a população trabalhadora e jovem vive uma situação insuportável, causada pelos baixos salários, pela impossibilidade de aquisição ou arrendamento de habitação resultante do império da especulação imobiliária — na qual estão pesadamente implicados os membros do governo e deputados da direita, como revelava o jornal Público de 19 de Outubro;
a esta situação se soma a destruição do serviço nacional de saúde, do ensino público e a degradação dos transportes públicos que os governos têm promovido, retirando à população trabalhadora grande parte dos direitos colectivos que lhes permitiam sobreviver apesar dos baixos salários e promovendo a vergonhosa super-exploração dos trabalhadores imigrantes, quer no trabalho quer nas inaceitáveis condições de habitação;
enquanto isso, a inflação não pára de subir, nomeadamente a dos combustíveis e da alimentação, reduzindo drasticamente o salário real da generalidade dos trabalhadores e o rendimento e a viabilidade de pequenos agricultores, artesãos e micro e pequenas empresas;
o projecto de OE 2027 apresentado pelo governo propõe reduzir o investimento público em 31% e, em particular, o da habitação em quase 70%; cortar o orçamento da saúde em mais de 250 milhões e aumentar o da despesa militar em mais de 500 milhões; aumentar a massa salarial da função pública 2,3%, o que representa um corte brutal do poder de compra dos funcionários; aumentar de 6.700 para 8.200 milhões os pagamentos de juros da dívida pública, grande parte da qual resultante da nacionalização dos prejuízos da banca privada, Banif, BPP, Espírito Santo, etc.; “desagravar” o IRS dos salários médios e mais altos em um a três cafés por semana, concedendo ainda mais subsídios fiscais aos grandes senhorios e fundos imobiliários (“rendas moderadas”) e empresas (redução do IRC); continuar a usar o excedente da segurança social, que representa salário diferido dos trabalhadores, para compensar o défice orçamental causado pelos benefícios concedidos ao grande capital e à finança que parasita a dívida pública;
esta situação ocorre e se agrava num quadro de guerras e genocídios que alastram pelo mundo, tendo-se o governo português comprometido com a NATO/UE a aumentar a despesa militar até 5% do PIB nos próximos dez anos (passando dos actuais seis mil milhões de euros (o dobro do que era há cinco anos) para algo como 25 mil milhões de euros — ou mais), contribuindo, assim, para o alastramento das guerras;
enquanto isso, se multiplicam os desastres ambientais e as agressões às populações do interior, como no Barroso, o negócio dos campos gigantescos de painéis solares, etc.;
a situação descrita afecta toda a população trabalhadora e praticamente toda a juventude que vive, estuda e trabalha em Portugal e nos demais países da Europa e do mundo,
a juventude e a população trabalhadora, em Portugal e nos países europeus vizinhos, está a revoltar-se e mobilizar-se em massa, com toda a justiça, sendo, porém, alvo de repressão violenta dos governos e forças policiais,
os sindicalistas, trabalhadores e jovens reunidos em encontro nacional da Plataforma Unitária de Sindicatos decidem:
manifestar a sua solidariedade incondicional com as mobilizações dos jovens e trabalhadores, em, Portugal, em França, Espanha, Itália, Alemanha e no mundo contra a guerra, pelo direito à habitação, por um ensino e saúde públicos de qualidade e salários, condições de trabalho e pensões que lhes permitam viver com dignidade; e apelar aos sindicatos e centrais para que se associem, apoiem e protejam as acções da juventude trabalhadora e estudantil pelo direito à habitação;
condenar com toda a veemência a repressão que o governo português fez abater sobre os acampamentos de jovens no Porto e em Lisboa e exigir o fim de toda a repressão das mobilizações de jovens e trabalhadores no nosso país e no resto da Europa e do mundo;
exigir a obrigatoriedade de declaração e publicação de todos os fogos devolutos e sua mobilização imediata para alojar as famílias trabalhadoras; exigir a retirada imediata da proposta de novo regime do arrendamento urbano e a revogação de todas as medidas da “lei Cristas”, exigindo o imediato alojamento condigno de todas as famílias trabalhadoras e famílias pobres e vulneráveis, incluindo as imigrantes — até lá ficando proibidos os despejos e congeladas as rendas, travando a sua insuportável subida;
exigir a expropriação dos fundos imobiliários e um termo à transformação da habitação, direito constitucionalmente garantido, num negócio milionário; fixação das rendas em função do rendimento das famílias, num máximo de 30%; garantia de alojamento digno de todas as famílias e lançamento imediato de um plano nacional de habitação, para isso usando as verbas previstas para a despesa militar, os benefícios fiscais para o patronato e o pagamento dos juros ilegítimos da dívida pública;
exigir um aumento geral de salários de 15% para compensar a inflação acumulada, um aumento imediato do salário mínimo para 1.100 euros e indexação automática dos salários e pensões a um cabaz representativo das despesas das famílias trabalhadoras, controlado pelos sindicatos; semana de 35 horas sem redução de salário; fim da precariedade; contratos de trabalho para todos; transporte para e do trabalho gratuito e garantido pela empresas dos trabalhadores de empresas com efectivos superiores a 50;
exigir o financiamento adequado do SNS, da escola pública e do transporte público e reverter todas as medidas tendentes à privatização da saúde, do ensino e dos transportes;
exigir a redução da carga fiscal sobre os produtos de primeira necessidade e combustíveis, onerar os produtos de luxo e expropriar os super-lucros dos operadores energéticos;
rejeitar qualquer tentativa de subversão da segurança social, que é património dos trabalhadores, e de entrega dos seus fundos aos mercados de capitais; e rejeitar qualquer tentativa de voltar a contrabandear, agora medida a medida, o pacote laboral do governo, que foi derrotado pelas nossas greves gerais;
apelar à rejeição do projecto de orçamento para 2027 e a que as centrais sindicais, CGTP e UGT, e todas as direcções sindicais, comissões de trabalhadores e ORTs preparem a greve geral para impedir a sua aprovação na Assembleia da República;
apoiar o apelo das centrais sindicais do Estado espanhol a uma greve geral pela habitação e apelar ao apoio das centrais e direcções sindicais e ORTs portuguesas;
apelar à unidade e convergência da luta de todos os trabalhadores e jovens europeus, com os seus sindicatos e organizações, contra as medidas do capital e de Bruxelas, que a todos afectam, e contra as quais se preparam, já em Novembro, mobilizações de grande envergadura e greves gerais no Estado espanhol, França, Reino Unido, Bélgica, Itália, Alemanha e outros países.
