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Premissas económicas para a paz
categoria-internacional Guerra Rússia edicao-2026-01-08 (10)

Premissas económicas para a paz

Ao avaliar, no final de 2025, a situação económica na Rússia, Ekaterina Shulman, considerada agente do estrangeiro, sugeriu que o país estava a ficar sem dinheiro e sem pessoas. E, de facto, tudo indica que alguma coisa está a acabar. Mas o dinheiro não é com certeza. Ao Estado nunca se acaba o dinh

Boris Kagarlitski
A falência dos Estados no Sul da Europa
categoria-internacional Capitalismo Europa do Sul Privatização edicao-2025-12-18 (09)

A falência dos Estados no Sul da Europa

Desastres provocados pela incúria e subfinanciamento de infraestruturas públicas levaram a grandes mobilizações em alguns países da Europa do Sul, como Grécia, Sérvia e Macedónia do Norte – embora não em Portugal no seguimento do colapso dos cabos de tração do Elevador da Glória.

Afonso Maia Silva
Cortes sociais, investimento na guerra: trabalhadores italianos combatem orçamento de Meloni
categoria-internacional Greve Guerra edicao-2025-12-05 (07)

Cortes sociais, investimento na guerra: trabalhadores italianos combatem orçamento de Meloni

Há uma nova vaga de mobilizações em Itália contra o orçamento de guerra do governo e em solidariedade com o povo palestiniano.

Ricardo Cabral Fernandes
Massacre nas favelas do Rio
categoria-internacional Brasil Massacre Polícia edicao-2025-11-27 (06)

Massacre nas favelas do Rio

Uma operação mortal a serviço de uma política de repressão e de destruição dos serviços públicos.

Anísio G. Homem
MAMDANI GANHOU NOVA IORQUE
categoria-internacional EUA Partido Democrata Trump edicao-2025-11-13 (04)

MAMDANI GANHOU NOVA IORQUE

Se o objectivo de Mamdani é realmente executar o programa com que se apresentou, o melhor é romper rapidamente com o Partido Democrático e convocar os trabalhadores e os jovens

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A lógica da guerra infinita como estratégia de governo
categoria-internacional Acumulação Primitiva Guerra Imperialismo Palestina Racismo Reprodução Social edicao-2025-11-06 (03)

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Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza é compreender as estruturas que naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo...

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Universidades nos EUA:o regresso do macarthismo?
categoria-internacional Antissemitismo Macarthismo Trump Universidade edicao-2025-10-23 (02)

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"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"
categoria-internacional Guerra Palestina edicao-2025-10-23 (02)

"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"

O ativista e investigador palestiniano refere, , que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político.

Jornal Maio
Comércio livre ou pautas aduaneiras
categoria-internacional Protecionismo Trump edicao-2025-10-16 (01)

Comércio livre ou pautas aduaneiras

A única diferença entre o livre comércio e o proteccionismo é que, em determinadas circunstâncias, um pode ser um pouco pior do que o outro, mas nenhum deles tem grande utilidade como remédio para a pobreza.

Michael Roberts
Estivadores suecos bloqueiam comércio de armas com Israel
categoria-internacional Estivadores Palestina edicao-2025-10-16 (01)

Estivadores suecos bloqueiam comércio de armas com Israel

O Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. ...

Jornal Maio
Marcha para Gaza -  a minha história pessoal ​
categoria-internacional Palestina edicao-2025-10-16 (01)

Marcha para Gaza - a minha história pessoal ​

Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita...

Jornal Maio, Naji El Khatib
categoria-internacional Guerra Rússia edicao-2026-01-08 (10)

Premissas económicas para a paz

НАСТОЯЩИЙ МАТЕРИАЛ (ИНФОРМАЦИЯ) ПРОИЗВЕДЕН И (ИЛИ) РАСПРОСТРАНЕН ИНОСТРАННЫМ АГЕНТОМ КАГАРЛИЦКИМ БОРИСОМ ЮЛЬЕВИЧЕМ ЛИБО КАСАЕТСЯ ДЕЯТЕЛЬНОСТИ ИНОСТРАННОГО АГЕНТА КАГАРЛИЦКОГО БОРИСА ЮЛЬЕВИЧА. 18+


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Ao avaliar, no final de 2025, a situação económica na Rússia, Ekaterina Shulman, considerada agente do estrangeiro, sugeriu que o país estava a ficar sem dinheiro e sem pessoas. E, de facto, tudo indica que alguma coisa está a acabar. Mas o dinheiro não é com certeza. Ao Estado nunca se acaba o dinheiro.

É uma particularidade do pensamento dos especialistas liberais tudo reduzirem ao dinheiro. Ora, o dinheiro não passa de um instrumento que ajuda a redistribuir outros recursos. Claro que, se irrefletidamente criado, ele deprecia-se. Sabemos de épocas em que até o ouro e a prata se desvalorizaram. Não obstante, a questão fundamental é: que recursos; e: como se distribuem eles através da despesa pública. Ora, esses recursos são sempre limitados (é nisso, aliás, que consiste a essência da economia, a ciência de trabalhar com recursos limitados), o eles acabarem é uma sua propriedade intrínseca.

As pessoas, a reserva de efetivos tanto para a guerra como para a produção, são também um recurso — e são um recurso extremamente limitado. Já lá vai, e há muito, o tempo em que se podia partir do princípio, tal como o fazia o oficial russo do século XVIII, de que “as mulheres parem mais”. Não são menores, porém, os problemas que, em tempo de guerra, se manifestam noutros recursos: metais, combustíveis, energia elétrica, capacidade ferroviária, equipamento que tende para a obsolescência e se desgasta, etc. O resultado de uma campanha militar depende, em boa medida, da forma como todos esses recursos são distribuídos.

O famoso economista soviético Y. V. Yaremenko fez notar, ao desenvolver a noção da economia multiníveis, que a diferença também está na qualidade dos recursos. Assim como o metal pode ser bom ou nem tanto, também os especialistas podem ser altamente qualificados ou não muito competentes. Na URSS, o complexo militar-industrial absorvia todos os melhores recursos de forma ilimitada. Os demais sectores da economia viam-se obrigados a compensar a falta de qualidade com quantidade. E quanto menor a prioridade do sector, pior a situação.


As pessoas, a reserva de efetivos tanto para a guerra como para a produção, são também um recurso — e são um recurso extremamente limitado

Voltando à questão dos recursos humanos, vê-se que, sendo esse o método, a produção civil começa a sofrer de uma escassez crónica de pessoal, mesmo que pareça haver gente suficiente. No fim de contas, os melhores especialistas são necessários precisamente onde faltam recursos e onde eles, com a sua inteligência, talento e experiência, podem corrigir a situação, imaginar maneiras de se desenvencilhar, inventar algo novo. Porém, passa-se exatamente o contrário. Com as melhores cabeças técnicas já concentradas na indústria militar, os restantes sectores têm de viver de migalhas.

O problema é que a crise crescente da produção civil começa a afetar a economia como um todo, espalhando-se de baixo para cima. Os trabalhadores do complexo militar-industrial também precisam de comprar roupa e ovos, de levar os filhos às creches e escolas, de se tratar nas clínicas, etc. Os dirigentes do país estão cientes do problema, mas é aí que surgem as dificuldades com o dinheiro. Verifica-se, no mais, que tais dificuldades são ainda maiores na economia de capitalismo de mercado russa do que eram na economia de planeamento administrativo da URSS.

Como já se disse, os economistas liberais — não sendo exceção os que trabalham para o Estado — veem todos os problemas como problemas monetários e resolvem-nos em consonância. Em condições “normais”, a coisa funciona mais ou menos, mas, em condições de crise, não. O que distingue, com efeito, as situações de crise é que, nelas, os métodos habituais não só não produzem o efeito esperado, como muitas vezes ainda agravam a situação. A própria especificidade da crise atual é que as autoridades económicas se preocupam (em total conformidade com a doutrina da gestão financeira) não só em cobrir o défice objetivo de recursos — que, no mais, não irá desaparecer — , injetando fundos adicionais, mas também em manter o financiamento de sectores e projetos prioritários, combinando-o com uma austeridade rigorosa e uma política fiscal ainda mais rigorosa, na tentativa de conter o aumento dos preços e equilibrar o orçamento. O principal resultado desta maneira de fazer é os desequilíbrios económicos e sociais intensificarem-se.

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A teoria monetária moderna (TMM) alternativa à teoria liberal clássica é muitíssimo mais tolerante com a impressão de dinheiro, não divisando grande desastre no aumento do défice orçamental — que, no final de 2025, já ultrapassava os quatro biliões de rublos. Um matiz importante é, contudo, que os teóricos da TMM propõem que o dinheiro adicional vá para onde há recursos inativos que, graças ao financiamento estatal, possam ser postos em movimento. Por exemplo, jazigos minerais conhecidos para os quais não há investidores. Ou um número grande de desempregados, que possam ser ocupados em trabalhos socialmente úteis. A situação em que nos encontramos é, porém, o contrário disto. O Banco Central e o Ministério das Finanças estão a pôr dinheiro não onde há potencial de recursos, mas onde já não há recursos disponíveis. Que não vão aparecer só por se aumentar o financiamento. O metal não se funde sozinho, e os soldados não crescem de debaixo da terra, por muito que a semeiem com dentes de dragão como fizeram os heróis do mito antigo.

Há, além disso, um outro recurso limitado: o tempo. Só Deus o tem infinitamente — e para isso é preciso que ele exista. Para os mortais, o tempo não só é um recurso limitado, como não é renovável. Por outras palavras, erros cometidos antes e oportunidades perdidas costumam tornar impossível recuperá-lo. Na primavera e no verão de 2024, quando parecia que a economia nacional não se estava a dar nada mal com as sanções nem com o fardo das despesas militares, era possível tomar medidas de racionamento dos recursos, protegendo o sector civil da escassez e o sistema financeiro do aumento espontâneo dos preços. Mas para quê, se, nessa altura, tudo estava, em princípio, a correr bem sem nada disso? Ainda por cima, se se alcançasse um acordo de paz entre o outono de 2024 e a primavera de 2025, como muitos esperavam, as dificuldades temporárias não chegariam provavelmente a transformar-se em crise aberta. Só que esse momento já lá vai. A escassez de recursos agudizou-se, tomando, para o poder, a forma de défice monetário crítico. Continuar a aumentar o financiamento de sectores e programas prioritários só fará que os desequilíbrios se aprofundem ainda mais, o sistema monetário se desequilibre definitivamente e a crise social se aprofunde quando sectores inteiros da economia e grupos sociais reduzidos a rações míseras não conseguirem sequer garantir minimamente o nível necessário de investimentos para a sua própria reprodução.

