega dos seus fundos aos mercados de capitais; e rejeitar qualquer tentativa de voltar a contrabandear, agora medida a medida, o pacote laboral do governo, que foi derrotado pelas nossas greves gerais;
apelar à rejeição do projecto de orçamento para 2027 e a que as centrais sindicais, CGTP e UGT, e todas as direcções sindicais, comissões de trabalhadores e ORTs preparem a greve geral para impedir a sua aprovação na Assembleia da República;
apoiar o apelo das centrais sindicais do Estado espanhol a uma greve geral pela habitação e apelar ao apoio das centrais e direcções sindicais e ORTs portuguesas;
apelar à unidade e convergência da luta de todos os trabalhadores e jovens europeus, com os seus sindicatos e organizações, contra as medidas do capital e de Bruxelas, que a todos afectam, e contra as quais se preparam, já em Novembro, mobilizações de grande envergadura e greves gerais no Estado espanhol, França, Reino Unido, Bélgica, Itália, Alemanha e outros países.
Não aceitamos o caminho da miséria e da guerra! A mobilização fraterna da juventude e dos trabalhadores dos países europeus e de todo o mundo pode e deve pôr fim à caminhada para o abismo económico, social e ecológico.
*Estiveram representados no encontro os seguintes sindicatos: SNPVAC (aviação), SITEU (enfermeiros), S.TO.P (profissionais da educação), STCC (call centres), STGSSP (grandes superfícies), STASA (indústria automóvel), Sindicato dos Estudantes e os movimentos sociais Solidários e Rede Ecossocialista, tendo participado individualmente sindicalistas de vários outros sindicatos. Estiveram presentes como observadores representantes da associação Habitação Hoje.
Continuamos a falar da violência policial como se não fosse normativa em vez de excepcional, com a particularidade de os alvos serem frequentemente os invisíveis.
Os episódios sucedem-se e são invariavelmente com pessoas em situação de fragilidade perante um poder cuja natureza tem sido a do abuso, uma vez que manter a ordem perante um mundo desordenado apenas poderia resultar em violência, sobretudo quando essa parece ser cada vez mais a única ferramenta disponível para as forças policiais.
Odair Moniz, Cláudia Santos, o episódio da esquadra do Rato, a morte de um cidadão marroquino em Olhão, os episódios frequentes na esquadra de Alfragide são os que estão frescos na nossa memória e aqueles que tiveram atenção mediática. A excelente investigação do podcast Fumaça sobre violência policial (https://fronteiradomedo.pt/) oferece uma perspectiva mais profunda, preocupante e que não é episódica, mas classista com expressões racistas e xenófobas.
Os espancamentos dos manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I às 3 horas da manhã foram justificados pela PSP, neste como na maioria dos casos, como resposta à provocação de um pequeno grupo. Não sabemos qual a provocação, mas sabemos, porque é habitual, que qualquer exigência de um direito é considerada provocação no momento presente. Além de apelidado como egoísmo pelo mesmo primeiro-ministro que nos aconselha a mentalidade Ronaldo como solução. Pois aqui estamos.
É assim em Paris, em Madrid e em Portugal.
Nem a estratégia nem o resultado são novos.
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Na era cavaquista – e Montenegro tem vindo a reproduzi-la, traduzindo a austeridade em autoritarismo – era frequente as manifestações terminarem em cargas policiais, sob o mesmo pretexto, o da provocação, da desordem e dos desacatos, invariavelmente com uma gritante desproporcionalidade de resposta perante pessoas desarmadas.
Dois dos pressupostos teóricos essenciais para a manutenção da democracia, cada vez mais representação do que representativa, têm vindo a ser sistematicamente corrompidos e a situação do Porto ilustra-o na perfeição.
A atitude totalitária, misto de laxismo e cesarismo de Pedro Duarte – análoga à de Montenegro e Moedas – ao declarar que seria implacável com os manifestantes, e a consequente brutalidade da polícia, devem no mínimo levantar suspeitas sobre a idoneidade da conduta de ambos os intervenientes e sobre a violação da separação dos poderes judicial e executivo.
O outro pressuposto é simplesmente o da igualdade.
Onde está a carga policial, a crítica política ou a aplicação musculada da lei quando a extrema-direita incorre em ilegalidades como a invasão de rádios, manifestações do grupúsculo 1143 ou simulações de assaltos?
Essa duplicidade de critérios assenta na polícia como ferramenta para reprimir protestos resultantes do colapso económico. Thatcher fê-lo frequentemente para impedir as greves dos mineiros precisamente no momento em que o neoliberalismo se começava a apoderar dos mecanismos democráticos, acelerando a sua necrose.
Essa cooptação das instituições, primeiro via promiscuidade económica, e depois asfixia, começa agora a ter inegáveis efeitos no nosso quotidiano individual, não apenas de forma puramente económica, mas na forma como isso impacta as relações de poder.
A crise da habitação é apenas a face mais visível do estado natural de crise variável do metacapitalismo, com vários outros picos simultâneos, como o custo de vida, a falência do SNS e do ensino, e esse carácter multifactorial eleva-a de crise para um ataque com várias frentes.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver
Se em 2008 a descodificação da situação era bastante mais clara, podendo resumir-se o problema ao resgate dos bancos associado à degradação das nossas condições de vida, agora o catálogo de bodes expiatórios permite ao Governo desviar o foco da estrutura para a conjuntura, culpando populistas como Trump e as suas réplicas e as guerras, remetendo-se para uma posição de incapacidade.
O ridículo desta emergência é estarmos reduzidos ao grau zero das exigências a uma democracia esvaziada orientada no sentido ascendente, funcionando como facilitadora e porta giratória para o mundo corporativo. A crescente e permanente ausência de Estado, sobretudo nas zonas periféricas, em situações de calamidade como a do comboio de tempestades ou na simples gestão da tríade saúde/educação/habitação, demonstra como as instituições públicas nos defendem apenas quando coagidas, mas sobretudo como a nossa capacidade de organização para lá das suas fronteiras as pode substituir com mais sucesso e celeridade.
A confirmação inequívoca da real ameaça ao poder político que o poder popular constitui é a mudança do discurso de Pedro Duarte e de Montenegro, trocando ameaças por vontade de negociar.
Nessa negociação reside a armadilha. As cedências serão feitas na exacta medida do necessário para desmobilizar pessoas suficientes para fragilizar os protestos, caracterizando-os novamente como prototerrorismo e estancando o descontentamento dos restos de uma classe média que acredita na sua restauração até à agudização seguinte, continuando a perda de direitos num mundo cujo progresso económico tem sido à custa do retrocesso social.
Não há maior evidência do desequilíbrio da relação de poderes do que na atitude institucional face à ocupação dos espaços públicos por manifestantes a exigir apenas o cumprimento das promessas, não de Abril, mas da democracia liberal, voluntariando-se para reunir os fragmentos desse sonho, reprimindo-os política e policialmente.
Simultaneamente, essas mesmas forças colocam-se voluntariamente na dependência das elites económicas que ocupam ilegal e permanentemente os espaços públicos de acesso às praias em locais como a Comporta e a Arrábida ou na destruição total de Covas do Barroso.
Tudo isto acontece num cenário rentista, extractivo, onde as gerações mais novas vivem pior do que os seus pais, apesar do alardear constante da boa saúde da economia, sem qualquer tradução nas nossas vidas, as dos seus deserdados.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver.
Desde a contra-revolução islâmica contra a verdadeira revolução de 1979, parte da esquerda nacional e internacional passou a subordinar a análise de classe e género à sua interpretação unilateral do anti-imperialismo. Os protestos das mulheres contra o uso obrigatório do véu, por exemplo, foram marginalizados, contribuindo inadvertidamente para a consolidação da ordem religiosa e patriarcal, que passou a ser apresentada como garantia de “autenticidade cultural”, sinal distintivo em relação ao Ocidente e marcador de independência nacional. Foi tomando forma uma narrativa dominante que vê a Revolução Iraniana exclusivamente pelo prisma anti-ocidental, assim apagando as forças laicas, feministas, queer, curdas, socialistas e outras forças progressistas. Esta ideologia é estruturalmente incapaz de reconhecer a legitimidade de lutas internas em Estados anti-ocidentais. Povos não ocidentais são reconhecidos unicamente como objecto do imperialismo ocidental; a experiência vivida, a memória colectiva e as subjectividades políticas de grupos subalternos — mulheres/comunidades queer, minorias étnicas e as classes populares — são sistematicamente depreciadas como distracções insignificantes ou invenções do Ocidente.
Após o colapso da URSS, em 1991, esta orientação subsistiu na forma de um terceiro-mundismo estatista: transferiu-se a lealdade às populações para a lealdade a Estados “anti-americanos”, subordinando-se os direitos das mulheres, das pessoas queer e das minorias à “unidade anti-imperialista”. Esta perspectiva, simultaneamente eurocêntrica e orientalista, ignora a subjectividade dos povos não ocidentais. Só leva a sério a violência que emana do campo dos EUA e recusa-se a reconhecer que as populações do Sul Global possam lutar genuinamente por direitos e liberdades democráticos.
A “unidade anti-colonial” transforma-se assim em autoritarismo nacionalista. E aceita a lógica de um “estado de emergência” aparentemente permanente: dá-se prioridade ao poder do Estado, à segurança e à influência geopolítica (por exemplo: “Lutamos na Síria para não termos de lutar em Teerão”).
O campismo transforma a memória anticolonial num instrumento de legitimação de Estados pós-coloniais autoritários. Faz do Estado o agente da resistência e priva os povos tanto da sua legitimidade como da sua subjectividade política. Trai, deste modo, memórias subalternas que tantas vezes se constituíram contra o próprio Estado. Paradoxalmente, Estados como o Irão são apresentados como “independentes do capitalismo global”, quando eles não deixam de ser máquinas de exploração interna e de militarismo, exactamente preocupadas em integrar-se no capitalismo global e em competir com outros Estados nesse palco.
É exactamente na sua relação com as margens colonizadas do Irão que esta lógica revela com máxima clareza a sua violência. O campismo não se limita a apagar a pluralidade das forças de oposição iranianas. Enraizado numa concepção quase colonial e securitária da soberania e das fronteiras, reproduz também hierarquias internas, relegando para segundo plano ou mesmo desqualificando as lutas étnicas curdas e de outros povos não persas. A este respeito, desde a jihad de 1980 contra o Curdistão até aos mais de 100 ataques recentes a partidos curdos iranianos exilados no Curdistão iraquiano durante a guerra, os campistas têm-se amiúde mostrado ainda mais hostis aos curdos do que o próprio governo iraniano, minimizando ou marginalizando a legitimidade da sua resistência.
Estas violências fazem parte de uma história mais antiga, agravada pelo apoio activo — ou pelo silêncio — de alguns actores do mundo árabe e de alguns segmentos da esquerda. O genocídio de Al-Anfal, levado a cabo por Saddam Hussein durante a Guerra Irão-Iraque, que custou a vida a cerca de 180 mil curdos simplesmente por causa da sua identidade, ilustra esta dinâmica. Ao trauma da repressão assassina acrescentou-se o apoio de parte do mundo árabe e a negação do genocídio por parte de intelectuais.
Mais recentemente, em 2018, a ocupação de Afrin, no Rojava, pelo Exército turco foi acompanhada de violência, expulsão e destruição sistemáticas. Em resposta, o chefe do Hamas, Khaled Mashaal, afirmou: “A vitória em Afrin é um símbolo da vontade da Turquia. Se Deus quiser, apresentaremos grandes epopeias em ajuda ao nosso povo”, antes de passar a elogiar a direcção do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan e do seu partido, o Partido da Justiça e Desenvolvimento, no poder há mais de vinte anos.
Estes acontecimentos produziram, infelizmente, uma ruptura duradoura nos laços entre as lutas curdas e as do mundo árabe ou persa, bem como com certas partes da autoproclamada esquerda anti-imperialista, que tantas vezes evitou reconhecer e apoiar a luta curda.
Instrumentalização estatal das sanções ocidentais
A recente guerra contra o Irão não apareceu de repente; foi longamente preparada por um regime de sanções que funciona como uma tecnologia imperial de produção de vulnerabilidade social, como já se tinha demonstrado no Iraque. As sanções não se limitaram a empobrecer a população, alimentar a inflação, corroer os cuidados de saúde e o emprego e enfraquecer as capacidades colectivas de resistência; ajudaram, também, a gerar condições favoráveis para a escalada militar. Confinando o país a uma economia eternamente sitiada, normalizaram o estado de excepção, consolidaram os aparelhos rentistas e securitários do Estado e passaram os custos da crise para cima das classes populares. Ao fazê-lo, prepararam o terreno tanto material como ideológico para a guerra: uma sociedade exausta, fragmentada e reduzida à luta pela sobrevivência fica mais exposta a projectos de militarização externos. As sanções mostram, assim, o que realmente são: não uma alternativa à guerra, mas uma das suas formas preparatórias.
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No entanto, se bem que reais e devastadoras, as sanções não são, por si só, responsáveis pelas condições de vida indignas num país rico em recursos como o Irão. Contra as leituras “campistas” que reduzem todas as formas de desigualdade social no Irão às sanções ocidentais, a análise também deve enfrentar a economia política do próprio Irão: uma ordem capitalista marcada por uma privatização dura, precariedade laboral generalizada — a informação disponível indica que mais de 90 por cento dos contratos são temporários — e um regime de dominação e privação organizado internamente, sustentado em parte na exploração extrema e na expropriação de trabalhadores racializados e indocumentados, especialmente afegãos e baloches. Para os campistas, os protestos populares no Irão são interpretados como descontentamento económico, causado inteiramente pelas sanções, obscurecendo, assim, o papel central das políticas do próprio Estado. Uma consequência desta lógica campista é que, ao minimizar a dinâmica real da oposição interna à República Islâmica, ela estabelece uma falsa equivalência, assente na transviada noção de que tal “descontentamento económico” está em consonância com o projecto reaccionário pahlavista de mudança de regime por cima. Ao contrário do que afirmam os campistas, opor-se à mudança pró-imperialista de regime não passa por rejeitar ou deslegitimar a revolta interna contra a República Islâmica.
Não se pode atribuir a pobreza generalizada no Irão unicamente às sanções; ela mergulha igualmente raízes numa economia política rentista e na monopolização das importações, ambas instrumentalizadas pela República Islâmica. As suas políticas de segurança e regionais não são simplesmente reacções à pressão externa. Pelo contrário: tais políticas são parte integrante da lógica de sobrevivência do Estado, canalizando recursos para instituições coercivas e projectos ideológico-militares, enquanto a população fica exausta e empobrecida. Como argumenta Kayhan Valadbaigi, as sanções ajudam a intensificar a concentração de riqueza na oligarquia, consolidando as estruturas de poder. Passam os custos para cima dos mais vulneráveis, justificam a repressão e enriquecem ainda mais a oligarquia. As políticas de choque económico — flutuações para o dólar, eliminação da taxa de câmbio preferencial — apresentam-se como medidas calculadas de “sobrevivência” num contexto de vulnerabilidade.
Além disso, os campistas apagam a violência da República Islâmica contra o povo. Assassinatos, tortura, execuções, disparos sobre feridos em hospitais e ataques a cerimónias fúnebres são ignorados ou negados e, assim, legitimados. Apoiando uma teocracia autoritária e anti-imperialista, esvazia-se a linguagem da emancipação de todo o conteúdo real.
Deixem de julgar uma causa pela forma como é instrumentalizada
A propagação do campismo autoritário faz-se em grande parte pelas redes sociais. Aí, a legitimação de Estados autoritários entrelaça-se com um anti-ocidentalismo redutor e, em alguns casos, com anti-semitismo e padrões de pensamento conspirativos.
Apesar das assimetrias objectivas entre Israel (apoiado pelo Ocidente) e a República Islâmica (sob sanções ocidentais), mecanismos políticos e simbólicos semelhantes operam para ambos: bandeiras dos EUA e de Israel em certos comícios “pró-Irão”; bandeiras do Estado iraniano (ou da República Islâmica) e retratos de Ali Khamenei em algumas mobilizações pró-palestinianas. Todos estes gestos são susceptíveis de transformação de lutas legítimas em justificações para a violência, ao mesmo tempo que desacreditam tanto a resistência iraniana como a palestiniana. A mesma lógica se aplica à agora famosa palavra de ordem “Mulher, Vida, Liberdade” (Jin, Jiyan, Azadî). Apropriada pela extrema-direita ocidental, pela extrema-direita iraniana na diáspora e por correntes pró-genocídio, tem sido instrumentalizada para apoiar a violência militarizada.
Esta lógica não é específica ao Irão. Como David Brophy argumentou em relação ao Xinjiang, há partes da esquerda internacional que têm tratado a repressão dos uigures e de outros povos muçulmanos menos como uma questão de direitos nacionais e violência estatal do que como um problema de propaganda, financiamento ou manipulação geopolítica ocidental; no caso de Vijay Prashad e Tings Chak, esta postura desculpabilizadora chegou ao ponto de se basear em fontes fabricadas, aparentemente geradas por IA. Mas a instrumentalização cínica dos direitos humanos pelos Estados ocidentais não torna menos real o sofrimento a que tal linguagem se reporta.
Sabemos perfeitamente como movimentos progressistas e radicais do Sul Global muitas vezes acabam apropriados pela direita, uma vez divulgados no Ocidente. Mas esse processo não nos pode fazer abandonar o dever de solidariedade. O caso do movimento queer ilustra-o bem: o “branqueamento cor-de-rosa” por Estados como Israel não anula nem a força emancipatória da queerness nem a necessidade de solidariedade com queers que enfrentem repressão seja em que contexto for. A legitimidade de uma resistência depende unicamente do seu conteúdo emancipatório e da sua implantação entre os oprimidos, nunca da sua apropriação.
O campismo contribui de formas muito concretas para a perpetuação de injustiças históricas e contemporâneas. Pela dispersão e fragmentação cria um vácuo político, que é gradualmente preenchido pela direita e pela extrema-direita, tanto na região como em todo o mundo. A extrema-direita iraniana na diáspora ocupa este vácuo, simplificando a revolução e diabolizando o “anti-imperialismo”. Pode, deste modo, apresentar-se como única força de mudança. Homogeneizando artificialmente populações inteiras (“Todos os ucranianos que resistem à Rússia são nazis.” “Todos os revolucionários sírios são jihadistas.” “Todos os iranianos que se revoltam apoiam Israel ou os monárquicos.”), o campismo torna-se cúmplice da ascensão das forças imperialistas e reacionárias.
A extrema-direita é extrema-direita em toda a parte
Na Europa, nenhuma esquerda coerente aceitaria aliar-se às bandeiras da extrema-direita com o argumento de que uma potência inimiga estava a atacar o país. No entanto, para o Irão, alguns consideram aceitável exigir que os Iranianos se apaguem e alinhem atrás de forças reaccionárias, nacionalistas, fanáticas e até fascizantes. Implícito em tal assimetria está, na prática, que os povos do Sul Global devam contentar-se com uma escolha entre dominação imperial e barbárie interna. Ora, precisamente, a República Islâmica é um Estado que deve ser chamado pelo que é: uma formação fascizante, uma extrema-direita não ocidental, especialmente no que diz respeito a minorias étnico-nacionais e aos imigrantes afegãos.
Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte.
A recente declaração “antiguerra” sobre o Irão expõe o impasse político do “campismo”: um discurso antiguerra que permite que certos segmentos da esquerda convirjam com meios fascistas, anti-semitas, neonazis e conspiracionistas. A declaração reúne signatários de meios políticos aparentemente opostos: por um lado, figuras anti-guerra campistas “descolonizadoras”, como Vijay Prashad, Sandew Hira, Ramón Grosfoguel, Boaventura de Sousa Santos, Munyaradzi Mushonga, Ajamu Baraka, Nordine Saïdi e Paulina Aroch Fugellie; e, por outro, uma série de figuras — incluindo Dieudonné, Alain de Benoist, Thomas Werlet, Jean-Michel Vernochet, Christian Bouchet, Marion Sigaut, Jacob Cohen, Pierre-Antoine Plaquevent e Arnaud Develay —, bem como organizações como a RN, Égalité & Réconciliation, L’Œuvre française e o Mouvement France Résistance, todas associadas a correntes conservadoras, de extrema-direita, nacionalistas ou fascistas. Esta justaposição ilustra como uma forma puramente geopolítica de anti-imperialismo se pode tornar compatível com a política de extrema-direita. Neste contexto, o regime iraniano e o seu criminoso chefe supremo, Ali Khamenei, ressurgem nas vestes de “voz contra a arrogância e o terrorismo”, enquanto, sob a bandeira da política anti-guerra, se normaliza uma tolerância profundamente preocupante para com a violência dos Estados pós-coloniais contra as suas próprias populações.
A coerência política exige recusar, tanto para os Iranianos como para qualquer outro povo, qualquer instância de acomodação do fascismo em nome de um “mal menor” geopolítico. Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte. Assim como não marchamos com os fascistas, nem debaixo das bandeiras deles: lutamos contra eles, mesmo quando eles se apropriam do vocabulário da liberdade para lhe inverter o significado.
Identicamente ao estalinismo, que tanto contribuiu para desacreditar o socialismo, o “campismo” no Irão enfraquece a esquerda e fortalece a extrema-direita. Aprofunda, enquanto isso, a divisão Norte-Sul e legitima a repressão de movimentos anti-tirania no Sul. O resultado é o isolamento das forças emancipatórias, a desconfiança dos exilados para com a esquerda, no Norte (incluindo as correntes da descolonização) e o colapso da solidariedade internacional.
O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.
As prisioneiras feministas curdas condenadas à morte na prisão de Evin são capazes de manifestar a sua solidariedade com a resistência palestiniana — mesmo correndo o risco de perder parte do seu apoio no Irão. Já os anti-imperialistas autoritários e identitários se mostram, instalados no conforto do Ocidente ou de outro sítio, incapazes de demonstrar solidariedade comparável com as lutas populares no Irão. Chegam, o que é ainda mais grave, a negar ou duvidar da verdadeira dimensão do sofrimento.
É urgente deixar o “campismo” para trás. Caso contrário, não se conseguirá reconstruir uma esquerda genuinamente emancipatória nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular, como tentam fazer redes como a Peoples Want. O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.
1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.
A intervenção policial no Porto e em Lisboa na noite de 24 para 25 de outubro para desmobilizar as manifestações contra a crise habitacional foi mais um capítulo do uso do aparelho coercivo do Estado em benefício de uma classe exploradora e rentista.
Politicamente morto, o ministro Luís Neves é a representação do que de mais podre existe neste sistema: alguémque se serviu durante anos da sua posição no poder estatal para beneficiar economicamente e que encabeça agora uma operação violentíssima e desproporcional contra manifestações pacíficas. Fá-lo como prova de vida e para rogar o perdão do Chega, que contra ele fez obsessiva campanha durante todo o verão, para agora se deixar seduzir pela sua ação autoritária.
Esta deriva não devia ser surpresa. A elite económico-financeira defende à bastonada os seus interesses, a história demonstra-o. Neste caso, essa elite está não só a influenciar a cúpula governativa, como está ela mesma lá instalada: veja-se o património imobiliário daqueles que nos pedem mais sacrifícios ou para largarmos o “egoísmo”.
Não se agride só a luta pela habitação e as garantias constitucionais que nos restam, mas a experiência verdadeiramente democrática das assembleias populares que, em pequena escala, envolve politicamente as novas gerações, ao contrário do sistema farsante desta república oligárquica. Quando convidado para discursar nas comemorações do 10 de junho de 2019, o inenarrável João Miguel Tavares, passista amargurado e representante da miséria moral e intelectual do “comentariado” mediático, clamou poeticamente à classe política: “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Agora que os jovens acreditam na construção de uma alternativa ao Estado económico e social que nos sufoca, é o mesmo pobre Tavares que, paradoxal mas significativamente, se levanta, não contra a emergência habitacional, mas contra as acampadas e as ideias “comunistas” que lá detetou.
A passividade de António José Seguro perante um dos mais visíveis atropelos às liberdades civis desde abril de 1974 é também um lembrete para os que encostam a esquerda à ditadura do voto útil e do mal menor. Abdicamos da construção de alternativas políticas em nome da defesa da democracia… e levamos bastonadas.
A revolta deve traduzir-se em formulação política. Não queremos defender o statu quo das sádicas alterações ao NRAU aprovadas recentemente pela direita. Queremos que o statu quo seja radicalmente transformado. Urge controlar as rendas e a compra do nosso parque habitacional por investidores e fundos especulativos estrangeiros (e nacionais) e a ampliação da habitação pública, por via de mais construção, recuperação e expropriação de imóveis sem utilidade social.
Apresentemos propostas, pautemos o debate, construamos uma alternativa que conquiste a maioria social.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome masculino que designa 1) conversa entre duas ou mais pessoas; 2) troca de ideias ou opiniões com o propósito de chegar a um entendimento; 3) Em literatura, teatro, televisão, cinema: conjunto das falas ou réplicas ditas em discurso direto pelas personagens de uma obra.
