Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica da Espanha dos anos 30.
A Frente Popular perante a guerra e a revolução
Perante a superioridade militar dos rebeldes, fortemente abastecidos pelas potências fascistas, os principais partidos da Frente Popular — republicanos, socialistas e comunistas — defendiam que era necessário apresentar a guerra como uma defesa da democracia burguesa para manter o apoio das classes médias e garantir a ajuda militar das democracias ocidentais, principalmente da Grã-Bretanha e da França. Esta posição significava suprimir, ou pelo menos ocultar, a revolução social em curso numa parte significativa da zona republicana.
Tanto na historiografia como na época, considerava-se que as classes médias, ou pelo menos um sector delas, eram representadas pelos partidos republicanos de esquerda. O facto de estes partidos terem tido um papel central nos governos republicanos de 1931 e 1936 reforçou a ideia da sua importância política. Contudo, a sua base social e eleitoral foi efémera. Fora da Catalunha, o único local onde teve um apoio massivo (ERC), a base social do republicanismo de esquerda era bastante limitada, basicamente entre a pequena burguesia urbana e sectores muito específicos como os professores.
Muito ilustrativos das limitações do seu apoio foram os resultados eleitorais durante os anos da República. Em 1931, sem incluir a Catalunha, foram eleitos 111 deputados republicanos de esquerda em coligação com o PSOE e o Partido Radical, e em 1936, 129 como parte da Frente Popular. Em 1933, sem fazerem parte de uma coligação a nível estatal, obtiveram apenas 14 lugares (contra 21 na Catalunha), 9 deles graças a acordos locais com os Radicais e 5 devido ao apoio, também local, do PSOE2.
A nível internacional, os aliados aparentemente naturais da República, as democracias liberais, com a notável exceção do México, não só abandonaram o governo legítimo, recusando-se a enviar-lhe as armas necessárias para se defender, como também promoveram a farsa de uma política de “não intervenção” que resultou no isolamento quase total da Espanha republicana. A participação da Alemanha e da Itália no Comité de Não-Intervenção foi o exemplo mais claro do cinismo desta política infame.
Na realidade, tanto a França como a Grã-Bretanha não tinham qualquer interesse em apoiar um governo aparentemente fraco num contexto de grande radicalização política e social. O governo da Frente Popular francesa, encurralado pelas classes dominantes, pelas cúpulas militares e pelo imperialismo britânico, reverteu rapidamente qualquer intenção de enviar armas para a República. O governo britânico considerava que Azaña era o “Kerensky de Espanha” e quando a guerra civil começou, que o “bolchevismo” estava prestes a tomar o poder. Abundavam as declarações entre os seus ministros sobre como Franco era a melhor opção para proteger os interesses imperiais e capitalistas britânicos3.
O estalinismo
Com a degeneração da revolução russa e a ascensão ao poder de Estaline, os partidos comunistas tornaram-se totalmente subordinados às necessidades políticas de Moscovo. A viragem para a política de frente popular por parte do Comintern foi condicionada, sobretudo, pela necessidade de conter a ameaça que a Alemanha nazi representava para a própria sobrevivência da URSS. Essa ameaça tornou urgente a criação, a nível internacional, de uma aliança com as democracias, sobretudo com a França, contra as potências fascistas. Assim, a frente popular foi a expressão nacional da política externa soviética. A adoção uniforme desta nova orientação pelos partidos comunistas nesse período não obedeceu a qualquer análise da situação sociopolítica de cada país.
No entanto, em contraste com a desastrosa linha anterior que identificava os partidos socialistas com o “social-fascismo” e os considerava como o maior perigo para a classe trabalhadora, a Frente Popular ajustava-se à necessidade de enfrentar a ameaça da extrema-direita e levou a um aumento da influência dos comunistas em muitos países, incluindo no Estado espanhol. Com o início da guerra, o PCE tornar-se-ia o partido político mais poderoso da zona republicana. Já em meados de 1937, atingiu o valor dos 300.000 militantes – dez vezes mais do que antes de julho de 1936 –, o PSUC, a sua filial catalã, mais de 50.000 e a JSU cerca de 250.000.
Este auge da sua influência deveu-se a vários motivos. A defesa acérrima da Frente Popular pelos comunistas atraiu para o partido gente recém-politizada que se opunha ao levantamento militar e ao fascismo, entre eles, sectores pequeno-burgueses assustados com os “excessos” da revolução e os ataques à propriedade privada. Ao defenderem a centralização militar e a disciplina férrea, os comunistas conquistaram também o apoio de muitos militares profissionais que se mantiveram fiéis à República. Mas, sobretudo, o apoio militar à República por parte da URSS contribuiu para o aumento do prestígio do PCE.
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Um fator que muitas vezes não é tido em conta para explicar o crescimento da influência comunista foi a perduração da sua imagem como “o partido da Revolução Russa” e a sua autoidentificação como revolucionários. O facto de o PCE, apesar do seu compromisso na defesa da democracia republicana, falar da necessidade de uma “democracia de novo tipo”, de uma “revolução popular” e de uma “guerra nacional revolucionária” foi um reflexo das realidades políticas e sociais na zona republicana. A ampla utilização de imagens soviéticas e de métodos revolucionários para mobilizar a população de Madrid em Novembro de 1936 constitui outro exemplo da relação aparentemente confusa dos comunistas com a democracia burguesa. Daí não ter sido difícil chegar à conclusão de que a Frente Popular era um interlúdio tático necessário, uma fase anterior à implementação do socialismo. Tais ambiguidades ajudam a explicar a atração do estalinismo para um sector importante da FJS4.
Por último, apenas o PCE (na Catalunha o PSUC), com a sua disciplina e a sua estrutura “leninista”, e não os sectores liberais e reformistas, foi capaz tanto de pôr fim à revolução social em curso na zona republicana como de dirigir politicamente o esforço de guerra da Frente Popular.