A situação é perfeitamente reconhecida pelas autoridades e, por isso, a vontade de paz dos círculos dominantes aumenta na proporção direta do agravamento da crise. Só que o problema não se reduz a que o agravamento da crise irá inevitavelmente exigir que os recursos voltem a ser redistribuídos para os sectores civis; surgirão igualmente questões políticas e ideológicas que só podem continuar a ser sacudidas enquanto as hostilidades continuam. Além disso, tal redistribuição implicará uma série de decisões difíceis. Poderá ser feita por métodos de mercado ou administrativos, de forma mais ou menos eficaz — em qualquer dos casos, ela já hoje é incompatível com a intensificação do esforço militar. E mesmo que tudo seja feito de forma competente, é inevitável que surjam inúmeras dificuldades e conflitos ao longo do processo. A compreensão disso por parte dos detentores do poder também contribui para a tendência para deixar tudo como está por algum tempo, sem tomar medidas irreversíveis. No entanto, adiar decisões para um futuro indefinido não só não facilita a escolha, como agrava problemas existentes.

Em última análise, as autoridades terão de tomar decisões políticas. Talvez então se possa pôr um ponto final.


1 Esta nota acompanha o artigo de Boris Kagarlitski, que está preso, acusado de ser um “agente do estrangeiro” por ter criticado a “operação especial” do Kremlin na Ucrânia.


Publicado originalmente em Рабкор (Rabkor, Correspondência dos Trabalhadores). Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-internacional Capitalismo Europa do Sul Privatização edicao-2025-12-18 (09)

A falência dos Estados no Sul da Europa

Desastres provocados pela incúria e subfinanciamento de infraestruturas públicas levaram a grandes mobilizações em alguns países da Europa do Sul, como Grécia, Sérvia e Macedónia do Norte – embora não em Portugal no seguimento do colapso dos cabos de tração do Elevador da Glória.

ilustração: Pedro Páscoa

Revoltas na Grécia em fevereiro (no segundo aniversário do acidente ferroviário de Tempe) e em dezembro (protesto dos trabalhadores agrícolas). Greve geral no mesmo país em outubro, contra a legislação laboral do governo de Kyriakos Mitsotakis. Protestos na Macedónia do Norte em março, após desastre numa discoteca em Kocani. Manifestações na Sérvia, de março a agosto, desencadeadas por desabamento mortal da cobertura da estação ferroviária de Novi Sad. Três greves gerais e várias manifestações em Itália, quer contra a cumplicidade do governo com o genocídio do povo palestiniano, quer contra o “orçamento de guerra” de Giorgia Meloni. Em Espanha, uma greve geral em outubro e várias manifestações contra o envio de armas para o Estado genocida de Israel e a crise de habitação. Greve geral em Portugal em dezembro contra o “pacote laboral” do governo de Luís Montenegro.

2025 foi um ano de intensa mobilização popular no Sul europeu. Apesar de motivada por causas heterogéneas, alguns eixos comuns conectam, e em parte explicam, esta vaga de protestos.

Há uma ligação trágica entre as manifestações gregas, sérvias e macedónias. As três surgem como revoltas contra a ausência de responsabilização política por três desastres ocorridos nestes países: o acidente ferroviário de Tempe (Grécia) de fevereiro de 2023, que vitimou 57 pessoas; o desabamento de uma cobertura de betão na estação ferroviária de Novi Sad (Sérvia) em novembro de 2024, vitimando 15 pessoas, e o incêndio no interior de uma discoteca em Kocani (Macedónia do Norte), que vitimou 59.

As duas primeiras revelam os efeitos da administração da “coisa pública” numa lógica mercantilista, nomeadamente com a privatização e subfinanciamento público de infraestruturas essenciais, descurando a manutenção e segurança em nome do lucro.

Segundo o professor e jornalista grego Panagiotis Sotiris,

“a tragédia ferroviária de Tempe, em 28 de fevereiro de 2023, não foi apenas mais um acidente de grande dimensão. Aos olhos da sociedade grega, representou a condensação de tudo o que está errado tanto no modelo económico neoliberal dominante de privatização das infraestruturas, como no cinismo de um sistema político incapaz de oferecer garantias básicas, incluindo a segurança nos transportes. Isto gerou um ciclo contínuo de fortes mobilizações populares e aprofundou a crise de legitimidade do governo, mas também do sistema político em geral. Esta crise de legitimidade foi intensificada pelo facto de o governo da Nova Democracia, liderado por Kyriakos Mitsotakis, ter recusado assumir verdadeiramente a responsabilidade pela tragédia, apesar de ter sido a sua falha em concluir atempadamente infraestruturas importantes de segurança nos transportes que levou ao desastre. Além disso, em muitos aspetos, procuraram minar a investigação do acidente precisamente para encobrir a sua responsabilidade. Com base nesta situação, assistimos a algumas das maiores manifestações da história moderna da Grécia e a várias formas de mobilização que continuam até hoje, porque a exigência de verdade e justiça sobre o acidente continua a ser dominante na sociedade grega.”

Também na Sérvia, a tragédia criou ondas de choque que atingiram a classe política. Segundo Rodrigo Vieira, licenciado em Relações Internacionais, “a recusa, por parte da empresa responsável pelas obras na estação ferroviária, de partilhar documentos relativos a estas mesmas obras e apelos por parte de vários políticos para que a população “confiasse nas autoridades” colidiram com sentimentos já presentes de desilusão para com o sistema. Esta noção de que o governo é impune e negligente, de que ninguém se encontra seguro devido à fragilidade das instituições presentes nesse país, levou a que o slogan “Estamos todos sob a cobertura” marcasse o que viria a ser a onda de protestos que ainda hoje se vive na Sérvia. As manifestações, pacíficas e lideradas por estudantes, começaram com bloqueios de estradas e ajuntamentos em frente de edifícios governamentais. Contudo, em finais de novembro, estudantes da Universidade de Novi Sad foram agredidos violentamente por um grupo de indivíduos que, segundo os media, contava com alguns membros do partido que governa a Sérvia. Isto resultou no bloqueio de faculdades por todo o país, que durou até setembro 2025, durante o qual nenhuma atividade letiva teve lugar. Os estudantes articularam quatro reivindicações principais: a publicação de toda a documentação relacionada com a reconstrução da estação ferroviária, a identificação de todos os indivíduos que agrediram fisicamente os estudantes, o arquivamento de todos os processos contra os estudantes e um aumento de 20% no financiamento estatal para as universidades públicas. A partir desse momento, os protestos foram crescendo em dimensão, com grandes concentrações de pessoas a 22 de dezembro (100.000 em Belgrado, mais do que durante as demonstrações que derrubaram o regime de Milosevic em 2000).

Há uma ligação trágica entre as manifestações gregas, sérvias e macedónias. As três surgem como revoltas contra a ausência de responsabilização política por três desastres ocorridos nestes países.

É impossível não associar a natureza destas tragédias ao desastre no Elevador da Glória, em Lisboa. Tendo origem num problema com os cabos de tração do equipamento, o descarrilamento vitimou 16 pessoas. A manutenção do elevador está entregue a um privado, em mais um caso de privatização das responsabilidades de manutenção da segurança dos nossos equipamentos públicos. Ao contrário dos casos anteriores, não assistimos ainda a uma mobilização popular contra a degradação da segurança das infraestruturas essenciais e a ausência de responsabilização política da tragédia. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, foi inclusive reeleito pouco mais de um mês depois da tragédia, reforçando a sua votação em quase 30.000 votos face a 2021, apesar de responsável por ter cortado o financiamento da Carris (empresa municipal de transportes responsável, entre outros, pelos históricos elevadores da cidade) em quatro milhões de euros em 2024.

O consenso liberal impediu a “politização” de uma tragédia com causas… políticas. Tratada como um infortúnio, não gerou um movimento orgânico de revolta capaz de questionar o modelo de gestão neoliberal, nem inclusive uma greve convocada pelos sindicatos do setor (recordando que o colapso provocou a morte do guarda-freio de serviço) motivada pela desconsideração dada às sucessivas queixas dos trabalhadores da Carris quanto à falta de segurança dos equipamentos. O tempo dirá se ainda assistiremos a uma mobilização na cidade e no país motivada pela degradação dos serviços públicos – também na Grécia e na Sérvia os protestos explodiram dois anos ou cinco meses depois dos desastres, respetivamente.

No caso macedónio, apesar de falarmos de uma tragédia ocorrida num estabelecimento privado, o ocorrido teve um impacto político, após se descobrir que a discoteca operava com licenças irregulares e ausência de fiscalização. O caso inclusive levou já à detenção de 13 pessoas, entre eles ex-ministros. É a promiscuidade entre classe política e elite económica no sistema capitalista que é aqui exposta, com consequências dramáticas. É necessário assinalar que a corrupção, o tráfico de influências e o contorno das obrigações legais e fiscais por parte da burguesia não é uma anomalia do sistema, é a sua marca.

Mas o ano de intensa agitação social na região não se esgota com as reações a diferentes tragédias. Desinvestimento no Estado Social, aumento do orçamento para o setor bélico após exigência da NATO, desmantelamento das proteções laborais, degradação do custo de vida, atrasos nos pagamentos de subsídios agrícolas ou mesmo cumplicidade com o genocídio do povo palestiniano perpetrado por Israel. São vários os outros motivos que exigiram a mobilização dos Europeus a sul. Todos podem ser resumidos ao carácter dependente, atrasado e exploratório das economias semiperiféricas do sistema-mundo capitalista.

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Num sistema cada vez mais feudal e oligárquico, as classes dominantes destes países empurram-nos para projetos imperialistas e bélicos comandados a partir de Washington e Bruxelas. A dependência destas burguesias nacionais, verdadeiras “classes dominantes dominadas” condena as economias semiperiféricas aos baixos salários, à exploração laboral, à dependência produtiva dos grandes centros económicos e de subsídios europeus (com efeitos perniciosos, como vimos nos intensos protestos dos agricultores gregos neste final de ano, vítimas do atraso no pagamento destes subsídios). Acantonadas no rentismo (nomeadamente no negócio da especulação imobiliária, cujos efeitos humanitariamente dramáticos são bem sentidos em Portugal), as burguesias da semiperiferia europeia são incapazes de apresentar um projeto produtivo para os seus respetivos países que almeje mais do que manter a classe trabalhadora no limiar da pobreza e dependente de transferências sociais para sobreviver – apoios hoje ameaçados pela exigência, imposta de cima, de aumentar a despesa militar, interesses impossíveis de conciliar nestes países.