EM NOVILÍNGUA:
Doze longos dias depois de a polícia de choque ter dialogado com os manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I, no Porto, com argumentos contundentes, que deixaram dezenas de feridos, o PR António José Seguro finalmente decidiu expressar algumas ideias, quem sabe talvez mesmo uma opinião, afirmando que “a cultura portuguesa é de diálogo, não é de violência nem de confronto”. Mas logo acrescentou, sem nunca condenar a atuação policial, que “para exercermos a liberdade, temos de nos respeitar todos e, para nos respeitarmos todos, temos de cumprir a lei”. Ora a lei, e acima dela a Constituição, já o esclareceram dezenas de juristas, está do lado dos manifestantes, não da polícia. Atrás de quem se esconde outro “desaparecido”, o PM Luís Montenegro, que lá afirmou que "o Governo está sempre disponível para dialogar". O diálogo, ora aí está. Diálogo em que o porta-voz de PM e PR é a polícia: os manifestantes falam de habitação, a polícia responde com o bastão. ASP
A Frente Sindical pela Defesa do Trabalho (FSDT) decretou uma greve geral de 72 horas entre 21 e 23 de outubro. Os sindicatos reclamam a redução do custo de vida, melhoria das condições de trabalho, proteção social e maior respeito pelos direitos dos trabalhadores. As reivindicações incluem ainda a reintegração dos trabalhadores despedidos, o respeito pela liberdade sindical e pelos direitos dos trabalhadores. Fonte: La Tribune des Travailleurs, 28 de outubro de 2026.
O termo mockumentary designa um género de cinema, ou televisão, que apresenta aos espetadores elementos ficcionais no formato de documentário, essencialmente como forma de satirizar uma situação concreta, ou o formato documental em si mesmo.
Ainda que o termo venha dos anos 60 do século XX, foi popularizado por Rob Reiner, a partir do seu notável This is Spinal Tap, notável mockumentary acerca de uma banda rock britânica ficcional, em tournée pelos Estados Unidos. O filme, de 1984, satirizava alguns documentários da época (The Song Remains the Same, dos Led Zeppellin, por exemplo) e foi um grande sucesso para um realizador estreante, que depois veio a ser um dos grandes nomes do cinema americano.
A Hard Day’s Night (Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso, no título português), de Richard Lester, com os Beatles, realizado em 1964, é visto como um dos primeiros exemplos do estilo, que se desenvolveu sobretudo a partir do momento em que os arquivos de cinema e televisão passaram a estar mais disponíveis e a ser mais fáceis de consultar e de utilizar, permitindo a manipulação de imagens originalmente colhidas com propósitos totalmente diferentes.
Seria uma questão de tempo até que a televisão utilizasse o conceito, e duas das mais bem-sucedidas séries americanas de comédia assumiram o formato: “Uma Família Muito Moderna” e “The Office” (esta última, a partir de um original britânico).
Um dos nomes consagrados do cinema americano, que é incontornável quando o tema é o mockumentary, é Woody Allen. Nascido Allan Stewart Konigsberg, escrevia para televisão há já quase 15 anos quando assinou o seu primeiro argumento cinematográfico: What's New Pussycat (1965), realizado por Clive Donner. A sua carreira prosseguiu, com dezenas de realizações de diferentes filmes e a escrita de argumentos originais, de forma muito bem-sucedida, não isenta de polémicas, como as motivadas essencialmente por factos da sua vida pessoal.
Seguiu-se uma série de filmes de cariz significativamente diferente, onde Woody Allen se foi aproximando do melodrama, tendo chegado perto do que teria sido o trabalho de Ingmar Bergman, se alguma vez o realizador sueco tivesse trabalhado na América (sobretudo Stardust Memories, de 1980). The Serpent’s Egg (O Ovo da Serpente, em Portugal), que Bergman fez na América em 1977, por ser um elemento atípico na sua filmografia, não invalida o argumento.
Até que, em 1983, Woody Allen nos apresentou Zelig, a quinta essência do que é o mockumentary.
Leonard Zelig é um personagem que acompanhamos a partir dos anos 20 do século XX. Dos Roaring Twenties até ao início da Segunda Guerra Mundial. Podemos acompanhar o ambiente da América desses denominados anos loucos da década de 20, a que se seguiu a Grande Depressão, e depois a guerra. E, a par de um exercício de pura nostalgia, partimos de uma premissa cómica muito pouco comum, a saber: Zelig tem a capacidade de se adaptar, de forma total, ao meio em que se insere. Mais do que alguém com empatia ou mera capacidade de adaptação intelectual, ele assume as características físicas e psicológicas das pessoas que estão à sua volta. Muda de padrões de discurso, de características físicas (até de raça), chegando a engordar ou a fazer crescer apêndices capilares, se isso contribuir para se confundir com o grupo onde estiver inserido.
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Podemos interpretar esta premissa – a de adaptar literalmente o seu físico e comportamento psicológico do “outro”, moldando-se como cópia – como sendo o de levar, ainda mais longe as premissas do livro O Homem sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. A outro nível, conhecemos a mesma premissa aplicada à análise da personalidade de atores célebres. Existe um episódio dos Marretas com Peter Sellers em que o ator confessa que não tem uma personalidade que seja própria, evoluindo de acordo com as personagens que interpreta, assim como, mais recentemente, tivemos Jim Carrey a encarnar quase literalmente, se possível, Andy Kaufman, no Man on the Moon (Homem na Lua, no título português), de Milos Forman.
Leonard Zelig, uma vez conhecida a sua capacidade excecional, é rapidamente descrito como “o camaleão humano”, e começa a ser tratado como uma atração digna de um freak show (termo que é injustamente traduzido para português como circo de horrores). E rapidamente nos é mostrada a razão de ser desta anomalia: Zelig tem apenas uma profunda necessidade de ser amado e, para isso, de não sobressair de modo errado. Imita o outro para ser aceite. Chegamos a conhecer as condições em que a personagem cresceu, e as vivências que foi atravessando. A vida na América no início do século XX implicava fortes pressões de assimilação cultural e, particularmente relevante para um jovem judeu, de forte antissemitismo. A anulação do “eu” surge como um mecanismo de sobrevivência psicológica para a personagem, que desenvolve assim uma condição (clínica), mais do que um superpoder.
Muitas sequências do filme são particularmente bem conseguidas, exatamente em momentos em que Zelig partilha o ecrã com variadas personalidades relevantes daquela época, lado a lado, mas invisível aos outros, no culminar da sua necessidade de se dar com toda a gente, com efeitos comparáveis ao que muitos anos mais tarde vimos em Forrest Gump, pela mão de Robert Zemeckis.
Usando as melhores técnicas do mockumentary, Woody Allen vai acompanhando as imagens da época com comentários proferidos por personalidades reais e notórias, que dão uma maior credibilidade à ficção que nos é apresentada. Podemos encontrar vários vultos da intelectualidade nova-iorquina da altura em que o filme foi feito, como Susan Sontag, Saul Bellow ou Bruno Bettelheim.
O enredo, que como seria de esperar não é assim tão complexo, acaba com um final feliz, com a psiquiatra que acompanhava Zelig, e que por ele se interessou, a acabar por desenvolver por ele sentimentos de outra natureza (sentimentos retribuídos também por Zelig, claro!), e essa ligação amorosa (ligação pessoal) acaba por fazer desaparecer a anomalia que o tornava o (tal) “camaleão humano”.
Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço.
Uma questão que se poderá sempre colocar a propósito da criação artística é a de saber o que moveu o autor, desde o primeiro momento. Será sempre possível perguntar se existiu alguma motivação específica para o autor ter desenvolvido este projeto e não outro qualquer. As eventuais referências culturais a que já fiz referência terão um propósito de enquadramento na história que está a ser contada. Mas, afinal, o que terá motivado Woody Allen a criar um personagem como Zelig?
Um dos maiores cineastas da história, ele próprio um cómico de exceção, Charlie Chaplin fez refletir em certas obras algumas das situações que foi enfrentando na sua vida pessoal. A sua vida sentimental acidentada, com vários divórcios problemáticos, gerou o filme Monsieur Verdoux (O Barba Azul, em Portugal). Anos mais tarde, a perseguição política a que foi sujeito pelo governo dos EUA serviu de inspiração ao filme A King in New York (em Portugal, Um Rei em Nova Iorque).
A verdade é que todos nos cruzámos com pessoas com características parecidas com este Zelig. Todos nós já encontrámos ou lidámos com pessoas que são como esta personagem. Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço. Cada pessoa que encontramos que diga que ainda está à procura de si próprio é possível que seja alguém que tem vindo a deixar um rasto de personagens que foi copiando e que, depois de não serem necessários, são deixados para trás, como uma cobra que abandona uma pele antiga. Por vezes também fazem vítimas, deixando cadáveres no seu caminho. E copiam outros para serem aceites, validados, terem uma vida.
Zelig é, por isso, um grande filme de Woody Allen, injustamente esquecido quando falamos da sua filmografia. Mas é pena.
Escrevo na madrugada as últimas palavras deste livro: e tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se reconstrói e continua.
Acordam pouco a pouco os construtores terrenos, gente que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável, crianças que passam ao ar livre gargalhando. Como um rio lento e irrevogável, a humanidade está na rua.
E a harmonia, que se desprende dos seus olhos densos ao encontro da luz, parece de repente uma ave de fogo.
Carlos de Oliveira
«Quando a harmonia chega»
Terra de Harmonia, in Trabalho Poético
Livraria Sá da Costa Editora, 1998.
Contra as expectativas do PT e até mesmo das sondagens, Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta das presidenciais brasileiras com 2,2 milhões de votos de vantagem. A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro na segunda volta parecia inevitável. Não o foi porquê?
Contra as expectativas do PT e até mesmo das pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 2,2 milhões de votos à frente. Seu campo também elegeu os governadores do Sudeste e do Sul do país, alcançando 11 governadores no primeiro turno, que governarão 63% da população (e 16 governadores, com 71% da população, após o segundo turno), e avançou fortemente no Senado e na Câmara. Consagrou, assim, um lastro político que, diferentemente das condições de seu pai, permitiria à sua base de apoio avançar na implementação não apenas de um governo de cariz fascista, mas de um regime fascista, visto que controlaria também o Supremo Tribunal Federal.
A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro repercutiu de modo profundo em todo o campo progressista. Silêncio, medo e perplexidade anunciavam um quadro de derrota antecipada. Nem os partidos nem a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e as demais centrais sindicais convocaram uma grande vaga de lutas, com a realização de plenárias populares antifascistas. Como superar uma vantagem estimada em 11 milhões de votos? Como proteger a militância e os movimentos populares da turba neofascista?
Centenas de milhares de ativistas sociais dimensionaram o significado prático de um governo ligado às grandes organizações criminosas, entre elas as chamadas milícias, que colocaria o Brasil no Escudo das Américas e radicalizaria a austeridade neoliberal extrema sobre os direitos sociais, como faz Milei. Indicadores da Comissão Pastoral da Terra registram 136 assassinatos de indígenas, quilombolas1 e trabalhadores do campo durante o governo de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro destinou recursos a Peixe, miliciano condenado no caso Marielle Franco2. Assim, movimentos indígenas e contra as mineradoras, torcidas antifascistas, estudantes, movimentos negros, de mulheres e da diversidade, sindicatos, entidades científicas e entidades profissionais foram se somando às manifestações.
Diante da iminente derrota de Lula da Silva no segundo turno, a irrupção de iniciativas autoconvocadas e livres das amarras burocráticas foi decisiva para a reversão do quadro negativo do primeiro turno, conferindo ao segundo turno um inédito caráter de massa e popular não cogitado pela burocracia do PT. Este artigo discute algumas tendências advindas dessa irrupção e defende a importância da reaglutinação de arcos de forças que pratiquem a autonomia diante do novo mandato do atual presidente.
Da derrota de 4 de outubro…
As mobilizações das juventudes, relativamente síncronas e espalhadas pelo mundo, que forjam a cena das lutas populares de 2026, dão visibilidade a novos sujeitos, agendas, métodos e formas de organização capazes de catalisar mudanças na correlação de forças de seus respectivos países e na conjuntura mundial. No seio da geração Z, mas não somente nela, estão se conformando novos sujeitos coletivos nas lutas populares mundiais. No caso brasileiro, as recentes manifestações foram as maiores do século e alcançaram o pico de 2 milhões de pessoas às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro. São perceptíveis a abertura a pautas3 mais amplas das classes trabalhadoras e a maior autonomia diante dos partidos oriundos da esquerda, enrijecidos pelo ciclo vicioso da burocratização e pela assimilação da austeridade como uma segunda natureza. O descolamento entre os movimentos que emergem e as práticas burocráticas desses partidos é acentuado pelo facto de que, quando assumem o governo, eles tratam assuntos públicos como habitação, transporte, educação, ciência, saúde e previdência como esferas a serem dirigidas pela tecnocracia. A despolitização dessas dimensões da vida social pavimenta o avanço das extremas-direitas.
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O Partido dos Trabalhadores (PT) também vive essa realidade de burocratização e de incorporação profunda dos preceitos da austeridade. O enfrentamento eleitoral com a extrema-direita mostrou-se mais árido do que a estratégia da campanha de Lula havia previsto para o primeiro turno das eleições nacionais. O governo estadunidense, com Trump e Rubio à frente, agiu em favor do candidato neofascista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente. A Meta manipulou os algoritmos, censurou as maiores contas favoráveis a Lula e postergou decisões judiciais, enquanto as igrejas pentecostais e neopentecostais acionavam seus fiéis. É importante lembrar que, até o final do primeiro turno, mesmo temas de forte impacto para as classes trabalhadoras, como o fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso)4, não adquiriram real densidade trabalhista na estratégia de campanha. O fim da escala 6x1 foi tratado não como tema axial das relações de trabalho, mas como medida que demonstrava a preocupação social do candidato, especialmente por ampliar o convívio familiar. A dinâmica burocrática e publicitária parecia ignorar o enraizamento popular da extrema-direita de cariz fascista. Por meio de uma robusta rede de igrejas pentecostais e neopentecostais, que somam mais de 300 mil no país, e dos vínculos do candidato com organizações criminosas, sobretudo milícias, como demonstrado por Bruno Paes Manso5, a extrema-direita controla importantes territórios de favelas por meio da violência e do poder económico. Somados o difuso antipetismo e a rede de associações comerciais, de seguranças privadas e de aparelhos privados de hegemonia (APHs)6 diversos, o bolsonarismo assumiu características massivas, ainda que careça de organicidade partidária. Ao mesmo tempo, boa parte dos grandes capitalistas vinculados aos bancos, aos fundos de investimento, às commodities, às big techs, aos grandes meios de comunicação e aos conglomerados de APHs vinha impulsionando o candidato, tratado como legítimo a despeito de suas ligações perigosas.
Ainda assim, a condução da campanha de Lula seguiu nos estreitos trilhos da publicidade impulsionada por grandes somas de recursos, parte delas destinada às big techs, quando era evidente a falta de materiais elementares para o trabalho de campanha corpo a corpo. Não houve real interpelação nem acionamento dos sindicatos e dos movimentos sociais e estudantis. O silêncio abateu-se sobre as universidades públicas, sucateadas por anos de austeridade.
… à vitória de 25 de outubro: milhões nas ruas do Brasil contra o fascismo
As impressionantes manifestações, as maiores do século, embora não sejam um raio em céu azul, como visto nas grandes manifestações de 2013 e 2019, surpreenderam o país. Durante 20 dias, alcançaram mais de cinco milhões de manifestantes em todas as regiões do país, inclusive em cidades de pequeno e médio porte, conforme estimativas muito preliminares.
A exemplo do que ocorreu no primeiro estalido da rebelião estudantil na França, em 2026, no Brasil também foi um acontecimento molecular, realizado pelos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, localizada em Niterói, uma das raras cidades do estado do Rio de Janeiro que deram vitória a Lula no primeiro turno. Na noite de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, estudantes convocados pelo centro académico se reuniram para avaliar a situação e, em dado momento, concluíram que seria inútil aguardar o comando da campanha para retomar a iniciativa política e decidiram que o caminho era ir às ruas. Nas palavras de Virgínia Fontes, os estudantes “romperam o dique das defesas históricas erguidas pelo PT contra grandes mobilizações (ou ao menos pela maioria do PT), temeroso por saber que essas grandes massas populares podem ser incontroláveis e colocar em xeque alianças e compromissos problemáticos para elas”7. Em meio ao desalento, o ato que reuniu alguns milhares de pessoas ganhou enorme repercussão nas redes sociais, como o Instagram, e serviu de centelha para a deflagração das grandes manifestações. No dia 6, outro grande ato convocado pelas entidades estudantis, mas que ultrapassou largamente seu núcleo militante, aconteceu em Pernambuco, na UFPE, universidade que vinha sendo ameaçada pela extrema-direita e que, dias depois, foi atingida por um incêndio, cujas causas ainda estão sendo apuradas. Nesse mesmo dia, fandoms, como o perfil Taylor Swift Brasil, os fãs de Anitta e outros fã-clubes assinaram um manifesto conjunto convocando seus adeptos a lutar contra o fascismo e a buscar os votos dos mais de 33 milhões de abstencionistas do 1º turno. É importante destacar que esses coletivos, os fandoms, não compõem a organização tradicional das esquerdas estudantis, como os diretórios estudantis, por exemplo, embora parte de seus membros possua relação com partidos e outros coletivos. No dia 8, no Rio de Janeiro, aconteceu a marcha “Juventude na Rua pela Democracia” com forte participação de estudantes secundaristas, reunindo mais de 50 mil estudantes que ecoaram palavras de ordem diretamente antifascistas, contra Bolsonaro e, no caso, em defesa da eleição de Lula. Já nessa marcha, embora não como força convocante, o PT se somou às manifestações que reacenderam a agência das militâncias.
A sucessão de grandes manifestações em Belo Horizonte, Curitiba, Bahia, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, todas gigantescas, as tornou um espaço político para acolher milhares de militantes de outros movimentos que desejavam tomar a campanha nas próprias mãos. No dia 9, centrais sindicais saíram às ruas em luta pelo fim da jornada 6x1, afinal aprovado em 14 de outubro em virtude de amplo apoio popular. No dia 11, em São Paulo, ocorreu a maior manifestação até então realizada, com aproximadamente um milhão de pessoas, convocada de forma independente por movimentos sociais, pelo movimento estudantil e por torcidas organizadas do Palmeiras e do Corinthians e também por entidades que realizam a Marcha LGBT em São Paulo. A manifestação, da qual Lula participou, foi assumida como parte da campanha. As manifestações assinalam o propósito de conexão com as lutas sindicais e do conjunto dos trabalhadores. O tom é o antifascismo. E o intento é dialogar com os 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e com os idosos, assim como virar votos nas franjas da direita. Essas manifestações culminaram no maior ato da campanha, convocado pelo candidato do PT no dia 24 de outubro, com cerca de 2 milhões de pessoas.
Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc.
Para entender o alcance das convocatórias estudantis, que foram se amalgamando à campanha de Lula, é preciso considerar o peso do chamado Exército de Lula, liderado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG), que alcançou mais de 10,5 milhões de pessoas no WhatsApp e que logrou alterar a performance dos algoritmos da Meta com postagens simples, síncronas e massivas. Em poucos minutos, milhões de pessoas foram convocadas para as tarefas do dia, como, por exemplo, aumentar a visibilidade do fim da jornada 6x1, conter as fakenews, sem propagá-las. As redes deixaram de ser monopólio da extrema-direita.
No segundo turno, Lula ampliou sua votação em 10,3 milhões de votos. A abstenção foi reduzida em cerca de 3 milhões de eleitores, o que possibilitou uma vitória por 4,4 milhões de votos.
Passados dois dias do resultado, Trump, após levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ainda não se pronunciou. Toda a União Europeia, a América Latina (exceto Milei), a China, a Rússia e países da Ásia e da África reconheceram o resultado eleitoral. Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc. Impossível deixar de registrar o protagonismo das mulheres. Nas áreas populares, elas afirmaram sua rejeição ao bolsonarismo mesmo quando pastores orientavam o voto em seu candidato. Se a burocracia partidária e sindical tivesse prevalecido, nada disso teria ocorrido. Agora, é preciso extrair as aprendizagens, organizar e assegurar organicidade aos movimentos que resistiram ao avanço fascista. Todas essas mobilizações não podem ser desarticuladas em virtude da vitória eleitoral. E haverá forças que desincentivarão a auto-organização popular. Os partidos e mandatos da esquerda precisam estar vinculados aos movimentos que forjaram essa batalha. É preciso resgatar a prática de prosear8 quotidianamente com o povo. Em resumo, esses vibrantes 20 dias de lutas podem permitir retomar a perspectiva de frente dos trabalhadores como força autónoma para impedir o avanço do neofascismo, unindo-se a outras frações de classe antifascistas (marchar separados, golpear juntos). A estratégia frente dos trabalhadores é condição necessária para enfrentar a austeridade, que é, afinal, a incubadora das novas extremas-direitas no século XXI, e também por poder se consolidar como espaço de formação contra as barbáries que marcam os tempos atuais.
1 Descendentes de africanos escravizados que fugiram de fazendas, engenhos e senzalas durante o período colonial e imperial do Brasil, formando comunidades de resistência chamadas quilombos (NR)
2 PIRES, Breno. “Nosso senador”: Flávio Bolsonaro mandou emenda a miliciano do caso Marielle. Piauí, Rio de Janeiro, 21 set. 2026. Seção Vultos do Rio. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/flavio-bolsonaro-miliciano-peixe/. Acesso em: 27 out. 2026.
3 Temas, reivindicações (Nota da revisão).
4 O fim da escala 6x1 altera a legislação trabalhista, determinando que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal, e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.
5 MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020. MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023. MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Nunes. A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil. São Paulo: Todavia, 2018.
6 O conceito de aparelhos privados de hegenonia baseia-se na teoria do Estado ampliado, de Antonio Gramsci. Refere-se a organizações da sociedade civil (como institutos, fundações e associações empresariais) que, embora formalmente externas ao Estado, atuam na difusão de ideias, valores e consensos alinhados com os interesses do grande capital (NR).
7 Virgínia Fontes. Mantendo o gás. Aprendizados em andamento de uma campanha eleitoral de verdade, quando a política real assume a dianteira e derrota as burocracias e os poderosos.
Raquel Varela conversa com Roberto Leher sobre os fundos financeiros na educação em Portugal e no mundo, e como a digitalização representa a destruição da educação.
A Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência.
ilustração: Ricardo Ferreira
Em 1961, Dwight D. Eisenhower, então ainda presidente dos EUA, proferiu seu famoso discurso de despedida, popularizando o termo ‘complexo industrial-militar’. Nele, Eisenhower alertava para os riscos crescentes de uma larga influência da indústria bélica e corporações privadas no Departamento de Defesa e, assim, na política nacional estadunidense. O termo ganhou crescente relevância para a compreensão geopolítica das dinâmicas entre capital corporativo e Estado, desde suas relações internas, até o estudo dos imbróglios internacionais atrelados à posição imperialista dos EUA — único país com centenas de bases militares ao redor do globo — e suas constantes interferências, diretas ou indiretas, na política nacional de diversos países.
Posteriormente, um novo termo seria frequentemente adicionado à equação: o complexo seria descrito nos termos ‘industrial-militar-académico’, expressando a tríade que organiza pesquisa e desenvolvimento tecnológico e científico atrelado aos interesses políticos, militares e do capital norte-americano, central na disputa internacional por hegemonia. É razoável reconhecer que a centralidade dessa relação na estruturação do poder estadunidense é anterior à própria emergência do termo, especialmente com a intensificação da relação entre os setores promovida pelos processos da II Guerra, que englobam tanto o desenvolvimento das armas nucleares, quanto a emergência das tecnologias digitais como conhecemos hoje. Não é difícil demonstrar, inclusive, como estas são duas facetas fundamentais e intimamente interligadas na dinâmica de domínio militar e político dos EUA desde o pós-guerra.
Com heranças teóricas do século XIX no campo da lógica e da matemática, a criptografia aparece como questão relevante já nas corridas tecnológicas da I Guerra, mas é com a corrida criptográfica em torno da máquina Enigma que irão se estabelecer tanto sua centralidade militar quanto os pressupostos fundamentais da computação moderna (famosamente, por Alan Turing, partindo de grandes contribuições do criptologista polonês Marian Rejewski). A computação torna-se assim de interesse militar logo na primeira metade do século passado, e seu papel no desenvolvimento de armas nucleares (e, posteriormente, na corrida espacial) também será fundamental, através de máquinas desenvolvidas para a automação do cálculo, operadas fundamentalmente por computadores (de facto, em sua maioria computadoras, desígnio de ofício para uma tarefa desempenhada principalmente por mulheres desde as navegações coloniais, pelo cálculo astronómico de rotas marinhas).
