Espanha

Reflexões sobre a revolução de 1936¹
categoria-história edicao-2026-10-22 (46) Espanha Guerra civil Revolução 1936

Reflexões sobre a revolução de 1936¹

1.ª parte Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica

Andy Durgan
categoria-história edicao-2026-10-22 (46) Espanha Guerra civil Revolução 1936

Reflexões sobre a revolução de 1936¹

1.ª parte

Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica da Espanha dos anos 30.

Reflexiones sobre la revolución de 1936

O fracasso democrático

A polarização social, económica e política em Espanha nos anos que antecederam a guerra civil e a consequente falência da democracia burguesa determinaram o início quer do conflito armado, quer da revolução2. A vitória eleitoral da Frente Popular em fevereiro de 1936, em vez de inaugurar uma nova era de reformas sociais, revelou a incapacidade da democracia republicana para derrotar as classes dominantes, determinadas a evitar qualquer desafio ao seu poder. O triunfo da Frente Popular desencadeou uma nova onda de mobilizações das massas trabalhadoras, tanto urbanas como rurais, que o governo republicano, tal como em 1931, tentou reprimir. Por sua vez, a direita abandonou qualquer esperança de destruir a democracia republicana a partir de dentro e optou por um golpe militar.

O futuro da própria República dependia não só dos seus inimigos de direita, mas também do movimento operário. No caso dos socialistas, a fação “revolucionária”, liderada por Largo Caballero, recusou repetir a experiência de 1931-1933 e impôs que o PSOE não participasse no novo governo, deixando aos republicanos a tarefa de “terminar a revolução burguesa”. Esta visão esquemática do marxismo significou que Largo Caballero e os seus seguidores careciam de uma estratégia para tomar o poder e permaneceram passivamente à espera de que os republicanos preparassem o caminho para um governo socialista. Em contrapartida, a fação mais social-democrata de Indalecio Prieto, apoiada pelo PCE, defendeu a necessidade de regressar a um governo de coligação para completar o programa reformista republicano. Seria esta última posição a ser adotada pelo movimento socialista em plena guerra civil. A esquerda do PSOE, com a perda de parte da sua base paro estalinismo – especialmente a Juventude Socialista (FJS) que se unificaria com a União das Juventudes Comunistas para fundar as Juventudes Socialistas Unificadas (JSU) –, foi ultrapassada pelos acontecimentos e acabou por aceitar a mesma posição dos seus rivais sociais-democratas.

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Em vésperas da guerra civil, a CNT continuava a ter uma grande influência no movimento operário catalão – o mais importante da península – e uma presença muito importante na Andaluzia, em Aragão e no País Valenciano. Além disso, nas Astúrias e em Madrid, onde historicamente os socialistas eram a maioria no movimento operário, a CNT tinha uma força não negligenciável3.

Os militantes e dirigentes dos sindicatos dividiam-se entre anarcossindicalistas e vários sectores mais puramente anarquistas, sendo o mais importante a Federação Anarquista Ibérica (FAI). Todas estas tendências partilhavam um apolitismo comum. Contudo, enfraquecida pela repressão e ideologicamente dividida, durante os primeiros meses de 1936, a CNT adotou uma postura menos intransigente nas suas relações com a esquerda política, o que pode ser visto como um prelúdio para a sua participação direta no governo durante a guerra.

Nas eleições de fevereiro de 1936, para conseguir a liberdade dos seus milhares de militantes presos, a CNT não promoveu uma campanha de abstenção, como tinha feito em 1933, e a sua “liberdade de voto” foi um fator que contribuiu para a vitória da Frente Popular. Em maio de 1936, a CNT realizou o seu IV Congresso em Saragoça, que constituiu um marco na história da CNT, tanto a nível ideológico como pelo seu aparente apelo à unidade dos trabalhadores. Impressionados com a repressão da comuna asturiana de outubro de 1934, os delegados defenderam uma aliança revolucionária com a UGT como primeiro passo para a revolução social. Mas o congresso mostrou também as limitações da abertura política da CNT. Embora tenha havido um longo e abstrato debate sobre a natureza do comunismo libertário, não houve debate sobre a situação do momento ou a ameaça de um golpe militar.

O recém-formado POUM defendia também a unidade operária, mas através da reorganização das Alianças Operárias que desempenharam um papel fundamental no movimento revolucionário de 1934. O POUM opôs a Aliança Operária, como elemento essencial para superar o capitalismo, à Frente Popular, uma aliança política subordinada ao republicanismo pequeno-burguês. Ao mesmo tempo insistiu na necessidade de um grande partido revolucionário, fator ausente que condenou o movimento de 1934 ao fracasso. O novo partido esperava atrair para as suas fileiras os sectores mais radicais dos socialistas, especialmente a juventude. A queda da Federação da Juventude Socialista sob a influência estalinista na Primavera de 1936 foi um golpe mortal nesta esperança.

