Greve geral no Minnesota — e na América — pode ser precursora
Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros.
Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros.
Hoje, o estado de Minnesota fecha portas, em solidariedade.
É a primeira greve geral do país em resposta à violência de Trump.
Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros. Um apagão económico.
Os militantes começaram a chamar ao dia de hoje “Dia da Verdade e da Liberdade”.
É um modelo possível do que o país no seu todo pode fazer nos próximos meses em repúdio à ditadura de Trump.
Escrevendo no TNR [The New Republic] de ontem, Ana Marie Cox destaca a naturalidade com que o estado do Minnesota se põe à cabeça neste tipo de situações. “É impossível sobreviver a um inverno do Minnesota sem ajuda, e nem sempre a ajuda vem dos vizinhos imediatos. São verdadeiras as histórias de pessoas que se põem a limpar a neve dos caminhos de entrada de carros em quarteirões inteiros sem ninguém lho pedir e sem receberem qualquer compensação, mas verdadeiros milagres (e não menos comuns) são as ocasiões em que estranhos param para ajudar alguém a desimpedir um carro enterrado num banco de neve ou tiram dos porta-bagagens areia sanitária para o gato, lá posta exactamente para emergências destas.”
Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros.
Mas o que está a acontecer hoje pelo Minnesota fora é mais do que ajuda mútua entre vizinhos; é o poder popular a falar. Federações sindicais, a [central sindical] AFL-CIO e centenas de empresas coordenam a paralisação económica deste dia em resposta directa à invasão do Minnesota pelos jagunços federais de Trump.
Cox não se engana sobre a cultura do Minnesota. “As pessoas prestam ajuda sem hesitar nem perguntar; acho que nunca ouvi ninguém responder a um agradecimento dizendo ‘nada, retribui-me de outra vez’. Claro que se retribui, toda a gente sabe que é assim. Há quem se possa surpreender por esta generosidade coexistir com a tenaz microdistância interpessoal característica do Médio Oeste (Midwest), que pode demorar anos a dissipar. É que a cautela do relacionamento tem que ver com a universalidade do princípio de que não se ajuda alguém por se gostar da pessoa; ajuda-se, simplesmente.”
Eu acrescentaria, todavia, que a cultura que Cox aponta também se encontra nas ruas e vielas de todos os estados da América. Mergulha raízes numa longa tradição de poder popular. E ajuda a explicar porque superou a mobilização de Minneapolis barreiras de classe e de raça ainda mais radicalmente do que a resposta ao assassinato de George Floyd — e porque uma mobilização semelhante se está a produzir em todo o país.
É o predicado da resistência popular e da participação generalizada de moradores recém-mobilizados contra a ocupação pelo ICE e a tirania de Trump.
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Como diz Cox, “é mais do que os oito minutos de crueldade assassina captados por um telemóvel, é mais do que o assassinato de Renee Nicole Good. O ICE é um exército de Derek Chauvins e Jonathan Rosses [os assassinos de George Floyd e de Renee Good], largados para pôr a cidade a ferro e fogo todos os dias. A memória é viva, o trauma, imediato e duradouro, e a força que subjaz à resposta é fruto de décadas de trabalho”.
A decência dos habitantes de Minnesota reflecte-se nas igrejas luteranas que foram a semente do que veio a ser a maior população de refugiados per capita dos Estados Unidos. O Minnesota já tinha movimento sindical quando ainda não era um estado. O Minnesota criou o primeiro fundo mútuo de alto risco do país para segurar os “inseguráveis”, em 1976.
Sementes idênticas se encontram em cada estado e em cada comunidade.
Cox insta-nos a, no nosso canto, olhar em volta. Talvez a nossa própria comunidade esteja precisada da nossa ajuda para ajudar a semear um módico de capacidade de resistência — agora, antes que apareça uma crise que nos consuma, e ainda que o clima não seja subárctico.
Agora não é má altura para ir pôr víveres num frigorífico de acesso gratuito da nossa cidade. Ou então descobrir algum trabalho que se possa fazer por um vizinho, agora, antes de ele precisar mesmo. Ou então frequentar uma formação sobre a maneira de administrar naloxona. Oferecer-se para passear cães. Começar um armazém de ferramentas comunitário. Decorar uns nomes.
Inscrever-se na vigilância ao ICE (ICE watch) que se está a formar nas redondezas de cada um; quase de certeza que o ICE já anda por aí.