Este é o grande projeto das burguesias do Sul da Europa: manter uma população pauperizada enquanto serve os interesses do capitalismo global. Por isso retira verbas ao orçamento do Estado Social e aumenta-as para o setor da guerra e para os objetivos militares da NATO, incompreendidos e rejeitados pelas classes populares. Por isso retira proteções legais aos trabalhadores, na expectativa de atrair investimento estrangeiro predatório e de aumentar as taxas de lucro da insípida burguesia nacional. Por isso não apresenta critérios e exigências morais, não tendo outra hipótese senão apoiar o genocídio levado a cabo por Israel, escoltado pelo capitalismo global, seu suserano.

As mobilizações populares deste ano provam o esboroamento da legitimidade política dos Estados liberais. Seja porque a classe dominante é incapaz de garantir a segurança dos cidadãos num transporte público ou num espaço de diversão, porque enterra ainda mais fundo o pacto social entre capital e trabalho, governando para o primeiro e esmagando o segundo, ou porque atira quem trabalha para uma vida precária e pauperizada enquanto injeta milhares de milhões na indústria militar. Na teorização do filósofo alemão Jürgen Habermas, encontramo-nos perante uma “crise de legitimidade” quando o Estado é incapaz de dar resposta aos anseios da população, atraindo a sua rejeição, descontentamento e descrença. O Estado não consegue justificar assim o monopólio da violência que exerce, a coerção que impõe, os impostos que cobra a quem trabalha. O que retira é mais do que aquilo que dá em troca. Este é um efeito do período a que Habermas chama “capitalismo tardio”, fase atual do sistema capitalista, marcada pela financeirização da economia e pela gestão neoliberal como regra. Exige-se ao Estado que resolva o problema da habitação, a perda de poder de compra, a debilidade do tecido produtivo, a degradação dos serviços públicos, mas ele é já incapaz de o fazer após décadas de privatização da economia, das infraestruturas e até das próprias decisões políticas.

A tendência vigente nos Estados capitalistas é atirarem o poder de decisão sobre o nosso destino coletivo para o poder económico, nas mãos da burguesia. É nessa fase que os povos se revoltam e exigem mais e melhor, fatigados de serem calcados. As diversas mobilizações que aqui referi são diferentes traduções nacionais de um sentimento comum de indignação que vai borbulhando nas mentes e corações de parte das classes populares.

Os Estados capitalistas, deslegitimados e falhados, sem projeto nem direção, podem ser reclamados coletivamente pelas massas populares, com um projeto novo, orientador e renovado, que confira sentido ao trabalho do dia-a-dia, garanta dignidade, segurança e proteção e torne comum o que é hoje reservado a um punhado. Tal é possível se canalizarmos a revolta espasmódica em organização, disputa pela hegemonia e construção de um programa alternativo e vencedor que conquiste as massas.

categoria-internacional Greve Guerra edicao-2025-12-05 (07)

Cortes sociais, investimento na guerra: trabalhadores italianos combatem orçamento de Meloni

Há uma nova vaga de mobilizações em Itália contra o orçamento de guerra do governo e em solidariedade com o povo palestiniano.

ilustração: Pedro Páscoa

A palavra de ordem foi, mais uma vez, “bloquear tudo”. A greve geral de 28 de novembro, na passada sexta-feira, contra o rearmamento e a austeridade da primeira-ministra de extrema-direita, Giorgia Meloni, foi mais um episódio da crescente mobilização dos trabalhadores italianos e dos seus sindicatos. Esta greve geral junta-se a outras duas nos últimos dois meses, a de 22 de setembro e a de 3 de outubro, contra o genocídio do povo palestiniano às mãos do Estado de Israel. E mais greves virão.

O governo de Meloni tem sido cúmplice do genocídio do povo palestiniano ao fornecer armas e munições a Israel, ao se recusar a reconhecer o Estado palestiniano e a cortar laços diplomáticos ou comerciais com Telavive. Roma tem sido uma força de bloqueio na aplicação de sanções ao Estado de Israel, e por isso Meloni e dois dos seus ministros foram denunciados ao Tribunal Penal Internacional (TPI) por mais de 50 juristas palestinianos, organizados no grupo Juristas e Advogados pela Palestina.

Meloni mantém esta posição hipócrita enquanto assume a dianteira no apoio político, diplomático, militar e financeiro à Ucrânia, invadida pela Rússia, em nome da defesa da autodeterminação dos povos e do direito internacional. Dois pesos e duas medidas, como os líderes europeus já nos habituaram. O povo italiano, historicamente apoiante da causa palestiniana, está em oposição ferrenha à política militarista e genocida do seu governo. A linha que separa a humanidade e a decência da monstruosidade está a ser desenhada a sangue.

Daí que os trabalhadores italianos, em especial os estivadores, tenham avançado com duas greves gerais, em setembro e outubro, em apoio do povo palestiniano. Foram as greves gerais mais bem-sucedidas da história recente de Itália. Foram enormes mobilizações anti-guerra — as quais só têm equiparação com as manifestações contra a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003 — e espalharam-se a todo o país, não se limitaram aos redutos da esquerda italiana nem ao seu eleitorado.

A greve geral de 3 de outubro foi convocada pelas centrais sindicais CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho) e USB (União Sindical de Base), entre outras organizações, em resposta à intercepção israelita da flotilha Sumud, a 1 de outubro, e em solidariedade com o povo palestiniano, pelo fim do genocídio. Mobilizou dois milhões para as ruas italianas. Já a greve geral de setembro foi convocada por uma série de sindicatos de base e centrais sindicais mais pequenas, como a Confederação Unitária de Base (CUB), conseguindo mobilizar um milhão de pessoas.

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No entanto, a mobilização tinha “acalmado” um pouco no último mês, por causa de uma certa ilusão (ou expectativa) em torno do suposto “acordo de paz” de Donald Trump, mas o gatilho para mais uma greve geral não se fez esperar: a proposta de Orçamento do Estado de 2026. A sua linha mestra é bastante clara e simples: cortes no Estado Social para canalizar verbas para o rearmamento do país, cumprindo os 5% de investimento em defesa impostos pelos Estados Unidos, Bruxelas e NATO. É, em suma, um orçamento de guerra e de ataque aos direitos de quem trabalha quando os salários reais diminuem e o custo de vida não pára de aumentar.

A proposta orçamental retira milhares de milhões da saúde, da educação, das pensões e dos serviços locais para os canalizar para a indústria do armamento. Os trabalhadores são, assim, forçados a financiar o “esforço de guerra”. Mas há mais: o orçamento, à semelhança das intenções do Governo de Luís Montenegro com o seu pacote laboral, também vai aprofundar a precariedade, ao expandir o outsourcing, desregular a contratação e incentivar os patrões a substituir empregos estáveis por empregos de curto prazo e baixos salários. Vai acelerar a privatização de bens públicos essenciais, como infraestruturas e serviços, beneficiando os interesses empresariais e financeiros.

Como se não bastassem os ataques aos direitos mais elementares dos trabalhadores, a nova proposta orçamental também vai aumentar os recursos financeiros para as forças e serviços de segurança. Isto depois de, no início de junho, o governo ter conseguido aprovar no Senado uma lei repressiva que criminaliza protestos, aumenta os poderes da polícia e fortalece os mecanismos de controlo sobre a dissidência. A nova lei até permite aos agentes do Estado cometerem certos crimes em sua defesa, sem que sejam acusados e condenados. Tudo para reprimir a contestação social que o governo sabe que estas medidas vão causar.

A resposta dos sindicatos apenas poderia ser uma: greve geral. Ao contrário da greve geral de 3 de outubro, os sindicatos de base Cobas, USB, SGB, CUB e a central sindical CGIL não uniram esforços. Os sindicatos convocaram greve geral de 24 horas para 28 de novembro, na passada sexta-feira, enquanto a CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho), a maior central sindical institucional do país, o fez para 12 de dezembro, também sexta-feira.

"Gostaríamos que a CGIL também participasse, para repetir a grande e forte união de 3 de outubro. Mas os nossos apelos caíram em ouvidos moucos. A CGIL preferiu entrar em greve sozinha e fora de época, a 12 de dezembro, quando o processo de aprovação da lei orçamental estará finalizado", afirmou a confederação Cobas, citado pelo jornal italiano Il Fatto Quotidiano.

A greve geral de 28 de novembro avançou na mesma e mobilizou dezenas de milhares de trabalhadores nos sectores públicos e privados nos transportes, saúde, educação, administração pública e indústria. As viagens ferroviárias e áreas foram seriamente afetadas e pelo menos 26 voos foram cancelados. O caderno reivindicativo? Travão na aprovação do Orçamento do Estado, investimento no Estado Social, reforço da lei laboral em prol dos trabalhadores, a não privatização de empresas públicas de energia, correios, telecomunicações, transporte público, saneamento ambiental, saúde e educação, a revogação da lei de segurança nacional, entre outras.

“Queremos pelo menos 2000 euros de salário base, reforma até aos 62 anos, fim da subcontratação, redução do horário de trabalho sem perda salarial, direitos à habitação garantidos, novas contratações no setor público e cuidados de saúde públicos universais e gratuitos”, afirmou, em comunicado, a USB. “Estas são necessidades urgentes num país exausto, necessidades incompatíveis com o belicismo do governo.”


Os líderes europeus veem na ameaça da guerra uma oportunidade económica e aproveitam-na para justificar a sua contrarrevolução social.

E, em mais um exemplo de como a mobilização dos trabalhadores interliga a solidariedade com o povo palestiniano e a oposição ao militarismo europeu, milhares de pessoas marcharam, no sábado, 29 de novembro, pelas ruas de Roma contra o genocídio. A marcha, organizada pela USB, foi encabeçada pela relatora especial das Nações Unidas Francesca Albanese, pela ativista Greta Thunberg e pelo ativista Thiago Ávila.

“Receio que o genocídio vá continuar, graças ao silenciamento da verdade”, avisou Albanese. “Mais de 50% da Faixa de Gaza está ocupada por tanques israelitas”, recordou a relatora especial, salientando que na Cisjordânia mais de 1200 palestinianos já foram mortos desde 7 de outubro de 2023. “Itália e União Europeia devem parar de transferir armas, realizar exercícios militares com Israel e de comercializar tecnologias que possam alimentar os crimes em curso.”

