Num texto com perto de duas décadas, o investigador académico francês em jornalismo Alain Accardo explicou as estruturas de condicionamento da chamada “opinião pública”...
Num texto com perto de duas décadas, o investigador académico francês em jornalismo Alain Accardo explicou as estruturas de condicionamento da chamada “opinião pública”, a partir do condicionamento dos próprios condicionadores, nomeadamente os jornalistas.
ilustração: Pedro Páscoa
Escrevia Accardo que “o observador do sistema mediático deve partir do princípio de que, na sua grande maioria, os jornalistas não estão maquiavelicamente apostados em manipular o público para maior proveito dos acionistas das empresas de imprensa em particular e dos investidores capitalistas em geral. Se agem como ‘condicionadores’ daqueles a quem se dirigem, não será tanto por vontade expressa de os condicionar, quanto pelo facto de serem eles próprios condicionados, e a um grau de que a maioria nem sequer suspeita. Fazendo (ou não fazendo) cada um deles espontaneamente aquilo que deseja fazer, concordam espontaneamente uns com os outros. Inspirados no poeta Robert Desnos, poderíamos dizer que os jornalistas obedecem à lógica do pelicano: “O pelicano põe um ovo branquinho. De onde sai, inevitavelmente, outro que faz o mesmo.”
Já data, aliás, de há quase setenta anos um outro texto seminal sobre como é ilusória a aparência de que são os jornalistas quem faz jornalismo, porque a realidade é a inversa, é o jornalismo que faz os jornalistas. Segundo o seu autor, o antigo jornalista norte-americano e posteriormente investigador Warren Breed, a “socialização” dos neófitos pela redação produz-se “por osmose”, com os jovens repórteres a aprenderem as técnicas do ofício e as regras da arte a partir da leitura quotidiana do próprio jornal, através do enquadramento dos seus colegas seniores e, por fim, da linha editorial que é aplicada de modo sempre oblíquo, não explícito, por parte das chefias. O mecanismo fundamental, como observava Breed no seu estudo sobre o controlo social na redação, como lhe chamou, era o da punição-recompensa, segundo o grau de afastamento ou aproximação aos requisitos do “jornal”.
Para além de tudo o que se modificou no plano tecnológico e das alterações no campo dos media em mais de meio século, no plano mais profundo, o processo permanece inteiramente válido no presente, segundo ex-jornalistas que optaram por sair para abraçar carreiras académicas nas universidades.
Luís Miguel Loureiro, hoje docente e investigador na Universidade do Minho, corrobora este ponto de vista. Para este antigo jornalista da RTP, onde trabalhou quase três décadas: “Chegado ao ecossistema, o novo jornalista é rapidamente absorvido, passando a trabalhar, normalmente sem o notar, de acordo com uma normatividade implícita, não dita, pela qual se regem as relações de trabalho estabelecidas a partir de uma organização profundamente hierarquizada, como qualquer estrutura produtiva industrial. Ou então, nota, quando essa normatividade se abate violentamente sobre a sua capacidade individual de questionamento do mundo, reduzindo o espectro possível de criatividade.”
ilustração: Robson Villaba
Disciplinar as mentes
Aquilo a que este antigo repórter televisivo, que iniciou a sua carreira na Rádio (Nova e Comercial) chama a redução do espetro criativo, corresponde ao que o autor Jeff Schmidt, na sua obra Disciplined Minds sobre os profissionais assalariados, considerou a política do apoliticismo. Schmidt não se referia só, mas também, ao jornalismo para dizer como, em diferentes profissões, usualmente associadas ao trabalho intelectual, dos juristas aos profissionais de saúde, passando pelos jornalistas, claro, a “recusa dos profissionais em questionar a política incorporada no seu trabalho serve os interesses daqueles que detêm poder na sociedade e contribui para a manutenção do statu quo social e económico”.
No entanto, observa perspicazmente Schmidt, “abster-se de questionar não parece um ato político, e por isso, os profissionais mantêm a aparência de neutralidade política no exercício das suas funções”. Na realidade, o que isto significa é que o “‘julgamento profissional’ ou a ‘opinião especializada’ do trabalhador intelectual não é objetiva, como se proclama, mas tende a favorecer os interesses do seu empregador. (Apoiar o empregador e apoiar o sistema em sentido lato não são exatamente a mesma coisa, mas, sendo este essencialmente um sistema corporativo, uma coisa reforça a outra)”, aclara o autor.
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Para Luís Miguel Loureiro, desde o período do seu ingresso na profissão, há três décadas, foi notória “uma cada vez maior rarefação da indisciplina sã do questionamento”. Para isso, diagnostica, “contribuíram decisivamente as condições cada vez mais precárias do trabalho dos jornalistas, não apenas da precarização das relações socioeconómicas do trabalho, cada vez mais individualizadas, mas de todas as condições objetivas para a produção noticiosa: do abocanhamento das redações, cada vez mais pequenas, pelos agentes e estruturas, crescente e assimetricamente poderosos, da comunicação estratégica e propagandística profissionalizada, ao desgaste, quando não esgotamento e total captura dos dispositivos democráticos de representação coletiva dos jornalistas”.
A fuelização do medo
Alexandra Figueira, outra jornalista que trocou, há quatro anos, a carreira nas redações jornalísticas pela academia, reforça a importância destes mecanismos de “captura”, como os designa Luís Loureiro. Por comparação com os anos 1990, quando ingressou na profissão, Alexandra Figueira constata que no Jornal de Notícias, onde desenvolveu grande parte da sua carreia jornalística “a redação, que já não era muito contestatária, tornou-se progressivamente mais amorfa. O Conselho de Redação raras vezes auscultava a redação e deixava passar largas semanas entre cada reunião com a direção e o comunicado com o que lá foi discutido. As datas e a ordem de trabalhos das reuniões não eram divulgadas previamente”.
