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Fogo amigo
categoria-crónica edicao-2025-11-20 (05)

Fogo amigo

– Quantos anos, Lola? – Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez. – Incomodo-te ao perguntar quantos anos comemoras? – Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu

Maria Augusta Tavares
Poder absoluto
categoria-crónica edicao-2025-11-13 (04)

Poder absoluto

ESTUDO DE CASO: Nos 50 anos das autonomias portuguesas (1976-2026) É preciso perceber uma coisa sobre os Açores e a Madeira: não há checks and balances constitucionais. Não há pesos e contrapesos. Em Portugal, na sua globalidade, a Assembleia da República é um contrapeso do Governo, o Presidente da

Joel Neto
José. Da Silva
categoria-crónica Desigualdade Escola Pedagogia edicao-2025-11-06 (03)

José. Da Silva

Estudei em escolas que não tinham livros. A primeira, entre todas a mais precária, não tinha nome, não havia nada nas paredes que indicasse ser uma escola. Havia apenas uma professora e crianças. Isso parecia bastar.

Maria Augusta Tavares
Os Portugueses serão os últimos a rir da piada?
categoria-crónica edicao-2025-10-23 (02)

Os Portugueses serão os últimos a rir da piada?

Mas, quem ri por último... será que não entendeu a piada? Também pode ser. A pessoa não riu, mas é levada a rir em função das risadas em seu entorno. Ao menos ela entendeu que se tratava de uma piada. Não foi o caso da juíza que condenou o comediante.

Rafael Rosa Hagemeyer
Empreendorismo a serio
categoria-crónica Empreendedorismo Humor Sexo edicao-2025-10-16 (01)

Empreendorismo a serio

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual.

Maria Augusta Tavares
categoria-crónica edicao-2025-11-20 (05)

Fogo amigo

– Quantos anos, Lola?

– Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez.

– Incomodo-te ao perguntar quantos anos comemoras?

– Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu estaria esquecida? Se tu, que tens 70, ainda te lembras disso, por que eu, com menos dez anos que tu estaria esquecida? Tu és uma chata. Pensas que não sei qual é o teu objetivo?

– Meu objetivo? Quis só puxar conversa, quebrar o silêncio.

– Não sejas cínica, essa tática de arrancar elogios comparativos é tão velha quanto tu. Queres que as pessoas digam que não parece haver dez anos de diferença entre nós duas.

– Nem me passou pela cabeça, mas se tu achas...

– Thereza, tudo que é teu é melhor. Também a tua velhice?

– Não me queixo. Sinto-me muito bem.

– Só falta dizer que adoras ter setenta anos. Que grande mentirosa tu és. Thereza, eu não preciso de ti nem de ninguém pra lembrar dessa chatice que é envelhecer. Eu queria matar quem chamou essa merda de melhor idade, porque até o que eu pensava ser bom, já não estou tão certa.

Desde o dia em que Lola soubera estar oficialmente reformada não sabia onde guardar aquela notícia, se no arquivo dos achados ou dos perdidos. Qual arquivo estaria mais cheio? O que teria guardado entre os achados? Com certeza, os filhos, os netos, as conquistas profissionais, os amigos. E entre os perdidos? Quanto de vida perdera em relações abusivas? Ah, melhor não enveredar por esses descaminhos. Foram tantos equívocos.

A reforma não era uma surpresa, ela estava a esperar por essa informação. Às vezes, com ansiedade. Mas ao receber aquela notícia pensou: devo agradecer, demonstrar alegria? Afinal, havia ligado à servidora mais de uma vez, para perguntar pelo processo. Ela acreditava estar dando uma boa notícia, era justo reagir à altura. Agradeceu, fez algumas perguntas e desligou o telefone sem saber direito como conduzir aquela situação. Gostava de comandar, de ter controle sobre as coisas, principalmente sobre a sua vida. Não sabia porquê, mas a reforma lhe parecia exterior à sua vida, como se fosse algo que lhe fora imposto. Ensimesmada e cabismuda, sabia precisar de um tempo para processar aquela novidade. Depois de pensar bastante, lhe ocorreu uma semelhança entre a aposentadoria e a menopausa. Ih, cada vez gostava menos daquela história.