O próximo grande embate será a 12 de dezembro, mas o mês de dezembro está pejado de protestos e greves, mais um sinal da enorme e significativa mobilização da classe trabalhadora em Itália. Na segunda-feira passada, os trabalhadores do sector dos transportes da Sicília pararam entre as 10h30 e as 14h30. No dia 9 de dezembro, o sector público de Roma entrará em greve por 24 horas e todo o sector marítimo italiano por 48 horas, até 11 de dezembro. Depois, a 17 de dezembro, os controladores do tráfego, trabalhadores das companhias aéreas e dos aeroportos farão greve parcial entre as 13h e as 17h. E, por fim, a 22 de dezembro, mais uma greve, desta vez de 72 horas, no sector de logística.

A mobilização dos trabalhadores não se restringe a Itália. Na Bélgica, os sindicatos organizaram uma greve geral no dia 26 de novembro contra os cortes nas pensões e a redução dos benefícios sociais impostos pelo governo, enquanto aumentam os gastos na indústria da guerra. E a 11 de dezembro será a vez de os trabalhadores portugueses saírem à rua contra o pacote laboral do Governo de Montenegro, a primeira greve geral convocada em conjunto pela CGTP e a UGT desde 2013.

Não há dúvida de que todos estes protestos são um sinal da crescente mobilização das classes trabalhadoras europeias em oposição a uma crise mais alargada, seja dos regimes democrático-liberais seja do próprio capitalismo – e ainda estamos para ver como rebentará a brutal bolha financeira da Inteligência Artificial. Depois da pandemia de Covid-19 e da injeção de milhares de milhões de euros na economia, colmatando uma carência brutal de investimento público ao longo de dez anos, os governos europeus apostam agora no rearmamento para a economia continuar a girar. Fazem-no como sempre fizeram: pondo os trabalhadores a arcar com os prejuízos e os sacrifícios, seja nas empresas seja nas casernas, com a reintrodução de novas modalidades de serviços militares obrigatórios.

Os líderes europeus veem na ameaça da guerra uma oportunidade económica e aproveitam-na para justificar a sua contrarrevolução social. E já sabemos como será tratado quem se lhes opuser e os denunciar: será apelidado de putinista, de colaboracionista, de lacaio de Vladimir Putin, de traidor e antipatriota. Assim seja.

categoria-internacional Brasil Massacre Polícia edicao-2025-11-27 (06)

Massacre nas favelas do Rio

Uma operação mortal a serviço de uma política de repressão e de destruição dos serviços públicos.

Um verdadeiro massacre foi perpetrado em duas favelas na zona norte do Rio de Janeiro em 29 de outubro, por ordem do governador bolsonarista Cláudio Castro, do PL. A operação mobilizou 2500 soldados e policiais nas favelas do Alemão e da Penha. Custou a vida de quase 150 moradores e 4 policiais.

O "combate ao narcotráfico" invocado é apenas um pretexto para esta demonstração de força militar. Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas e pertencem à classe capitalista. Por exemplo, uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro (as fintechs) com sedes na luxuosa Avenida Faria Lima.

No Rio, cerca de 22,16% (aproximadamente 1,5 milhão) da classe trabalhadora vive nas favelas, em condições precárias, até mesmo miseráveis. Os programas sociais implementados pelo governo Lula aliviaram a fome de alguns milhões de brasileiros, no entanto, não erradicaram a pobreza.


Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas (…) uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro.

Essa ação criminosa de um governador do Partido Liberal, partido de Bolsonaro, ecoa a política de Trump de rotular traficantes de drogas como "narcoterroristas", portanto "em guerra" com o Estado (e, em consequência, com os Estados Unidos). Não é coincidência que o governador Cláudio Castro tenha viajado aos Estados Unidos há dois meses para discutir essa questão com o governo Trump.

Um projeto de lei para classificar esses grupos como "narcoterroristas" está sendo debatido no Congresso Nacional. O senador Flávio Bolsonaro declarou recentemente que os militares americanos deveriam bombardear barcos de contrabandistas na baía de Guanabara como estão fazendo no Mar do Caribe em ameaça à soberania venezuelana.

Essas operações policiais, como as de ontem, paralisam os serviços públicos nas áreas afetadas, interrompendo seu funcionamento, o que diz muito sobre o desprezo da classe dominante pela população das favelas.

O projeto de reforma administrativa atualmente em tramitação no Congresso Nacional, por pressão da política de "ajuste orçamentário" (Arcabouço Fiscal) do governo Lula para o pagamento de uma dívida pública ilegitima, visa destruir esses serviços públicos e abrir caminho para suas privatizações. Esse Congresso, inimigo do povo, que tentou emplacar a PEC da bandidagem, rejeitada pela ampla maioria da população, não tem qualquer legitimidade democrática para destruir uma conquista histórica da população.

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Por ora, as lideranças dos sindicatos do setor público protestam timidamente sem exigir a retirada do projeto e sem colocar em preparação uma paralisação geral nacional do funcionalismo. Vale lembrar que fortalecimento dos serviços públicos nas favelas atenderia às necessidades básicas e criaria empregos para jovens, muitos dos quais atualmente sem outra perspectiva senão serem contratados por traficantes de drogas.

Após a intervenção policial, o governo Lula propôs a aprovação imediata da PEC da Segurança, que integra as forças de segurança de todas as esferas governamentais sob controle do governo central, reforçando seu poder bélico. Isso não impedirá novos massacres.

As organizações de trabalhadores devem condenar os massacres policiais e exigir a apuração dos fatos, o fim do governo Castro imediatamente e a dissolução da Polícia Militar, instituição herdada da ditadura. Elas devem lançar uma campanha para proteger os jovens nas favelas por meio da criação de serviços públicos e de erradicação da miséria. Dinheiro para isso existe, desde que o governo cesse suas isenções fiscais para grandes corporações e bancos, tribute os ricos e pare de pagar uma enorme dívida pública ilegítima. As organizações de trabalhadores e jovens devem também convocar uma luta unida dos servidores públicos e da população pela retirada do projeto de "reforma administrativa" que destruirá os serviços públicos agravando a miséria das populações pobres.

De maneira mais geral, devemos lutar para derrotar Trump e suas políticas belicistas para a Venezuela e a América Latina sob o falso pretexto de "combater o narcotráfico".

categoria-internacional EUA Partido Democrata Trump edicao-2025-11-13 (04)

MAMDANI GANHOU NOVA IORQUE

Se o objectivo de Mamdani é realmente executar o programa com que se apresentou, o melhor é romper rapidamente com o Partido Democrático e convocar os trabalhadores e os jovens, em Nova Iorque e em todo o país, para lançar as bases de um autêntico Labor Party, que não hesite em reclamar-se do socialismo”.

Zohran Mamdani ganhou há dias as eleições para a Câmara Municipal de Nova Iorque com mais de 1 milhão de votos — mais de 50% dos votos expressos.

Mamdani ganhou as eleições com uma campanha radical, de mobilização. Trouxe para a rua dezenas de milhares de trabalhadores e jovens, por reivindicações que os chefes do Partido Democrático classificaram como demasiado radicais e Trump como “comunistas”: congelamento das rendas, creches gratuitas para todas as crianças de menos de 5 anos, transportes públicos gratuitos, mercearias populares. Tudo reivindicações que iam ao encontro da população trabalhadora e pobre de Nova Iorque, para quem viver numa das cidades mais caras do mundo é um inferno.

Mamdani concorrera antes às “primárias” do Partido Democrático e ganhara. Foi, assim, o candidato oficial do partido. O seu principal oponente era Andrew Cuomo, o ex-governador do Estado de Nova Iorque, democrata também, mas concorrendo como “independente”, porque derrotado por Mamdani nas primárias.

A votação foi esmagadora: mais de 1 milhão de votos para Mamdani, maioria absoluta. Sem precedentes, há décadas.

A vitória de Mamdani tem, porém, muitas singularidades. Há um ano, era um perfeito desconhecido. Imigrante de origem indiana nascido em África, era e é militante dos Democratic Socialists of America (DSA), uma organização política interna ao Partido Democrático. Nas fileiras dos DSA contam-se, por exemplo, Alexandria Ocasio-Cortez e alguns outros deputados democratas.

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O Partido Democrático, saliente-se, é um dois partidos históricos do grande capital americano. É o partido dos grandes financeiros de Wall Street. De socialista, não tem nada. Foi o partido dos presidentes Kennedy e Johnson, da guerra do Vietname; de Clinton e Obama e Biden, das invasões e guerras sem fim no Médio Oriente…

Nós, no Maio, só nos podemos congratular por ver um candidato que se declara socialista ganhar a Câmara Municipal de Nova Iorque. Tanto mais que o suporte da sua candidatura foi a mobilização de dezenas de milhares de jovens e trabalhadores.

Se Zohran Mamdani conseguir executar o programa de congelamento de rendas e outras reivindicações dos mais pobres, que alívio será para estes!


O Partido Democrático, saliente-se, é um dois partidos históricos do grande capital americano. É o partido dos grandes financeiros de Wall Street. De socialista, não tem nada

Mas conseguirá ele levar a cabo esse programa, dentro de tal partido?

Trump manifestou ruidosamente a sua raiva com a eleição de Mamdani. A administração federal e os grandes grupos capitalistas tudo farão para sabotar os seus planos.

Que fará Mamdani? Defender-se-á, apelando para a mobilização das massas trabalhadoras e dos jovens que nele votaram? Ou, dependente, orgânica e financeiramente do Estado de Nova Iorque e da administração central, deixar-se-á emaranhar nas redes de interesses, dominar pelas “inevitabilidades”, volver-se, por fim, em mais um radical domesticado pelo sistema?

Uma coisa é certa. Não será o Partido Democrático que o vai defender. Zohran Mamdani faria bem em lembrar-se das lições da “vitória” de Mitterrand em 81 — e da sua viragem para a “austeridade” um ano depois; de Syriza e Tsipras, na Grécia, que desafiaram a austeridade imposta pela troika da Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu, apelaram para o apoio do povo grego, em referendo, para romper com o diktat dos banqueiros, ganharam estrondosamente o referendo… e dias depois capitularam miseravelmente ante a UE e a banca.

Pela nossa parte, só podemos incentivar Mamdani a romper com o Partido Democrático. Se o objectivo é executar o programa com que se apresentou, o melhor é que ele rompa rapidamente. Mais: que convoque, em Nova Iorque e em todo o país, os trabalhadores e os jovens para lançar as bases de uma autêntica política e de um autêntico Labor Party, que não hesite em reclamar-se do socialismo — como Zohran Mamdani faz, mas só pessoalmente, sem largar a filiação no Partido Democrático.

