Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹

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1.ª parte

O Irão está a atravessar uma fase de excepcional violência e intensidade. Depois do genocídio na Palestina e da destruição em grande escala infligida ao Líbano, os Estados Unidos e Israel participam também na destruição de vidas, corpos, territórios e infra-estruturas vitais no Irão. Têm alvejado não só refinarias e depósitos de combustível, mas também instituições de saúde, recursos hídricos, sistemas energéticos, instalações petrolíferas, escolas e outros espaços civis. Em Minab, uma escola de raparigas foi totalmente destruída e mais de 168 pessoas foram mortas, entre elas crianças baloches. A guerra desfaz as condições da reprodução social, aprofundando ainda mais a vulnerabilidade das classes trabalhadoras. Mina a base material da autonomia social, fazendo recuar vários patamares as lutas dos de baixo e reforçando formas de etno-nacionalismo promovidas pelo Estado ou pela sociedade. A rápida passagem, no espaço de um mês, da promessa de Trump de “voltar a engrandecer o Irão” à ameaça de reduzir o país à “idade da pedra” — uma fórmula que lembra inevitavelmente a linguagem da Guerra do Golfo de 1991 contra o Iraque — dissipou a última réstia de ambiguidade quanto à lógica imperial do que se passa.

Não se pode, porém, entender esta violência imperialista “externa” separadamente da crise interna pela qual a República Islâmica tem tentado restaurar a sua autoridade. Desde a revolta de 2022 a seguir ao assassinato da jovem curda Jina Mahsa Amini pela polícia, a República Islâmica tem sempre procurado, em todas as guerras e crises geopolíticas, maneira de repor parte da autoridade e respeitabilidade perdidas.

O paradoxo do ataque imperialista e da legitimidade do regime

A guerra travada pelo poder colonial genocida israelita contra os palestinianos após 7 de Outubro de 2023, a que se seguiu o primeiro ataque israelo-americano ao Irão, em Junho de 2025, ofereceu à República Islâmica o primeiro quadro de reabilitação. No entanto, o massacre de Janeiro de 2026, em que milhares de manifestantes iranianos foram mortos pelas forças do Estado teocrático em apenas dois dias, simplesmente por protestarem contra a crise económica e a ditadura política, reabriu uma crise de legitimidade aguda para Teerão, a nível interno e internacional.

Estavam os Iranianos ainda de luto, e muitas famílias ainda nem tinham conseguido recuperar os corpos dos seus entes queridos mortos em Janeiro, quando os Estados Unidos e Israel lançaram uma nova invasão imperialista, em 28 de Fevereiro de 2026, ainda mais violenta do que os ataques anteriores. Paradoxalmente, estes ataques têm, para já, ajudado a República Islâmica a recuperar parte da credibilidade que tinha perdido com a repressão sangrenta do mês anterior.

Estes dois acontecimentos, o massacre e a guerra, não constituem sequências separadas nem duas formas opostas de violência — uma repressiva e a outra supostamente libertadora —, mas sim momentos sucessivos, assimétricos até, de um processo contra-revolucionário interligado. A guerra “externa” prolonga e aprofunda a contra-revolução interna, permitindo ao Estado iraniano reforçar a coesão interna e, mais uma vez, abafar a inconformidade popular.

Reconhecê-lo não minimiza de modo algum que o Irão tenha sido e continue a ser alvo de uma agressão imperialista e colonialista levada a cabo com impunidade. Obriga-nos, sim, a ver este ataque em termos da sua função política mais profunda: em primeiro lugar, como empreitada assassina de destruição que alveja vidas, corpos, infraestruturas e territórios civis, posta em andamento com falsos pretextos e extensão da empreitada genocida levada a cabo em Gaza, assim como na Cisjordânia e no Líbano; e, em segundo lugar, como oferta de novos recursos à República Islâmica para a sua própria reconstituição.

O que é o “campismo”?

A agressão israelo-americana reforça a militarização do Irão, a repressão e a esmagamento das revoltas vindas de baixo. Intensifica, também, uma letal polarização política. De um lado, parte da oposição, especialmente os monárquicos, aplaudiu os bombardeamentos imperialistas em nome da hostilidade ao Estado teocrático. Do outro lado, outras forças políticas voltaram a cair na órbita da República Islâmica em nome do anti-imperialismo e da oposição à guerra. Se a natureza reaccionária da primeira destas correntes — pró-Israel, pró-EUA e pró-genocídio — tem merecido pronta oposição, assente num relativo consenso entre as forças progressistas e de esquerda, a segunda tem infelizmente captado partes da esquerda — e é, em absoluto, igualmente significativa.