Não aceitamos o caminho da miséria e da guerra! A mobilização fraterna da juventude e dos trabalhadores dos países europeus e de todo o mundo pode e deve pôr fim à caminhada para o abismo económico, social e ecológico.
*Estiveram representados no encontro os seguintes sindicatos: SNPVAC (aviação), SITEU (enfermeiros), S.TO.P (profissionais da educação), STCC (call centres), STGSSP (grandes superfícies), STASA (indústria automóvel), Sindicato dos Estudantes e os movimentos sociais Solidários e Rede Ecossocialista, tendo participado individualmente sindicalistas de vários outros sindicatos. Estiveram presentes como observadores representantes da associação Habitação Hoje.
A intervenção policial no Porto e em Lisboa na noite de 24 para 25 de outubro para desmobilizar as manifestações contra a crise habitacional foi mais um capítulo do uso do aparelho coercivo do Estado em benefício de uma classe exploradora e rentista.
Politicamente morto, o ministro Luís Neves é a representação do que de mais podre existe neste sistema: alguémque se serviu durante anos da sua posição no poder estatal para beneficiar economicamente e que encabeça agora uma operação violentíssima e desproporcional contra manifestações pacíficas. Fá-lo como prova de vida e para rogar o perdão do Chega, que contra ele fez obsessiva campanha durante todo o verão, para agora se deixar seduzir pela sua ação autoritária.
Esta deriva não devia ser surpresa. A elite económico-financeira defende à bastonada os seus interesses, a história demonstra-o. Neste caso, essa elite está não só a influenciar a cúpula governativa, como está ela mesma lá instalada: veja-se o património imobiliário daqueles que nos pedem mais sacrifícios ou para largarmos o “egoísmo”.
Não se agride só a luta pela habitação e as garantias constitucionais que nos restam, mas a experiência verdadeiramente democrática das assembleias populares que, em pequena escala, envolve politicamente as novas gerações, ao contrário do sistema farsante desta república oligárquica. Quando convidado para discursar nas comemorações do 10 de junho de 2019, o inenarrável João Miguel Tavares, passista amargurado e representante da miséria moral e intelectual do “comentariado” mediático, clamou poeticamente à classe política: “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Agora que os jovens acreditam na construção de uma alternativa ao Estado económico e social que nos sufoca, é o mesmo pobre Tavares que, paradoxal mas significativamente, se levanta, não contra a emergência habitacional, mas contra as acampadas e as ideias “comunistas” que lá detetou.
A passividade de António José Seguro perante um dos mais visíveis atropelos às liberdades civis desde abril de 1974 é também um lembrete para os que encostam a esquerda à ditadura do voto útil e do mal menor. Abdicamos da construção de alternativas políticas em nome da defesa da democracia… e levamos bastonadas.
A revolta deve traduzir-se em formulação política. Não queremos defender o statu quo das sádicas alterações ao NRAU aprovadas recentemente pela direita. Queremos que o statu quo seja radicalmente transformado. Urge controlar as rendas e a compra do nosso parque habitacional por investidores e fundos especulativos estrangeiros (e nacionais) e a ampliação da habitação pública, por via de mais construção, recuperação e expropriação de imóveis sem utilidade social.
Apresentemos propostas, pautemos o debate, construamos uma alternativa que conquiste a maioria social.
O termo mockumentary designa um género de cinema, ou televisão, que apresenta aos espetadores elementos ficcionais no formato de documentário, essencialmente como forma de satirizar uma situação concreta, ou o formato documental em si mesmo.
Ainda que o termo venha dos anos 60 do século XX, foi popularizado por Rob Reiner, a partir do seu notável This is Spinal Tap, notável mockumentary acerca de uma banda rock britânica ficcional, em tournée pelos Estados Unidos. O filme, de 1984, satirizava alguns documentários da época (The Song Remains the Same, dos Led Zeppellin, por exemplo) e foi um grande sucesso para um realizador estreante, que depois veio a ser um dos grandes nomes do cinema americano.
A Hard Day’s Night (Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso, no título português), de Richard Lester, com os Beatles, realizado em 1964, é visto como um dos primeiros exemplos do estilo, que se desenvolveu sobretudo a partir do momento em que os arquivos de cinema e televisão passaram a estar mais disponíveis e a ser mais fáceis de consultar e de utilizar, permitindo a manipulação de imagens originalmente colhidas com propósitos totalmente diferentes.
Seria uma questão de tempo até que a televisão utilizasse o conceito, e duas das mais bem-sucedidas séries americanas de comédia assumiram o formato: “Uma Família Muito Moderna” e “The Office” (esta última, a partir de um original britânico).