Os anarquistas perante o poder
Após a derrota do levantamento militar em quase dois terços do território espanhol, o poder foi exercido por numerosos comités, muitos deles da Frente Popular, com a participação direta da CNT. Na Catalunha, os comités refletiam a influência da revolução. Em grande parte designados por comités “revolucionários” ou “antifascistas”, a sua composição dependia da força local das diversas organizações. Em geral, os seus membros eram nomeados pelas suas organizações; poucos eram eleitos pela população local5.
Para colmatar a falta de coordenação e a fragmentação do poder nas primeiras semanas na zona republicana, foram organizados diferentes tipos de comités a nível regional e provincial, quase todos apoiados por organizações da Frente Popular a nível local, com a adição da CNT. A sua autonomia e radicalidade variavam consoante o local. O mais importante deles foi o Comité Central de Milícias Antifascistas (CCMA) na Catalunha. O Governo catalão, incapaz de lidar com a situação, propôs aos trabalhadores e às forças republicanas a criação de um comité unitário para coordenar a luta contra as forças sublevadas. Assim, no dia 21 de julho, o CCMA foi formado com uma maioria frente-populista, embora as decisões do novo comité refletissem a força da revolução6. Para além da organização militar, o CCMA tomou as primeiras medidas para controlar a economia, com o bloqueio das contas bancárias das pessoas que tinham apoiado o levantamento e medidas para ajudar as empresas nas mãos dos trabalhadores a continuarem a pagar salários.
Em grande parte do resto da zona republicana, foram criados comités que, tal como o CCMA, detiveram efetivamente o poder durante as primeiras semanas da guerra civil. A orientação política da maioria destes comités refletia a influência das organizações da Frente Popular. No entanto, a situação estava de tal forma polarizada que em vários locais atuaram de forma marcadamente radical, como aconteceu com os comités de Cartagena, Gijón, Málaga, Valência e, sobretudo, com o Conselho de Aragão, organizado em outubro e dominado pelos anarquistas.
Mas ao não se consolidar o poder dos comités, completamente fragmentado, a revolução não podia triunfar. Perante esta realidade, o futuro da revolução dependia da CNT, que durante a guerra duplicou o seu número de membros até atingir o 1,5 milhão de efetivos. Para os anarquistas, a revolução foi um facto, no sentido em que em grande parte do que viria a ser a área republicana, a classe trabalhadora controlava as ruas, as fábricas e a terra. No entanto, as organizações operárias não controlavam as comunicações, o comércio externo ou o setor bancário. Acima de tudo, com a organização do Exército Popular durante o outono de 1936, perderam o controlo do elemento-chave da guerra e da revolução: as forças armadas.
Face ao vazio deixado pela quase desagregação do Estado republicano, cedo se apresentou um dilema para os anarquistas. A 21 de julho, na assembleia regional da CNT catalã, um dia após a derrota da rebelião militar em Barcelona, Juan García Oliver, um dos líderes mais influentes do anarquismo radical, defendeu que a CNT tinha duas alternativas: “arriscar tudo”, o que significaria estabelecer “uma ditadura anarquista”, ou colaborar com as outras forças antifascistas. Como “uma ditadura” era um anátema para os anarquistas, e dada a presença significativa de outras forças (especialmente os socialistas), particularmente fora da Catalunha, optaram pela “colaboração”. Assim, quase desde o início, os dirigentes anarquistas viram-se encurralados na ambiguidade entre a sua defesa da revolução e a sua prática de colaboração com o Estado. Na realidade, a dicotomia não era entre “ditadura” ou “colaboração”, mas entre a unidade dos trabalhadores, para além das fileiras anarquistas, para a tomada do poder ou a subordinação à Frente Popular que, mais cedo ou mais tarde, significaria o fim da revolução.
Opostos à criação de outro Estado, acabaram por colaborar com o Estado existente, ou, para ser mais preciso no caso do Estado espanhol em 1936, com a reconstrução do Estado republicano. No início de novembro de 1936, com uma situação militar cada vez mais crítica, quatro anarquistas passaram a integrar o Governo Republicano.
O processo de contrarrevolução dentro da zona republicana atingiu o seu apogeu com os combates de rua do início de Maio de 19377. Uma semana depois, a formação de um Governo chefiado pelo socialista moderado Juan Negrín, sem a participação dos anarquistas, representou o reforço definitivo do Estado burguês e a supressão dos sectores mais revolucionários, especialmente o POUM, vítimas de uma feroz campanha de calúnias por parte do estalinismo. O último bastião da revolução foi o Conselho de Aragão, em mãos anarquistas, que foi dissolvido em agosto. Em fevereiro de 1938, a CNT, já totalmente empenhada na colaboração com o Estado republicano, regressou ao Governo.
É impossível saber se uma estratégia de guerra revolucionária teria triunfado, embora a defesa de Madrid seja ilustrativa neste sentido.
Era possível uma alternativa revolucionária?
É necessário considerar se havia uma alternativa à abordagem da Frente Popular de uma guerra em defesa da democracia à custa da revolução social. A estratégia militar do Governo republicano rejeitou o uso de táticas não ortodoxas ou revolucionárias, em parte devido à necessidade do Governo republicano de manter tanto o controlo da situação política na sua zona como à necessidade de se apresentar ao mundo como um governo liberal. No entanto, dada a grande vantagem material que o inimigo tinha, a adesão do Governo republicano a uma estratégia militar ortodoxa tinha poucas hipóteses de sucesso.
A ideia de que a Frente Popular e o aniquilamento da revolução foram apenas uma posição “prática” devido às necessidades militares da República é uma falácia.
A política frente-populista, sobretudo a sua subordinação aos interesses imperialistas, teve as suas consequências militares. Por exemplo, o facto de desde o início, por pressão do Governo britânico, a Marinha de guerra, nas mãos dos marinheiros, ter sido retirada do estreito de Gibraltar, deixou o caminho livre para as forças rebeldes transferirem milhares de tropas do Norte de África para a península. E a recusa, para não prejudicar os interesses do imperialismo francês, de declarar a independência de Marrocos e apoiar uma insurreição nacionalista na retaguarda fascista, também favoreceu as forças sublevadas.