Entre reivindicar o socialismo e reivindicar o Partido Democrático, o que é costume é a filiação no Partido Democrático levar a melhor…

categoria-internacional Acumulação Primitiva Guerra Imperialismo Palestina Racismo Reprodução Social edicao-2025-11-06 (03)

A lógica da guerra infinita como estratégia de governo

Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias

A Acumulação do Capital: Uma Contribuição à Teoria Econômica do Imperialismo, de Rosa Luxemburgo, foi publicado em 1913 às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Suas avaliações críticas ao colonialismo e ao imperialismo não estavam apartadas da sua própria experiência como uma judia crescendo na Polónia ocupada pela Rússia, ela estava pessoalmente consciente dos impactos da dominação colonial.

Já nos seus primeiros trabalhos, esteve comprometida com a denúncia de como o extermínio dos povos indígenas e a interferência do capitalismo euro-americano nas formações sociais do mundo não ocidental não eram um acidente ocasional da acumulação de capital, mas sua própria base. Faz parte do capitalismo eliminar as economias pré-capitalistas, autossuficientes e não monetárias, transformando-as em ferramentas para acumulação de capital. Para tanto, faz uso de métodos como violência, fraude e até mesmo de genocídios.

Nesse sentido, embora motivações ideológicas facilitem o processo, o imperialismo é impulsionado pelas engrenagens do próprio capital, e por isso é viabilizado tanto em formas autoritárias de governo, quanto em “democracias” capitalistas.


“Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.”

Maria Mies, uma das primeiras feministas a analisar sistematicamente o papel das mulheres no capitalismo com base na estrutura de Rosa Luxemburgo, em seu livro Patriarcado e acumulação em escala mundial, aplica a teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo às mulheres, ao seu trabalho e à família.

A abordagem de Mies traça paralelos entre o trabalho feminino e o trabalho não remunerado de camponeses, colónias e outros “meios não capitalistas”, que Luxemburgo descreveu como sendo explorados “gratuitamente”, de forma semelhante à natureza. Maria Mies não vê o patriarcado e o capitalismo como sistemas separados, antes compreende que eles formam uma única entidade: o patriarcado capitalista. Por isso, para ela a subjugação das mulheres não se deve à misoginia masculina inerente, mas sim a uma necessidade estrutural para a acumulação de capital. Assim como Rosa Luxemburgo via a acumulação primitiva como intrínseca ao capitalismo, Mies afirma que o capitalismo não pode funcionar sem o patriarcado, visto que a acumulação contínua de capital requer a manutenção ou a criação de relações de género patriarcais e/ou coloniais.

Se Mies vê o patriarcado como expressão intrínseca da acumulação primitiva, também é verdade que os sujeitos dentro de um estado de exceção estão a mercê da mesma lógica da acumulação primitiva. Nesse sentido, os corpos racializados e colonizados de Gaza encontram-se em posição equiparada de exploração. Se em certo contexto histórico de superexploração, trabalhavam para empresas israelitas como forças de reservas para baixarem os salários, agora são expulsos do próprio território para aumentarem o valor de exploração.

No livro Pele Negra, máscaras brancas Frantz Fanon argumentou que a crescente conscientização dos trabalhadores em países colonizadores e racistas – levou a uma evolução no conceito de raça. Se o racismo vulgar e biológico correspondia ao período de exploração bruta do trabalho físico, onde a subjugação e a desumanização dos escravizados eram justificadas por hierarquias raciais pseudocientíficas, à medida que os meios de produção se tornaram mais avançados, as técnicas de exploração — e as formas de racismo — tornaram-se mais dissimuladas. A distinção colonial/racial entre civilização e barbárie evoluiu para uma divisão entre aqueles percebidos como capazes de dominar a natureza e aqueles vistos como subjugados por ela ou inerentemente parte dela.

Já Tithi Bhattacharya defende que todo esse processo sempre aconteceu sobre uma base de racialização intensa, o que não só fomentou a manutenção dos salários baixos, como fez subempregos parecerem um presente do capital a determinadas comunidades racializadas. Reconhecer as principais vítimas desse caminho também nos faz compreender porque sindicatos formados em sua maioria por trabalhadores do Sul global compostos por uma classe trabalhadora diversa, demonstram maior solidariedade e identificação com Gaza do que tantos outros da Europa.

Contudo, é importante reconhecer que o que tem sido feito ainda é muito pouco. O que estamos a assistir nada mais é do que a lógica da guerra infinita como dispositivo de governo, onde a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Antes, o que temos visto é a consolidação daquilo que Giorgio Agamben chamou de paradigma da exceção. Simplesmente, porque militarizar as mentes é também acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo. É a banalização das piores violências, como um soberano que tem direito sobre a vida do outro.

Segundo Carl Schmitt, trata-se da construção no imaginário social de um inimigo eterno, onde a militarização das mentes emerge como uma técnica eficaz para acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo.

Fenómenos que podem ser observados desde os discursos de ódio e dessensibilização em face à violência estatal nas periferias do mundo, quanto na execução da política colonialista do Estado israelita que se estrutura desde a Guerra Fria através da emergência de um Estado que se estabeleceu enquanto superpotência na ordem bipolar. A política baseada no proveito político e económico feito pelo movimento sionista que fez que este se aliasse a uma potência capitalista imperialista, capaz de assegurar a expulsão sistemática dos Palestinos, é a prova da instrumentalização desse processo. Características que podem ser observadas na tentativa de confinar o máximo de palestinianos, mas também no roubo de recursos estratégicos (água e terra cultivável), utilização da mão de obra barata, trabalho análogo ao escravo.

Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza há décadas é compreender as estruturas que autorizam e naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo a serem aplicados em escala indefinida contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.

categoria-internacional Antissemitismo Macarthismo Trump Universidade edicao-2025-10-23 (02)

Universidades nos EUA:o regresso do macarthismo?

Os regimes de medo dependem sempre de dois tipos de indivíduos: carreiristas e colaboradores”

Como muitos de vós já ouviram dizer, Judith Butler é um dos 160 docentes, estudantes e funcionários da Universidade da Califórnia (UC) em Berkeley cujos nomes a universidade entregou à administração Trump para ajudar a investigação federal sobre alegadas manifestações de antissemitismo em Berkeley.

Convém desacelerar um pouco a proposição acima para se poder compreender mais claramente as suas partes constituintes.

Desde fevereiro, o Ministério da Educação de Trump tem vindo a investigar uma série de universidades, incluindo Berkeley e outros polos da UC, sobre a maneira como lidaram com alegadas manifestações de antissemitismo nos seus polos universitários. Em março, o Ministério da Justiça anunciou uma investigação, separada, mas paralela, dos polos universitários da UC.

Lembrar-se-ão de que, em julho, uma comissão do Congresso convocou três dirigentes universitários para testemunhar sobre alegado antissemitismo nos seus polos universitários. Um dos convocados foi o reitor da CUNY, a Universidade da Cidade de Nova Iorque (disso tratarei mais à frente). Outro foi o reitor de Berkeley. Um grupo de deputados republicanos fanáticos fê-los passar um mau bocado aos três. Nenhum deles ofereceu grande resistência nem disse grande coisa em defesa dos direitos dos docentes, estudantes ou funcionários.

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Ao mesmo tempo, a administração Trump tem estado a bloquear uns quinhentos milhões de dólares de subsídios federais à investigação destinados à UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), que o presidente da rede geral da UC, James B. Milliken, ex-reitor da CUNY (tratarei disto mais à frente), anda desesperadamente a tentar desbloquear.

Enfim, quando o Ministério da Educação exigiu que Berkeley desse os nomes, a UC deu. Terá sido no dia 18 de agosto, segundo a informação tornada pública. Há quase um mês.

Desde então, o principal advogado de Berkeley tem enviado cartas individuais a cada um dos 160 docentes, alunos e funcionários — incluindo Butler — , informando-os de que os seus nomes tinham sido entregues à administração Trump.

Ora bem, o que significa tal coisa? Entregar nomes? Soa um tanto ameaçador, mas, no clima que se vive, não é difícil perder de vista o que as coisas realmente são.

Segundo a carta do advogado, o DOE (Ministério da Educação) “pediu a apresentação de documentação extensa, incluindo ficheiros e relatórios relacionados com alegados incidentes antissemitas”. Estando as investigações do DOE em curso, “a Universidade pode vir a ser objeto de obrigações adicionais de apresentação de documentos”.

Portanto, quando a UC entrega nomes não está apenas a entregar o nome de Judith Butler ou de outra pessoa. Está a entregar — desculpem, “apresentar” — “documentação extensa, incluindo ficheiros e relatórios”, em que, seja lá por que razão for, os nomes dessas pessoas apareçam. As “obrigações adicionais de apresentação de documentos” — adoro esta linguagem; é como se eles fossem uma loja de fotocópias — podem fazer que eles tenham de apresentar muita mais da tal documentação.

Um porta-voz de Berkeley referiu que a documentação pode até respeitar meramente à “potencial ligação” dessas pessoas “a informações sobre alegações de antissemitismo” em Berkeley. Perceberam? Basta a sua “potencial ligação” a tais alegados incidentes.

Como Butler explica em vários artigos, nenhuma das pessoas que receberam a carta faz a mais pequena ideia de qual seja a conduta, ação, declaração ou outra coisa qualquer de que esteja a ser acusada concreta ou especificamente, embora todas tenham uma ideia de que há de ter, de algum modo, que ver com a Palestina. Mais: como esclarece o porta-voz, pode simplesmente acontecer que os seus nomes tenham uma mera “potencial ligação” a informações sobre o alegado antissemitismo de outras pessoas.

O que nos traz então à CUNY. Há vários anos que a instituição tem estado envolvida numa multiplicidade de investigações por alegado antissemitismo, nos vários polos universitários de Nova Iorque. O nosso reitor e a instituição também aprovaram uma definição de antissemitismo que forçaria a investigar qualquer pessoa, de Zohran Mamdani ao ex-diretor do Seminário Teológico Judaico, a importantes especialistas e organizações de direitos humanos em Israel … e a mim.

Nos últimos três meses, foram despedidos quatro docentes contratados do Brooklyn College. Além disso, os administradores também chamaram para interrogatório cinco professores a tempo inteiro e um membro do pessoal.

A administração Trump pode pedir à CUNY, a qualquer momento, que entregue “documentação extensa, incluindo ficheiros e relatórios” simplesmente relacionados com a “potencial ligação” dessas pessoas a alegações de antissemitismo.

Vamos ser claros quanto às consequências de entregar tal documentação extensa.

Nos seus comentários à imprensa, Butler invoca, com toda a razão, a experiência do macarthismo. Contudo, para percebermos bem o que isso quer dizer concretamente, recordemos como funcionou exatamente o macarthismo.

