Revolução

Reflexões sobre a revolução de 1936¹
categoria-história edicao-2026-10-29 (47) Espanha Guerra civil Revolução 1936

Reflexões sobre a revolução de 1936¹

2.ª parte Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica

Andy Durgan
Reflexões sobre a revolução de 1936¹
categoria-história edicao-2026-10-22 (46) Espanha Guerra civil Revolução 1936

Reflexões sobre a revolução de 1936¹

1.ª parte Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica

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Saída dos páras: o mito do 25 de Novembro
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Saída dos páras: o mito do 25 de Novembro

Entrevistámos para o Maio Raquel Varela e Adriano Zilhão a propósito do lançamento do seu livro Do 25 de Novembro aos nossos dias.

Adriano Zilhão, Raquel Varela
categoria-história edicao-2026-10-29 (47) Espanha Guerra civil Revolução 1936

Reflexões sobre a revolução de 1936¹

2.ª parte

Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica da Espanha dos anos 30.

Perante a superioridade militar dos rebeldes, fortemente abastecidos pelas potências fascistas, os principais partidos da Frente Popular — republicanos, socialistas e comunistas — defendiam que era necessário apresentar a guerra como uma defesa da democracia burguesa para manter o apoio das classes médias e garantir a ajuda militar das democracias ocidentais, principalmente da Grã-Bretanha e da França. Esta posição significava suprimir, ou pelo menos ocultar, a revolução social em curso numa parte significativa da zona republicana.

Tanto na historiografia como na época, considerava-se que as classes médias, ou pelo menos um sector delas, eram representadas pelos partidos republicanos de esquerda. O facto de estes partidos terem tido um papel central nos governos republicanos de 1931 e 1936 reforçou a ideia da sua importância política. Contudo, a sua base social e eleitoral foi efémera. Fora da Catalunha, o único local onde teve um apoio massivo (ERC), a base social do republicanismo de esquerda era bastante limitada, basicamente entre a pequena burguesia urbana e sectores muito específicos como os professores.

Muito ilustrativos das limitações do seu apoio foram os resultados eleitorais durante os anos da República. Em 1931, sem incluir a Catalunha, foram eleitos 111 deputados republicanos de esquerda em coligação com o PSOE e o Partido Radical, e em 1936, 129 como parte da Frente Popular. Em 1933, sem fazerem parte de uma coligação a nível estatal, obtiveram apenas 14 lugares (contra 21 na Catalunha), 9 deles graças a acordos locais com os Radicais e 5 devido ao apoio, também local, do PSOE2.

A nível internacional, os aliados aparentemente naturais da República, as democracias liberais, com a notável exceção do México, não só abandonaram o governo legítimo, recusando-se a enviar-lhe as armas necessárias para se defender, como também promoveram a farsa de uma política de “não intervenção” que resultou no isolamento quase total da Espanha republicana. A participação da Alemanha e da Itália no Comité de Não-Intervenção foi o exemplo mais claro do cinismo desta política infame.

Na realidade, tanto a França como a Grã-Bretanha não tinham qualquer interesse em apoiar um governo aparentemente fraco num contexto de grande radicalização política e social. O governo da Frente Popular francesa, encurralado pelas classes dominantes, pelas cúpulas militares e pelo imperialismo britânico, reverteu rapidamente qualquer intenção de enviar armas para a República. O governo britânico considerava que Azaña era o “Kerensky de Espanha” e quando a guerra civil começou, que o “bolchevismo” estava prestes a tomar o poder. Abundavam as declarações entre os seus ministros sobre como Franco era a melhor opção para proteger os interesses imperiais e capitalistas britânicos3.

O estalinismo

Com a degeneração da revolução russa e a ascensão ao poder de Estaline, os partidos comunistas tornaram-se totalmente subordinados às necessidades políticas de Moscovo. A viragem para a política de frente popular por parte do Comintern foi condicionada, sobretudo, pela necessidade de conter a ameaça que a Alemanha nazi representava para a própria sobrevivência da URSS. Essa ameaça tornou urgente a criação, a nível internacional, de uma aliança com as democracias, sobretudo com a França, contra as potências fascistas. Assim, a frente popular foi a expressão nacional da política externa soviética. A adoção uniforme desta nova orientação pelos partidos comunistas nesse período não obedeceu a qualquer análise da situação sociopolítica de cada país.

No entanto, em contraste com a desastrosa linha anterior que identificava os partidos socialistas com o “social-fascismo” e os considerava como o maior perigo para a classe trabalhadora, a Frente Popular ajustava-se à necessidade de enfrentar a ameaça da extrema-direita e levou a um aumento da influência dos comunistas em muitos países, incluindo no Estado espanhol. Com o início da guerra, o PCE tornar-se-ia o partido político mais poderoso da zona republicana. Já em meados de 1937, atingiu o valor dos 300.000 militantes – dez vezes mais do que antes de julho de 1936 –, o PSUC, a sua filial catalã, mais de 50.000 e a JSU cerca de 250.000.

Este auge da sua influência deveu-se a vários motivos. A defesa acérrima da Frente Popular pelos comunistas atraiu para o partido gente recém-politizada que se opunha ao levantamento militar e ao fascismo, entre eles, sectores pequeno-burgueses assustados com os “excessos” da revolução e os ataques à propriedade privada. Ao defenderem a centralização militar e a disciplina férrea, os comunistas conquistaram também o apoio de muitos militares profissionais que se mantiveram fiéis à República. Mas, sobretudo, o apoio militar à República por parte da URSS contribuiu para o aumento do prestígio do PCE.

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Um fator que muitas vezes não é tido em conta para explicar o crescimento da influência comunista foi a perduração da sua imagem como “o partido da Revolução Russa” e a sua autoidentificação como revolucionários. O facto de o PCE, apesar do seu compromisso na defesa da democracia republicana, falar da necessidade de uma “democracia de novo tipo”, de uma “revolução popular” e de uma “guerra nacional revolucionária” foi um reflexo das realidades políticas e sociais na zona republicana. A ampla utilização de imagens soviéticas e de métodos revolucionários para mobilizar a população de Madrid em Novembro de 1936 constitui outro exemplo da relação aparentemente confusa dos comunistas com a democracia burguesa. Daí não ter sido difícil chegar à conclusão de que a Frente Popular era um interlúdio tático necessário, uma fase anterior à implementação do socialismo. Tais ambiguidades ajudam a explicar a atração do estalinismo para um sector importante da FJS4.

Por último, apenas o PCE (na Catalunha o PSUC), com a sua disciplina e a sua estrutura “leninista”, e não os sectores liberais e reformistas, foi capaz tanto de pôr fim à revolução social em curso na zona republicana como de dirigir politicamente o esforço de guerra da Frente Popular.

Os anarquistas perante o poder

Após a derrota do levantamento militar em quase dois terços do território espanhol, o poder foi exercido por numerosos comités, muitos deles da Frente Popular, com a participação direta da CNT. Na Catalunha, os comités refletiam a influência da revolução. Em grande parte designados por comités “revolucionários” ou “antifascistas”, a sua composição dependia da força local das diversas organizações. Em geral, os seus membros eram nomeados pelas suas organizações; poucos eram eleitos pela população local5.

Para colmatar a falta de coordenação e a fragmentação do poder nas primeiras semanas na zona republicana, foram organizados diferentes tipos de comités a nível regional e provincial, quase todos apoiados por organizações da Frente Popular a nível local, com a adição da CNT. A sua autonomia e radicalidade variavam consoante o local. O mais importante deles foi o Comité Central de Milícias Antifascistas (CCMA) na Catalunha. O Governo catalão, incapaz de lidar com a situação, propôs aos trabalhadores e às forças republicanas a criação de um comité unitário para coordenar a luta contra as forças sublevadas. Assim, no dia 21 de julho, o CCMA foi formado com uma maioria frente-populista, embora as decisões do novo comité refletissem a força da revolução6. Para além da organização militar, o CCMA tomou as primeiras medidas para controlar a economia, com o bloqueio das contas bancárias das pessoas que tinham apoiado o levantamento e medidas para ajudar as empresas nas mãos dos trabalhadores a continuarem a pagar salários.

Em grande parte do resto da zona republicana, foram criados comités que, tal como o CCMA, detiveram efetivamente o poder durante as primeiras semanas da guerra civil. A orientação política da maioria destes comités refletia a influência das organizações da Frente Popular. No entanto, a situação estava de tal forma polarizada que em vários locais atuaram de forma marcadamente radical, como aconteceu com os comités de Cartagena, Gijón, Málaga, Valência e, sobretudo, com o Conselho de Aragão, organizado em outubro e dominado pelos anarquistas.

Mas ao não se consolidar o poder dos comités, completamente fragmentado, a revolução não podia triunfar. Perante esta realidade, o futuro da revolução dependia da CNT, que durante a guerra duplicou o seu número de membros até atingir o 1,5 milhão de efetivos. Para os anarquistas, a revolução foi um facto, no sentido em que em grande parte do que viria a ser a área republicana, a classe trabalhadora controlava as ruas, as fábricas e a terra. No entanto, as organizações operárias não controlavam as comunicações, o comércio externo ou o setor bancário. Acima de tudo, com a organização do Exército Popular durante o outono de 1936, perderam o controlo do elemento-chave da guerra e da revolução: as forças armadas.

Face ao vazio deixado pela quase desagregação do Estado republicano, cedo se apresentou um dilema para os anarquistas. A 21 de julho, na assembleia regional da CNT catalã, um dia após a derrota da rebelião militar em Barcelona, ​​​​Juan García Oliver, um dos líderes mais influentes do anarquismo radical, defendeu que a CNT tinha duas alternativas: “arriscar tudo”, o que significaria estabelecer “uma ditadura anarquista”, ou colaborar com as outras forças antifascistas. Como “uma ditadura” era um anátema para os anarquistas, e dada a presença significativa de outras forças (especialmente os socialistas), particularmente fora da Catalunha, optaram pela “colaboração”. Assim, quase desde o início, os dirigentes anarquistas viram-se encurralados na ambiguidade entre a sua defesa da revolução e a sua prática de colaboração com o Estado. Na realidade, a dicotomia não era entre “ditadura” ou “colaboração”, mas entre a unidade dos trabalhadores, para além das fileiras anarquistas, para a tomada do poder ou a subordinação à Frente Popular que, mais cedo ou mais tarde, significaria o fim da revolução.

Opostos à criação de outro Estado, acabaram por colaborar com o Estado existente, ou, para ser mais preciso no caso do Estado espanhol em 1936, com a reconstrução do Estado republicano. No início de novembro de 1936, com uma situação militar cada vez mais crítica, quatro anarquistas passaram a integrar o Governo Republicano.

O processo de contrarrevolução dentro da zona republicana atingiu o seu apogeu com os combates de rua do início de Maio de 19377. Uma semana depois, a formação de um Governo chefiado pelo socialista moderado Juan Negrín, sem a participação dos anarquistas, representou o reforço definitivo do Estado burguês e a supressão dos sectores mais revolucionários, especialmente o POUM, vítimas de uma feroz campanha de calúnias por parte do estalinismo. O último bastião da revolução foi o Conselho de Aragão, em mãos anarquistas, que foi dissolvido em agosto. Em fevereiro de 1938, a CNT, já totalmente empenhada na colaboração com o Estado republicano, regressou ao Governo.

É impossível saber se uma estratégia de guerra revolucionária teria triunfado, embora a defesa de Madrid seja ilustrativa neste sentido.

Era possível uma alternativa revolucionária?

É necessário considerar se havia uma alternativa à abordagem da Frente Popular de uma guerra em defesa da democracia à custa da revolução social. A estratégia militar do Governo republicano rejeitou o uso de táticas não ortodoxas ou revolucionárias, em parte devido à necessidade do Governo republicano de manter tanto o controlo da situação política na sua zona como à necessidade de se apresentar ao mundo como um governo liberal. No entanto, dada a grande vantagem material que o inimigo tinha, a adesão do Governo republicano a uma estratégia militar ortodoxa tinha poucas hipóteses de sucesso.

A ideia de que a Frente Popular e o aniquilamento da revolução foram apenas uma posição “prática” devido às necessidades militares da República é uma falácia.

A política frente-populista, sobretudo a sua subordinação aos interesses imperialistas, teve as suas consequências militares. Por exemplo, o facto de desde o início, por pressão do Governo britânico, a Marinha de guerra, nas mãos dos marinheiros, ter sido retirada do estreito de Gibraltar, deixou o caminho livre para as forças rebeldes transferirem milhares de tropas do Norte de África para a península. E a recusa, para não prejudicar os interesses do imperialismo francês, de declarar a independência de Marrocos e apoiar uma insurreição nacionalista na retaguarda fascista, também favoreceu as forças sublevadas.

Uma estratégia alternativa teria incluído a mobilização em massa da população (como seria o caso durante a batalha de Madrid em novembro de 1936), uma guerra defensiva e de posição, e o uso de ataques relâmpago e mais limitados, combinados com uma guerra de guerrilha, evitando assim confrontos massivos entre dois exércitos com capacidades claramente desiguais. Ao mesmo tempo, medidas como a declaração da independência de Marrocos e o apoio militar ao movimento independentista marroquino, ou a declaração da entrega de terras aos camponeses poderiam ter contribuído para minar a retaguarda inimiga8.