“Costumo dizer que sobrevivi a três despedimentos coletivos. Não sei o que aconteceria no quarto. Saí do jornalismo antes disso”, diz a antiga jornalista do JN e Diário Económico, hoje professora na Universidade Lusófona. “Num desses despedimentos coletivos, recordo-me de ter passado uma manhã a olhar para o telemóvel, à espera que tocasse. Corria a informação de que os recursos humanos estavam a telefonar a alguns de nós para comunicar o despedimento. Qualquer um podia ser abrangido, naturalmente, inclusive eu.”
Esta era a nova realidade para os jornalistas, que em finais da década de 1980 e princípio da seguinte tinham vivido o que poderia considerar-se à escala nacional um boom do sector, com contratações salarialmente mais compensadoras e surgimentos de novos títulos, haviam assistido e vivido ao processo de aburguesamento das redações dos media e da formação de uma elite organizada que passou rapidamente a funcionar primeiro em formação espontânea e, progressivamente, por cooptação, em função de amizades pessoais e/ou, sobretudo, de solidariedades políticas.
“A maior exceção”, recorda a exredatora do Económico e do JN, “resultou num grande momento de união a que já só assisti como espectadora”, em 2023, no âmbito da venda do grupo ao World Opportunity Fund e do despedimento coletivo anunciado de 150 trabalhadores. “Na altura, as redações do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias, do Dinheiro Vivo e da TSF mostraram uma enorme capacidade de mobilização, lideradas pelos jornalistas mais jovens, com o apoio do Sindicato de Jornalistas. A venda de todo o Global Media Group ao World Opportunity Fund foi revertida. Em alternativa, o Jornal de Notícias e a TSF foram vendidos à Notícias Ilimitadas, de um grupo de investidores do Norte que estará ligado ao dono do Global Media Group, Marco Galinha.”
E a vida prosseguiu, com uma repetitividade que só é perturbada pelo temor pessoal de quando chegará a cada um a sua vez. O medo do despedimento por parte dos repórteres de base encontra um eco inconfessado no medo dos chefes de, a qualquer momento, poderem vir a ser demitidos. Assim, hegemonia político-empresarial converte-se numa obediência generalizada no plano profissional e numa desestruturação radical da situação laboral.
Beneficiando de um estatuto formal equiparável ao que outrora se designava por “profissões liberais” ou “profissionais independentes”, à medida que a proletarização e a precarização se instalaram, o exercício profissional do jornalismo tornou-se cada vez mais uma ocupação insegura, onde o que é verdade hoje pode já não o ser amanhã. A insegurança que percorre a generalidade da prestação laboral no país, sobretudo no setor privado, abate-se também sobre as estruturas jornalísticas, sendo que, como sublinha Alexandra Figueira, “toda a imprensa portuguesa é privada, uma vez que não existe qualquer jornal de capitais públicos”.
A sensação de estar sempre em falta
“A minha sensação é de que estava sempre a trabalhar em défice”, diz Alexandra Figueira, a propósito do assoberbamento de trabalho e da intensificação da sua sobre-exploração. Com o passar dos anos, recorda a antiga redatora, “o volume de trabalho foi-se tornando avassalador. Havia cada vez menos jornalistas para responder a um número cada vez maior de solicitações. Ao usual trabalho para a edição em papel, acrescentou-se o online, com exigências muito próprias.”
Para além da crise geral de improdutividade do capital, num país com baixos índices de consumo de imprensa e altos indicadores de concentração publicitária nas televisões e, progressivamente, no digital, foi-se adensando o que Luís Miguel Loureiro define como a “complexidade do ecossistema” mediático, “no qual se cruzam todo o tipo de interesses, seria inocente da minha parte afirmar que os interesses e valores mais ‘elevados’ (o interesse público e a aferição dos valores-notícia, exclusivamente, pela lente ético-metodológica da objetividade) se conseguem sobrepor aos interesses comezinhos (dos interesses das fontes aos interesses particulares dos intervenientes no processo de produção noticiosa) que permeiam o quotidiano do trabalho da redação”.
Alexandra Figueira evoca a este respeito um episódio da sua vida jornalística quando recebeu da parte de um diretor a informação de que uma notícia sua “tinha custado um contrato de publicidade de alguns milhares de euros. A notícia já tinha sido publicada há algum tempo e nunca compreendi a razão pela qual o diretor me contou essa história”. Ou seja, enquanto mecanismos de condicionamento e mesmo afirmando não querer “medir a intenção do diretor” referido, o efeito, concluiu a ex-jornalista, “só poderia ser um: ainda que subconsciente, a autocensura relativa a histórias negativas sobre potenciais anunciantes”.
Formação: entre a técnica e a crítica
Para quem tenha integrado as primeiras gerações de jovens sonhadores que ingressavam nas faculdades para estudar jornalismo e acederem posteriormente à profissão, após Abril, em especial quando do arranque dos primeiros cursos superiores nesta área em inícios da década de 1980, e que acompanhe hoje as gerações que optam pelos cursos de jornalismo e comunicação, os efeitos derrisórios desta “agonia do jornalismo”, como muitos lhe chamam, é notória a abissal diferença de expectativas e a devastadora amputação do sonho.
Outrora movidos pela razão social de promover a justiça, defender a verdade, vigiar os poderes e exercer a liberdade de defender a democracia, opõem-se hoje perspetivas de alcançar se não a fama individual plasmada na figura do “pivô” de televisão, pelo menos a tentativa de conseguir chegar a trabalhar num jornal, numa estação de rádio ou de televisão em condições de sobrevivência mínimas.
A regra de ouro, imperativo absoluto, de atomização individual, de rejeição de qualquer tipo de ação coletiva organizada ou espontânea dentro das redações que possa meter “um pauzinho na engrenagem”, impera e coloniza os próprios imaginários da profissão. Só muito recentemente, um estudo da Universidade da Beira Interior conduzido entre profissionais do jornalismo em Portugal consegue captar uma perceção que, em termos explícitos, nunca havia sido ventilada, quando praticamente metade dos inquiridos se consideravam a si mesmos e aos jornalistas em geral como fatores de propagação de desinformação.
