Guerra

Os tempos estão a mudar?
categoria-internacional edicao-2026-10-29 (47) Guerra Austeridade Especulação imobiliária Revolta

Os tempos estão a mudar?

França, Alemanha, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Albânia… Em todos os países, as mesmas causas: guerra, austeridade, especulação imobiliária; o futuro negado aos jovens. E o mesmo efeito: uma sublevação da juventude.

Adriano Zilhão
É inevitável o aumento dos combustíveis?
categoria-política Combustíveis Petróleo Guerra Governo edicao-2026-10-01 (43)

É inevitável o aumento dos combustíveis?

Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados.

Adriano Zilhão
Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve
categoria-internacional Estivadores Gaza Genocídio Greve Guerra edicao-2026-09-10 (40)

Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve

Sindicatos representativos de operários de quarenta portos da Europa e do Mediterrâneo apelam a jornada de luta internacional contra a guerra e o genocídio no dia 30 de Outubro.

Sarah Lazare
A Odisseia de Nolan: do herói homérico ao anti-herói pós-moderno
categoria-cultura edicao-2026-09-03 (39) Odisseia Nolan Homero Guerra

A Odisseia de Nolan: do herói homérico ao anti-herói pós-moderno

A Odisseia é uma das principais epopeias da literatura grega antiga e uma das obras literárias mais antigas que sobreviveram. É atribuída a Homero, que teria vivido no século VIII antes da era corrente (AEC) e, tal como a Ilíada, centra-se nos acontecimentos associados a uma guerra, a de Troia...

Andrés Águila
Volkswagen: entre a espada e o desemprego
categoria-internacional Volkswagen Alemanha IG Metall Guerra edicao-2026-09-03 (39)

Volkswagen: entre a espada e o desemprego

Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

Adriano Zilhão
Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática
Clima Desigualdade Guerra categoria-um livro edicao-2026-07-23 (37)

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática

Entre o colapso climático, a inação política própria de um sistema económico que o sustenta e a ascensão da extrema-direita, Quebrar em caso de emergência climática, escrito a várias mãos pelo coletivo Climáximo

Alice Faro e Santos
Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial
Armamento Defesa Guerra categoria-política edicao-2026-07-02 (34)

Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial

O horror da guerra: vidas perdidas, casas destruídas; inválidos e mutilados; milhões de deslocados, logo, refugiados; espécies extintas, vastos danos ambientais; o planeta mortificado. Há, porém, quem não sofra por aí além com a guerra: o complexo militar-industrial de empresas das grandes economias

Michael Roberts
A pátria nos contempla Mário Tomé
Guerra Pátria SMO categoria-opinião edicao-2026-06-04 (30)

A pátria nos contempla

A pátria não passa de uma entidade abstrata que, explorando os mais fundos sentimentos populares de ligação à terra, à pequena propriedade, à cultura, à tradição, ao modus vivendi, à própria história, obriga o povo trabalhador a servir, com dedicação e alegria...

Mário Tomé
Porque recusámos a guerra colonial - 2.ª parte
Deserção Fernando Cardeira Guerra PAIGC categoria-história edicao-2026-06-04 (30)

Porque recusámos a guerra colonial - 2.ª parte

A deserção colectiva destes 10 oficiais tem dois aspectos que fazem dela um caso único da história da oposição à guerra colonial no seio das Forças Armadas. O primeiro é que nela estiveram envolvidos jovens oficiais que haviam sido alunos da Academia Militar (AM) durante mais de 8 anos. O segundo as

Fernando Cardeira
Porque recusámos a guerra colonial - 1ª. parte
Deserção Guerra Liberdade categoria-história edicao-2026-05-28 (29)

Porque recusámos a guerra colonial - 1ª. parte

O conhecimento do que se estava a passar em Angola rapidamente me levou a pôr em causa não apenas a guerra, mas também o meu papel como elemento que havia aderido às forças armadas. Ao fim de algum tempo passei a sentir-me deslocado no seio deste Exército...