“Que ódio dessa vaca velha que me trouxe essas lembranças no dia do meu aniversário”, pensava Lola.

A menopausa também não foi, não é surpresa. Aproximadamente, por volta dos 50 anos – às vezes mais, outras menos – a menstruação acaba. Enquanto isso não acontece, as mulheres reclamam a cada mês. Aquele sangramento é um fardo do qual não veem a hora de se livrar. De repente, somem enxaqueca, cólicas e sangramento. Era de se esperar que o facto fosse comemorado, mas não é o que acontece. Nem a Theresa, fingidora oficial de felicidade, festejou esse facto. Convivia com muitas mulheres, algumas mais velhas que ela, e nunca tinha sido convidada por nenhuma para festejar a menopausa. Ao contrário, o mais comum foi ouvir depoimentos reveladores de um sentimento de inferioridade. É como se, a partir dali, a mulher se sentisse menos feminina: inodora, incolor e invisível.

Contudo, a líbido não sofrera alterações substanciais. O corpo continuava reagindo a imagens, palavras e toques – embora os últimos sejam cada vez mais raros. Ainda bem que existem massagistas, terapeutas, acupuncturistas e outras expressões do toque, que o mercado sabidamente nos oferece. A ausência da menstruação não diminui a capacidade de amor, de entrega, de paixão, de sexo. Contudo, sobretudo pelas mudanças na aparência, aumenta significativamente a distância entre possibilidades e atos. E como se já não bastassem os danos causados pela diminuição de estrogênio e progesterona, o que nos é subtraído em beleza é ganho em exigência e seletividade, o que só contribui – triste constatação – para um exército pouco unido de mulheres velhas e sós.

“Que ódio dessa vaca velha que me trouxe essas lembranças no dia do meu aniversário”, pensava Lola.

À medida que vinha à sua mente aquela analogia entre a menopausa e a reforma, sua raiva crescia. A menopausa interferia na sua atividade sexual, a reforma na sua atividade produtiva. Ora, pensava, tantas vezes reclamei do meu trabalho, fiz planos como se a reforma fosse um prêmio. Mas, após 40 anos de trabalho, quando finalmente posso brindar à liberdade, sou acometida por esse sentimento de inferioridade. Minha inteligência não foi afetada. Minha capacidade produtiva está mantida, posso continuar trabalhando, ter uma atividade nova, se desejar. Mas não estou pronta para ser esquecida. Como qualquer mercadoria, sinto que também preciso de vitrine. Não sei se suporto uma dupla invisibilidade.

Talvez a liberdade da reforma não me faça bem, pensa Lola. Talvez seja melhor trabalhar um bocadinho mais, mesmo que voluntariamente. O trabalho gera burnout, mas a reforma também adoece. Há tantas colegas em depressão. Será que adoecem por terem parado de trabalhar ou por ficarem em casa dia após dia? Muitas são casadas. Quem aguenta trinta anos a ir todas as noites pra cama com o mesmo homem? Casamento devia ter prazo de validade. Mas há quem não aguente ficar só. Aquela outra pirou. Separou, deprimiu, voltou para o traste. Depois de ter-se livrado dele? Que idiotice! Ex-marido tem gosto de chuchu. Queria não. Melhor ficar só.