Até aqui, em Portugal como noutras geografias, os jornalistas atribuíam os fatores de pressão e controlo do seu trabalho quase em exclusivo ao que, na gíria profissional, é conhecido como “rotinas e constrangimentos” operacionais, falta de espaço, de tempo, pressão para publicar mais cedo que “a concorrência”, etc. Esse estudo parece sugerir, pela primeira vez, um eventual ganho de consciência sobre a realidade da profissão e a captura hegemónica das suas empresas, órgãos e títulos pela economia política predominante do grande capital.
Em que medida pode isso vir a tornar-se uma consciência crítica e contestatária ou simplesmente em mais um saber dócil e de docilização, com toda a carga de cinismo para o futuro imediato e de médio prazo da profissão entre nós, é difícil predizer. Para Alexandra Figueira, hoje na sua ocupação académica, a opção “tem sido privilegiar o conhecimento da realidade, dos efeitos dos media, das teorias do jornalismo, a capacidade crítica sobre a profissão, a sociedade, a política”. Para Luís Miguel Loureiro, de resto, a questão é idêntica, a consciência da “inadequação total que sei existir entre a ferramentação crítica que tento incutir nos meus estudantes e o ambiente de controlo que sei que irão, fatalmente, encontrar nas redações”.
Profissão para cínicos?
Suscitará poucas dúvidas a afirmação de que o jornalismo e as indústrias da consciência em geral – a que não escapa o sistema de ensino – estarão no epicentro do contraste entre a conceção clássica da política como modalidade superior de organização da vida dos coletivos humanos e a sua versão moderna de luta pela conquista e manutenção no poder de oligarquias organizadas em torno dos fluxos de capital.
Se, ao longo de toda a história do jornalismo industrial e, hoje, digital também, não faltam exemplos de integridade, valentia, militância pela difusão do real com verdade e não apenas como verosimilhança – que é o que hoje sucede –, se não faltam nomes como os de Seymour Hearsh, Robert Fisk, Julian Assange, Ryszard Kapuściński, ou os jovens Woodward e Bernstein e tantos outros, a sua realidade reside na condição de exceções que todos eles representaram e não poucos atraiçoaram.
Para os media corporativos a grande e única verdade é a do mundo dos negócios e dos interesses que se conjuram no seu seio, ao qual pertencem, aliás, os grandes grupos mediáticos, quer à escala local, quer global, a qual um antigo diretor da televisão norte-americana CBS resumiu numa frase simples acerca das opções editoriais e profissionais em jornalismo: “a merda dá dinheiro”. O resto é lirismo e filosofia.
Também na academia se conhece bem o problema, como se deduz das palavras de Alexandra Figueira: “O saber técnico – construir uma pirâmide invertida ou uma técnica de reportagem – é muito relevante, mas é relativamente fácil de transmitir. O mais difícil é dar aos jovens capacidade para questionar por que razão se faz uma pergunta e não outra, se escolhe um determinado aspeto da realidade para título, se ouve a pessoa A em vez da pessoa B. Privilegiar a execução técnica tem como efeito diminuir o espírito crítico dos estudantes. Enviar para as redações meros executantes técnicos é precisamente do que o jornalismo não necessita”. E grande parte dos cursos de formação foi cedendo à opção mais fácil e também a mais ilusória, a de que o jornalismo é um problema técnico, que encontra na técnica a gama das suas soluções, permitindo uma via de fuga para o problema político central que Charles Wright Mills, sociólogo norte-americano, deixou formulado desde os anos 1950: “entre a consciência e a existência fica a comunicação, que influencia a consciência que os homens têm da sua existência”.
Para Luís Miguel Loureiro, de resto, o problema abate-se, de forma semelhante não apenas no jornalismo profissional, mas na academia: “Penso até”, afirma, “pelo que observo, que está em decadência o próprio professor que viva, na academia, o dilema que eu vivo diariamente. Considero, mesmo assim, que não tenho alternativa: não concebo formação de jornalistas que não se funde em modelos de questionamento integral e de indisciplina intelectual militante perante a realidade.”
Sem dúvida que tinha razão Kapuściński ao intitular um dos seus livros que “esta profissão não é para cínicos”. E no entanto, parece não existir crítica da razão cínica bastante para cumprir a consigna do insigne repórter polaco. A crítica do jornalismo e a imprescindível distinção entre jornalismo e jornalistas que lhe deve presidir constituem-se hoje como elementos centrais de uma profissão e de uma atividade social que se degrada tanto quanto mais necessária se faz a sua integridade ou, pelo menos, a consciência crítica e a luta por ela.