Fernando Cardeira
Novas manifestações de massas de alunos do secundário contra a restauração do serviço militar obrigatório
categoria-internacional Alemanha Guerra Serviço Militar Obrigatório edicao-2026-05-21 (28)

Novas manifestações de massas de alunos do secundário contra a restauração do serviço militar obrigatório

No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Març

Joe Körner
O grande negócio do petróleo e da guerra
categoria-política Guerra Irão Petróleo Trump Economia edicao-2026-05-28 (29)

O grande negócio do petróleo e da guerra

No dia 23 de Março, 15 minutos antes de Trump anunciar que adiava os ataques à rede eléctrica iraniana, houve apostas de quase 600 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo. No dia 17 de Abril, 20 minutos antes de o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, anunciar nas re

Adriano Zilhão
categoria-internacional edicao-2026-10-29 (47) Guerra Austeridade Especulação imobiliária Revolta

Os tempos estão a mudar?

Fotografia: Fred Murphy (CC BY-ND-NC 1.0

Em França, a proverbial gota de água foi… uma gota de água. Melhor: gotas de água aos fios e jorros a caírem pelas paredes e tectos de liceus degradados. Mais a falta de professores. E turmas de 36. E um anunciado serviço militar “voluntário” — a caminho, muito mal disfarçado, de virar obrigatório. E um orçamento de guerra. E cortes nos serviços públicos: a “austeridade” de Macron para quem trabalha e estuda.

Na Alemanha, o anunciado serviço militar “voluntário” — a caminho, muito mal disfarçado, de virar obrigatório. Mais o anúncio de fazer da Alemanha a maior potência militar da Europa. E a entrega do sistema de pensões aos “mercados”. E o anúncio de despedimentos em massa e cortes salariais na Volkswagen e na indústria em geral.

No Estado espanhol, o despejo de uma mulher de 87 anos da casa onde vivia há 71. Às mãos gélidas de anónimos fundos imobiliários. Mais a privação da juventude da perspectiva, horizonte ou direito a ter casa e trabalho com contratos e salários decentes.

Em Itália: orçamento de guerra e austeridade de Meloni. E a implacável destruição da escola pública. 

Na Bélgica, o governo que prepara um orçamento de austeridade com cortes drásticos nos serviços públicos. E a “reforma” do sistema de pensões.

Em Portugal, já se sabe: a furibunda repressão policial dos jovens a mando de um governo ao serviço da especulação imobiliária, que priva ostensivamente a juventude do direito constitucional a ter casa.

Em todos os países, as mesmas causas: guerra, austeridade, especulação imobiliária; o futuro negado aos jovens.

Porquê tal convergência, perguntar-se-á.

Tanto quiseram as classes dominantes dos imperialismos europeus eliminar a “ameaça” da rua, tanto quiseram desfazer-se da limitada, mas por vezes incómoda, democracia eleitoral, tanto quiseram centralizar todas as decisões importantes em Bruxelas e Frankfurt, nesse opaco exército de burocratas não eleitos e imunes a eleições e à “rua”, que agora se veem, todos eles, a braços com a sublevação quase simultânea, na rua, dos jovens e dos trabalhadores de todos os países.

Sob a pressão maciça do grande patrão de Washington, necessitado de passar os custos das suas guerras para cima dos vassalos menores, Bruxelas e Frankfurt espalharam ordens, as mesmas para todo o lado: guerra e austeridade. Diz-nos a física que as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos.

França

Quem procurar, na televisão portuguesa, notícias de França, vê violência, pilhagens e confrontos. No entanto, a realidade, por duas vezes em poucos dias, foram 800 mil manifestantes a desfilar, combativa, mas pacificamente, por dezenas de cidades francesas: estudantes liceais e universitários, bombeiros, trabalhadores, funcionários, professores. Uma realidade que levou o respeitável presidente socialista da Câmara de Marselha a acusar o governo de permitir deliberadamente a explosão da violência. E um anódino jornal de programação de TV, Télérama, a interrogar-se se as cadeias estatais encenavam imagens de violência em cadeia para não mostrar as manifestações…

Violência? Sim. Um aluno do ensino secundário teve uma mão arrancada pela polícia, outro um olho perdido para uma bala de borracha, um terceiro, a mandíbula fracturada. 

A dimensão da repressão policial contra os movimentos da juventude é inédita”, denunciou a Liga dos Direitos do Homem no dia 15 de Outubro.

