Ocupar e resistir

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Carlos, nós no Maio temos vários sindicatos que compõem a nossa associação e trazem notícias sobre as suas lutas, reivindicações e perspetivas dos trabalhadores e trabalhadoras em Portugal. Gostaria de saber, neste sentido, como se organiza o Sindicato dos Estudantes e se mantém diálogo com outros sindicatos.

Bem, em primeiro lugar, muito obrigado por nos disponibilizarem este espaço; é um prazer poder responder a estas perguntas. O Sindicato dos Estudantes é a maior organização estudantil do Estado espanhol. Organizamo-nos nos estabelecimentos de ensino, tanto em escolas secundárias como em faculdades, e também realizamos assembleias por bairro e por cidade.

Somos uma organização de esquerda, feminista, antirracista, revolucionária e anticapitalista. Uma coisa que explicamos sempre é que não somos o sindicato de todos os estudantes, mas sim a organização dos filhos e das filhas da classe trabalhadora. Neste sentido, a nossa ligação ao movimento operário sempre foi muito estreita, desde o início. Esta é uma das nossas marcas distintivas e, como tal, participámos em centenas de conflitos sindicais, grandes ou pequenos, e sempre contribuímos com tudo o que estava ao nosso alcance para os fazer avançar. Como filhos e filhas de trabalhadores e trabalhadoras, sabemos que a luta deles é a nossa luta. Os exemplos são muitos: a greve da indústria metalúrgica em Cádis, a Coca-Cola, a Airbus, as trabalhadoras dos serviços de assistência ao domicílio…

É evidente que mantemos uma relação mais quotidiana com os sindicatos do setor da educação. Temos estado ao lado deles nas várias greves deste setor que ocorreram nos últimos meses, apelando sempre ao movimento estudantil para que participe nesta luta ao lado dos professores e professoras. Agora, por exemplo, a poucos dias da greve educativa por tempo indeterminado em Madrid, o Sindicato dos Estudantes faz parte do Comité de Greve, juntamente com os restantes sindicatos e coletivos que a convocaram.

Neste sentido, sempre mantivemos um diálogo constante com os sindicatos. Isto não significa que não tenhamos denunciado e criticado duramente as direções sindicais que se venderam ao patronato. Nunca aceitámos a receita da “paz social” nem a da “colaboração de classes”, que apenas conseguiram um gravíssimo retrocesso nas condições de vida da classe trabalhadora e da juventude. A nossa organização, por exemplo, há anos que exige a convocação de uma greve geral face à crise da habitação, e temos confrontado a atitude das direções das Comisiones Obreras (CCOO) e da UGT [os sindicatos maioritários], que se recusaram a mexer um dedo para fazer frente a uma situação que oprime a nossa classe. Por fim, a explosão social em torno da habitação não lhes deixou outra alternativa senão convocar a greve.

Como começou a ocupação na Puerta del Sol, em Madrid, e qual foi a posição do Sindicato dos Estudantes?

Na quarta-feira 26 de setembro ocorreu o despejo de Maricarmen na cidade de Madrid. As imagens de uma mulher de 87 anos a ser retirada da sua casa numa maca e da polícia a reprimir as centenas de ativistas que se reuniram para impedir o despejo espalharam-se como fogo. Nesse dia, realizou-se uma grande manifestação convocada pelo Sindicato das Inquilinas em Madrid, o que já era um indício de que o que se estava a manifestar era muito mais do que um protesto contra um despejo.

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No sábado 26 de setembro, o Sindicato das Inquilinas convocou outra manifestação. O apelo foi atendido por centenas de milhares de pessoas que lotaram o centro de Madrid. Não posso alongar-me, mas a componente explosiva e de críticas tanto à direita como à esquerda governamental, que protege o rentismo, era enorme.

Então, o Sindicato das Inquilinas, num comício no final da manifestação, anunciou que tinha começado um acampamento na Puerta del Sol, onde se situa a sede da Comunidade de Madrid e onde, há 15 anos, ocorreu o chamado 15M.

Os camaradas do Sindicato dos Estudantes estavam a participar nessa manifestação com um grande bloco, com faixas a exigir a expropriação dos rentistas e a convocação de uma greve geral. Quando soubemos que esta iniciativa tinha sido lançada, sem hesitar, apelámos à participação, pois entendemos que se tratava de um passo em frente nesta luta. O nosso grupo deu a volta e dirigimo-nos para a Puerta del Sol a gritar palavras de ordem.

Levámos milhares de pessoas até à Puerta del Sol e, uma vez lá, trouxemos tendas e tudo o que era necessário para acamparmos. A nossa posição, tanto naquela altura como agora, é que o acampamento constitui uma referência para milhões de ativistas em todo o país e se tornou o centro nevrálgico da luta pela habitação. Um espaço de contrapoder popular que, além disso, repeliu as ameaças e as agressões fascistas através da organização e da luta de massas.

Que organizações integram essa ocupação? Têm acontecido conversas frutíferas entre os diferentes grupos?

Há muitas organizações e coletivos a participar. O Sindicato das Inquilinas foi o promotor da iniciativa, mas juntaram-se muitas outras, como os sindicatos da Habitação dos diferentes bairros de Madrid, organizações da esquerda combativa, sindicatos, associações antirracistas e ambientalistas…

O nosso diálogo é constante e cordial, uma vez que estamos todos do mesmo lado da barricada.

Quais são os objetivos e as perspetivas do movimento?