Um dos nomes consagrados do cinema americano, que é incontornável quando o tema é o mockumentary, é Woody Allen. Nascido Allan Stewart Konigsberg, escrevia para televisão há já quase 15 anos quando assinou o seu primeiro argumento cinematográfico: What's New Pussycat (1965), realizado por Clive Donner. A sua carreira prosseguiu, com dezenas de realizações de diferentes filmes e a escrita de argumentos originais, de forma muito bem-sucedida, não isenta de polémicas, como as motivadas essencialmente por factos da sua vida pessoal.
Seguiu-se uma série de filmes de cariz significativamente diferente, onde Woody Allen se foi aproximando do melodrama, tendo chegado perto do que teria sido o trabalho de Ingmar Bergman, se alguma vez o realizador sueco tivesse trabalhado na América (sobretudo Stardust Memories, de 1980). The Serpent’s Egg (O Ovo da Serpente, em Portugal), que Bergman fez na América em 1977, por ser um elemento atípico na sua filmografia, não invalida o argumento.
Até que, em 1983, Woody Allen nos apresentou Zelig, a quinta essência do que é o mockumentary.
Leonard Zelig é um personagem que acompanhamos a partir dos anos 20 do século XX. Dos Roaring Twenties até ao início da Segunda Guerra Mundial. Podemos acompanhar o ambiente da América desses denominados anos loucos da década de 20, a que se seguiu a Grande Depressão, e depois a guerra. E, a par de um exercício de pura nostalgia, partimos de uma premissa cómica muito pouco comum, a saber: Zelig tem a capacidade de se adaptar, de forma total, ao meio em que se insere. Mais do que alguém com empatia ou mera capacidade de adaptação intelectual, ele assume as características físicas e psicológicas das pessoas que estão à sua volta. Muda de padrões de discurso, de características físicas (até de raça), chegando a engordar ou a fazer crescer apêndices capilares, se isso contribuir para se confundir com o grupo onde estiver inserido.
*/Banner Maio*/
Podemos interpretar esta premissa – a de adaptar literalmente o seu físico e comportamento psicológico do “outro”, moldando-se como cópia – como sendo o de levar, ainda mais longe as premissas do livro O Homem sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. A outro nível, conhecemos a mesma premissa aplicada à análise da personalidade de atores célebres. Existe um episódio dos Marretas com Peter Sellers em que o ator confessa que não tem uma personalidade que seja própria, evoluindo de acordo com as personagens que interpreta, assim como, mais recentemente, tivemos Jim Carrey a encarnar quase literalmente, se possível, Andy Kaufman, no Man on the Moon (Homem na Lua, no título português), de Milos Forman.
Leonard Zelig, uma vez conhecida a sua capacidade excecional, é rapidamente descrito como “o camaleão humano”, e começa a ser tratado como uma atração digna de um freak show (termo que é injustamente traduzido para português como circo de horrores). E rapidamente nos é mostrada a razão de ser desta anomalia: Zelig tem apenas uma profunda necessidade de ser amado e, para isso, de não sobressair de modo errado. Imita o outro para ser aceite. Chegamos a conhecer as condições em que a personagem cresceu, e as vivências que foi atravessando. A vida na América no início do século XX implicava fortes pressões de assimilação cultural e, particularmente relevante para um jovem judeu, de forte antissemitismo. A anulação do “eu” surge como um mecanismo de sobrevivência psicológica para a personagem, que desenvolve assim uma condição (clínica), mais do que um superpoder.
Muitas sequências do filme são particularmente bem conseguidas, exatamente em momentos em que Zelig partilha o ecrã com variadas personalidades relevantes daquela época, lado a lado, mas invisível aos outros, no culminar da sua necessidade de se dar com toda a gente, com efeitos comparáveis ao que muitos anos mais tarde vimos em Forrest Gump, pela mão de Robert Zemeckis.
Usando as melhores técnicas do mockumentary, Woody Allen vai acompanhando as imagens da época com comentários proferidos por personalidades reais e notórias, que dão uma maior credibilidade à ficção que nos é apresentada. Podemos encontrar vários vultos da intelectualidade nova-iorquina da altura em que o filme foi feito, como Susan Sontag, Saul Bellow ou Bruno Bettelheim.
O enredo, que como seria de esperar não é assim tão complexo, acaba com um final feliz, com a psiquiatra que acompanhava Zelig, e que por ele se interessou, a acabar por desenvolver por ele sentimentos de outra natureza (sentimentos retribuídos também por Zelig, claro!), e essa ligação amorosa (ligação pessoal) acaba por fazer desaparecer a anomalia que o tornava o (tal) “camaleão humano”.
Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço.
Uma questão que se poderá sempre colocar a propósito da criação artística é a de saber o que moveu o autor, desde o primeiro momento. Será sempre possível perguntar se existiu alguma motivação específica para o autor ter desenvolvido este projeto e não outro qualquer. As eventuais referências culturais a que já fiz referência terão um propósito de enquadramento na história que está a ser contada. Mas, afinal, o que terá motivado Woody Allen a criar um personagem como Zelig?
Um dos maiores cineastas da história, ele próprio um cómico de exceção, Charlie Chaplin fez refletir em certas obras algumas das situações que foi enfrentando na sua vida pessoal. A sua vida sentimental acidentada, com vários divórcios problemáticos, gerou o filme Monsieur Verdoux (O Barba Azul, em Portugal). Anos mais tarde, a perseguição política a que foi sujeito pelo governo dos EUA serviu de inspiração ao filme A King in New York (em Portugal, Um Rei em Nova Iorque).