Ainda mais importante é compenetrarmo-nos de que o que Trump anda a fazer a Minneapolis é o modelo do que Trump tenciona fazer na terra de cada um de nós.
Que a greve geral do Minnesota seja o nosso modelo de como lhe vamos responder à escala nacional.
In https://robertreich.substack.com/
*Robert Reich é um professor, escritor, jurista e comentador político americano. Trabalhou nas administrações dos presidentes Gerald Ford e Jimmy Carter. Foi ministro do Trabalho do presidente Clinton de 1993 a 1997.
Depois de Renee Good, a milícia trumpiana ICE assassina mais um trabalhador de Minneapolis
No dia 24 de Janeiro, a milícia nazi de Trump, ICE, assassinou a sangue frio mais um trabalhador de Minneapolis. Desta vez, foi um enfermeiro, Alex Pretti, de 37 anos.
Pretti tinha um telemóvel na mão. Tentou ajudar uma manifestante, brutalmente derrubada pelos milicianos de Trump, a levantar-se. Foi então atacado e derrubado por vários agentes que, quando ele se encontrava no chão, dispararam contra ele uma dezena de tiros à queima-roupa.
A administração Trump apressou-se a dizer que era um “terrorista interno” armado, história absurda que mantém quando vídeos que circulam nas redes sociais e na grande comunicação social mostram o contrário: Alex Pretti estava armado de um telemóvel… Provavelmente a arma mais perigosa que podia levar consigo.
Publicamos excertos de um comunicado do sindicato em que Alex Pretti era filiado, o National Nurses United, o maior sindicato e associação profissional de enfermeiros habilitados dos EUA, com mais de 225 mil membros, dos quais 80 mil no estado do Minnesota.
“Os enfermeiros deste país, cuja missão é cuidar e salvar vidas humanas, manifestam o seu horror e indignação ante o assassinato a sangue frio perpetrado, uma vez mais, por agentes do serviço de imigração contra alguém que observava sem lhes fazer qualquer ameaça. Desta vez, executaram um enfermeiro nosso colega, Alex Pretti, cujo trabalho numa unidade de cuidados intensivos adstrita ao VA, o Serviço de Saúde dos Veteranos consistia em salvar a vida de antigos combatentes. Como membro da Federação Americana de Funcionários do Estado (AFGE), ele não só intercedia pelos interesses dos seus pacientes da VA, como levava esse trabalho para as ruas, intercedendo pela sua comunidade, como é dever de um enfermeiro. Exigimos justiça e apuramento de responsabilidades pelo seu assassinato.
O ICE e todas as agências de imigração com ele relacionadas têm demonstrado repetidamente, pela violência, terror e ilegalidade com que actuam, que representam uma grave ameaça à saúde pública de todo o país e de todas as nossas comunidades. Os agentes do ICE têm raptado pessoas que trabalham duramente: mães, pais, filhos. Assassinaram agora um enfermeiro, membro de uma das profissões que mais confiança merecem ao país.
Os enfermeiros exigem a extinção imediata do ICE
Os enfermeiros são formados para responder a situações de emergência, por isso vimos exigir acção urgente para parar com a violência do ICE nas nossas comunidades. O National Nurses United apela a votar contra o projecto de lei que afecta dotações orçamentais à Segurança Interna, submetido à aprovação do Senado na semana que vem, e exige que o Congresso extinga definitivamente o ICE. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que os deputados que apoiem o financiamento deste ataque sem freio à saúde, segurança e direitos civis do nosso povo não sejam reeleitos.
Extinção do ICE já!
O National Nurses United é o maior sindicato e associação profissional de enfermeiros habilitados dos Estados Unidos e o que mais tem crescido. Entre os sindicatos filiados no NNU incluem-se a California Nurses Association / National Nurses Organizing Committee, a DC Nurses Association, a Michigan Nurses Association, a Minnesota Nurses Association e a New York State Nurses Association.”
Tradução de Adriano Zilhão. O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os ferroviários espanhóis, que vivem momentos de profunda dor e angústia.
Perante esta tragédia, o SFRCI expressa a sua solidariedade para com os trabalhadores ferroviários espanhóis, reconhecendo o impacto humano e profissional de acontecimentos desta natureza numa classe que diariamente assume responsabilidades fundamentais na segurança e no transporte de passageiros.