Os correspondentes estrangeiros notam que a juventude francesa se revolta — e que a violência policial atiça o conflito: “A França tem um problema de violência – que começa pela polícia” (Der Spiegel). O correspondente do britânico Guardian notava que, ao chegar à Praça da República, em Paris, no dia 17 de Outubro, “o ambiente era festivo, mas depois a polícia começou a lançar granadas de gás lacrimogéneo (...). Não vi o incidente que desencadeou tudo – se é que o houve (…). O método de gestão de multidões adoptado pelas autoridades desde que começou o dia deu o tom; rapidamente semeou o caos por toda a cidade de Paris”. La Repubblica nota que “os Black Blocs monopolizaram a atenção”, funcionando os provocadores como “idiotas úteis da direita”. Mesmo jornais de regimes autoritários, como o argelino, ironizaram: um governo “que se diverte a dar lições de liberdade ao resto do planeta e se esquece de varrer à porta de casa” (L’Expression).

“A dimensão da repressão policial contra os movimentos da juventude é inédita”, denunciou a Liga dos Direitos do Homem no dia 15 de Outubro. Nada menos que 7950 pessoas tinham sido detidas, segundo o Ministério da Justiça. Isto, antes das grandes manifestações de 17 de Outubro! 85% dos detidos eram menores de idade. 

Uma coisa é certa: no terreno da repressão, Montenegro decidiu dar luta a Macron. Acontece que a violência de Macron é a violência de um regime na agonia. A violência de Montenegro… mesmas causas, mesmas consequências.

Itália

No dia 16 de Outubro, às dezenas de milhar, jovens liceais e universitários manifestaram-se em toda a Itália contra a guerra e contra a degradação das escolas, pela escola pública e contra o racismo acirrado pelo governo. O diário La Stampa regista 400 mil participantes entre Turim, Bolonha, Roma, Milão, Cagliari, Nápoles. No dia anterior, haviam ocupado dezenas de estabelecimentos de ensino. Enquanto os estudantes saíam à rua, no Sul do país agricultores e camionistas mobilizavam-se contra a subida dos preços, cortando estradas e o trânsito durante cinco dias. E os operários das siderurgias de Génova e Taranto entraram em greve contra a redução da produção e o layoff.

No dia 17, uma manifestação convocada pela maior confederação sindical, a CGIL, juntou cem mil manifestantes em Roma. Anuncia-se uma greve geral para o dia 20 de Novembro.

Espanha

O anúncio da morte de Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos despejada de sua casa em Madrid por um fundo imobiliário, provocou raiva e dor por todo o Estado espanhol, sentimentos que logo se transformaram em mobilização. Uma multidão de manifestantes invadiu as ruas no dia 8 de Outubro para lhe prestar homenagem. Seguiram-se marchas por todo o Estado. “Não morreu, assassinaram-na!”, “Habitação pública, rendas acessíveis, não aos despejos!”, “Aumento dos salários!”, “Maricarmen abriu-nos o caminho, continuamos o combate!”, eram as palavras de ordem dos manifestantes, que clamaram também pela greve geral. Apesar do frio, multiplicaram-se acampamentos de resistência pela habitação. 

O governo Sánchez acabou por ir à gaveta buscar dois projectos de lei com medidas tímidas a favor dos inquilinos — sem tocar no essencial: a propriedade privada de 90% do parque habitacional, nas mãos dos bancos e das empresas de especulação imobiliária. 

A timidez dos projectos de lei de Sánchez não impediu a sua rejeição pela maioria do Congresso, com o partido burguês catalanista Junts a juntar-se, para o efeito, à direita e extrema-direita neo-franquistas. O governo convocou eleições antecipadas para 29 de Novembro. 

Os sindicatos de inquilinas e as associações de defesa da habitação apelaram aos sindicatos para que lançassem a greve geral. As centrais UGT e CCOO – assim como outras, como a ELA e a LAB no País Basco – convocaram-na efectivamente, para 11 de Novembro, dois dias antes do início da campanha eleitoral. 

Entre manifestantes e sindicalistas, muitos tinham o sentimento de que uma greve geral de um dia, daí a um mês, não respondia à situação. “Não basta votar de quatro em quatro anos; se não nos mobilizarmos, continuaremos a perder os nossos direitos”, diziam muitos. 