O melhor é vê-lo, como explica a historiadora Ellen Schrecker no seu precioso estudo “Many Are the Crimes” (Tantos São os Crimes), como uma rede de funcionários do governo, investigadores privados, dirigentes de instituições e políticos.

As investigações de pessoas politicamente suspeitas costumam começar pela pressão do Estado, com a colaboração de ativistas de várias organizações de direita, do sector privado e do que nós chamamos sociedade civil, ou seja, universidades, igrejas, sindicatos, organizações sem fins lucrativos e assim por diante.

Estando nós nos Estados Unidos da América, as investigações são muitas vezes subcontratadas a outras organizações privadas e escritórios de advocacia especializados neste género de atividade. Produzem-se relatórios, que ficam guardados nos arquivos — agora, é nos computadores — dessas instituições.

A seguir, o governo — na época, era sempre pelo FBI — apodera-se da informação, que passa a integrar a ficha do indivíduo no FBI. Inevitavelmente, a informação vai passando outra vez para o sector privado e para a sociedade civil. Mais relevante para os efeitos aqui em causa, acaba por ir, seja por que vias for, parar às mãos de comissões do Congresso, que não raro trabalham com os tais investigadores privados que referi antes e com os ativistas que também referi antes.

Seguem-se as famosas audiências, que recordamos dos tempos da HUAC (a Comissão do Congresso para as Atividades Antiamericanas), em comissões, a de McCarthy e outras. Some-se a intensa cobertura da comunicação social, que, caso ainda não tenha acontecido até esse estádio, arruína a vida das pessoas. Já para não falar de todo o género de outros efeitos colaterais — passaportes cancelados (Paul Robeson), emprego recusado, porventura processos criminais e respetivas penas (para quem se recuse a responder a perguntas ou tenha uma escorregadela e cometa perjúrio) e não só. Ao que acrescerá, hoje, a muito real possibilidade de violência ou, com sorte, de assédio e ameaças permanentes.

Não esqueçam: tudo só por alguém se exprimir politicamente. Outrora, o problema ia de manifestar apoio à União Soviética a ter entrado cedo demais em campanha pela guerra contra o fascismo (era um problema real, sim, senhor) ou mobilizar-se pela não segregação racial do banco de sangue da Cruz Vermelha (também era um problema real, sim, senhor), mas não só. Hoje, poderá querer dizer, como no-lo lembrou Mamdani no fim de semana passado no Brooklyn College, defender os direitos humanos fundamentais dos Palestinianos.

Pois é, todos temos algum motivo para ficar preocupados com a investigação de alegações de antissemitismo em cidades universitárias; com o ter Berkeley entregado documentação sobre Butler e outros 159 docentes, funcionários e estudantes; com o que daí possa advir; e com que algo de parecido possa estar a acontecer nas nossas próprias instituições. Ou já ter acontecido.

No meu livro sobre o medo, fiz questão de dizer e repetir à saciedade que os regimes de medo dependem sempre de dois tipos de indivíduos: carreiristas e colaboradores. Hoje em dia, a palavra “cumplicidade” é a grande arma de arremesso. O significado real é que os regimes de medo nunca funcionam simplesmente de cima para baixo. Também têm uma componente importante de baixo para cima. Na nossa narrativa atual — à esquerda, também — , costuma-se imaginar que o tal elemento “de baixo para cima” consiste numa turba de fulanos e sicranos racistas, ativos nas redes sociais e nos estados republicanos. Ora, isso sempre foi presunção e água benta nossa. A verdade é esta: os colaboradores são agentes específicos, incumbidos de responsabilidades bem determinadas e poderes concretos a vários níveis, que vão tomando decisões, às vezes por excelentes razões, com consequências que, podendo não ser as por eles deliberadas, provavelmente se produzirão na mesma.

categoria-internacional Guerra Palestina edicao-2025-10-23 (02)

"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"

Entrevista com Naji El Khatib

O ativista e investigador palestiniano Naji El Khatib, que esteve há meses numa palestra no Porto, refere, em entrevista à página francesa em linha Reporterre, que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político. Ele lembra que a colonização continua entretanto, com a cumplicidade material da França. O leitor notará que tudo o que Naji El-Khatib diz se aplica na íntegra ao reconhecimento da Palestina pelo Estado português e à figura cínica e sinistra feita pelo ministro Rangel e pelo presidente Marcelo.


Que pensa do anúncio de Emmanuel Macron de reconhecer o Estado palestiniano?

Naji El Khatib Este anúncio suscita-me, em primeiro lugar, muitas dúvidas. Agirá Emmanuel Macron por sentimento de culpa, ou será, antes, um caso de cálculo político, para recauchutar a sua imagem, quando há agora uma queixa apresentada contra ele no Tribunal Internacional de Justiça, por cumplicidade com genocídio? Neste contexto, custa não ver neste gesto uma manobra de diversão. Há meses que a rua francesa se mobiliza contra os massacres em Gaza e pelos direitos dos Palestinianos.

No entanto, não acredito que Macron esteja a agir por remorso. Os seus aliados dizem-no cínico: parece-me que o reconhecimento é principalmente uma ferramenta de comunicação política. Chega tarde, muito tarde. Já mais de 140 países reconheceram o Estado palestiniano. Acima de tudo, porém, este Estado, o Estado derivado dos acordos de Oslo (1993), é um “Estado fantoche”, incapaz de responder às necessidades reais dos Palestinianos.

Hoje, os territórios reservados a um futuro Estado palestiniano correspondem a uns meros 10% da Palestina mandatária original. Falo como refugiado: a minha família foi expulsa de Jaffa em 1948. Ora, 60% dos palestinianos partilham esse destino do exílio forçado. A questão do direito ao regresso sempre foi excluída das negociações.

O que nos é proposto não é um Estado viável, é um simulacro que ratifica o esquecimento de centenas de milhares de expulsos. Por isso falo de uma farsa, perigosa para os direitos históricos do povo palestiniano, do rio até ao mar.


Acusa a França de cumplicidade com Israel. Em que consiste a cumplicidade, na sua opinião?

Naji El Khatib Em primeiro lugar, cumplicidade material. A França nunca deixou de fornecer armas e munições a Israel. Novos carregamentos partem regularmente do Aeroporto de Roissy. Há também empresas francesas a fornecer tecnologias utilizadas nos drones israelitas. Esta cadeia de produção alimenta diretamente a máquina de guerra.

Há, todavia, resistência: os estivadores de Marselha têm-se recusado a carregar caixas destinadas a Israel. Já o Estado francês continua. Como se pode pretender estar a reconhecer o direito dos Palestinianos à autodeterminação se, ao mesmo tempo, se arma quem os bombardeia e coloniza a sua terra?

Cumplicidade, igualmente, política. A França não impôs nenhuma sanção, apesar de dispor de meios de pressão económica e diplomática significativos. Permanecer em silêncio diante de um genocídio é participar nele. O coletivo de 114 advogados que está por detrás da queixa contra o Estado francês evoca-o com clareza: não agir para impedir um crime é ser cúmplice dele. Macron tenta mascarar essa responsabilidade com um reconhecimento do Estado palestiniano, mas a realidade é outra: fornecimento de armas, nenhuma sanção, inércia diplomática. Tudo isto configura participação direta e indireta no genocídio.


Mesmo assim, que consequências concretas pode ter o reconhecimento?

Naji El Khatib Em política, o simbolismo só tem peso se se traduzir em relações de força. Reconhecer o Estado palestiniano sem agir contra o agressor não muda nada. Enquanto a colonização continuar a avançar, enquanto se multiplicarem os ataques de colonos armados, assim como as barragens de controlo, é do foro da ilusão andar a falar de Estado palestiniano.

Para o reconhecimento ter sentido, seriam necessárias medidas concretas: sanções económicas, embargo militar e científico, retirar o embaixador. A França tem meios para fazê-lo. Mas não há sinais que indiquem tal vontade. Este anúncio é, portanto, uma manobra do foro do marketing político e, o que é pior, sem sanções nem medidas concretas, o risco é que a seguir se acelere a colonização e os territórios palestinianos se fragmentem.


O que pensa da iniciativa da Flotilha da Liberdade para Gaza?

Naji El Khatib É um ato de coragem essencial. Perante o bloqueio e o genocídio, não podemos manter-nos espectadores. A Flotilha procura quebrar o isolamento de Gaza e levar ajuda vital a uma população atingida pela fome e pelos bombardeamentos. Centenas de pessoas já perderam a vida por falta de comida ou de cuidados médicos.

Eu próprio participei na Marcha para Gaza, no Egito, em junho. A iniciativa malogrou-se, mas encarnava essa vontade de “fazer algo”. A Flotilha inscreve-se na sua continuidade: encarna uma forma de esperança, provando que há gente, noutras partes do mundo, que não se contenta em manifestar-se, que está pronta a correr riscos perante uma máquina de guerra.

Isto é tanto mais importante, quanto o Estado israelita tenta tirar legitimidade a estas ações e preparar os espíritos para ataques contra elas. Os participantes são muitas vezes caricaturados como “terroristas” ou “jihadistas", tal como aconteceu com o ataque ao barco turco que rumava a Gaza em 2010. Apesar dos riscos, a Flotilha não deixa de ser um gesto concreto de solidariedade.


Há muitos ativistas ecologistas a participar na Flotilha. Como entende esta ligação entre a luta pela Palestina e as lutas ambientalistas?

Naji El Khatib A expropriação da Palestina não afeta apenas terras e casas: também transforma o ambiente. Desapareceu de toda a Galileia o tomilho selvagem, o zaatar. As florestas plantadas por Israel com espécies importadas da Europa destruíram as plantas locais e apagaram os vestígios das aldeias palestinianas destruídas em 1948. Com os bombardeamentos maciços, Gaza está a tornar-se inabitável, os solos, contaminados.

Genocídio e ecocídio andam de mãos dadas. Defender a Palestina é defender, ao mesmo tempo, um povo e o seu ambiente, a sua cultura e a sua ligação à terra. Por isso é tão importante a presença de ativistas ecologistas na Flotilha. Lembra que a luta pela Palestina é também uma luta por terras viáveis e um ambiente habitável. São lutas que não estão separadas, estão profundamente ligadas.

categoria-internacional Protecionismo Trump edicao-2025-10-16 (01)

Comércio livre ou pautas aduaneiras

A única diferença entre o livre comércio e o proteccionismo é que, em determinadas circunstâncias, um pode ser um pouco pior do que o outro, mas nenhum deles tem grande utilidade como remédio para a pobreza.