As referências à eventual falha dos sistemas de segurança e à insuficiência de meios redundantes de protecção, capazes de assegurar a operação em condições de segurança quando os sistemas digitais falham, reforçam a necessidade de uma investigação rigorosa e independente, que permita apurar as causas do acidente e retirar todas as conclusões necessárias à prevenção de futuras tragédias.
A segurança ferroviária tem de ser uma prioridade absoluta e inegociável. A tecnologia é fundamental, mas não pode constituir a única barreira de protecção. É indispensável garantir sistemas de segurança fiáveis, mecanismos redundantes de recurso, manutenção adequada, investimento contínuo nas infraestruturas e condições de trabalho que permitam aos profissionais desempenhar as suas funções com segurança.
Nenhuma consideração económica ou operacional pode sobrepor-se à vida humana. Um sistema ferroviário verdadeiramente seguro exige prevenção, investimento, responsabilidade e respeito por todos os trabalhadores e passageiros.
Neste momento de dor, a Direcção do SFRCI associa-se ao luto dos ferroviários espanhóis e de todo o sector ferroviário, reiterando a sua solidariedade para com as famílias enlutadas e desejando uma rápida e plena recuperação a todos os feridos.
Às vítimas mortais, a nossa homenagem. Às famílias, as nossas sentidas condolências. Aos feridos, os votos de rápidas melhoras. Aos ferroviários espanhóis, a nossa solidariedade fraterna.
A tragédia ferroviária de 28 de outubro, em Urda, Toledo, exige respostas que não se compadecem com a simples alegação de erro humano. Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.
As primeiras notícias atiram imediatamente o foco para quem, alegadamente, tomou uma decisão errada. Mas identificar um eventual erro individual não explica a avaria inicial, a organização do trabalho, nem por que razão as restantes barreiras de segurança não impediram o desastre.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano. Quando ocorre uma avaria, essas exigências multiplicam-se precisamente quando cada decisão requer maior cuidado.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano.
Teria uma equipa reforçada, com funções claras de apoio e verificação, permitido detetar o perigo a tempo? A investigação deve responder. Não basta contar pessoas numa sala. Importa perceber que apoio estava disponível e como funcionou.
A redundância na segurança também se faz com trabalhadores.É necessário prever o erro e garantir meios para o detetar e corrigir, antes de provocar consequências irreversíveis.
José Luis Villa, antigo diretor-geral da Renfe, questionou no El Mundo a explicação centrada no indivíduo, apontando responsabilidades de gestão e problemas de coordenação. A sua avaliação não substitui a investigação, mas lembra que as decisões de quem organiza e dirige também devem ser escrutinadas.
Portugal precisa de ter esta discussão perante a perspetiva de mais empresas de passageiros na rede. Pergunto: mais operadores e circulações serão acompanhados por investimento na infraestrutura, manutenção, contratação e coordenação? Se aumentarem as exigências sem aumentarem os meios, não estaremos a criar condições para um risco acrescido?
Esta discussão também exige olhar para as prioridades do investimento. A modernização ferroviária deve melhorar as deslocações quotidianas, ligar populações e garantir alternativas de transporte. Os comboios suburbanos, regionais e serviços do interior precisam de investimento continuado, tal como as oficinas e os profissionais que asseguram o seu funcionamento. A alta velocidade não dispensa uma rede de proximidade fiável.
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O valor de um serviço público não se mede apenas pela receita dos bilhetes. Mede-se também pelas populações que serve, pela coesão territorial e pela segurança que oferece. E qualquer modelo de exploração deve ser avaliado por esses critérios.
Entretanto, os maquinistas espanhóis já tinham uma greve convocada para 29 de outubro. Exigiam melhorias de segurança, comunicações de emergência, contratação e cumprimento das pausas. Não sabemos se essas medidas teriam evitado esta tragédia. E se tivessem? Sabemos que os trabalhadores já reclamavam respostas e queriam ser ouvidos. E se tivessem sido?
Quando uma greve é apresentada apenas pelos transtornos que provoca, fica por explicar aquilo que os trabalhadores procuram proteger. Defender quem trabalha na ferrovia é também defender quem viaja. A segurança exige investimento, organização e trabalhadores em número suficiente para a garantir.
O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança públicas, mas a repressão contra quem luta por direitos. São um corpo dos empresários e do Estado, foi assim em 1838, na Maria da Fonte, na República e no Estado Novo, é assim hoje no Rossio e em Covas de Barroso.