O desenvolvimento científico-militar encampado pelo Projeto Manhattan acelerou diretamente o advento dos primeiros computadores eletrónicos digitais, com John von Neumann exercendo papel fundamental. Matemático, físico, engenheiro e cientista da computação, foi dele a ideia de utilizar os problemas hidrodinâmicos e de fissão nuclear para teste dos primeiros códigos lógicos do ENIAC, primeiro dispositivo digital eletroeletrónico de grande escala, substituindo a computação eletromecânica do Harvard Mark I. Von Neumann tornar-se-ia o pai da arquitetura moderna do hardware computacional, utilizada até os dias de hoje. Posteriormente, desenvolveria, em Los Alamos, o MANIAC, voltado principalmente para simulações termonucleares, desenvolvimento armamentista, mas também em pesquisas genéticas, hidrodinâmicas e na física de partículas.
Tudo isso foi possibilitado também graças ao advento da teoria matemática da informação, desenvolvida por Claude Shannon, que apresentaria categorias fundamentais como a unidade fundamental do bit (contração do termo ‘unidade binária’, em inglês), a codificação binária da informática usada até hoje e a chamada teoria da ‘entropia informacional’. Esses desenvolvimentos se deram na época da efervescência cibernética, campo de estudos interdisciplinares que almejavam uma meta-linguagem transversal ao campo das ciências humanas e naturais — com seu início demarcado nas Conferências de Macy (1946-1953). A palavra, derivada do grego Kubernetes, tem raiz etimológica comum à noção de ‘navegação’ e ‘governo’. Com princípios e finalidades definidos por Norbert Wiener nos termos da “comunicação e controle no animal e na máquina”, a cibernética logo despertou o interesse militar nos EUA.
Os integrantes da cibernética, muitos que já frequentavam o então emergente complexo industrial-militar, são historicamente reconhecidos como pioneiros em diversos campos da tecnologia digital contemporânea, como foi o caso dos primeiros modelos teóricos de redes neurais artificiais, proposto por McCulloch e Pitts, ainda em 1943, antecipando um dos paradigmas fundamentais na tradição das inteligências artificiais — o paradigma conexionista, em contraste com o paradigma simbólico, ambos formalizados em 1956, no Darthmouth College. Em 1957, Frank Rosenblatt desenvolve o Perceptron, um modelo cognitivo fundacional na história das IAs conexionistas.
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Na época, quando trabalhava no Laboratório Aeronáutico de Cornell em Buffalo, onde rodou seu programa em um IBM 704, Rosenblatt conseguiu financiamento do ramo de sistemas de informação do Departamento de Pesquisa Naval norte-americano além do Centro de Desenvolvimento Aéreo de Rome (um laboratório voltado para pesquisas em ‘controle, comando e comunicação’) para desenvolver o Perceptron Mark I. O objetivo principal deste aparelho era a automação do reconhecimento de padrões, um dos primeiros sistemas algorítmicos para a aprendizagem de máquinas [machine learning] — termo que seria cunhado por Arthur Samuel em 1959 —, e que tinha como objetivo prático a análise de imagens desde a modelização dos padrões de formas geométricas. Temos os primórdios da corrida militar no campo das IAs que é, hoje, quase 70 anos depois, eixo central na dinâmica da guerra contemporânea.
Durante a segunda metade do século XX, a pesquisa e o mercado das IAs passaram por diferentes “primaveras” e “invernos”. É relevante notar que os desdobramento das tecnologias digitais durante a Guerra Fria também afetaram diretamente a conceituação teórica do pensamento militar. Em meio às tensões da era atómica e da corrida espacial, na chamada “polarização” entre o eixo capitalista e o socialista, o vocabulário militar expandiu a sigla C2[Comando e Controle] para C3I [Comando, Controle, Comunicações e Inteligência] e, finalmente, para C4ISTR[Comando, Controle, Comunicações, Computação, Inteligência, Vigilância, Obtenção de alvos e Reconhecimento], demonstrando cada vez mais a inserção dos imperativos digitais na lógica militar. Essa expansão é concomitante à proliferação da lógica paranóica (mas não delirante) instituída pelas armas de destruição em massa, inauguradas com a própria bomba atómica, impondo uma nova era da dissuasão, além da necessidade de novas tecnologias para controle ostensivo, vigilância e inteligência militar.
A era atómica, como bem analisada por Günther Anders, atualizou de modo radical os impasses geopolíticos, de certo modo antecipando a globalização pela via do negativo bélico — e foi o desenvolvimento e a disputa por hegemonia no campo das tecnologias digitais que veio responder a tais impasses. O acordo de Bretton-Woods, que funcionou como arquitetura do domínio financeiro imperial no pós-guerra, dando vantagens estratégicas para o dólar, possibilitou também o financiamento e avanço das pesquisas científicas nos EUA, dando uma vantagem económica assimétrica ao país, com o custo da violência imperial ao redor do globo. Curiosamente, o final do acordo acontece no mesmo ano em que o primeiro microprocessador é comercializado globalmente, ano que marca tanto um reordenamento da dinâmica financeira (e militar) no capitalismo global, quanto uma nova era da tecnologia digital. Também é o ano de lançamento do mercado de ações em forma eletrónica, com a Nasdaq, marcando o processo de financeirização do capitalismo global.
Nos anos seguintes, com o fim do rastreamento do dólar em ouro, a política internacional militar estadunidense incita o processo de predação do mercado petrolífero que transporta a lógica da guerra imperial para o “Oriente Médio”, fundando e mantendo, na base das desestabilizações, intervenções, e da bala, a configuração do petrodólar. Os anos 1980 são marcados pela generalização da temporalidade digital nas tecnologias militares, o “Tempo Real” diagnosticado pela dromologia de Paul Virilio, com novos sistemas de radares, satélites e computadores voltados ao monitoramento e alerta precoce de ameaças bélicas nucleares. A transmissão simultânea de incursões militares ganha, nos anos 1990, um marco fundamental com a Guerra do Golfo, na mesma época em que é lançada a World Wide Web — a rede global de computadores, lastro para as teorias da globalização e da era da informação.
Derivada do modelo militar norte-americano de 1969 (a ARPANET), a internet inaugura um processo de interconexão global que implica na produção, armazenamento e processamento de dados em escala massiva progressiva, o que possibilitaria posteriormente a emergência do Big Data e o treinamento de IAs, com os avanços em software e hardware, dando as bases para a plataformização contemporânea. Chegamos, enfim, ao início do ‘novo milénio’, marcado pelo ataque ao World Trade Center, que dá início à retórica da ‘guerra ao terror’ e cria as condições para desenvolvimentos digitais e militares que dão as bases do contemporâneo. A automação da guerra, antecipada por Virilio, irá encontrar, pela tecnologia dos aviões não tripulados, sua realização seminal em enxames de drones, a radicalização da alienação técnica de incursões e execuções em sua expressão digital — a relação entre sub-limiar e supra-limiar, analisada por Günther Anders frente à alienação do genocídio pela bomba, é atualizada digitalmente no extermínio localizado cada vez mais precisão.
Outro elemento fundamental será desdobrado após os ataques do 11 de setembro de 2001. Notando lacunas na integração de dados entre as agências estatais americanas de informação e inteligência, empreendedores ligados ao ramo de tecnologia de Silicon Valley encontram tanto uma motivação política quanto um nicho de mercado sensível e fundamental que irá se desdobrar na criação de uma das empresas mais sensíveis e fundamentais na fronteira entre militarização e digitalização contemporânea. Peter Thiel, que esteve envolvido em problemas referentes ao uso fraudulento da sua plataforma para transações económicas digitais, originada no "boom das dotcom", o PayPal, recebeu como resposta de seu sócio o desenvolvimento de um software que, utilizando técnicas algorítmicas, garantia a segurança de transações na plataforma. Batizado de Igor, o primeiro golpista interceptado pela ferramenta, a tecnologia anunciava uma nova era na integração de dados online.
Com o 11 de setembro, Thiel encontra então uma nova utilidade para seu software na urgência da guerra ao terror. Buscando estabelecer relações com o ramo de defesa do governo americano, irá entrar em contacto com Alex Karp, que torna-se um entusiasta do projeto. Será então, entre os anos de 2004 e 2005, que sua empresa passa a receber fundos do braço de investimento em capital de risco da CIA, a In-Q-Tel, possibilitando também a parceria entre seus engenheiros e analistas da central de inteligência, desenvolvendo o software de análise de dados que originou a, hoje conhecida, plataforma Gotham. É essa a história de surgimento da Palantir, que encontrou nos adventos do 11 de setembro tanto sua razão de ser quanto as coordenadas da digitalização que passam a fragmentar a (já deletéria) fronteira entre esfera civil e militar nas décadas seguintes.
Hoje, a empresa representa o principal núcleo corporativo, tecnológico e ideológico no processo ostensivo de justaposição da militarização como característica coextensiva da experiência cotidiana, mediada pelo digital. Unindo serviços para empresas e exércitos sob lógicas comuns em diferentes perspectivas, a Palantir integra um vocabulário filosófico — cortesia do próprio Karp, familiarizado com a teoria crítica, ex-estudante da Goethe-Universität Frankfurt, onde desenvolveu seu doutoramento em filosofia sobre a Agressão no Mundo da Vida [Aggression in der Lebenswelt] defendido em 2002 — ao discurso armamentista-empresarial, realizando a atualização do novo ‘complexo industrial-militar-digitalizado’ estadunidense pela integração de metadados, articulação em “tempo real” do “campo de batalha” e aceleração da “cadeia [produção] de morte”, em novos sistemas de vigilância e produção de alvos que prometem ser a vanguarda na defesa do legado ocidental pela manutenção do império norteamericano — como vemos no uso ostensivo do sistema Maven, tanto pelo exército de Israel (cliente fundamental da Palantir), quanto pelo exército dos EUA (por exemplo, na seleção da escola feminina Shajareh Tayyebeh, no Irão, como alvo militar, resultando no assassinato de 175 pessoas, em sua maioria crianças).
Com todo esse contexto, as manifestações públicas de Karp precisam ser interpretadas para além do personagem “excêntrico” e “exótico”, mas como a propaganda ideológica de um verdadeiro programa político. Muito longe de meras bravatas, sua retórica sobre impor medo aos inimigos políticos e estabelecer um combate ao multiculturalismo liberal (que tem como alvo “mulheres académicas progressistas” em contraposição aos “homens da classe trabalhadora)” são estratégias — partem de um doutor em filosofia que teve sua pesquisa de doutoramento focada na naturalização da violência na retórica pós-hitlerista alemã. A publicação que ficou conhecida como “manifesto da Palantir”, resumindo em 22 pontos o que é apresentado no seu livro A República Tecnológica, em co-autoria com Nicholas W. Zamiska, defende, entre diversos pontos, a era digital como superação da era atómica — elemento central na apologia do desenvolvimento de sistemas de armas autónomos movidos por IA.
Entre o pensamento posterior de Epimeteu e a antevisão de Prometeu, a Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência que ultrapassa em muitos sentidos — e condições ontológicas — as dinâmicas do século passado. Para combater esse programa totalizante e com explícitas conotações neofascistas — como expresso na defesa da superioridade de determinadas civilizações em relação a outras, que deveriam ser submetidas (ou exterminadas) pela força —, é necessário uma esquerda liberta, antes de tudo, das limitações simbólicas (i.e., também materiais) impostas pelos processos da última década, onde a neoliberalização formatou a gramática emancipatória em uma retórica de gestão das crises do capital. A era de gestão das crises está em processo de obsolescência, programada desde suas origens. Resta a nós lutarmos contra a automação da barbárie.
Os espancamentos dos manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I às 3 horas da manhã foram justificados pela PSP, neste como na maioria dos casos, como resposta à provocação de um pequeno grupo. Não sabemos qual a provocação, mas sabemos, porque é habitual, que qualquer exigência de um direito é considerada provocação no momento presente. Além de apelidado como egoísmo pelo mesmo primeiro-ministro que nos aconselha a mentalidade Ronaldo como solução. Pois aqui estamos.
É assim em Paris, em Madrid e em Portugal.
Nem a estratégia nem o resultado são novos.
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Na era cavaquista – e Montenegro tem vindo a reproduzi-la, traduzindo a austeridade em autoritarismo – era frequente as manifestações terminarem em cargas policiais, sob o mesmo pretexto, o da provocação, da desordem e dos desacatos, invariavelmente com uma gritante desproporcionalidade de resposta perante pessoas desarmadas.
Dois dos pressupostos teóricos essenciais para a manutenção da democracia, cada vez mais representação do que representativa, têm vindo a ser sistematicamente corrompidos e a situação do Porto ilustra-o na perfeição.
A atitude totalitária, misto de laxismo e cesarismo de Pedro Duarte – análoga à de Montenegro e Moedas – ao declarar que seria implacável com os manifestantes, e a consequente brutalidade da polícia, devem no mínimo levantar suspeitas sobre a idoneidade da conduta de ambos os intervenientes e sobre a violação da separação dos poderes judicial e executivo.
O outro pressuposto é simplesmente o da igualdade.
Onde está a carga policial, a crítica política ou a aplicação musculada da lei quando a extrema-direita incorre em ilegalidades como a invasão de rádios, manifestações do grupúsculo 1143 ou simulações de assaltos?
Essa duplicidade de critérios assenta na polícia como ferramenta para reprimir protestos resultantes do colapso económico. Thatcher fê-lo frequentemente para impedir as greves dos mineiros precisamente no momento em que o neoliberalismo se começava a apoderar dos mecanismos democráticos, acelerando a sua necrose.
Essa cooptação das instituições, primeiro via promiscuidade económica, e depois asfixia, começa agora a ter inegáveis efeitos no nosso quotidiano individual, não apenas de forma puramente económica, mas na forma como isso impacta as relações de poder.
A crise da habitação é apenas a face mais visível do estado natural de crise variável do metacapitalismo, com vários outros picos simultâneos, como o custo de vida, a falência do SNS e do ensino, e esse carácter multifactorial eleva-a de crise para um ataque com várias frentes.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver
Se em 2008 a descodificação da situação era bastante mais clara, podendo resumir-se o problema ao resgate dos bancos associado à degradação das nossas condições de vida, agora o catálogo de bodes expiatórios permite ao Governo desviar o foco da estrutura para a conjuntura, culpando populistas como Trump e as suas réplicas e as guerras, remetendo-se para uma posição de incapacidade.
O ridículo desta emergência é estarmos reduzidos ao grau zero das exigências a uma democracia esvaziada orientada no sentido ascendente, funcionando como facilitadora e porta giratória para o mundo corporativo. A crescente e permanente ausência de Estado, sobretudo nas zonas periféricas, em situações de calamidade como a do comboio de tempestades ou na simples gestão da tríade saúde/educação/habitação, demonstra como as instituições públicas nos defendem apenas quando coagidas, mas sobretudo como a nossa capacidade de organização para lá das suas fronteiras as pode substituir com mais sucesso e celeridade.
A confirmação inequívoca da real ameaça ao poder político que o poder popular constitui é a mudança do discurso de Pedro Duarte e de Montenegro, trocando ameaças por vontade de negociar.
Nessa negociação reside a armadilha. As cedências serão feitas na exacta medida do necessário para desmobilizar pessoas suficientes para fragilizar os protestos, caracterizando-os novamente como prototerrorismo e estancando o descontentamento dos restos de uma classe média que acredita na sua restauração até à agudização seguinte, continuando a perda de direitos num mundo cujo progresso económico tem sido à custa do retrocesso social.
Não há maior evidência do desequilíbrio da relação de poderes do que na atitude institucional face à ocupação dos espaços públicos por manifestantes a exigir apenas o cumprimento das promessas, não de Abril, mas da democracia liberal, voluntariando-se para reunir os fragmentos desse sonho, reprimindo-os política e policialmente.
Simultaneamente, essas mesmas forças colocam-se voluntariamente na dependência das elites económicas que ocupam ilegal e permanentemente os espaços públicos de acesso às praias em locais como a Comporta e a Arrábida ou na destruição total de Covas do Barroso.
Tudo isto acontece num cenário rentista, extractivo, onde as gerações mais novas vivem pior do que os seus pais, apesar do alardear constante da boa saúde da economia, sem qualquer tradução nas nossas vidas, as dos seus deserdados.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver.
4 O fim da escala 6x1 altera a legislação trabalhista, determinando que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal, e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.
5 MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020. MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023. MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Nunes. A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil. São Paulo: Todavia, 2018.
6 O conceito de aparelhos privados de hegenonia baseia-se na teoria do Estado ampliado, de Antonio Gramsci. Refere-se a organizações da sociedade civil (como institutos, fundações e associações empresariais) que, embora formalmente externas ao Estado, atuam na difusão de ideias, valores e consensos alinhados com os interesses do grande capital (NR).
7 Virgínia Fontes. Mantendo o gás. Aprendizados em andamento de uma campanha eleitoral de verdade, quando a política real assume a dianteira e derrota as burocracias e os poderosos.
a população trabalhadora e jovem vive uma situação insuportável, causada pelos baixos salários, pela impossibilidade de aquisição ou arrendamento de habitação resultante do império da especulação imobiliária — na qual estão pesadamente implicados os membros do governo e deputados da direita, como revelava o jornal Público de 19 de Outubro;
a esta situação se soma a destruição do serviço nacional de saúde, do ensino público e a degradação dos transportes públicos que os governos têm promovido, retirando à população trabalhadora grande parte dos direitos colectivos que lhes permitiam sobreviver apesar dos baixos salários e promovendo a vergonhosa super-exploração dos trabalhadores imigrantes, quer no trabalho quer nas inaceitáveis condições de habitação;
enquanto isso, a inflação não pára de subir, nomeadamente a dos combustíveis e da alimentação, reduzindo drasticamente o salário real da generalidade dos trabalhadores e o rendimento e a viabilidade de pequenos agricultores, artesãos e micro e pequenas empresas;
o projecto de OE 2027 apresentado pelo governo propõe reduzir o investimento público em 31% e, em particular, o da habitação em quase 70%; cortar o orçamento da saúde em mais de 250 milhões e aumentar o da despesa militar em mais de 500 milhões; aumentar a massa salarial da função pública 2,3%, o que representa um corte brutal do poder de compra dos funcionários; aumentar de 6.700 para 8.200 milhões os pagamentos de juros da dívida pública, grande parte da qual resultante da nacionalização dos prejuízos da banca privada, Banif, BPP, Espírito Santo, etc.; “desagravar” o IRS dos salários médios e mais altos em um a três cafés por semana, concedendo ainda mais subsídios fiscais aos grandes senhorios e fundos imobiliários (“rendas moderadas”) e empresas (redução do IRC); continuar a usar o excedente da segurança social, que representa salário diferido dos trabalhadores, para compensar o défice orçamental causado pelos benefícios concedidos ao grande capital e à finança que parasita a dívida pública;
esta situação ocorre e se agrava num quadro de guerras e genocídios que alastram pelo mundo, tendo-se o governo português comprometido com a NATO/UE a aumentar a despesa militar até 5% do PIB nos próximos dez anos (passando dos actuais seis mil milhões de euros (o dobro do que era há cinco anos) para algo como 25 mil milhões de euros — ou mais), contribuindo, assim, para o alastramento das guerras;
enquanto isso, se multiplicam os desastres ambientais e as agressões às populações do interior, como no Barroso, o negócio dos campos gigantescos de painéis solares, etc.;
a situação descrita afecta toda a população trabalhadora e praticamente toda a juventude que vive, estuda e trabalha em Portugal e nos demais países da Europa e do mundo,
a juventude e a população trabalhadora, em Portugal e nos países europeus vizinhos, está a revoltar-se e mobilizar-se em massa, com toda a justiça, sendo, porém, alvo de repressão violenta dos governos e forças policiais,
os sindicalistas, trabalhadores e jovens reunidos em encontro nacional da Plataforma Unitária de Sindicatos decidem:
manifestar a sua solidariedade incondicional com as mobilizações dos jovens e trabalhadores, em, Portugal, em França, Espanha, Itália, Alemanha e no mundo contra a guerra, pelo direito à habitação, por um ensino e saúde públicos de qualidade e salários, condições de trabalho e pensões que lhes permitam viver com dignidade; e apelar aos sindicatos e centrais para que se associem, apoiem e protejam as acções da juventude trabalhadora e estudantil pelo direito à habitação;
condenar com toda a veemência a repressão que o governo português fez abater sobre os acampamentos de jovens no Porto e em Lisboa e exigir o fim de toda a repressão das mobilizações de jovens e trabalhadores no nosso país e no resto da Europa e do mundo;
exigir a obrigatoriedade de declaração e publicação de todos os fogos devolutos e sua mobilização imediata para alojar as famílias trabalhadoras; exigir a retirada imediata da proposta de novo regime do arrendamento urbano e a revogação de todas as medidas da “lei Cristas”, exigindo o imediato alojamento condigno de todas as famílias trabalhadoras e famílias pobres e vulneráveis, incluindo as imigrantes — até lá ficando proibidos os despejos e congeladas as rendas, travando a sua insuportável subida;
exigir a expropriação dos fundos imobiliários e um termo à transformação da habitação, direito constitucionalmente garantido, num negócio milionário; fixação das rendas em função do rendimento das famílias, num máximo de 30%; garantia de alojamento digno de todas as famílias e lançamento imediato de um plano nacional de habitação, para isso usando as verbas previstas para a despesa militar, os benefícios fiscais para o patronato e o pagamento dos juros ilegítimos da dívida pública;
exigir um aumento geral de salários de 15% para compensar a inflação acumulada, um aumento imediato do salário mínimo para 1.100 euros e indexação automática dos salários e pensões a um cabaz representativo das despesas das famílias trabalhadoras, controlado pelos sindicatos; semana de 35 horas sem redução de salário; fim da precariedade; contratos de trabalho para todos; transporte para e do trabalho gratuito e garantido pela empresas dos trabalhadores de empresas com efectivos superiores a 50;
exigir o financiamento adequado do SNS, da escola pública e do transporte público e reverter todas as medidas tendentes à privatização da saúde, do ensino e dos transportes;
exigir a redução da carga fiscal sobre os produtos de primeira necessidade e combustíveis, onerar os produtos de luxo e expropriar os super-lucros dos operadores energéticos;
rejeitar qualquer tentativa de subversão da segurança social, que é património dos trabalhadores, e de entrega dos seus fundos aos mercados de capitais; e rejeitar qualquer tentativa de voltar a contrabandear, agora medida a medida, o pacote laboral do governo, que foi derrotado pelas nossas greves gerais;
apelar à rejeição do projecto de orçamento para 2027 e a que as centrais sindicais, CGTP e UGT, e todas as direcções sindicais, comissões de trabalhadores e ORTs preparem a greve geral para impedir a sua aprovação na Assembleia da República;
apoiar o apelo das centrais sindicais do Estado espanhol a uma greve geral pela habitação e apelar ao apoio das centrais e direcções sindicais e ORTs portuguesas;
apelar à unidade e convergência da luta de todos os trabalhadores e jovens europeus, com os seus sindicatos e organizações, contra as medidas do capital e de Bruxelas, que a todos afectam, e contra as quais se preparam, já em Novembro, mobilizações de grande envergadura e greves gerais no Estado espanhol, França, Reino Unido, Bélgica, Itália, Alemanha e outros países.
Não aceitamos o caminho da miséria e da guerra! A mobilização fraterna da juventude e dos trabalhadores dos países europeus e de todo o mundo pode e deve pôr fim à caminhada para o abismo económico, social e ecológico.
*Estiveram representados no encontro os seguintes sindicatos: SNPVAC (aviação), SITEU (enfermeiros), S.TO.P (profissionais da educação), STCC (call centres), STGSSP (grandes superfícies), STASA (indústria automóvel), Sindicato dos Estudantes e os movimentos sociais Solidários e Rede Ecossocialista, tendo participado individualmente sindicalistas de vários outros sindicatos. Estiveram presentes como observadores representantes da associação Habitação Hoje.
Continuamos a falar da violência policial como se não fosse normativa em vez de excepcional, com a particularidade de os alvos serem frequentemente os invisíveis.
Os episódios sucedem-se e são invariavelmente com pessoas em situação de fragilidade perante um poder cuja natureza tem sido a do abuso, uma vez que manter a ordem perante um mundo desordenado apenas poderia resultar em violência, sobretudo quando essa parece ser cada vez mais a única ferramenta disponível para as forças policiais.
Odair Moniz, Cláudia Santos, o episódio da esquadra do Rato, a morte de um cidadão marroquino em Olhão, os episódios frequentes na esquadra de Alfragide são os que estão frescos na nossa memória e aqueles que tiveram atenção mediática. A excelente investigação do podcast Fumaça sobre violência policial (https://fronteiradomedo.pt/) oferece uma perspectiva mais profunda, preocupante e que não é episódica, mas classista com expressões racistas e xenófobas.
Os espancamentos dos manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I às 3 horas da manhã foram justificados pela PSP, neste como na maioria dos casos, como resposta à provocação de um pequeno grupo. Não sabemos qual a provocação, mas sabemos, porque é habitual, que qualquer exigência de um direito é considerada provocação no momento presente. Além de apelidado como egoísmo pelo mesmo primeiro-ministro que nos aconselha a mentalidade Ronaldo como solução. Pois aqui estamos.
É assim em Paris, em Madrid e em Portugal.