É claro que é impossível saber se uma estratégia de guerra revolucionária teria triunfado, embora a defesa de Madrid seja ilustrativa neste sentido. Além disso, a situação internacional, na qual tanto os partidos comunistas como os sociais-democratas exerciam grande influência, não era de todo favorável. É impossível saber qual o impacto que a existência de um poder revolucionário em Espanha teria tido no movimento operário para além das suas fronteiras. O precedente de 1917 levanta a possibilidade de que pudesse ter funcionado como estímulo e, consequentemente, ter conseguido que outras correntes políticas tivessem maior influência na luta de classes.

Guerra e revolução

Frequentemente, na historiografia sobre a guerra civil, a divisão entre as forças antifascistas é apresentada como uma divisão entre aqueles que queriam dar prioridade à guerra (comunistas, republicanos e socialistas) e a CNT e o POUM, que colocavam os interesses da revolução à frente dos da guerra: uma divisão entre guerra ou revolução. Nunca foi assim. Tanto a CNT como o POUM defenderam a necessidade de fazer ao mesmo tempo a guerra e a revolução, de levar a cabo uma guerra revolucionária. Ambas estavam intrinsecamente ligadas. O POUM, sobretudo, tinha uma política militar clara que propunha a criação de um exército revolucionário, tomando como modelo o Exército Vermelho soviético durante a guerra civil russa. Mas um Exército deste tipo não poderia ser construído sem um governo revolucionário baseado na democracia a partir de baixo, em comités de operários, camponeses e milicianos9.

O POUM defendia que, para consolidar a revolução, pelo menos na Catalunha, era necessária a tomada do poder pela classe trabalhadora. Ora, sem a CNT tal propósito era impossível. Conseguir convencer a CNT disso, ou pelo menos parte dela, cedo se tornou a principal preocupação política do POUM, mas, como se viu, teve de ultrapassar a convicção dos anarquistas de que qualquer forma de poder ou Estado revolucionário conduziria inevitavelmente a uma ditadura.

Em última instância, o grande ausente na revolução espanhola foi a existência de uma organização revolucionária com a força necessária para dirigir a tomada do poder. Uma série de obstáculos impediram o POUM, o “único partido da revolução”, segundo Andreu Nin, de se tornar essa organização. Para além dos seus próprios erros, a falta de uma base fora da Catalunha e a sua curta história — tinha sido fundado apenas um ano antes — foram obstáculos difíceis de ultrapassar. E sem uma direção política, a revolução estava condenada à derrota.



Referências

  • Bernecker, Walther (1982) Colectividades y revolución social. El anarquismo en la guerra civil española. 1936-1939. Barcelona: Crítica.
  • Beevor, Antony (2005) La guerra civil española. Barcelona: Crítica.
  • Casanova, Julián (2010) De la calle al frente. El anarcosindicalismo en España. Barcelona: Crítica.
  • Claudin, Fernando (1975) The Communist Movement. From Comintern to Cominform. Harmondsworth: Penguin.
  • Durgan, Andy (1992) “The 1933 elections in Spain and the Defeat of the Left”, Journal of the Association of Contemporary Iberian Studies, vol. 5, n º 2. Londres.
  • (2013) “The People in Arms: Spain 1936”, in Gonzalez, Mike & Barekat, Houman (eds.), Arms and the People. Popular Movements and the Military from the Paris Commune to the Arab Spring, Londres: Pluto Press: pp. 123-148.
  • (2017) “La democracia de los trabajadores en la Revolución española, 1936-1937”, in Azzellini, Darío & Ness, Immanuel (eds.), Poder Obrero. Autogestión y control obrero desde La Comuna hasta el presente. Madrid: La Oveja Negra: pp. 211-242.
  • (2021) “90 aniversario de la II República. Razones de un fracaso”, viento sur, 175: 99–108.
  • (2022) Voluntarios por la revolución. La milicia internacional del POUM en la guerra civil española. Barcelona: Laertes.
  • (2025) El POUM. República, revolución y contrarrevolución. Barcelona: Sylone-viento sur.
  • Ealham, Chris (2026) La lucha por Barcelona. Clase, cultura y conflicto 1898-1937. Madrid: Ediciones La Tormenta.
  • Fraser, Ronald (1979) Recuérdalo tú y recuérdalo a otros. Historia oral de la guerra civil española. Barcelona: Crítica.
  • Guillamón, Augustín (2017) Insurrección. Las sangrientas jornadas del 3 al 7 del mayo del 1937. Barcelona: Editorial Descontrol.
  • Guillén, Abraham (1980) El error militar de las “izquierdas”. Barcelona: Hacer.
  • Maurín, Joaquin (2023) Hacia la segunda revolución. Toledo: El Perro Malo.
  • Moradiellos, Enrique (1996) La perfidia de Albión. El gobierno británico y la guerra civil española. Madrid: Siglo Veintiuno.
  • Nash, Mary (2006) Rojas. Las mujeres republicanas en la guerra civil. Madrid: Taurus.
  • Peirats, José (1989) La CNT en la revolución española.  Madrid: Hamelyn.
  • Pozo González, Josep Antoni (2012), Poder legal y poder real en la Cataluña revolucionaria de 1936. Sevilla: Espuela de Plata.


1 Publicado originalmente em viento sur, n.º 201, 11 de julho de 2026. Tradução de António Simões do Paço.

2 Durgan (1992).

3 Moradiellos (1996).

4 Para exemplos das contradições na posição dos comunistas em relação à Frente Popular ver Fraser (1979) tomo II, p. 30 e Durgan (2022) pp. 30, 43-44.

5 Sobre os comités ver, por exemplo: Pozo (2012) e Durgan (2017).

6 Houve cinco delegados republicanos, três da CNT, três da UGT, dois da FAI e um de cada um do POUM, do PSUC e da Unió de Rabassaires.

7 Entre a bibliografia sobre as Jornadas de Maio de 1937 (Els Fets de Maig, em catalão), tem particular interesse Guillamón (2018).

8 Sobre o debate acerca da alternativa de uma guerra revolucionária ver: Claudin (1975) pp. 210-242; Guillén (1980); Fraser (1979) tomo II, pp. 27-38; Beevor (2005) p. 464; Durgan (2013).

9 Durgan (2025) pp.113-118.


Reflexões sobre a revolução de 1936¹
1.ª parte Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica
categoria-história edicao-2026-10-22 (46) Espanha Guerra civil Revolução 1936

Reflexões sobre a revolução de 1936¹

1.ª parte

Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica da Espanha dos anos 30.

Reflexiones sobre la revolución de 1936

O fracasso democrático

A polarização social, económica e política em Espanha nos anos que antecederam a guerra civil e a consequente falência da democracia burguesa determinaram o início quer do conflito armado, quer da revolução2. A vitória eleitoral da Frente Popular em fevereiro de 1936, em vez de inaugurar uma nova era de reformas sociais, revelou a incapacidade da democracia republicana para derrotar as classes dominantes, determinadas a evitar qualquer desafio ao seu poder. O triunfo da Frente Popular desencadeou uma nova onda de mobilizações das massas trabalhadoras, tanto urbanas como rurais, que o governo republicano, tal como em 1931, tentou reprimir. Por sua vez, a direita abandonou qualquer esperança de destruir a democracia republicana a partir de dentro e optou por um golpe militar.

O futuro da própria República dependia não só dos seus inimigos de direita, mas também do movimento operário. No caso dos socialistas, a fação “revolucionária”, liderada por Largo Caballero, recusou repetir a experiência de 1931-1933 e impôs que o PSOE não participasse no novo governo, deixando aos republicanos a tarefa de “terminar a revolução burguesa”. Esta visão esquemática do marxismo significou que Largo Caballero e os seus seguidores careciam de uma estratégia para tomar o poder e permaneceram passivamente à espera de que os republicanos preparassem o caminho para um governo socialista. Em contrapartida, a fação mais social-democrata de Indalecio Prieto, apoiada pelo PCE, defendeu a necessidade de regressar a um governo de coligação para completar o programa reformista republicano. Seria esta última posição a ser adotada pelo movimento socialista em plena guerra civil. A esquerda do PSOE, com a perda de parte da sua base para o estalinismo – especialmente a Juventude Socialista (FJS) que se unificaria com a União das Juventudes Comunistas para fundar as Juventudes Socialistas Unificadas (JSU) –, foi ultrapassada pelos acontecimentos e acabou por aceitar a mesma posição dos seus rivais sociais-democratas.

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Em vésperas da guerra civil, a CNT continuava a ter uma grande influência no movimento operário catalão – o mais importante da península – e uma presença muito importante na Andaluzia, em Aragão e no País Valenciano. Além disso, nas Astúrias e em Madrid, onde historicamente os socialistas eram a maioria no movimento operário, a CNT tinha uma força não negligenciável3.

Os militantes e dirigentes dos sindicatos dividiam-se entre anarcossindicalistas e vários sectores mais puramente anarquistas, sendo o mais importante a Federação Anarquista Ibérica (FAI). Todas estas tendências partilhavam um apolitismo comum. Contudo, enfraquecida pela repressão e ideologicamente dividida, durante os primeiros meses de 1936, a CNT adotou uma postura menos intransigente nas suas relações com a esquerda política, o que pode ser visto como um prelúdio para a sua participação direta no governo durante a guerra.

Nas eleições de fevereiro de 1936, para conseguir a liberdade dos seus milhares de militantes presos, a CNT não promoveu uma campanha de abstenção, como tinha feito em 1933, e a sua “liberdade de voto” foi um fator que contribuiu para a vitória da Frente Popular. Em maio de 1936, a CNT realizou o seu IV Congresso em Saragoça, que constituiu um marco na história da CNT, tanto a nível ideológico como pelo seu aparente apelo à unidade dos trabalhadores. Impressionados com a repressão da comuna asturiana de outubro de 1934, os delegados defenderam uma aliança revolucionária com a UGT como primeiro passo para a revolução social. Mas o congresso mostrou também as limitações da abertura política da CNT. Embora tenha havido um longo e abstrato debate sobre a natureza do comunismo libertário, não houve debate sobre a situação do momento ou a ameaça de um golpe militar.

O recém-formado POUM defendia também a unidade operária, mas através da reorganização das Alianças Operárias que desempenharam um papel fundamental no movimento revolucionário de 1934. O POUM opôs a Aliança Operária, como elemento essencial para superar o capitalismo, à Frente Popular, uma aliança política subordinada ao republicanismo pequeno-burguês. Ao mesmo tempo insistiu na necessidade de um grande partido revolucionário, fator ausente que condenou o movimento de 1934 ao fracasso. O novo partido esperava atrair para as suas fileiras os sectores mais radicais dos socialistas, especialmente a juventude. A queda da Federação da Juventude Socialista sob a influência estalinista na Primavera de 1936 foi um golpe mortal nesta esperança.

Em poucos dias, como diria Andreu Nin, a classe trabalhadora, de armas nas mãos, tinha resolvido “os problemas fundamentais” – o problema agrário, o da Igreja, o do Exército e o da Catalunha – que “a burguesia liberal” não tinha resolvido em cinco anos.

Revolução

A revolução que eclodiu em resposta à sublevação militar de julho de 1936 representou o fim do ciclo revolucionário que tinha começado com o triunfo bolchevique em 1917. Em poucos dias, como diria Andreu Nin, a classe trabalhadora, de armas nas mãos, tinha resolvido “os problemas fundamentais” – o problema agrário, o da Igreja, o do Exército e o da Catalunha – que “a burguesia liberal” não tinha resolvido em cinco anos. A classe operária não lutava por uma república democrática, mas pela revolução socialista4.

A pedra angular desta revolução foi a coletivização da indústria e da terra: uma experiência de autogestão popular única na história do movimento operário. Em muitos casos, a tomada de controlo de empresas ou de terras foi um processo espontâneo, com o subsequente apoio das organizações operárias5. A coletivização nas cidades foi mais longe na Catalunha, onde, sob a tutela da CNT, se concentrava metade da indústria do Estado espanhol da época. No País Valenciano, a coletivização foi também extensa, sobretudo na agricultura. Para além dos valencianos, os coletivos agrícolas mais conhecidos foram os organizados pelos anarquistas no Leste de Aragão. E embora a presença das milícias da CNT na área tenha sido importante para o seu desenvolvimento, a iniciativa foi muitas vezes local, especialmente nas localidades onde o estabelecimento do comunismo libertário tinha sido declarado durante a insurreição anarquista de dezembro de 1933. A coletivização dos campos também se espalhou por Andaluzia e Castela.

A revolução significou também uma ampla ocupação do espaço urbano, com a ocupação de edifícios e a sua conversão em sedes de organizações antifascistas, escolas, hospitais e restaurantes populares. Além disso, para muitas mulheres, a revolução e a guerra significaram “uma rutura” do seu “confinamento tradicional (…) em casa e deram-lhes, pela primeira vez, visibilidade pública colectiva6.” Entraram na atividade política pela primeira vez, juntando-se em massa a organizações de mulheres antifascistas, trabalhando em fábricas e, numa minoria de casos, participando na luta armada.

No centro de toda a resistência ao golpe militar estavam as organizações dos trabalhadores, e não apenas onde a revolução social tinha mais força. Os sindicatos e os partidos operários organizaram milícias para combater os rebeldes em tudo o que constituiu a zona republicana. No verão de 1936, havia cerca de 150 mil milicianos a combater nas diversas frentes. Para além dos centros revolucionários da Catalunha e do País Valenciano, noutras áreas os sindicatos intervieram na indústria estabelecendo diferentes formas de controlo operário.