Uma estratégia alternativa teria incluído a mobilização em massa da população (como seria o caso durante a batalha de Madrid em novembro de 1936), uma guerra defensiva e de posição, e o uso de ataques relâmpago e mais limitados, combinados com uma guerra de guerrilha, evitando assim confrontos massivos entre dois exércitos com capacidades claramente desiguais. Ao mesmo tempo, medidas como a declaração da independência de Marrocos e o apoio militar ao movimento independentista marroquino, ou a declaração da entrega de terras aos camponeses poderiam ter contribuído para minar a retaguarda inimiga8.
É claro que é impossível saber se uma estratégia de guerra revolucionária teria triunfado, embora a defesa de Madrid seja ilustrativa neste sentido. Além disso, a situação internacional, na qual tanto os partidos comunistas como os sociais-democratas exerciam grande influência, não era de todo favorável. É impossível saber qual o impacto que a existência de um poder revolucionário em Espanha teria tido no movimento operário para além das suas fronteiras. O precedente de 1917 levanta a possibilidade de que pudesse ter funcionado como estímulo e, consequentemente, ter conseguido que outras correntes políticas tivessem maior influência na luta de classes.
Guerra e revolução
Frequentemente, na historiografia sobre a guerra civil, a divisão entre as forças antifascistas é apresentada como uma divisão entre aqueles que queriam dar prioridade à guerra (comunistas, republicanos e socialistas) e a CNT e o POUM, que colocavam os interesses da revolução à frente dos da guerra: uma divisão entre guerra ou revolução. Nunca foi assim. Tanto a CNT como o POUM defenderam a necessidade de fazer ao mesmo tempo a guerra e a revolução, de levar a cabo uma guerra revolucionária. Ambas estavam intrinsecamente ligadas. O POUM, sobretudo, tinha uma política militar clara que propunha a criação de um exército revolucionário, tomando como modelo o Exército Vermelho soviético durante a guerra civil russa. Mas um Exército deste tipo não poderia ser construído sem um governo revolucionário baseado na democracia a partir de baixo, em comités de operários, camponeses e milicianos9.
O POUM defendia que, para consolidar a revolução, pelo menos na Catalunha, era necessária a tomada do poder pela classe trabalhadora. Ora, sem a CNT tal propósito era impossível. Conseguir convencer a CNT disso, ou pelo menos parte dela, cedo se tornou a principal preocupação política do POUM, mas, como se viu, teve de ultrapassar a convicção dos anarquistas de que qualquer forma de poder ou Estado revolucionário conduziria inevitavelmente a uma ditadura.
Em última instância, o grande ausente na revolução espanhola foi a existência de uma organização revolucionária com a força necessária para dirigir a tomada do poder. Uma série de obstáculos impediram o POUM, o “único partido da revolução”, segundo Andreu Nin, de se tornar essa organização. Para além dos seus próprios erros, a falta de uma base fora da Catalunha e a sua curta história — tinha sido fundado apenas um ano antes — foram obstáculos difíceis de ultrapassar. E sem uma direção política, a revolução estava condenada à derrota.
Referências
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Durgan, Andy (1992) “The 1933 elections in Spain and the Defeat of the Left”, Journal of the Association of Contemporary Iberian Studies, vol. 5, n º 2. Londres.
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(2025) El POUM. República, revolución y contrarrevolución. Barcelona: Sylone-viento sur.
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1 Publicado originalmente em viento sur, n.º 201, 11 de julho de 2026. Tradução de António Simões do Paço.
2 Durgan (1992).
3 Moradiellos (1996).
4 Para exemplos das contradições na posição dos comunistas em relação à Frente Popular ver Fraser (1979) tomo II, p. 30 e Durgan (2022) pp. 30, 43-44.
5 Sobre os comités ver, por exemplo: Pozo (2012) e Durgan (2017).
6 Houve cinco delegados republicanos, três da CNT, três da UGT, dois da FAI e um de cada um do POUM, do PSUC e da Unió de Rabassaires.
7 Entre a bibliografia sobre as Jornadas de Maio de 1937 (Els Fets de Maig, em catalão), tem particular interesse Guillamón (2018).
8 Sobre o debate acerca da alternativa de uma guerra revolucionária ver: Claudin (1975) pp. 210-242; Guillén (1980); Fraser (1979) tomo II, pp. 27-38; Beevor (2005) p. 464; Durgan (2013).