A verdade é que todos nos cruzámos com pessoas com características parecidas com este Zelig. Todos nós já encontrámos ou lidámos com pessoas que são como esta personagem. Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço. Cada pessoa que encontramos que diga que ainda está à procura de si próprio é possível que seja alguém que tem vindo a deixar um rasto de personagens que foi copiando e que, depois de não serem necessários, são deixados para trás, como uma cobra que abandona uma pele antiga. Por vezes também fazem vítimas, deixando cadáveres no seu caminho. E copiam outros para serem aceites, validados, terem uma vida.
Zelig é, por isso, um grande filme de Woody Allen, injustamente esquecido quando falamos da sua filmografia. Mas é pena.
Contra as expectativas do PT e até mesmo das sondagens, Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta das presidenciais brasileiras com 2,2 milhões de votos de vantagem. A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro na segunda volta parecia inevitável. Não o foi porquê?
Contra as expectativas do PT e até mesmo das pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 2,2 milhões de votos à frente. Seu campo também elegeu os governadores do Sudeste e do Sul do país, alcançando 11 governadores no primeiro turno, que governarão 63% da população (e 16 governadores, com 71% da população, após o segundo turno), e avançou fortemente no Senado e na Câmara. Consagrou, assim, um lastro político que, diferentemente das condições de seu pai, permitiria à sua base de apoio avançar na implementação não apenas de um governo de cariz fascista, mas de um regime fascista, visto que controlaria também o Supremo Tribunal Federal.
A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro repercutiu de modo profundo em todo o campo progressista. Silêncio, medo e perplexidade anunciavam um quadro de derrota antecipada. Nem os partidos nem a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e as demais centrais sindicais convocaram uma grande vaga de lutas, com a realização de plenárias populares antifascistas. Como superar uma vantagem estimada em 11 milhões de votos? Como proteger a militância e os movimentos populares da turba neofascista?
Centenas de milhares de ativistas sociais dimensionaram o significado prático de um governo ligado às grandes organizações criminosas, entre elas as chamadas milícias, que colocaria o Brasil no Escudo das Américas e radicalizaria a austeridade neoliberal extrema sobre os direitos sociais, como faz Milei. Indicadores da Comissão Pastoral da Terra registram 136 assassinatos de indígenas, quilombolas1 e trabalhadores do campo durante o governo de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro destinou recursos a Peixe, miliciano condenado no caso Marielle Franco2. Assim, movimentos indígenas e contra as mineradoras, torcidas antifascistas, estudantes, movimentos negros, de mulheres e da diversidade, sindicatos, entidades científicas e entidades profissionais foram se somando às manifestações.
Diante da iminente derrota de Lula da Silva no segundo turno, a irrupção de iniciativas autoconvocadas e livres das amarras burocráticas foi decisiva para a reversão do quadro negativo do primeiro turno, conferindo ao segundo turno um inédito caráter de massa e popular não cogitado pela burocracia do PT. Este artigo discute algumas tendências advindas dessa irrupção e defende a importância da reaglutinação de arcos de forças que pratiquem a autonomia diante do novo mandato do atual presidente.
Da derrota de 4 de outubro…
As mobilizações das juventudes, relativamente síncronas e espalhadas pelo mundo, que forjam a cena das lutas populares de 2026, dão visibilidade a novos sujeitos, agendas, métodos e formas de organização capazes de catalisar mudanças na correlação de forças de seus respectivos países e na conjuntura mundial. No seio da geração Z, mas não somente nela, estão se conformando novos sujeitos coletivos nas lutas populares mundiais. No caso brasileiro, as recentes manifestações foram as maiores do século e alcançaram o pico de 2 milhões de pessoas às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro. São perceptíveis a abertura a pautas3 mais amplas das classes trabalhadoras e a maior autonomia diante dos partidos oriundos da esquerda, enrijecidos pelo ciclo vicioso da burocratização e pela assimilação da austeridade como uma segunda natureza. O descolamento entre os movimentos que emergem e as práticas burocráticas desses partidos é acentuado pelo facto de que, quando assumem o governo, eles tratam assuntos públicos como habitação, transporte, educação, ciência, saúde e previdência como esferas a serem dirigidas pela tecnocracia. A despolitização dessas dimensões da vida social pavimenta o avanço das extremas-direitas.
*/Banner Maio*/
O Partido dos Trabalhadores (PT) também vive essa realidade de burocratização e de incorporação profunda dos preceitos da austeridade. O enfrentamento eleitoral com a extrema-direita mostrou-se mais árido do que a estratégia da campanha de Lula havia previsto para o primeiro turno das eleições nacionais. O governo estadunidense, com Trump e Rubio à frente, agiu em favor do candidato neofascista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente. A Meta manipulou os algoritmos, censurou as maiores contas favoráveis a Lula e postergou decisões judiciais, enquanto as igrejas pentecostais e neopentecostais acionavam seus fiéis. É importante lembrar que, até o final do primeiro turno, mesmo temas de forte impacto para as classes trabalhadoras, como o fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso)4, não adquiriram real densidade trabalhista na estratégia de campanha. O fim da escala 6x1 foi tratado não como tema axial das relações de trabalho, mas como medida que demonstrava a preocupação social do candidato, especialmente por ampliar o convívio familiar. A dinâmica burocrática e publicitária parecia ignorar o enraizamento popular da extrema-direita de cariz fascista. Por meio de uma robusta rede de igrejas pentecostais e neopentecostais, que somam mais de 300 mil no país, e dos vínculos do candidato com organizações criminosas, sobretudo milícias, como demonstrado por Bruno Paes Manso5, a extrema-direita controla importantes territórios de favelas por meio da violência e do poder económico. Somados o difuso antipetismo e a rede de associações comerciais, de seguranças privadas e de aparelhos privados de hegemonia (APHs)6 diversos, o bolsonarismo assumiu características massivas, ainda que careça de organicidade partidária. Ao mesmo tempo, boa parte dos grandes capitalistas vinculados aos bancos, aos fundos de investimento, às commodities, às big techs, aos grandes meios de comunicação e aos conglomerados de APHs vinha impulsionando o candidato, tratado como legítimo a despeito de suas ligações perigosas.