Nem a estratégia nem o resultado são novos.
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Na era cavaquista – e Montenegro tem vindo a reproduzi-la, traduzindo a austeridade em autoritarismo – era frequente as manifestações terminarem em cargas policiais, sob o mesmo pretexto, o da provocação, da desordem e dos desacatos, invariavelmente com uma gritante desproporcionalidade de resposta perante pessoas desarmadas.
Dois dos pressupostos teóricos essenciais para a manutenção da democracia, cada vez mais representação do que representativa, têm vindo a ser sistematicamente corrompidos e a situação do Porto ilustra-o na perfeição.
A atitude totalitária, misto de laxismo e cesarismo de Pedro Duarte – análoga à de Montenegro e Moedas – ao declarar que seria implacável com os manifestantes, e a consequente brutalidade da polícia, devem no mínimo levantar suspeitas sobre a idoneidade da conduta de ambos os intervenientes e sobre a violação da separação dos poderes judicial e executivo.
O outro pressuposto é simplesmente o da igualdade.
Onde está a carga policial, a crítica política ou a aplicação musculada da lei quando a extrema-direita incorre em ilegalidades como a invasão de rádios, manifestações do grupúsculo 1143 ou simulações de assaltos?
Essa duplicidade de critérios assenta na polícia como ferramenta para reprimir protestos resultantes do colapso económico. Thatcher fê-lo frequentemente para impedir as greves dos mineiros precisamente no momento em que o neoliberalismo se começava a apoderar dos mecanismos democráticos, acelerando a sua necrose.
Essa cooptação das instituições, primeiro via promiscuidade económica, e depois asfixia, começa agora a ter inegáveis efeitos no nosso quotidiano individual, não apenas de forma puramente económica, mas na forma como isso impacta as relações de poder.
A crise da habitação é apenas a face mais visível do estado natural de crise variável do metacapitalismo, com vários outros picos simultâneos, como o custo de vida, a falência do SNS e do ensino, e esse carácter multifactorial eleva-a de crise para um ataque com várias frentes.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver
Se em 2008 a descodificação da situação era bastante mais clara, podendo resumir-se o problema ao resgate dos bancos associado à degradação das nossas condições de vida, agora o catálogo de bodes expiatórios permite ao Governo desviar o foco da estrutura para a conjuntura, culpando populistas como Trump e as suas réplicas e as guerras, remetendo-se para uma posição de incapacidade.
O ridículo desta emergência é estarmos reduzidos ao grau zero das exigências a uma democracia esvaziada orientada no sentido ascendente, funcionando como facilitadora e porta giratória para o mundo corporativo. A crescente e permanente ausência de Estado, sobretudo nas zonas periféricas, em situações de calamidade como a do comboio de tempestades ou na simples gestão da tríade saúde/educação/habitação, demonstra como as instituições públicas nos defendem apenas quando coagidas, mas sobretudo como a nossa capacidade de organização para lá das suas fronteiras as pode substituir com mais sucesso e celeridade.
A confirmação inequívoca da real ameaça ao poder político que o poder popular constitui é a mudança do discurso de Pedro Duarte e de Montenegro, trocando ameaças por vontade de negociar.
Nessa negociação reside a armadilha. As cedências serão feitas na exacta medida do necessário para desmobilizar pessoas suficientes para fragilizar os protestos, caracterizando-os novamente como prototerrorismo e estancando o descontentamento dos restos de uma classe média que acredita na sua restauração até à agudização seguinte, continuando a perda de direitos num mundo cujo progresso económico tem sido à custa do retrocesso social.
Não há maior evidência do desequilíbrio da relação de poderes do que na atitude institucional face à ocupação dos espaços públicos por manifestantes a exigir apenas o cumprimento das promessas, não de Abril, mas da democracia liberal, voluntariando-se para reunir os fragmentos desse sonho, reprimindo-os política e policialmente.
Simultaneamente, essas mesmas forças colocam-se voluntariamente na dependência das elites económicas que ocupam ilegal e permanentemente os espaços públicos de acesso às praias em locais como a Comporta e a Arrábida ou na destruição total de Covas do Barroso.
Tudo isto acontece num cenário rentista, extractivo, onde as gerações mais novas vivem pior do que os seus pais, apesar do alardear constante da boa saúde da economia, sem qualquer tradução nas nossas vidas, as dos seus deserdados.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver.
Ainda somos os 99%.
2.ª parte
Uma traição às memórias do Sul Global
Desde a contra-revolução islâmica contra a verdadeira revolução de 1979, parte da esquerda nacional e internacional passou a subordinar a análise de classe e género à sua interpretação unilateral do anti-imperialismo. Os protestos das mulheres contra o uso obrigatório do véu, por exemplo, foram marginalizados, contribuindo inadvertidamente para a consolidação da ordem religiosa e patriarcal, que passou a ser apresentada como garantia de “autenticidade cultural”, sinal distintivo em relação ao Ocidente e marcador de independência nacional. Foi tomando forma uma narrativa dominante que vê a Revolução Iraniana exclusivamente pelo prisma anti-ocidental, assim apagando as forças laicas, feministas, queer, curdas, socialistas e outras forças progressistas. Esta ideologia é estruturalmente incapaz de reconhecer a legitimidade de lutas internas em Estados anti-ocidentais. Povos não ocidentais são reconhecidos unicamente como objecto do imperialismo ocidental; a experiência vivida, a memória colectiva e as subjectividades políticas de grupos subalternos — mulheres/comunidades queer, minorias étnicas e as classes populares — são sistematicamente depreciadas como distracções insignificantes ou invenções do Ocidente.
Após o colapso da URSS, em 1991, esta orientação subsistiu na forma de um terceiro-mundismo estatista: transferiu-se a lealdade às populações para a lealdade a Estados “anti-americanos”, subordinando-se os direitos das mulheres, das pessoas queer e das minorias à “unidade anti-imperialista”. Esta perspectiva, simultaneamente eurocêntrica e orientalista, ignora a subjectividade dos povos não ocidentais. Só leva a sério a violência que emana do campo dos EUA e recusa-se a reconhecer que as populações do Sul Global possam lutar genuinamente por direitos e liberdades democráticos.
A “unidade anti-colonial” transforma-se assim em autoritarismo nacionalista. E aceita a lógica de um “estado de emergência” aparentemente permanente: dá-se prioridade ao poder do Estado, à segurança e à influência geopolítica (por exemplo: “Lutamos na Síria para não termos de lutar em Teerão”).
O campismo transforma a memória anticolonial num instrumento de legitimação de Estados pós-coloniais autoritários. Faz do Estado o agente da resistência e priva os povos tanto da sua legitimidade como da sua subjectividade política. Trai, deste modo, memórias subalternas que tantas vezes se constituíram contra o próprio Estado. Paradoxalmente, Estados como o Irão são apresentados como “independentes do capitalismo global”, quando eles não deixam de ser máquinas de exploração interna e de militarismo, exactamente preocupadas em integrar-se no capitalismo global e em competir com outros Estados nesse palco.
É exactamente na sua relação com as margens colonizadas do Irão que esta lógica revela com máxima clareza a sua violência. O campismo não se limita a apagar a pluralidade das forças de oposição iranianas. Enraizado numa concepção quase colonial e securitária da soberania e das fronteiras, reproduz também hierarquias internas, relegando para segundo plano ou mesmo desqualificando as lutas étnicas curdas e de outros povos não persas. A este respeito, desde a jihad de 1980 contra o Curdistão até aos mais de 100 ataques recentes a partidos curdos iranianos exilados no Curdistão iraquiano durante a guerra, os campistas têm-se amiúde mostrado ainda mais hostis aos curdos do que o próprio governo iraniano, minimizando ou marginalizando a legitimidade da sua resistência.
Estas violências fazem parte de uma história mais antiga, agravada pelo apoio activo — ou pelo silêncio — de alguns actores do mundo árabe e de alguns segmentos da esquerda. O genocídio de Al-Anfal, levado a cabo por Saddam Hussein durante a Guerra Irão-Iraque, que custou a vida a cerca de 180 mil curdos simplesmente por causa da sua identidade, ilustra esta dinâmica. Ao trauma da repressão assassina acrescentou-se o apoio de parte do mundo árabe e a negação do genocídio por parte de intelectuais.
Mais recentemente, em 2018, a ocupação de Afrin, no Rojava, pelo Exército turco foi acompanhada de violência, expulsão e destruição sistemáticas. Em resposta, o chefe do Hamas, Khaled Mashaal, afirmou: “A vitória em Afrin é um símbolo da vontade da Turquia. Se Deus quiser, apresentaremos grandes epopeias em ajuda ao nosso povo”, antes de passar a elogiar a direcção do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan e do seu partido, o Partido da Justiça e Desenvolvimento, no poder há mais de vinte anos.
Estes acontecimentos produziram, infelizmente, uma ruptura duradoura nos laços entre as lutas curdas e as do mundo árabe ou persa, bem como com certas partes da autoproclamada esquerda anti-imperialista, que tantas vezes evitou reconhecer e apoiar a luta curda.
Instrumentalização estatal das sanções ocidentais
A recente guerra contra o Irão não apareceu de repente; foi longamente preparada por um regime de sanções que funciona como uma tecnologia imperial de produção de vulnerabilidade social, como já se tinha demonstrado no Iraque. As sanções não se limitaram a empobrecer a população, alimentar a inflação, corroer os cuidados de saúde e o emprego e enfraquecer as capacidades colectivas de resistência; ajudaram, também, a gerar condições favoráveis para a escalada militar. Confinando o país a uma economia eternamente sitiada, normalizaram o estado de excepção, consolidaram os aparelhos rentistas e securitários do Estado e passaram os custos da crise para cima das classes populares. Ao fazê-lo, prepararam o terreno tanto material como ideológico para a guerra: uma sociedade exausta, fragmentada e reduzida à luta pela sobrevivência fica mais exposta a projectos de militarização externos. As sanções mostram, assim, o que realmente são: não uma alternativa à guerra, mas uma das suas formas preparatórias.
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No entanto, se bem que reais e devastadoras, as sanções não são, por si só, responsáveis pelas condições de vida indignas num país rico em recursos como o Irão. Contra as leituras “campistas” que reduzem todas as formas de desigualdade social no Irão às sanções ocidentais, a análise também deve enfrentar a economia política do próprio Irão: uma ordem capitalista marcada por uma privatização dura, precariedade laboral generalizada — a informação disponível indica que mais de 90 por cento dos contratos são temporários — e um regime de dominação e privação organizado internamente, sustentado em parte na exploração extrema e na expropriação de trabalhadores racializados e indocumentados, especialmente afegãos e baloches. Para os campistas, os protestos populares no Irão são interpretados como descontentamento económico, causado inteiramente pelas sanções, obscurecendo, assim, o papel central das políticas do próprio Estado. Uma consequência desta lógica campista é que, ao minimizar a dinâmica real da oposição interna à República Islâmica, ela estabelece uma falsa equivalência, assente na transviada noção de que tal “descontentamento económico” está em consonância com o projecto reaccionário pahlavista de mudança de regime por cima. Ao contrário do que afirmam os campistas, opor-se à mudança pró-imperialista de regime não passa por rejeitar ou deslegitimar a revolta interna contra a República Islâmica.
Não se pode atribuir a pobreza generalizada no Irão unicamente às sanções; ela mergulha igualmente raízes numa economia política rentista e na monopolização das importações, ambas instrumentalizadas pela República Islâmica. As suas políticas de segurança e regionais não são simplesmente reacções à pressão externa. Pelo contrário: tais políticas são parte integrante da lógica de sobrevivência do Estado, canalizando recursos para instituições coercivas e projectos ideológico-militares, enquanto a população fica exausta e empobrecida. Como argumenta Kayhan Valadbaigi, as sanções ajudam a intensificar a concentração de riqueza na oligarquia, consolidando as estruturas de poder. Passam os custos para cima dos mais vulneráveis, justificam a repressão e enriquecem ainda mais a oligarquia. As políticas de choque económico — flutuações para o dólar, eliminação da taxa de câmbio preferencial — apresentam-se como medidas calculadas de “sobrevivência” num contexto de vulnerabilidade.
Além disso, os campistas apagam a violência da República Islâmica contra o povo. Assassinatos, tortura, execuções, disparos sobre feridos em hospitais e ataques a cerimónias fúnebres são ignorados ou negados e, assim, legitimados. Apoiando uma teocracia autoritária e anti-imperialista, esvazia-se a linguagem da emancipação de todo o conteúdo real.
Deixem de julgar uma causa pela forma como é instrumentalizada
A propagação do campismo autoritário faz-se em grande parte pelas redes sociais. Aí, a legitimação de Estados autoritários entrelaça-se com um anti-ocidentalismo redutor e, em alguns casos, com anti-semitismo e padrões de pensamento conspirativos.
Apesar das assimetrias objectivas entre Israel (apoiado pelo Ocidente) e a República Islâmica (sob sanções ocidentais), mecanismos políticos e simbólicos semelhantes operam para ambos: bandeiras dos EUA e de Israel em certos comícios “pró-Irão”; bandeiras do Estado iraniano (ou da República Islâmica) e retratos de Ali Khamenei em algumas mobilizações pró-palestinianas. Todos estes gestos são susceptíveis de transformação de lutas legítimas em justificações para a violência, ao mesmo tempo que desacreditam tanto a resistência iraniana como a palestiniana. A mesma lógica se aplica à agora famosa palavra de ordem “Mulher, Vida, Liberdade” (Jin, Jiyan, Azadî). Apropriada pela extrema-direita ocidental, pela extrema-direita iraniana na diáspora e por correntes pró-genocídio, tem sido instrumentalizada para apoiar a violência militarizada.
Esta lógica não é específica ao Irão. Como David Brophy argumentou em relação ao Xinjiang, há partes da esquerda internacional que têm tratado a repressão dos uigures e de outros povos muçulmanos menos como uma questão de direitos nacionais e violência estatal do que como um problema de propaganda, financiamento ou manipulação geopolítica ocidental; no caso de Vijay Prashad e Tings Chak, esta postura desculpabilizadora chegou ao ponto de se basear em fontes fabricadas, aparentemente geradas por IA. Mas a instrumentalização cínica dos direitos humanos pelos Estados ocidentais não torna menos real o sofrimento a que tal linguagem se reporta.
Sabemos perfeitamente como movimentos progressistas e radicais do Sul Global muitas vezes acabam apropriados pela direita, uma vez divulgados no Ocidente. Mas esse processo não nos pode fazer abandonar o dever de solidariedade. O caso do movimento queer ilustra-o bem: o “branqueamento cor-de-rosa” por Estados como Israel não anula nem a força emancipatória da queerness nem a necessidade de solidariedade com queers que enfrentem repressão seja em que contexto for. A legitimidade de uma resistência depende unicamente do seu conteúdo emancipatório e da sua implantação entre os oprimidos, nunca da sua apropriação.
O campismo contribui de formas muito concretas para a perpetuação de injustiças históricas e contemporâneas. Pela dispersão e fragmentação cria um vácuo político, que é gradualmente preenchido pela direita e pela extrema-direita, tanto na região como em todo o mundo. A extrema-direita iraniana na diáspora ocupa este vácuo, simplificando a revolução e diabolizando o “anti-imperialismo”. Pode, deste modo, apresentar-se como única força de mudança. Homogeneizando artificialmente populações inteiras (“Todos os ucranianos que resistem à Rússia são nazis.” “Todos os revolucionários sírios são jihadistas.” “Todos os iranianos que se revoltam apoiam Israel ou os monárquicos.”), o campismo torna-se cúmplice da ascensão das forças imperialistas e reacionárias.
A extrema-direita é extrema-direita em toda a parte
Na Europa, nenhuma esquerda coerente aceitaria aliar-se às bandeiras da extrema-direita com o argumento de que uma potência inimiga estava a atacar o país. No entanto, para o Irão, alguns consideram aceitável exigir que os Iranianos se apaguem e alinhem atrás de forças reaccionárias, nacionalistas, fanáticas e até fascizantes. Implícito em tal assimetria está, na prática, que os povos do Sul Global devam contentar-se com uma escolha entre dominação imperial e barbárie interna. Ora, precisamente, a República Islâmica é um Estado que deve ser chamado pelo que é: uma formação fascizante, uma extrema-direita não ocidental, especialmente no que diz respeito a minorias étnico-nacionais e aos imigrantes afegãos.
Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte.
A recente declaração “antiguerra” sobre o Irão expõe o impasse político do “campismo”: um discurso antiguerra que permite que certos segmentos da esquerda convirjam com meios fascistas, anti-semitas, neonazis e conspiracionistas. A declaração reúne signatários de meios políticos aparentemente opostos: por um lado, figuras anti-guerra campistas “descolonizadoras”, como Vijay Prashad, Sandew Hira, Ramón Grosfoguel, Boaventura de Sousa Santos, Munyaradzi Mushonga, Ajamu Baraka, Nordine Saïdi e Paulina Aroch Fugellie; e, por outro, uma série de figuras — incluindo Dieudonné, Alain de Benoist, Thomas Werlet, Jean-Michel Vernochet, Christian Bouchet, Marion Sigaut, Jacob Cohen, Pierre-Antoine Plaquevent e Arnaud Develay —, bem como organizações como a RN, Égalité & Réconciliation, L’Œuvre française e o Mouvement France Résistance, todas associadas a correntes conservadoras, de extrema-direita, nacionalistas ou fascistas. Esta justaposição ilustra como uma forma puramente geopolítica de anti-imperialismo se pode tornar compatível com a política de extrema-direita. Neste contexto, o regime iraniano e o seu criminoso chefe supremo, Ali Khamenei, ressurgem nas vestes de “voz contra a arrogância e o terrorismo”, enquanto, sob a bandeira da política anti-guerra, se normaliza uma tolerância profundamente preocupante para com a violência dos Estados pós-coloniais contra as suas próprias populações.
A coerência política exige recusar, tanto para os Iranianos como para qualquer outro povo, qualquer instância de acomodação do fascismo em nome de um “mal menor” geopolítico. Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte. Assim como não marchamos com os fascistas, nem debaixo das bandeiras deles: lutamos contra eles, mesmo quando eles se apropriam do vocabulário da liberdade para lhe inverter o significado.
Identicamente ao estalinismo, que tanto contribuiu para desacreditar o socialismo, o “campismo” no Irão enfraquece a esquerda e fortalece a extrema-direita. Aprofunda, enquanto isso, a divisão Norte-Sul e legitima a repressão de movimentos anti-tirania no Sul. O resultado é o isolamento das forças emancipatórias, a desconfiança dos exilados para com a esquerda, no Norte (incluindo as correntes da descolonização) e o colapso da solidariedade internacional.
O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.
As prisioneiras feministas curdas condenadas à morte na prisão de Evin são capazes de manifestar a sua solidariedade com a resistência palestiniana — mesmo correndo o risco de perder parte do seu apoio no Irão. Já os anti-imperialistas autoritários e identitários se mostram, instalados no conforto do Ocidente ou de outro sítio, incapazes de demonstrar solidariedade comparável com as lutas populares no Irão. Chegam, o que é ainda mais grave, a negar ou duvidar da verdadeira dimensão do sofrimento.
É urgente deixar o “campismo” para trás. Caso contrário, não se conseguirá reconstruir uma esquerda genuinamente emancipatória nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular, como tentam fazer redes como a Peoples Want. O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.
1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.
A intervenção policial no Porto e em Lisboa na noite de 24 para 25 de outubro para desmobilizar as manifestações contra a crise habitacional foi mais um capítulo do uso do aparelho coercivo do Estado em benefício de uma classe exploradora e rentista.
Politicamente morto, o ministro Luís Neves é a representação do que de mais podre existe neste sistema: alguémque se serviu durante anos da sua posição no poder estatal para beneficiar economicamente e que encabeça agora uma operação violentíssima e desproporcional contra manifestações pacíficas. Fá-lo como prova de vida e para rogar o perdão do Chega, que contra ele fez obsessiva campanha durante todo o verão, para agora se deixar seduzir pela sua ação autoritária.
Esta deriva não devia ser surpresa. A elite económico-financeira defende à bastonada os seus interesses, a história demonstra-o. Neste caso, essa elite está não só a influenciar a cúpula governativa, como está ela mesma lá instalada: veja-se o património imobiliário daqueles que nos pedem mais sacrifícios ou para largarmos o “egoísmo”.
Não se agride só a luta pela habitação e as garantias constitucionais que nos restam, mas a experiência verdadeiramente democrática das assembleias populares que, em pequena escala, envolve politicamente as novas gerações, ao contrário do sistema farsante desta república oligárquica. Quando convidado para discursar nas comemorações do 10 de junho de 2019, o inenarrável João Miguel Tavares, passista amargurado e representante da miséria moral e intelectual do “comentariado” mediático, clamou poeticamente à classe política: “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Agora que os jovens acreditam na construção de uma alternativa ao Estado económico e social que nos sufoca, é o mesmo pobre Tavares que, paradoxal mas significativamente, se levanta, não contra a emergência habitacional, mas contra as acampadas e as ideias “comunistas” que lá detetou.
A passividade de António José Seguro perante um dos mais visíveis atropelos às liberdades civis desde abril de 1974 é também um lembrete para os que encostam a esquerda à ditadura do voto útil e do mal menor. Abdicamos da construção de alternativas políticas em nome da defesa da democracia… e levamos bastonadas.
A revolta deve traduzir-se em formulação política. Não queremos defender o statu quo das sádicas alterações ao NRAU aprovadas recentemente pela direita. Queremos que o statu quo seja radicalmente transformado. Urge controlar as rendas e a compra do nosso parque habitacional por investidores e fundos especulativos estrangeiros (e nacionais) e a ampliação da habitação pública, por via de mais construção, recuperação e expropriação de imóveis sem utilidade social.
Apresentemos propostas, pautemos o debate, construamos uma alternativa que conquiste a maioria social.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome masculino que designa 1) conversa entre duas ou mais pessoas; 2) troca de ideias ou opiniões com o propósito de chegar a um entendimento; 3) Em literatura, teatro, televisão, cinema: conjunto das falas ou réplicas ditas em discurso direto pelas personagens de uma obra.
EM NOVILÍNGUA:
Doze longos dias depois de a polícia de choque ter dialogado com os manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I, no Porto, com argumentos contundentes, que deixaram dezenas de feridos, o PR António José Seguro finalmente decidiu expressar algumas ideias, quem sabe talvez mesmo uma opinião, afirmando que “a cultura portuguesa é de diálogo, não é de violência nem de confronto”. Mas logo acrescentou, sem nunca condenar a atuação policial, que “para exercermos a liberdade, temos de nos respeitar todos e, para nos respeitarmos todos, temos de cumprir a lei”. Ora a lei, e acima dela a Constituição, já o esclareceram dezenas de juristas, está do lado dos manifestantes, não da polícia. Atrás de quem se esconde outro “desaparecido”, o PM Luís Montenegro, que lá afirmou que "o Governo está sempre disponível para dialogar". O diálogo, ora aí está. Diálogo em que o porta-voz de PM e PR é a polícia: os manifestantes falam de habitação, a polícia responde com o bastão. ASP
Greve geral no Senegal
A Frente Sindical pela Defesa do Trabalho (FSDT) decretou uma greve geral de 72 horas entre 21 e 23 de outubro. Os sindicatos reclamam a redução do custo de vida, melhoria das condições de trabalho, proteção social e maior respeito pelos direitos dos trabalhadores. As reivindicações incluem ainda a reintegração dos trabalhadores despedidos, o respeito pela liberdade sindical e pelos direitos dos trabalhadores. Fonte: La Tribune des Travailleurs, 28 de outubro de 2026.
#nãogostei
O termo mockumentary designa um género de cinema, ou televisão, que apresenta aos espetadores elementos ficcionais no formato de documentário, essencialmente como forma de satirizar uma situação concreta, ou o formato documental em si mesmo.
Ainda que o termo venha dos anos 60 do século XX, foi popularizado por Rob Reiner, a partir do seu notável This is Spinal Tap, notável mockumentary acerca de uma banda rock britânica ficcional, em tournée pelos Estados Unidos. O filme, de 1984, satirizava alguns documentários da época (The Song Remains the Same, dos Led Zeppellin, por exemplo) e foi um grande sucesso para um realizador estreante, que depois veio a ser um dos grandes nomes do cinema americano.
A Hard Day’s Night (Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso, no título português), de Richard Lester, com os Beatles, realizado em 1964, é visto como um dos primeiros exemplos do estilo, que se desenvolveu sobretudo a partir do momento em que os arquivos de cinema e televisão passaram a estar mais disponíveis e a ser mais fáceis de consultar e de utilizar, permitindo a manipulação de imagens originalmente colhidas com propósitos totalmente diferentes.
Seria uma questão de tempo até que a televisão utilizasse o conceito, e duas das mais bem-sucedidas séries americanas de comédia assumiram o formato: “Uma Família Muito Moderna” e “The Office” (esta última, a partir de um original britânico).