Continuam as voltas e reviravoltas das birras do Presidente dos EUA, Donald Trump, com as pautas aduaneiras (vulgo tarifas). Numa semana, Trump anuncia direitos aduaneiros sobre o mundo inteiro (incluindo ilhas perto da Antárctida onde só há pinguins). Na semana seguinte, anuncia um adiamento, para obter concessões comerciais. A última foi a ameaça de impor uma taxa de 50% a todas as exportações da Europa para os EUA – entretanto adiada até os governos europeus fecharem um negócio. Tudo somado, no entanto, os direitos aduaneiros à importação dos Estados Unidos são agora cerca de 15 a 18% mais elevados do que eram antes e estão ao nível mais alto dos últimos cem anos.

Trump diz que impor direitos aduaneiros às importações americanas do resto do mundo lhe permite proteger o emprego dos trabalhadores americanos, acabando por fazer aumentar a produção industrial nacional. Alguns dirigentes sindicais americanos apoiam as medidas de Trump, na esperança de que ele tenha razão. Só que é falsa a afirmação de Trump de que os trabalhadores da indústria transformadora tradicional dos EUA têm vindo a perder o emprego devido a práticas comerciais desleais de outros países. A queda do emprego na indústria transformadora dos EUA tem sido replicada por outras economias capitalistas avançadas nos últimos 30 anos. O declínio do emprego na indústria transformadora da América do Norte e pela Europa Ocidental fora não se deve a estrangeiros mauzões apostados em “comércio desleal”. Deve-se à implacável tentativa do capital americano (e europeu) de reduzir os custos laborais, quer através da mecanização quer produzindo em locais onde o trabalho é mais barato, no estrangeiro. Aliás, do que o grupo de Trump fala é de aumentar a capacidade de produção industrial interna usando robôs e IA. Isso pouco mais emprego irá criar no sector. É o que vale a pretensão de Trump de ser “o orgulhoso presidente dos trabalhadores, não dos externalizadores; o presidente que defende a rua principal, não a Wall Street da finança”.


OS DIREITOS ADUANEIROS À IMPORTAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS SÃO AGORA CERCA DE 15 A 18% MAIS ELEVADOS DO QUE ERAM ANTES E ESTÃO AO NÍVEL MAIS ALTO DOS ÚLTIMOS CEM ANOS

As pautas aduaneiras nunca foram um instrumento eficaz de política económica, capaz de impulsionar uma economia interna. Na década de 1930, a tentativa dos EUA de “protegerem” a sua base industrial à força de direitos aduaneiros apenas deu numa nova contracção da produção no contexto da Grande Depressão que abarcou a América do Norte, a Europa e o Japão. A Grande Depressão da década de 30 não foi causada exclusivamente pela guerra comercial proteccionista que os EUA provocaram em 1930, mas os direitos aduaneiros acabaram por intensificar a contracção global, porquanto passou a ser “cada país por si”. Entre 1929 e 1934, o comércio mundial registou uma queda de cerca de dois terços, com os países de todo o mundo a aplicarem represálias comerciais uns aos outros.

Em reacção à deriva proteccionista de Trump, os economistas liberais sustentam que o comércio livre é melhor para todos os países e para quem neles vive. Este ponto de vista baseia-se na teoria das “vantagens comparativas” desenvolvida pelo economista David Ricardo, de origem portuguesa, no seu livro Princípios de Economia Política e de Tributação (1817), agora com mais de 200 anos. Ricardo argumentou que, embora Portugal pudesse produzir tanto tecidos como vinho a um custo inferior (em mão de obra) ao da Inglaterra, ambos os países beneficiariam do comércio entre si. Isto, porque a “vantagem comparativa” de Portugal em relação à Inglaterra era maior na produção de vinho do que na de tecidos. Assim, para Portugal, faria sentido produzir mais vinho e trocar o vinho a mais por tecido inglês. A Inglaterra beneficiaria, por sua vez, deste comércio, porque, embora continuasse a custar-lhe o mesmo produzir tecido, o preço do vinho importado baixaria consideravelmente. Assim, o comércio livre era uma situação em que todos ganhavam.

Só que as provas desta teoria do comércio livre produzidas pela história dizem o contrário. Nos últimos trinta e tal anos, as economias capitalistas mundiais aproximaram-se do modelo de “comércio livre”, com reduções acentuadas dos direitos aduaneiros, das contingentações e de outras restrições, e com numerosos acordos internacionais de comércio. No entanto, o crescimento económico desde a década de 1980 foi mais lento do que na década de 1970, e a desigualdade de rendimentos e patrimonial entre países e dentro de cada país piorou, atingindo-se, ao nível mundial, um número de 1500 milhões de trabalhadores ainda sem emprego ou rendimento regular.

O capitalismo não cresce globalmente de modo fluido e equilibrado, mas segundo aquilo a que os marxistas chamaram “desenvolvimento desigual e combinado”. As empresas e os países com melhores avanços tecnológicos ganham à custa dos que ficam para trás, e não se produz igualização.

Na formulação do grande economista do “mercado livre”, Adam Smith, “quando um homem rico e um homem pobre fazem negócio um com o outro, ambos aumentam a respectiva riqueza se negociarem com prudência; mas o património do homem rico aumentará em proporção superior ao do do homem pobre. Analogamente, quando uma nação rica e uma pobre se dedicam ao comércio, será a nação rica a tirar maior vantagem, sendo-lhe, portanto, mais prejudicial a ela do que à outra a proibição deste comércio”.

O comércio livre dá frutos para a maior parte dos países quando a rendibilidade do capital aumenta (como aconteceu entre os anos de 1980 e 2000): com um bolo maior, todos podem ganhar (ainda que em proporções diferentes). Em tal caso, a “globalização” parece muito atractiva. A economia capitalista mais forte (tecnologicamente e, portanto, concorrencialmente, em termos de preço por unidade) será a maior defensora do “comércio livre”, como a Grã-Bretanha o foi entre 1850 e 1870, e os EUA entre 1945 e 2000. Neste último período, a globalização foi o mantra dos EUA e das suas agências internacionais, Banco Mundial, OCDE e FMI.

Porém, em começando a rendibilidade global a cair, o “comércio livre” perde o encanto, especialmente para as economias capitalistas mais fracas, à medida que o bolo do lucro deixa de aumentar. O “populismo” nacionalista levanta a cabeça, e ganham proeminência os economistas e políticos contrários ao “comércio livre”. Foi essa a situação na Grande Depressão dos anos 30, essa é a situação desde o início da década de 2000 e, principalmente, desde que findou a Grande Recessão.

Marx e Engels reconheceram que o “comércio livre” podia impulsionar a acumulação de capital a nível mundial e, assim, a expansão das economias, como aconteceu nos últimos 170 anos. Mas também notaram o reverso da medalha, pois tal é a natureza dual da acumulação capitalista: o aumento da desigualdade, um “exército de reserva” de desempregados em permanente oscilação e o aumento da exploração do trabalho nas economias mais fracas.

Então qual é melhor para os sindicatos e para a classe trabalhadora, o comércio livre ou o proteccionismo? Depende. A melhor resposta tê-la-á, porventura, dado, em súmula, Robert Tressell no seu famoso livro The Ragged Trousered Philanthropist (O Filantropo Esfarrapado), escrito no Reino Unido em 1910: “Temos tido livre comércio nos últimos cinquenta anos, e a maior parte das pessoas vive hoje em condições de pobreza mais ou menos abjecta, com milhares literalmente a morrerem à fome. Quando tínhamos proteccionismo, as coisas ainda estavam piores. Há outros países que praticam o proteccionismo, mas isso não impede muitos dos seus habitantes de não quererem senão vir para cá trabalhar por salários de fome. A única diferença entre o livre comércio e o proteccionismo é que, em determinadas circunstâncias, um pode ser um pouco pior do que o outro, mas nenhum deles tem grande utilidade como remédio para a pobreza, pela simples razão de que nenhum lida com as verdadeiras causas da pobreza.”•


Tradução
Adriano Zilhão (O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009)

categoria-internacional Estivadores Palestina edicao-2025-10-16 (01)

Estivadores suecos bloqueiam comércio de armas com Israel

Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. Nenhuma compensação ou ajuste que não inclua o regresso ao trabalho no cais do seu porta-voz Erik Helgeson será aceite.

O Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco reafirmou o seu compromisso de acabar com o comércio de material militar com Israel. O Tribunal do Trabalho escuta, entretanto, as alegações iniciais relativas ao despedimento do porta-voz nacional do sindicato, Erik Helgeson.

Em dezembro do ano passado, o Sindicato dos Estivadores sueco organizou um referendo sobre uma acção sindical de embargo do transporte por portos suecos de material militar de e para Israel. 68% dos sindicalizados de todo o país votaram a favor de avançar com o protesto, em solidariedade com a população civil palestiniana de Gaza e da Cisjordânia.

A acção do sindicato foi ferozmente contestada pelos empregadores portuários tanto na comunicação social como junto do Tribunal do Trabalho sueco. O sindicato avançou na mesma. Em fevereiro, o Tribunal do Trabalho concluiu pela legalidade da acção de solidariedade, que se poderia desenrolar nos termos planeados.

No entanto, no próprio dia do veredicto, o porta-voz do sindicato e vice-presidente nacional, Erik Helgeson, foi despedido pelo seu empregador, o Terminal Roro (de embarque e desembarque rolante) de Gotemburgo, cujo proprietário é a DFDS. O empregador notificou o despedimento em comunicado de imprensa em que referia preocupações de “segurança nacional”.

Esta semana, oito meses depois de defender em tribunal a acção solidária do sindicato, Helgeson voltou ao Tribunal do Trabalho de Estocolmo. Estava em causa, desta vez, o seu próprio despedimento ilegal. Era a primeira audição do caso, que se prevê arrastar-se até ao segundo semestre de 2026.

Na segunda-feira, dirigindo-se a apoiantes à porta do tribunal, Helgeson reafirmou que o sindicato se manterá firme.

* Nunca os empregadores irão ditar quem há-de poder falar pelo SDU. Numa democracia digna desse nome, tal decisão cabe exclusivamente aos estivadores sindicalizados.

* O SDU não se coibirá de manifestar solidariedade com outros trabalhadores sujeitos a injustiças. Atacar os nossos representantes eleitos não nos silenciará. A decisão dos sindicalizados de estarem solidários com a classe trabalhadora palestiniana mantém-se.