Lola sabia não ser a hora nem o lugar para tantas elucubrações. Tinha que prestar atenção às pessoas que estavam ali para celebrar o seu aniversário. Voltaria ao assunto, mas não podia ser ali. Ainda nem se sentia pronta. Sem que tenha sido a intenção da amiga, a menção à sua idade levara a essas divagações. Sobretudo a uma pergunta muito difícil de ser respondida, o que explicava a sua irritação. Sabia que da resposta dependeria viver bem ou mal o que lhe restava de vida e, covardemente, estava a abstraí-la. Naquele exato momento, estava a se perguntar se, para além do saber intelectual, tinha adquirido alguma sabedoria, porque era disso que estava a precisar. Thereza não tinha o direito de lhe ter provocado tamanho desconforto, de colocá-la contra si mesma, contra seus medos, contra a sua covardia, contra a sua solidão. Isso é coisa que amigo nos faça lembrar no dia do nosso aniversário? Fogo amigo é o que ela é.

Até sentar-se à mesa do restaurante, onde marcara encontro com alguns amigos para comemorar o seu aniversário, Lola fora movida pelos seus melhores sentimentos. A intenção era celebrar, se não a idade, mais um ano de vida. Agora, no entanto, aflorava em si um instinto assassino que apenas ela conhecia – já cometera outros assassinatos. Hoje, mataria de bom grado a sua amiga Thereza.

Finalmente, alguém a retira da cena do crime:

- Pessoal, vamos cantar parabéns pra Lola!

categoria-crónica edicao-2025-11-13 (04)

Poder absoluto

ESTUDO DE CASO: Nos 50 anos das autonomias portuguesas (1976-2026)

É preciso perceber uma coisa sobre os Açores e a Madeira: não há checks and balances constitucionais.
Não há pesos e contrapesos. Em Portugal, na sua globalidade, a Assembleia da República é um contrapeso do Governo, o Presidente da República é um contrapeso da Assembleia da República, os tribunais – o Tribunal Constitucional, o Tribunal de Contas, o Supremo Tribunal de Justiça – são contrapesos de todos eles. Nos Açores e na Madeira, há o Governo e mais nada.

As Assembleias Legislativas Regionais, além de detidas pelas maiorias dos Governos, são curtas e – hoje isso é ainda mais evidente – constituídas por iletrados. Tribunais, só de comarca: os outros estão muito longe, para lá da cortina do idílio e do romantismo (em especial no caso dos Açores). O Presidente da República, extinto que foi o cargo do Ministro da República, delega-se num Representante meramente burocrático, sem quaisquer funções de escrutínio além das jurídicas, e aliás bastante desinteressado do assunto. E a Assembleia da República nem se lembra que tem jurisdição sobre as ilhas e as Assembleias Legislativas Regionais (e, quando se lembra, é para as usar como armas de arremesso nos seus próprios jogos de poder).

Portanto, manda o Governo e não manda mais ninguém. É o sonho de qualquer candidato a autocrata. Muito decentes têm sido os governantes regionais, apesar de tudo (isto é, do que sabemos sobre a Madeira e do que não sabemos sobre ambos os arquipélagos). Se um dia a extrema-direita chega ao poder numa região destas, serão precisas três revoluções para restabelecer a ordem.

A única espécie de compensação disponível é o grau de vitalidade da sociedade civil, quando o há. Na Madeira, onde a vaga existência de uma economia permite ao menos um simulacro de sociedade civil, o Chega já conquistou até uma câmara. Nos Açores, onde vivo, o peso do Estado é tal, e a malha de dependências de tal modo apertada, que o seu crescimento continua percentualmente circunscrito. Por outro lado, foi precisamente por aqui que ele conseguiu entrar no arco do poder português, quando em 2020 José Manuel Bolieiro (PSD) precisou de uma coligação pós-eleitoral com o CDS e o PPM, bem como de acordos de incidência parlamentar com a Iniciativa Liberal e – lá está – o Chega, para se viabilizar.

Escrutínio público: pouco mais do que zero. A maior parte veio de Lisboa, no âmbito dos ditos jogos de poder com epicentro em São Bento. Regionalmente, quase tudo foi deixado a cargo da maleabilidade de rins de Bolieiro, mais conhecido pelos valores do que pelos princípios.