Alemanha

Depois de meses de mobilizações de jovens do ensino secundário contra a reintrodução disfarçada do serviço militar, novos e maiores protestos se anunciam para o dia 31 de Outubro, em muitas cidades alemãs, contra o serviço militar, a política de austeridade e o mau estado das escolas, apontando o exemplo da juventude francesa. Também na Suíça está prevista para Novembro uma greve da juventude.

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Aos protestos da juventude junta-se o anúncio de grandes conflitos de classe. A destruição de empregos industriais atingiu um ritmo de 15 mil por mês. Na Volkswagen, maior construtor mundial de automóveis, depois do anúncio de um corte de cem mil dos 660 mil postos de trabalho nos próximos anos, vazou para o domínio público, em meados de Outubro, um documento interno de estratégia que prevê o congelamento total dos salários no grupo, à escala mundial, até 2030 — na Alemanha, equivalente a uma redução do salário real de, pelo menos, 10%. A VW denunciou, entretanto, todos os contratos colectivos e acordos de empresa no país e anunciou uma “reorientação” da contratação. Novas negociações colectivas iniciam-se em finais de Novembro. A direcção do sindicato metalúrgico IG Metall manifestou a sua total oposição. Os acontecimentos mostram outra coisa: que cedências graves (o IG Metall aceitara um plano de redução de 50 mil empregos e de contenção salarial nos próximos anos) servem apenas para encorajar o patronato a ir mais longe.

Na Albânia, a juventude revolta-se contra o regime corrupto de Rama, que vende favores ao genro de Trump e é mera correia de transmissão das ordens de Bruxelas “com vista à adesão”. Na Sérvia, a revolta da juventude derrubou o presidente e primeiro-ministro Vučić. Na Bélgica, prepara-se uma greve geral contra o orçamento de austeridade…

Capitalismo e imperialismo, sinónimos de guerra e miséria, são a causa comum. A revolta e a revolução, o efeito comum.

Os tempos estão a mudar. 

categoria-política Combustíveis Petróleo Guerra Governo edicao-2026-10-01 (43)

É inevitável o aumento dos combustíveis?

Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados. Na verdade, os custos de produção da Galp pouco ou nada mudaram desde que Trump lançou a sua guerra contra o Irão.

O aumento incessante dos preços dos combustíveis é, segundo a narrativa repetida até à náusea nos meios de comunicação “de referência”, causado pela “guerra no Golfo”. 

A narrativa padece de um problema: qualquer preço de venda não é fixado por “guerras”; é fixado pelo vendedor do produto. 

Há, em Portugal, um extractor (no Brasil), refinador e vendedor de petróleo e derivados, cuja produção cobre 90% do mercado nacional: a Galp. 

Não consta a Galp ter sido alvo recente de bombas americanas ou iranianas: nem no Brasil nem em Sines.

Entretanto, começam a levantar-se protestos. No dia 25 de Setembro, houve um buzinão na Ponte 25 de Abril. No mesmo dia, empresários do sector das terraplanagens organizaram uma “marcha lenta” de camiões que percorreu a A1. Segundo os organizadores, terão desfilado 450 camiões e 117 empresas. 

A razão do protesto é a exclusão destas empresas do regime subsidiado do gasóleo profissional, concedido a outros sectores dos transportes. Um manifestante declarou ao Público que era “muito triste quando vemos uma parte global dizer que as petrolíferas têm lucros abismais. Como é possível estarmos a pagar isto e as petrolíferas com o dobro [do lucro]? Não é possível”. 

É, de facto, incontestável o impacto dos aumentos de preços em empresas como estas, muitas, pequenas ou muito pequenas, que têm no combustível um custo essencial. O gasóleo já aumentou 40% desde Fevereiro deste ano. 

O ministro Pinto Luz alega que o Governo se esqueceu deste sector. Em admirável golpe de rins, prometeu uma reunião logo na segunda-feira seguinte. Talvez o esquecimento se repare. 

Igualmente incontestável é as petrolíferas terem dobrado os lucros. Como referimos no editorial da semana passada, “os lucros combinados das sete maiores companhias petrolíferas integradas do Ocidente, mais a Aramco, o colosso estatal da Arábia Saudita, passaram os $91 mil milhões no segundo trimestre de 2026, o dobro do ano transacto.”

