“Ninguém quis o pacote do Luís”
Pelo terceiro ano consecutivo assistimos a uma massa de gente, com muitos jovens, a descer a avenida numa manifestação que durou várias horas. Foram centenas de milhares, a que se somam os que acudiram, no Porto, aos Aliados e noutras cidades, em inúmeras concentrações e eventos. Na AR, a menos de dois quilómetros da Av. da Liberdade, o espetáculo nem para mau teatro dá. Discursa o partido fascista Chega, que ocupa 60 lugares, e há elogios a Salazar em triplicado. Um para o Chega, outro para a IL, outro, enfim, para a AD?
Há muito mais esquerda nas ruas do que no parlamento.
“Ninguém quis o pacote do Luís” Era esta a palavra de ordem mais gritada na Avenida da Liberdade, em Lisboa, junto a “Fascismo nunca mais”. A manifestação do 25 de Abril não foi mais uma com “milhares” de pessoas. Pelo terceiro ano consecutivo assistimos a uma massa de gente, com muitos jovens, a descer a avenida numa manifestação que durou várias horas. Foram centenas de milhares, a que se somam os que acudiram, no Porto, aos Aliados e noutras cidades, em inúmeras concentrações e eventos.
Em Lisboa, muitos ficaram a marcar passo hora e meia no Marquês de Pombal, porque a avenida já estava toda preenchida até ao Rossio e não se conseguia avançar. Se, nas celebrações do 50º aniversário do 25 de Abril, essa grande adesão podia ser vista como epifenómeno, hoje vê-se claramente a transformação sociológica naqueles que celebram Abril e que, há 10 anos, eram cerca de 30 a 50 mil, sobretudo militantes partidários e de associações e sindicatos.
Como interpretar esta mudança?
Parece ser um daqueles momentos em que a crise da representação liberal se adensa no parlamento e a rua se mostra como espaço democrático, onde cada um tem voz própria, um cartaz, uma canção, uma faixa. A rua “vota com os pés” na Avenida da Liberdade. Gente jovem, dos 20 aos 40 anos, gente que trabalha e sai às ruas para dizer o que quer. Não se compara esta força à de bots ou ‘militantes’ de tiktok (não é aí que se medem forças na política). São muito maiores do que as manifestações só sindicais, o que revela uma enorme força potencial, ao mesmo tempo que demonstra a sua fragilidade: são centenas de milhares, mas na maioria não organizados em partidos, movimentos e associações. A sua força é a sua fraqueza. Mas é algo novo, não nos enganemos.
Se este quadro governamental tem sido de demolição do que restava do SNS, educação pública e legislação laboral, a política central do PS tem sido deixar a direita governar, esperando que apodreça. Nas ruas surge, porém, outra vontade difusa: a não aceitação da legalização do Chega, nem das políticas de austeridade liberal de Montenegro. Na rua caminha-se contra o Governo. Há muito mais esquerda nas ruas do que no parlamento.
Na AR, a menos de dois quilómetros da Av. da Liberdade, o espetáculo nem para mau teatro dá. Discursa o partido fascista Chega, que ocupa 60 lugares, e há elogios a Salazar em triplicado. Um para o Chega, outro para a IL, outro, enfim, para a AD?
Esmagar o salário de quem trabalha, reprimir os imigrantes, fazê-los trabalhar sem proteção nem papeis, ou acabar em centros de detenção (prisões); espalhar, assim, o medo: eis o programa. Com o pacote laboral — nunca apresentado a eleições — que abrange o sector privado, mas também o público, cortar o rendimento dos trabalhadores e o consumo interno em nome da “competitiva” economia exportadora. Sufocar a juventude, apanhada entre fugir para o estrangeiro, aguentar a inflação dos juros e da habitação ou organizar-se para resistir. A juventude trabalhadora, desorganizada, demonstra a crise política que há em Portugal.
Este descompasso do tempo é o tempo que vivemos. Saber interpretá-lo e agir sobre ele é o grande desafio que temos pela frente.