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"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"
categoria-internacional Guerra Palestina edicao-2025-10-23 (02)

"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"

O ativista e investigador palestiniano refere, , que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político.

Jornal Maio
Comércio livre ou pautas aduaneiras
categoria-internacional Protecionismo Trump edicao-2025-10-16 (01)

Comércio livre ou pautas aduaneiras

A única diferença entre o livre comércio e o proteccionismo é que, em determinadas circunstâncias, um pode ser um pouco pior do que o outro, mas nenhum deles tem grande utilidade como remédio para a pobreza.

Michael Roberts
Estivadores suecos bloqueiam comércio de armas com Israel
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Estivadores suecos bloqueiam comércio de armas com Israel

O Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. ...

Jornal Maio
Marcha para Gaza -  a minha história pessoal ​
categoria-internacional Palestina edicao-2025-10-16 (01)

Marcha para Gaza - a minha história pessoal ​

Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita...

Jornal Maio, Naji El Khatib
categoria-internacional Guerra Palestina edicao-2025-10-23 (02)

"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"

Entrevista com Naji El Khatib

O ativista e investigador palestiniano Naji El Khatib, que esteve há meses numa palestra no Porto, refere, em entrevista à página francesa em linha Reporterre, que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político. Ele lembra que a colonização continua entretanto, com a cumplicidade material da França. O leitor notará que tudo o que Naji El-Khatib diz se aplica na íntegra ao reconhecimento da Palestina pelo Estado português e à figura cínica e sinistra feita pelo ministro Rangel e pelo presidente Marcelo.


Que pensa do anúncio de Emmanuel Macron de reconhecer o Estado palestiniano?

Naji El Khatib Este anúncio suscita-me, em primeiro lugar, muitas dúvidas. Agirá Emmanuel Macron por sentimento de culpa, ou será, antes, um caso de cálculo político, para recauchutar a sua imagem, quando há agora uma queixa apresentada contra ele no Tribunal Internacional de Justiça, por cumplicidade com genocídio? Neste contexto, custa não ver neste gesto uma manobra de diversão. Há meses que a rua francesa se mobiliza contra os massacres em Gaza e pelos direitos dos Palestinianos.

No entanto, não acredito que Macron esteja a agir por remorso. Os seus aliados dizem-no cínico: parece-me que o reconhecimento é principalmente uma ferramenta de comunicação política. Chega tarde, muito tarde. Já mais de 140 países reconheceram o Estado palestiniano. Acima de tudo, porém, este Estado, o Estado derivado dos acordos de Oslo (1993), é um “Estado fantoche”, incapaz de responder às necessidades reais dos Palestinianos.

Hoje, os territórios reservados a um futuro Estado palestiniano correspondem a uns meros 10% da Palestina mandatária original. Falo como refugiado: a minha família foi expulsa de Jaffa em 1948. Ora, 60% dos palestinianos partilham esse destino do exílio forçado. A questão do direito ao regresso sempre foi excluída das negociações.

O que nos é proposto não é um Estado viável, é um simulacro que ratifica o esquecimento de centenas de milhares de expulsos. Por isso falo de uma farsa, perigosa para os direitos históricos do povo palestiniano, do rio até ao mar.


Acusa a França de cumplicidade com Israel. Em que consiste a cumplicidade, na sua opinião?

Naji El Khatib Em primeiro lugar, cumplicidade material. A França nunca deixou de fornecer armas e munições a Israel. Novos carregamentos partem regularmente do Aeroporto de Roissy. Há também empresas francesas a fornecer tecnologias utilizadas nos drones israelitas. Esta cadeia de produção alimenta diretamente a máquina de guerra.

Há, todavia, resistência: os estivadores de Marselha têm-se recusado a carregar caixas destinadas a Israel. Já o Estado francês continua. Como se pode pretender estar a reconhecer o direito dos Palestinianos à autodeterminação se, ao mesmo tempo, se arma quem os bombardeia e coloniza a sua terra?

Cumplicidade, igualmente, política. A França não impôs nenhuma sanção, apesar de dispor de meios de pressão económica e diplomática significativos. Permanecer em silêncio diante de um genocídio é participar nele. O coletivo de 114 advogados que está por detrás da queixa contra o Estado francês evoca-o com clareza: não agir para impedir um crime é ser cúmplice dele. Macron tenta mascarar essa responsabilidade com um reconhecimento do Estado palestiniano, mas a realidade é outra: fornecimento de armas, nenhuma sanção, inércia diplomática. Tudo isto configura participação direta e indireta no genocídio.