(continua)



Referências

  • Bernecker, Walther (1982) Colectividades y revolución social. El anarquismo en la guerra civil española. 1936-1939. Barcelona: Crítica.
  • Casanova, Julián (2010) De la calle al frente. El anarcosindicalismo en España. Barcelona: Crítica.
  • Durgan, Andy (1992) “The 1933 elections in Spain and the Defeat of the Left”, Journal of the Association of Contemporary Iberian Studies, vol. 5, n º 2. Londres.
  • (2021) “90 aniversario de la II República. Razones de un fracaso”, viento sur, 175: 99–108.
  • (2025) El POUM. República, revolución y contrarrevolución. Barcelona: Sylone-viento sur.
  • Ealham, Chris (2026) La lucha por Barcelona. Clase, cultura y conflicto 1898-1937. Madrid: Ediciones La Tormenta.
  • Maurín, Joaquin (2023) Hacia la segunda revolución. Toledo: El Perro Malo.
  • Nash, Mary (2006) Rojas. Las mujeres republicanas en la guerra civil. Madrid: Taurus.
  • Peirats, José (1989) La CNT en la revolución española.  Madrid: Hamelyn.


1 Publicado originalmente em viento sur, n.º 201, 11 de julho de 2026. Tradução de António Simões do Paço.

2 Sobre o “fracasso” da República ver: Maurin (2023) e Durgan (2021).

3 Entre a extensa bibliografia sobre o anarquismo antes e durante a guerra civil podem consultar-se: Peirats (1989), Casanova (2010) e Ealham (2026).

4 Durgan (2025) pp. 88-89.

5 A história mais completa do processo de coletivização continua a ser: Bernecker (1982).

6 Nash (2006) p. 92.

categoria-conversa com... Cuba EUA Reformas Revolução edicao-2026-07-02 (34)

Cuba na encruzilhada

Entrevista com Aldo Cordeiro Sauda

Em 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou, em sessão extraordinária, o maior pacote de reformas económicas da história de Cuba depois da Revolução: 176 medidas que abrem espaço à banca privada, convertem empresas estatais em sociedades por ações, eliminam o teto de trabalhadores das pequenas e médias empresas, autorizam o investimento de cubanos residentes no exterior — com usufruto de terras por até 99 anos — e suprimem o cabaz alimentar universal vigente desde 1962. Anunciado como Programa Económico y Social 2026 e justificado pelo próprio Governo como resposta à asfixia provocada pelo bloqueio, o pacote inscreve em lei a viragem pró-mercado mais profunda desde 1959. A entrevista que aqui publicamos, realizada em Havana e Cienfuegos com Aldo Cordeiro Sauda e originalmente publicada no site brasileiro Quilombo Invisível em maio de 2026, antecedeu em poucas semanas a institucionalização desse programa.

Em 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou, em sessão extraordinária, o maior pacote de reformas económicas da história da Revolução: 176 medidas, organizadas em vinte e três eixos, que abrem espaço para a banca privada, convertem empresas estatais em sociedades por ações, eliminam o teto de trabalhadores das pequenas e médias empresas, autorizam o investimento de cubanos residentes no exterior — com usufruto de terras por até noventa e nove anos — e suprimem a cesta básica universal vigente desde 1962. Anunciado como Programa Económico y Social 2026 e justificado pelo próprio governo como resposta à asfixia provocada pelo bloqueio, o pacote inscreve em lei o giro pró-mercado mais profundo desde 1959.

A proposta do Partido Comunista Cubano invoca explicitamente os modelos chinês e vietnamita de abertura controlada. Os números expõem a distância que separa Havana desses paradigmas de “socialismo de mercado”. Segundo os dados compilados pelo economista Carmelo Mesa-Lago, o Estado responde ainda por 90,8% do PIB cubano, contra 40% na China e 37,3% no Vietname, e apenas 21,9% das empresas cubanas são não estatais, ante 89,7% na China e 96,7% no Vietname. Entre 2009 e 2020, enquanto a China crescia 7,4% ao ano e o Vietname 5,9%, Cuba avançava 0,9%. Já o coeficiente de Gini cubano, estimado pela socióloga Mayra Espina Prieto em 0,407, é hoje superior ao vietnamita (0,357) e ao chinês (0,385). A entrevista que se segue, realizada em Havana e Cienfuegos, originalmente publicada no site Quilombo Invisível em maio de 2026, antecedeu em poucas semanas a institucionalização desse programa. Cabe ao leitor avaliar em que medida as tendências discutidas na conversa e os limites estruturais da integração de Cuba no mercado mundial encontram confirmação nos acontecimentos anteriores.

Mesmo que as reformas económicas sejam introduzidas sem qualquer alteração no sistema político de partido único da ilha, elas seriam bem-vindas se ajudassem a aliviar a situação económica do povo cubano. Convém lembrar que nem a China nem o Vietname reformaram sob um intenso bloqueio energético e um regime de restituição patrimonial como os que pesam sobre Cuba: a ilha abre-se sob o cerco do Helms-Burton Act — a legislação extraterritorial que
permite aos antigos proprietários radicados em Miami reivindicar, na justiça norte-americana, os bens nacionalizados após 1959 —, o que ameaça tornar a reintrodução do capital estadunidense incomparavelmente mais violenta do que nas experiências do Leste Asiático. A via cubana, portanto, parece aproximar-se muito mais do desastre económico dos países que sucederam à União Soviética nos anos 1990 do que o modelo apresentado pelo PC Cubano.

Longe de corrigir a crise social, a abertura ao capital estrangeiro, vindo em particular dos exilados pró-Trump de Miami, tende a aprofundá-lo. A dolarização de facto da economia diária — agora formalizada pela reforma — beneficia quem dispõe de dólares, remessas e passaporte estrangeiro, e penaliza quem depende dos salários em pesos e da caderneta esvaziada. Esse recorte é também racial: como regista a entrevista, cubanos de ascendência africana recebem menos remessas que os brancos, de modo que a economia dolarizada amplia a desigualdade racial herdada do Período Especial. O pacote de junho acentua essa lógica ao converter a diáspora em investidora interna e ao desmontar os mecanismos universais de proteção social.

O texto procura reconstruir algumas das contradições estruturais da sociedade cubana contemporânea a partir de conversas com investigadores, ativistas e organizadores associados ao livro CUBA 11J, obra produzida por militantes marxistas que participaram nas massivas mobilizações anti-austeridade dos dias 11 e 12 de julho de 2021. As questões abordadas incluem a crise energética e os seus efeitos territoriais, a recomposição das formas de mercado, o papel estrutural das remessas e da emigração, as desigualdades racializadas, areconfiguração do trabalho e da reprodução social, a repressão política e as dificuldades enfrentadas por correntes críticas de esquerda no contexto atual.

Aldo Cordeiro Sauda

 

Quilombo Invisível: No ano passado, o Congresso cubano aprovou uma série de reformas económicas. Entre elas, destacam-se a dolarização parcial da economia e a expansão das situações em que cubanos poderiam ser detentores de mais de uma propriedade. Como essas mudanças foram recebidas pela população? Quem mais tende a beneficiar com elas?

Aldo Cordeiro Sauda: A grande maioria das relações económicas de Havana com o resto do mundo é influenciada pelo chamado Helms-Burton Act, uma legislação aprovada no Congresso norte-americano em 1996, durante o Governo Clinton. Essa lei radicalizou, intensificou e institucionalizou a agressão norte-americana a Cuba. Ela deu a Washington os chamados mecanismos de aplicação extraterritorial do direito estadunidense, ou, se você quiser, uma forma de jurisdição imperial, na qual a lei americana é imposta a Cuba para reverter as expropriações de refinarias, fábricas, hotéis e latifúndios rurais ou urbanos nacionalizados após a Revolução de 1959.

Isso significa que, se você mora em Miami e seu avô teve lá atrás uma empresa, um prédio ou outra propriedade expropriada na Revolução de 1959, você pode entrar com um processo nos Estados Unidos para reclamar essa propriedade em Cuba. Isso criou um nó nas relações de propriedade em Cuba e o sistema jurídico norte-americano, difícil de superar e que, na prática, trava as relações económicas cubanas com o resto do mundo.

Um bom exemplo de litígio é o caso da rede de hotéis Meliá, em particular seu empreendimento na Praia Esmeralda, em Holguín. Os cubanos atraíram a rede hoteleira, de capital espanhol, para investir na indústria do turismo cubano. Os EUA responderam processando o grupo Meliá porque o hotel foi construído em um terreno baldio que era de suposta propriedade da familia Sánchez Hill, expropriada em 1959. Como existe um processo nos Estados Unidos de reintegração dessa propriedade, a estrutura financeira do grupo Meliá, dentro ou fora de Cuba, passa a ter suas transações em dólares dificultadas, travando o acesso a capital norte-americano. Essa questão da jurisdição internacional dificulta qualquer tipo de processo de abertura da economia cubana.

Esses mecanismos de jurisdição extraterritorial, na verdade, representam o elemento mais extremo de um amplo complexo jurídico imperial norte-americano. Esse extremismo em relação a Cuba está presente quando Trump diz que vai assumir o controle absoluto da ilha. Isso em parte se explica por motivos temporais: durante o colapso da União Soviética, não existia uma legislação norte-americana que delimitasse a questão da propriedade naqueles países equivalente ao Helms-Burton Act, com jurisdição extraterritorial. Inclusive, se você pega o caso chinês, os Estados Unidos, em 1979, basicamente resolvem esse problema com as relações de propriedade na China com um acordo rápido e pragmático. Portanto, há um excepcionalismo no caso cubano, talvez ligado à necessidade de combater a esquerda na América Latina independente da Guerra Fria.

Quando você pega o caso das propriedades na União Soviética, houve todo um processo de privatização, mas ninguém falou em restaurar as propriedades anteriores à Revolução de 1917. Se houve, foi algo mais concentrado na questão da Igreja Ortodoxa, mas não existia uma mobilização para trazer os proprietários anteriores, inclusive porque eles não estavam geograficamente concentrados como estão os proprietários do período pré-revolução cubana em Miami, com relações com os políticos na Florida, com relações aprofundadas com o governo norte-americano.

Então, essas relações fazem que qualquer projeto maior de abertura por parte dos cubanos acabe caindo nessa barreira. De novo, é algo que não se teve, por exemplo, nos países do Leste Europeu como Polónia ou Checoslováquia, onde, mesmo tendo havido alguns casos de restauração de propriedades anteriores ou compensação, foram processos com uma certa maleabilidade. Em muitos desses lugares, a propriedade continuou estatal ou foi privatizada, mas não se retornou aos proprietários do período anterior.

Essa é a grande barreira, porque basicamente os americanos querem retomar a propriedade das usinas de açúcar, das refinarias de petróleo, dos bancos e, principalmente, as propriedades urbanas e rurais. No caso de propriedades urbanas, isso se relaciona diretamente com os interesses da família Trump. Você pega Havana, uma das cidades mais bonitas da América Latina, se não a cidade mais bonita, exatamente porque não existe especulação imobiliária. Havana Vieja tem aqueles prédios lindos, antigos, que a despeito da degradação dão todo um charme à cidade e que, provavelmente, quando houver de facto uma invasão do capital norte-americano, vão virar edifícios gentrificados, mercadoria ao serviço da especulação imobiliária, fenómeno que, na prática, é dissuadido através da restrição ao grande capital pelo Estado.

Dito isso, a abertura que se tem, que é de novo uma abertura lenta, travada e pautada pelo Helms-Burton Act, em geral beneficia a burocracia, seus filhos e seus netos, os chamados ‘nepo babies’. A abertura do mercado é, em geral, isso: quem beneficia são aqueles vinculados ao Partido Comunista. Uma figura muito mencionada aqui em Havana é o “Cangrejo”, neto de Raúl Castro, descrito como um playboy que virou dono dos empreendimentos de turismo e de uma série de empresas privadas. Ele é odiado aqui em Havana; todos falam dele. São críticas baseadas certamente em relatos jornalísticos, sem claro lastro documental, mas me parece inevitável que essas figuras acabem surgindo. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia acaba empurrando para isso, porque a dolarização foi acompanhada de uma enorme crise: as cadernetas – aquilo que garantia a alimentação pelo Estado – vão tendo cada vez menos alimentos à disposição, e passa a haver cada vez mais alimentos à disposição de quem tem acesso a esses mercados privados em dólares, o que aumenta brutalmente a desigualdade no próprio acesso à comida.

Isso também está ligado ao facto de que, desde os anos 90, mas muito mais agora, principalmente desde a Covid, milhões de cubanos saíram do país e mandam dinheiro de volta às suas famílias. O envio de remessas, junto com o turismo e, em alguns sentidos, a exportação de missões médicas, são as três grandes fontes de capital estrangeiro aqui em Cuba. Elas acabam sempre beneficiando alguns em detrimento de outros, em geral os brancos em detrimento dos negros, porque quem é imigrante, quem está fora do país, consegue melhores empregos e depois consegue mandar esse dinheiro com facilidade, são na maioria das vezes as pessoas brancas. Isso acaba tendo um recorte racializado, a centralidade que ocupa a economia dolarizada. Portanto, a dolarização da economia aumenta a desigualdade racial.