a população trabalhadora e jovem vive uma situação insuportável, causada pelos baixos salários, pela impossibilidade de aquisição ou arrendamento de habitação resultante do império da especulação imobiliária — na qual estão pesadamente implicados os membros do governo e deputados da direita, como revelava o jornal Público de 19 de Outubro;
a esta situação se soma a destruição do serviço nacional de saúde, do ensino público e a degradação dos transportes públicos que os governos têm promovido, retirando à população trabalhadora grande parte dos direitos colectivos que lhes permitiam sobreviver apesar dos baixos salários e promovendo a vergonhosa super-exploração dos trabalhadores imigrantes, quer no trabalho quer nas inaceitáveis condições de habitação;
enquanto isso, a inflação não pára de subir, nomeadamente a dos combustíveis e da alimentação, reduzindo drasticamente o salário real da generalidade dos trabalhadores e o rendimento e a viabilidade de pequenos agricultores, artesãos e micro e pequenas empresas;
o projecto de OE 2027 apresentado pelo governo propõe reduzir o investimento público em 31% e, em particular, o da habitação em quase 70%; cortar o orçamento da saúde em mais de 250 milhões e aumentar o da despesa militar em mais de 500 milhões; aumentar a massa salarial da função pública 2,3%, o que representa um corte brutal do poder de compra dos funcionários; aumentar de 6.700 para 8.200 milhões os pagamentos de juros da dívida pública, grande parte da qual resultante da nacionalização dos prejuízos da banca privada, Banif, BPP, Espírito Santo, etc.; “desagravar” o IRS dos salários médios e mais altos em um a três cafés por semana, concedendo ainda mais subsídios fiscais aos grandes senhorios e fundos imobiliários (“rendas moderadas”) e empresas (redução do IRC); continuar a usar o excedente da segurança social, que representa salário diferido dos trabalhadores, para compensar o défice orçamental causado pelos benefícios concedidos ao grande capital e à finança que parasita a dívida pública;
esta situação ocorre e se agrava num quadro de guerras e genocídios que alastram pelo mundo, tendo-se o governo português comprometido com a NATO/UE a aumentar a despesa militar até 5% do PIB nos próximos dez anos (passando dos actuais seis mil milhões de euros (o dobro do que era há cinco anos) para algo como 25 mil milhões de euros — ou mais), contribuindo, assim, para o alastramento das guerras;
enquanto isso, se multiplicam os desastres ambientais e as agressões às populações do interior, como no Barroso, o negócio dos campos gigantescos de painéis solares, etc.;
a situação descrita afecta toda a população trabalhadora e praticamente toda a juventude que vive, estuda e trabalha em Portugal e nos demais países da Europa e do mundo,
a juventude e a população trabalhadora, em Portugal e nos países europeus vizinhos, está a revoltar-se e mobilizar-se em massa, com toda a justiça, sendo, porém, alvo de repressão violenta dos governos e forças policiais,
os sindicalistas, trabalhadores e jovens reunidos em encontro nacional da Plataforma Unitária de Sindicatos decidem:
manifestar a sua solidariedade incondicional com as mobilizações dos jovens e trabalhadores, em, Portugal, em França, Espanha, Itália, Alemanha e no mundo contra a guerra, pelo direito à habitação, por um ensino e saúde públicos de qualidade e salários, condições de trabalho e pensões que lhes permitam viver com dignidade; e apelar aos sindicatos e centrais para que se associem, apoiem e protejam as acções da juventude trabalhadora e estudantil pelo direito à habitação;
condenar com toda a veemência a repressão que o governo português fez abater sobre os acampamentos de jovens no Porto e em Lisboa e exigir o fim de toda a repressão das mobilizações de jovens e trabalhadores no nosso país e no resto da Europa e do mundo;
exigir a obrigatoriedade de declaração e publicação de todos os fogos devolutos e sua mobilização imediata para alojar as famílias trabalhadoras; exigir a retirada imediata da proposta de novo regime do arrendamento urbano e a revogação de todas as medidas da “lei Cristas”, exigindo o imediato alojamento condigno de todas as famílias trabalhadoras e famílias pobres e vulneráveis, incluindo as imigrantes — até lá ficando proibidos os despejos e congeladas as rendas, travando a sua insuportável subida;
exigir a expropriação dos fundos imobiliários e um termo à transformação da habitação, direito constitucionalmente garantido, num negócio milionário; fixação das rendas em função do rendimento das famílias, num máximo de 30%; garantia de alojamento digno de todas as famílias e lançamento imediato de um plano nacional de habitação, para isso usando as verbas previstas para a despesa militar, os benefícios fiscais para o patronato e o pagamento dos juros ilegítimos da dívida pública;
exigir um aumento geral de salários de 15% para compensar a inflação acumulada, um aumento imediato do salário mínimo para 1.100 euros e indexação automática dos salários e pensões a um cabaz representativo das despesas das famílias trabalhadoras, controlado pelos sindicatos; semana de 35 horas sem redução de salário; fim da precariedade; contratos de trabalho para todos; transporte para e do trabalho gratuito e garantido pela empresas dos trabalhadores de empresas com efectivos superiores a 50;
exigir o financiamento adequado do SNS, da escola pública e do transporte público e reverter todas as medidas tendentes à privatização da saúde, do ensino e dos transportes;
exigir a redução da carga fiscal sobre os produtos de primeira necessidade e combustíveis, onerar os produtos de luxo e expropriar os super-lucros dos operadores energéticos;
rejeitar qualquer tentativa de subversão da segurança social, que é património dos trabalhadores, e de entrega dos seus fundos aos mercados de capitais; e rejeitar qualquer tentativa de voltar a contrabandear, agora medida a medida, o pacote laboral do governo, que foi derrotado pelas nossas greves gerais;
apelar à rejeição do projecto de orçamento para 2027 e a que as centrais sindicais, CGTP e UGT, e todas as direcções sindicais, comissões de trabalhadores e ORTs preparem a greve geral para impedir a sua aprovação na Assembleia da República;
apoiar o apelo das centrais sindicais do Estado espanhol a uma greve geral pela habitação e apelar ao apoio das centrais e direcções sindicais e ORTs portuguesas;
apelar à unidade e convergência da luta de todos os trabalhadores e jovens europeus, com os seus sindicatos e organizações, contra as medidas do capital e de Bruxelas, que a todos afectam, e contra as quais se preparam, já em Novembro, mobilizações de grande envergadura e greves gerais no Estado espanhol, França, Reino Unido, Bélgica, Itália, Alemanha e outros países.
Não aceitamos o caminho da miséria e da guerra! A mobilização fraterna da juventude e dos trabalhadores dos países europeus e de todo o mundo pode e deve pôr fim à caminhada para o abismo económico, social e ecológico.
*Estiveram representados no encontro os seguintes sindicatos: SNPVAC (aviação), SITEU (enfermeiros), S.TO.P (profissionais da educação), STCC (call centres), STGSSP (grandes superfícies), STASA (indústria automóvel), Sindicato dos Estudantes e os movimentos sociais Solidários e Rede Ecossocialista, tendo participado individualmente sindicalistas de vários outros sindicatos. Estiveram presentes como observadores representantes da associação Habitação Hoje.