Para a extrema-direita, não é feito de pouca monta, porque influenciar a governação, nos Açores, é ter uma palavra a dizer em virtualmente tudo. Independentemente do montante absoluto, o Orçamento Regional é composto de três partes essencialmente equivalentes: receitas próprias, remessas da República e financiamento europeu. Todas as três áreas, tanto dentro como fora do Plano, estão inteiramente na mão do Governo Regional. É ele quem tutela a maior parte da administração pública e a generalidade das empresas públicas, no seu conjunto o empregador de (muito) mais de metade da força laboral ativa – e do eleitorado – da região. É ele quem instrui, canaliza e fiscaliza o pedido, a obtenção e a execução de subsídios europeus. E, naturalmente, é ele também quem recebe e aplica os financiamentos diretos de Lisboa e de Bruxelas.

Poder absoluto, no fundo. Quase absoluto. Como esse poder se tem exercido, que resultados se têm obtido com esse exercício e que desafios se agigantam à nossa frente: eis o que tentarei ajudar a determinar ao longo da série de artigos que aqui se inicia.

categoria-crónica Desigualdade Escola Pedagogia edicao-2025-11-06 (03)

José. Da Silva

Estudei em escolas que não tinham livros. A primeira, entre todas a mais precária, não tinha nome, não havia nada nas paredes que indicasse ser uma escola. Havia apenas uma professora e crianças. Isso parecia bastar. Cheguei lá e disse

- Eu quero estudar.
A professora, Dona Isabel, apontou com o beiço inferior o caixote mais próximo, indicando que eu podia sentar.
- Como é seu nome?
- José, Zé.
- José do quê?
- Da Silva.
- Como é o nome do seu pai?
- Joaquim. Joaquim do quê?
- Num sei não. O povo chama ele de Seu Quinzinho.
- E sua mãe?
- Maria. Maria das Dores.
- De onde veio esse Silva no seu nome?
- Onde eu moro, todo mundo que sabe assinar o nome é Silva. Pensei que eu também era.
- Você tem registro de nascimento?
- Num sei não.
- Então, quando você voltar pra casa, pergunte aos seus pais. Diga que é o papel que tem o seu nome, o dia que você nasceu, o nome do seu pai e da sua mãe. Cada família tem um sobrenome que identifica todas as pessoas nascidas do mesmo pai e da mesma mãe. Às vezes, se repete, como nos Silva que você conhece, mas isso não significa que a humanidade toda é Silva.
- Pensei que era igual. Todo mundo.
- Quando você estudar matemática vai perceber o que é igual. Não se assuste, o igual é fácil. Difícil é entender e aceitar o desigual.

Fiquei de orelha em pé. Não entendi, mas sabia que era ruim. O jeito como a professora falava me lembrava ave de mau agouro. Será que era como ter dor de barriga? Frieira? Sarna? Dor de dente? Tudo isso eu conhecia, já sei que aguento. Só não aguento passar fome. Será que o desigual tem a ver com a fome? A barriga parecia acompanhar meus pensamentos, sentia as tripas a me avisarem que se eu me atrasasse para o almoço, só ia ter comida à boquinha da noite. A regra era estar em casa na hora de comer. Eu não havia dito que ia à escola. Eu nem sabia que ia. Há dias, passava em frente, olhava pra dentro, tinha vergonha de entrar. Tomei coragem, entrei, agora tenho que ficar até o fim. A professora disse que só acaba no pingo do meio-dia, a mesma hora que sai o feijão na minha casa.