É evidente que esta explosão social tem raízes muito profundas. Milhões de pessoas compreenderam que não bastam medidas cosméticas nem soluções provisórias para resolver o problema da habitação. Por isso, a manobra do governo, que anunciou dois decretos com medidas temporárias e insuficientes (decretos que foram posteriormente rejeitados pela direita no Congresso dos Deputados), foi rejeitada pelo movimento. Esta explosão social aponta para o cerne da propriedade: para que a habitação seja um direito, tem de deixar de ser um negócio. E a única forma de o fazer, de garantir habitação pública, universal e de qualidade para a classe trabalhadora, é expropriando os bancos, os fundos abutres e os senhorios especuladores.

Para que a habitação seja um direito, tem de deixar de ser um negócio.

Esta luta é um golpe duríssimo contra a direita e a extrema-direita. No caso de Madrid, as políticas do PP têm consistido em conceder a máxima garantia aos investidores e aos rentistas. Destruíram a habitação pública e têm sido os firmes guardiões dos lucros dos rentistas. Por isso, esta luta é também antifascista.

Mas este movimento também aponta o dedo ao governo do PSOE, que em oito anos não mexeu um dedo para travar o negócio imobiliário. A luta obrigou-os a reagir com dois decretos insuficientes, mas, como já disse, isso não conseguiu abafar o movimento.

Esta explosão social provocou um verdadeiro terramoto político, ao ponto de o governo não ter tido outra alternativa senão convocar eleições. Com esta convocatória, pretendem canalizar todo o descontentamento para o plano eleitoral. Mas, aos olhos de milhões de pessoas, é evidente que votar de quatro em quatro anos não é suficiente: já são oito anos de governo “progressista” que não resolveram absolutamente nada. É por isso que afirmamos que a nossa campanha eleitoral será a greve geral: manter a pressão nas ruas, protagonizar uma greve geral histórica a 11 de novembro, desferir um duro golpe à direita e à extrema-direita e obrigar a esquerda parlamentar a tomar medidas sérias a favor da classe trabalhadora.

Está prevista pelo movimento como um todo uma greve geral contra a crise da habitação no Estado espanhol?

Sim, de facto, já foi convocada. As CCOO e a UGT anunciaram há uma semana a convocação de uma greve geral para 11 de novembro. A maioria dos sindicatos aderiu a esta greve e, por parte do Sindicato dos Estudantes, já anunciámos que convocamos uma greve estudantil e que tudo será paralisado nesse dia.

Isto é importante porque se trata da primeira greve geral em 14 anos. Foram anos em que a burocracia sindical impôs, de cima para baixo, uma paz social completamente injustificada, que apenas serviu para provocar um grave retrocesso nas nossas condições de vida. Uma paz social que, já nos últimos meses, tem sido fortemente questionada e ultrapassada em conflitos emblemáticos, como a luta dos metalúrgicos em Cádis, a da Airbus em Getafe, a das creches em Madrid ou as greves no setor da educação na Catalunha e na Comunidade Valenciana.

Esta explosão social colocou-os entre a espada e a parede e não tiveram outra alternativa, pois o apelo à greve geral tinha-se tornado um clamor em todo o Estado. Sem dúvida que a burocracia sindical espera que, a 11 de novembro, assistamos a um evento simbólico que permita simplesmente aliviar um pouco a pressão, para que todo este descontentamento seja canalizado para as águas calmas do parlamentarismo. Mas não vai ser assim.

Vamos alargar esta greve a partir da base, com a iniciativa e o empenho da classe trabalhadora e da juventude. E, a partir do Sindicato dos Estudantes, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que isso seja possível: realizando uma greve total a 11 de novembro, fechando todas as escolas secundárias e faculdades em todo o Estado e apelando a que as mobilizações sejam massivas.

As políticas de destruição dos serviços públicos, a estagnação salarial, a inflação e a especulação imobiliária são pontos comuns em toda a Europa

Em Portugal, vivemos uma profunda crise política, social e económica, com baixos salários, precariedade laboral e um custo de vida absurdamente elevado. A crise da habitação agrava-se a cada dia que passa, com preços inaceitáveis para a classe trabalhadora e um deslocamento constante dos residentes dos centros urbanos em favor do turismo e da especulação imobiliária. O que é preciso para que esta luta se espalhe por aqui, para que essa consciência se traduza em luta?

Penso que, neste momento, o fantasma da rebelião social assola a Europa. Em França, na Alemanha, na Bélgica, milhares de jovens estão a tomar as ruas. Mas o que estas rebeliões juvenis refletem é que existe um profundo descontentamento em toda a classe trabalhadora.

As políticas de destruição dos serviços públicos, a estagnação salarial, a inflação e a especulação imobiliária são pontos comuns em toda a Europa. Tudo isto, aliás, promovido pelos governos de direita e de extrema-direita que declararam guerra à classe trabalhadora e à juventude, como é o caso de Portugal.

O problema fundamental não é que a classe trabalhadora não queira lutar. O problema é a atitude passiva das direções sindicais e da esquerda parlamentar. Aqui, vimos como a classe trabalhadora portuguesa foi capaz de travar a contrarreforma laboral com duas greves gerais. Este exemplo, que nos inspira profundamente a nós, camaradas do Sindicato dos Estudantes, é a prova de que a classe trabalhadora pode conquistar o que se propõe quando entra em ação.

Acredito que as condições para uma explosão social como a que ocorreu em Espanha ou como a que estamos a assistir em França já existem em Portugal e em muitos países da Europa. E, a partir do Sindicato dos Estudantes, continuaremos a acompanhar com entusiasmo o desenrolar dos acontecimentos e apoiaremos, sem hesitação, a revolta das nossas irmãs e irmãos portugueses.


Link para vídeo do Carlos Ochoa no Instagram:
https://www.instagram.com/reel/DdzBJcnKmME/

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