Em poucos dias, como diria Andreu Nin, a classe trabalhadora, de armas nas mãos, tinha resolvido “os problemas fundamentais” – o problema agrário, o da Igreja, o do Exército e o da Catalunha – que “a burguesia liberal” não tinha resolvido em cinco anos.

Revolução

A revolução que eclodiu em resposta à sublevação militar de julho de 1936 representou o fim do ciclo revolucionário que tinha começado com o triunfo bolchevique em 1917. Em poucos dias, como diria Andreu Nin, a classe trabalhadora, de armas nas mãos, tinha resolvido “os problemas fundamentais” – o problema agrário, o da Igreja, o do Exército e o da Catalunha – que “a burguesia liberal” não tinha resolvido em cinco anos. A classe operária não lutava por uma república democrática, mas pela revolução socialista4.

A pedra angular desta revolução foi a coletivização da indústria e da terra: uma experiência de autogestão popular única na história do movimento operário. Em muitos casos, a tomado do controlo de empresas ou de terras foi um processo espontâneo, com o subsequente apoio das organizações operárias5. A coletivização nas cidades foi mais longe na Catalunha, onde, sob a tutela da CNT, se concentrava metade da indústria do Estado espanhol da época. No País Valenciano, a coletivização foi também extensa, sobretudo na agricultura. Para além dos valencianos, os coletivos agrícolas mais conhecidos foram os organizados pelos anarquistas no Leste de Aragão. E embora a presença das milícias da CNT na área tenha sido importante para o seu desenvolvimento, a iniciativa foi muitas vezes local, especialmente nas localidades onde o estabelecimento do comunismo libertário tinha sido declarado durante a insurreição anarquista de dezembro de 1933. A coletivização dos campos também se espalhou por Andaluzia e Castela.

A revolução significou também uma ampla ocupação do espaço urbano, com a ocupação de edifícios e a sua conversão em sedes de organizações antifascistas, escolas, hospitais e restaurantes populares. Além disso, para muitas mulheres, a revolução e a guerra significaram “uma rutura” do seu “confinamento tradicional (…) em casa e deram-lhes, pela primeira vez, visibilidade pública colectiva6.” Entraram na atividade política pela primeira vez, juntando-se em massa a organizações de mulheres antifascistas, trabalhando em fábricas e, numa minoria de casos, participando na luta armada.

No centro de toda a resistência ao golpe militar estavam as organizações dos trabalhadores, e não apenas onde a revolução social tinha mais força. Os sindicatos e os partidos operários organizaram milícias para combater os rebeldes em tudo o que constituiu a zona republicana. No verão de 1936, havia cerca de 150 mil milicianos a combater nas diversas frentes. Para além dos centros revolucionários da Catalunha e do País Valenciano, noutras áreas os sindicatos intervieram na indústria estabelecendo diferentes formas de controlo operário.

(continua)



Referências

  • Bernecker, Walther (1982) Colectividades y revolución social. El anarquismo en la guerra civil española. 1936-1939. Barcelona: Crítica.
  • Casanova, Julián (2010) De la calle al frente. El anarcosindicalismo en España. Barcelona: Crítica.
  • Durgan, Andy (1992) “The 1933 elections in Spain and the Defeat of the Left”, Journal of the Association of Contemporary Iberian Studies, vol. 5, n º 2. Londres.
  • (2021) “90 aniversario de la II República. Razones de un fracaso”, viento sur, 175: 99–108.
  • (2025) El POUM. República, revolución y contrarrevolución. Barcelona: Sylone-viento sur.
  • Ealham, Chris (2026) La lucha por Barcelona. Clase, cultura y conflicto 1898-1937. Madrid: Ediciones La Tormenta.
  • Maurín, Joaquin (2023) Hacia la segunda revolución. Toledo: El Perro Malo.
  • Nash, Mary (2006) Rojas. Las mujeres republicanas en la guerra civil. Madrid: Taurus.
  • Peirats, José (1989) La CNT en la revolución española.  Madrid: Hamelyn.


1 Publicado originalmente em viento sur, n.º 201, 11 de julho de 2026. Tradução de António Simões do Paço.

2 Sobre o “fracasso” da República ver: Maurin (2023) e Durgan (2021).

3 Entre a extensa bibliografia sobre o anarquismo antes e durante a guerra civil podem consultar-se: Peirats (1989), Casanova (2010) e Ealham (2026).

4 Durgan (2025) pp. 88-89.

5 A história mais completa do processo de coletivização continua a ser: Bernecker (1982).

6 Nash (2006) p. 92.

Reflexões sobre a revolução de 1936¹
Reflexões sobre a revolução de 1936¹
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Reflexões sobre a revolução de 1936¹

1.ª parte Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica

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