Mesmo assim, que consequências concretas pode ter o reconhecimento?

Naji El Khatib Em política, o simbolismo só tem peso se se traduzir em relações de força. Reconhecer o Estado palestiniano sem agir contra o agressor não muda nada. Enquanto a colonização continuar a avançar, enquanto se multiplicarem os ataques de colonos armados, assim como as barragens de controlo, é do foro da ilusão andar a falar de Estado palestiniano.

Para o reconhecimento ter sentido, seriam necessárias medidas concretas: sanções económicas, embargo militar e científico, retirar o embaixador. A França tem meios para fazê-lo. Mas não há sinais que indiquem tal vontade. Este anúncio é, portanto, uma manobra do foro do marketing político e, o que é pior, sem sanções nem medidas concretas, o risco é que a seguir se acelere a colonização e os territórios palestinianos se fragmentem.


O que pensa da iniciativa da Flotilha da Liberdade para Gaza?

Naji El Khatib É um ato de coragem essencial. Perante o bloqueio e o genocídio, não podemos manter-nos espectadores. A Flotilha procura quebrar o isolamento de Gaza e levar ajuda vital a uma população atingida pela fome e pelos bombardeamentos. Centenas de pessoas já perderam a vida por falta de comida ou de cuidados médicos.

Eu próprio participei na Marcha para Gaza, no Egito, em junho. A iniciativa malogrou-se, mas encarnava essa vontade de “fazer algo”. A Flotilha inscreve-se na sua continuidade: encarna uma forma de esperança, provando que há gente, noutras partes do mundo, que não se contenta em manifestar-se, que está pronta a correr riscos perante uma máquina de guerra.

Isto é tanto mais importante, quanto o Estado israelita tenta tirar legitimidade a estas ações e preparar os espíritos para ataques contra elas. Os participantes são muitas vezes caricaturados como “terroristas” ou “jihadistas", tal como aconteceu com o ataque ao barco turco que rumava a Gaza em 2010. Apesar dos riscos, a Flotilha não deixa de ser um gesto concreto de solidariedade.


Há muitos ativistas ecologistas a participar na Flotilha. Como entende esta ligação entre a luta pela Palestina e as lutas ambientalistas?

Naji El Khatib A expropriação da Palestina não afeta apenas terras e casas: também transforma o ambiente. Desapareceu de toda a Galileia o tomilho selvagem, o zaatar. As florestas plantadas por Israel com espécies importadas da Europa destruíram as plantas locais e apagaram os vestígios das aldeias palestinianas destruídas em 1948. Com os bombardeamentos maciços, Gaza está a tornar-se inabitável, os solos, contaminados.

Genocídio e ecocídio andam de mãos dadas. Defender a Palestina é defender, ao mesmo tempo, um povo e o seu ambiente, a sua cultura e a sua ligação à terra. Por isso é tão importante a presença de ativistas ecologistas na Flotilha. Lembra que a luta pela Palestina é também uma luta por terras viáveis e um ambiente habitável. São lutas que não estão separadas, estão profundamente ligadas.

categoria-internacional Protecionismo Trump edicao-2025-10-16 (01)

Comércio livre ou pautas aduaneiras

A única diferença entre o livre comércio e o proteccionismo é que, em determinadas circunstâncias, um pode ser um pouco pior do que o outro, mas nenhum deles tem grande utilidade como remédio para a pobreza.

Continuam as voltas e reviravoltas das birras do Presidente dos EUA, Donald Trump, com as pautas aduaneiras (vulgo tarifas). Numa semana, Trump anuncia direitos aduaneiros sobre o mundo inteiro (incluindo ilhas perto da Antárctida onde só há pinguins). Na semana seguinte, anuncia um adiamento, para obter concessões comerciais. A última foi a ameaça de impor uma taxa de 50% a todas as exportações da Europa para os EUA – entretanto adiada até os governos europeus fecharem um negócio. Tudo somado, no entanto, os direitos aduaneiros à importação dos Estados Unidos são agora cerca de 15 a 18% mais elevados do que eram antes e estão ao nível mais alto dos últimos cem anos.