Vale mencionar também que a questão da restauração dos direitos de propriedade no caso de Cuba é, em alguns sentidos, mais complexa do que na Venezuela. As grandes estatizações que ocorreram durante o governo Chávez foram de duas grandes empresas norte-americanas, a Exxon Mobil e a ConocoPhillips, que tinham participado nas privatizações neoliberais dos anos 90, do setor petroleiro venezuelano e que foram expropriadas depois por Caracas. É relativamente fácil restaurar os direitos de propriedade anteriores, primeiro porque eles ocorreram nos anos 90. Existe toda uma estrutura legal internacional vinculada ao Banco Mundial e a tribunais internacionais que garantem esses direitos de propriedade ao grande capital estrangeiro principalmente a partir dos anos 90. Essa questão se resolve com os americanos retomando para si o petróleo venezuelano da PDVSA, algo que na prática já está acontecendo.

Em Cuba, não. Em Cuba, você tem particulares individuais que não são grandes empresas petroleiras norte-americanas, com quem você resolve por meio de um acordo imposto pela agressão imperial norte-americana ocorrida esse ano. No caso de Cuba, você tem milhares e milhares de processos que correm na justiça norte-americana para restaurar a propriedade em todos os níveis. Portanto, a violência do que será a reintrodução do capital norte-americano e dos interesses norte-americanos em Cuba vai perpassar centralmente a restauração desses direitos individuais.

Por isso, a restauração aqui em Cuba vai ser provavelmente mais violenta do que qualquer outra, mais violenta no sentido da expropriação dos direitos à habitação e dos direitos sociais do que talvez na Rússia ou Leste Europeu. Provavelmente, alguma fração da burocracia do Partido Comunista vai continuar com o domínio sobre alguns setores da propriedade hoje estatal, mas isso vai ter que se dar em por meio de um acordo com essas frações burguesas cubanas que estão na Florida querendo reclamar sua propriedade como um todo, o que, de novo, não ocorreu na União Soviética. No caso cubano, é isso o que eles querem, e é isso o que cria essa situação em que o Trump fala com algum grau de verdade que vai voltar a ser “dono” de Cuba se seu plano der certo.

Quilombo Invisível: Diante da inflação severa, dos apagões exaustivos e do sistema de lojas em Moeda Livremente Conversível (MLC), como as pessoas nas ruas interpretam a raiz da crise? A quem a população costuma atribuir a culpa pela escassez diária?

Aldo Cordeiro Sauda: A questão das reformas na política monetária de 2021 é algo que todos os cubanos criticam. A primeira questão é o fim daquela moeda chamada CUC, que era uma espécie de dólar oficial, um câmbio oficial controlado pelo Estado que controlava o dinheiro vindo do exterior. Com a reforma do governo Díaz-Canel, o dólar oficial foi abandonado e a CUP, o peso cubano, passou a oscilar de forma livre em relação à moeda norte-americana. Essa política liberou a utilização do dólar, na prática, dolarizando a economia local. De novo, isso remete àquela questão das remessas financeiras enviadas pelos imigrantes a quem ainda está dentro do país. A questão das remessas é uma parte estrutural da economia, não só de Cuba, mas de diversos países do Caribe e da América Central: Guatemala, o próprio El Salvador, o Haiti.

Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.

Na prática, a política de sanções energéticas do Governo Trump entrou para quebrar as pernas da economia do turismo, dando às remessas em dólar um papel ainda maior. Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.

Eu vim através do Panamá, por exemplo, que ainda mantém os voos para Havana, mas voos diretos que vinham de lugares como Canadá, Rússia, com turistas que vinham aqui com moeda estrangeira, consumiam e injetavam dólares na economia, isso quase secou por conta da falta de combustível.

Mas ao mesmo tempo existe uma crise aqui em Cuba que vem basicamente desde a Covid, quando a indústria do turismo toma o seu primeiro golpe, e agora, digamos, com a crise venezuelana, tomou o segundo golpe, e o golpe agora é ainda mais forte. Mas desde o período da Covid, há uma crise na qual se estima que mais de um milhão de cubanos saíram, deixaram o país. A consequência disso é que cerca de 10% da população foi embora. Tem lugares que estão esvaziados de gente, principalmente de gente jovem, porque quem é jovem e tem algum recurso saiu do país.

A questão dos apagões e da escassez, ao mesmo tempo, não é nova: obviamente, são intensificadas pela situação atual, mas houve também uma redução na vinda de petróleo venezuelano para cá desde o período da Covid. Desde 2020 os venezuelanos aumentaram a exportação de petróleo para países como a China, e em grau menor para os Estados Unidos, reduzindo o envio de petróleo para cá. Então, a crise energética é anterior ao sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, porém foi acelerada por ela.

É nesse cenário que vai se abolir o CUC, um processo acompanhado por aumentos nos preços de quase todos os serviços públicos e pela redução no acesso a alimentos disponíveis pelas cadernetas. A caderneta é basicamente um instrumento para se ter acesso à comida distribuída pelo Governo. Os salários são muito baixos comparados ao dólar. Isso era compensado pela caderneta e por um acesso a uma certa quantidade de alimentos, como farinha, óleo, feijão e carne de porco, que agora vem sumindo das prateleiras. Por conta da situação atual, a comida que se conseguia acessar antes ficou escassa. E isso é uma coisa que é comentada o tempo inteiro nas ruas.

Por conta dos problemas de planificação, também causados pela falta de gasolina para os carros, de diesel para os caminhões, a distribuição dos alimentos subsidiados, em particular no interior, antes acessíveis pelas cadernetas, secou. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia, mesmo que tenha em parte expandido o acesso a bens de consumo e uma pluralidade maior de alimentos industrializados, não é democratizadora. Ela barra, ela impede: os preços de alimentos se tornam proibitivos para quem não tem acesso a dólares. Na verdade, o que se tem é uma desigualdade acelerada e intensificada no acesso a alimentos, porque quem tem acesso a dólares consegue superar a falta de alimentos que se teria antes no acesso pela caderneta. E para quem não tem dólares? São pessoas que muitas vezes estão no interior. É aí que entra a questão da fome. 

Nós viemos aqui em Havana com uma mala de medicamentos para distribuir para as famílias, enviados por alguns companheiros no Brasil. O que mais nos impressionou foi que, conversando com as pessoas, elas faziam questão de sempre dizer: “Olha, agora existe fome em Cuba.” Porque existe essa ilusão na esquerda brasileira de que não existe fome em Cuba, e principalmente desde essa crise, há uma situação realmente de insegurança alimentar.

Acompanhada da dolarização, houve uma enorme alta inflacionária e também uma série de políticas antipopulares, de introdução de princípios da economia de mercado, incluindo aumento exponencial no custo da eletricidade, da água e do transporte.

Muitos ganhos da revolução vêm sendo mais ou menos perdidos pela expansão do mercado, pela expansão de relações capitalistas de propriedade. Só que, ao mesmo tempo, ainda são processos mercadológicos muito limitados porque ocorrem por fora do acesso ao grande capital estrangeiro por conta das medidas do Helms-Burton Act.

Qualquer integração no mercado acaba sendo limitada por isso. Ao mesmo tempo, desde 2021 você tem as chamadas Pymes (PME, Pequenas e Médias Empresas), que são as empresas particulares em processo de expansão. Isso retorna àquilo que eu tinha colocado: quem tem acesso às PME são muitas vezes os filhos e os netos da burocracia, e também vem com um recorte racial: são frequentemente brancos.

Quem tem capacidade de empreender através das PME, quem tem acesso a atravessar as limitações burocráticas, são os filhos e netos daqueles que encabeçaram a Revolução de 59. As PME são em geral celebradas pela população. A abertura económica, por motivos pragmáticos, parece ser quase consensual, o que é algo em muitos sentidos perverso, porque parece, principalmente entre os jovens, existir uma ideia de que o capitalismo e a entrada do capital norte-americano vão resolver todos os problemas da ilha. Mas a restauração de direitos de propriedade anteriores a 1959 tende a intensificar a desigualdade social, e não a reverter aos padrões anteriores aos anos 1990.

Só que isso é um pouco ignorado. As pessoas querem mudança, elas não aguentam mais o estado das coisas. Quando as pessoas te explicam a situação económica e você responde dizendo “Ah, mas o bloqueio”, elas dizem: “Bom, bloqueio já tem 60 anos, quase 70 anos. Não deu tempo de resolver essas questões?” Basicamente, a abertura económica é vista com bons olhos, é celebrada e vista como uma necessidade cubana. Há uma leitura de que desde os anos 1990, do período especial, a vida só piora. De facto, é compreensível o desespero, porém ignora que países como Haiti, a Guatemala e El Salvador estão plenamente integrados no capitalismo mundial, e ao mesmo tempo em uma condição de vida muito pior que Cuba.

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Quilombo Invisível: O apagão recente afetou a ilha inteira. No Brasil, quando apagões acontecem, bairros mais pobres, e com maior presença de populações negras, costumam ser mais afetados e demorar mais para ter a energia restaurada. Em Cuba, há algum paralelo com a situação no Brasil?

Aldo Cordeiro Sauda: O que dita o apagão, além de atingir mais as populações negras, é o recorte Havana versus interior. Quando estive no interior, quase sempre a única fonte de eletricidade eram os painéis solares. Existe mais acesso à eletricidade na capital, inclusive em Havana Vieja e Centro Habana, partes da cidade com uma grande população negra. Aqui a energia é mais preservada até porque os cabos são subterrâneos. Onde há cabo subterrâneo, eles evitam cortar a luz por conta da dificuldade de fazer o reparo que pode ser causado pelas sobrecargas nas variações de tensão. Onde o cabo é aéreo, há mais crise de energia.

Enquanto o principal responsável pela crise de energia é o bloqueio norte-americano, não se pode ignorar as consequências destrutivas da planificação burocrática. Segundo pesquisa da Universidade de Columbia, em Nova York, a reestruturação do sistema elétrico cubano está estimada em 10 bilhões de dólares1, porém o Governo cubano gastou uma quantidade de dinheiro ainda mais elevada em novos hotéis nos últimos 15 anos, negligenciando a importância do sistema elétrico. Os mega investimentos em grandes hotéis de 5 estrelas são destacados pela população como um símbolo de desperdício, em particular porque a política se acentuou durante a crise da Covid, enquanto a taxa de turismo no país despencou. A taxa de ocupação nos hotéis hoje está estimada em 20%. Conheci o caso de um casal de brasileiros que foram transferidos de seu hotel para um com maior ocupação por uma questão de excesso de vagas, porém, as construções de novos edifícios hoteleiros continuam. A isso se soma a questão da força de trabalho, que segundo relatos de moradores vem em grande parte trazida de países como Índia e Paquistão, substituindo a mão de obra local.

Agora, a questão da luz é importante lembrar que ela vem de antes do sequestro de Maduro, porque já desde a Covid os venezuelanos reduziram o envio de combustível para cá, e as crises energéticas têm ocorrido desde a Covid, sendo um dos elementos que motivaram o 11J, o movimento de massas que tomou as ruas em julho de 2021, cuja palavra de ordem era “Pátria y Vida”, uma ideia de se opor ao slogan do regime, “Pátria o  Muerte”. E aí, sim, essa mobilização tem uma grande participação negra, e os rappers associados aos protestos, ligados ao Movimiento San Isidro (MSI), também são rappers negros. Existe esse recorte de que as pessoas que foram às ruas em rejeição ao regime tiveram uma forte presença da comunidade negra cubana.

O melhor balanço que conheço sobre as mobilizações do 11 de julho, é um livro chamado Cuba 11J, perspectivas contrahegemónicas de las protestas sociales. Ele mostra sob diferentes ângulos os protestos de uma perspectiva crítica marxista, organizado por um jovem militante socialista do movimento negro.

Quilombo Invisível: Alguns relatos elogiosos sobre Cuba destacam o cultivo de alimentos em cidades (agricultura urbana) como estratégia de superação da escassez de alimentos. Pelo seu contacto, como a população cubana se relaciona com a produção de alimentos? E como isso se relaciona com a burocracia estatal do país? 

Aldo Cordeiro Sauda: Me parece que a questão do acesso a verduras, legumes e frutas não cítricas em Cuba não é o problema principal. O que falta é a comida industrializada, assim como a carne. Óbvio, o problema da carne também é o problema da falta de eletricidade. Se cai a energia, se você tem quatro, cinco, seis dias de apagão, você perde a carne nas geladeiras e nas arcas frigoríficas.

Sobre essa questão da agricultura urbana, existe o livro publicado pela editora Elefante, Entre a Utopia e o Cansaço, que tem um conjunto de textos muito interessantes, em particular o que trata da militarização da economia. A própria Joana Salem, especialista em Cuba, tem uma pesquisa muito rica sobre a questão agrária que merece ser lida. O trabalho dela sobre Cuba e a América Latina em geral é bastante sério. Fabio Luís Barbosa dos Santos, professor de RI da Unifesp, um dos editores do livro junto com Aline Miglioli e Vanessa Oliveira, também é um pesquisador muito qualificado, com longa trajetória no tema. O trabalho organizado por ele tem textos muito interessantes, inclusive sobre o papel dos militares na economia, que hoje é preponderante. 