Ainda assim, a condução da campanha de Lula seguiu nos estreitos trilhos da publicidade impulsionada por grandes somas de recursos, parte delas destinada às big techs, quando era evidente a falta de materiais elementares para o trabalho de campanha corpo a corpo. Não houve real interpelação nem acionamento dos sindicatos e dos movimentos sociais e estudantis. O silêncio abateu-se sobre as universidades públicas, sucateadas por anos de austeridade.
… à vitória de 25 de outubro: milhões nas ruas do Brasil contra o fascismo
As impressionantes manifestações, as maiores do século, embora não sejam um raio em céu azul, como visto nas grandes manifestações de 2013 e 2019, surpreenderam o país. Durante 20 dias, alcançaram mais de cinco milhões de manifestantes em todas as regiões do país, inclusive em cidades de pequeno e médio porte, conforme estimativas muito preliminares.
A exemplo do que ocorreu no primeiro estalido da rebelião estudantil na França, em 2026, no Brasil também foi um acontecimento molecular, realizado pelos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, localizada em Niterói, uma das raras cidades do estado do Rio de Janeiro que deram vitória a Lula no primeiro turno. Na noite de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, estudantes convocados pelo centro académico se reuniram para avaliar a situação e, em dado momento, concluíram que seria inútil aguardar o comando da campanha para retomar a iniciativa política e decidiram que o caminho era ir às ruas. Nas palavras de Virgínia Fontes, os estudantes “romperam o dique das defesas históricas erguidas pelo PT contra grandes mobilizações (ou ao menos pela maioria do PT), temeroso por saber que essas grandes massas populares podem ser incontroláveis e colocar em xeque alianças e compromissos problemáticos para elas”7. Em meio ao desalento, o ato que reuniu alguns milhares de pessoas ganhou enorme repercussão nas redes sociais, como o Instagram, e serviu de centelha para a deflagração das grandes manifestações. No dia 6, outro grande ato convocado pelas entidades estudantis, mas que ultrapassou largamente seu núcleo militante, aconteceu em Pernambuco, na UFPE, universidade que vinha sendo ameaçada pela extrema-direita e que, dias depois, foi atingida por um incêndio, cujas causas ainda estão sendo apuradas. Nesse mesmo dia, fandoms, como o perfil Taylor Swift Brasil, os fãs de Anitta e outros fã-clubes assinaram um manifesto conjunto convocando seus adeptos a lutar contra o fascismo e a buscar os votos dos mais de 33 milhões de abstencionistas do 1º turno. É importante destacar que esses coletivos, os fandoms, não compõem a organização tradicional das esquerdas estudantis, como os diretórios estudantis, por exemplo, embora parte de seus membros possua relação com partidos e outros coletivos. No dia 8, no Rio de Janeiro, aconteceu a marcha “Juventude na Rua pela Democracia” com forte participação de estudantes secundaristas, reunindo mais de 50 mil estudantes que ecoaram palavras de ordem diretamente antifascistas, contra Bolsonaro e, no caso, em defesa da eleição de Lula. Já nessa marcha, embora não como força convocante, o PT se somou às manifestações que reacenderam a agência das militâncias.
A sucessão de grandes manifestações em Belo Horizonte, Curitiba, Bahia, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, todas gigantescas, as tornou um espaço político para acolher milhares de militantes de outros movimentos que desejavam tomar a campanha nas próprias mãos. No dia 9, centrais sindicais saíram às ruas em luta pelo fim da jornada 6x1, afinal aprovado em 14 de outubro em virtude de amplo apoio popular. No dia 11, em São Paulo, ocorreu a maior manifestação até então realizada, com aproximadamente um milhão de pessoas, convocada de forma independente por movimentos sociais, pelo movimento estudantil e por torcidas organizadas do Palmeiras e do Corinthians e também por entidades que realizam a Marcha LGBT em São Paulo. A manifestação, da qual Lula participou, foi assumida como parte da campanha. As manifestações assinalam o propósito de conexão com as lutas sindicais e do conjunto dos trabalhadores. O tom é o antifascismo. E o intento é dialogar com os 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e com os idosos, assim como virar votos nas franjas da direita. Essas manifestações culminaram no maior ato da campanha, convocado pelo candidato do PT no dia 24 de outubro, com cerca de 2 milhões de pessoas.
Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc.
Para entender o alcance das convocatórias estudantis, que foram se amalgamando à campanha de Lula, é preciso considerar o peso do chamado Exército de Lula, liderado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG), que alcançou mais de 10,5 milhões de pessoas no WhatsApp e que logrou alterar a performance dos algoritmos da Meta com postagens simples, síncronas e massivas. Em poucos minutos, milhões de pessoas foram convocadas para as tarefas do dia, como, por exemplo, aumentar a visibilidade do fim da jornada 6x1, conter as fakenews, sem propagá-las. As redes deixaram de ser monopólio da extrema-direita.
No segundo turno, Lula ampliou sua votação em 10,3 milhões de votos. A abstenção foi reduzida em cerca de 3 milhões de eleitores, o que possibilitou uma vitória por 4,4 milhões de votos.
