Vinte maneiras de ser quinado
1.ª parte: O Big Ben em Lisboa
Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.
No morro que desce da Escola Politécnica até São Bento, a Calçada do João do Rio marca fronteira entre duas zonas distintas. De um lado São Mamede, freguesia de tom mais aristocrático; do outro, as Mercês e São Bento, com seus pátios proletários, alguns deles montados à volta da casa senhorial que serviam.
Na década de 1950, porém, os poderes instituídos começaram a favorecer nessa fronteira a construção de novos edifícios, forçando o casamento de casas modestas – como aquela onde nasceu e viveu a actriz Maria Matos – com as novas habitações, mais propícias à classe média e funcionários públicos, assim preparando a progressiva expulsão de operários, peixeiras e lúmpens nas décadas seguintes.
Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.
As peixeiras do bairro, fossem elas de canastra ou de triciclo, passavam a vida a fugir à guarda, por não terem como pagar licenças; de modo que muitas optavam por casar com um polícia, assim pondo termo a fugas e desatinos e resolvendo a vida de uma vez por todas.
Ao topo da calçada, mal se virava a esquina, apitavam logo as narinas – aqui há galego! E de facto, poucos metros andados, lá estava a tasca. Como boa tasca galega, ali se vendiam “copos de três” (tostões) de um horroroso vinho (razão tiveram as narinas, “aí não entres!”) e pazadas de carvão, tudo servido sem transição pelas mesmas mãos. Quase em frente ficava a mercearia, donde saíam marçanos impúberes a entregar recados calçada abaixo. Chegavam à porta da rua da cliente em questão, tocavam à campainha nos casos raros em que tal havia, senão berravam como bezerros, até que a cliente – e com ela toda a vizinhança – viesse à janela. E então, da janela do segundo ou terceiro andar, lá baixava a cestinha na ponta da guita, a recolher os ovos, a couve, o nabo … Ficávamos todas sabendo o que seria a janta nesse dia.
Por toda a parte alguém semeara mercearias, drogarias, padarias, latoeiros, funileiros, ferros-velhos, pasteleiros, caldeireiros com sua orquestra de maços tinindo o bronze, cerzideiras, enfim, uma miríade de negócios e lojinhas que viviam do comércio local. Eram todos da família, ou pouco menos que isso: “bom dia, Dona Augusta”, “como vão essas cruzes?”, “então que se conta de novo?”, “entre lá vizinho, sente-se aí um instante”.
Na época própria passava o burro da mulher dos figos e todos os dias, com pontualidade de torre sineira, a cesta do pão e o pote do leite batiam à porta. Uma vez por semana passava a flauta de pã do amolador, uma vez por mês a corneta da recolha do papel a peso, alternada com a do ferro-velho. Quem se lixava eram os muares, que aquelas calçadas não são brincadeira.
Poucos carros havia nessa época, de modo que as ruas eram ocupadas pela miudagem a jogar à bola, a saltar ao eixo ou a fazer corridas de caricas nos lancis de passeio, com turnos de mães assomando de vez em quando à vigia. Tudo por junto, entre flautas de pã, gritinhos gaiatos, metalúrgicos, latoeiros, caldeireiros e pregoeiros, formava-se uma sinfonia concreta da qual infelizmente não temos grandes registos sonoros. Se os tivéssemos, só por si contariam eles todo um romance urbano, sem necessidade de mais explicações. A essa banda sonora concreta vinham juntar-se as melodias dos pianos das casas endinheiradas e as cançonetas constantes das criadas e das donas-de-casa.
Nas casas mais humildes nem divisões de tijolo havia — separavam-se as filhas dos adultos por finos tabiques de madeira, quando não simples cortinas. No meio de toda esta humildade, como já vos disse foram-se erguendo a partir da década de 1950 uns edifícios de cimento armado, sempre muito respeitadores da cota tradicional, é certo, mas ainda assim conspícuos. Dois havia frente a frente, em esquinas opostas a meio da João do Rio, que embora distintos pareciam traçados no mesmo estirador, pois ambos se revoltavam contra quinas: tinham a fachada redonda, de um convexo largo, achatado como arco abatido, só que deitado; nada que se parecesse com uma esquina simplesmente burilada, como se encontra noutros lugares. A quem por ali passasse sem nunca ter entrado num desses edifícios abaulados, não podia a imaginação deixar de cogitar como fariam os inquilinos para adaptar a tais curvas a quadratura do mobiliário.