A militarização da economia cubana, através do GAESA (Grupo de Administración Empresarial) segundo o sociólogo cubano-americano Samuel Faber, atinge pelo menos 40% dos empreendimentos. Então, você tem esse recorte, similar a países como Egito e Paquistão. A GAESA é em boa parte responsável pelos problemas burocráticos da planificação económica. 

Quilombo Invisível: Assim como no Brasil, em Cuba também há um discurso oficial de superação das discriminações raciais (a tal da “democracia racial”), usado como forma de impor uma unidade popular. No entanto, a quase totalidade dos comércios em Cuba seguem comandados por pessoas brancas. Na sua visão, o racismo em Cuba foi superado? De que forma o racismo se relaciona com as ações do Estado?

Aldo Cordeiro Sauda: A questão do racismo, atenuada pelos ganhos sociais da revolução, é intensificada principalmente após o Período Especial iniciadlo depois dos anos 90. É importante dizer, quando se fala da questão racial em Cuba, o papel central que Cuba teve na libertação no Sul da África, em Angola, Moçambique, e também na Guiné-Bissau. Cuba teve um papel muito importante no combate ao apartheid na África do Sul. Isso é um marco e algo que não pode ser esquecido quando a gente fala de Cuba, em particular o envio de tropas em apoio ao MPLA na guerra anticolonial em Angola e o apoio ao ANC de Nelson Mandela na África do Sul. Essa é uma marca do regime que faz parte da história cubana.

O problema é que a abertura aos mercados e o surgimento da desigualdade económica atingem principalmente a população negra, em parte porque a direção inicial da revolução, à exceção de Juan Almeida Bosque, foi majoritariamente formada por intelectuais brancos de origem hispânica. Quando se inicia a restauração nos anos 90, serão os filhos e os netos da direção revolucionária que vão sair na frente, e isso significa que os negros tendem a ser mais afetados.

Com isso se combina o papel da imigração: quem tem mais acesso à imigração na Europa e América do Norte, por redes familiares, são em geral os brancos. Portanto, as famílias de pessoas brancas vão ter mais acesso a passaportes e cidadanias europeias (espanhola e italiana), a dólares vindos do exterior, e a dolarização da economia afeta de forma muito desigual os brancos e os negros por isso. Segundo ativistas do movimento negro com quem conversei, há um aumento, pós-anos 90 na desigualdade racial. Desde o Período Especial, essa questão vem ganhando relevância.

 

Quilombo Invisível: É um bordão irónico e famoso, em apoio a Cuba, dizer que na ilha apenas três coisas funcionam: saúde, educação e segurança. Mas como a segurança é mantida na prática na ilha? A ação policial possui contornos raciais? Algum grupo tende a ser mais perseguido pela polícia?

Aldo Cordeiro Sauda: Cuba, segundo a Amnistia Internacional, há hoje centenas de presos políticos e, junto com isso, um alto índice de presos per capita. Existe uma análise do Instituto de Pesquisa em Política Criminal, do Birkbeck College, de Londres, que aponta Cuba entre os países com altos índices de encarceramento, porém muito abaixo de EUA, Brasil e El Salvador. Tudo isso, possivelmente, acaba tendo um recorte racial.

Um dos grandes problemas, me parece, é que Cuba colocou nas negociações com os americanos a libertação de presos políticos. Isso é terrível, porque acaba entregando aos Estados Unidos a bandeira das liberdades civis, da liberdade de associação e expressão. Produz ilusões sobre os Estados Unidos como defensores da democracia. Isso apenas contribui para o problema que existe aqui, isto é: a geração que nasceu nos anos 80 e atravessou o Período Especial dos anos 90 na juventude só vê a piora da economia cubana, só vê Cuba piorar.

Isso faz surgir, principalmente entre os jovens, todo um setor que podemos dizer ser “pró-intervenção imperialista”, pró-Estados Unidos, na juventude, que vê a intervenção norte-americana como aquilo que vai resolver o problema de Cuba e a única alternativa para a atual conjuntura. Então, surge a possibilidade de setores pró-restauração capitalista entre a juventude trabalhadora.

O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que os jovens culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano.

Essa é a maior derrota que a política da burocracia impõe, principalmente entre os jovens. O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Ernesto Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano, e que acaba sendo gerida por uma camada de profissionais técnicos e gestores cubanos cuja função acaba sendo gerir as consequências do bloqueio.

O facto de a revolução não se ter expandido para além da própria ilha – assim como não se pode ter socialismo em um só país, como, em última instância, foi na derrota da revolução russa nos anos 20 e 30 – torna ainda mais difícil manter uma revolução em uma só ilha. É isso que acaba alimentando as próprias divergências entre Fidel Castro e Che Guevara, porque o Che é muito crítico do que ele chama de “manuais soviéticos”, a adoção de políticas burocráticas e um modelo baseado na experiência soviética em Cuba, mas que acaba sendo a consequência inevitável de uma revolução que não consegue expandir.

 

Quilombo Invisível: Como sabemos, a América Latina enfrenta, em particular nos últimos meses, uma escalada do imperialismo estadunidense. Muitos na esquerda ficam em silêncio sobre os abusos do regime cubano por receio de que poderiam alimentar um imperialismo que, em última instância, poderia levar a uma piora nas condições na ilha. Na sua visão, como a esquerda latinoamericana pode contribuir para a superação da ditadura na ilha?

Aldo Cordeiro Sauda: Toda a ajuda, todo o apoio humanitário a Cuba é bem-vindo. Toda a esquerda que se esforça para combater o bloqueio cumpre um papel progressivo. Isso é algo que nós precisamos ter em mente. Ao mesmo tempo, é preciso diferenciar o que é solidariedade com o povo cubano do que é a solidariedade com o regime. Muitas vezes, vemos em muitas iniciativas, sejam elas de socialistas, maoistas, trotskistas ou autonomistas, uma confusão nesse sentido.

A iniciativa da flotilha para Cuba, para ajudar o país é muito positiva, mas uma questão que não podemos esquecer é a forma como ela é canalizada e inclusive interpretada pelos próprios cubanos. Sem os devidos cuidados, os cubanos podem acabar criando desconfiança da esquerda mundial, que pode acabar sendo interpretada como legitimando o Governo Díaz-Canel, sem esquecer que o Governo usa isso como instrumento para legitimar suas reformas económicas e sociais.

Essa solidariedade, que é necessária, precisa ser acompanhada – e infelizmente não se vê isso entre as diferentes correntes da esquerda – de apoio aos presos políticos que foram detidos no 11 de julho. Um apoio às correntes marxistas dissidentes aqui em Cuba, uma oposição à repressão que existe contra a própria esquerda, aquilo que a gente pode chamar dos dissidentes entre os dissidentes. É preciso separar o que é a oposição “gusana” de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão.

É preciso separar o que é a oposição ‘gusana’ de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão 

Sem que haja essa diferenciação, colocar tudo o que se opõe ao regime cubano como parte das iniciativas norte-americanas enfraquece alternativas anticapitalistas no longo prazo. As pessoas podem achar que o que está colocado é dual, com apenas dois lados: ou você está com os Estados Unidos ou você está com o regime. O problema é que isso ignora o amplo desejo de mudança que vem dos trabalhadores cubanos. Ser cego a isso não ajuda ninguém.

O 11 de julho é um movimento de massas baseado num sentimento geral de necessidade de mudança, e que, por conta dos próprios problemas do regime – por conta da criminalização dos dissidentes, de empurrar para fora da ilha a esquerda crítica –, os movimentos sociais da juventude acabam muito facilmente sendo manipulados e capturados pelas forças pró-americanas. A partir do momento em que a esquerda mundial rechaça a oposição cubana de esquerda, a partir do momento em que a esquerda internacional se associa de forma acrítica ao regime, e a partir do momento em que não existem dissidentes cubanos que possam cumprir um papel organizacional progressivo em relação às mobilizações sociais, elas tendem a ir para a direita. E essa é a realidade. À medida que os movimentos sociais vão se radicalizando, elas tendem a ir mais e mais para a direita, o que é um desastre, um desastre político para Cuba e para toda a América Latina.

As manifestações são legítimas, assim como a exigência de substituição do Governo. As pessoas estão cansadas, querem mudanças na política económica que dolarizou o consumo, encarecendo a vida. A partir do momento que você não cria mecanismos para isso e quando você taxa toda a oposição de mercenários e agentes pró-americanos, a consequência disso é que você acaba fortalecendo exatamente esses setores. É óbvio que existem setores distintos dentro do movimento – como qualquer movimento de massas, o 11J é plural. Vai ter gente que é pró-americana, antiamericana, gente que só quer melhorar a sua própria vida. Mas o problema é que, na medida que os poucos socialistas críticos são presos e empurrados para fora da ilha, o que sobra é a direita.

Portanto, é muito difícil ser otimista em relação à realidade política cubana por conta do isolamento da esquerda cubana dissidente em escala nacional e internacional. Há muita gente de esquerda que foi presa em julho e que agora quer sair do país. É um sentimento natural.

Existe um problema demográfico grave em Cuba. Os jovens que têm capacidade financeira pegam um avião até à Nicarágua e muitas vezes de lá, pela rota sul, vão para o Chile ou para o Brasil, quando não tentam, a partir da América Central, chegar de forma arriscada e clandestina aos Estados Unidos pela rota norte, um caminho perigoso agora dificultado ainda mais pelo Governo Trump. Desde a crise da Covid, o número de jovens na ilha tem encolhido.

Há o problema demográfico também de as pessoas terem poucos filhos. A população da ilha não para de cair, há poucas crianças, a população está envelhecendo, e os jovens estão saindo. Isso é um desastre de longo prazo. 

 

Quilombo Invisível: A repressão do Estado aos manifestantes do 11J foi severa, chegando a 25 anos de prisão, e com órgãos internacionais denunciando a morte de vários dos detidos. Como esses presos são vistos pela população com que o senhor teve contacto? A população estaria disposta a se arriscar em outras ondas de protesto?

Aldo Cordeiro Sauda: Vale dizer que existe muito medo em relação aos protestos em massa, porque uma parte relevante da liderança de rua foi presa. O que eu vejo aqui em Cuba, conversando com as pessoas e com as próprias lideranças da ala esquerda dos protestos, é que existe muito medo, muito medo de sair para a rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba. Você ouve as pessoas, elas são muito críticas do regime, atacam o Governo, atacam o Presidente o tempo inteiro quando você conversa com elas na rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba, a questão é como criticar o Governo em Cuba. A mesma coisa com as redes sociais. Não é que você não possa falar mal do Governo nas redes sociais, é o que você fala. Há forte repressão a protestos nas ruas. Aí, sim, é que vem o problema. Não que você não possa falar mal do Governo, é por onde e como você fala mal do Governo.

Você fala com as pessoas, em geral elas dizem “apoio os protestos do dia 11”, mas, obviamente, a grande maioria não foi aos protestos do dia 11. Você pergunta e a resposta é: “Não, não quero pegar 8, 10 anos de cana. Ninguém quer ir preso.” O regime é muito efetivo pelo facto de ser uma ilha, o controle político-social é mais fácil. Isso não significa que os protestos, de forma localizada, não sigam ocorrendo. Ontem, por exemplo, teve um panelaço na rua por onde havia passado algumas horas antes por conta da falta de energia. Também teve o caso, noticiado mundo afora, do ataque à sede do PC no interior do país. Então os protestos seguem, porém sem clara coordenação política.

 

Quilombo Invisível: Como a população comum reage às campanhas de propaganda da imprensa oficial? Elas ainda têm eficácia em jogar a população contra seus pares, ou o descrédito da mídia estatal já é generalizado?

Aldo Cordeiro Sauda: Eu acho que o regime tem apoio cada vez menor na população. Existe uma ideia de que os anos 80 foi o período de auge, e de lá para cá a situação só piora. Existe um sentimento geral por inovação, de que é preciso mudar.

Acho que a nossa solidariedade com Cuba exige duas tarefas. A primeira é combater e ser solidário no combate ao bloqueio, e todas as iniciativas de combate ao bloqueio têm que ter nosso apoio. Nós temos que defender que a Petrobras envie petróleo para Cuba, apoio energético brasileiro a Cuba. Mais que ajuda humanitária, Cuba precisa de gasolina, diesel, petróleo. Se você olha as ruas, as ruas estão quase vazias, não tem carros nas ruas, as estradas estão vazias, praticamente não tem caminhões nas estradas. O grande problema é a falta de combustível.

Portanto, o papel da esquerda internacional é se solidarizar, exigir de seus governos, exigir do Governo Lula, exigir da esquerda, exigir também do Governo mexicano – onde existe menos oposição interna a uma política pro-Cuba – exigir dos governos internacionais o apoio contra o bloqueio e principalmente o envio de petróleo para Havana. Essa é a primeira tarefa. A segunda tarefa é se opor à repressão da esquerda, de artistas críticos independentemente de suas posições ideológicas, se opor à repressão do movimento de massas e defender uma alternativa que seja ao mesmo tempo socialista e democrática.


