Jornal Maio

A juventude recusa ir para o matadouro

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército

Ucrânia: “Cada deserção aproxima-nos da paz”

Era esse o titulo da página antimilitarista ‘Assembleia’ (Ассамблея) da cidade ucraniana de Kharkiv, no dia 24 de Fevereiro, quarto aniversário do início da guerra.

Nesta página web tomam a palavra desertores ucranianos — que, segundo números do governo, se contam por uns duzentos mil. Um dos testemunhos: “A Ucrânia é Zelensky, como o Império Romano era César. O Ocidente deu-lhe dinheiro para fazer a guerra e Moscovo deu-lhe garantias de segurança. Nem a sua autoridade nem a sua integridade estão ameaçadas. A linha da frente, algures no Donbass, não mexe há quatro anos e continuará sem mexer mais três. O Exército ucraniano é um grupo de sem-abrigo (no sentido literal do termo) que combate contra outro grupo de sem-abrigo. Dão-te uma Kalachnikov, dois carregadores, duas granadas, e mandam-te combater. Dois exércitos de sem-abrigo que lutam sem a mínima perspectiva. Que moralidade se há-de esperar deles? (…) Vi um responsável de uma das nossas administrações militares a falar apaixonadamente. Sustentava, entusiasmado, que 50% dos soldados recrutados à força em rusgas de rua para serem mandados para a linha da frente se tornariam em soldados muito patriotas que tomariam de assalto as zonas ocupadas. Talvez fosse assim em 2023, até no primeiro semestre de 2024, mas tudo isso pertence ao passado. Mesmo entre os potencialmente motiváveis, o sistema abafa qualquer motivação logo à cabeça. Os soldados mobilizados ficam meses sem receber. (…) E por cada soldado ucraniano há dez chuis do alto comando e do SBU [serviços de segurança da Ucrânia, Ndr] a vigiá-lo.” 

 

Rússia: “Sois cobardes?” 

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército. A directora Kirsanova reuniu então os 400 estudantes de dezoito anos de idade e lançou-se numa longa tirada de imprecações contra eles. A cena foi filmada por um estudante e vazada para as redes sociais. A directora acusou os jovens de só se terem inscrito no instituto para conseguirem adiar o serviço militar até “a guerra acabar”. Aos berros: “Gente, é a pátria que chama! Têm de aceitar! De que têm medo? Têm medo de regressar num caixão de zinco? De onde vos vem esse medo? Quem vo-lo inspirou? (…) Vocês são cobardolas, para aí sentados, aterrorizados?” A divulgação da cena nas redes sociais causou indignação. Houve alunos que se queixaram aos pais de os estarem a “manipular”. Não contente, a directora apresentou queixa ao FSB, a polícia política. Parece que nem a propaganda militarista do regime de Putin, nem a repressão nem a censura conseguem convencer a juventude a ir voluntariamente para o “matadouro”.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Alemanha: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!” 

Realizou-se em Göttingen, na Alemanha, nos dias 14 e 15 de Fevereiro, a primeira conferência nacional do movimento de greve escolar contra o serviço militar obrigatório. Participaram mais de 250 jovens e estudantes de 70 cidades. Excertos da resolução aprovada: 

“No dia 5 de Dezembro, na manifestação de 55 mil jovens e estudantes, manifestámos claramente que “Não queremos serviço militar! Queremos ter um futuro!” Nesse mesmo dia, o Bundestag [o Parlamento federal] adoptou a lei dita de modernização do serviço militar, dando um passo para a restauração do serviço militar obrigatório. Logo em Janeiro, todo os jovens nascidos em 2008 começaram a receber questionários de avaliação das suas competências e motivação para o serviço militar. A conscrição obrigatória é para começar em 2027. O governo diz que o serviço militar obrigatório e o rearmamento são necessários para nos defendermos. Nós perguntamos: como há-de o rearmamento garantir a paz e porque havemos nós de precisar de ter o Exército mais poderoso da Europa para vivermos em segurança? O chanceler Merz fala numa nova “era de política de grandes potências”, na qual a Alemanha teria que actuar com confiança em si. Mas nós sabemos que política de grandes potências quer dizer disputa, recorrendo à força, de mercados, recursos e esferas de influência à custa de meter ainda mais dinheiro no Exército e na economia, e menos na educação, na protecção social e no ambiente. Quer dizer ampliar ainda mais a NATO, mesmo que o preço seja provocar novas guerras. No mundo que o Governo federal quer para nós, não sobra nenhuma perspectiva para o nosso futuro a não ser crescer na pobreza e aprender em escolas arruinadas, enquanto a crise climática progride sem dar tréguas. 