Vou ficar com fome e ainda corro o risco de levar uma surra do meu pai. Até eu poder explicar que estava na escola, o chicote já cumpriu a sua função. Só depois, ele vai sair de casa, pisando duro, falando entre os dentes, até bater à porta de Dona Isabel, para saber se eu falei a verdade. Vai voltar mais calmo. Devia, ao menos, me pedir desculpas. Só na minha cabeça essa parvoíce. Ele jamais admite estar errado. Na sua pedagogia autoritária, os filhos são semelhantes ao seu carro de bois, cujos ajustes os faz a ferro e fogo. Aquele abraço do ferro em volta da roda de madeira só é possível graças ao calor, que aquece as suas moléculas e o alarga; os bois são domesticados, encangados e obrigados a marcharem lado a lado, no mesmo compasso. Cabe ao carreiro, meu pai, ter domínio sobre o processo de fabricação do carro, tanger os bois, se preciso, usar o chicote ou a vara de ferrão. Ele não saberia explicar causa e efeito, mas sabe que funciona. É o método que conhece. Aprendeu com seu pai. Por que não aplicar o mesmo aos seus filhos? Parece-lhe justo.

Essa ordem supõe os mais fortes sobre os mais fracos. De onde vem essa força? Entre os homens, embora a força física às vezes prevaleça, em geral, a relação de poder tem outra natureza. Ter mais força que meu pai não me autoriza a revidar quando ele me bate. Tampouco posso me rebelar contra as autoridades constituídas, quando me sinto injustiçado. O negro, por exemplo, por maior que seja a sua força, quando é agredido pelo policial apenas se encolhe, tenta se proteger do cassetete com as mãos; a mulher violentada, quando pode, grita, esperneia, mas não é invulgar a sociedade desculpar o agressor; o homossexual insultado foge, se esconde, muitas vezes é ridicularizado. E quando eu paro e estico o olho para o prato de quem come na esplanada, o garçom me pega pelo braço e sem olhar para minha cara de fome, diz: “Fora daqui!” Acho que era disso que a professora falava.

categoria-crónica edicao-2025-10-23 (02)

Os Portugueses serão os últimos a rir da piada?

Quem ri por último ri melhor! É assim que vejo alguns professores no Brasil comemorando a condenação do comediante Léo Lins a oito anos de prisão. Um riso vingativo de quem o odiava e agora está satisfeito.

Mas, quem ri por último... será que não entendeu a piada? Também pode ser. A pessoa não riu, mas é levada a rir em função das risadas em seu entorno. Ao menos ela entendeu que se tratava de uma piada. Não foi o caso da juíza que condenou o comediante.

Tudo partiu de uma lei que passou a equiparar “injúria racial” ao “crime de racismo”. Na injúria se incluiu a piada. Do racismo se estendeu para transfobia. Logo se criou, por analogia, uma jurisprudência cada vez mais abrangente para o humor.

O comediante foi acusado de ofender mais de 30 minorias. Mas foram elas, que estavam no show, que o processaram? Ou algum representante autoproclamado agiu em seu nome, vendo um vídeo no youtube?

O detalhe é que a lei aprovada considera que a injúria, o xingamento, a ofensa acompanhada de ameaça e até agressão física é menos grave do que uma piada numa comédia. O humor é, nesse caso, considerado um “agravante criminal”:

“Art. 20-A. Os crimes previstos nesta Lei terão as penas aumentadas de 1/3 (um terço) até a metade, quando ocorrerem em contexto ou com intuito de descontração, diversão ou recreação.”

Caberia acrescentar, como observou Ricardo Araújo Pereira, que o público que pagou para ver o espetáculo do humorista não seria apenas seu cúmplice. Seria o próprio mandante do crime.

Em sua defesa, o acusado fez questão de separar o cidadão Leonardo de Lima Borges Lins do comediante Leo Lins, uma “persona cômica” que interpreta no palco, que usa figuras de linguagem – hipérbole, metáfora, ironia – e que uma análise literal desse conteúdo seria despropositada.

Se professores universitários de história, literatura e arte condenam o comediante nas redes, é porque se recusam a realizar a tarefa de interpretação de texto em seu contexto. Se esta é sua obrigação de ofício e a cumprem, é porque têm medo de serem eles os próximos acusados.