A intervenção policial no Porto e em Lisboa na noite de 24 para 25 de outubro para desmobilizar as manifestações contra a crise habitacional foi mais um capítulo do uso do aparelho coercivo do Estado em benefício de uma classe exploradora e rentista.
Politicamente morto, o ministro Luís Neves é a representação do que de mais podre existe neste sistema: alguémque se serviu durante anos da sua posição no poder estatal para beneficiar economicamente e que encabeça agora uma operação violentíssima e desproporcional contra manifestações pacíficas. Fá-lo como prova de vida e para rogar o perdão do Chega, que contra ele fez obsessiva campanha durante todo o verão, para agora se deixar seduzir pela sua ação autoritária.
Esta deriva não devia ser surpresa. A elite económico-financeira defende à bastonada os seus interesses, a história demonstra-o. Neste caso, essa elite está não só a influenciar a cúpula governativa, como está ela mesma lá instalada: veja-se o património imobiliário daqueles que nos pedem mais sacrifícios ou para largarmos o “egoísmo”.
Não se agride só a luta pela habitação e as garantias constitucionais que nos restam, mas a experiência verdadeiramente democrática das assembleias populares que, em pequena escala, envolve politicamente as novas gerações, ao contrário do sistema farsante desta república oligárquica. Quando convidado para discursar nas comemorações do 10 de junho de 2019, o inenarrável João Miguel Tavares, passista amargurado e representante da miséria moral e intelectual do “comentariado” mediático, clamou poeticamente à classe política: “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Agora que os jovens acreditam na construção de uma alternativa ao Estado económico e social que nos sufoca, é o mesmo pobre Tavares que, paradoxal mas significativamente, se levanta, não contra a emergência habitacional, mas contra as acampadas e as ideias “comunistas” que lá detetou.
A passividade de António José Seguro perante um dos mais visíveis atropelos às liberdades civis desde abril de 1974 é também um lembrete para os que encostam a esquerda à ditadura do voto útil e do mal menor. Abdicamos da construção de alternativas políticas em nome da defesa da democracia… e levamos bastonadas.
A revolta deve traduzir-se em formulação política. Não queremos defender o statu quo das sádicas alterações ao NRAU aprovadas recentemente pela direita. Queremos que o statu quo seja radicalmente transformado. Urge controlar as rendas e a compra do nosso parque habitacional por investidores e fundos especulativos estrangeiros (e nacionais) e a ampliação da habitação pública, por via de mais construção, recuperação e expropriação de imóveis sem utilidade social.
Apresentemos propostas, pautemos o debate, construamos uma alternativa que conquiste a maioria social.
O termo mockumentary designa um género de cinema, ou televisão, que apresenta aos espetadores elementos ficcionais no formato de documentário, essencialmente como forma de satirizar uma situação concreta, ou o formato documental em si mesmo.
Ainda que o termo venha dos anos 60 do século XX, foi popularizado por Rob Reiner, a partir do seu notável This is Spinal Tap, notável mockumentary acerca de uma banda rock britânica ficcional, em tournée pelos Estados Unidos. O filme, de 1984, satirizava alguns documentários da época (The Song Remains the Same, dos Led Zeppellin, por exemplo) e foi um grande sucesso para um realizador estreante, que depois veio a ser um dos grandes nomes do cinema americano.
A Hard Day’s Night (Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso, no título português), de Richard Lester, com os Beatles, realizado em 1964, é visto como um dos primeiros exemplos do estilo, que se desenvolveu sobretudo a partir do momento em que os arquivos de cinema e televisão passaram a estar mais disponíveis e a ser mais fáceis de consultar e de utilizar, permitindo a manipulação de imagens originalmente colhidas com propósitos totalmente diferentes.
Seria uma questão de tempo até que a televisão utilizasse o conceito, e duas das mais bem-sucedidas séries americanas de comédia assumiram o formato: “Uma Família Muito Moderna” e “The Office” (esta última, a partir de um original britânico).
Um dos nomes consagrados do cinema americano, que é incontornável quando o tema é o mockumentary, é Woody Allen. Nascido Allan Stewart Konigsberg, escrevia para televisão há já quase 15 anos quando assinou o seu primeiro argumento cinematográfico: What's New Pussycat (1965), realizado por Clive Donner. A sua carreira prosseguiu, com dezenas de realizações de diferentes filmes e a escrita de argumentos originais, de forma muito bem-sucedida, não isenta de polémicas, como as motivadas essencialmente por factos da sua vida pessoal.
Seguiu-se uma série de filmes de cariz significativamente diferente, onde Woody Allen se foi aproximando do melodrama, tendo chegado perto do que teria sido o trabalho de Ingmar Bergman, se alguma vez o realizador sueco tivesse trabalhado na América (sobretudo Stardust Memories, de 1980). The Serpent’s Egg (O Ovo da Serpente, em Portugal), que Bergman fez na América em 1977, por ser um elemento atípico na sua filmografia, não invalida o argumento.
Até que, em 1983, Woody Allen nos apresentou Zelig, a quinta essência do que é o mockumentary.
Leonard Zelig é um personagem que acompanhamos a partir dos anos 20 do século XX. Dos Roaring Twenties até ao início da Segunda Guerra Mundial. Podemos acompanhar o ambiente da América desses denominados anos loucos da década de 20, a que se seguiu a Grande Depressão, e depois a guerra. E, a par de um exercício de pura nostalgia, partimos de uma premissa cómica muito pouco comum, a saber: Zelig tem a capacidade de se adaptar, de forma total, ao meio em que se insere. Mais do que alguém com empatia ou mera capacidade de adaptação intelectual, ele assume as características físicas e psicológicas das pessoas que estão à sua volta. Muda de padrões de discurso, de características físicas (até de raça), chegando a engordar ou a fazer crescer apêndices capilares, se isso contribuir para se confundir com o grupo onde estiver inserido.