Passados dois dias do resultado, Trump, após levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ainda não se pronunciou. Toda a União Europeia, a América Latina (exceto Milei), a China, a Rússia e países da Ásia e da África reconheceram o resultado eleitoral. Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc. Impossível deixar de registrar o protagonismo das mulheres. Nas áreas populares, elas afirmaram sua rejeição ao bolsonarismo mesmo quando pastores orientavam o voto em seu candidato. Se a burocracia partidária e sindical tivesse prevalecido, nada disso teria ocorrido. Agora, é preciso extrair as aprendizagens, organizar e assegurar organicidade aos movimentos que resistiram ao avanço fascista. Todas essas mobilizações não podem ser desarticuladas em virtude da vitória eleitoral. E haverá forças que desincentivarão a auto-organização popular. Os partidos e mandatos da esquerda precisam estar vinculados aos movimentos que forjaram essa batalha. É preciso resgatar a prática de prosear8 quotidianamente com o povo. Em resumo, esses vibrantes 20 dias de lutas podem permitir retomar a perspectiva de frente dos trabalhadores como força autónoma para impedir o avanço do neofascismo, unindo-se a outras frações de classe antifascistas (marchar separados, golpear juntos). A estratégia frente dos trabalhadores é condição necessária para enfrentar a austeridade, que é, afinal, a incubadora das novas extremas-direitas no século XXI, e também por poder se consolidar como espaço de formação contra as barbáries que marcam os tempos atuais.
1 Descendentes de africanos escravizados que fugiram de fazendas, engenhos e senzalas durante o período colonial e imperial do Brasil, formando comunidades de resistência chamadas quilombos (NR)
2 PIRES, Breno. “Nosso senador”: Flávio Bolsonaro mandou emenda a miliciano do caso Marielle. Piauí, Rio de Janeiro, 21 set. 2026. Seção Vultos do Rio. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/flavio-bolsonaro-miliciano-peixe/. Acesso em: 27 out. 2026.
3 Temas, reivindicações (Nota da revisão).
4 O fim da escala 6x1 altera a legislação trabalhista, determinando que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal, e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.
5 MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020. MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023. MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Nunes. A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil. São Paulo: Todavia, 2018.
6 O conceito de aparelhos privados de hegenonia baseia-se na teoria do Estado ampliado, de Antonio Gramsci. Refere-se a organizações da sociedade civil (como institutos, fundações e associações empresariais) que, embora formalmente externas ao Estado, atuam na difusão de ideias, valores e consensos alinhados com os interesses do grande capital (NR).
7 Virgínia Fontes. Mantendo o gás. Aprendizados em andamento de uma campanha eleitoral de verdade, quando a política real assume a dianteira e derrota as burocracias e os poderosos.
A Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência.
ilustração: Ricardo Ferreira
Em 1961, Dwight D. Eisenhower, então ainda presidente dos EUA, proferiu seu famoso discurso de despedida, popularizando o termo ‘complexo industrial-militar’. Nele, Eisenhower alertava para os riscos crescentes de uma larga influência da indústria bélica e corporações privadas no Departamento de Defesa e, assim, na política nacional estadunidense. O termo ganhou crescente relevância para a compreensão geopolítica das dinâmicas entre capital corporativo e Estado, desde suas relações internas, até o estudo dos imbróglios internacionais atrelados à posição imperialista dos EUA — único país com centenas de bases militares ao redor do globo — e suas constantes interferências, diretas ou indiretas, na política nacional de diversos países.
Posteriormente, um novo termo seria frequentemente adicionado à equação: o complexo seria descrito nos termos ‘industrial-militar-académico’, expressando a tríade que organiza pesquisa e desenvolvimento tecnológico e científico atrelado aos interesses políticos, militares e do capital norte-americano, central na disputa internacional por hegemonia. É razoável reconhecer que a centralidade dessa relação na estruturação do poder estadunidense é anterior à própria emergência do termo, especialmente com a intensificação da relação entre os setores promovida pelos processos da II Guerra, que englobam tanto o desenvolvimento das armas nucleares, quanto a emergência das tecnologias digitais como conhecemos hoje. Não é difícil demonstrar, inclusive, como estas são duas facetas fundamentais e intimamente interligadas na dinâmica de domínio militar e político dos EUA desde o pós-guerra.
Com heranças teóricas do século XIX no campo da lógica e da matemática, a criptografia aparece como questão relevante já nas corridas tecnológicas da I Guerra, mas é com a corrida criptográfica em torno da máquina Enigma que irão se estabelecer tanto sua centralidade militar quanto os pressupostos fundamentais da computação moderna (famosamente, por Alan Turing, partindo de grandes contribuições do criptologista polonês Marian Rejewski). A computação torna-se assim de interesse militar logo na primeira metade do século passado, e seu papel no desenvolvimento de armas nucleares (e, posteriormente, na corrida espacial) também será fundamental, através de máquinas desenvolvidas para a automação do cálculo, operadas fundamentalmente por computadores (de facto, em sua maioria computadoras, desígnio de ofício para uma tarefa desempenhada principalmente por mulheres desde as navegações coloniais, pelo cálculo astronómico de rotas marinhas).
O desenvolvimento científico-militar encampado pelo Projeto Manhattan acelerou diretamente o advento dos primeiros computadores eletrónicos digitais, com John von Neumann exercendo papel fundamental. Matemático, físico, engenheiro e cientista da computação, foi dele a ideia de utilizar os problemas hidrodinâmicos e de fissão nuclear para teste dos primeiros códigos lógicos do ENIAC, primeiro dispositivo digital eletroeletrónico de grande escala, substituindo a computação eletromecânica do Harvard Mark I. Von Neumann tornar-se-ia o pai da arquitetura moderna do hardware computacional, utilizada até os dias de hoje. Posteriormente, desenvolveria, em Los Alamos, o MANIAC, voltado principalmente para simulações termonucleares, desenvolvimento armamentista, mas também em pesquisas genéticas, hidrodinâmicas e na física de partículas.