Trump diz que impor direitos aduaneiros às importações americanas do resto do mundo lhe permite proteger o emprego dos trabalhadores americanos, acabando por fazer aumentar a produção industrial nacional. Alguns dirigentes sindicais americanos apoiam as medidas de Trump, na esperança de que ele tenha razão. Só que é falsa a afirmação de Trump de que os trabalhadores da indústria transformadora tradicional dos EUA têm vindo a perder o emprego devido a práticas comerciais desleais de outros países. A queda do emprego na indústria transformadora dos EUA tem sido replicada por outras economias capitalistas avançadas nos últimos 30 anos. O declínio do emprego na indústria transformadora da América do Norte e pela Europa Ocidental fora não se deve a estrangeiros mauzões apostados em “comércio desleal”. Deve-se à implacável tentativa do capital americano (e europeu) de reduzir os custos laborais, quer através da mecanização quer produzindo em locais onde o trabalho é mais barato, no estrangeiro. Aliás, do que o grupo de Trump fala é de aumentar a capacidade de produção industrial interna usando robôs e IA. Isso pouco mais emprego irá criar no sector. É o que vale a pretensão de Trump de ser “o orgulhoso presidente dos trabalhadores, não dos externalizadores; o presidente que defende a rua principal, não a Wall Street da finança”.


OS DIREITOS ADUANEIROS À IMPORTAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS SÃO AGORA CERCA DE 15 A 18% MAIS ELEVADOS DO QUE ERAM ANTES E ESTÃO AO NÍVEL MAIS ALTO DOS ÚLTIMOS CEM ANOS

As pautas aduaneiras nunca foram um instrumento eficaz de política económica, capaz de impulsionar uma economia interna. Na década de 1930, a tentativa dos EUA de “protegerem” a sua base industrial à força de direitos aduaneiros apenas deu numa nova contracção da produção no contexto da Grande Depressão que abarcou a América do Norte, a Europa e o Japão. A Grande Depressão da década de 30 não foi causada exclusivamente pela guerra comercial proteccionista que os EUA provocaram em 1930, mas os direitos aduaneiros acabaram por intensificar a contracção global, porquanto passou a ser “cada país por si”. Entre 1929 e 1934, o comércio mundial registou uma queda de cerca de dois terços, com os países de todo o mundo a aplicarem represálias comerciais uns aos outros.

Em reacção à deriva proteccionista de Trump, os economistas liberais sustentam que o comércio livre é melhor para todos os países e para quem neles vive. Este ponto de vista baseia-se na teoria das “vantagens comparativas” desenvolvida pelo economista David Ricardo, de origem portuguesa, no seu livro Princípios de Economia Política e de Tributação (1817), agora com mais de 200 anos. Ricardo argumentou que, embora Portugal pudesse produzir tanto tecidos como vinho a um custo inferior (em mão de obra) ao da Inglaterra, ambos os países beneficiariam do comércio entre si. Isto, porque a “vantagem comparativa” de Portugal em relação à Inglaterra era maior na produção de vinho do que na de tecidos. Assim, para Portugal, faria sentido produzir mais vinho e trocar o vinho a mais por tecido inglês. A Inglaterra beneficiaria, por sua vez, deste comércio, porque, embora continuasse a custar-lhe o mesmo produzir tecido, o preço do vinho importado baixaria consideravelmente. Assim, o comércio livre era uma situação em que todos ganhavam.

Só que as provas desta teoria do comércio livre produzidas pela história dizem o contrário. Nos últimos trinta e tal anos, as economias capitalistas mundiais aproximaram-se do modelo de “comércio livre”, com reduções acentuadas dos direitos aduaneiros, das contingentações e de outras restrições, e com numerosos acordos internacionais de comércio. No entanto, o crescimento económico desde a década de 1980 foi mais lento do que na década de 1970, e a desigualdade de rendimentos e patrimonial entre países e dentro de cada país piorou, atingindo-se, ao nível mundial, um número de 1500 milhões de trabalhadores ainda sem emprego ou rendimento regular.

O capitalismo não cresce globalmente de modo fluido e equilibrado, mas segundo aquilo a que os marxistas chamaram “desenvolvimento desigual e combinado”. As empresas e os países com melhores avanços tecnológicos ganham à custa dos que ficam para trás, e não se produz igualização.