E como foi possível que as universidades se tornassem locais hostis ao humor? O filósofo Ben Burgis analisou o fenômeno em seu livro “Cancelando comediantes enquanto o mundo arde”, demonstrando a frustração da esquerda liberal diante de sua impotência. Esse tipo de ativismo juvenil não só é ineficaz, mas contraproducente e autodestrutivo.3

Burgis relaciona a “cultura do cancelamento” nas universidades com o avanço do populismo de extrema-direita. Pois diante da degradação das suas condições de vida, e da gritaria de uma esquerda infantil e despropositada, a classe trabalhadora canaliza sua raiva para eleger Trump.

Em Portugal, estreou este ano na RTP a série Ruído, do humorista Bruno Nogueira, que aborda um futuro distópico onde o humor é um crime. No Brasil, essa piada já não tem graça, pois o exagero do comediante foi ultrapassado por uma realidade absurda. Quem ri por último é porque ainda pode!


¹ LEI Nº 14.532, DE 11 DE JANEIRO DE 2023. Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 (Lei do Crime Racial), e o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), para tipificar como crime de racismo a injúria racial, prever pena de suspensão de direito em caso de racismo praticado no contexto de atividade esportiva ou artística e prever pena para o racismo religioso e recreativo e para o praticado por funcionário público. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14532.htm
² PEREIRA, Ricardo Araújo. Condenação de humorista por piada nos aproxima dos tribunais nazistas. Folha de São Paulo, 07/06/2025 https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ricardo-araujo-pereira/2025/06/condenacao-de-humorista-por-piada-nos-aproxima-dos-tribunais-nazistas.shtml
³ BURGIS, Ben. Cancelling comedians while the world burns: a critique of the contemporary left. Zero Books: Washington/Winchester, 2021, p. 5.

categoria-crónica Empreendedorismo Humor Sexo edicao-2025-10-16 (01)

Empreendorismo a serio

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual.

Sou uma passageira silenciosa. Durmo, vejo filmes, levanto-me delicadamente, caminho com leveza. Tenho muito cuidado com os meus movimentos, para não incomodar as pessoas, sobretudo as que estão ao meu lado. Mas isso não significa que faça questão absoluta de viajar em silêncio.

Discretamente, costumo prestar atenção e levantar hipóteses sobre o passageiro ao lado. Tento adivinhar se vale a pena puxar conversa. Nos últimos anos, em que o filtro ideológico se tornou determinante, o critério de avaliação também passa por aí. Não me agrada conversar com quem se coloca no mundo com uma visão completamente oposta à minha.

Era um voo internacional. Teríamos longas horas juntas.

Minha companheira de viagem era jovem, bonita, bem vestida. Podia ser estudante de Direito. Sim, ela vestia blazer e saia justa, calçava saltos altos, meias finas cor da pele, ao estilo das candidatas a juíza. Talvez fosse ao encontro daquele professor que a aceitou para uma pós-graduação. Não tinha nos olhos o brilho de quem vai ao encontro do amor. Não, não havia um namorado à sua espera. Demonstrava força, determinação, certeza duma escolha que eu não sabia qual, mas não era o amor romântico que a movia. Podia ser uma viagem de férias. Supus que iria a Paris, onde amigos a esperavam. Desejei falar com ela. Mas era tão jovem! Não devia ter o menor interesse em conversar com alguém a quem chamaria de senhora. Até que, finalmente, veio o aceno.

A jovem não era nada do que eu havia pensado. Nascida numa família pobre, era a primeira a ultrapassar o ensino médio. Como dizia ela, pobre não faz faculdade, tem dificuldade. Não falava com fluência nenhuma língua, nem mesmo a sua. Em outro figurino, num outro ambiente, a falar de coisas triviais, talvez só a beleza física lhe fosse ressaltada. Mas havia nela algo de especial e eu estava curiosa. Não fiz perguntas diretas. Talvez ela estivesse mesmo desejando falar de si. Há coisas sobre as quais se pode falar mais francamente com um estranho.