O ministro da Defesa Pistorius quer-nos convencer de que a conscrição de uma geração inteira serve para defender a democracia. Nós dizemos que o que interessa a este Estado não é a nossa liberdade e a nossa opinião. O destacamento de tropas para o estrangeiro, a militarização e o serviço militar obrigatório são contra os nossos interesses. (…) Põem-se milhares de milhões no rearmamento, preparando o terreno para a próxima grande guerra. Enquanto isso, as cotações das acções de empresas de armamento como a Rheinmetall, ThyssenKrupp, KNDS e companhia sobem vertiginosamente. (…) Por tudo isto, preparamos desde já a greve à escola de 5 de Março e levaremos a cabo acções nas nossas escolas.”

A concluir, a resolução apela à generalização de comités de organização da greve à escola e a entrar em contacto com as secções de juventude dos sindicatos, com os sindicatos, os pais e professores. Conclui com o título deste artigo: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”

 

Irão, Estados Unidos: Generalização da guerra contra os povos e a juventude de todo o mundo

No Irão, a aliança israelo-americana continua a matar e a destruir sem piedade. Trump diz agora que só parará quando o Irão se render incondicionalmente. Ninguém sabe sequer o que tal significa.

Como escrevíamos no editorial da semana passada, as descabeladas justificações dadas por Trump e pela sua mafia para o ataque ao Irão — da destruição dos projectos nucleares do Irão (que Trump há meses declarara ter “obliterado” com as suas fantásticas bombas de perfuração profunda) a uma ameaça iminente (!) de ataque iraniano e ao inexistente programa de construção de mísseis intercontinentais do Irão — têm como única lógica a destruição de tudo o que possa fazer frente ao polícia sionista designado para o Médio Oriente. 

Submetam-se ou morrem, é a palavra de ordem que sai da Casa Branca.

Do genocídio de Gaza à virtual anexação da Cisjordânia, da entrega do poder ao regime talibã no Afeganistão à entrega da Síria desfeita a um comandante do Daesh e aos bombardeamentos do Irão, há um fio condutor, um só: e não, não é a “democracia” nem o fim da ditadura teocrática dos mulás. É que mergulhem os povos e países no caos absoluto, que sobrem Estados “falhados” — o que interessa, a segurança do petróleo e dos respectivos lucros, ficará garantido pelo Exército sionista, por milícias privadas e, em última análise, pelo Pentágono. No fundo, a situação que campeia há décadas na África Central, a zona mais rica do mundo em minérios, onde as multinacionais prosseguem calmamente os seus negócios no meio da guerra e do caos permanentes. Não há actualmente solução mais barata para os imperialistas, enquanto eles preparam as próximas guerras.

Têm toda a razão, pois, os liceais alemães, os desertores e refractários ucranianos e russos, tal como a tem a população do Minnesota, que fez greve geral para correr com os esbirros nazis do ICE. Contra esta marcha para a generalização do caos e da guerra, a única saída está em organizar a resistência e lutar contra os opressores e seus cúmplices nos nossos próprios países.

Estas guerras não são nossas. Elas vão contra os interesses dos jovens e dos trabalhadores na Rússia, na Ucrânia, na Alemanha, no Irão, nos Estados Unidos — e em Portugal, onde um governo servil deixou os agressores norte-americanos usarem à vontade a base das Lajes, sem sequer lhe darem cavaco a ele, nem ele o dar ao povo. 

Em parte alguma do mundo os trabalhadores e os jovens, destinados a ser ou carne para canhão ou “danos colaterais”, têm interesse em matar ou morrer pelas conquistas e os super-lucros do grande capital, que só servirão para explorar ainda mais quem sobreviver à matança.