Na formulação do grande economista do “mercado livre”, Adam Smith, “quando um homem rico e um homem pobre fazem negócio um com o outro, ambos aumentam a respectiva riqueza se negociarem com prudência; mas o património do homem rico aumentará em proporção superior ao do do homem pobre. Analogamente, quando uma nação rica e uma pobre se dedicam ao comércio, será a nação rica a tirar maior vantagem, sendo-lhe, portanto, mais prejudicial a ela do que à outra a proibição deste comércio”.

O comércio livre dá frutos para a maior parte dos países quando a rendibilidade do capital aumenta (como aconteceu entre os anos de 1980 e 2000): com um bolo maior, todos podem ganhar (ainda que em proporções diferentes). Em tal caso, a “globalização” parece muito atractiva. A economia capitalista mais forte (tecnologicamente e, portanto, concorrencialmente, em termos de preço por unidade) será a maior defensora do “comércio livre”, como a Grã-Bretanha o foi entre 1850 e 1870, e os EUA entre 1945 e 2000. Neste último período, a globalização foi o mantra dos EUA e das suas agências internacionais, Banco Mundial, OCDE e FMI.

Porém, em começando a rendibilidade global a cair, o “comércio livre” perde o encanto, especialmente para as economias capitalistas mais fracas, à medida que o bolo do lucro deixa de aumentar. O “populismo” nacionalista levanta a cabeça, e ganham proeminência os economistas e políticos contrários ao “comércio livre”. Foi essa a situação na Grande Depressão dos anos 30, essa é a situação desde o início da década de 2000 e, principalmente, desde que findou a Grande Recessão.

Marx e Engels reconheceram que o “comércio livre” podia impulsionar a acumulação de capital a nível mundial e, assim, a expansão das economias, como aconteceu nos últimos 170 anos. Mas também notaram o reverso da medalha, pois tal é a natureza dual da acumulação capitalista: o aumento da desigualdade, um “exército de reserva” de desempregados em permanente oscilação e o aumento da exploração do trabalho nas economias mais fracas.

Então qual é melhor para os sindicatos e para a classe trabalhadora, o comércio livre ou o proteccionismo? Depende. A melhor resposta tê-la-á, porventura, dado, em súmula, Robert Tressell no seu famoso livro The Ragged Trousered Philanthropist (O Filantropo Esfarrapado), escrito no Reino Unido em 1910: “Temos tido livre comércio nos últimos cinquenta anos, e a maior parte das pessoas vive hoje em condições de pobreza mais ou menos abjecta, com milhares literalmente a morrerem à fome. Quando tínhamos proteccionismo, as coisas ainda estavam piores. Há outros países que praticam o proteccionismo, mas isso não impede muitos dos seus habitantes de não quererem senão vir para cá trabalhar por salários de fome. A única diferença entre o livre comércio e o proteccionismo é que, em determinadas circunstâncias, um pode ser um pouco pior do que o outro, mas nenhum deles tem grande utilidade como remédio para a pobreza, pela simples razão de que nenhum lida com as verdadeiras causas da pobreza.”•


Tradução
Adriano Zilhão (O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009)

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Estivadores suecos bloqueiam comércio de armas com Israel

Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. Nenhuma compensação ou ajuste que não inclua o regresso ao trabalho no cais do seu porta-voz Erik Helgeson será aceite.

O Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco reafirmou o seu compromisso de acabar com o comércio de material militar com Israel. O Tribunal do Trabalho escuta, entretanto, as alegações iniciais relativas ao despedimento do porta-voz nacional do sindicato, Erik Helgeson.

Em dezembro do ano passado, o Sindicato dos Estivadores sueco organizou um referendo sobre uma acção sindical de embargo do transporte por portos suecos de material militar de e para Israel. 68% dos sindicalizados de todo o país votaram a favor de avançar com o protesto, em solidariedade com a população civil palestiniana de Gaza e da Cisjordânia.

A acção do sindicato foi ferozmente contestada pelos empregadores portuários tanto na comunicação social como junto do Tribunal do Trabalho sueco. O sindicato avançou na mesma. Em fevereiro, o Tribunal do Trabalho concluiu pela legalidade da acção de solidariedade, que se poderia desenrolar nos termos planeados.