Tudo isso foi possibilitado também graças ao advento da teoria matemática da informação, desenvolvida por Claude Shannon, que apresentaria categorias fundamentais como a unidade fundamental do bit (contração do termo ‘unidade binária’, em inglês), a codificação binária da informática usada até hoje e a chamada teoria da ‘entropia informacional’. Esses desenvolvimentos se deram na época da efervescência cibernética, campo de estudos interdisciplinares que almejavam uma meta-linguagem transversal ao campo das ciências humanas e naturais — com seu início demarcado nas Conferências de Macy (1946-1953). A palavra, derivada do grego Kubernetes, tem raiz etimológica comum à noção de ‘navegação’ e ‘governo’. Com princípios e finalidades definidos por Norbert Wiener nos termos da “comunicação e controle no animal e na máquina”, a cibernética logo despertou o interesse militar nos EUA.
Os integrantes da cibernética, muitos que já frequentavam o então emergente complexo industrial-militar, são historicamente reconhecidos como pioneiros em diversos campos da tecnologia digital contemporânea, como foi o caso dos primeiros modelos teóricos de redes neurais artificiais, proposto por McCulloch e Pitts, ainda em 1943, antecipando um dos paradigmas fundamentais na tradição das inteligências artificiais — o paradigma conexionista, em contraste com o paradigma simbólico, ambos formalizados em 1956, no Darthmouth College. Em 1957, Frank Rosenblatt desenvolve o Perceptron, um modelo cognitivo fundacional na história das IAs conexionistas.
*/Banner Maio*/
Na época, quando trabalhava no Laboratório Aeronáutico de Cornell em Buffalo, onde rodou seu programa em um IBM 704, Rosenblatt conseguiu financiamento do ramo de sistemas de informação do Departamento de Pesquisa Naval norte-americano além do Centro de Desenvolvimento Aéreo de Rome (um laboratório voltado para pesquisas em ‘controle, comando e comunicação’) para desenvolver o Perceptron Mark I. O objetivo principal deste aparelho era a automação do reconhecimento de padrões, um dos primeiros sistemas algorítmicos para a aprendizagem de máquinas [machine learning] — termo que seria cunhado por Arthur Samuel em 1959 —, e que tinha como objetivo prático a análise de imagens desde a modelização dos padrões de formas geométricas. Temos os primórdios da corrida militar no campo das IAs que é, hoje, quase 70 anos depois, eixo central na dinâmica da guerra contemporânea.
Durante a segunda metade do século XX, a pesquisa e o mercado das IAs passaram por diferentes “primaveras” e “invernos”. É relevante notar que os desdobramento das tecnologias digitais durante a Guerra Fria também afetaram diretamente a conceituação teórica do pensamento militar. Em meio às tensões da era atómica e da corrida espacial, na chamada “polarização” entre o eixo capitalista e o socialista, o vocabulário militar expandiu a sigla C2[Comando e Controle] para C3I [Comando, Controle, Comunicações e Inteligência] e, finalmente, para C4ISTR[Comando, Controle, Comunicações, Computação, Inteligência, Vigilância, Obtenção de alvos e Reconhecimento], demonstrando cada vez mais a inserção dos imperativos digitais na lógica militar. Essa expansão é concomitante à proliferação da lógica paranóica (mas não delirante) instituída pelas armas de destruição em massa, inauguradas com a própria bomba atómica, impondo uma nova era da dissuasão, além da necessidade de novas tecnologias para controle ostensivo, vigilância e inteligência militar.
A era atómica, como bem analisada por Günther Anders, atualizou de modo radical os impasses geopolíticos, de certo modo antecipando a globalização pela via do negativo bélico — e foi o desenvolvimento e a disputa por hegemonia no campo das tecnologias digitais que veio responder a tais impasses. O acordo de Bretton-Woods, que funcionou como arquitetura do domínio financeiro imperial no pós-guerra, dando vantagens estratégicas para o dólar, possibilitou também o financiamento e avanço das pesquisas científicas nos EUA, dando uma vantagem económica assimétrica ao país, com o custo da violência imperial ao redor do globo. Curiosamente, o final do acordo acontece no mesmo ano em que o primeiro microprocessador é comercializado globalmente, ano que marca tanto um reordenamento da dinâmica financeira (e militar) no capitalismo global, quanto uma nova era da tecnologia digital. Também é o ano de lançamento do mercado de ações em forma eletrónica, com a Nasdaq, marcando o processo de financeirização do capitalismo global.
Nos anos seguintes, com o fim do rastreamento do dólar em ouro, a política internacional militar estadunidense incita o processo de predação do mercado petrolífero que transporta a lógica da guerra imperial para o “Oriente Médio”, fundando e mantendo, na base das desestabilizações, intervenções, e da bala, a configuração do petrodólar. Os anos 1980 são marcados pela generalização da temporalidade digital nas tecnologias militares, o “Tempo Real” diagnosticado pela dromologia de Paul Virilio, com novos sistemas de radares, satélites e computadores voltados ao monitoramento e alerta precoce de ameaças bélicas nucleares. A transmissão simultânea de incursões militares ganha, nos anos 1990, um marco fundamental com a Guerra do Golfo, na mesma época em que é lançada a World Wide Web — a rede global de computadores, lastro para as teorias da globalização e da era da informação.
