Jornal Maio

Santa Maria, o paraíso perdido

Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha. 

Cheguei à ilha em 1984. Tinha sete anos e vinha ter com o meu pai que, poucos anos antes, se mudara em trabalho para aqui. Deixei a escola em Almada, ali perto da Incrível, e vim sozinho, com uma mala maior do que eu, feita a meias entre a minha avó e tia.

No meu imaginário de miúdo que via os desenhos animados na RTP, único canal da altura, uma ilha era um banco de areia, com água em redor, dois coqueiros e uma rede pendurada entre eles. Eventualmente com um náufrago ou uma garrafa perdida segurando um pedido de SOS. 

Quando aqui aterrei fiquei espantado. O banco de areia era menos tropical do que imaginara. Havia uma “Little America” construída em torno de um aeroporto. Uma pista de aterragem enorme, um cinema para 500 pessoas e um ginásio multifunções. Ambos feitos com madeira. Casas de chapa. Muitas. Outrora ocupadas por militares e agora a abrigar famílias locais ou outras que, como era o caso da minha, estavam deslocadas. Nas traseiras dessa casa havia uma figueira que começou a dar doce, logo que aprendemos o processo de cozedura. Ao lado da casa de chapa havia uma garagem, em madeira, onde o meu pai organizava as ferramentas naqueles quadros com sombras, típicos da era pré-Leroy Merlin. Também era ali que me fazia os trabalhos manuais para a escola, compensando a minha notável falta de habilidade. 

Mal se saía da Little America apareciam as casas mais tradicionais. A serra, as baías, as praias de água morna que nunca mais me deixariam entrar no mar da Costa da Caparica com a mesma vontade. 97 km2 era o tamanho do meu banco de areia e por aqui vi, pela primeira vez, uma praia de postal, carros parados com a chave na ignição, chá gelado e manteiga de amendoim. Ah, e maracujás. Nem sabia como comer aquilo na primeira vez que um amigo me deu um a provar.

A ilha é Santa Maria, uma das mais pequenas do arquipélago dos Açores, onde 5000 pessoas resistem ao passar do tempo e fazem do sentimento de comunidade um modo de vida. 

Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.

Sempre achei que Santa Maria teria, para mim, aquele peso nostálgico da infância ou do regresso a cada verão. O sítio onde passaria umas temporadas, aqui e ali, quando o mundo enlouquecesse. E sabendo deste porto seguro atirei-me ao caminho sabendo que a porta, esta porta, estaria sempre aberta.

 

Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.

 

Nem sei se o caro leitor alguma vez passou por Santa Maria. Se ainda não fez esse exercício, experimente. São apenas duas horas, partindo de Lisboa, em linha reta. Sempre acompanhadas pela simpatia do pessoal da Azores Airlines. É aproveitar antes que a vendam!

A natureza foi generosa em variedade e qualidade com este pequeno pedaço de terra. Por aqui, na primeira ilha do arquipélago a ser descoberta no longínquo século XV, ainda é possível estar numa praia deserta de areia fina, fazer um trilho envolto numa floresta misteriosa, deixar o olhar perder-se por vales verdejantes ou mergulhar num oceano de jamantas e tubarões-baleia.

Tenho a minha parte de mundo percorrido. Sempre foi o meu maior sonho isto de perceber onde vivemos. E talvez por isso, hoje compreendo que já mudei de continente para encontrar praias ou trilhos semelhantes aos que, agora, estão a 1 km da porta de casa. 

Pode ser a minha visão romantizada da coisa, acredito; afinal, também foi entre estas 5000 pessoas que encontrei a metade com quem vale a pena envelhecer. Ainda assim, acho que voltaria a sentir o mesmo encanto se hoje aqui aterrasse pela primeira vez. Já não existe a Little America, é verdade, mas no essencial, a beleza, a calma e a paz nunca mudaram de código postal.

Há ainda um pormenor importante para quem, como eu, leva 20 anos de vida de emigrante num país frio, tanto de clima como de ligações humanas. Desde que Santa Maria voltou a fazer parte do meu mapa, a solidão optou por sair. 

Nunca se está só numa ilha onde todos nos conhecemos. Nunca. Basta sair de casa e tropeço em alguém conhecido. E mesmo que não tenha a certeza de quem seja o meu interlocutor, pelo sogro, irmã ou profissão chegamos rapidamente a quem nos está a dirigir a palavra. Para muitos um problema, para mim um achado.

Quando o mundo enlouquece, corre por armas ou tenta espezinhar os direitos dos trabalhadores, Santa Maria segue numa rotação diferente. Serena, como sempre. Sem permitir que os desvarios dos Trumps da nossa praça nos mudem os hábitos. 

Vive-se sem grandes dificuldades, o salário estica um pouco mais e todos se ajudam de alguma forma. Nem que seja na procura da economia local. As festas misturam as classes, os restaurantes não deixam ninguém de fora. Se a natureza nos enche a vista, o aceno do outro lado da estrada traz a sensação de pertencer a algo. Se precisares de ajuda, alguém saberá de alguém. 

Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha. 

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