No entanto, no próprio dia do veredicto, o porta-voz do sindicato e vice-presidente nacional, Erik Helgeson, foi despedido pelo seu empregador, o Terminal Roro (de embarque e desembarque rolante) de Gotemburgo, cujo proprietário é a DFDS. O empregador notificou o despedimento em comunicado de imprensa em que referia preocupações de “segurança nacional”.

Esta semana, oito meses depois de defender em tribunal a acção solidária do sindicato, Helgeson voltou ao Tribunal do Trabalho de Estocolmo. Estava em causa, desta vez, o seu próprio despedimento ilegal. Era a primeira audição do caso, que se prevê arrastar-se até ao segundo semestre de 2026.

Na segunda-feira, dirigindo-se a apoiantes à porta do tribunal, Helgeson reafirmou que o sindicato se manterá firme.

* Nunca os empregadores irão ditar quem há-de poder falar pelo SDU. Numa democracia digna desse nome, tal decisão cabe exclusivamente aos estivadores sindicalizados.

* O SDU não se coibirá de manifestar solidariedade com outros trabalhadores sujeitos a injustiças. Atacar os nossos representantes eleitos não nos silenciará. A decisão dos sindicalizados de estarem solidários com a classe trabalhadora palestiniana mantém-se.

* É uma vergonha que o Estado sueco esteja, na realidade, a aumentar as suas importações de material militar de Israel quando 20 mil crianças palestinianas foram mortas na ofensiva contra Gaza. De acordo com a organização Save The Children, é o equivalente a uma criança morta por hora ao longo dos últimos 23 meses. O comércio de material militar com Israel tem de acabar.

* O SDU não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. Nenhuma compensação ou ajuste que não inclua o regresso de Erik ao trabalho no cais será aceite.

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Marcha para Gaza - a minha história pessoal ​

Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita — mas também pelo irmão egípcio. Alguns milhares de ativistas não podem franquear uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.

Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita — mas também pelo irmão egípcio. Alguns milhares de ativistas não podem franquear uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.

No dia 6 de dezembro de 2003, no auge da Intifada, após uma noite difícil, de combates incessantes entre o exército israelita e os combatentes palestinianos no bairro de al-Yasmina, na velha cidade de Nablus, onde eu na altura vivia, recebi uma mensagem do Consulado Francês em Jerusalém Oriental a anunciar-me que a minha viagem a Gaza estava cancelada.

Peguei nas coisas que tinha preparadas para um dia normal de trabalho na Universidade An-Najah, dividido entre a raiva e a resignação. Pronto: depois de meses de espera na lista de pessoas com autorização para se deslocarem a Gaza, tinham-me riscado da lista.

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Telefonei para Jerusalém. A resposta pacificou um pouco a minha raiva: Jane Birkin e os seus músicos precisavam de todos os veículos do Consulado Francês em Jerusalém Oriental para se poderem deslocar a Gaza e dar um concerto no Centro Cultural Rashad al-Shawa nos dias 8 e 9 de dezembro.

Pensei com os meus botões: que azar o meu, um palestiniano nascido no Líbano, animado pela paixão ardente de descobrir todos os recantos da Palestina, do rio até ao mar. Nablus representava, para mim, muito mais do que a universidade: era o meu ponto de partida para visitar todas as cidades e aldeias da Palestina. Exceto Gaza.

Mas que raio ia Jane Birkin fazer a Gaza? Cantar? Ou impedir as minhas peregrinações físicas e mentais aos lugares da minha memória familiar?

Como a maior parte dos Yafawi (habitantes de Jaffa) que fugiram da cidade por mar quando ela caiu perante a Telavive triunfante, eu estava para nascer em Gaza. Mas a inexperiência marítima de um pescador que nunca se atrevera a afastar-se da costa para pescar fez que acabasse por nascer noutro sítio, longe de Gaza. Em vez de se dirigir para sul, para Gaza, ele enganou-se no rumo e navegou para norte, em direção ao Líbano.

Desde então, visitar Gaza, onde eu devia ter nascido, tornou-se-me insistente obsessão. Tentei outra vez, em 2012. Não fui bem-sucedido. A minha frustração só crescia.