a população trabalhadora e jovem vive uma situação insuportável, causada pelos baixos salários, pela impossibilidade de aquisição ou arrendamento de habitação resultante do império da especulação imobiliária — na qual estão pesadamente implicados os membros do governo e deputados da direita, como revelava o jornal Público de 19 de Outubro;
a esta situação se soma a destruição do serviço nacional de saúde, do ensino público e a degradação dos transportes públicos que os governos têm promovido, retirando à população trabalhadora grande parte dos direitos colectivos que lhes permitiam sobreviver apesar dos baixos salários e promovendo a vergonhosa super-exploração dos trabalhadores imigrantes, quer no trabalho quer nas inaceitáveis condições de habitação;
enquanto isso, a inflação não pára de subir, nomeadamente a dos combustíveis e da alimentação, reduzindo drasticamente o salário real da generalidade dos trabalhadores e o rendimento e a viabilidade de pequenos agricultores, artesãos e micro e pequenas empresas;
o projecto de OE 2027 apresentado pelo governo propõe reduzir o investimento público em 31% e, em particular, o da habitação em quase 70%; cortar o orçamento da saúde em mais de 250 milhões e aumentar o da despesa militar em mais de 500 milhões; aumentar a massa salarial da função pública 2,3%, o que representa um corte brutal do poder de compra dos funcionários; aumentar de 6.700 para 8.200 milhões os pagamentos de juros da dívida pública, grande parte da qual resultante da nacionalização dos prejuízos da banca privada, Banif, BPP, Espírito Santo, etc.; “desagravar” o IRS dos salários médios e mais altos em um a três cafés por semana, concedendo ainda mais subsídios fiscais aos grandes senhorios e fundos imobiliários (“rendas moderadas”) e empresas (redução do IRC); continuar a usar o excedente da segurança social, que representa salário diferido dos trabalhadores, para compensar o défice orçamental causado pelos benefícios concedidos ao grande capital e à finança que parasita a dívida pública;
esta situação ocorre e se agrava num quadro de guerras e genocídios que alastram pelo mundo, tendo-se o governo português comprometido com a NATO/UE a aumentar a despesa militar até 5% do PIB nos próximos dez anos (passando dos actuais seis mil milhões de euros (o dobro do que era há cinco anos) para algo como 25 mil milhões de euros — ou mais), contribuindo, assim, para o alastramento das guerras;
enquanto isso, se multiplicam os desastres ambientais e as agressões às populações do interior, como no Barroso, o negócio dos campos gigantescos de painéis solares, etc.;
a situação descrita afecta toda a população trabalhadora e praticamente toda a juventude que vive, estuda e trabalha em Portugal e nos demais países da Europa e do mundo,
a juventude e a população trabalhadora, em Portugal e nos países europeus vizinhos, está a revoltar-se e mobilizar-se em massa, com toda a justiça, sendo, porém, alvo de repressão violenta dos governos e forças policiais,
os sindicalistas, trabalhadores e jovens reunidos em encontro nacional da Plataforma Unitária de Sindicatos decidem:
manifestar a sua solidariedade incondicional com as mobilizações dos jovens e trabalhadores, em, Portugal, em França, Espanha, Itália, Alemanha e no mundo contra a guerra, pelo direito à habitação, por um ensino e saúde públicos de qualidade e salários, condições de trabalho e pensões que lhes permitam viver com dignidade; e apelar aos sindicatos e centrais para que se associem, apoiem e protejam as acções da juventude trabalhadora e estudantil pelo direito à habitação;
condenar com toda a veemência a repressão que o governo português fez abater sobre os acampamentos de jovens no Porto e em Lisboa e exigir o fim de toda a repressão das mobilizações de jovens e trabalhadores no nosso país e no resto da Europa e do mundo;
exigir a obrigatoriedade de declaração e publicação de todos os fogos devolutos e sua mobilização imediata para alojar as famílias trabalhadoras; exigir a retirada imediata da proposta de novo regime do arrendamento urbano e a revogação de todas as medidas da “lei Cristas”, exigindo o imediato alojamento condigno de todas as famílias trabalhadoras e famílias pobres e vulneráveis, incluindo as imigrantes — até lá ficando proibidos os despejos e congeladas as rendas, travando a sua insuportável subida;
exigir a expropriação dos fundos imobiliários e um termo à transformação da habitação, direito constitucionalmente garantido, num negócio milionário; fixação das rendas em função do rendimento das famílias, num máximo de 30%; garantia de alojamento digno de todas as famílias e lançamento imediato de um plano nacional de habitação, para isso usando as verbas previstas para a despesa militar, os benefícios fiscais para o patronato e o pagamento dos juros ilegítimos da dívida pública;
exigir um aumento geral de salários de 15% para compensar a inflação acumulada, um aumento imediato do salário mínimo para 1.100 euros e indexação automática dos salários e pensões a um cabaz representativo das despesas das famílias trabalhadoras, controlado pelos sindicatos; semana de 35 horas sem redução de salário; fim da precariedade; contratos de trabalho para todos; transporte para e do trabalho gratuito e garantido pela empresas dos trabalhadores de empresas com efectivos superiores a 50;
exigir o financiamento adequado do SNS, da escola pública e do transporte público e reverter todas as medidas tendentes à privatização da saúde, do ensino e dos transportes;
exigir a redução da carga fiscal sobre os produtos de primeira necessidade e combustíveis, onerar os produtos de luxo e expropriar os super-lucros dos operadores energéticos;
rejeitar qualquer tentativa de subversão da segurança social, que é património dos trabalhadores, e de entrega dos seus fundos aos mercados de capitais; e rejeitar qualquer tentativa de voltar a contrabandear, agora medida a medida, o pacote laboral do governo, que foi derrotado pelas nossas greves gerais;
apelar à rejeição do projecto de orçamento para 2027 e a que as centrais sindicais, CGTP e UGT, e todas as direcções sindicais, comissões de trabalhadores e ORTs preparem a greve geral para impedir a sua aprovação na Assembleia da República;
apoiar o apelo das centrais sindicais do Estado espanhol a uma greve geral pela habitação e apelar ao apoio das centrais e direcções sindicais e ORTs portuguesas;
apelar à unidade e convergência da luta de todos os trabalhadores e jovens europeus, com os seus sindicatos e organizações, contra as medidas do capital e de Bruxelas, que a todos afectam, e contra as quais se preparam, já em Novembro, mobilizações de grande envergadura e greves gerais no Estado espanhol, França, Reino Unido, Bélgica, Itália, Alemanha e outros países.
Não aceitamos o caminho da miséria e da guerra! A mobilização fraterna da juventude e dos trabalhadores dos países europeus e de todo o mundo pode e deve pôr fim à caminhada para o abismo económico, social e ecológico.
*Estiveram representados no encontro os seguintes sindicatos: SNPVAC (aviação), SITEU (enfermeiros), S.TO.P (profissionais da educação), STCC (call centres), STGSSP (grandes superfícies), STASA (indústria automóvel), Sindicato dos Estudantes e os movimentos sociais Solidários e Rede Ecossocialista, tendo participado individualmente sindicalistas de vários outros sindicatos. Estiveram presentes como observadores representantes da associação Habitação Hoje.
