A geração sanduíche tem rosto de mulher

Partilhar
ilustração: Rita Comedida

São sete da tarde. Marta chega a casa depois de oito horas de trabalho. Ainda tem de preparar o jantar, dar banho à mãe, que já não consegue fazê-lo sozinha, e perceber como vai ajudar o filho adulto a pagar a renda da casa e a prestação do carro, porque o salário não chega para tudo.

Às três da manhã, a mãe, com demência, acorda. Quer sair, regressar a uma casa onde já não vive. Marta levanta-se, acalma-a, tenta convencê-la a voltar para a cama. Às sete, o despertador toca. É preciso ir trabalhar.

No dia seguinte, tudo se repete.

Marta não está sozinha. Há muitas mulheres a viver entre duas gerações que precisam delas. Chamamos-lhes “geração sanduíche”. De um lado, pais que vivem mais anos, nem sempre com autonomia. Do outro, filhos adultos que enfrentam salários insuficientes, precariedade laboral e uma habitação cada vez menos acessível. Pelo meio, mulheres que trabalham, pagam contas, cuidam e adiam a própria vida.

*/Banner Maio*/

Vivemos mais anos. E ainda bem. A longevidade é uma das maiores conquistas da humanidade. Mas a conquista de mais anos de vida trouxe responsabilidades para as quais a sociedade continua insuficientemente preparada. E a emancipação tardia dos mais novos veio prolongar, em simultâneo, as obrigações familiares.

Porque também aqui a desigualdade tem género.

Durante décadas, lutámos pela emancipação feminina, pelo direito ao trabalho, à independência económica e à participação pública. Mas ficou por cumprir uma parte fundamental dessa transformação: reorganizar o cuidado.

As mulheres entraram no mercado de trabalho, mas o trabalho dentro de casa nunca deixou verdadeiramente de lhes pertencer.

E esse trabalho tem um valor económico que raramente entra nas contas. Dar banho, alimentar, administrar medicação, acompanhar consultas, vigiar durante a noite. Horas de trabalho não remunerado que sustentam famílias e aliviam encargos aos serviços públicos. Quanto custaria assegurar profissionalmente todos estes cuidados?

Criámos o Estatuto do Cuidador Informal. Um reconhecimento importante, mas insuficiente. Reconhecer quem cuida não significa garantir-lhe rendimento, descanso, apoio técnico ou condições para continuar a trabalhar. Muitos cuidadores permanecem sem acesso efetivo aos apoios de que necessitam.

Perante respostas públicas insuficientes, listas de espera e serviços economicamente inacessíveis, o cuidado regressa ao lugar onde sempre foi mais fácil colocá-lo: dentro de casa.

E importa perguntar: estará o Estado a transformar a solidariedade familiar numa forma de desresponsabilização pública?

Quando cuidar deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação sem alternativas, estamos perante uma desigualdade social, económica e de género.

Quando faltam respostas, alguém reduz o horário, interrompe a carreira, abdica do descanso. E esse alguém continua a ser, demasiadas vezes, uma mulher.

Chamamos-lhe amor, dever filial, responsabilidade familiar. Mas quando cuidar deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação sem alternativas, estamos perante uma desigualdade social, económica e de género.

Quem tem dinheiro contrata ajuda. Quem não tem paga com o próprio tempo, com o salário que perde, com a saúde que se desgasta. Até a possibilidade de cuidar sem abdicar da própria vida depende da condição económica.

Conheço mulheres que adiam consultas, recusam oportunidades profissionais e vivem divididas entre aquilo que precisam de fazer e aquilo que sentem que não podem deixar por fazer. Conheço também a culpa. A culpa de não acompanhar os pais como gostariam, de não conseguir ajudar suficientemente os filhos, de desejar simplesmente descansar.

E pergunto: quem cuida da mulher que cuida? Quem lhe devolve as noites sem dormir, os anos de carreira, a saúde que se deteriora, a vida que ficou à espera?

Não se trata de retirar às famílias o direito de cuidar, nem de desvalorizar os vínculos que nos unem. Trata-se de garantir que o cuidado não seja imposto pela ausência de alternativas. Que existam serviços públicos e respostas de proximidade, apoios efetivos e uma distribuição mais justa das responsabilidades entre mulheres, homens e Estado.

Afinal, uma sociedade não pode medir o seu progresso apenas pelos anos que acrescenta à vida. Tem também de perguntar em que condições esses anos são vividos e quem suporta o esforço de os tornar possíveis.

Talvez o maior paradoxo seja este: conquistámos mais anos de vida, mas continuamos a organizar a sociedade à custa do tempo de vida de quem cuida. E esse tempo continua a ser, demasiadas vezes, o das mulheres.

Amanhã, Marta voltará a levantar-se às sete. A questão é saber até quando continuaremos a considerar que tudo isto é apenas responsabilidade dela.

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.