Junho de 2025. O meu filho mais velho, Samy, falou-me de uma marcha que se estava a organizar: para Gaza. Enquanto o escutava, vieram-me ao de cima todos os desejos insatisfeitos, todas as frustrações recalcadas. No espaço de poucos segundos, vi-me a entrar em Gaza — já não Gaza de 2003 ou de 2012, mas Gaza depois da guerra e do genocídio.

Sem hesitar, respondi: “Eu vou.”

Ele respondeu, com toda a naturalidade: “Eu também.”

Alguns dias depois, comprámos bilhetes para o Cairo. Era o meu segundo regresso à Palestina com destino a Gaza. Gaza encerra em si mesma todas as dimensões políticas, históricas e humanas da Palestina.

Gaza, gigantesco campo de refugiados.

Gaza, prisão a céu aberto.

Gaza que resiste.

Gaza, centelha de todas as lutas do povo palestiniano, de 1948 aos nossos dias.

Eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita, mas também pelo irmão egípcio.

Entre sonho e realidade, inscrevi-me oficialmente. Comecei a receber uma avalanche de mensagens da “March to Gaza” através dos respetivos grupos WhatsApp e Telegram. O número de inscritos aumentava de dia para dia.

Invadia-me um sentimento de felicidade, misturado com algum receio, ao ouvir e ler as ideias expressas por alguns participantes. Pouco a pouco, apesar de as condições serem tudo menos ideais, formou-se uma comunidade movida por um entusiasmo que alimentava uma mobilização internacional.

Um movimento de cidadãos, popular, não elitista, sem filiação política. Um movimento sem precedentes, que se poderia dizer internacionalista de tipo novo. Nos seus membros não há qualquer semelhança com os internacionalistas da guerra civil de Espanha, nem com os partidários de um internacionalismo comunista ou revolucionário clássico. Não reivindicam uma ideologia que sustente que os seres humanos se devam unir para defender interesses comuns por sobre fronteiras nacionais, políticas, culturais ou raciais.

Internacionalizaram-se antes pela Palestina, transmudada em símbolo universal de justiça.

Apesar do impasse do horizonte palestiniano enquanto se desenrola o genocído, a Palestina emerge em moldes que transcendem as suas fronteiras, a sua geografia e o seu povo. Ela encarna a “mais-valia” das lutas pela liberdade que transcendem os quadros nacionais e estatais. É a Palestina “não-palestiniana”, a Palestina de todos os que aspiram à liberdade, fora do espartilho do mercado capitalista e dos interesses imperialistas.

Não surpreende, pois, que a Palestina se tenha volvido causa principal da justiça no mundo, denunciando a injustiça nos quatro cantos do globo.

Emergindo como símbolo de justiça e projeto de libertação radical para a terra e a humanidade, a Palestina transcende as fronteiras naturais e humanas do seu território e do seu povo. Torna-se assim valor e símbolo universal.

Em nome deste internacionalismo palestinizado, os manifestantes encarnam a solidariedade internacional sem fronteiras nem exceções: defender a dignidade, a liberdade e a autodeterminação dos povos passa a compromisso universal. Na hora de lutar contra o genocídio, internacionalismo significa levantar-se e tomar a iniciativa, como ser humano responsável.

Estes internacionalistas são a gente fantástica que encontrei no Cairo e, depois, na primeira e na segunda barragem, onde as forças de segurança egípcias nos trataram à bruta, nos prenderam e agrediram para nos impedir de continuar o caminho para Ismailia e chegar a Al-Arish, ponto de partida para Gaza.

Tive a sorte imensa de conhecer seres humanos notáveis, chegados de dúzias de países, movidos pela compaixão pela Palestina e pela sua justa causa, exigindo o fim do genocídio em Gaza e a liberdade para a Palestina, do rio até ao mar.

Como participante palestiniano nesta marcha para Gaza, agradeci a todos por estarem do lado bom da história, o da justiça e da liberdade.

Fui testemunha do entusiasmo avassalador e da coragem sincera dos participantes na marcha. Mas também ouvi comentários irresponsáveis de uns poucos, observei falta de organização e de disciplina e, sobretudo, ignorância do território egípcio que tínhamos de atravessar.

Os organizadores anunciavam que “a Marcha Mundial para Gaza é um movimento de cidadãos, apolítico e independente”. Será, porém, possível escapar realmente à política e ao seu cálculo frio, desprovido de considerações humanistas e éticas?