A intervenção policial no Porto e em Lisboa na noite de 24 para 25 de outubro para desmobilizar as manifestações contra a crise habitacional foi mais um capítulo do uso do aparelho coercivo do Estado em benefício de uma classe exploradora e rentista.
Politicamente morto, o ministro Luís Neves é a representação do que de mais podre existe neste sistema: alguémque se serviu durante anos da sua posição no poder estatal para beneficiar economicamente e que encabeça agora uma operação violentíssima e desproporcional contra manifestações pacíficas. Fá-lo como prova de vida e para rogar o perdão do Chega, que contra ele fez obsessiva campanha durante todo o verão, para agora se deixar seduzir pela sua ação autoritária.
Esta deriva não devia ser surpresa. A elite económico-financeira defende à bastonada os seus interesses, a história demonstra-o. Neste caso, essa elite está não só a influenciar a cúpula governativa, como está ela mesma lá instalada: veja-se o património imobiliário daqueles que nos pedem mais sacrifícios ou para largarmos o “egoísmo”.
Não se agride só a luta pela habitação e as garantias constitucionais que nos restam, mas a experiência verdadeiramente democrática das assembleias populares que, em pequena escala, envolve politicamente as novas gerações, ao contrário do sistema farsante desta república oligárquica. Quando convidado para discursar nas comemorações do 10 de junho de 2019, o inenarrável João Miguel Tavares, passista amargurado e representante da miséria moral e intelectual do “comentariado” mediático, clamou poeticamente à classe política: “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Agora que os jovens acreditam na construção de uma alternativa ao Estado económico e social que nos sufoca, é o mesmo pobre Tavares que, paradoxal mas significativamente, se levanta, não contra a emergência habitacional, mas contra as acampadas e as ideias “comunistas” que lá detetou.
A passividade de António José Seguro perante um dos mais visíveis atropelos às liberdades civis desde abril de 1974 é também um lembrete para os que encostam a esquerda à ditadura do voto útil e do mal menor. Abdicamos da construção de alternativas políticas em nome da defesa da democracia… e levamos bastonadas.
A revolta deve traduzir-se em formulação política. Não queremos defender o statu quo das sádicas alterações ao NRAU aprovadas recentemente pela direita. Queremos que o statu quo seja radicalmente transformado. Urge controlar as rendas e a compra do nosso parque habitacional por investidores e fundos especulativos estrangeiros (e nacionais) e a ampliação da habitação pública, por via de mais construção, recuperação e expropriação de imóveis sem utilidade social.
Apresentemos propostas, pautemos o debate, construamos uma alternativa que conquiste a maioria social.
O termo mockumentary designa um género de cinema, ou televisão, que apresenta aos espetadores elementos ficcionais no formato de documentário, essencialmente como forma de satirizar uma situação concreta, ou o formato documental em si mesmo.
Ainda que o termo venha dos anos 60 do século XX, foi popularizado por Rob Reiner, a partir do seu notável This is Spinal Tap, notável mockumentary acerca de uma banda rock britânica ficcional, em tournée pelos Estados Unidos. O filme, de 1984, satirizava alguns documentários da época (The Song Remains the Same, dos Led Zeppellin, por exemplo) e foi um grande sucesso para um realizador estreante, que depois veio a ser um dos grandes nomes do cinema americano.
A Hard Day’s Night (Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso, no título português), de Richard Lester, com os Beatles, realizado em 1964, é visto como um dos primeiros exemplos do estilo, que se desenvolveu sobretudo a partir do momento em que os arquivos de cinema e televisão passaram a estar mais disponíveis e a ser mais fáceis de consultar e de utilizar, permitindo a manipulação de imagens originalmente colhidas com propósitos totalmente diferentes.
Seria uma questão de tempo até que a televisão utilizasse o conceito, e duas das mais bem-sucedidas séries americanas de comédia assumiram o formato: “Uma Família Muito Moderna” e “The Office” (esta última, a partir de um original britânico).
Um dos nomes consagrados do cinema americano, que é incontornável quando o tema é o mockumentary, é Woody Allen. Nascido Allan Stewart Konigsberg, escrevia para televisão há já quase 15 anos quando assinou o seu primeiro argumento cinematográfico: What's New Pussycat (1965), realizado por Clive Donner. A sua carreira prosseguiu, com dezenas de realizações de diferentes filmes e a escrita de argumentos originais, de forma muito bem-sucedida, não isenta de polémicas, como as motivadas essencialmente por factos da sua vida pessoal.
Seguiu-se uma série de filmes de cariz significativamente diferente, onde Woody Allen se foi aproximando do melodrama, tendo chegado perto do que teria sido o trabalho de Ingmar Bergman, se alguma vez o realizador sueco tivesse trabalhado na América (sobretudo Stardust Memories, de 1980). The Serpent’s Egg (O Ovo da Serpente, em Portugal), que Bergman fez na América em 1977, por ser um elemento atípico na sua filmografia, não invalida o argumento.
Até que, em 1983, Woody Allen nos apresentou Zelig, a quinta essência do que é o mockumentary.
Leonard Zelig é um personagem que acompanhamos a partir dos anos 20 do século XX. Dos Roaring Twenties até ao início da Segunda Guerra Mundial. Podemos acompanhar o ambiente da América desses denominados anos loucos da década de 20, a que se seguiu a Grande Depressão, e depois a guerra. E, a par de um exercício de pura nostalgia, partimos de uma premissa cómica muito pouco comum, a saber: Zelig tem a capacidade de se adaptar, de forma total, ao meio em que se insere. Mais do que alguém com empatia ou mera capacidade de adaptação intelectual, ele assume as características físicas e psicológicas das pessoas que estão à sua volta. Muda de padrões de discurso, de características físicas (até de raça), chegando a engordar ou a fazer crescer apêndices capilares, se isso contribuir para se confundir com o grupo onde estiver inserido.