A Galp não será uma das sete maiores do Ocidente, mas, no primeiro semestre de 2026, encaixou lucros líquidos de 812 milhões de euros. Em valor anualizado, são pelo menos mais 50% do que em 2025 (dados de estudo de Eugénio Rosa do mês de Julho).

Entretanto, outro sector não abrangido pelo regime subsidiado é o dos trabalhadores deste país. Não consta, porém, ter-lhes sido agendada nenhuma reunião com um senhor ministro para reparar algum esquecimento. 

A Galp, no primeiro semestre de 2026, encaixou lucros líquidos de 812 milhões de euros.

Em vez disso, pela voz da senhora ministra do Ambiente, o Governo sugeriu-lhes que “poupassem combustível.”

A sugestão merece consideração.

E não é preciso muita imaginação para conceber algumas maneiras de os trabalhadores portugueses pouparem combustível.

Podia-se, por exemplo, tomar medidas imediatas de criação de transportes públicos em quantidade, qualidade e conforto suficientes, gratuitamente ou a preço muito baixo, para fazer chegar todos os trabalhadores, em tempo útil, diariamente, dos seus locais de habitação aos seus locais de trabalho e vice-versa. É frequente locais de habitação e trabalho serem muito afastados, em grande parte por via da especulação imobiliária que grassa pelo país e que expulsou quem trabalha de onde vivia ou impede quem trabalha de se mudar para perto do local de trabalho.

Estas medidas permitiriam aos trabalhadores poupar, de facto, e muito, nos combustíveis, como quer a ministra. Mas o Governo não anunciou medidas imediatas dessa natureza na esfera dos transportes públicos.

Em alternativa, o Governo podia, porventura, tomar medidas imediatas para pôr à disposição de todos os trabalhadores habitações dignas e de qualidade perto dos respectivos locais de trabalho, a rendas e preços acessíveis, nunca superiores à sua despesa actual com habitação.

São medidas que permitiriam aos trabalhadores poupar, de facto, e muito, nos combustíveis, como quer a ministra. Mas o Governo não anunciou estas medidas imediatas na esfera da habitação.

Pensando bem, até podia o Governo tomar ambos os tipos de medidas em paralelo, criando cidades com muito menos circulação de veículos movidos a combustível. Não só poupava combustíveis: poupava tempo aos trabalhadores, que eles poderiam dedicar à cultura, ao lazer, aos filhos, ao sono…

Mas não, a senhora ministra tão-pouco anunciou tais medidas de poupança de combustível.

Em vez disso, a senhora ministra sugeriu que os trabalhadores reduzissem a velocidade e optassem por boleias.

Suponhamos: convide-se um trabalhador que, hoje, para se dirigir, da sua habitação, nas periferias de Lisboa ou do Porto, para o seu local de trabalho, situado na cidade ou noutra periferia na outra ponta das ditas cidades, a baixar a sua velocidade média, digamos, dos 10 ou 15km/hora possíveis nas actuais vias engarrafadas das cinturas urbanas e do centro das cidades, para, talvez, menos 5 ou 10 km/hora do que isso. 

Aproximar-se-ia, assim, da velocidade da marcha a pé, possivelmente permitindo à ministra, em ocasião azada, sugerir isso mesmo: vão antes a pé, que o tempo é o mesmo, e o combustível que se poupa dá para ir à Lua e voltar!

À outra sugestão, a da boleia, pode surgir outro escolho. O local de habitação da população trabalhadora, sobretudo nas grandes aglomerações, não é grandemente determinado pela proximidade do local de trabalho — pelas mencionadas e basto conhecidas razões da especulação imobiliária. É antes mais determinado pelo local que o trabalhador pode pagar. Assim, os casos de colegas de trabalho com o mesmo exacto horário e local de trabalho que coincida serem vizinhos e, no mais, coincida levarem os filhos exactamente às mesmas escolas às mesmas horas, talvez não sejam assim tantos.

Outra variante é que o apelo da ministra se dirija, antes, digamos, a empresários, traficantes, proxenetas, para que, por uns tempos, deixem os Porsches, Bentleys e Maseratis nas garagens e tirem delas, para usar mais modestamente, os BMW e os Mercedes? 