Como há de querer chamar-se “apolítico” a um movimento que é fundamentalmente político, que exige o fim do genocídio, a retirada do exército israelita de Gaza e o levantamento do bloqueio imposto tanto por Israel como pelo Egito?

Ser a marcha um ato cívico por excelência não contradiz a sua natureza eminentemente política, por muito que os organizadores digam que “não representamos nenhum partido, ideologia ou religião. Representamos o povo, em toda a sua diversidade e humanidade”.

Na realidade, apesar destas afirmações simplistas e ingénuas, é exatamente no campo da política que nos movemos. A atitude das autoridades egípcias pôs à vista de todos o carácter profundamente político da marcha: proibida, os seus participantes detidos, agredidos e deportados, apesar de pacíficos e sem intenção violenta alguma.

A política do Estado egípcio responde à lógica do poder, aos interesses da classe dominante e a um cálculo frio em que não interessam para nada os “princípios orientadores” da marcha: justiça, dignidade humana, paz.

A ingenuidade que os organizadores exibiram ocultou as realidades políticas do momento. Quando estas realidades nos caíram brutalmente em cima, muitos participantes da marcha ficaram estupefactos.

Uma participante de origem árabe perguntou-me como era possível um Estado “irmão”, árabe e muçulmano, como o Egito comportar-se desta maneira.

Um jovem quis alugar uma motoreta para passar as barragens, convencido de que os jovens gendarmes egípcios nunca se atreveriam a disparar contra europeus solidários com a Palestina.

De cada vez que eu explicava as realidades do terreno, vi instalar-se deceção e desconfiança para comigo. Quando disse que não estávamos num país amigo, houve quem protestasse ruidosamente. As rusgas violentas da polícia aos hotéis e apartamentos em que estávamos, no Cairo, foram, porém, suficientes para que a realidade aparecesse nua e crua.

Não é que a cumplicidade do Egito seja novidade. O regime tem Gaza selada e isolada há anos, mesmo quando as forças israelitas não ocupam o lado palestiniano de Rafah. Milhares de palestinianos tiveram de pagar mais de 5000 dólares por pessoa para fugirem ao genocídio. Outros ainda têm de pagar quantias exorbitantes para que os camiões de ajuda humanitária possam entrar em Gaza.

O Egito continua a negar aos palestinianos que se encontram no seu território o direito a trabalhar, agravando a sua situação económica e deixando centenas de famílias em situação precária. Há quem acabe por querer voltar para Gaza. Têm, no entanto, o caminho obstruído.

De nada serve adoçar a realidade dos regimes cúmplices e dos mecanismos repressivos. O Egito viola a sua própria soberania quando permite que empresas como a Erjani lucrem com o bloqueio e o genocídio, concedendo seletivamente autorizações de entrada e saída de Gaza, esta faixa de Gaza que há décadas explora.

No regime do bloqueio, cada movimento requer subornos e esquemas clandestinos, reforçando um sistema mafioso assente no sofrimento dos palestinianos.

A caravana de Sumud e a Marcha Mundial para Gaza são atos de desafio, não ameaças militares. Uns poucos milhares de ativistas não podem atravessar uma das fronteiras mais militarizadas do mundo: a passagem de Rafah.

Contudo, os internacionalistas por Gaza e contra o genocídio encontrarão outras formas de continuar a luta pela Palestina e pela justiça à escala mundial.

Pela minha parte, eu lá continuarei, no meio daquela gente sincera e amorosa, na esperança de, um dia, ver Gaza, o meu amor.

Ilustrações:
João Mascarenhas
Inês Milagros

"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"
Comércio livre ou pautas aduaneiras
Ruptura estado genocida
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gaza
"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"
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"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"

O ativista e investigador palestiniano refere, , que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político.

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Comércio livre ou pautas aduaneiras
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Comércio livre ou pautas aduaneiras

A única diferença entre o livre comércio e o proteccionismo é que, em determinadas circunstâncias, um pode ser um pouco pior do que o outro, mas nenhum deles tem grande utilidade como remédio para a pobreza.

Michael Roberts
Estivadores suecos bloqueiam comércio de armas com Israel
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O Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. ...

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Marcha para Gaza - a minha história pessoal ​

Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita...

Jornal Maio, Naji El Khatib

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