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Podemos interpretar esta premissa – a de adaptar literalmente o seu físico e comportamento psicológico do “outro”, moldando-se como cópia – como sendo o de levar, ainda mais longe as premissas do livro O Homem sem Qualidades, do austríaco Robert Musil. A outro nível, conhecemos a mesma premissa aplicada à análise da personalidade de atores célebres. Existe um episódio dos Marretas com Peter Sellers em que o ator confessa que não tem uma personalidade que seja própria, evoluindo de acordo com as personagens que interpreta, assim como, mais recentemente, tivemos Jim Carrey a encarnar quase literalmente, se possível, Andy Kaufman, no Man on the Moon (Homem na Lua, no título português), de Milos Forman.
Leonard Zelig, uma vez conhecida a sua capacidade excecional, é rapidamente descrito como “o camaleão humano”, e começa a ser tratado como uma atração digna de um freak show (termo que é injustamente traduzido para português como circo de horrores). E rapidamente nos é mostrada a razão de ser desta anomalia: Zelig tem apenas uma profunda necessidade de ser amado e, para isso, de não sobressair de modo errado. Imita o outro para ser aceite. Chegamos a conhecer as condições em que a personagem cresceu, e as vivências que foi atravessando. A vida na América no início do século XX implicava fortes pressões de assimilação cultural e, particularmente relevante para um jovem judeu, de forte antissemitismo. A anulação do “eu” surge como um mecanismo de sobrevivência psicológica para a personagem, que desenvolve assim uma condição (clínica), mais do que um superpoder.
Muitas sequências do filme são particularmente bem conseguidas, exatamente em momentos em que Zelig partilha o ecrã com variadas personalidades relevantes daquela época, lado a lado, mas invisível aos outros, no culminar da sua necessidade de se dar com toda a gente, com efeitos comparáveis ao que muitos anos mais tarde vimos em Forrest Gump, pela mão de Robert Zemeckis.
Usando as melhores técnicas do mockumentary, Woody Allen vai acompanhando as imagens da época com comentários proferidos por personalidades reais e notórias, que dão uma maior credibilidade à ficção que nos é apresentada. Podemos encontrar vários vultos da intelectualidade nova-iorquina da altura em que o filme foi feito, como Susan Sontag, Saul Bellow ou Bruno Bettelheim.
O enredo, que como seria de esperar não é assim tão complexo, acaba com um final feliz, com a psiquiatra que acompanhava Zelig, e que por ele se interessou, a acabar por desenvolver por ele sentimentos de outra natureza (sentimentos retribuídos também por Zelig, claro!), e essa ligação amorosa (ligação pessoal) acaba por fazer desaparecer a anomalia que o tornava o (tal) “camaleão humano”.
Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço.
Uma questão que se poderá sempre colocar a propósito da criação artística é a de saber o que moveu o autor, desde o primeiro momento. Será sempre possível perguntar se existiu alguma motivação específica para o autor ter desenvolvido este projeto e não outro qualquer. As eventuais referências culturais a que já fiz referência terão um propósito de enquadramento na história que está a ser contada. Mas, afinal, o que terá motivado Woody Allen a criar um personagem como Zelig?
Um dos maiores cineastas da história, ele próprio um cómico de exceção, Charlie Chaplin fez refletir em certas obras algumas das situações que foi enfrentando na sua vida pessoal. A sua vida sentimental acidentada, com vários divórcios problemáticos, gerou o filme Monsieur Verdoux (O Barba Azul, em Portugal). Anos mais tarde, a perseguição política a que foi sujeito pelo governo dos EUA serviu de inspiração ao filme A King in New York (em Portugal, Um Rei em Nova Iorque).
A verdade é que todos nos cruzámos com pessoas com características parecidas com este Zelig. Todos nós já encontrámos ou lidámos com pessoas que são como esta personagem. Muitos de nós só querem integrar-se em algo, ou socializar com outros, por vezes a qualquer preço. Cada pessoa que encontramos que diga que ainda está à procura de si próprio é possível que seja alguém que tem vindo a deixar um rasto de personagens que foi copiando e que, depois de não serem necessários, são deixados para trás, como uma cobra que abandona uma pele antiga. Por vezes também fazem vítimas, deixando cadáveres no seu caminho. E copiam outros para serem aceites, validados, terem uma vida.
Zelig é, por isso, um grande filme de Woody Allen, injustamente esquecido quando falamos da sua filmografia. Mas é pena.
Contra as expectativas do PT e até mesmo das sondagens, Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta das presidenciais brasileiras com 2,2 milhões de votos de vantagem. A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro na segunda volta parecia inevitável. Não o foi porquê?
Contra as expectativas do PT e até mesmo das pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 2,2 milhões de votos à frente. Seu campo também elegeu os governadores do Sudeste e do Sul do país, alcançando 11 governadores no primeiro turno, que governarão 63% da população (e 16 governadores, com 71% da população, após o segundo turno), e avançou fortemente no Senado e na Câmara. Consagrou, assim, um lastro político que, diferentemente das condições de seu pai, permitiria à sua base de apoio avançar na implementação não apenas de um governo de cariz fascista, mas de um regime fascista, visto que controlaria também o Supremo Tribunal Federal.
A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro repercutiu de modo profundo em todo o campo progressista. Silêncio, medo e perplexidade anunciavam um quadro de derrota antecipada. Nem os partidos nem a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e as demais centrais sindicais convocaram uma grande vaga de lutas, com a realização de plenárias populares antifascistas. Como superar uma vantagem estimada em 11 milhões de votos? Como proteger a militância e os movimentos populares da turba neofascista?
Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc.