  1. 10 mil milhões de dólares.
categoria-internacional Albânia Corrupção Revolução edicao-2026-07-02 (34)

“Nova Albânia”: o levantamento social dos Flamingos

Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.

ilustração: Pedro Páscoa

O protesto de massas pacífico na Albânia manda à arrogância ocidental a mensagem de que o povo albanês não é um “povo incivilizado dos Balcãs sub-desenvolvidos”. A mobilização em massa, que não desarma, articula um discurso político claro e independente, muito diferente de todos os protestos políticos desde 1992, dominados pelos partidos políticos ligados ao poder e caracterizados pela violência. É a primeira vez que assistimos a protestos do povo, para o povo.

Têm diariamente a palavra pessoas da diáspora albanesa na Alemanha, na Áustria, em vários países da UE, na Grã-Bretanha e nos EUA, assim como intelectuais, médicos e activistas locais, ao passo que se nega a tribuna aos partidos políticos, mesmo aos de oposição que apoiam os protestos.

Não é só a palavra de ordem central de “Rama para a prisão, Berisha para a prisão” — estes, os principais representantes da era pós-Hoxha, de quem se esperava que enfiassem a Albânia numa “arquitectura social de tipo ocidental” e a integrassem na União Europeia. Este ilusório “contrato social” entre o sistema político e a sociedade rompeu-se.

Emerge uma nova visão, de uma nova sociedade emancipada, de um país liberto da dependência imperialista e da classe dominante compradora e corrupta, manifestada em palavras de ordem como “A Albânia pertence aos Albaneses”, “Nova Albânia” e “traidores, todos para a prisão”. Seria errado equiparar estas palavras de ordem políticas a um nacionalismo albanês; o objectivo é, pelo contrário, a emancipação social, a erradicação da corrupção, a meritocracia e saúde e ensino públicos e gratuitos. Os emigrantes albaneses no Ocidente fazem as mesmas ou mesmo mais radicais reivindicações, mais dos que as que são hoje avançadas nos países capitalistas ocidentais: reivindicações de justiça social e de igualdade na distribuição da riqueza social.

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A perspectiva para esta “Nova Albânia” pode ainda não ser clara, mas muitas faixas que se fazem eco de faixas semelhantes das jovens gerações da Ásia e do Sul Global manifestam o carácter internacional da “Revolução dos Flamingos” albanesa e da sua luta pela emancipação universal, pela justiça e pela paz entre os povos. O povo albanês conseguiu, afinal, a coexistência pacífica entre pessoas de diferentes religiões. Nos protestos, vêem-se, no meio da massa, entre pessoas laicas, também raparigas muçulmanas com burcas, ao lado de freiras cristãs ortodoxas e católicas romanas.

Edi Rama traiu as expectativas populares de abertura ao mundo e de integração equitativa de que o povo estivera privado durante a era do isolacionismo estalinista. Em vez de Estado social e de “igualdade perante a lei”, o regime de Rama criou um sistema clientelista que, a cada nova vitória eleitoral, se foi tornando cada vez mais autoritário e centrado na personalidade do chefe. Criou uma elite económica à volta do seu partido, começando, através desta elite, a branquear dinheiro sujo proveniente da corrupção em concursos públicos e dos cartéis da droga. No topo da pirâmide, Edi Rama, feito corretor imobiliário albanês para o sistema financeiro internacional, para os oligarcas árabes, empresas israelitas e, recentemente, para J. Kushner, a esposa Ivanka e a família Trump. As políticas do governo visam dois objectivos: em primeiro lugar, para consumo interno e manipulação da opinião pública, fazer de conta que a Albânia se está a tornar numa “marca” internacional “em ascensão” e, por conseguinte, “a economia se está a desenvolver”; mas, principalmente, mostrar ao grande capital, à escala internacional, que ele é o único interlocutor estável para quem pretenda fazer lucros chorudos na Albânia, proporcionando todas as facilidades legais e fiscais para investimentos lucrativos de especuladores e bandidos estrangeiros.

 

Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.

 

A força do poder de Rama e de todo o sistema político chegou ao fim quando um manifestante foi arrastado pelo chão por uma empresa de segurança privada em Zvernec, aos olhos da polícia. A legitimidade que Rama constantemente invoca ruiu; o povo não vai voltar atrás. 

Assistimos à subida das massas ao palco da história, à ruptura do tal “contrato social” que tem sido propalado na Albânia nos últimos 34 anos. Por outras palavras, e palavras mais reais, o processo de restauração capitalista iniciado após a morte de Hoxha e o colapso do regime burocrático entrou num beco sem saída. A sociedade e a maioria da população sufocam debaixo da corrupção e do brutal autoritarismo de um regime burguês “comprador”, que vende o país a novos colonialistas e perde toda a legitimidade.

A palavra “revolução”, tal como escrita em albanês na maior parte das faixas, dominando as palavras de ordem cantadas nas manifestações, tem conteúdo material, concreto, para as massas populares. Significa o único meio possível para se livrar dos bandidos estrangeiros e locais e alcançar justiça social, emprego, saúde pública e gratuita, habitação, ensino, transportes, a protecção do ambiente natural e do património cultural, espaços verdes públicos e parques infantis nas cidades, desenvolvimento geral da cultura, emancipação da dominação colonial das elites imperialistas dos super-ricos, solidariedade internacional e unidade com os povos dos Balcãs, da Europa, da região e do mundo.

categoria-crónica Arraia-miúda Revolução edicao-2026-03-19 (20)

Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados

Publicamos com algum atraso este excerto da primeira parte da Crónica de D. João I (foi escrita por Fernão Lopes por volta de 1450), que narra a crise de 1383-1385, a insurreição ou insurreições populares que ocorreram tanto em Lisboa como noutros locais do país. Fernão Lopes não foca apenas os acontecimentos no seio da nobreza, destacando o papel da “arraia-miúda”, o povo, na revolução. Sendo guarda-mor da Torre do Tombo, utilizou arquivos, atas e relatos para procurar garantir a veracidade dos factos.

Desta guisa que haveis ouvido, se levantaram os povos em outros lugares, sendo grande cisma e divisão entre os grandes e os pequenos. O qual ajuntamento dos pequenos povos, que então assim se juntava, chamavam naquele tempo arraia miúda. Os grandes à primeira escarnecendo dos pequenos, chamavam-lhe povo do messias de Lisboa, que cuidavam que os havia de remir da sujeição d’el-rei de Castela. E os pequenos aos grandes, depois que cobraram coração, e se juntavam todos em um, chamavam-lhes traidores cismáticos, que tinham da parte dos castelãos, por darem o reino a cujo nom era [a quem não cabia]. E nenhum, por grande que fosse, era ousado de contradizer isto, nem falar por si nenhuma cousa, porque sabia que como falasse, morte má tinha logo prestes, sem lhe nenhum poder ser bom. Era maravilha de ver, que tanto esforço dava Deus neles, e tanta cobardia nos outros, que os castelos que os antigos reis per longos tempos jazendo sobre eles com força das armas não podiam tomar, os povos miúdos mal-armados e sem capitão, com os ventres ao sol, antes de meio-dia os filhavam por força. Entre os quais foi o castelo de Portalegre de que era alcaide dom Pedro Álvares, prior do Hospital, e de sua mão tinha voz por a Rainha, assi como os outros; que se juntaram os da vila uma quinta-feira pela manhã e começaram de o combater, e antes de meio-dia com a ajuda de Deus, foi filhado [tomado].

Era maravilha de ver, que tanto esforço dava Deus neles, e tanta cobardia nos outros, que os castelos que os antigos reis per longos tempos jazendo sobre eles com força das armas não podiam tomar, os povos miúdos mal-armados e sem capitão, com os ventres ao sol, antes de meio-dia os filhavam por força.

Semelhantemente, os da vila de Estremoz postos em grande alvoroço, cometeram ao alcaide que leixassem o castelo, e viessem para a vila, que doutra guisa nom seriam dele seguros. João Mendes disse que não o faria por cousa que fosse, ca de o fazer lhe vinha grande desonra e prasmo. Vendo eles sua reposta, determinaram de o combater, e tomaram um carro, e puseram-no na praça, e ordenaram de pôr nele as mulheres e filhos dos que dentro estavam com o alcaide, que eram todos naturais do lugar. E os de dentro quando isto viram, disseram a João Mendes que deixasse o castelo aos da vila que doutra guisa nom no entendiam d’ajudar. Vendo se ele em tal apertada, mandou dizer aos de fora que lhe enviassem pessoa segura com que falasse, e acordar-se-ia com eles. Mandaram então frei Lourenço, guardião de São Francisco, e outros com ele que fossem ao castelo. E João Mendes propôs muitas razões, a se escusar de nom ter com Castela, mas ser verdadeiro português como eles. Mas suas falas nom prestando nada, foi determinado que, todavia, deixasse o castelo e fosse entregue aos da vila que o tivessem. Outorgou o alcaide que lhe prazia, porque nom pôde mais fazer; foi entregue a um escudeiro que chamavam Martim Peres, e o alcaide foi logo fora do castelo, e depois se foi pera Moura, que tinha Álvaro Gonçalves por el-Rei de Castela. E os do concelho mandaram tirar as portas da torre e as do castelo contra a vila, e derribar o peitoril e ameias daquela parte. E daí em diante foi o castelo velado e roldado por o Mestre, e posto em poder do povo miúdo. E nom somente os homens como dito é, mas as mulheres entre si tinham bando polo Mestre, contra qualquer que da sua parte nom era. Em guisa que um dia se levantaram Mor Lourenço e Margarida Anes adela, e outras mulheres em razões contra Maria Esteves, madre de Nuno Rodrigues de Vasconcelos, dizendo que seu filho dissera mal do Mestre, e que era castelão. E elas per si o mataram, e foram-no lançar do muro afundo.


Excerto da Crónica de Dom João I, de Fernão Lopes, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2017.

Atualização da ortografia deste excerto: António Simões do Paço.

categoria-conversa com... 25 de Novembro Contrarrevolução Revolução edicao-2025-11-13 (04)

Saída dos páras: o mito do 25 de Novembro

Entrevistámos para o Maio Raquel Varela e Adriano Zilhão a propósito do lançamento do seu livro Do 25 de Novembro aos nossos dias. História da contrarrevolução (Edição Bertrand), que aborda o 25 de Novembro de 1975 com novos dados e testemunhos, bem como o processo que se lhe seguiu.

Entrevista de António Simões do Paço

António Simões do Paço (ASP): Raquel Varela, há uma certa quantidade de livros sobre o 25 de Novembro de 1975. No vosso livro afirmam que “Forças que, para os trabalhadores em revolução, eram parte da sua representação política (PS e PCP), negociaram a nova ordem saída do 25 de Novembro.” Quais são os elementos novos que o vosso livro traz e que sustentam essa afirmação?

Raquel Varela (RV): Eu podia dizer que a grande revelação deste livro é quem fez sair os páras, e certamente venderíamos muitos exemplares: revelado um segredo com 50 anos! Mas isso seria condescender com uma visão da história que não é científica, é uma batalha entre a extrema-direita e a direita e o PS e o PCP. Portanto, este livro, em primeiro lugar, oferece uma explicação para a saída dos páras que afirma categoricamente que para o desenrolar da contrarrevolução esse evento não tem a relevância que o PS e a direita lhe tentaram dar. Já desenvolverei. Voltando à pergunta, em segundo lugar, demonstramos que não só é inequívoco que “este” golpe de direita estava preparado desde o Verão de 1975, como ele tinha de parecer um golpe mais ou menos de esquerda; depois fazemos a história da contrarrevolução, da destruição das “conquistas de Abril”, que se dá, de facto, em boa parte, entre 1975 e 1989.


Adriano Zilhão (AZ): Narramos, ainda, elementos essenciais da história da contrarrevolução depois do 25 de Novembro, até ao final dos anos 80, à queda do Muro de Berlim, a longa história da tentativa de destruição das “conquistas de Abril”, em boa parte coroada de êxito e o balanço, que fazemos em forma de ensaio, sobre o que o 25 de Novembro e a queda do Muro, bem como a longa história do movimento socialista nos ajuda a compreender da crise da esquerda hoje – e como ultrapassá-la.

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ASP: Podem desenvolver a questão do golpe em si?

AZ: Aquilo a que o pronunciamento militar dos capitães em 25 de Abril de 1974, sem querer, deu origem foi a uma revolução operária, socialista clássica, uma das grandes revoluções do século XX, com a revolução russa, a revolução alemã de 1919. Uma revolução não é um golpe de estado, é uma vaga de democracia e liberdade, a partir de órgãos de poder alternativos, comissões ou conselhos (sovietes, em russo; “Räte” em alemão) de trabalhadores, de moradores, de soldados, tendendo para o derrube do Estado, que é o domínio de uma classe (que controla a cobrança de impostos, o Exército, a emissão de moeda e muito mais). Esta classe burguesa, ou seja, proprietária, mal se vê frente a uma revolução, começa a organizar a contrarrevolução. O golpe de força esteve sempre em preparação logo desde o 25 de Abril de 1974. Basta olhar para intentonas anteriores, como o 28 de Setembro de 1974 e o 11 de Março de 1975.

O alvo, desde março de 1975, era quebrar o movimento para a coordenação das comissões de trabalhadores, moradores e soldados pelo país, que era o sinal da agudização da disputa entre os dois poderes – o do Estado, enfraquecido pela revolução, e o dos trabalhadores, fortalecido. A disputa era imparável, ou ganhava um ou o outro. O “pacto” entre ambos tinha ruído a partir de fevereiro de 1975, não porque a direção do PCP assim quisesse, mas porque a revolução (o poder crescente dos trabalhadores nos locais de trabalho) tornara impossíveis governos “nacionais”, de “frente popular”, do formato “Aliança POVO-MFA (MFA-PCP-PS-PSD, este último “por favor”, não tinha poder real, dizia-se social-democrata, abria congressos jovens com fotos de Rosa Luxemburgo...).