Um dos nomes consagrados do cinema americano, que é incontornável quando o tema é o mockumentary, é Woody Allen. Nascido Allan Stewart Konigsberg, escrevia para televisão há já quase 15 anos quando assinou o seu primeiro argumento cinematográfico: What's New Pussycat (1965), realizado por Clive Donner. A sua carreira prosseguiu, com dezenas de realizações de diferentes filmes e a escrita de argumentos originais, de forma muito bem-sucedida, não isenta de polémicas, como as motivadas essencialmente por factos da sua vida pessoal.
Seguiu-se uma série de filmes de cariz significativamente diferente, onde Woody Allen se foi aproximando do melodrama, tendo chegado perto do que teria sido o trabalho de Ingmar Bergman, se alguma vez o realizador sueco tivesse trabalhado na América (sobretudo Stardust Memories, de 1980). The Serpent’s Egg (O Ovo da Serpente, em Portugal), que Bergman fez na América em 1977, por ser um elemento atípico na sua filmografia, não invalida o argumento.
Até que, em 1983, Woody Allen nos apresentou Zelig, a quinta essência do que é o mockumentary.
Leonard Zelig é um personagem que acompanhamos a partir dos anos 20 do século XX. Dos Roaring Twenties até ao início da Segunda Guerra Mundial. Podemos acompanhar o ambiente da América desses denominados anos loucos da década de 20, a que se seguiu a Grande Depressão, e depois a guerra. E, a par de um exercício de pura nostalgia, partimos de uma premissa cómica muito pouco comum, a saber: Zelig tem a capacidade de se adaptar, de forma total, ao meio em que se insere. Mais do que alguém com empatia ou mera capacidade de adaptação intelectual, ele assume as características físicas e psicológicas das pessoas que estão à sua volta. Muda de padrões de discurso, de características físicas (até de raça), chegando a engordar ou a fazer crescer apêndices capilares, se isso contribuir para se confundir com o grupo onde estiver inserido.
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Podemos interpretar esta premissa – a de adaptar literalmente o seu físico e comportamento psicológico do “outro”, moldando-se como cópia – como sendo o de levar, ainda mais longe as premissas do livro O Homem sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. A outro nível, conhecemos a mesma premissa aplicada à análise da personalidade de atores célebres. Existe um episódio dos Marretas com Peter Sellers em que o ator confessa que não tem uma personalidade que seja própria, evoluindo de acordo com as personagens que interpreta, assim como, mais recentemente, tivemos Jim Carrey a encarnar quase literalmente, se possível, Andy Kaufman, no Man on the Moon (Homem na Lua, no título português), de Milos Forman.
Leonard Zelig, uma vez conhecida a sua capacidade excecional, é rapidamente descrito como “o camaleão humano”, e começa a ser tratado como uma atração digna de um freak show (termo que é injustamente traduzido para português como circo de horrores). E rapidamente nos é mostrada a razão de ser desta anomalia: Zelig tem apenas uma profunda necessidade de ser amado e, para isso, de não sobressair de modo errado. Imita o outro para ser aceite. Chegamos a conhecer as condições em que a personagem cresceu, e as vivências que foi atravessando. A vida na América no início do século XX implicava fortes pressões de assimilação cultural e, particularmente relevante para um jovem judeu, de forte antissemitismo. A anulação do “eu” surge como um mecanismo de sobrevivência psicológica para a personagem, que desenvolve assim uma condição (clínica), mais do que um superpoder.
Muitas sequências do filme são particularmente bem conseguidas, exatamente em momentos em que Zelig partilha o ecrã com variadas personalidades relevantes daquela época, lado a lado, mas invisível aos outros, no culminar da sua necessidade de se dar com toda a gente, com efeitos comparáveis ao que muitos anos mais tarde vimos em Forrest Gump, pela mão de Robert Zemeckis.
Usando as melhores técnicas do mockumentary, Woody Allen vai acompanhando as imagens da época com comentários proferidos por personalidades reais e notórias, que dão uma maior credibilidade à ficção que nos é apresentada. Podemos encontrar vários vultos da intelectualidade nova-iorquina da altura em que o filme foi feito, como Susan Sontag, Saul Bellow ou Bruno Bettelheim.
O enredo, que como seria de esperar não é assim tão complexo, acaba com um final feliz, com a psiquiatra que acompanhava Zelig, e que por ele se interessou, a acabar por desenvolver por ele sentimentos de outra natureza (sentimentos retribuídos também por Zelig, claro!), e essa ligação amorosa (ligação pessoal) acaba por fazer desaparecer a anomalia que o tornava o (tal) “camaleão humano”.
Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço.
Uma questão que se poderá sempre colocar a propósito da criação artística é a de saber o que moveu o autor, desde o primeiro momento. Será sempre possível perguntar se existiu alguma motivação específica para o autor ter desenvolvido este projeto e não outro qualquer. As eventuais referências culturais a que já fiz referência terão um propósito de enquadramento na história que está a ser contada. Mas, afinal, o que terá motivado Woody Allen a criar um personagem como Zelig?
Um dos maiores cineastas da história, ele próprio um cómico de exceção, Charlie Chaplin fez refletir em certas obras algumas das situações que foi enfrentando na sua vida pessoal. A sua vida sentimental acidentada, com vários divórcios problemáticos, gerou o filme Monsieur Verdoux (O Barba Azul, em Portugal). Anos mais tarde, a perseguição política a que foi sujeito pelo governo dos EUA serviu de inspiração ao filme A King in New York (em Portugal, Um Rei em Nova Iorque).
A verdade é que todos nos cruzámos com pessoas com características parecidas com este Zelig. Todos nós já encontrámos ou lidámos com pessoas que são como esta personagem. Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço. Cada pessoa que encontramos que diga que ainda está à procura de si próprio é possível que seja alguém que tem vindo a deixar um rasto de personagens que foi copiando e que, depois de não serem necessários, são deixados para trás, como uma cobra que abandona uma pele antiga. Por vezes também fazem vítimas, deixando cadáveres no seu caminho. E copiam outros para serem aceites, validados, terem uma vida.
Zelig é, por isso, um grande filme de Woody Allen, injustamente esquecido quando falamos da sua filmografia. Mas é pena.
Escrevo na madrugada as últimas palavras deste livro: e tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se reconstrói e continua.
Acordam pouco a pouco os construtores terrenos, gente que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável, crianças que passam ao ar livre gargalhando. Como um rio lento e irrevogável, a humanidade está na rua.
E a harmonia, que se desprende dos seus olhos densos ao encontro da luz, parece de repente uma ave de fogo.
Carlos de Oliveira
«Quando a harmonia chega»
Terra de Harmonia, in Trabalho Poético
Livraria Sá da Costa Editora, 1998.
Contra as expectativas do PT e até mesmo das sondagens, Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta das presidenciais brasileiras com 2,2 milhões de votos de vantagem. A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro na segunda volta parecia inevitável. Não o foi porquê?
Contra as expectativas do PT e até mesmo das pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 2,2 milhões de votos à frente. Seu campo também elegeu os governadores do Sudeste e do Sul do país, alcançando 11 governadores no primeiro turno, que governarão 63% da população (e 16 governadores, com 71% da população, após o segundo turno), e avançou fortemente no Senado e na Câmara. Consagrou, assim, um lastro político que, diferentemente das condições de seu pai, permitiria à sua base de apoio avançar na implementação não apenas de um governo de cariz fascista, mas de um regime fascista, visto que controlaria também o Supremo Tribunal Federal.
A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro repercutiu de modo profundo em todo o campo progressista. Silêncio, medo e perplexidade anunciavam um quadro de derrota antecipada. Nem os partidos nem a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e as demais centrais sindicais convocaram uma grande vaga de lutas, com a realização de plenárias populares antifascistas. Como superar uma vantagem estimada em 11 milhões de votos? Como proteger a militância e os movimentos populares da turba neofascista?
Centenas de milhares de ativistas sociais dimensionaram o significado prático de um governo ligado às grandes organizações criminosas, entre elas as chamadas milícias, que colocaria o Brasil no Escudo das Américas e radicalizaria a austeridade neoliberal extrema sobre os direitos sociais, como faz Milei. Indicadores da Comissão Pastoral da Terra registram 136 assassinatos de indígenas, quilombolas1 e trabalhadores do campo durante o governo de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro destinou recursos a Peixe, miliciano condenado no caso Marielle Franco2. Assim, movimentos indígenas e contra as mineradoras, torcidas antifascistas, estudantes, movimentos negros, de mulheres e da diversidade, sindicatos, entidades científicas e entidades profissionais foram se somando às manifestações.
Diante da iminente derrota de Lula da Silva no segundo turno, a irrupção de iniciativas autoconvocadas e livres das amarras burocráticas foi decisiva para a reversão do quadro negativo do primeiro turno, conferindo ao segundo turno um inédito caráter de massa e popular não cogitado pela burocracia do PT. Este artigo discute algumas tendências advindas dessa irrupção e defende a importância da reaglutinação de arcos de forças que pratiquem a autonomia diante do novo mandato do atual presidente.
Da derrota de 4 de outubro…
As mobilizações das juventudes, relativamente síncronas e espalhadas pelo mundo, que forjam a cena das lutas populares de 2026, dão visibilidade a novos sujeitos, agendas, métodos e formas de organização capazes de catalisar mudanças na correlação de forças de seus respectivos países e na conjuntura mundial. No seio da geração Z, mas não somente nela, estão se conformando novos sujeitos coletivos nas lutas populares mundiais. No caso brasileiro, as recentes manifestações foram as maiores do século e alcançaram o pico de 2 milhões de pessoas às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro. São perceptíveis a abertura a pautas3 mais amplas das classes trabalhadoras e a maior autonomia diante dos partidos oriundos da esquerda, enrijecidos pelo ciclo vicioso da burocratização e pela assimilação da austeridade como uma segunda natureza. O descolamento entre os movimentos que emergem e as práticas burocráticas desses partidos é acentuado pelo facto de que, quando assumem o governo, eles tratam assuntos públicos como habitação, transporte, educação, ciência, saúde e previdência como esferas a serem dirigidas pela tecnocracia. A despolitização dessas dimensões da vida social pavimenta o avanço das extremas-direitas.
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O Partido dos Trabalhadores (PT) também vive essa realidade de burocratização e de incorporação profunda dos preceitos da austeridade. O enfrentamento eleitoral com a extrema-direita mostrou-se mais árido do que a estratégia da campanha de Lula havia previsto para o primeiro turno das eleições nacionais. O governo estadunidense, com Trump e Rubio à frente, agiu em favor do candidato neofascista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente. A Meta manipulou os algoritmos, censurou as maiores contas favoráveis a Lula e postergou decisões judiciais, enquanto as igrejas pentecostais e neopentecostais acionavam seus fiéis. É importante lembrar que, até o final do primeiro turno, mesmo temas de forte impacto para as classes trabalhadoras, como o fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso)4, não adquiriram real densidade trabalhista na estratégia de campanha. O fim da escala 6x1 foi tratado não como tema axial das relações de trabalho, mas como medida que demonstrava a preocupação social do candidato, especialmente por ampliar o convívio familiar. A dinâmica burocrática e publicitária parecia ignorar o enraizamento popular da extrema-direita de cariz fascista. Por meio de uma robusta rede de igrejas pentecostais e neopentecostais, que somam mais de 300 mil no país, e dos vínculos do candidato com organizações criminosas, sobretudo milícias, como demonstrado por Bruno Paes Manso5, a extrema-direita controla importantes territórios de favelas por meio da violência e do poder económico. Somados o difuso antipetismo e a rede de associações comerciais, de seguranças privadas e de aparelhos privados de hegemonia (APHs)6 diversos, o bolsonarismo assumiu características massivas, ainda que careça de organicidade partidária. Ao mesmo tempo, boa parte dos grandes capitalistas vinculados aos bancos, aos fundos de investimento, às commodities, às big techs, aos grandes meios de comunicação e aos conglomerados de APHs vinha impulsionando o candidato, tratado como legítimo a despeito de suas ligações perigosas.
Ainda assim, a condução da campanha de Lula seguiu nos estreitos trilhos da publicidade impulsionada por grandes somas de recursos, parte delas destinada às big techs, quando era evidente a falta de materiais elementares para o trabalho de campanha corpo a corpo. Não houve real interpelação nem acionamento dos sindicatos e dos movimentos sociais e estudantis. O silêncio abateu-se sobre as universidades públicas, sucateadas por anos de austeridade.
… à vitória de 25 de outubro: milhões nas ruas do Brasil contra o fascismo
As impressionantes manifestações, as maiores do século, embora não sejam um raio em céu azul, como visto nas grandes manifestações de 2013 e 2019, surpreenderam o país. Durante 20 dias, alcançaram mais de cinco milhões de manifestantes em todas as regiões do país, inclusive em cidades de pequeno e médio porte, conforme estimativas muito preliminares.
A exemplo do que ocorreu no primeiro estalido da rebelião estudantil na França, em 2026, no Brasil também foi um acontecimento molecular, realizado pelos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, localizada em Niterói, uma das raras cidades do estado do Rio de Janeiro que deram vitória a Lula no primeiro turno. Na noite de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, estudantes convocados pelo centro académico se reuniram para avaliar a situação e, em dado momento, concluíram que seria inútil aguardar o comando da campanha para retomar a iniciativa política e decidiram que o caminho era ir às ruas. Nas palavras de Virgínia Fontes, os estudantes “romperam o dique das defesas históricas erguidas pelo PT contra grandes mobilizações (ou ao menos pela maioria do PT), temeroso por saber que essas grandes massas populares podem ser incontroláveis e colocar em xeque alianças e compromissos problemáticos para elas”7. Em meio ao desalento, o ato que reuniu alguns milhares de pessoas ganhou enorme repercussão nas redes sociais, como o Instagram, e serviu de centelha para a deflagração das grandes manifestações. No dia 6, outro grande ato convocado pelas entidades estudantis, mas que ultrapassou largamente seu núcleo militante, aconteceu em Pernambuco, na UFPE, universidade que vinha sendo ameaçada pela extrema-direita e que, dias depois, foi atingida por um incêndio, cujas causas ainda estão sendo apuradas. Nesse mesmo dia, fandoms, como o perfil Taylor Swift Brasil, os fãs de Anitta e outros fã-clubes assinaram um manifesto conjunto convocando seus adeptos a lutar contra o fascismo e a buscar os votos dos mais de 33 milhões de abstencionistas do 1º turno. É importante destacar que esses coletivos, os fandoms, não compõem a organização tradicional das esquerdas estudantis, como os diretórios estudantis, por exemplo, embora parte de seus membros possua relação com partidos e outros coletivos. No dia 8, no Rio de Janeiro, aconteceu a marcha “Juventude na Rua pela Democracia” com forte participação de estudantes secundaristas, reunindo mais de 50 mil estudantes que ecoaram palavras de ordem diretamente antifascistas, contra Bolsonaro e, no caso, em defesa da eleição de Lula. Já nessa marcha, embora não como força convocante, o PT se somou às manifestações que reacenderam a agência das militâncias.
A sucessão de grandes manifestações em Belo Horizonte, Curitiba, Bahia, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, todas gigantescas, as tornou um espaço político para acolher milhares de militantes de outros movimentos que desejavam tomar a campanha nas próprias mãos. No dia 9, centrais sindicais saíram às ruas em luta pelo fim da jornada 6x1, afinal aprovado em 14 de outubro em virtude de amplo apoio popular. No dia 11, em São Paulo, ocorreu a maior manifestação até então realizada, com aproximadamente um milhão de pessoas, convocada de forma independente por movimentos sociais, pelo movimento estudantil e por torcidas organizadas do Palmeiras e do Corinthians e também por entidades que realizam a Marcha LGBT em São Paulo. A manifestação, da qual Lula participou, foi assumida como parte da campanha. As manifestações assinalam o propósito de conexão com as lutas sindicais e do conjunto dos trabalhadores. O tom é o antifascismo. E o intento é dialogar com os 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e com os idosos, assim como virar votos nas franjas da direita. Essas manifestações culminaram no maior ato da campanha, convocado pelo candidato do PT no dia 24 de outubro, com cerca de 2 milhões de pessoas.
Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc.
Para entender o alcance das convocatórias estudantis, que foram se amalgamando à campanha de Lula, é preciso considerar o peso do chamado Exército de Lula, liderado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG), que alcançou mais de 10,5 milhões de pessoas no WhatsApp e que logrou alterar a performance dos algoritmos da Meta com postagens simples, síncronas e massivas. Em poucos minutos, milhões de pessoas foram convocadas para as tarefas do dia, como, por exemplo, aumentar a visibilidade do fim da jornada 6x1, conter as fakenews, sem propagá-las. As redes deixaram de ser monopólio da extrema-direita.
No segundo turno, Lula ampliou sua votação em 10,3 milhões de votos. A abstenção foi reduzida em cerca de 3 milhões de eleitores, o que possibilitou uma vitória por 4,4 milhões de votos.
Passados dois dias do resultado, Trump, após levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ainda não se pronunciou. Toda a União Europeia, a América Latina (exceto Milei), a China, a Rússia e países da Ásia e da África reconheceram o resultado eleitoral. Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc. Impossível deixar de registrar o protagonismo das mulheres. Nas áreas populares, elas afirmaram sua rejeição ao bolsonarismo mesmo quando pastores orientavam o voto em seu candidato. Se a burocracia partidária e sindical tivesse prevalecido, nada disso teria ocorrido. Agora, é preciso extrair as aprendizagens, organizar e assegurar organicidade aos movimentos que resistiram ao avanço fascista. Todas essas mobilizações não podem ser desarticuladas em virtude da vitória eleitoral. E haverá forças que desincentivarão a auto-organização popular. Os partidos e mandatos da esquerda precisam estar vinculados aos movimentos que forjaram essa batalha. É preciso resgatar a prática de prosear8 quotidianamente com o povo. Em resumo, esses vibrantes 20 dias de lutas podem permitir retomar a perspectiva de frente dos trabalhadores como força autónoma para impedir o avanço do neofascismo, unindo-se a outras frações de classe antifascistas (marchar separados, golpear juntos). A estratégia frente dos trabalhadores é condição necessária para enfrentar a austeridade, que é, afinal, a incubadora das novas extremas-direitas no século XXI, e também por poder se consolidar como espaço de formação contra as barbáries que marcam os tempos atuais.
1 Descendentes de africanos escravizados que fugiram de fazendas, engenhos e senzalas durante o período colonial e imperial do Brasil, formando comunidades de resistência chamadas quilombos (NR)
2 PIRES, Breno. “Nosso senador”: Flávio Bolsonaro mandou emenda a miliciano do caso Marielle. Piauí, Rio de Janeiro, 21 set. 2026. Seção Vultos do Rio. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/flavio-bolsonaro-miliciano-peixe/. Acesso em: 27 out. 2026.
3 Temas, reivindicações (Nota da revisão).
4 O fim da escala 6x1 altera a legislação trabalhista, determinando que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal, e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.
5 MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020. MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023. MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Nunes. A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil. São Paulo: Todavia, 2018.
6 O conceito de aparelhos privados de hegenonia baseia-se na teoria do Estado ampliado, de Antonio Gramsci. Refere-se a organizações da sociedade civil (como institutos, fundações e associações empresariais) que, embora formalmente externas ao Estado, atuam na difusão de ideias, valores e consensos alinhados com os interesses do grande capital (NR).
7 Virgínia Fontes. Mantendo o gás. Aprendizados em andamento de uma campanha eleitoral de verdade, quando a política real assume a dianteira e derrota as burocracias e os poderosos.
8 Conversar, dialogar (NR).
Raquel Varela conversa com Roberto Leher sobre os fundos financeiros na educação em Portugal e no mundo, e como a digitalização representa a destruição da educação.
A Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência.
ilustração: Ricardo Ferreira
Em 1961, Dwight D. Eisenhower, então ainda presidente dos EUA, proferiu seu famoso discurso de despedida, popularizando o termo ‘complexo industrial-militar’. Nele, Eisenhower alertava para os riscos crescentes de uma larga influência da indústria bélica e corporações privadas no Departamento de Defesa e, assim, na política nacional estadunidense. O termo ganhou crescente relevância para a compreensão geopolítica das dinâmicas entre capital corporativo e Estado, desde suas relações internas, até o estudo dos imbróglios internacionais atrelados à posição imperialista dos EUA — único país com centenas de bases militares ao redor do globo — e suas constantes interferências, diretas ou indiretas, na política nacional de diversos países.
Posteriormente, um novo termo seria frequentemente adicionado à equação: o complexo seria descrito nos termos ‘industrial-militar-académico’, expressando a tríade que organiza pesquisa e desenvolvimento tecnológico e científico atrelado aos interesses políticos, militares e do capital norte-americano, central na disputa internacional por hegemonia. É razoável reconhecer que a centralidade dessa relação na estruturação do poder estadunidense é anterior à própria emergência do termo, especialmente com a intensificação da relação entre os setores promovida pelos processos da II Guerra, que englobam tanto o desenvolvimento das armas nucleares, quanto a emergência das tecnologias digitais como conhecemos hoje. Não é difícil demonstrar, inclusive, como estas são duas facetas fundamentais e intimamente interligadas na dinâmica de domínio militar e político dos EUA desde o pós-guerra.
Com heranças teóricas do século XIX no campo da lógica e da matemática, a criptografia aparece como questão relevante já nas corridas tecnológicas da I Guerra, mas é com a corrida criptográfica em torno da máquina Enigma que irão se estabelecer tanto sua centralidade militar quanto os pressupostos fundamentais da computação moderna (famosamente, por Alan Turing, partindo de grandes contribuições do criptologista polonês Marian Rejewski). A computação torna-se assim de interesse militar logo na primeira metade do século passado, e seu papel no desenvolvimento de armas nucleares (e, posteriormente, na corrida espacial) também será fundamental, através de máquinas desenvolvidas para a automação do cálculo, operadas fundamentalmente por computadores (de facto, em sua maioria computadoras, desígnio de ofício para uma tarefa desempenhada principalmente por mulheres desde as navegações coloniais, pelo cálculo astronómico de rotas marinhas).
O desenvolvimento científico-militar encampado pelo Projeto Manhattan acelerou diretamente o advento dos primeiros computadores eletrónicos digitais, com John von Neumann exercendo papel fundamental. Matemático, físico, engenheiro e cientista da computação, foi dele a ideia de utilizar os problemas hidrodinâmicos e de fissão nuclear para teste dos primeiros códigos lógicos do ENIAC, primeiro dispositivo digital eletroeletrónico de grande escala, substituindo a computação eletromecânica do Harvard Mark I. Von Neumann tornar-se-ia o pai da arquitetura moderna do hardware computacional, utilizada até os dias de hoje. Posteriormente, desenvolveria, em Los Alamos, o MANIAC, voltado principalmente para simulações termonucleares, desenvolvimento armamentista, mas também em pesquisas genéticas, hidrodinâmicas e na física de partículas.
Tudo isso foi possibilitado também graças ao advento da teoria matemática da informação, desenvolvida por Claude Shannon, que apresentaria categorias fundamentais como a unidade fundamental do bit (contração do termo ‘unidade binária’, em inglês), a codificação binária da informática usada até hoje e a chamada teoria da ‘entropia informacional’. Esses desenvolvimentos se deram na época da efervescência cibernética, campo de estudos interdisciplinares que almejavam uma meta-linguagem transversal ao campo das ciências humanas e naturais — com seu início demarcado nas Conferências de Macy (1946-1953). A palavra, derivada do grego Kubernetes, tem raiz etimológica comum à noção de ‘navegação’ e ‘governo’. Com princípios e finalidades definidos por Norbert Wiener nos termos da “comunicação e controle no animal e na máquina”, a cibernética logo despertou o interesse militar nos EUA.
Os integrantes da cibernética, muitos que já frequentavam o então emergente complexo industrial-militar, são historicamente reconhecidos como pioneiros em diversos campos da tecnologia digital contemporânea, como foi o caso dos primeiros modelos teóricos de redes neurais artificiais, proposto por McCulloch e Pitts, ainda em 1943, antecipando um dos paradigmas fundamentais na tradição das inteligências artificiais — o paradigma conexionista, em contraste com o paradigma simbólico, ambos formalizados em 1956, no Darthmouth College. Em 1957, Frank Rosenblatt desenvolve o Perceptron, um modelo cognitivo fundacional na história das IAs conexionistas.
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Na época, quando trabalhava no Laboratório Aeronáutico de Cornell em Buffalo, onde rodou seu programa em um IBM 704, Rosenblatt conseguiu financiamento do ramo de sistemas de informação do Departamento de Pesquisa Naval norte-americano além do Centro de Desenvolvimento Aéreo de Rome (um laboratório voltado para pesquisas em ‘controle, comando e comunicação’) para desenvolver o Perceptron Mark I. O objetivo principal deste aparelho era a automação do reconhecimento de padrões, um dos primeiros sistemas algorítmicos para a aprendizagem de máquinas [machine learning] — termo que seria cunhado por Arthur Samuel em 1959 —, e que tinha como objetivo prático a análise de imagens desde a modelização dos padrões de formas geométricas. Temos os primórdios da corrida militar no campo das IAs que é, hoje, quase 70 anos depois, eixo central na dinâmica da guerra contemporânea.