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Podemos interpretar esta premissa – a de adaptar literalmente o seu físico e comportamento psicológico do “outro”, moldando-se como cópia – como sendo o de levar, ainda mais longe as premissas do livro O Homem sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. A outro nível, conhecemos a mesma premissa aplicada à análise da personalidade de atores célebres. Existe um episódio dos Marretas com Peter Sellers em que o ator confessa que não tem uma personalidade que seja própria, evoluindo de acordo com as personagens que interpreta, assim como, mais recentemente, tivemos Jim Carrey a encarnar quase literalmente, se possível, Andy Kaufman, no Man on the Moon (Homem na Lua, no título português), de Milos Forman.
Leonard Zelig, uma vez conhecida a sua capacidade excecional, é rapidamente descrito como “o camaleão humano”, e começa a ser tratado como uma atração digna de um freak show (termo que é injustamente traduzido para português como circo de horrores). E rapidamente nos é mostrada a razão de ser desta anomalia: Zelig tem apenas uma profunda necessidade de ser amado e, para isso, de não sobressair de modo errado. Imita o outro para ser aceite. Chegamos a conhecer as condições em que a personagem cresceu, e as vivências que foi atravessando. A vida na América no início do século XX implicava fortes pressões de assimilação cultural e, particularmente relevante para um jovem judeu, de forte antissemitismo. A anulação do “eu” surge como um mecanismo de sobrevivência psicológica para a personagem, que desenvolve assim uma condição (clínica), mais do que um superpoder.
Muitas sequências do filme são particularmente bem conseguidas, exatamente em momentos em que Zelig partilha o ecrã com variadas personalidades relevantes daquela época, lado a lado, mas invisível aos outros, no culminar da sua necessidade de se dar com toda a gente, com efeitos comparáveis ao que muitos anos mais tarde vimos em Forrest Gump, pela mão de Robert Zemeckis.
Usando as melhores técnicas do mockumentary, Woody Allen vai acompanhando as imagens da época com comentários proferidos por personalidades reais e notórias, que dão uma maior credibilidade à ficção que nos é apresentada. Podemos encontrar vários vultos da intelectualidade nova-iorquina da altura em que o filme foi feito, como Susan Sontag, Saul Bellow ou Bruno Bettelheim.
O enredo, que como seria de esperar não é assim tão complexo, acaba com um final feliz, com a psiquiatra que acompanhava Zelig, e que por ele se interessou, a acabar por desenvolver por ele sentimentos de outra natureza (sentimentos retribuídos também por Zelig, claro!), e essa ligação amorosa (ligação pessoal) acaba por fazer desaparecer a anomalia que o tornava o (tal) “camaleão humano”.
Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço.
Uma questão que se poderá sempre colocar a propósito da criação artística é a de saber o que moveu o autor, desde o primeiro momento. Será sempre possível perguntar se existiu alguma motivação específica para o autor ter desenvolvido este projeto e não outro qualquer. As eventuais referências culturais a que já fiz referência terão um propósito de enquadramento na história que está a ser contada. Mas, afinal, o que terá motivado Woody Allen a criar um personagem como Zelig?
Um dos maiores cineastas da história, ele próprio um cómico de exceção, Charlie Chaplin fez refletir em certas obras algumas das situações que foi enfrentando na sua vida pessoal. A sua vida sentimental acidentada, com vários divórcios problemáticos, gerou o filme Monsieur Verdoux (O Barba Azul, em Portugal). Anos mais tarde, a perseguição política a que foi sujeito pelo governo dos EUA serviu de inspiração ao filme A King in New York (em Portugal, Um Rei em Nova Iorque).
A verdade é que todos nos cruzámos com pessoas com características parecidas com este Zelig. Todos nós já encontrámos ou lidámos com pessoas que são como esta personagem. Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço. Cada pessoa que encontramos que diga que ainda está à procura de si próprio é possível que se seja alguém que tem vindo a deixar um rasto de personagens que foi copiando e que, depois de não serem necessários, são deixados para trás, como uma cobra que abandona uma pele antiga. Por vezes também fazem vítimas, deixando cadáveres no seu caminho. E copiam outros para serem aceites, validados, terem uma vida.
Zelig é, por isso, um grande filme de Woody Allen, injustamente esquecido quando falamos da sua filmografia. Mas é pena.
Contra as expectativas do PT e até mesmo das sondagens, Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta das presidenciais brasileiras com 2,2 milhões de votos de vantagem. A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro na segunda volta parecia inevitável. Não o foi porquê?
Contra as expectativas do PT e até mesmo das pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 2,2 milhões de votos à frente. Seu campo também elegeu os governadores do Sudeste e do Sul do país, alcançando 11 governadores no primeiro turno, que governarão 63% da população (e 16 governadores, com 71% da população, após o segundo turno), e avançou fortemente no Senado e na Câmara. Consagrou, assim, um lastro político que, diferentemente das condições de seu pai, permitiria à sua base de apoio avançar na implementação não apenas de um governo de cariz fascista, mas de um regime fascista, visto que controlaria também o Supremo Tribunal Federal.
A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro repercutiu de modo profundo em todo o campo progressista. Silêncio, medo e perplexidade anunciavam um quadro de derrota antecipada. Nem os partidos nem a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e as demais centrais sindicais convocaram uma grande vaga de lutas, com a realização de plenárias populares antifascistas. Como superar uma vantagem estimada em 11 milhões de votos? Como proteger a militância e os movimentos populares da turba neofascista?