Depois de me falar sobre o motivo de sua viagem, ela tirou da bolsa, cuidadosamente, um caderno de capa dura, semelhante a uma agenda, e perguntou se eu queria saber o que lá estava escrito. Embora eu não estivesse com muita disposição para ler o que me parecia ser a mesma história que ela já havia resumido, por educação disse que sim. Que surpresa! Ao abrir aquele caderno, descobri que tinha nas minhas mãos um precioso instrumento de trabalho. Devo ter transmitido confiança. Era uma das poucas vezes em que eu identificava uma vantagem de ser tratada como senhora. Tivesse eu quarenta anos menos, jamais teria tido acesso ao conteúdo daquele caderno. No mundo dos negócios não se partilham boas ideias com possíveis concorrentes. Mas, decididamente, eu não era uma ameaça à minha jovem companheira de viagem. Já não tinha idade para exercer a profissão que ela abraçara com raro empenho.

Pode-se dizer que ela vendia sonhos. Vendia mentiras picantes, cujos efeitos foram descobertos por mulheres atentas e sábias há séculos. Sonhos que aproximam homem e mulher, muitas vezes até os conduzem ao casamento. Ela redescobriu, no entanto, que esse conhecimento podia ser vendido por ela em pequenas doses, em diferentes lugares e que se o fizesse com a qualidade desejada, venderia o mesmo produto centenas, milhares de vezes, trocando apenas a embalagem.

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual. Ela precisou apenas de aplicar uma lição atualmente muito repetida: os limites devem ser transformados em oportunidades. Apesar de não ter fluência em nenhum idioma, fez uma excelente pesquisa na área. O tema não lhe permitia uma chamada pública – “Precisa-se de tradutor em diferentes idiomas para frases que possibilitem uma atividade sexual satisfatória” –, mas isso não a intimidou. Leu bastante, treinou diante do espelho, a vestir sensuais peças íntimas e exibir caras, bocas e sussurros, para dar veracidade às desejáveis mentiras. Aliás, ela me disse que a sua má pronúncia costuma aguçar o fetiche dos parceiros. Pois bem, deem-lhe o nome que quiserem, eu queria saber como ela mesma se identificava profissionalmente. Não titubeou: sou uma empreendedora. Sim, uma empreendedora a sério. Dada a prosperidade do negócio e a sua internacionalidade, eu diria que é uma bem sucedida CEO.

Fogo amigo
Poder absoluto
José. Da Silva
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Fogo amigo
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– Quantos anos, Lola? – Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez. – Incomodo-te ao perguntar quantos anos comemoras? – Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu

Maria Augusta Tavares
Poder absoluto
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Poder absoluto

ESTUDO DE CASO: Nos 50 anos das autonomias portuguesas (1976-2026) É preciso perceber uma coisa sobre os Açores e a Madeira: não há checks and balances constitucionais. Não há pesos e contrapesos. Em Portugal, na sua globalidade, a Assembleia da República é um contrapeso do Governo, o Presidente da

Joel Neto
José. Da Silva
categoria-crónica Desigualdade Escola Pedagogia edicao-2025-11-06 (03)

José. Da Silva

Estudei em escolas que não tinham livros. A primeira, entre todas a mais precária, não tinha nome, não havia nada nas paredes que indicasse ser uma escola. Havia apenas uma professora e crianças. Isso parecia bastar.

Maria Augusta Tavares
Os Portugueses serão os últimos a rir da piada?
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Os Portugueses serão os últimos a rir da piada?

Mas, quem ri por último... será que não entendeu a piada? Também pode ser. A pessoa não riu, mas é levada a rir em função das risadas em seu entorno. Ao menos ela entendeu que se tratava de uma piada. Não foi o caso da juíza que condenou o comediante.

Rafael Rosa Hagemeyer
Empreendorismo a serio
categoria-crónica Empreendedorismo Humor Sexo edicao-2025-10-16 (01)

Empreendorismo a serio

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual.

Maria Augusta Tavares

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