Durante a segunda metade do século XX, a pesquisa e o mercado das IAs passaram por diferentes “primaveras” e “invernos”. É relevante notar que os desdobramento das tecnologias digitais durante a Guerra Fria também afetaram diretamente a conceituação teórica do pensamento militar. Em meio às tensões da era atómica e da corrida espacial, na chamada “polarização” entre o eixo capitalista e o socialista, o vocabulário militar expandiu a sigla C2[Comando e Controle] para C3I [Comando, Controle, Comunicações e Inteligência] e, finalmente, para C4ISTR[Comando, Controle, Comunicações, Computação, Inteligência, Vigilância, Obtenção de alvos e Reconhecimento], demonstrando cada vez mais a inserção dos imperativos digitais na lógica militar. Essa expansão é concomitante à proliferação da lógica paranóica (mas não delirante) instituída pelas armas de destruição em massa, inauguradas com a própria bomba atómica, impondo uma nova era da dissuasão, além da necessidade de novas tecnologias para controle ostensivo, vigilância e inteligência militar.
A era atómica, como bem analisada por Günther Anders, atualizou de modo radical os impasses geopolíticos, de certo modo antecipando a globalização pela via do negativo bélico — e foi o desenvolvimento e a disputa por hegemonia no campo das tecnologias digitais que veio responder a tais impasses. O acordo de Bretton-Woods, que funcionou como arquitetura do domínio financeiro imperial no pós-guerra, dando vantagens estratégicas para o dólar, possibilitou também o financiamento e avanço das pesquisas científicas nos EUA, dando uma vantagem económica assimétrica ao país, com o custo da violência imperial ao redor do globo. Curiosamente, o final do acordo acontece no mesmo ano em que o primeiro microprocessador é comercializado globalmente, ano que marca tanto um reordenamento da dinâmica financeira (e militar) no capitalismo global, quanto uma nova era da tecnologia digital. Também é o ano de lançamento do mercado de ações em forma eletrónica, com a Nasdaq, marcando o processo de financeirização do capitalismo global.
Nos anos seguintes, com o fim do rastreamento do dólar em ouro, a política internacional militar estadunidense incita o processo de predação do mercado petrolífero que transporta a lógica da guerra imperial para o “Oriente Médio”, fundando e mantendo, na base das desestabilizações, intervenções, e da bala, a configuração do petrodólar. Os anos 1980 são marcados pela generalização da temporalidade digital nas tecnologias militares, o “Tempo Real” diagnosticado pela dromologia de Paul Virilio, com novos sistemas de radares, satélites e computadores voltados ao monitoramento e alerta precoce de ameaças bélicas nucleares. A transmissão simultânea de incursões militares ganha, nos anos 1990, um marco fundamental com a Guerra do Golfo, na mesma época em que é lançada a World Wide Web — a rede global de computadores, lastro para as teorias da globalização e da era da informação.
Derivada do modelo militar norte-americano de 1969 (a ARPANET), a internet inaugura um processo de interconexão global que implica na produção, armazenamento e processamento de dados em escala massiva progressiva, o que possibilitaria posteriormente a emergência do Big Data e o treinamento de IAs, com os avanços em software e hardware, dando as bases para a plataformização contemporânea. Chegamos, enfim, ao início do ‘novo milénio’, marcado pelo ataque ao World Trade Center, que dá início à retórica da ‘guerra ao terror’ e cria as condições para desenvolvimentos digitais e militares que dão as bases do contemporâneo. A automação da guerra, antecipada por Virilio, irá encontrar, pela tecnologia dos aviões não tripulados, sua realização seminal em enxames de drones, a radicalização da alienação técnica de incursões e execuções em sua expressão digital — a relação entre sub-limiar e supra-limiar, analisada por Günther Anders frente à alienação do genocídio pela bomba, é atualizada digitalmente no extermínio localizado cada vez mais precisão.
Outro elemento fundamental será desdobrado após os ataques do 11 de setembro de 2001. Notando lacunas na integração de dados entre as agências estatais americanas de informação e inteligência, empreendedores ligados ao ramo de tecnologia de Silicon Valley encontram tanto uma motivação política quanto um nicho de mercado sensível e fundamental que irá se desdobrar na criação de uma das empresas mais sensíveis e fundamentais na fronteira entre militarização e digitalização contemporânea. Peter Thiel, que esteve envolvido em problemas referentes ao uso fraudulento da sua plataforma para transações económicas digitais, originada no "boom das dotcom", o PayPal, recebeu como resposta de seu sócio o desenvolvimento de um software que, utilizando técnicas algorítmicas, garantia a segurança de transações na plataforma. Batizado de Igor, o primeiro golpista interceptado pela ferramenta, a tecnologia anunciava uma nova era na integração de dados online.
Com o 11 de setembro, Thiel encontra então uma nova utilidade para seu software na urgência da guerra ao terror. Buscando estabelecer relações com o ramo de defesa do governo americano, irá entrar em contacto com Alex Karp, que torna-se um entusiasta do projeto. Será então, entre os anos de 2004 e 2005, que sua empresa passa a receber fundos do braço de investimento em capital de risco da CIA, a In-Q-Tel, possibilitando também a parceria entre seus engenheiros e analistas da central de inteligência, desenvolvendo o software de análise de dados que originou a, hoje conhecida, plataforma Gotham. É essa a história de surgimento da Palantir, que encontrou nos adventos do 11 de setembro tanto sua razão de ser quanto as coordenadas da digitalização que passam a fragmentar a (já deletéria) fronteira entre esfera civil e militar nas décadas seguintes.
Hoje, a empresa representa o principal núcleo corporativo, tecnológico e ideológico no processo ostensivo de justaposição da militarização como característica coextensiva da experiência cotidiana, mediada pelo digital. Unindo serviços para empresas e exércitos sob lógicas comuns em diferentes perspectivas, a Palantir integra um vocabulário filosófico — cortesia do próprio Karp, familiarizado com a teoria crítica, ex-estudante da Goethe-Universität Frankfurt, onde desenvolveu seu doutoramento em filosofia sobre a Agressão no Mundo da Vida [Aggression in der Lebenswelt] defendido em 2002 — ao discurso armamentista-empresarial, realizando a atualização do novo ‘complexo industrial-militar-digitalizado’ estadunidense pela integração de metadados, articulação em “tempo real” do “campo de batalha” e aceleração da “cadeia [produção] de morte”, em novos sistemas de vigilância e produção de alvos que prometem ser a vanguarda na defesa do legado ocidental pela manutenção do império norteamericano — como vemos no uso ostensivo do sistema Maven, tanto pelo exército de Israel (cliente fundamental da Palantir), quanto pelo exército dos EUA (por exemplo, na seleção da escola feminina Shajareh Tayyebeh, no Irão, como alvo militar, resultando no assassinato de 175 pessoas, em sua maioria crianças).
Com todo esse contexto, as manifestações públicas de Karp precisam ser interpretadas para além do personagem “excêntrico” e “exótico”, mas como a propaganda ideológica de um verdadeiro programa político. Muito longe de meras bravatas, sua retórica sobre impor medo aos inimigos políticos e estabelecer um combate ao multiculturalismo liberal (que tem como alvo “mulheres académicas progressistas” em contraposição aos “homens da classe trabalhadora)” são estratégias — partem de um doutor em filosofia que teve sua pesquisa de doutoramento focada na naturalização da violência na retórica pós-hitlerista alemã. A publicação que ficou conhecida como “manifesto da Palantir”, resumindo em 22 pontos o que é apresentado no seu livro A República Tecnológica, em co-autoria com Nicholas W. Zamiska, defende, entre diversos pontos, a era digital como superação da era atómica — elemento central na apologia do desenvolvimento de sistemas de armas autónomos movidos por IA.
Entre o pensamento posterior de Epimeteu e a antevisão de Prometeu, a Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência que ultrapassa em muitos sentidos — e condições ontológicas — as dinâmicas do século passado. Para combater esse programa totalizante e com explícitas conotações neofascistas — como expresso na defesa da superioridade de determinadas civilizações em relação a outras, que deveriam ser submetidas (ou exterminadas) pela força —, é necessário uma esquerda liberta, antes de tudo, das limitações simbólicas (i.e., também materiais) impostas pelos processos da última década, onde a neoliberalização formatou a gramática emancipatória em uma retórica de gestão das crises do capital. A era de gestão das crises está em processo de obsolescência, programada desde suas origens. Resta a nós lutarmos contra a automação da barbárie.
a população trabalhadora e jovem vive uma situação insuportável, causada pelos baixos salários, pela impossibilidade de aquisição ou arrendamento de habitação resultante do império da especulação imobiliária — na qual estão pesadamente implicados os membros do governo e deputados da direita, como revelava o jornal Público de 19 de Outubro;
a esta situação se soma a destruição do serviço nacional de saúde, do ensino público e a degradação dos transportes públicos que os governos têm promovido, retirando à população trabalhadora grande parte dos direitos colectivos que lhes permitiam sobreviver apesar dos baixos salários e promovendo a vergonhosa super-exploração dos trabalhadores imigrantes, quer no trabalho quer nas inaceitáveis condições de habitação;
enquanto isso, a inflação não pára de subir, nomeadamente a dos combustíveis e da alimentação, reduzindo drasticamente o salário real da generalidade dos trabalhadores e o rendimento e a viabilidade de pequenos agricultores, artesãos e micro e pequenas empresas;
o projecto de OE 2027 apresentado pelo governo propõe reduzir o investimento público em 31% e, em particular, o da habitação em quase 70%; cortar o orçamento da saúde em mais de 250 milhões e aumentar o da despesa militar em mais de 500 milhões; aumentar a massa salarial da função pública 2,3%, o que representa um corte brutal do poder de compra dos funcionários; aumentar de 6.700 para 8.200 milhões os pagamentos de juros da dívida pública, grande parte da qual resultante da nacionalização dos prejuízos da banca privada, Banif, BPP, Espírito Santo, etc.; “desagravar” o IRS dos salários médios e mais altos em um a três cafés por semana, concedendo ainda mais subsídios fiscais aos grandes senhorios e fundos imobiliários (“rendas moderadas”) e empresas (redução do IRC); continuar a usar o excedente da segurança social, que representa salário diferido dos trabalhadores, para compensar o défice orçamental causado pelos benefícios concedidos ao grande capital e à finança que parasita a dívida pública;
esta situação ocorre e se agrava num quadro de guerras e genocídios que alastram pelo mundo, tendo-se o governo português comprometido com a NATO/UE a aumentar a despesa militar até 5% do PIB nos próximos dez anos (passando dos actuais seis mil milhões de euros (o dobro do que era há cinco anos) para algo como 25 mil milhões de euros — ou mais), contribuindo, assim, para o alastramento das guerras;
enquanto isso, se multiplicam os desastres ambientais e as agressões às populações do interior, como no Barroso, o negócio dos campos gigantescos de painéis solares, etc.;
a situação descrita afecta toda a população trabalhadora e praticamente toda a juventude que vive, estuda e trabalha em Portugal e nos demais países da Europa e do mundo,
a juventude e a população trabalhadora, em Portugal e nos países europeus vizinhos, está a revoltar-se e mobilizar-se em massa, com toda a justiça, sendo, porém, alvo de repressão violenta dos governos e forças policiais,
os sindicalistas, trabalhadores e jovens reunidos em encontro nacional da Plataforma Unitária de Sindicatos decidem:
manifestar a sua solidariedade incondicional com as mobilizações dos jovens e trabalhadores, em, Portugal, em França, Espanha, Itália, Alemanha e no mundo contra a guerra, pelo direito à habitação, por um ensino e saúde públicos de qualidade e salários, condições de trabalho e pensões que lhes permitam viver com dignidade; e apelar aos sindicatos e centrais para que se associem, apoiem e protejam as acções da juventude trabalhadora e estudantil pelo direito à habitação;
condenar com toda a veemência a repressão que o governo português fez abater sobre os acampamentos de jovens no Porto e em Lisboa e exigir o fim de toda a repressão das mobilizações de jovens e trabalhadores no nosso país e no resto da Europa e do mundo;
exigir a obrigatoriedade de declaração e publicação de todos os fogos devolutos e sua mobilização imediata para alojar as famílias trabalhadoras; exigir a retirada imediata da proposta de novo regime do arrendamento urbano e a revogação de todas as medidas da “lei Cristas”, exigindo o imediato alojamento condigno de todas as famílias trabalhadoras e famílias pobres e vulneráveis, incluindo as imigrantes — até lá ficando proibidos os despejos e congeladas as rendas, travando a sua insuportável subida;
exigir a expropriação dos fundos imobiliários e um termo à transformação da habitação, direito constitucionalmente garantido, num negócio milionário; fixação das rendas em função do rendimento das famílias, num máximo de 30%; garantia de alojamento digno de todas as famílias e lançamento imediato de um plano nacional de habitação, para isso usando as verbas previstas para a despesa militar, os benefícios fiscais para o patronato e o pagamento dos juros ilegítimos da dívida pública;
exigir um aumento geral de salários de 15% para compensar a inflação acumulada, um aumento imediato do salário mínimo para 1.100 euros e indexação automática dos salários e pensões a um cabaz representativo das despesas das famílias trabalhadoras, controlado pelos sindicatos; semana de 35 horas sem redução de salário; fim da precariedade; contratos de trabalho para todos; transporte para e do trabalho gratuito e garantido pela empresas dos trabalhadores de empresas com efectivos superiores a 50;
exigir o financiamento adequado do SNS, da escola pública e do transporte público e reverter todas as medidas tendentes à privatização da saúde, do ensino e dos transportes;
exigir a redução da carga fiscal sobre os produtos de primeira necessidade e combustíveis, onerar os produtos de luxo e expropriar os super-lucros dos operadores energéticos;
rejeitar qualquer tentativa de subversão da segurança social, que é património dos trabalhadores, e de entrega dos seus fundos aos mercados de capitais; e rejeitar qualquer tentativa de voltar a contrabandear, agora medida a medida, o pacote laboral do governo, que foi derrotado pelas nossas greves gerais;
apelar à rejeição do projecto de orçamento para 2027 e a que as centrais sindicais, CGTP e UGT, e todas as direcções sindicais, comissões de trabalhadores e ORTs preparem a greve geral para impedir a sua aprovação na Assembleia da República;
apoiar o apelo das centrais sindicais do Estado espanhol a uma greve geral pela habitação e apelar ao apoio das centrais e direcções sindicais e ORTs portuguesas;
apelar à unidade e convergência da luta de todos os trabalhadores e jovens europeus, com os seus sindicatos e organizações, contra as medidas do capital e de Bruxelas, que a todos afectam, e contra as quais se preparam, já em Novembro, mobilizações de grande envergadura e greves gerais no Estado espanhol, França, Reino Unido, Bélgica, Itália, Alemanha e outros países.
Não aceitamos o caminho da miséria e da guerra! A mobilização fraterna da juventude e dos trabalhadores dos países europeus e de todo o mundo pode e deve pôr fim à caminhada para o abismo económico, social e ecológico.
*Estiveram representados no encontro os seguintes sindicatos: SNPVAC (aviação), SITEU (enfermeiros), S.TO.P (profissionais da educação), STCC (call centres), STGSSP (grandes superfícies), STASA (indústria automóvel), Sindicato dos Estudantes e os movimentos sociais Solidários e Rede Ecossocialista, tendo participado individualmente sindicalistas de vários outros sindicatos. Estiveram presentes como observadores representantes da associação Habitação Hoje.
Continuamos a falar da violência policial como se não fosse normativa em vez de excepcional, com a particularidade de os alvos serem frequentemente os invisíveis.
Os episódios sucedem-se e são invariavelmente com pessoas em situação de fragilidade perante um poder cuja natureza tem sido a do abuso, uma vez que manter a ordem perante um mundo desordenado apenas poderia resultar em violência, sobretudo quando essa parece ser cada vez mais a única ferramenta disponível para as forças policiais.
Odair Moniz, Cláudia Santos, o episódio da esquadra do Rato, a morte de um cidadão marroquino em Olhão, os episódios frequentes na esquadra de Alfragide são os que estão frescos na nossa memória e aqueles que tiveram atenção mediática. A excelente investigação do podcast Fumaça sobre violência policial (https://fronteiradomedo.pt/) oferece uma perspectiva mais profunda, preocupante e que não é episódica, mas classista com expressões racistas e xenófobas.
Os espancamentos dos manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I às 3 horas da manhã foram justificados pela PSP, neste como na maioria dos casos, como resposta à provocação de um pequeno grupo. Não sabemos qual a provocação, mas sabemos, porque é habitual, que qualquer exigência de um direito é considerada provocação no momento presente. Além de apelidado como egoísmo pelo mesmo primeiro-ministro que nos aconselha a mentalidade Ronaldo como solução. Pois aqui estamos.
É assim em Paris, em Madrid e em Portugal.
Nem a estratégia nem o resultado são novos.
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Na era cavaquista – e Montenegro tem vindo a reproduzi-la, traduzindo a austeridade em autoritarismo – era frequente as manifestações terminarem em cargas policiais, sob o mesmo pretexto, o da provocação, da desordem e dos desacatos, invariavelmente com uma gritante desproporcionalidade de resposta perante pessoas desarmadas.
Dois dos pressupostos teóricos essenciais para a manutenção da democracia, cada vez mais representação do que representativa, têm vindo a ser sistematicamente corrompidos e a situação do Porto ilustra-o na perfeição.
A atitude totalitária, misto de laxismo e cesarismo de Pedro Duarte – análoga à de Montenegro e Moedas – ao declarar que seria implacável com os manifestantes, e a consequente brutalidade da polícia, devem no mínimo levantar suspeitas sobre a idoneidade da conduta de ambos os intervenientes e sobre a violação da separação dos poderes judicial e executivo.
O outro pressuposto é simplesmente o da igualdade.
Onde está a carga policial, a crítica política ou a aplicação musculada da lei quando a extrema-direita incorre em ilegalidades como a invasão de rádios, manifestações do grupúsculo 1143 ou simulações de assaltos?
Essa duplicidade de critérios assenta na polícia como ferramenta para reprimir protestos resultantes do colapso económico. Thatcher fê-lo frequentemente para impedir as greves dos mineiros precisamente no momento em que o neoliberalismo se começava a apoderar dos mecanismos democráticos, acelerando a sua necrose.
Essa cooptação das instituições, primeiro via promiscuidade económica, e depois asfixia, começa agora a ter inegáveis efeitos no nosso quotidiano individual, não apenas de forma puramente económica, mas na forma como isso impacta as relações de poder.
A crise da habitação é apenas a face mais visível do estado natural de crise variável do metacapitalismo, com vários outros picos simultâneos, como o custo de vida, a falência do SNS e do ensino, e esse carácter multifactorial eleva-a de crise para um ataque com várias frentes.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver
Se em 2008 a descodificação da situação era bastante mais clara, podendo resumir-se o problema ao resgate dos bancos associado à degradação das nossas condições de vida, agora o catálogo de bodes expiatórios permite ao Governo desviar o foco da estrutura para a conjuntura, culpando populistas como Trump e as suas réplicas e as guerras, remetendo-se para uma posição de incapacidade.
O ridículo desta emergência é estarmos reduzidos ao grau zero das exigências a uma democracia esvaziada orientada no sentido ascendente, funcionando como facilitadora e porta giratória para o mundo corporativo. A crescente e permanente ausência de Estado, sobretudo nas zonas periféricas, em situações de calamidade como a do comboio de tempestades ou na simples gestão da tríade saúde/educação/habitação, demonstra como as instituições públicas nos defendem apenas quando coagidas, mas sobretudo como a nossa capacidade de organização para lá das suas fronteiras as pode substituir com mais sucesso e celeridade.
A confirmação inequívoca da real ameaça ao poder político que o poder popular constitui é a mudança do discurso de Pedro Duarte e de Montenegro, trocando ameaças por vontade de negociar.
Nessa negociação reside a armadilha. As cedências serão feitas na exacta medida do necessário para desmobilizar pessoas suficientes para fragilizar os protestos, caracterizando-os novamente como prototerrorismo e estancando o descontentamento dos restos de uma classe média que acredita na sua restauração até à agudização seguinte, continuando a perda de direitos num mundo cujo progresso económico tem sido à custa do retrocesso social.
Não há maior evidência do desequilíbrio da relação de poderes do que na atitude institucional face à ocupação dos espaços públicos por manifestantes a exigir apenas o cumprimento das promessas, não de Abril, mas da democracia liberal, voluntariando-se para reunir os fragmentos desse sonho, reprimindo-os política e policialmente.
Simultaneamente, essas mesmas forças colocam-se voluntariamente na dependência das elites económicas que ocupam ilegal e permanentemente os espaços públicos de acesso às praias em locais como a Comporta e a Arrábida ou na destruição total de Covas do Barroso.
Tudo isto acontece num cenário rentista, extractivo, onde as gerações mais novas vivem pior do que os seus pais, apesar do alardear constante da boa saúde da economia, sem qualquer tradução nas nossas vidas, as dos seus deserdados.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver.
Desde a contra-revolução islâmica contra a verdadeira revolução de 1979, parte da esquerda nacional e internacional passou a subordinar a análise de classe e género à sua interpretação unilateral do anti-imperialismo. Os protestos das mulheres contra o uso obrigatório do véu, por exemplo, foram marginalizados, contribuindo inadvertidamente para a consolidação da ordem religiosa e patriarcal, que passou a ser apresentada como garantia de “autenticidade cultural”, sinal distintivo em relação ao Ocidente e marcador de independência nacional. Foi tomando forma uma narrativa dominante que vê a Revolução Iraniana exclusivamente pelo prisma anti-ocidental, assim apagando as forças laicas, feministas, queer, curdas, socialistas e outras forças progressistas. Esta ideologia é estruturalmente incapaz de reconhecer a legitimidade de lutas internas em Estados anti-ocidentais. Povos não ocidentais são reconhecidos unicamente como objecto do imperialismo ocidental; a experiência vivida, a memória colectiva e as subjectividades políticas de grupos subalternos — mulheres/comunidades queer, minorias étnicas e as classes populares — são sistematicamente depreciadas como distracções insignificantes ou invenções do Ocidente.
Após o colapso da URSS, em 1991, esta orientação subsistiu na forma de um terceiro-mundismo estatista: transferiu-se a lealdade às populações para a lealdade a Estados “anti-americanos”, subordinando-se os direitos das mulheres, das pessoas queer e das minorias à “unidade anti-imperialista”. Esta perspectiva, simultaneamente eurocêntrica e orientalista, ignora a subjectividade dos povos não ocidentais. Só leva a sério a violência que emana do campo dos EUA e recusa-se a reconhecer que as populações do Sul Global possam lutar genuinamente por direitos e liberdades democráticos.
A “unidade anti-colonial” transforma-se assim em autoritarismo nacionalista. E aceita a lógica de um “estado de emergência” aparentemente permanente: dá-se prioridade ao poder do Estado, à segurança e à influência geopolítica (por exemplo: “Lutamos na Síria para não termos de lutar em Teerão”).
O campismo transforma a memória anticolonial num instrumento de legitimação de Estados pós-coloniais autoritários. Faz do Estado o agente da resistência e priva os povos tanto da sua legitimidade como da sua subjectividade política. Trai, deste modo, memórias subalternas que tantas vezes se constituíram contra o próprio Estado. Paradoxalmente, Estados como o Irão são apresentados como “independentes do capitalismo global”, quando eles não deixam de ser máquinas de exploração interna e de militarismo, exactamente preocupadas em integrar-se no capitalismo global e em competir com outros Estados nesse palco.
É exactamente na sua relação com as margens colonizadas do Irão que esta lógica revela com máxima clareza a sua violência. O campismo não se limita a apagar a pluralidade das forças de oposição iranianas. Enraizado numa concepção quase colonial e securitária da soberania e das fronteiras, reproduz também hierarquias internas, relegando para segundo plano ou mesmo desqualificando as lutas étnicas curdas e de outros povos não persas. A este respeito, desde a jihad de 1980 contra o Curdistão até aos mais de 100 ataques recentes a partidos curdos iranianos exilados no Curdistão iraquiano durante a guerra, os campistas têm-se amiúde mostrado ainda mais hostis aos curdos do que o próprio governo iraniano, minimizando ou marginalizando a legitimidade da sua resistência.
Estas violências fazem parte de uma história mais antiga, agravada pelo apoio activo — ou pelo silêncio — de alguns actores do mundo árabe e de alguns segmentos da esquerda. O genocídio de Al-Anfal, levado a cabo por Saddam Hussein durante a Guerra Irão-Iraque, que custou a vida a cerca de 180 mil curdos simplesmente por causa da sua identidade, ilustra esta dinâmica. Ao trauma da repressão assassina acrescentou-se o apoio de parte do mundo árabe e a negação do genocídio por parte de intelectuais.