O escolho, aqui, é o efeito cumulativo de poupança ser pequeno, não por tais máquinas consumirem pouco, evidentemente, mas por serem muito poucos a consumir esse muito que elas consomem.

Também podíamos ser caridosos para com o Governo e aceitar que se tratou de mero deslize, do tipo “se não têm gasolina, comam brioches!”, parafraseando a saudosa Maria Antonieta. 

Resta, porém, o problema fundamental.

Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados. Na verdade, os custos de produção da Galp pouco ou nada mudaram desde que Trump lançou a sua guerra contra o Irão. A Galp detém direitos não transaccionáveis a carregar a sua fatia de petróleo brasileiro directamente dos poços para os barcos. 

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Ora, mantendo-se globalmente inalterados os custos de produção, o aumento dos preços de venda surte um e um só efeito: o ruído de aspirador de milhões de euros a serem sugados do bolso dos trabalhadores para os lucros da Galp. E daí, via dividendos, para os bolsos dos respectivos accionistas. Por exemplo, da Amorim Energia (36,69%), que, ainda segundo o mencionado estudo de Eugénio Rosa, entre 2022 e Maio de 2026, “ter-se-á apropriado de cerca de 1268 milhões € em dividendos e por efeito da compra das próprias ações pela GALP”. Não se cale o decente e discreto arrebique de a dita Amorim ser uma holding registada na Holanda: não paga, portanto, um euro de imposto sobre os dividendos.

No entanto, em Portugal, os vendedores fixam os preços que entenderem, porque tais são as leis da concorrência “livre e não falseada” (tratados da UE). 

A Galp dirá: se as nossas concorrentes, ainda por cima muito maiores do que nós, averbam todo o “dividendo” da guerra de Trump a lucros, e a gente não faz o mesmo, depressa sucumbimos, e depois ainda é pior! 

As entidades reguladoras, que as há, nada regulam ou mandam estudar o assunto. 

A ministra remete para as entidades reguladoras. 

O Governo remete para os tratados da União Europeia e para a sua polícia, a Comissão Europeia. 

Em suma, nada a fazer, porque ninguém pode fazer nada: ele é boleias e andar com mais vagar (não, não foi deslize).

A Galp não pode servir a maioria do país, porque se servir, vai-se. O Governo não pode obrigar a Galp, porque Bruxelas não deixa. É uma longa cadeia de lamentáveis impotências.

Reconheçamos, porém, que isto não é inteiramente mentira.

(Mas atenção: é um bocado mentira. Basta olhar para o país vizinho, em que os combustíveis custam muito menos e não subiram tanto.)

Porém, se não é inteiramente mentira, o que lá de cima nos estão a dizer acaba por ser uma coisa muito simples: o sistema, cuja pedra de fecho está, então, em Bruxelas, está feito para servir os interesses da Galp, dos Amorins e dos seus colegas do 0,1%, não o dos trabalhadores. 

Mais: o que nos estão a mandar dizer, da Galp, das entidades reguladoras, da ministra das boleias, do Governo do advogado da Solverde e da própria Bruxelas, é que a única maneira de defender as condições de vida de quem trabalha em Portugal — e nos outros países é o mesmo — é romper com todo esse sistema, de cima abaixo, da Galp a Bruxelas, e os trabalhadores tomarem eles próprios conta da ocorrência. Como começaram a fazer na revolução portuguesa nos anos setenta.

São eles que o dizem, nós só ligamos os pontinhos.

categoria-internacional Estivadores Gaza Genocídio Greve Guerra edicao-2026-09-10 (40)

Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve

Faixa de greve em Ancona, com a seguinte mensagem: «O porto que resiste às guerras, ao rearmamento e às leis fascistas.» Fonte: Potere al Popolo Terni/Facebook

Sindicatos de estivadores de França, Grécia, País Basco, Turquia, Marrocos e Itália convocam para 30 de Outubro uma jornada internacional de luta “contra a guerra e a militarização”. Exigem o fim do “genocídio do povo palestiniano” e das “guerras de agressão dos EUA e de Israel no Médio Oriente e contra o Irão”.