Centenas de milhares de ativistas sociais dimensionaram o significado prático de um governo ligado às grandes organizações criminosas, entre elas as chamadas milícias, que colocaria o Brasil no Escudo das Américas e radicalizaria a austeridade neoliberal extrema sobre os direitos sociais, como faz Milei. Indicadores da Comissão Pastoral da Terra registram 136 assassinatos de indígenas, quilombolas1 e trabalhadores do campo durante o governo de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro destinou recursos a Peixe, miliciano condenado no caso Marielle Franco2. Assim, movimentos indígenas e contra as mineradoras, torcidas antifascistas, estudantes, movimentos negros, de mulheres e da diversidade, sindicatos, entidades científicas e entidades profissionais foram se somando às manifestações.
Diante da iminente derrota de Lula da Silva no segundo turno, a irrupção de iniciativas autoconvocadas e livres das amarras burocráticas foi decisiva para a reversão do quadro negativo do primeiro turno, conferindo ao segundo turno um inédito caráter de massa e popular não cogitado pela burocracia do PT. Este artigo discute algumas tendências advindas dessa irrupção e defende a importância da reaglutinação de arcos de forças que pratiquem a autonomia diante do novo mandato do atual presidente.
Da derrota de 4 de outubro…
As mobilizações das juventudes, relativamente síncronas e espalhadas pelo mundo, que forjam a cena das lutas populares de 2026, dão visibilidade a novos sujeitos, agendas, métodos e formas de organização capazes de catalisar mudanças na correlação de forças de seus respectivos países e na conjuntura mundial. No seio da geração Z, mas não somente nela, estão se conformando novos sujeitos coletivos nas lutas populares mundiais. No caso brasileiro, as recentes manifestações foram as maiores do século e alcançaram o pico de 2 milhões de pessoas às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro. São perceptíveis a abertura a pautas3 mais amplas das classes trabalhadoras e a maior autonomia diante dos partidos oriundos da esquerda, enrijecidos pelo ciclo vicioso da burocratização e pela assimilação da austeridade como uma segunda natureza. O descolamento entre os movimentos que emergem e as práticas burocráticas desses partidos é acentuado pelo facto de que, quando assumem o governo, eles tratam assuntos públicos como habitação, transporte, educação, ciência, saúde e previdência como esferas a serem dirigidas pela tecnocracia. A despolitização dessas dimensões da vida social pavimenta o avanço das extremas-direitas.
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O Partido dos Trabalhadores (PT) também vive essa realidade de burocratização e de incorporação profunda dos preceitos da austeridade. O enfrentamento eleitoral com a extrema-direita mostrou-se mais árido do que a estratégia da campanha de Lula havia previsto para o primeiro turno das eleições nacionais. O governo estadunidense, com Trump e Rubio à frente, agiu em favor do candidato neofascista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente. A Meta manipulou os algoritmos, censurou as maiores contas favoráveis a Lula e postergou decisões judiciais, enquanto as igrejas pentecostais e neopentecostais acionavam seus fiéis. É importante lembrar que, até o final do primeiro turno, mesmo temas de forte impacto para as classes trabalhadoras, como o fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso)4, não adquiriram real densidade trabalhista na estratégia de campanha. O fim da escala 6x1 foi tratado não como tema axial das relações de trabalho, mas como medida que demonstrava a preocupação social do candidato, especialmente por ampliar o convívio familiar. A dinâmica burocrática e publicitária parecia ignorar o enraizamento popular da extrema-direita de cariz fascista. Por meio de uma robusta rede de igrejas pentecostais e neopentecostais, que somam mais de 300 mil no país, e dos vínculos do candidato com organizações criminosas, sobretudo milícias, como demonstrado por Bruno Paes Manso5, a extrema-direita controla importantes territórios de favelas por meio da violência e do poder económico. Somados o difuso antipetismo e a rede de associações comerciais, de seguranças privadas e de aparelhos privados de hegemonia (APHs)6 diversos, o bolsonarismo assumiu características massivas, ainda que careça de organicidade partidária. Ao mesmo tempo, boa parte dos grandes capitalistas vinculados aos bancos, aos fundos de investimento, às commodities, às big techs, aos grandes meios de comunicação e aos conglomerados de APHs vinha impulsionando o candidato, tratado como legítimo a despeito de suas ligações perigosas.
Ainda assim, a condução da campanha de Lula seguiu nos estreitos trilhos da publicidade impulsionada por grandes somas de recursos, parte delas destinada às big techs, quando era evidente a falta de materiais elementares para o trabalho de campanha corpo a corpo. Não houve real interpelação nem acionamento dos sindicatos e dos movimentos sociais e estudantis. O silêncio abateu-se sobre as universidades públicas, sucateadas por anos de austeridade.
… à vitória de 25 de outubro: milhões nas ruas do Brasil contra o fascismo
As impressionantes manifestações, as maiores do século, embora não sejam um raio em céu azul, como visto nas grandes manifestações de 2013 e 2019, surpreenderam o país. Durante 20 dias, alcançaram mais de cinco milhões de manifestantes em todas as regiões do país, inclusive em cidades de pequeno e médio porte, conforme estimativas muito preliminares.
