Jornal Maio

A Paciência Também Chega ao Fim

Os trabalhadores só sabem a força que têm quando lutam juntos, como na greve geral. O Governo e os grandes accionistas a que ele obedece resolveram esmagar o que resta a quem trabalha. Mas nós não aceitamos uma economia que esmaga a humanidade.  

Soará a panfletário dizer que os “trabalhadores não sabem a força que têm”? Que levam na barriga, sejam eles operários, professores, médicos, ferroviários ou da cultura, um mundo mais justo, belo e bom, de que são os parteiros? 

A realidade encontrou-se com a história, nestes meses, em Portugal. A greve geral deixou à vista que as classes dirigentes, que vivem da “comunicação” que já não convence ninguém, têm mais fraquezas do que parece, mesmo com maioria no Parlamento. 

Não há casas, faltam alimentos de qualidade, desfaz-se a saúde, a educação e o lazer para quem trabalha. Obriga-se-nos a uma existência arrastada e sofrida. Mas a paciência chega ao fim, depois de anos de promessas de que, “agora sim, com esta reforma, isto vai ficar melhor”, e ficou sempre pior. Como Zé Mário cantou, a produtividade é uma finta vossa. A pergunta certa é se podemos viver do trabalho e nele sermos felizes. 

O que, na realidade, nos  anunciam é o fim de uma carreira para os docentes – que, no desenho do Ministro, ficam na mão de directores, que definirão a sua avaliação e mobilidade — assim, claro, se suprimindo o último reduto de liberdade pedagógica e abrindo mesmo portas a que empresas privadas possam contratar professores para a escola pública (como se fez no INEM e aos enfermeiros); a vigilância aos médicos, que deixam de poder seguir os seus doentes, para abrir mais espaço ao privado, enterrado em seguros que não asseguram saúde; a perseguição a 25% dos trabalhadores, por serem imigrantes; agora a privatização da CP aos poucos, pela concessão das linhas lucrativas, e a granel da TAP, para satisfazer as ordens de Bruxelas; e ainda nos querem impor um banco de horas de 50 horas por semana de trabalho no privado (e no público) e proibir os sindicatos de actuarem na maioria das empresas e de fazer greve. 

Há tudo isto; mas há também um pacote patronal (que até é rejeitado por uma parte dos empresários) que não logrou ser aprovado até agora, assim se demonstrando a força imensa que os trabalhadores têm quando se organizam, todos juntos. Três milhões.

Este Governo é um governo de guerra social, não só porque quer afectar 5% do orçamento à produção e ao uso de armas na guerra, mas porque abriu uma guerra contra todos os que trabalham e as pequenas empresas, que dependem do mercado interno e se vão abaixo com o parco consumo que os baixos salários permitem. 

A unificação de todas estas lutas é fundamental – derrotar o pacote laboral, a privatização da educação, dos transportes e da saúde, derrotar a burocracia e a carga fiscal brutal sobre quem trabalha e as pequenas empresas, proteger os imigrantes, garantindo-lhes a dignidade: legalidade e direitos civis.

Tudo isto é um pacote Político (com P maiúsculo) para quem vive neste país e acha que ele não é a coutada privada de algumas centenas de accionistas que, para sobreviverem no mercado mundial e no meio da crise imperialista, resolveram esmagar o que resta a quem trabalha. Não aceitaremos ir como ovelhas tresmalhadas tocadas para o matadouro da exploração, da exaustão, do cansaço, da doença, de uma economia que esmaga a humanidade.