O que se executou no 25 de Novembro foi um plano de golpe contrarrevolucionário delineado por uma parte do MFA (Grupo dos Nove e sectores à sua direita) com o apoio civil da direção do PS, da Igreja, das embaixadas das grandes potências e dos partidos da direita.

RV: O objectivo-chave era restabelecer o controle da hierarquia militar sobre os quartéis e, portanto, a eficácia do Estado para debelar o desenvolvimento dos órgãos de poder democrático dos trabalhadores, moradores e soldados: tolher a marcha da revolução socialista (que a direita, com desprezo e medo, denomina de PREC).
A democracia liberal representativa, que a Constituição aprovada em 1976 consagrou — embora consagrasse também numerosas conquistas democráticas e sociais obtidas pelos trabalhadores no processo da revolução, ainda não completamente afastadas — é fruto da derrota da democracia de base dos órgãos de poder democrático dos trabalhadores e moradores, eleitos de forma direta e com mandatos revogáveis. Em “Dualidade de Poderes”, traçamos uma breve história destes órgãos e da sua expansão ao Exército e restantes forças armadas, de forma inédita na historiografia da revolução, com fontes e dados novos importantes.


“Demonstramos, com testemunhos inéditos, que a “saída dos páras”, em que se sustenta a tese da direita de que o 25 de Novembro foi um contragolpe para derrotar um golpe “de esquerda”, foi, na realidade, um epifenómeno.”

Demonstramos, com testemunhos inéditos, que a “saída dos páras”, em que se sustenta a tese da direita de que o 25 de Novembro foi um contragolpe para derrotar um golpe “de esquerda”, foi, na realidade, um epifenómeno — a ocasião azada —, um evento, em si sem mais importância do que muitos outros que o antecederam. Ele abre, contudo, portas a um debate central, talvez o mais fulcral de todos, que não é tanto sobre como a direção do PCP atuou face à revolução – foi, de facto, o partido “moderado” no 25 de Novembro, nunca quis uma revolução socialista, contra o que é vulgar afirmar-se, queria sim um capitalismo regulado –, mas sobre a sua atitude face à chamada esquerda militar, que ajudou a decapitar. Há várias formas de contrarrevolução, a da direita, com o PS, e a da direção do PCP — contra o sentimento de grande parte da sua base, assinale-se —, que, em nome dos acordos de Ialta e Potsdam, lutou pelo respeito das “esferas de influência”, pela Constituição e por um capitalismo regulado (a “democracia avançada” do seu programa).

ASP: O vosso livro apresenta uma série de testemunhos de protagonistas, nomeadamente militares tidos como da área do PCP, em que esses testemunhos, um dos quais lhe pediu que o que lhe confidenciou só fosse revelado após a sua morte, se focam sobre quem deu a ordem de saída dos paraquedistas de Tancos. Acha que a chave do 25 de Novembro está na saída dos páras e em quem lhes deu a ordem para ocuparem as bases da Força Aérea?

RV: Não, a saída dos páras é um evento. Durante muito tempo pensei “tenho este segredo nas mãos”, mas ao investigar e escrever apercebi-me da armadilha que a narrativa oficial nos tinha montado. A “saída dos páras” é parte de uma noção positivista da história, como se um evento explicasse um processo. E porquê a saída dos páras e não antes, horas antes dos páras, a saída das barricadas armadas pela extrema-direita em Rio Maior, ou o armamento pelo PS, que vai para o Porto e suspende a Constituinte?

Em segundo lugar, testemunhos (de Luís Pessoa, António Mascarenhas Pessoa, Otelo e muitos mais) são isso, apenas isso. Há uma história pós-moderna que sobrevaloriza a memória, até diz que há “história oral” como disciplina e não como metodologia. Eu sempre resisti a essa historiografia. Não achámos central a saída dos páras só pelos testemunhos, mas pela análise do papel da direção do PCP e das posições de Álvaro Cunhal face a elas (muito distintas aliás da base do partido). A história é um casamento entre evidência e conceito, não é nem só eventos, nem só testemunhos. Cunhal rejubilou a 7 de dezembro com a decapitação da esquerda militar e foi o maior entusiasta da Constituição de 1976 (o PCP ainda o é), que consagra conquistas, mas no quadro do capitalismo e da propriedade privada, e salda o pacto da derrota – ou “empate” – da revolução. O capitalismo continua, a burguesia portuguesa tem o Estado, mas os trabalhadores têm conquistas de “Estado social” e emprego protegido. A partir do final dos anos 80, com a CEE, essas conquistas vão sendo progressivamente transformadas em Estado assistencial e precariedade, em que direitos são substituídos por subsídios ou esmolas concedidas pelo Estado.

Analisamos, com pormenor, as “três posições” de Álvaro Cunhal sobre o 25 de Novembro ao longo do tempo. A par da análise da história da política da direção do PCP na revolução, elas permitem-nos concluir que não só o PCP não resistiu ao golpe, como teve parte ativa na decapitação da “esquerda militar” e na asfixia dos órgãos de poder democrático dos trabalhadores e soldados.

AZ: Na segunda parte do livro, apresentamos um ensaio que permite compreender melhor e enquadrar o papel das direções do PS e do PCP na revolução portuguesa na história longa da degenerescência das direções históricas do movimento operário mundial: da capitulação da social-democracia à guerra, ao nacional-chauvinismo na véspera da I Guerra Mundial à destruição do partido bolchevique pela reação burocrática estalinista nos anos 30 do século XX. Terminamos com um curto excurso contrafactual: “e se?” Poderia a revolução ter vencido, ou estava ela, no contexto da guerra fria, fadada à derrota? Teria ela, variando certas circunstâncias (quais?), podido abrir uma onda revolucionária vitoriosa no país e além-fronteiras?

ASP: O vosso livro sustenta que “o PCP fez sair a esquerda militar para a decapitar”, “no contexto de um golpe de força que estava em preparação pelo MFA do Grupo dos Nove e sectores mais à direita da hierarquia militar, com o apoio do PS, da Igreja e da direita em geral”. Acham que o papel do PCP no 25 de Novembro se deveu sobretudo a essa vontade de eliminar os seus concorrentes mais à esquerda, onde a partir de certa altura se contava a “esquerda militar”, incluindo o chamado “gonçalvismo”, que para Álvaro Cunhal “se tinha transformado num fardo”, ou houve outros fatores, nomeadamente internacionais, que tiveram um peso decisivo, como a intervenção dos dirigentes da URSS, no quadro da détente entre os países capitalistas ocidentais e a URSS negociada nos acordos de Helsínquia – a Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE), assinada a 1 de agosto de 1975 por 35 países da Europa, EUA e Canadá?

RV: Ambos. Conforme se disse antes, a direção do PCP atinha-se ferreamente à ideia de que a revolução tinha de ser democrática, não socialista. O que realmente assustava o Estado e o partido da ordem não era tanto a “esquerda militar” em si, a extrema-esquerda do MFA, digamos, mas a dissolução do que restava da disciplina militar quando se começaram a fazer assembleias de quartéis e a formar comissões de soldados e marinheiros pelo país – que no livro desenvolvemos: a coordenação das comissões era muito maior do que se pensava. Começavam a entretecer-se com as comissões de trabalhadores e moradores, elementos de uma candidatura a substituir o fraco poder do Estado que se tinha conseguido arremedar depois do 25 de Abril.

AZ: Não esqueçamos que Pinheiro de Azevedo chegou a declarar o seu governo “em greve”! O que dá uma ideia da inversão progressiva da relação de poder entre as massas em movimento e o Estado. Nesse processo, era, de facto, necessário afastar a “esquerda militar” da equação, por muito confusa que fosse a sua atuação (e mesmo o “gonçalvismo”: Vasco Gonçalves teve o seu destino selado pela NATO e [os acordos de] Helsínquia).

Por outro lado, o 28 de Setembro e o 11 de Março tinham mostrado o risco, para a burguesia, de apostar todas as fichas numa “pinochetada”, como no Chile em 1973. O golpe necessário e possível era (para usar a linguagem do PCP) uma “rearrumação de forças”, correndo com os elementos incómodos, restabelecendo o poder da hierarquia nas forças armadas, mas mantendo as juras pela democracia e, pelo menos no início (até ao famoso “engavetamento”), pelo socialismo. Para tanto, era preciso domar a extrema-direita através da Igreja, reunir o acordo das grandes potências, mediado pelas sociais-democracias europeias e pela embaixada americana, e usar a garantia do Kremlin/PCP de que mandaria “bater em retirada” as suas hostes.

Note-se que a grande ambiguidade sobre se o PCP quis ou não quis, ou mesmo causou, a “saída dos páras” é, em grande parte, um falso debate. Não está em causa se, com a dita saída, o PCP pensava usá-la para “tomar o poder”. Os dilemas da direção do PCP eram outros e eram os das circunstâncias políticas do momento: se ficasse demasiado “cúmplice” do Estado e da hierarquia contra a agitação entre os soldados, contra, no caso, a insatisfação dos páras, abandonados pela hierarquia, humilhados, deixados sem pagamento, etc., arriscava-se a perder completamente o controle e o seu papel no movimento de massas. Se os páras saíssem descontrolados, a direção do PCP podia perder a mão na esquerda militar e na sua base, atraída de facto pela revolução. Se, em contrapartida, alinhasse demasiado com os movimentos dos soldados, arriscava-se a perder a utilidade para o outro lado. Essa necessidade de manter algum controle próprio sobre os acontecimentos para poder conter e canalizar os movimentos de massas, mas sem os deixar “transbordar”, explica as duas coisas: que o PCP hesitasse em tentar barrar a saída dos páras, que queriam “sair” para se explicarem aos seus camaradas de armas; que desse a ordem para controlar esta saída; e que acabasse por dar a ordem de retirar, para se desembaraçar da anárquica “esquerda militar”, embora correndo o risco, com o triunfo da hierarquia, de perder ele próprio influência na máquina do Estado.

ASP: As comemorações oficiais do 25 de Abril fizeram-se sob o mote “50 anos de liberdade e democracia”. As comemorações do 25 de Novembro pretendem celebrar “a liderança militar e política daqueles que tornaram tudo possível”: no plano militar, Ramalho Eanes e Jaime Neves. "No plano político”, PS, PSD e CDS, “liderados por Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Amaro da Costa”. Ou seja, a vitória de uma facção. O atual regime político, na vossa opinião, é sobretudo herdeiro do 25 de Abril e da revolução democrática e social que se lhe seguiu ou do 25 de Novembro?

RV: O debate sobre as comemorações do 25 de Novembro conjuga-se com a aliança de facto da AD com o Chega. O 25 de Novembro tornou-se no símbolo da necessidade que as classes dominantes sentem e da vontade que nelas se forma de eliminar tudo o que resta da “herança” do 25 de Abril, da revolução socialista incompleta. O plano da burguesia é um código laboral que, por via do banco de horas, coloca o horário de trabalho em 50 horas semanais (não pagas como trabalho extraordinário) e impede o acesso de sindicatos à maioria das empresas; explorar até à ultima gota de suor mais de 1 milhão de imigrantes, sem direito sequer ao voto, vender o território a fundos imobiliários e subsídios às petrolíferas “verdes”. O pior que podem ter é a memória do PREC, quando os trabalhadores, da forma mais democrática, assumiram os destinos do país, quando os médicos, em 1975 fizeram assembleias em hospitais para abrir urgências, autogeridas por eles e enfermeiros, quando os professores exigiram em gestão democrática um currículo exigente para todos os alunos, quando nas fábricas se impôs o fim do trabalho noturno, que devia ser exceção. Por isso apresentam o PREC como “caos”, e o tempo em que vivemos, de “estabilidade”. Veja-se como Ventura tem no programa do Chega de 2019 o fim do tempo sindical dedicado e Gouveia e Melo diz que a humilhação que fez aos seus homens, em perigo num navio, foi o “fim do PREC nas forças armadas”. Morrem de medo do PREC, representam elites, corporações, predadoras de recursos e da vida, e são mais de 9 milhões de pessoas e famílias e milhares de pequenas empresas esmagadas que aqui vivem do seu trabalho. Por isso odeiam o PREC e querem soprar velas ao 25 de Novembro.

AZ: O atual regime é, evidentemente, “herdeiro” de toda a história anterior: do 25 de Abril — em tudo o que corresponde às conquistas que os trabalhadores impuseram, inclusive as consagradas na Constituição original, e que ainda resta — se bem que cada vez seja menos; e do 25 de Novembro, no que diz respeito à ancoragem à “Europa”, à demolição progressiva dos direitos laborais, à erosão das liberdades democráticas, em particular do direito primordial à greve, etc.

ASP: No vosso livro, a palavra “democracia” surge dezenas de vezes. Mas falam de diversos tipos de democracia: democracia liberal, democracia direta, democracia de base, falam até de democracia contra a democracia. E de “contrarrevolução democrática”, termo que usam para caracterizar o processo que se seguiu ao 25 de Novembro, distinguindo-o de uma contrarrevolução como a que acontecera dois anos antes no Chile, com o golpe militar de Pinochet. Querem explicar o que entendem por esse conceito?