Mais recentemente, em 2018, a ocupação de Afrin, no Rojava, pelo Exército turco foi acompanhada de violência, expulsão e destruição sistemáticas. Em resposta, o chefe do Hamas, Khaled Mashaal, afirmou: “A vitória em Afrin é um símbolo da vontade da Turquia. Se Deus quiser, apresentaremos grandes epopeias em ajuda ao nosso povo”, antes de passar a elogiar a direcção do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan e do seu partido, o Partido da Justiça e Desenvolvimento, no poder há mais de vinte anos.
Estes acontecimentos produziram, infelizmente, uma ruptura duradoura nos laços entre as lutas curdas e as do mundo árabe ou persa, bem como com certas partes da autoproclamada esquerda anti-imperialista, que tantas vezes evitou reconhecer e apoiar a luta curda.
Instrumentalização estatal das sanções ocidentais
A recente guerra contra o Irão não apareceu de repente; foi longamente preparada por um regime de sanções que funciona como uma tecnologia imperial de produção de vulnerabilidade social, como já se tinha demonstrado no Iraque. As sanções não se limitaram a empobrecer a população, alimentar a inflação, corroer os cuidados de saúde e o emprego e enfraquecer as capacidades colectivas de resistência; ajudaram, também, a gerar condições favoráveis para a escalada militar. Confinando o país a uma economia eternamente sitiada, normalizaram o estado de excepção, consolidaram os aparelhos rentistas e securitários do Estado e passaram os custos da crise para cima das classes populares. Ao fazê-lo, prepararam o terreno tanto material como ideológico para a guerra: uma sociedade exausta, fragmentada e reduzida à luta pela sobrevivência fica mais exposta a projectos de militarização externos. As sanções mostram, assim, o que realmente são: não uma alternativa à guerra, mas uma das suas formas preparatórias.
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No entanto, se bem que reais e devastadoras, as sanções não são, por si só, responsáveis pelas condições de vida indignas num país rico em recursos como o Irão. Contra as leituras “campistas” que reduzem todas as formas de desigualdade social no Irão às sanções ocidentais, a análise também deve enfrentar a economia política do próprio Irão: uma ordem capitalista marcada por uma privatização dura, precariedade laboral generalizada — a informação disponível indica que mais de 90 por cento dos contratos são temporários — e um regime de dominação e privação organizado internamente, sustentado em parte na exploração extrema e na expropriação de trabalhadores racializados e indocumentados, especialmente afegãos e baloches. Para os campistas, os protestos populares no Irão são interpretados como descontentamento económico, causado inteiramente pelas sanções, obscurecendo, assim, o papel central das políticas do próprio Estado. Uma consequência desta lógica campista é que, ao minimizar a dinâmica real da oposição interna à República Islâmica, ela estabelece uma falsa equivalência, assente na transviada noção de que tal “descontentamento económico” está em consonância com o projecto reaccionário pahlavista de mudança de regime por cima. Ao contrário do que afirmam os campistas, opor-se à mudança pró-imperialista de regime não passa por rejeitar ou deslegitimar a revolta interna contra a República Islâmica.
Não se pode atribuir a pobreza generalizada no Irão unicamente às sanções; ela mergulha igualmente raízes numa economia política rentista e na monopolização das importações, ambas instrumentalizadas pela República Islâmica. As suas políticas de segurança e regionais não são simplesmente reacções à pressão externa. Pelo contrário: tais políticas são parte integrante da lógica de sobrevivência do Estado, canalizando recursos para instituições coercivas e projectos ideológico-militares, enquanto a população fica exausta e empobrecida. Como argumenta Kayhan Valadbaigi, as sanções ajudam a intensificar a concentração de riqueza na oligarquia, consolidando as estruturas de poder. Passam os custos para cima dos mais vulneráveis, justificam a repressão e enriquecem ainda mais a oligarquia. As políticas de choque económico — flutuações para o dólar, eliminação da taxa de câmbio preferencial — apresentam-se como medidas calculadas de “sobrevivência” num contexto de vulnerabilidade.
Além disso, os campistas apagam a violência da República Islâmica contra o povo. Assassinatos, tortura, execuções, disparos sobre feridos em hospitais e ataques a cerimónias fúnebres são ignorados ou negados e, assim, legitimados. Apoiando uma teocracia autoritária e anti-imperialista, esvazia-se a linguagem da emancipação de todo o conteúdo real.
Deixem de julgar uma causa pela forma como é instrumentalizada
A propagação do campismo autoritário faz-se em grande parte pelas redes sociais. Aí, a legitimação de Estados autoritários entrelaça-se com um anti-ocidentalismo redutor e, em alguns casos, com anti-semitismo e padrões de pensamento conspirativos.
Apesar das assimetrias objectivas entre Israel (apoiado pelo Ocidente) e a República Islâmica (sob sanções ocidentais), mecanismos políticos e simbólicos semelhantes operam para ambos: bandeiras dos EUA e de Israel em certos comícios “pró-Irão”; bandeiras do Estado iraniano (ou da República Islâmica) e retratos de Ali Khamenei em algumas mobilizações pró-palestinianas. Todos estes gestos são susceptíveis de transformação de lutas legítimas em justificações para a violência, ao mesmo tempo que desacreditam tanto a resistência iraniana como a palestiniana. A mesma lógica se aplica à agora famosa palavra de ordem “Mulher, Vida, Liberdade” (Jin, Jiyan, Azadî). Apropriada pela extrema-direita ocidental, pela extrema-direita iraniana na diáspora e por correntes pró-genocídio, tem sido instrumentalizada para apoiar a violência militarizada.
Esta lógica não é específica ao Irão. Como David Brophy argumentou em relação ao Xinjiang, há partes da esquerda internacional que têm tratado a repressão dos uigures e de outros povos muçulmanos menos como uma questão de direitos nacionais e violência estatal do que como um problema de propaganda, financiamento ou manipulação geopolítica ocidental; no caso de Vijay Prashad e Tings Chak, esta postura desculpabilizadora chegou ao ponto de se basear em fontes fabricadas, aparentemente geradas por IA. Mas a instrumentalização cínica dos direitos humanos pelos Estados ocidentais não torna menos real o sofrimento a que tal linguagem se reporta.
Sabemos perfeitamente como movimentos progressistas e radicais do Sul Global muitas vezes acabam apropriados pela direita, uma vez divulgados no Ocidente. Mas esse processo não nos pode fazer abandonar o dever de solidariedade. O caso do movimento queer ilustra-o bem: o “branqueamento cor-de-rosa” por Estados como Israel não anula nem a força emancipatória da queerness nem a necessidade de solidariedade com queers que enfrentem repressão seja em que contexto for. A legitimidade de uma resistência depende unicamente do seu conteúdo emancipatório e da sua implantação entre os oprimidos, nunca da sua apropriação.
O campismo contribui de formas muito concretas para a perpetuação de injustiças históricas e contemporâneas. Pela dispersão e fragmentação cria um vácuo político, que é gradualmente preenchido pela direita e pela extrema-direita, tanto na região como em todo o mundo. A extrema-direita iraniana na diáspora ocupa este vácuo, simplificando a revolução e diabolizando o “anti-imperialismo”. Pode, deste modo, apresentar-se como única força de mudança. Homogeneizando artificialmente populações inteiras (“Todos os ucranianos que resistem à Rússia são nazis.” “Todos os revolucionários sírios são jihadistas.” “Todos os iranianos que se revoltam apoiam Israel ou os monárquicos.”), o campismo torna-se cúmplice da ascensão das forças imperialistas e reacionárias.
A extrema-direita é extrema-direita em toda a parte
Na Europa, nenhuma esquerda coerente aceitaria aliar-se às bandeiras da extrema-direita com o argumento de que uma potência inimiga estava a atacar o país. No entanto, para o Irão, alguns consideram aceitável exigir que os Iranianos se apaguem e alinhem atrás de forças reaccionárias, nacionalistas, fanáticas e até fascizantes. Implícito em tal assimetria está, na prática, que os povos do Sul Global devam contentar-se com uma escolha entre dominação imperial e barbárie interna. Ora, precisamente, a República Islâmica é um Estado que deve ser chamado pelo que é: uma formação fascizante, uma extrema-direita não ocidental, especialmente no que diz respeito a minorias étnico-nacionais e aos imigrantes afegãos.
Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte.
A recente declaração “antiguerra” sobre o Irão expõe o impasse político do “campismo”: um discurso antiguerra que permite que certos segmentos da esquerda convirjam com meios fascistas, anti-semitas, neonazis e conspiracionistas. A declaração reúne signatários de meios políticos aparentemente opostos: por um lado, figuras anti-guerra campistas “descolonizadoras”, como Vijay Prashad, Sandew Hira, Ramón Grosfoguel, Boaventura de Sousa Santos, Munyaradzi Mushonga, Ajamu Baraka, Nordine Saïdi e Paulina Aroch Fugellie; e, por outro, uma série de figuras — incluindo Dieudonné, Alain de Benoist, Thomas Werlet, Jean-Michel Vernochet, Christian Bouchet, Marion Sigaut, Jacob Cohen, Pierre-Antoine Plaquevent e Arnaud Develay —, bem como organizações como a RN, Égalité & Réconciliation, L’Œuvre française e o Mouvement France Résistance, todas associadas a correntes conservadoras, de extrema-direita, nacionalistas ou fascistas. Esta justaposição ilustra como uma forma puramente geopolítica de anti-imperialismo se pode tornar compatível com a política de extrema-direita. Neste contexto, o regime iraniano e o seu criminoso chefe supremo, Ali Khamenei, ressurgem nas vestes de “voz contra a arrogância e o terrorismo”, enquanto, sob a bandeira da política anti-guerra, se normaliza uma tolerância profundamente preocupante para com a violência dos Estados pós-coloniais contra as suas próprias populações.
A coerência política exige recusar, tanto para os Iranianos como para qualquer outro povo, qualquer instância de acomodação do fascismo em nome de um “mal menor” geopolítico. Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte. Assim como não marchamos com os fascistas, nem debaixo das bandeiras deles: lutamos contra eles, mesmo quando eles se apropriam do vocabulário da liberdade para lhe inverter o significado.
Identicamente ao estalinismo, que tanto contribuiu para desacreditar o socialismo, o “campismo” no Irão enfraquece a esquerda e fortalece a extrema-direita. Aprofunda, enquanto isso, a divisão Norte-Sul e legitima a repressão de movimentos anti-tirania no Sul. O resultado é o isolamento das forças emancipatórias, a desconfiança dos exilados para com a esquerda, no Norte (incluindo as correntes da descolonização) e o colapso da solidariedade internacional.
O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.
As prisioneiras feministas curdas condenadas à morte na prisão de Evin são capazes de manifestar a sua solidariedade com a resistência palestiniana — mesmo correndo o risco de perder parte do seu apoio no Irão. Já os anti-imperialistas autoritários e identitários se mostram, instalados no conforto do Ocidente ou de outro sítio, incapazes de demonstrar solidariedade comparável com as lutas populares no Irão. Chegam, o que é ainda mais grave, a negar ou duvidar da verdadeira dimensão do sofrimento.
É urgente deixar o “campismo” para trás. Caso contrário, não se conseguirá reconstruir uma esquerda genuinamente emancipatória nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular, como tentam fazer redes como a Peoples Want. O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.
1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.
A intervenção policial no Porto e em Lisboa na noite de 24 para 25 de outubro para desmobilizar as manifestações contra a crise habitacional foi mais um capítulo do uso do aparelho coercivo do Estado em benefício de uma classe exploradora e rentista.
Politicamente morto, o ministro Luís Neves é a representação do que de mais podre existe neste sistema: alguémque se serviu durante anos da sua posição no poder estatal para beneficiar economicamente e que encabeça agora uma operação violentíssima e desproporcional contra manifestações pacíficas. Fá-lo como prova de vida e para rogar o perdão do Chega, que contra ele fez obsessiva campanha durante todo o verão, para agora se deixar seduzir pela sua ação autoritária.
Esta deriva não devia ser surpresa. A elite económico-financeira defende à bastonada os seus interesses, a história demonstra-o. Neste caso, essa elite está não só a influenciar a cúpula governativa, como está ela mesma lá instalada: veja-se o património imobiliário daqueles que nos pedem mais sacrifícios ou para largarmos o “egoísmo”.
Não se agride só a luta pela habitação e as garantias constitucionais que nos restam, mas a experiência verdadeiramente democrática das assembleias populares que, em pequena escala, envolve politicamente as novas gerações, ao contrário do sistema farsante desta república oligárquica. Quando convidado para discursar nas comemorações do 10 de junho de 2019, o inenarrável João Miguel Tavares, passista amargurado e representante da miséria moral e intelectual do “comentariado” mediático, clamou poeticamente à classe política: “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Agora que os jovens acreditam na construção de uma alternativa ao Estado económico e social que nos sufoca, é o mesmo pobre Tavares que, paradoxal mas significativamente, se levanta, não contra a emergência habitacional, mas contra as acampadas e as ideias “comunistas” que lá detetou.
A passividade de António José Seguro perante um dos mais visíveis atropelos às liberdades civis desde abril de 1974 é também um lembrete para os que encostam a esquerda à ditadura do voto útil e do mal menor. Abdicamos da construção de alternativas políticas em nome da defesa da democracia… e levamos bastonadas.
A revolta deve traduzir-se em formulação política. Não queremos defender o statu quo das sádicas alterações ao NRAU aprovadas recentemente pela direita. Queremos que o statu quo seja radicalmente transformado. Urge controlar as rendas e a compra do nosso parque habitacional por investidores e fundos especulativos estrangeiros (e nacionais) e a ampliação da habitação pública, por via de mais construção, recuperação e expropriação de imóveis sem utilidade social.
Apresentemos propostas, pautemos o debate, construamos uma alternativa que conquiste a maioria social.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome masculino que designa 1) conversa entre duas ou mais pessoas; 2) troca de ideias ou opiniões com o propósito de chegar a um entendimento; 3) Em literatura, teatro, televisão, cinema: conjunto das falas ou réplicas ditas em discurso direto pelas personagens de uma obra.
EM NOVILÍNGUA:
Doze longos dias depois de a polícia de choque ter dialogado com os manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I, no Porto, com argumentos contundentes, que deixaram dezenas de feridos, o PR António José Seguro finalmente decidiu expressar algumas ideias, quem sabe talvez mesmo uma opinião, afirmando que “a cultura portuguesa é de diálogo, não é de violência nem de confronto”. Mas logo acrescentou, sem nunca condenar a atuação policial, que “para exercermos a liberdade, temos de nos respeitar todos e, para nos respeitarmos todos, temos de cumprir a lei”. Ora a lei, e acima dela a Constituição, já o esclareceram dezenas de juristas, está do lado dos manifestantes, não da polícia. Atrás de quem se esconde outro “desaparecido”, o PM Luís Montenegro, que lá afirmou que "o Governo está sempre disponível para dialogar". O diálogo, ora aí está. Diálogo em que o porta-voz de PM e PR é a polícia: os manifestantes falam de habitação, a polícia responde com o bastão. ASP
A Frente Sindical pela Defesa do Trabalho (FSDT) decretou uma greve geral de 72 horas entre 21 e 23 de outubro. Os sindicatos reclamam a redução do custo de vida, melhoria das condições de trabalho, proteção social e maior respeito pelos direitos dos trabalhadores. As reivindicações incluem ainda a reintegração dos trabalhadores despedidos, o respeito pela liberdade sindical e pelos direitos dos trabalhadores. Fonte: La Tribune des Travailleurs, 28 de outubro de 2026.
O termo mockumentary designa um género de cinema, ou televisão, que apresenta aos espetadores elementos ficcionais no formato de documentário, essencialmente como forma de satirizar uma situação concreta, ou o formato documental em si mesmo.
Ainda que o termo venha dos anos 60 do século XX, foi popularizado por Rob Reiner, a partir do seu notável This is Spinal Tap, notável mockumentary acerca de uma banda rock britânica ficcional, em tournée pelos Estados Unidos. O filme, de 1984, satirizava alguns documentários da época (The Song Remains the Same, dos Led Zeppellin, por exemplo) e foi um grande sucesso para um realizador estreante, que depois veio a ser um dos grandes nomes do cinema americano.
A Hard Day’s Night (Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso, no título português), de Richard Lester, com os Beatles, realizado em 1964, é visto como um dos primeiros exemplos do estilo, que se desenvolveu sobretudo a partir do momento em que os arquivos de cinema e televisão passaram a estar mais disponíveis e a ser mais fáceis de consultar e de utilizar, permitindo a manipulação de imagens originalmente colhidas com propósitos totalmente diferentes.
Seria uma questão de tempo até que a televisão utilizasse o conceito, e duas das mais bem-sucedidas séries americanas de comédia assumiram o formato: “Uma Família Muito Moderna” e “The Office” (esta última, a partir de um original britânico).
Um dos nomes consagrados do cinema americano, que é incontornável quando o tema é o mockumentary, é Woody Allen. Nascido Allan Stewart Konigsberg, escrevia para televisão há já quase 15 anos quando assinou o seu primeiro argumento cinematográfico: What's New Pussycat (1965), realizado por Clive Donner. A sua carreira prosseguiu, com dezenas de realizações de diferentes filmes e a escrita de argumentos originais, de forma muito bem-sucedida, não isenta de polémicas, como as motivadas essencialmente por factos da sua vida pessoal.
Seguiu-se uma série de filmes de cariz significativamente diferente, onde Woody Allen se foi aproximando do melodrama, tendo chegado perto do que teria sido o trabalho de Ingmar Bergman, se alguma vez o realizador sueco tivesse trabalhado na América (sobretudo Stardust Memories, de 1980). The Serpent’s Egg (O Ovo da Serpente, em Portugal), que Bergman fez na América em 1977, por ser um elemento atípico na sua filmografia, não invalida o argumento.
Até que, em 1983, Woody Allen nos apresentou Zelig, a quinta essência do que é o mockumentary.
Leonard Zelig é um personagem que acompanhamos a partir dos anos 20 do século XX. Dos Roaring Twenties até ao início da Segunda Guerra Mundial. Podemos acompanhar o ambiente da América desses denominados anos loucos da década de 20, a que se seguiu a Grande Depressão, e depois a guerra. E, a par de um exercício de pura nostalgia, partimos de uma premissa cómica muito pouco comum, a saber: Zelig tem a capacidade de se adaptar, de forma total, ao meio em que se insere. Mais do que alguém com empatia ou mera capacidade de adaptação intelectual, ele assume as características físicas e psicológicas das pessoas que estão à sua volta. Muda de padrões de discurso, de características físicas (até de raça), chegando a engordar ou a fazer crescer apêndices capilares, se isso contribuir para se confundir com o grupo onde estiver inserido.
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Podemos interpretar esta premissa – a de adaptar literalmente o seu físico e comportamento psicológico do “outro”, moldando-se como cópia – como sendo o de levar, ainda mais longe as premissas do livro O Homem sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. A outro nível, conhecemos a mesma premissa aplicada à análise da personalidade de atores célebres. Existe um episódio dos Marretas com Peter Sellers em que o ator confessa que não tem uma personalidade que seja própria, evoluindo de acordo com as personagens que interpreta, assim como, mais recentemente, tivemos Jim Carrey a encarnar quase literalmente, se possível, Andy Kaufman, no Man on the Moon (Homem na Lua, no título português), de Milos Forman.
Leonard Zelig, uma vez conhecida a sua capacidade excecional, é rapidamente descrito como “o camaleão humano”, e começa a ser tratado como uma atração digna de um freak show (termo que é injustamente traduzido para português como circo de horrores). E rapidamente nos é mostrada a razão de ser desta anomalia: Zelig tem apenas uma profunda necessidade de ser amado e, para isso, de não sobressair de modo errado. Imita o outro para ser aceite. Chegamos a conhecer as condições em que a personagem cresceu, e as vivências que foi atravessando. A vida na América no início do século XX implicava fortes pressões de assimilação cultural e, particularmente relevante para um jovem judeu, de forte antissemitismo. A anulação do “eu” surge como um mecanismo de sobrevivência psicológica para a personagem, que desenvolve assim uma condição (clínica), mais do que um superpoder.
Muitas sequências do filme são particularmente bem conseguidas, exatamente em momentos em que Zelig partilha o ecrã com variadas personalidades relevantes daquela época, lado a lado, mas invisível aos outros, no culminar da sua necessidade de se dar com toda a gente, com efeitos comparáveis ao que muitos anos mais tarde vimos em Forrest Gump, pela mão de Robert Zemeckis.
Usando as melhores técnicas do mockumentary, Woody Allen vai acompanhando as imagens da época com comentários proferidos por personalidades reais e notórias, que dão uma maior credibilidade à ficção que nos é apresentada. Podemos encontrar vários vultos da intelectualidade nova-iorquina da altura em que o filme foi feito, como Susan Sontag, Saul Bellow ou Bruno Bettelheim.
O enredo, que como seria de esperar não é assim tão complexo, acaba com um final feliz, com a psiquiatra que acompanhava Zelig, e que por ele se interessou, a acabar por desenvolver por ele sentimentos de outra natureza (sentimentos retribuídos também por Zelig, claro!), e essa ligação amorosa (ligação pessoal) acaba por fazer desaparecer a anomalia que o tornava o (tal) “camaleão humano”.
Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço.
Uma questão que se poderá sempre colocar a propósito da criação artística é a de saber o que moveu o autor, desde o primeiro momento. Será sempre possível perguntar se existiu alguma motivação específica para o autor ter desenvolvido este projeto e não outro qualquer. As eventuais referências culturais a que já fiz referência terão um propósito de enquadramento na história que está a ser contada. Mas, afinal, o que terá motivado Woody Allen a criar um personagem como Zelig?
Um dos maiores cineastas da história, ele próprio um cómico de exceção, Charlie Chaplin fez refletir em certas obras algumas das situações que foi enfrentando na sua vida pessoal. A sua vida sentimental acidentada, com vários divórcios problemáticos, gerou o filme Monsieur Verdoux (O Barba Azul, em Portugal). Anos mais tarde, a perseguição política a que foi sujeito pelo governo dos EUA serviu de inspiração ao filme A King in New York (em Portugal, Um Rei em Nova Iorque).
A verdade é que todos nos cruzámos com pessoas com características parecidas com este Zelig. Todos nós já encontrámos ou lidámos com pessoas que são como esta personagem. Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço. Cada pessoa que encontramos que diga que ainda está à procura de si próprio é possível que seja alguém que tem vindo a deixar um rasto de personagens que foi copiando e que, depois de não serem necessários, são deixados para trás, como uma cobra que abandona uma pele antiga. Por vezes também fazem vítimas, deixando cadáveres no seu caminho. E copiam outros para serem aceites, validados, terem uma vida.
Zelig é, por isso, um grande filme de Woody Allen, injustamente esquecido quando falamos da sua filmografia. Mas é pena.
Escrevo na madrugada as últimas palavras deste livro: e tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se reconstrói e continua.
Acordam pouco a pouco os construtores terrenos, gente que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável, crianças que passam ao ar livre gargalhando. Como um rio lento e irrevogável, a humanidade está na rua.
E a harmonia, que se desprende dos seus olhos densos ao encontro da luz, parece de repente uma ave de fogo.
Carlos de Oliveira
«Quando a harmonia chega»
Terra de Harmonia, in Trabalho Poético
Livraria Sá da Costa Editora, 1998.
Contra as expectativas do PT e até mesmo das sondagens, Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta das presidenciais brasileiras com 2,2 milhões de votos de vantagem. A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro na segunda volta parecia inevitável. Não o foi porquê?
Contra as expectativas do PT e até mesmo das pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 2,2 milhões de votos à frente. Seu campo também elegeu os governadores do Sudeste e do Sul do país, alcançando 11 governadores no primeiro turno, que governarão 63% da população (e 16 governadores, com 71% da população, após o segundo turno), e avançou fortemente no Senado e na Câmara. Consagrou, assim, um lastro político que, diferentemente das condições de seu pai, permitiria à sua base de apoio avançar na implementação não apenas de um governo de cariz fascista, mas de um regime fascista, visto que controlaria também o Supremo Tribunal Federal.
A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro repercutiu de modo profundo em todo o campo progressista. Silêncio, medo e perplexidade anunciavam um quadro de derrota antecipada. Nem os partidos nem a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e as demais centrais sindicais convocaram uma grande vaga de lutas, com a realização de plenárias populares antifascistas. Como superar uma vantagem estimada em 11 milhões de votos? Como proteger a militância e os movimentos populares da turba neofascista?
Centenas de milhares de ativistas sociais dimensionaram o significado prático de um governo ligado às grandes organizações criminosas, entre elas as chamadas milícias, que colocaria o Brasil no Escudo das Américas e radicalizaria a austeridade neoliberal extrema sobre os direitos sociais, como faz Milei. Indicadores da Comissão Pastoral da Terra registram 136 assassinatos de indígenas, quilombolas1 e trabalhadores do campo durante o governo de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro destinou recursos a Peixe, miliciano condenado no caso Marielle Franco2. Assim, movimentos indígenas e contra as mineradoras, torcidas antifascistas, estudantes, movimentos negros, de mulheres e da diversidade, sindicatos, entidades científicas e entidades profissionais foram se somando às manifestações.