Centenas de milhares de ativistas sociais dimensionaram o significado prático de um governo ligado às grandes organizações criminosas, entre elas as chamadas milícias, que colocaria o Brasil no Escudo das Américas e radicalizaria a austeridade neoliberal extrema sobre os direitos sociais, como faz Milei. Indicadores da Comissão Pastoral da Terra registram 136 assassinatos de indígenas, quilombolas1 e trabalhadores do campo durante o governo de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro destinou recursos a Peixe, miliciano condenado no caso Marielle Franco2. Assim, movimentos indígenas e contra as mineradoras, torcidas antifascistas, estudantes, movimentos negros, de mulheres e da diversidade, sindicatos, entidades científicas e entidades profissionais foram se somando às manifestações.
Diante da iminente derrota de Lula da Silva no segundo turno, a irrupção de iniciativas autoconvocadas e livres das amarras burocráticas foi decisiva para a reversão do quadro negativo do primeiro turno, conferindo ao segundo turno um inédito caráter de massa e popular não cogitado pela burocracia do PT. Este artigo discute algumas tendências advindas dessa irrupção e defende a importância da reaglutinação de arcos de forças que pratiquem a autonomia diante do novo mandato do atual presidente.
Da derrota de 4 de outubro…
As mobilizações das juventudes, relativamente síncronas e espalhadas pelo mundo, que forjam a cena das lutas populares de 2026, dão visibilidade a novos sujeitos, agendas, métodos e formas de organização capazes de catalisar mudanças na correlação de forças de seus respectivos países e na conjuntura mundial. No seio da geração Z, mas não somente nela, estão se conformando novos sujeitos coletivos nas lutas populares mundiais. No caso brasileiro, as recentes manifestações foram as maiores do século e alcançaram o pico de 2 milhões de pessoas às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro. São perceptíveis a abertura a pautas3 mais amplas das classes trabalhadoras e a maior autonomia diante dos partidos oriundos da esquerda, enrijecidos pelo ciclo vicioso da burocratização e pela assimilação da austeridade como uma segunda natureza. O descolamento entre os movimentos que emergem e as práticas burocráticas desses partidos é acentuado pelo facto de que, quando assumem o governo, eles tratam assuntos públicos como habitação, transporte, educação, ciência, saúde e previdência como esferas a serem dirigidas pela tecnocracia. A despolitização dessas dimensões da vida social pavimenta o avanço das extremas-direitas.
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O Partido dos Trabalhadores (PT) também vive essa realidade de burocratização e de incorporação profunda dos preceitos da austeridade. O enfrentamento eleitoral com a extrema-direita mostrou-se mais árido do que a estratégia da campanha de Lula havia previsto para o primeiro turno das eleições nacionais. O governo estadunidense, com Trump e Rubio à frente, agiu em favor do candidato neofascista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente. A Meta manipulou os algoritmos, censurou as maiores contas favoráveis a Lula e postergou decisões judiciais, enquanto as igrejas pentecostais e neopentecostais acionavam seus fiéis. É importante lembrar que, até o final do primeiro turno, mesmo temas de forte impacto para as classes trabalhadoras, como o fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso)4, não adquiriram real densidade trabalhista na estratégia de campanha. O fim da escala 6x1 foi tratado não como tema axial das relações de trabalho, mas como medida que demonstrava a preocupação social do candidato, especialmente por ampliar o convívio familiar. A dinâmica burocrática e publicitária parecia ignorar o enraizamento popular da extrema-direita de cariz fascista. Por meio de uma robusta rede de igrejas pentecostais e neopentecostais, que somam mais de 300 mil no país, e dos vínculos do candidato com organizações criminosas, sobretudo milícias, como demonstrado por Bruno Paes Manso5, a extrema-direita controla importantes territórios de favelas por meio da violência e do poder económico. Somados o difuso antipetismo e a rede de associações comerciais, de seguranças privadas e de aparelhos privados de hegemonia (APHs)6 diversos, o bolsonarismo assumiu características massivas, ainda que careça de organicidade partidária. Ao mesmo tempo, boa parte dos grandes capitalistas vinculados aos bancos, aos fundos de investimento, às commodities, às big techs, aos grandes meios de comunicação e aos conglomerados de APHs vinha impulsionando o candidato, tratado como legítimo a despeito de suas ligações perigosas.
Ainda assim, a condução da campanha de Lula seguiu nos estreitos trilhos da publicidade impulsionada por grandes somas de recursos, parte delas destinada às big techs, quando era evidente a falta de materiais elementares para o trabalho de campanha corpo a corpo. Não houve real interpelação nem acionamento dos sindicatos e dos movimentos sociais e estudantis. O silêncio abateu-se sobre as universidades públicas, sucateadas por anos de austeridade.
… à vitória de 25 de outubro: milhões nas ruas do Brasil contra o fascismo
As impressionantes manifestações, as maiores do século, embora não sejam um raio em céu azul, como visto nas grandes manifestações de 2013 e 2019, surpreenderam o país. Durante 20 dias, alcançaram mais de cinco milhões de manifestantes em todas as regiões do país, inclusive em cidades de pequeno e médio porte, conforme estimativas muito preliminares.