Num desses prédios desquinados aventurou-se o senhor Salgueiro a afundar as suas poupanças, abrindo um serviço que naquela rua não havia ainda: o Big Ben, um pequeno café onde não cabiam mais que uma mesinha, duas cadeiras minorcas e três ou quatro clientes de pé, se não fossem esquisitos e se apertassem bem. À primeira vista não viria dali grande negócio, a não ser que os três ou quatro clientes que lá cabiam dessem todos por gorjeta uma nota de cem. O truque do negócio, porém, estava na cave. Nitidamente pensada pelo arquitecto para ser armazém, trocou-lhe as voltas o senhor Salgueiro: montou um salão com grande cópia de mesas e uns murais figurando Londres e o Big Ben que a população de estudantes da Faculdade de Ciências, do British Institute e de outras escolas circunvizinhas imediatamente adoptou como local de marmelada e estudo. O estudo era mais difícil, porque a cave não tinha janelas nem abundância de lâmpadas. Mas outra utilização do espaço associado ao café era ainda possível que nem à cabeça do Salgueiro assomara: o passeio.
Os passeios da calçada eram estreitos como os meus ombros, ou pouco mais, como é de regra nas calçadas lisboetas. Outra regra ainda, absolutamente sagrada, é a de bordejar a esquina do passeio com uma pedra de lancil levemente arredondada – todas as esquinas de Lisboa são buriladas, sem excepção. Mas naquele cruzamento a fachada abaulada do edifício não acompanhava a quina do passeio. Esta violação dos paralelismos abria assim, entre a fachada e a esquina, um espaço largo, uma espécie de esplanada que desde a inauguração do Big Ben a rapaziada do bairro elegeu como sede de tertúlia adolescente. Ali ficava o bando à galhofa até ao soar das doze badaladas nocturnas, ou quando os gritos de protesto dos honestos trabalhadores das redondezas, mortos de sono, vinham à janela pôr ordem na algazarra. Anos mais tarde correria a boca de que o edifício perdera a quina e se tornara convexo devido à fricção constante dos tertulianos contra a fachada – “vou ali polir a esquina”, diziam os rapazes aos pais quando queriam ir ter com os amigos.
Esta tertúlia tinha uma função formativa obrigatória e imperativa. Quem não a frequentasse tornava-se pária. Era aí que os mais velhos industriavam os mais novos na filosofia do macho ibérico e do bairrismo.
Tudo rapazes, porque as raparigas, ou por instinto ou por cautela das mães, tinham o cuidado de atravessar a rua e passar ao largo. Ainda assim, as jovens moradoras do bairro eram razoavelmente respeitadas, ou simplesmente ignoradas, por vezes saudadas com um aceno cortês de cabeça, certamente em nome da boa vizinhança; pelo menos até serem apanhadas na escuridão de uma escada deserta. As outras, as que não eram vizinhas nem conhecidas, sofriam de passagem a mordacidade dos dichotes, alguns hilariantes, ainda que bárbaros. À parte os assobios e a laboriosa prática da arte de mandar bocas às gajas (era um concurso de imaginação, umas vezes obscena, outras vezes non-sense), a tertúlia dos púberes podia ficar horas a lucubrar sobre os mais disparatados mitos urbanos, sobre o significado de as mulheres caminharem com os pés paralelos ou, pelo contrário, circunflexos, e outras meditações de carácter pouco menos que religioso-ó-esotérico. Outro tema que podia alimentar horas das mais abstrusas perorações, eram os carros e as motas – embora ninguém no núcleo duro da tertúlia tivesse nem uns nem outras.
(continua)