Diante da iminente derrota de Lula da Silva no segundo turno, a irrupção de iniciativas autoconvocadas e livres das amarras burocráticas foi decisiva para a reversão do quadro negativo do primeiro turno, conferindo ao segundo turno um inédito caráter de massa e popular não cogitado pela burocracia do PT. Este artigo discute algumas tendências advindas dessa irrupção e defende a importância da reaglutinação de arcos de forças que pratiquem a autonomia diante do novo mandato do atual presidente.
Da derrota de 4 de outubro…
As mobilizações das juventudes, relativamente síncronas e espalhadas pelo mundo, que forjam a cena das lutas populares de 2026, dão visibilidade a novos sujeitos, agendas, métodos e formas de organização capazes de catalisar mudanças na correlação de forças de seus respectivos países e na conjuntura mundial. No seio da geração Z, mas não somente nela, estão se conformando novos sujeitos coletivos nas lutas populares mundiais. No caso brasileiro, as recentes manifestações foram as maiores do século e alcançaram o pico de 2 milhões de pessoas às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro. São perceptíveis a abertura a pautas3 mais amplas das classes trabalhadoras e a maior autonomia diante dos partidos oriundos da esquerda, enrijecidos pelo ciclo vicioso da burocratização e pela assimilação da austeridade como uma segunda natureza. O descolamento entre os movimentos que emergem e as práticas burocráticas desses partidos é acentuado pelo facto de que, quando assumem o governo, eles tratam assuntos públicos como habitação, transporte, educação, ciência, saúde e previdência como esferas a serem dirigidas pela tecnocracia. A despolitização dessas dimensões da vida social pavimenta o avanço das extremas-direitas.
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O Partido dos Trabalhadores (PT) também vive essa realidade de burocratização e de incorporação profunda dos preceitos da austeridade. O enfrentamento eleitoral com a extrema-direita mostrou-se mais árido do que a estratégia da campanha de Lula havia previsto para o primeiro turno das eleições nacionais. O governo estadunidense, com Trump e Rubio à frente, agiu em favor do candidato neofascista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente. A Meta manipulou os algoritmos, censurou as maiores contas favoráveis a Lula e postergou decisões judiciais, enquanto as igrejas pentecostais e neopentecostais acionavam seus fiéis. É importante lembrar que, até o final do primeiro turno, mesmo temas de forte impacto para as classes trabalhadoras, como o fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso)4, não adquiriram real densidade trabalhista na estratégia de campanha. O fim da escala 6x1 foi tratado não como tema axial das relações de trabalho, mas como medida que demonstrava a preocupação social do candidato, especialmente por ampliar o convívio familiar. A dinâmica burocrática e publicitária parecia ignorar o enraizamento popular da extrema-direita de cariz fascista. Por meio de uma robusta rede de igrejas pentecostais e neopentecostais, que somam mais de 300 mil no país, e dos vínculos do candidato com organizações criminosas, sobretudo milícias, como demonstrado por Bruno Paes Manso5, a extrema-direita controla importantes territórios de favelas por meio da violência e do poder económico. Somados o difuso antipetismo e a rede de associações comerciais, de seguranças privadas e de aparelhos privados de hegemonia (APHs)6 diversos, o bolsonarismo assumiu características massivas, ainda que careça de organicidade partidária. Ao mesmo tempo, boa parte dos grandes capitalistas vinculados aos bancos, aos fundos de investimento, às commodities, às big techs, aos grandes meios de comunicação e aos conglomerados de APHs vinha impulsionando o candidato, tratado como legítimo a despeito de suas ligações perigosas.
Ainda assim, a condução da campanha de Lula seguiu nos estreitos trilhos da publicidade impulsionada por grandes somas de recursos, parte delas destinada às big techs, quando era evidente a falta de materiais elementares para o trabalho de campanha corpo a corpo. Não houve real interpelação nem acionamento dos sindicatos e dos movimentos sociais e estudantis. O silêncio abateu-se sobre as universidades públicas, sucateadas por anos de austeridade.
… à vitória de 25 de outubro: milhões nas ruas do Brasil contra o fascismo
As impressionantes manifestações, as maiores do século, embora não sejam um raio em céu azul, como visto nas grandes manifestações de 2013 e 2019, surpreenderam o país. Durante 20 dias, alcançaram mais de cinco milhões de manifestantes em todas as regiões do país, inclusive em cidades de pequeno e médio porte, conforme estimativas muito preliminares.
A exemplo do que ocorreu no primeiro estalido da rebelião estudantil na França, em 2026, no Brasil também foi um acontecimento molecular, realizado pelos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, localizada em Niterói, uma das raras cidades do estado do Rio de Janeiro que deram vitória a Lula no primeiro turno. Na noite de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, estudantes convocados pelo centro académico se reuniram para avaliar a situação e, em dado momento, concluíram que seria inútil aguardar o comando da campanha para retomar a iniciativa política e decidiram que o caminho era ir às ruas. Nas palavras de Virgínia Fontes, os estudantes “romperam o dique das defesas históricas erguidas pelo PT contra grandes mobilizações (ou ao menos pela maioria do PT), temeroso por saber que essas grandes massas populares podem ser incontroláveis e colocar em xeque alianças e compromissos problemáticos para elas”7. Em meio ao desalento, o ato que reuniu alguns milhares de pessoas ganhou enorme repercussão nas redes sociais, como o Instagram, e serviu de centelha para a deflagração das grandes manifestações. No dia 6, outro grande ato convocado pelas entidades estudantis, mas que ultrapassou largamente seu núcleo militante, aconteceu em Pernambuco, na UFPE, universidade que vinha sendo ameaçada pela extrema-direita e que, dias depois, foi atingida por um incêndio, cujas causas ainda estão sendo apuradas. Nesse mesmo dia, fandoms, como o perfil Taylor Swift Brasil, os fãs de Anitta e outros fã-clubes assinaram um manifesto conjunto convocando seus adeptos a lutar contra o fascismo e a buscar os votos dos mais de 33 milhões de abstencionistas do 1º turno. É importante destacar que esses coletivos, os fandoms, não compõem a organização tradicional das esquerdas estudantis, como os diretórios estudantis, por exemplo, embora parte de seus membros possua relação com partidos e outros coletivos. No dia 8, no Rio de Janeiro, aconteceu a marcha “Juventude na Rua pela Democracia” com forte participação de estudantes secundaristas, reunindo mais de 50 mil estudantes que ecoaram palavras de ordem diretamente antifascistas, contra Bolsonaro e, no caso, em defesa da eleição de Lula. Já nessa marcha, embora não como força convocante, o PT se somou às manifestações que reacenderam a agência das militâncias.
A sucessão de grandes manifestações em Belo Horizonte, Curitiba, Bahia, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, todas gigantescas, as tornou um espaço político para acolher milhares de militantes de outros movimentos que desejavam tomar a campanha nas próprias mãos. No dia 9, centrais sindicais saíram às ruas em luta pelo fim da jornada 6x1, afinal aprovado em 14 de outubro em virtude de amplo apoio popular. No dia 11, em São Paulo, ocorreu a maior manifestação até então realizada, com aproximadamente um milhão de pessoas, convocada de forma independente por movimentos sociais, pelo movimento estudantil e por torcidas organizadas do Palmeiras e do Corinthians e também por entidades que realizam a Marcha LGBT em São Paulo. A manifestação, da qual Lula participou, foi assumida como parte da campanha. As manifestações assinalam o propósito de conexão com as lutas sindicais e do conjunto dos trabalhadores. O tom é o antifascismo. E o intento é dialogar com os 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e com os idosos, assim como virar votos nas franjas da direita. Essas manifestações culminaram no maior ato da campanha, convocado pelo candidato do PT no dia 24 de outubro, com cerca de 2 milhões de pessoas.
Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc.
Para entender o alcance das convocatórias estudantis, que foram se amalgamando à campanha de Lula, é preciso considerar o peso do chamado Exército de Lula, liderado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG), que alcançou mais de 10,5 milhões de pessoas no WhatsApp e que logrou alterar a performance dos algoritmos da Meta com postagens simples, síncronas e massivas. Em poucos minutos, milhões de pessoas foram convocadas para as tarefas do dia, como, por exemplo, aumentar a visibilidade do fim da jornada 6x1, conter as fakenews, sem propagá-las. As redes deixaram de ser monopólio da extrema-direita.
No segundo turno, Lula ampliou sua votação em 10,3 milhões de votos. A abstenção foi reduzida em cerca de 3 milhões de eleitores, o que possibilitou uma vitória por 4,4 milhões de votos.
Passados dois dias do resultado, Trump, após levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ainda não se pronunciou. Toda a União Europeia, a América Latina (exceto Milei), a China, a Rússia e países da Ásia e da África reconheceram o resultado eleitoral. Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc. Impossível deixar de registrar o protagonismo das mulheres. Nas áreas populares, elas afirmaram sua rejeição ao bolsonarismo mesmo quando pastores orientavam o voto em seu candidato. Se a burocracia partidária e sindical tivesse prevalecido, nada disso teria ocorrido. Agora, é preciso extrair as aprendizagens, organizar e assegurar organicidade aos movimentos que resistiram ao avanço fascista. Todas essas mobilizações não podem ser desarticuladas em virtude da vitória eleitoral. E haverá forças que desincentivarão a auto-organização popular. Os partidos e mandatos da esquerda precisam estar vinculados aos movimentos que forjaram essa batalha. É preciso resgatar a prática de prosear8 quotidianamente com o povo. Em resumo, esses vibrantes 20 dias de lutas podem permitir retomar a perspectiva de frente dos trabalhadores como força autónoma para impedir o avanço do neofascismo, unindo-se a outras frações de classe antifascistas (marchar separados, golpear juntos). A estratégia frente dos trabalhadores é condição necessária para enfrentar a austeridade, que é, afinal, a incubadora das novas extremas-direitas no século XXI, e também por poder se consolidar como espaço de formação contra as barbáries que marcam os tempos atuais.
1 Descendentes de africanos escravizados que fugiram de fazendas, engenhos e senzalas durante o período colonial e imperial do Brasil, formando comunidades de resistência chamadas quilombos (NR)
2 PIRES, Breno. “Nosso senador”: Flávio Bolsonaro mandou emenda a miliciano do caso Marielle. Piauí, Rio de Janeiro, 21 set. 2026. Seção Vultos do Rio. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/flavio-bolsonaro-miliciano-peixe/. Acesso em: 27 out. 2026.
3 Temas, reivindicações (Nota da revisão).
4 O fim da escala 6x1 altera a legislação trabalhista, determinando que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal, e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.
5 MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020. MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023. MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Nunes. A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil. São Paulo: Todavia, 2018.
6 O conceito de aparelhos privados de hegenonia baseia-se na teoria do Estado ampliado, de Antonio Gramsci. Refere-se a organizações da sociedade civil (como institutos, fundações e associações empresariais) que, embora formalmente externas ao Estado, atuam na difusão de ideias, valores e consensos alinhados com os interesses do grande capital (NR).
7 Virgínia Fontes. Mantendo o gás. Aprendizados em andamento de uma campanha eleitoral de verdade, quando a política real assume a dianteira e derrota as burocracias e os poderosos.
Raquel Varela conversa com Roberto Leher sobre os fundos financeiros na educação em Portugal e no mundo, e como a digitalização representa a destruição da educação.
A Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência.
ilustração: Ricardo Ferreira
Em 1961, Dwight D. Eisenhower, então ainda presidente dos EUA, proferiu seu famoso discurso de despedida, popularizando o termo ‘complexo industrial-militar’. Nele, Eisenhower alertava para os riscos crescentes de uma larga influência da indústria bélica e corporações privadas no Departamento de Defesa e, assim, na política nacional estadunidense. O termo ganhou crescente relevância para a compreensão geopolítica das dinâmicas entre capital corporativo e Estado, desde suas relações internas, até o estudo dos imbróglios internacionais atrelados à posição imperialista dos EUA — único país com centenas de bases militares ao redor do globo — e suas constantes interferências, diretas ou indiretas, na política nacional de diversos países.
Posteriormente, um novo termo seria frequentemente adicionado à equação: o complexo seria descrito nos termos ‘industrial-militar-académico’, expressando a tríade que organiza pesquisa e desenvolvimento tecnológico e científico atrelado aos interesses políticos, militares e do capital norte-americano, central na disputa internacional por hegemonia. É razoável reconhecer que a centralidade dessa relação na estruturação do poder estadunidense é anterior à própria emergência do termo, especialmente com a intensificação da relação entre os setores promovida pelos processos da II Guerra, que englobam tanto o desenvolvimento das armas nucleares, quanto a emergência das tecnologias digitais como conhecemos hoje. Não é difícil demonstrar, inclusive, como estas são duas facetas fundamentais e intimamente interligadas na dinâmica de domínio militar e político dos EUA desde o pós-guerra.
Com heranças teóricas do século XIX no campo da lógica e da matemática, a criptografia aparece como questão relevante já nas corridas tecnológicas da I Guerra, mas é com a corrida criptográfica em torno da máquina Enigma que irão se estabelecer tanto sua centralidade militar quanto os pressupostos fundamentais da computação moderna (famosamente, por Alan Turing, partindo de grandes contribuições do criptologista polonês Marian Rejewski). A computação torna-se assim de interesse militar logo na primeira metade do século passado, e seu papel no desenvolvimento de armas nucleares (e, posteriormente, na corrida espacial) também será fundamental, através de máquinas desenvolvidas para a automação do cálculo, operadas fundamentalmente por computadores (de facto, em sua maioria computadoras, desígnio de ofício para uma tarefa desempenhada principalmente por mulheres desde as navegações coloniais, pelo cálculo astronómico de rotas marinhas).
O desenvolvimento científico-militar encampado pelo Projeto Manhattan acelerou diretamente o advento dos primeiros computadores eletrónicos digitais, com John von Neumann exercendo papel fundamental. Matemático, físico, engenheiro e cientista da computação, foi dele a ideia de utilizar os problemas hidrodinâmicos e de fissão nuclear para teste dos primeiros códigos lógicos do ENIAC, primeiro dispositivo digital eletroeletrónico de grande escala, substituindo a computação eletromecânica do Harvard Mark I. Von Neumann tornar-se-ia o pai da arquitetura moderna do hardware computacional, utilizada até os dias de hoje. Posteriormente, desenvolveria, em Los Alamos, o MANIAC, voltado principalmente para simulações termonucleares, desenvolvimento armamentista, mas também em pesquisas genéticas, hidrodinâmicas e na física de partículas.
Tudo isso foi possibilitado também graças ao advento da teoria matemática da informação, desenvolvida por Claude Shannon, que apresentaria categorias fundamentais como a unidade fundamental do bit (contração do termo ‘unidade binária’, em inglês), a codificação binária da informática usada até hoje e a chamada teoria da ‘entropia informacional’. Esses desenvolvimentos se deram na época da efervescência cibernética, campo de estudos interdisciplinares que almejavam uma meta-linguagem transversal ao campo das ciências humanas e naturais — com seu início demarcado nas Conferências de Macy (1946-1953). A palavra, derivada do grego Kubernetes, tem raiz etimológica comum à noção de ‘navegação’ e ‘governo’. Com princípios e finalidades definidos por Norbert Wiener nos termos da “comunicação e controle no animal e na máquina”, a cibernética logo despertou o interesse militar nos EUA.
Os integrantes da cibernética, muitos que já frequentavam o então emergente complexo industrial-militar, são historicamente reconhecidos como pioneiros em diversos campos da tecnologia digital contemporânea, como foi o caso dos primeiros modelos teóricos de redes neurais artificiais, proposto por McCulloch e Pitts, ainda em 1943, antecipando um dos paradigmas fundamentais na tradição das inteligências artificiais — o paradigma conexionista, em contraste com o paradigma simbólico, ambos formalizados em 1956, no Darthmouth College. Em 1957, Frank Rosenblatt desenvolve o Perceptron, um modelo cognitivo fundacional na história das IAs conexionistas.
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Na época, quando trabalhava no Laboratório Aeronáutico de Cornell em Buffalo, onde rodou seu programa em um IBM 704, Rosenblatt conseguiu financiamento do ramo de sistemas de informação do Departamento de Pesquisa Naval norte-americano além do Centro de Desenvolvimento Aéreo de Rome (um laboratório voltado para pesquisas em ‘controle, comando e comunicação’) para desenvolver o Perceptron Mark I. O objetivo principal deste aparelho era a automação do reconhecimento de padrões, um dos primeiros sistemas algorítmicos para a aprendizagem de máquinas [machine learning] — termo que seria cunhado por Arthur Samuel em 1959 —, e que tinha como objetivo prático a análise de imagens desde a modelização dos padrões de formas geométricas. Temos os primórdios da corrida militar no campo das IAs que é, hoje, quase 70 anos depois, eixo central na dinâmica da guerra contemporânea.
Durante a segunda metade do século XX, a pesquisa e o mercado das IAs passaram por diferentes “primaveras” e “invernos”. É relevante notar que os desdobramento das tecnologias digitais durante a Guerra Fria também afetaram diretamente a conceituação teórica do pensamento militar. Em meio às tensões da era atómica e da corrida espacial, na chamada “polarização” entre o eixo capitalista e o socialista, o vocabulário militar expandiu a sigla C2[Comando e Controle] para C3I [Comando, Controle, Comunicações e Inteligência] e, finalmente, para C4ISTR[Comando, Controle, Comunicações, Computação, Inteligência, Vigilância, Obtenção de alvos e Reconhecimento], demonstrando cada vez mais a inserção dos imperativos digitais na lógica militar. Essa expansão é concomitante à proliferação da lógica paranóica (mas não delirante) instituída pelas armas de destruição em massa, inauguradas com a própria bomba atómica, impondo uma nova era da dissuasão, além da necessidade de novas tecnologias para controle ostensivo, vigilância e inteligência militar.
A era atómica, como bem analisada por Günther Anders, atualizou de modo radical os impasses geopolíticos, de certo modo antecipando a globalização pela via do negativo bélico — e foi o desenvolvimento e a disputa por hegemonia no campo das tecnologias digitais que veio responder a tais impasses. O acordo de Bretton-Woods, que funcionou como arquitetura do domínio financeiro imperial no pós-guerra, dando vantagens estratégicas para o dólar, possibilitou também o financiamento e avanço das pesquisas científicas nos EUA, dando uma vantagem económica assimétrica ao país, com o custo da violência imperial ao redor do globo. Curiosamente, o final do acordo acontece no mesmo ano em que o primeiro microprocessador é comercializado globalmente, ano que marca tanto um reordenamento da dinâmica financeira (e militar) no capitalismo global, quanto uma nova era da tecnologia digital. Também é o ano de lançamento do mercado de ações em forma eletrónica, com a Nasdaq, marcando o processo de financeirização do capitalismo global.
Nos anos seguintes, com o fim do rastreamento do dólar em ouro, a política internacional militar estadunidense incita o processo de predação do mercado petrolífero que transporta a lógica da guerra imperial para o “Oriente Médio”, fundando e mantendo, na base das desestabilizações, intervenções, e da bala, a configuração do petrodólar. Os anos 1980 são marcados pela generalização da temporalidade digital nas tecnologias militares, o “Tempo Real” diagnosticado pela dromologia de Paul Virilio, com novos sistemas de radares, satélites e computadores voltados ao monitoramento e alerta precoce de ameaças bélicas nucleares. A transmissão simultânea de incursões militares ganha, nos anos 1990, um marco fundamental com a Guerra do Golfo, na mesma época em que é lançada a World Wide Web — a rede global de computadores, lastro para as teorias da globalização e da era da informação.
Derivada do modelo militar norte-americano de 1969 (a ARPANET), a internet inaugura um processo de interconexão global que implica na produção, armazenamento e processamento de dados em escala massiva progressiva, o que possibilitaria posteriormente a emergência do Big Data e o treinamento de IAs, com os avanços em software e hardware, dando as bases para a plataformização contemporânea. Chegamos, enfim, ao início do ‘novo milénio’, marcado pelo ataque ao World Trade Center, que dá início à retórica da ‘guerra ao terror’ e cria as condições para desenvolvimentos digitais e militares que dão as bases do contemporâneo. A automação da guerra, antecipada por Virilio, irá encontrar, pela tecnologia dos aviões não tripulados, sua realização seminal em enxames de drones, a radicalização da alienação técnica de incursões e execuções em sua expressão digital — a relação entre sub-limiar e supra-limiar, analisada por Günther Anders frente à alienação do genocídio pela bomba, é atualizada digitalmente no extermínio localizado cada vez mais precisão.
Outro elemento fundamental será desdobrado após os ataques do 11 de setembro de 2001. Notando lacunas na integração de dados entre as agências estatais americanas de informação e inteligência, empreendedores ligados ao ramo de tecnologia de Silicon Valley encontram tanto uma motivação política quanto um nicho de mercado sensível e fundamental que irá se desdobrar na criação de uma das empresas mais sensíveis e fundamentais na fronteira entre militarização e digitalização contemporânea. Peter Thiel, que esteve envolvido em problemas referentes ao uso fraudulento da sua plataforma para transações económicas digitais, originada no "boom das dotcom", o PayPal, recebeu como resposta de seu sócio o desenvolvimento de um software que, utilizando técnicas algorítmicas, garantia a segurança de transações na plataforma. Batizado de Igor, o primeiro golpista interceptado pela ferramenta, a tecnologia anunciava uma nova era na integração de dados online.
Com o 11 de setembro, Thiel encontra então uma nova utilidade para seu software na urgência da guerra ao terror. Buscando estabelecer relações com o ramo de defesa do governo americano, irá entrar em contacto com Alex Karp, que torna-se um entusiasta do projeto. Será então, entre os anos de 2004 e 2005, que sua empresa passa a receber fundos do braço de investimento em capital de risco da CIA, a In-Q-Tel, possibilitando também a parceria entre seus engenheiros e analistas da central de inteligência, desenvolvendo o software de análise de dados que originou a, hoje conhecida, plataforma Gotham. É essa a história de surgimento da Palantir, que encontrou nos adventos do 11 de setembro tanto sua razão de ser quanto as coordenadas da digitalização que passam a fragmentar a (já deletéria) fronteira entre esfera civil e militar nas décadas seguintes.
Hoje, a empresa representa o principal núcleo corporativo, tecnológico e ideológico no processo ostensivo de justaposição da militarização como característica coextensiva da experiência cotidiana, mediada pelo digital. Unindo serviços para empresas e exércitos sob lógicas comuns em diferentes perspectivas, a Palantir integra um vocabulário filosófico — cortesia do próprio Karp, familiarizado com a teoria crítica, ex-estudante da Goethe-Universität Frankfurt, onde desenvolveu seu doutoramento em filosofia sobre a Agressão no Mundo da Vida [Aggression in der Lebenswelt] defendido em 2002 — ao discurso armamentista-empresarial, realizando a atualização do novo ‘complexo industrial-militar-digitalizado’ estadunidense pela integração de metadados, articulação em “tempo real” do “campo de batalha” e aceleração da “cadeia [produção] de morte”, em novos sistemas de vigilância e produção de alvos que prometem ser a vanguarda na defesa do legado ocidental pela manutenção do império norteamericano — como vemos no uso ostensivo do sistema Maven, tanto pelo exército de Israel (cliente fundamental da Palantir), quanto pelo exército dos EUA (por exemplo, na seleção da escola feminina Shajareh Tayyebeh, no Irão, como alvo militar, resultando no assassinato de 175 pessoas, em sua maioria crianças).
Com todo esse contexto, as manifestações públicas de Karp precisam ser interpretadas para além do personagem “excêntrico” e “exótico”, mas como a propaganda ideológica de um verdadeiro programa político. Muito longe de meras bravatas, sua retórica sobre impor medo aos inimigos políticos e estabelecer um combate ao multiculturalismo liberal (que tem como alvo “mulheres académicas progressistas” em contraposição aos “homens da classe trabalhadora)” são estratégias — partem de um doutor em filosofia que teve sua pesquisa de doutoramento focada na naturalização da violência na retórica pós-hitlerista alemã. A publicação que ficou conhecida como “manifesto da Palantir”, resumindo em 22 pontos o que é apresentado no seu livro A República Tecnológica, em co-autoria com Nicholas W. Zamiska, defende, entre diversos pontos, a era digital como superação da era atómica — elemento central na apologia do desenvolvimento de sistemas de armas autónomos movidos por IA.
Entre o pensamento posterior de Epimeteu e a antevisão de Prometeu, a Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência que ultrapassa em muitos sentidos — e condições ontológicas — as dinâmicas do século passado. Para combater esse programa totalizante e com explícitas conotações neofascistas — como expresso na defesa da superioridade de determinadas civilizações em relação a outras, que deveriam ser submetidas (ou exterminadas) pela força —, é necessário uma esquerda liberta, antes de tudo, das limitações simbólicas (i.e., também materiais) impostas pelos processos da última década, onde a neoliberalização formatou a gramática emancipatória em uma retórica de gestão das crises do capital. A era de gestão das crises está em processo de obsolescência, programada desde suas origens. Resta a nós lutarmos contra a automação da barbárie.
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