A exemplo do que ocorreu no primeiro estalido da rebelião estudantil na França, em 2026, no Brasil também foi um acontecimento molecular, realizado pelos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, localizada em Niterói, uma das raras cidades do estado do Rio de Janeiro que deram vitória a Lula no primeiro turno. Na noite de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, estudantes convocados pelo centro académico se reuniram para avaliar a situação e, em dado momento, concluíram que seria inútil aguardar o comando da campanha para retomar a iniciativa política e decidiram que o caminho era ir às ruas. Nas palavras de Virgínia Fontes, os estudantes “romperam o dique das defesas históricas erguidas pelo PT contra grandes mobilizações (ou ao menos pela maioria do PT), temeroso por saber que essas grandes massas populares podem ser incontroláveis e colocar em xeque alianças e compromissos problemáticos para elas”7. Em meio ao desalento, o ato que reuniu alguns milhares de pessoas ganhou enorme repercussão nas redes sociais, como o Instagram, e serviu de centelha para a deflagração das grandes manifestações. No dia 6, outro grande ato convocado pelas entidades estudantis, mas que ultrapassou largamente seu núcleo militante, aconteceu em Pernambuco, na UFPE, universidade que vinha sendo ameaçada pela extrema-direita e que, dias depois, foi atingida por um incêndio, cujas causas ainda estão sendo apuradas. Nesse mesmo dia, fandoms, como o perfil Taylor Swift Brasil, os fãs de Anitta e outros fã-clubes assinaram um manifesto conjunto convocando seus adeptos a lutar contra o fascismo e a buscar os votos dos mais de 33 milhões de abstencionistas do 1º turno. É importante destacar que esses coletivos, os fandoms, não compõem a organização tradicional das esquerdas estudantis, como os diretórios estudantis, por exemplo, embora parte de seus membros possua relação com partidos e outros coletivos. No dia 8, no Rio de Janeiro, aconteceu a marcha “Juventude na Rua pela Democracia” com forte participação de estudantes secundaristas, reunindo mais de 50 mil estudantes que ecoaram palavras de ordem diretamente antifascistas, contra Bolsonaro e, no caso, em defesa da eleição de Lula. Já nessa marcha, embora não como força convocante, o PT se somou às manifestações que reacenderam a agência das militâncias.
A sucessão de grandes manifestações em Belo Horizonte, Curitiba, Bahia, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, todas gigantescas, as tornou um espaço político para acolher milhares de militantes de outros movimentos que desejavam tomar a campanha nas próprias mãos. No dia 9, centrais sindicais saíram às ruas em luta pelo fim da jornada 6x1, afinal aprovado em 14 de outubro em virtude de amplo apoio popular. No dia 11, em São Paulo, ocorreu a maior manifestação até então realizada, com aproximadamente um milhão de pessoas, convocada de forma independente por movimentos sociais, pelo movimento estudantil e por torcidas organizadas do Palmeiras e do Corinthians e também por entidades que realizam a Marcha LGBT em São Paulo. A manifestação, da qual Lula participou, foi assumida como parte da campanha. As manifestações assinalam o propósito de conexão com as lutas sindicais e do conjunto dos trabalhadores. O tom é o antifascismo. E o intento é dialogar com os 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e com os idosos, assim como virar votos nas franjas da direita. Essas manifestações culminaram no maior ato da campanha, convocado pelo candidato do PT no dia 24 de outubro, com cerca de 2 milhões de pessoas.
Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc.
Para entender o alcance das convocatórias estudantis, que foram se amalgamando à campanha de Lula, é preciso considerar o peso do chamado Exército de Lula, liderado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG), que alcançou mais de 10,5 milhões de pessoas no WhatsApp e que logrou alterar a performance dos algoritmos da Meta com postagens simples, síncronas e massivas. Em poucos minutos, milhões de pessoas foram convocadas para as tarefas do dia, como, por exemplo, aumentar a visibilidade do fim da jornada 6x1, conter as fakenews, sem propagá-las. As redes deixaram de ser monopólio da extrema-direita.
No segundo turno, Lula ampliou sua votação em 10,3 milhões de votos. A abstenção foi reduzida em cerca de 3 milhões de eleitores, o que possibilitou uma vitória por 4,4 milhões de votos.
Passados dois dias do resultado, Trump, após levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ainda não se pronunciou. Toda a União Europeia, a América Latina (exceto Milei), a China, a Rússia e países da Ásia e da África reconheceram o resultado eleitoral. Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc. Impossível deixar de registrar o protagonismo das mulheres. Nas áreas populares, elas afirmaram sua rejeição ao bolsonarismo mesmo quando pastores orientavam o voto em seu candidato. Se a burocracia partidária e sindical tivesse prevalecido, nada disso teria ocorrido. Agora, é preciso extrair as aprendizagens, organizar e assegurar organicidade aos movimentos que resistiram ao avanço fascista. Todas essas mobilizações não podem ser desarticuladas em virtude da vitória eleitoral. E haverá forças que desincentivarão a auto-organização popular. Os partidos e mandatos da esquerda precisam estar vinculados aos movimentos que forjaram essa batalha. É preciso resgatar a prática de prosear8 quotidianamente com o povo. Em resumo, esses vibrantes 20 dias de lutas podem permitir retomar a perspectiva de frente dos trabalhadores como força autónoma para impedir o avanço do neofascismo, unindo-se a outras frações de classe antifascistas (marchar separados, golpear juntos). A estratégia frente dos trabalhadores é condição necessária para enfrentar a austeridade, que é, afinal, a incubadora das novas extremas-direitas no século XXI, e também por poder se consolidar como espaço de formação contra as barbáries que marcam os tempos atuais.
1 Descendentes de africanos escravizados que fugiram de fazendas, engenhos e senzalas durante o período colonial e imperial do Brasil, formando comunidades de resistência chamadas quilombos (NR)
2 PIRES, Breno. “Nosso senador”: Flávio Bolsonaro mandou emenda a miliciano do caso Marielle. Piauí, Rio de Janeiro, 21 set. 2026. Seção Vultos do Rio. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/flavio-bolsonaro-miliciano-peixe/. Acesso em: 27 out. 2026.
3 Temas, reivindicações (Nota da revisão).
4 O fim da escala 6x1 altera a legislação trabalhista, determinando que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal, e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.
5 MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020. MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023. MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Nunes. A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil. São Paulo: Todavia, 2018.
6 O conceito de aparelhos privados de hegenonia baseia-se na teoria do Estado ampliado, de Antonio Gramsci. Refere-se a organizações da sociedade civil (como institutos, fundações e associações empresariais) que, embora formalmente externas ao Estado, atuam na difusão de ideias, valores e consensos alinhados com os interesses do grande capital (NR).
7 Virgínia Fontes. Mantendo o gás. Aprendizados em andamento de uma campanha eleitoral de verdade, quando a política real assume a dianteira e derrota as burocracias e os poderosos.
8 Conversar, dialogar (NR).
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