Zelig (Woody Allen, 1983)

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O termo mockumentary designa um género de cinema, ou televisão, que apresenta aos espetadores elementos ficcionais no formato de documentário, essencialmente como forma de satirizar uma situação concreta, ou o formato documental em si mesmo.

Ainda que o termo venha dos anos 60 do século XX, foi popularizado por Rob Reiner, a partir do seu notável This is Spinal Tap, notável mockumentary acerca de uma banda rock britânica ficcional, em tournée pelos Estados Unidos. O filme, de 1984, satirizava alguns documentários da época (The Song Remains the Same, dos Led Zeppellin, por exemplo) e foi um grande sucesso para um realizador estreante, que depois veio a ser um dos grandes nomes do cinema americano.

A Hard Day’s Night (Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso, no título português), de Richard Lester, com os Beatles, realizado em 1964, é visto como um dos primeiros exemplos do estilo, que se desenvolveu sobretudo a partir do momento em que os arquivos de cinema e televisão passaram a estar mais disponíveis e a ser mais fáceis de consultar e de utilizar, permitindo a manipulação de imagens originalmente colhidas com propósitos totalmente diferentes.

Seria uma questão de tempo até que a televisão utilizasse o conceito, e duas das mais bem-sucedidas séries americanas de comédia assumiram o formato: “Uma Família Muito Moderna” e “The Office” (esta última, a partir de um original britânico).

Um dos nomes consagrados do cinema americano, que é incontornável quando o tema é o mockumentary, é Woody Allen. Nascido Allan Stewart Konigsberg, escrevia para televisão há já quase 15 anos quando assinou o seu primeiro argumento cinematográfico: What's New Pussycat (1965), realizado por Clive Donner. A sua carreira prosseguiu, com dezenas de realizações de diferentes filmes e a escrita de argumentos originais, de forma muito bem-sucedida, não isenta de polémicas, como as motivadas essencialmente por factos da sua vida pessoal.

Seguiu-se uma série de filmes de cariz significativamente diferente, onde Woody Allen se foi aproximando do melodrama, tendo chegado perto do que teria sido o trabalho de Ingmar Bergman, se alguma vez o realizador sueco tivesse trabalhado na América (sobretudo Stardust Memories, de 1980). The Serpent’s Egg (O Ovo da Serpente, em Portugal), que Bergman fez na América em 1977, por ser um elemento atípico na sua filmografia, não invalida o argumento.

Até que, em 1983, Woody Allen nos apresentou Zelig, a quinta essência do que é o mockumentary.

Leonard Zelig é um personagem que acompanhamos a partir dos anos 20 do século XX. Dos Roaring Twenties até ao início da Segunda Guerra Mundial. Podemos acompanhar o ambiente da América desses denominados anos loucos da década de 20, a que se seguiu a Grande Depressão, e depois a guerra. E, a par de um exercício de pura nostalgia, partimos de uma premissa cómica muito pouco comum, a saber: Zelig tem a capacidade de se adaptar, de forma total, ao meio em que se insere. Mais do que alguém com empatia ou mera capacidade de adaptação intelectual, ele assume as características físicas e psicológicas das pessoas que estão à sua volta. Muda de padrões de discurso, de características físicas (até de raça), chegando a engordar ou a fazer crescer apêndices capilares, se isso contribuir para se confundir com o grupo onde estiver inserido.

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Podemos interpretar esta premissa – a de adaptar literalmente o seu físico e comportamento psicológico do “outro”, moldando-se como cópia – como sendo o de levar, ainda mais longe as premissas do livro O Homem sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. A outro nível, conhecemos a mesma premissa aplicada à análise da personalidade de atores célebres. Existe um episódio dos Marretas com Peter Sellers em que o ator confessa que não tem uma personalidade que seja própria, evoluindo de acordo com as personagens que interpreta, assim como, mais recentemente, tivemos Jim Carrey a encarnar quase literalmente, se possível, Andy Kaufman, no Man on the Moon (Homem na Lua, no título português), de Milos Forman.

Leonard Zelig, uma vez conhecida a sua capacidade excecional, é rapidamente descrito como “o camaleão humano”, e começa a ser tratado como uma atração digna de um freak show (termo que é injustamente traduzido para português como circo de horrores). E rapidamente nos é mostrada a razão de ser desta anomalia: Zelig tem apenas uma profunda necessidade de ser amado e, para isso, de não sobressair de modo errado. Imita o outro para ser aceite. Chegamos a conhecer as condições em que a personagem cresceu, e as vivências que foi atravessando. A vida na América no início do século XX implicava fortes pressões de assimilação cultural e, particularmente relevante para um jovem judeu, de forte antissemitismo. A anulação do “eu” surge como um mecanismo de sobrevivência psicológica para a personagem, que desenvolve assim uma condição (clínica), mais do que um superpoder.

Muitas sequências do filme são particularmente bem conseguidas, exatamente em momentos em que Zelig partilha o ecrã com variadas personalidades relevantes daquela época, lado a lado, mas invisível aos outros, no culminar da sua necessidade de se dar com toda a gente, com efeitos comparáveis ao que muitos anos mais tarde vimos em Forrest Gump, pela mão de Robert Zemeckis.

Usando as melhores técnicas do mockumentary, Woody Allen vai acompanhando as imagens da época com comentários proferidos por personalidades reais e notórias, que dão uma maior credibilidade à ficção que nos é apresentada. Podemos encontrar vários vultos da intelectualidade nova-iorquina da altura em que o filme foi feito, como Susan Sontag, Saul Bellow ou Bruno Bettelheim. 

O enredo, que como seria de esperar não é assim tão complexo, acaba com um final feliz, com a psiquiatra que acompanhava Zelig, e que por ele se interessou, a acabar por desenvolver por ele sentimentos de outra natureza (sentimentos retribuídos também por Zelig, claro!), e essa ligação amorosa (ligação pessoal) acaba por fazer desaparecer a anomalia que o tornava o (tal) “camaleão humano”.

Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço.

Uma questão que se poderá sempre colocar a propósito da criação artística é a de saber o que moveu o autor, desde o primeiro momento. Será sempre possível perguntar se existiu alguma motivação específica para o autor ter desenvolvido este projeto e não outro qualquer. As eventuais referências culturais a que já fiz referência terão um propósito de enquadramento na história que está a ser contada. Mas, afinal, o que terá motivado Woody Allen a criar um personagem como Zelig?

Um dos maiores cineastas da história, ele próprio um cómico de exceção, Charlie Chaplin fez refletir em certas obras algumas das situações que foi enfrentando na sua vida pessoal. A sua vida sentimental acidentada, com vários divórcios problemáticos, gerou o filme Monsieur Verdoux (O Barba Azul, em Portugal). Anos mais tarde, a perseguição política a que foi sujeito pelo governo dos EUA serviu de inspiração ao filme A King in New York (em Portugal, Um Rei em Nova Iorque). 

A verdade é que todos nos cruzámos com pessoas com características parecidas com este Zelig. Todos nós já encontrámos ou lidámos com pessoas que são como esta personagem. Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço. Cada pessoa que encontramos que diga que ainda está à procura de si próprio é possível que seja alguém que tem vindo a deixar um rasto de personagens que foi copiando e que, depois de não serem necessários, são deixados para trás, como uma cobra que abandona uma pele antiga. Por vezes também fazem vítimas, deixando cadáveres no seu caminho. E copiam outros para serem aceites, validados, terem uma vida.

Zelig é, por isso, um grande filme de Woody Allen, injustamente esquecido quando falamos da sua filmografia. Mas é pena.

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