É neste impasse que a questão do “campismo” ressurge com particular premência. Por “campismo” refiro-me a um leque de posições e tendências que apoiam qualquer força ou Estado com base na respectiva oposição ao imperialismo ocidental, independentemente da sua própria natureza reaccionária ou progressista.

O “campismo” é um legado da Guerra Fria, articulado por auto-proclamados anti-imperialistas e apoiantes do chamado “campo da resistência”, costumando reduzir o mundo a uma lógica binária de dois “campos”: o imperialismo (os Estados Unidos, a NATO, Israel e os seus aliados) versus “a resistência” (o Irão, a Rússia, a China, a Síria de Assad, etc.). Levantamentos democráticos e subversivos contra estes últimos Estados, como o Rojava, vêem-se assim rejeitados, vistos como intrinsecamente suspeitos ou “cavalos de Tróia” do inimigo. Qualquer crítica aos ditadores é de imediato desqualificada como “cumplicidade com o imperialismo”.

Mobilizações populares são reduzidas a meras “correias de transmissão ocidentais”, ou então instrumentalizadas na medida em que possam servir a um dos campos. A lógica do “inimigo do meu inimigo” torna-se um álibi: passa a servir de desculpa para ignorar a repressão interna e os protestos que se seguem, reduzindo-os a meras parcelas de um conflito geopolítico mais vasto.

O resultado é a paralisação da solidariedade mútua internacionalista baseada nas experiências e destinos partilhados das classes oprimidas, agora porém incapaz de segurar anti-autoritarismo e anti-imperialismo na mesma mão. A pretexto de impedir a “exploração imperialista” das revoluções, os campistas tendem a privilegiar uma esquerda estruturalmente marginalizada, “prudente”, não raro condenada à derrota perpétua.

Este “anti-imperialismo assente na identidade” privilegia a lealdade a Estados “anti-ocidentais” em detrimento de uma análise do capitalismo global. E, ao fazê-lo, justifica a repressão, o patriarcado, a homofobia e o colonialismo interno em nome da “resistência”. Dá-se prioridade absoluta à luta contra o imperialismo ocidental, reduzindo-se as vítimas dos Estados “anti-imperialistas” a “danos colaterais”.

O ensaísta irlandês Fred Halliday descreveu este tipo de pensamento como “anti-imperialismo para tolos”. Em nome da hostilidade para com os Estados Unidos, esta postura reforça violentamente, na prática, um Estado teocrático que reprime a esquerda, as minorias nacionais, as feministas e os conselhos populares. O conceito foi posteriormente recuperado pela activista síria Leila Al-Shami no seu livro Burning Country para designar os apoiantes de Bashar al-Assad durante a revolução árabe da década de 2010. Da repressão soviética da revolta húngara de Budapeste em 1956 aos nossos dias, este anti-imperialismo para tolos tem servido de máscara à violência de Estado e ao esmagamento da revolta.

Observa-se tal tendência em certos segmentos da esquerda ocidental branca, mas também em modos de pensamento ligados aos processos de descolonização. Enquadra-se no que se poderia chamar de “branqueamento anti-imperialista”, o uso estratégico da retórica anti-imperialista para ocultar, justificar ou minimizar formas de autoritarismo e violência fascizante exercidas dentro das fronteiras nacionais, especialmente quando os Estados se apresentam como adversários do poder hegemónico ocidental. Embora estas figuras denunciem o colonialismo das potências ocidentais, mantêm muita cegueira, cumplicidade mesmo, para com formas de “colonialismo interno”, forma usada por povos minoritários como os curdos e os baloches para descrever a sua relação com o poder estatal iraniano.

Esta prática é também frequentemente acompanhada por uma forma de manipulação psicológica racial. A forma de manipulação psicológica clássica refere-se à que consiste em pôr sistematicamente em dúvida a palavra e estado mental das mulheres. Tendo o termo inglês “gaslighting” passado a termo de referência em psicologia e, mais tarde, ferramenta crítica do feminismo, ele abrange agora, mais amplamente, um tipo de linguagem política enganosa, violenta e até negacionista. Do estrado do relativo privilégio, “ensina-se” a comunidades historicamente sujeitas tanto à dominação imperial como à repressão interna como hão-de interpretar “como deve ser” o imperialismo e a resistência. Esta postura condescendente não se limita a restaurar hierarquias coloniais de conhecimento; tira legitimidade às ideias e experiências vividas — à própria agência — de quem está sujeito a uma trama complexa de sistemas de violência.