A exemplo do que ocorreu no primeiro estalido da rebelião estudantil na França, em 2026, no Brasil também foi um acontecimento molecular, realizado pelos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, localizada em Niterói, uma das raras cidades do estado do Rio de Janeiro que deram vitória a Lula no primeiro turno. Na noite de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, estudantes convocados pelo centro académico se reuniram para avaliar a situação e, em dado momento, concluíram que seria inútil aguardar o comando da campanha para retomar a iniciativa política e decidiram que o caminho era ir às ruas. Nas palavras de Virgínia Fontes, os estudantes “romperam o dique das defesas históricas erguidas pelo PT contra grandes mobilizações (ou ao menos pela maioria do PT), temeroso por saber que essas grandes massas populares podem ser incontroláveis e colocar em xeque alianças e compromissos problemáticos para elas”7. Em meio ao desalento, o ato que reuniu alguns milhares de pessoas ganhou enorme repercussão nas redes sociais, como o Instagram, e serviu de centelha para a deflagração das grandes manifestações. No dia 6, outro grande ato convocado pelas entidades estudantis, mas que ultrapassou largamente seu núcleo militante, aconteceu em Pernambuco, na UFPE, universidade que vinha sendo ameaçada pela extrema-direita e que, dias depois, foi atingida por um incêndio, cujas causas ainda estão sendo apuradas. Nesse mesmo dia, fandoms, como o perfil Taylor Swift Brasil, os fãs de Anitta e outros fã-clubes assinaram um manifesto conjunto convocando seus adeptos a lutar contra o fascismo e a buscar os votos dos mais de 33 milhões de abstencionistas do 1º turno. É importante destacar que esses coletivos, os fandoms, não compõem a organização tradicional das esquerdas estudantis, como os diretórios estudantis, por exemplo, embora parte de seus membros possua relação com partidos e outros coletivos. No dia 8, no Rio de Janeiro, aconteceu a marcha “Juventude na Rua pela Democracia” com forte participação de estudantes secundaristas, reunindo mais de 50 mil estudantes que ecoaram palavras de ordem diretamente antifascistas, contra Bolsonaro e, no caso, em defesa da eleição de Lula. Já nessa marcha, embora não como força convocante, o PT se somou às manifestações que reacenderam a agência das militâncias.
A sucessão de grandes manifestações em Belo Horizonte, Curitiba, Bahia, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, todas gigantescas, as tornou um espaço político para acolher milhares de militantes de outros movimentos que desejavam tomar a campanha nas próprias mãos. No dia 9, centrais sindicais saíram às ruas em luta pelo fim da jornada 6x1, afinal aprovado em 14 de outubro em virtude de amplo apoio popular. No dia 11, em São Paulo, ocorreu a maior manifestação até então realizada, com aproximadamente um milhão de pessoas, convocada de forma independente por movimentos sociais, pelo movimento estudantil e por torcidas organizadas do Palmeiras e do Corinthians e também por entidades que realizam a Marcha LGBT em São Paulo. A manifestação, da qual Lula participou, foi assumida como parte da campanha. As manifestações assinalam o propósito de conexão com as lutas sindicais e do conjunto dos trabalhadores. O tom é o antifascismo. E o intento é dialogar com os 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e com os idosos, assim como virar votos nas franjas da direita. Essas manifestações culminaram no maior ato da campanha, convocado pelo candidato do PT no dia 24 de outubro, com cerca de 2 milhões de pessoas.
Para entender o alcance das convocatórias estudantis, que foram se amalgamando à campanha de Lula, é preciso considerar o peso do chamado Exército de Lula, liderado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG), que alcançou mais de 10,5 milhões de pessoas no WhatsApp e que logrou alterar a performance dos algoritmos da Meta com postagens simples, síncronas e massivas. Em poucos minutos, milhões de pessoas foram convocadas para as tarefas do dia, como, por exemplo, aumentar a visibilidade do fim da jornada 6x1, conter as fakenews, sem propagá-las. As redes deixaram de ser monopólio da extrema-direita.
No segundo turno, Lula ampliou sua votação em 10,3 milhões de votos. A abstenção foi reduzida em cerca de 3 milhões de eleitores, o que possibilitou uma vitória por 4,4 milhões de votos.
Passados dois dias do resultado, Trump, após levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ainda não se pronunciou. Toda a União Europeia, a América Latina (exceto Milei), a China, a Rússia e países da Ásia e da África reconheceram o resultado eleitoral. Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc. Impossível deixar de registrar o protagonismo das mulheres. Nas áreas populares, elas afirmaram sua rejeição ao bolsonarismo mesmo quando pastores orientavam o voto em seu candidato. Se a burocracia partidária e sindical tivesse prevalecido, nada disso teria ocorrido. Agora, é preciso extrair as aprendizagens, organizar e assegurar organicidade aos movimentos que resistiram ao avanço fascista. Todas essas mobilizações não podem ser desarticuladas em virtude da vitória eleitoral. E haverá forças que desincentivarão a auto-organização popular. Os partidos e mandatos da esquerda precisam estar vinculados aos movimentos que forjaram essa batalha. É preciso resgatar a prática de prosear8 quotidianamente com o povo. Em resumo, esses vibrantes 20 dias de lutas podem permitir retomar a perspectiva de frente dos trabalhadores como força autónoma para impedir o avanço do neofascismo, unindo-se a outras frações de classe antifascistas (marchar separados, golpear juntos). A estratégia frente dos trabalhadores é condição necessária para enfrentar a austeridade, que é, afinal, a incubadora das novas extremas-direitas no século XXI, e também por poder se consolidar como espaço de formação contra as barbáries que marcam os tempos atuais.
1 Descendentes de africanos escravizados que fugiram de fazendas, engenhos e senzalas durante o período colonial e imperial do Brasil, formando comunidades de resistência chamadas quilombos (NR)
2 PIRES, Breno. “Nosso senador”: Flávio Bolsonaro mandou emenda a miliciano do caso Marielle. Piauí, Rio de Janeiro, 21 set. 2026. Seção Vultos do Rio. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/flavio-bolsonaro-miliciano-peixe/. Acesso em: 27 out. 2026.
3 Temas, reivindicações (Nota da revisão).
4 O fim da escala 6x1 altera a legislação trabalhista, determinando que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal, e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.
5 MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020. MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023. MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Nunes. A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil. São Paulo: Todavia, 2018.
6 O conceito de aparelhos privados de hegenonia baseia-se na teoria do Estado ampliado, de Antonio Gramsci. Refere-se a organizações da sociedade civil (como institutos, fundações e associações empresariais) que, embora formalmente externas ao Estado, atuam na difusão de ideias, valores e consensos alinhados com os interesses do grande capital (NR).
7 Virgínia Fontes. Mantendo o gás. Aprendizados em andamento de uma campanha eleitoral de verdade, quando a política real assume a dianteira e derrota as burocracias e os poderosos.
8 Conversar, dialogar (NR).
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