Derivada do modelo militar norte-americano de 1969 (a ARPANET), a internet inaugura um processo de interconexão global que implica na produção, armazenamento e processamento de dados em escala massiva progressiva, o que possibilitaria posteriormente a emergência do Big Data e o treinamento de IAs, com os avanços em software e hardware, dando as bases para a plataformização contemporânea. Chegamos, enfim, ao início do ‘novo milénio’, marcado pelo ataque ao World Trade Center, que dá início à retórica da ‘guerra ao terror’ e cria as condições para desenvolvimentos digitais e militares que dão as bases do contemporâneo. A automação da guerra, antecipada por Virilio, irá encontrar, pela tecnologia dos aviões não tripulados, sua realização seminal em enxames de drones, a radicalização da alienação técnica de incursões e execuções em sua expressão digital — a relação entre sub-limiar e supra-limiar, analisada por Günther Anders frente à alienação do genocídio pela bomba, é atualizada digitalmente no extermínio localizado cada vez mais precisão.
Outro elemento fundamental será desdobrado após os ataques do 11 de setembro de 2001. Notando lacunas na integração de dados entre as agências estatais americanas de informação e inteligência, empreendedores ligados ao ramo de tecnologia de Silicon Valley encontram tanto uma motivação política quanto um nicho de mercado sensível e fundamental que irá se desdobrar na criação de uma das empresas mais sensíveis e fundamentais na fronteira entre militarização e digitalização contemporânea. Peter Thiel, que esteve envolvido em problemas referentes ao uso fraudulento da sua plataforma para transações económicas digitais, originada no "boom das dotcom", o PayPal, recebeu como resposta de seu sócio o desenvolvimento de um software que, utilizando técnicas algorítmicas, garantia a segurança de transações na plataforma. Batizado de Igor, o primeiro golpista interceptado pela ferramenta, a tecnologia anunciava uma nova era na integração de dados online.
Com o 11 de setembro, Thiel encontra então uma nova utilidade para seu software na urgência da guerra ao terror. Buscando estabelecer relações com o ramo de defesa do governo americano, irá entrar em contacto com Alex Karp, que torna-se um entusiasta do projeto. Será então, entre os anos de 2004 e 2005, que sua empresa passa a receber fundos do braço de investimento em capital de risco da CIA, a In-Q-Tel, possibilitando também a parceria entre seus engenheiros e analistas da central de inteligência, desenvolvendo o software de análise de dados que originou a, hoje conhecida, plataforma Gotham. É essa a história de surgimento da Palantir, que encontrou nos adventos do 11 de setembro tanto sua razão de ser quanto as coordenadas da digitalização que passam a fragmentar a (já deletéria) fronteira entre esfera civil e militar nas décadas seguintes.
Hoje, a empresa representa o principal núcleo corporativo, tecnológico e ideológico no processo ostensivo de justaposição da militarização como característica coextensiva da experiência cotidiana, mediada pelo digital. Unindo serviços para empresas e exércitos sob lógicas comuns em diferentes perspectivas, a Palantir integra um vocabulário filosófico — cortesia do próprio Karp, familiarizado com a teoria crítica, ex-estudante da Goethe-Universität Frankfurt, onde desenvolveu seu doutoramento em filosofia sobre a Agressão no Mundo da Vida [Aggression in der Lebenswelt] defendido em 2002 — ao discurso armamentista-empresarial, realizando a atualização do novo ‘complexo industrial-militar-digitalizado’ estadunidense pela integração de metadados, articulação em “tempo real” do “campo de batalha” e aceleração da “cadeia [produção] de morte”, em novos sistemas de vigilância e produção de alvos que prometem ser a vanguarda na defesa do legado ocidental pela manutenção do império norteamericano — como vemos no uso ostensivo do sistema Maven, tanto pelo exército de Israel (cliente fundamental da Palantir), quanto pelo exército dos EUA (por exemplo, na seleção da escola feminina Shajareh Tayyebeh, no Irão, como alvo militar, resultando no assassinato de 175 pessoas, em sua maioria crianças).
Com todo esse contexto, as manifestações públicas de Karp precisam ser interpretadas para além do personagem “excêntrico” e “exótico”, mas como a propaganda ideológica de um verdadeiro programa político. Muito longe de meras bravatas, sua retórica sobre impor medo aos inimigos políticos e estabelecer um combate ao multiculturalismo liberal (que tem como alvo “mulheres académicas progressistas” em contraposição aos “homens da classe trabalhadora)” são estratégias — partem de um doutor em filosofia que teve sua pesquisa de doutoramento focada na naturalização da violência na retórica pós-hitlerista alemã. A publicação que ficou conhecida como “manifesto da Palantir”, resumindo em 22 pontos o que é apresentado no seu livro A República Tecnológica, em co-autoria com Nicholas W. Zamiska, defende, entre diversos pontos, a era digital como superação da era atómica — elemento central na apologia do desenvolvimento de sistemas de armas autónomos movidos por IA.
Entre o pensamento posterior de Epimeteu e a antevisão de Prometeu, a Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência que ultrapassa em muitos sentidos — e condições ontológicas — as dinâmicas do século passado. Para combater esse programa totalizante e com explícitas conotações neofascistas — como expresso na defesa da superioridade de determinadas civilizações em relação a outras, que deveriam ser submetidas (ou exterminadas) pela força —, é necessário uma esquerda liberta, antes de tudo, das limitações simbólicas (i.e., também materiais) impostas pelos processos da última década, onde a neoliberalização formatou a gramática emancipatória em uma retórica de gestão das crises do capital. A era de gestão das crises está em processo de obsolescência, programada desde suas origens. Resta a nós lutarmos contra a automação da barbárie.
SUBSCREVE O MAIO
E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.
Apoia o Maio!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.