As consequências são bem visíveis. A República Islâmica do Irão instrumentaliza este discurso tributário da “descolonização” para rotular manifestantes de “terroristas” e endurecer o seu aparelho coercivo. É uma lógica que igualmente ajuda a justificar políticas discriminatórias dirigidas contra os migrantes afegãos no Irão: retratando-os como ameaça interna, o Estado alija para cima deles a responsabilidade por dificuldades que derivam realmente do seu próprio regime político, social e económico.

A lógica contra-revolucionária do “campismo”

Após o genocídio em Gaza e a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão em Junho de 2025, o “campismo” voltou a dominar parte da esquerda radical global no Ocidente, bem como na América Latina, em África e no mundo árabe. Ele reduz a política iraniana a um duelo entre o “Irão” e o “eixo EUA-Israel”. As revoltas populares, reprimidas no sangue desde 2017, são passadas em silêncio ou refeitas segundo os moldes do discurso oficial do Estado: “infiltração da Mossad”, “revolução colorida”, “conspiração ocidental” e assim por diante. Transforma-se os movimentos sociais em ameaças à segurança e legitima-se a repressão — da violência de rua às execuções — a pretexto do “estado de emergência” ou da “inoportunidade”. Fazendo do povo que se insurge o inimigo principal, o campismo é, na verdade, profundamente contra-revolucionário.

Sob o regime de guerra permanente que alastra, passa-se o tempo a dizer aos povos em luta que retrocedam, se aguentem aí em nome de uma urgência superior. Até os que reconhecem a natureza repressiva daquelas forças põem amiúde de lado as lutas emancipatórias em nome da estratégia. A isto chamaram Morteza Samanpour e Amir Kianpour “campismo estratégico”. Há muito que se anda a armadilhar as lutas feministas exactamente nesta mesma lógica: pede-se-lhes sempre que esperem, primeiro pela classe, agora pelo anti-imperialismo. Mas o feminismo político tem identificado claramente que a essência do adiar é que “mais tarde” tende para “nunca”. Não se relegue nenhuma luta para a “sala de espera da história” em nome de uma concepção linear de libertação, nem as sacrifiquemos a uma hierarquia de causas alegadamente mais urgentes.

Desenvolvimentos geopolíticos recentes ainda dão maior campo de manobra aos campistas. Durante a guerra de Israel contra o Irão, em Junho de 2025, a que se costuma agora chamar “Guerra dos Doze Dias”, a experiência concreta de destruição reforçou as tendências anti-guerra no interior do Irão. No entanto, após o massacre sangrento perpetrado pelo Estado, em Janeiro de 2026, parte da sociedade, exausta e confrontada com um beco sem saída, começou a ver a intervenção estrangeira, erroneamente, como meio para derrubar o governo, uma vez tentadas sem êxito outras vias internas, e mantendo-se o Estado imune à pressão. Um médico proeminente relatou que, a seguir aos protestos de Janeiro, se tinham apresentado num só hospital, em Teerão, “pelo menos mil” pacientes (manifestantes) com lesões oculares graves, todos a necessitarem de tratamento urgente para lhes tentar salvar a vista.

É precisamente aqui que o “campismo” cai por terra. Condenar a guerra externa ficando em silêncio quanto à violência estatal interna não é uma posição anti-guerra de princípio, mas uma forma de relativismo que apaga diferenças cruciais entre regimes e modalidades de violência. O caso não é uma alegação de excepcionalismo iraniano, invocado para legitimar um ataque militar, como algumas correntes trumpistas e monárquicas fizeram. A questão é, sim, a insistência em que não se possa pôr um sinal de igual entre uma ditadura teocrática em que um chefe não eleito exerce um poder extralegal sobre noventa milhões de pessoas pelo terror social, execuções, tortura, prisão política, isolamento digital, poder religioso misógino e políticas racistas-coloniais para com minorias nacionais e os migrantes afegãos; e Estados em que ainda existem liberdades civis e legais, por mais limitadas que sejam, e onde a violência opera a uma escala e em moldes estruturalmente diferentes.

Condenar, como fazem os campistas, a guerra externa ou a intervenção imperialista sem denunciar explicitamente esta violência interna e o massacre da própria população tanto é, politicamente, tresler completamente as dinâmicas no Irão, como equivale a aliar-se ao Estado contra o povo que ele mata. Os Estados governam dividindo a população e esmagando revoltas. Os campistas não resistem a esta lógica; seguem-na. Ao tomarem os Estados e os respectivos alinhamentos geopolíticos para seu ponto de referência primário, eles reproduzem e legitimam as divisões impostas de cima, substituindo as solidariedades forjadas entre os povos em luta a partir de baixo por lealdades a campos estatais.

(continua)


1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.

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