AZ: Bem, “democracia” refere-se à forma política de um regime, não à organização das relações sociais e de produção enquanto tal. Por isso, não há um conceito abstrato de democracia “em si”. A classe capitalista começou por exercer o seu poder organizada em “democracias censitárias”, em que o voto era proporcional à propriedade detida. A parte “democracia” era muito necessária, pois era necessário arbitrar os interesses variados e amiúde contraditórios dos diferentes sectores das classes proprietárias, concorrentes entre si. Porém, a gosto ou contragosto, foi preciso, ao longo da história e dos choques de classes, adaptar o regime político segundo as necessidades e as relações de força: vieram as democracias baseadas no sufrágio universal (arrancado por revoluções), houve regimes “bonapartistas” semiditatoriais, houve ditaduras civis, ditaduras militares, ditaduras totalitárias e corporativas-fascistas.

A democracia em regime capitalista é sempre instável. Exige do capital muita atenção ao que se passa “lá em baixo”, exige alianças, por vezes incómodas, com as forças internas ao movimento operário (as suas burocracias sindicais e políticas) que estão pouco interessadas em revoluções e no derrube do poder do capital por terem encontrado uma posição de mediação entre as classes que é satisfatória para elas. Tal democracia implica, portanto, amiúde, concessões, negociações constantes. Sai caro, mesmo no sentido literal, pois é preciso pagar a aquiescência de muita gente e de muitas forças às políticas que se querem promover.

RV: Só que a ditadura pode ser ainda mais “problemática”, como o próprio 25 de Abril demonstrou. A elite perde a noção do que se passa “lá em baixo”; o aparelho de repressão é muito dispendioso; e, sobretudo, quando a ditadura entra em declínio e cai, as consequências podem ser catastróficas para as classes possidentes. Marcelo Rebelo de Sousa olha com desconfiança para a candidatura de Gouveia e Melo e detesta Ventura, aceita ambos contrariado, mesmo sendo um conservador da democracia cristã porque viveu o PREC – sabe que nenhum regime subsiste com ditadura, foi o isolamento rural, a Igreja e as colónias que permitiram 48 anos de ditadura, agora o que há é “luta de classes”; podem tentar impor uma ditadura, paz nunca terão. Marcelo sabe que a burguesia, para se manter no poder, precisa de fazer concessões, mas Ventura e Gouveia e Melo sabem que a burguesia portuguesa hoje não consegue sobreviver na concorrência do mercado mundial sem salários miseráveis e que isso leva a greves, por isso, querem mão dura. Esta contradição terminará, claro, numa revolução, e de escala europeia. A questão da revolução é de hoje, não é se ela virá, é de que lado estaremos nós e como estaremos preparados politicamente, com partidos, para ela.

AZ: O que aconteceu a seguir à revolução russa também ensinou que, uma vez derrubado o capitalismo, ficando, por hipótese, a revolução isolada num país só, ainda por cima atrasado, um modo de organização social e económico baseado na socialização dos meios de produção, na propriedade coletiva, também pode “suportar” regimes políticos diferentes. A contrarrevolução política que, na segunda metade dos anos 20 e nos anos 30, dizimou, na URSS, as gerações revolucionárias do Outubro de 1917 criou um regime de ditadura bonapartista, o estalinismo, com muitas semelhanças, no plano político, cultural, etc., com as ditaduras totalitárias capitalistas da época, como os fascismos, apesar de não ter levado imediatamente à restauração da propriedade capitalista. Isso acabou por acontecer, sim, mas só sessenta anos mais tarde.

RV: Uma nota: a democracia liberal – direito ao voto, de reunião e associação – não foi uma conquista dos liberais, mas do movimento operário, aqui e em todo o lado. A “democracia” liberal era censitária, ou monarquias constitucionais, mesmo o direito ao voto só se expande na Europa depois da revolução russa. É um mito isso – o neoliberalismo e a austeridade são irmãos gémeos do fascismo, nos anos 30, é aí que as suas teorias se criam: somos seres imperfeitos para o mercado, ele deve ser imposto a bem ou a mal, é isso que liberais (mais ou menos conservadores nos valores) defendem. Houve um grupo liberal em Portugal fiel ao liberalismo, que antes de 1850 já era irrelevante. A direita quer celebrar o 25 de Novembro, não porque ele restaurou a democracia – interrompeu-a, para no seu lugar colocar a representação de profissionais políticos e um Estado de facto blindado –, mas porque morre de medo da democracia como soberania popular.

ASP: Bom, já confirmamos que afirmam que o 25 de Novembro é um dos pontos nevrálgicos de um processo contrarrevolucionário, não um evento pontual, e que esse processo teve várias etapas, desde “a crise revolucionária aberta de Fevereiro a 25 de Novembro de 1975; daqui até ao fim do “pacto social”, em 1986, com a adesão à concertação social e à Comunidade Europeia; o “neoliberalismo” e a degradação do Estado Social universal em Estado assistencial, entre 1986 e 2008; e o colapso dos partidos da esquerda parlamentar, revendo-se o seu papel desde a queda da URSS, em 1991, até aos dias de hoje”. A adesão às Comunidades Europeias, liderada pelo PS de Mário Soares, foi a moeda de troca para a contenção da revolução por parte das direções dos partidos de esquerda, PS e também o PCP?

AZ: A adesão à CEE não foi propriamente uma “moeda de troca” para a contenção da revolução, mas foi uma peça fundamental da consolidação do processo de contrarrevolução, aliás na Península Ibérica. Por exemplo, o fim da “irreversibilidade” constitucional das nacionalizações era uma exigência absoluta para a “integração europeia”, estando a CEE baseada na livre circulação de mercadorias e capitais e na “concorrência não distorcida”.

A demolição do Estado salazarista pela revolução fora radical. A reconstrução do Estado e da própria grande burguesia como classe, em boa parte fugida e/ou expropriada tanto pela revolução anticolonial como pela revolução portuguesa, já só era possível com uma nova âncora externa. Essa âncora, até pelo monumental enfraquecimento da âncora histórica tradicional — o imperialismo britânico, entretanto, ele próprio membro da CEE — só podia ser dada pelas potências europeias dominantes, ainda que “dominantes dominadas” por Washington, não esqueçamos que a “unificação europeia” é uma criação americana para alicerçar a sua ordem mundial do pós-guerra, como hoje é bem visível quando Trump decide levantar a voz aos “parceiros” europeus.

Quem, em termos práticos, dirigiu a contrarrevolução em Portugal foram, portanto, os partidos em quem a maioria dos trabalhadores confiava, PS e PCP, não os partidos da burguesia, que só aos poucos foram ganhando força política, em grande parte à sombra das políticas daqueles. Quando Soares meteu o socialismo na gaveta e tirou a CEE da despensa, apregoando que esta valia aquele, foi nisso ajudado e “certificado” pelos grandes partidos sociais-democratas europeus. Apoiava-se, também, no pacto com o PCP, que em caso algum desobedeceria ao Kremlin e à sua política de coexistência pacífica só para fazer vontade à sua base operária. Expressão disso era a política de revolução democrática (ou seja, não socialista) e de construção de uma “democracia avançada” (grosso modo, o regime que hoje há; daí a perceção de “conservadorismo” do PCP em relação ao regime).

Foram governos do PS e do Bloco Central que, nomeadamente através das revisões da Constituição e de pactos para cessar processos movidos no estrangeiro ao Estado português pelos grandes expropriados, negociaram o regresso do exílio de alguns grandes capitalistas portugueses, como Champalimaud e Espírito Santo, para “ajudarem” na privatização da economia exigida pela adesão à CEE.

Os dirigentes do PS tiveram, no entanto, de vender o “projeto europeu” como empresa de “paz e democracia” (Portugal ia ser a Escandinávia do Sul, a “Europa connosco”) e mesmo do culminar da promessa da revolução de Abril — apesar de ser exatamente o contrário: foi produto direto da II Guerra Mundial, e a UE faz hoje as guerras que a América manda; e nem os mais temerários defensores da “Europa” ousam dizer que o seu funcionamento é democrático!

Foi a inflexão da relação de forças iniciada a 25 de novembro de 1975 que tornou possível estes processos.

ASP: Na situação em que se dá o 25 de Novembro de 1975 havia de facto o perigo de uma guerra civil? No vosso livro afirmam que “o golpe, dirigido militarmente pelo Grupo dos Nove e civilmente pelo PS e pela Igreja, estava em marcha desde Julho de 1975, pelo menos”. Quem é que estava preparado para pagar o preço de uma guerra civil: a esquerda militar, os “gonçalvistas”, Otelo e o COPCON e a chamada extrema-esquerda, ou o Grupo dos Nove, o PS e a direita política e militar e os seus apoios internacionais?

RV: A resposta demo-la, os dois, no livro, assim, cito: “E se?” Os historiadores dividem-se sobre o que ficou conhecido como “debate contrafactual”, pensar contra os factos. Ou seja, se devemos ou não, na escrita da história, perguntar o que teria podido acontecer e não só o que realmente aconteceu. A maioria é perentória: conjeturas são para ensaios filosóficos e o pensamento político, não para a história.

A questão fundamental é que pensar contra os factos abre-nos um campo de possibilidades que é a essência da própria história. Que nos forma para compreender que não há destino nem fado. Não há pré-orientação para um inevitável fim, apesar de os diferentes atores sociais e políticos terem os seus “planos”. A ação dos homens é, em si, histórica, é a história; o tempo é fatalmente humano.

Narramos o que aconteceu, mas sem poder deixar de pensar no que podia ter acontecido, sob pena de a história se tornar numa teleologia, numa seta dirigida de um início para um fim conhecido à partida: autojustificação das ações dos homens no tempo, e não, como deve ser, como passado que nos provoca incómodos, dúvidas, perguntas, umas oportunas, outras, autênticos embaraços.

Como esta: e se, em 1975, os trabalhadores tivessem tomado o poder e construído uma sociedade socialista baseada na propriedade coletiva e na liberdade? Teria havido guerra civil? E “banho de sangue”? Porquê? Porque a burguesia portuguesa iria ter o apoio do Exército e do armamento norte-americano e inglês e da CEE? E que aconteceria, nessas condições, no PS, na sua direção e na sua base? Como reagiria o Grupo dos Nove, se a iniciativa passasse para o terrorismo de extrema-direita e para os putativos chefes da guerra civil que estavam à espreita? Ficariam do lado dos exércitos estrangeiros e da contrarrevolução fascizante, agora na forma aberta de guerra civil, lado a lado militarmente com a extrema-direita apoiada por Madrid, ou dividir-se-iam, uma parte neutralizada, outra parte, até, do lado da revolução?

E a Espanha? Que efeito teria na Península Ibérica no seu todo o início de uma guerra civil em Portugal, quando todos os esforços norte-americanos eram para evitar o que Ford designava de “Mediterrâneo vermelho”, mas o desaparecimento de Franco anunciava a explosão social e política?

E Itália e França? Onde o desenho da política do programa comum e do compromisso histórico faziam de prolegómenos do período neoliberal, embora acautelando os direitos da geração que estivera à frente dos sindicatos no pós-guerra, dominada por socialistas e comunistas, que assim praticamente aceitavam, em troca, a precariedade para os filhos e a transferência de grande parte da produção industrial pesada e de montagem para a Ásia ou para onde os americanos mandassem? Que configuração alternativa teria tido o fim do “pacto social” na Europa, com uma guerra civil entre revolução e contrarrevolução em Portugal, quiçá em toda a Ibéria?

Que faria a URSS? Mandaria tropas? Contra quem? Não se absteria antes, como sempre fez na “esfera do Ocidente” desde que ligara o seu destino à coexistência pacífica com o imperialismo?

A perspetiva ou o risco de guerra civil estava, na segunda metade de 1975, presente em todas as cabeças e foi determinante nas ações de muitos ou mesmo de todos. Isso é mais importante para a compreensão dos acontecimentos do que uma “avaliação objetiva” de se havia ou não perigo de guerra civil.

Se, logo a seguir ao 25 de Novembro, a vitória da contrarrevolução tivesse sido “mais musculada”, se, dominando o Grupos dos Nove a Força Aérea, esta tivesse bombardeado a “Comuna de Lisboa”, alguém pode saber o que teria acontecido? Não se dividiria a própria força aérea, apoiando uma parte a revolução? Que faria o PCP, fiel a Ialta, perante uma guerra civil? Não se dividiria ainda mais a sua base e mesmo os seus funcionários, passando parte importante para o lado da revolução?

Guerra civil e revolução são, na história das revoluções, quase sinónimos. As classes trabalhadoras nunca conseguiram assegurar o controlo democrático da produção e do Estado sem que a burguesia pegasse em armas para defender ou recuperar o seu controlo do Estado e da propriedade dos grandes meios de produção (desde logo, banca, seguros, grandes fábricas, energia, comunicações, transportes).

Em suma: as perguntas são importantes, não pelas respostas especulativas que se possam dar, mas, sobretudo, para compreendermos melhor o contexto social, político e “mental” em que os atores tomaram as suas pequenas e grandes decisões, naquele período único que antecedeu e sucedeu ao 25 de Novembro de 1975.

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