* É uma vergonha que o Estado sueco esteja, na realidade, a aumentar as suas importações de material militar de Israel quando 20 mil crianças palestinianas foram mortas na ofensiva contra Gaza. De acordo com a organização Save The Children, é o equivalente a uma criança morta por hora ao longo dos últimos 23 meses. O comércio de material militar com Israel tem de acabar.

* O SDU não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. Nenhuma compensação ou ajuste que não inclua o regresso de Erik ao trabalho no cais será aceite.

categoria-internacional Palestina edicao-2025-10-16 (01)

Marcha para Gaza - a minha história pessoal ​

Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita — mas também pelo irmão egípcio. Alguns milhares de ativistas não podem franquear uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.

Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita — mas também pelo irmão egípcio. Alguns milhares de ativistas não podem franquear uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.

No dia 6 de dezembro de 2003, no auge da Intifada, após uma noite difícil, de combates incessantes entre o exército israelita e os combatentes palestinianos no bairro de al-Yasmina, na velha cidade de Nablus, onde eu na altura vivia, recebi uma mensagem do Consulado Francês em Jerusalém Oriental a anunciar-me que a minha viagem a Gaza estava cancelada.

Peguei nas coisas que tinha preparadas para um dia normal de trabalho na Universidade An-Najah, dividido entre a raiva e a resignação. Pronto: depois de meses de espera na lista de pessoas com autorização para se deslocarem a Gaza, tinham-me riscado da lista.

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Telefonei para Jerusalém. A resposta pacificou um pouco a minha raiva: Jane Birkin e os seus músicos precisavam de todos os veículos do Consulado Francês em Jerusalém Oriental para se poderem deslocar a Gaza e dar um concerto no Centro Cultural Rashad al-Shawa nos dias 8 e 9 de dezembro.

Pensei com os meus botões: que azar o meu, um palestiniano nascido no Líbano, animado pela paixão ardente de descobrir todos os recantos da Palestina, do rio até ao mar. Nablus representava, para mim, muito mais do que a universidade: era o meu ponto de partida para visitar todas as cidades e aldeias da Palestina. Exceto Gaza.

Mas que raio ia Jane Birkin fazer a Gaza? Cantar? Ou impedir as minhas peregrinações físicas e mentais aos lugares da minha memória familiar?

Como a maior parte dos Yafawi (habitantes de Jaffa) que fugiram da cidade por mar quando ela caiu perante a Telavive triunfante, eu estava para nascer em Gaza. Mas a inexperiência marítima de um pescador que nunca se atrevera a afastar-se da costa para pescar fez que acabasse por nascer noutro sítio, longe de Gaza. Em vez de se dirigir para sul, para Gaza, ele enganou-se no rumo e navegou para norte, em direção ao Líbano.

Desde então, visitar Gaza, onde eu devia ter nascido, tornou-se-me insistente obsessão. Tentei outra vez, em 2012. Não fui bem-sucedido. A minha frustração só crescia.

Junho de 2025. O meu filho mais velho, Samy, falou-me de uma marcha que se estava a organizar: para Gaza. Enquanto o escutava, vieram-me ao de cima todos os desejos insatisfeitos, todas as frustrações recalcadas. No espaço de poucos segundos, vi-me a entrar em Gaza — já não Gaza de 2003 ou de 2012, mas Gaza depois da guerra e do genocídio.

Sem hesitar, respondi: “Eu vou.”

Ele respondeu, com toda a naturalidade: “Eu também.”

Alguns dias depois, comprámos bilhetes para o Cairo. Era o meu segundo regresso à Palestina com destino a Gaza. Gaza encerra em si mesma todas as dimensões políticas, históricas e humanas da Palestina.

Gaza, gigantesco campo de refugiados.

Gaza, prisão a céu aberto.

Gaza que resiste.

Gaza, centelha de todas as lutas do povo palestiniano, de 1948 aos nossos dias.

Eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita, mas também pelo irmão egípcio.

Entre sonho e realidade, inscrevi-me oficialmente. Comecei a receber uma avalanche de mensagens da “March to Gaza” através dos respetivos grupos WhatsApp e Telegram. O número de inscritos aumentava de dia para dia.

Invadia-me um sentimento de felicidade, misturado com algum receio, ao ouvir e ler as ideias expressas por alguns participantes. Pouco a pouco, apesar de as condições serem tudo menos ideais, formou-se uma comunidade movida por um entusiasmo que alimentava uma mobilização internacional.

Um movimento de cidadãos, popular, não elitista, sem filiação política. Um movimento sem precedentes, que se poderia dizer internacionalista de tipo novo. Nos seus membros não há qualquer semelhança com os internacionalistas da guerra civil de Espanha, nem com os partidários de um internacionalismo comunista ou revolucionário clássico. Não reivindicam uma ideologia que sustente que os seres humanos se devam unir para defender interesses comuns por sobre fronteiras nacionais, políticas, culturais ou raciais.

Internacionalizaram-se antes pela Palestina, transmudada em símbolo universal de justiça.

Apesar do impasse do horizonte palestiniano enquanto se desenrola o genocído, a Palestina emerge em moldes que transcendem as suas fronteiras, a sua geografia e o seu povo. Ela encarna a “mais-valia” das lutas pela liberdade que transcendem os quadros nacionais e estatais. É a Palestina “não-palestiniana”, a Palestina de todos os que aspiram à liberdade, fora do espartilho do mercado capitalista e dos interesses imperialistas.

Não surpreende, pois, que a Palestina se tenha volvido causa principal da justiça no mundo, denunciando a injustiça nos quatro cantos do globo.

Emergindo como símbolo de justiça e projeto de libertação radical para a terra e a humanidade, a Palestina transcende as fronteiras naturais e humanas do seu território e do seu povo. Torna-se assim valor e símbolo universal.

Em nome deste internacionalismo palestinizado, os manifestantes encarnam a solidariedade internacional sem fronteiras nem exceções: defender a dignidade, a liberdade e a autodeterminação dos povos passa a compromisso universal. Na hora de lutar contra o genocídio, internacionalismo significa levantar-se e tomar a iniciativa, como ser humano responsável.

Estes internacionalistas são a gente fantástica que encontrei no Cairo e, depois, na primeira e na segunda barragem, onde as forças de segurança egípcias nos trataram à bruta, nos prenderam e agrediram para nos impedir de continuar o caminho para Ismailia e chegar a Al-Arish, ponto de partida para Gaza.

Tive a sorte imensa de conhecer seres humanos notáveis, chegados de dúzias de países, movidos pela compaixão pela Palestina e pela sua justa causa, exigindo o fim do genocídio em Gaza e a liberdade para a Palestina, do rio até ao mar.

Como participante palestiniano nesta marcha para Gaza, agradeci a todos por estarem do lado bom da história, o da justiça e da liberdade.

Fui testemunha do entusiasmo avassalador e da coragem sincera dos participantes na marcha. Mas também ouvi comentários irresponsáveis de uns poucos, observei falta de organização e de disciplina e, sobretudo, ignorância do território egípcio que tínhamos de atravessar.

Os organizadores anunciavam que “a Marcha Mundial para Gaza é um movimento de cidadãos, apolítico e independente”. Será, porém, possível escapar realmente à política e ao seu cálculo frio, desprovido de considerações humanistas e éticas?

Como há de querer chamar-se “apolítico” a um movimento que é fundamentalmente político, que exige o fim do genocídio, a retirada do exército israelita de Gaza e o levantamento do bloqueio imposto tanto por Israel como pelo Egito?

Ser a marcha um ato cívico por excelência não contradiz a sua natureza eminentemente política, por muito que os organizadores digam que “não representamos nenhum partido, ideologia ou religião. Representamos o povo, em toda a sua diversidade e humanidade”.

Na realidade, apesar destas afirmações simplistas e ingénuas, é exatamente no campo da política que nos movemos. A atitude das autoridades egípcias pôs à vista de todos o carácter profundamente político da marcha: proibida, os seus participantes detidos, agredidos e deportados, apesar de pacíficos e sem intenção violenta alguma.

A política do Estado egípcio responde à lógica do poder, aos interesses da classe dominante e a um cálculo frio em que não interessam para nada os “princípios orientadores” da marcha: justiça, dignidade humana, paz.

A ingenuidade que os organizadores exibiram ocultou as realidades políticas do momento. Quando estas realidades nos caíram brutalmente em cima, muitos participantes da marcha ficaram estupefactos.

Uma participante de origem árabe perguntou-me como era possível um Estado “irmão”, árabe e muçulmano, como o Egito comportar-se desta maneira.

Um jovem quis alugar uma motoreta para passar as barragens, convencido de que os jovens gendarmes egípcios nunca se atreveriam a disparar contra europeus solidários com a Palestina.

De cada vez que eu explicava as realidades do terreno, vi instalar-se deceção e desconfiança para comigo. Quando disse que não estávamos num país amigo, houve quem protestasse ruidosamente. As rusgas violentas da polícia aos hotéis e apartamentos em que estávamos, no Cairo, foram, porém, suficientes para que a realidade aparecesse nua e crua.

Não é que a cumplicidade do Egito seja novidade. O regime tem Gaza selada e isolada há anos, mesmo quando as forças israelitas não ocupam o lado palestiniano de Rafah. Milhares de palestinianos tiveram de pagar mais de 5000 dólares por pessoa para fugirem ao genocídio. Outros ainda têm de pagar quantias exorbitantes para que os camiões de ajuda humanitária possam entrar em Gaza.

O Egito continua a negar aos palestinianos que se encontram no seu território o direito a trabalhar, agravando a sua situação económica e deixando centenas de famílias em situação precária. Há quem acabe por querer voltar para Gaza. Têm, no entanto, o caminho obstruído.

De nada serve adoçar a realidade dos regimes cúmplices e dos mecanismos repressivos. O Egito viola a sua própria soberania quando permite que empresas como a Erjani lucrem com o bloqueio e o genocídio, concedendo seletivamente autorizações de entrada e saída de Gaza, esta faixa de Gaza que há décadas explora.

No regime do bloqueio, cada movimento requer subornos e esquemas clandestinos, reforçando um sistema mafioso assente no sofrimento dos palestinianos.

A caravana de Sumud e a Marcha Mundial para Gaza são atos de desafio, não ameaças militares. Uns poucos milhares de ativistas não podem atravessar uma das fronteiras mais militarizadas do mundo: a passagem de Rafah.

Contudo, os internacionalistas por Gaza e contra o genocídio encontrarão outras formas de continuar a luta pela Palestina e pela justiça à escala mundial.

Pela minha parte, eu lá continuarei, no meio daquela gente sincera e amorosa, na esperança de, um dia, ver Gaza, o meu amor.

Ilustrações:
João Mascarenhas
Inês Milagros

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