“Cada sindicato decidirá a forma de mobilização mais adequada consoante as circunstâncias nacionais, a partir de acções de greve e de um compromisso comum de impedir carregamentos de morte e destruição”, lê-se numa declaração conjunta dos sindicatos enviada às publicações Workday Magazine e In These Times no dia 31 de Julho.

Em conjunto, estes sindicatos representam, como referem na sua declaração, operários de 40 portos da Europa e do Mediterrâneo. O apelo a escalar a luta saiu de uma reunião de sindicatos de trabalhadores portuários realizada em Istambul em Maio passado. No anúncio que fizeram, manifestam, ainda, “solidariedade plena com os povos de Cuba, da Venezuela e do Sudão” e defendem que “os portos não podem ser usados para transportar armas, munições, equipamento militar ou tropas destinados a zonas de guerra”.

“Não à economia de guerra, aos planos de rearmamento dos Estados e ao projecto de militarização dos portos e infra-estruturas estratégicas da UE”, defendem os sindicatos no comunicado. “Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar guerras”. Entre os signatários contam-se a CGT FNPD de França, o ENEDEP da Grécia, o LAB do País Basco, o LIMAN-IS da Turquia, a ODT de Marrocos e a ORSA Porti e a USB de Itália.

Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar a guerra.

Tem havido, desde Outubro de 2023, repetidos apelos de sindicalistas palestinianos aos sindicalistas de todo o mundo para que entrem em greve e se recusem a operar carregamentos de armas destinados a Israel, protestem contra a campanha militar de Israel em Gaza, denunciada como genocídio por grupos de direitos humanos de primeira linha e académicos (os Estados Unidos têm prestado decisivo apoio político e financeiro a Israel). Em 5 de Abril de 2025, a Federação Geral dos Sindicatos de Gaza apelou a que os sindicalistas “fizessem pressão a sério para acabar com esta guerra suja”. Os estivadores têm-se empenhado activamente em corresponder a este apelo.

Da Bélgica à Suécia e à Itália, estivadores têm-se recusado a manusear componentes de armas com destino a Gaza. No dia 6 de Fevereiro, paralisaram 21 portos em todo o Mediterrâneo, incluindo Bilbau e Tânger, em protesto contra o uso de infra-estruturas portuárias civis para fins militares e a integração dos seus postos de trabalho numa economia de guerra.

A declaração surge na sequência das duas greves gerais realizadas em Itália no Outono de 2025 em solidariedade com os Palestinianos. Há dez meses, cerca de 60 estivadores reuniram-se no edifício da Autoridade Portuária de Civitavecchia, uma pequena cidade costeira italiana a noroeste de Roma. Era o dia 22 de Setembro de 2025. Tinham abandonado os postos de trabalho ao começar o dia, paralisando o porto, como parte de uma greve geral para protestar contra o facto de o Governo italiano ser o terceiro maior fornecedor de armas a Israel. Viram-se rodeados por cerca de 600 pessoas a aplaudi-los — estudantes, professores, trabalhadores ferroviários, funcionários públicos —, uma multidão significativa para uma cidade tão pequena.

“Que bela imagem, os estivadores rodeados pela sua cidade”, recorda Riccardo Petrarolo, um membro da coordenadora nacional da USB (Unione Sindacale di Base) nos portos italianos.

Os estivadores começaram a receber mensagens WhatsApp de colegas de cidades maiores, como Livorno e Génova, a informá-los de que também os operários dessas cidades tinham paralisado os portos. E dos meios de comunicação social iam aparecendo notícias de greves e encerramentos. “Diziam que exactamente a mesma coisa estava a acontecer nos outros portos”, refere Petrarolo. De cada vez que estivadores anunciavam um novo encerramento pelo sistema de som, conta-me Petrarolo, a multidão soltava “um grito de aplauso, como num estádio”.

Estas acções são fruto de décadas de relações com os Palestinianos construídas pelos operários e de anos de mobilização contra a participação no transporte de armas. A 30 de Agosto de 2025, 40 mil pessoas reuniram-se em Génova para despedir a Flotilha Global Sumud, que partia para levar alimentos e ajuda a Gaza. A luta da flotilha para chegar a Gaza calou fundo entre os trabalhadores do mar — os que trabalham nas docas, os que carregam e descarregam navios, os que reparam e movimentam equipamento e transportam mercadorias para outros portos; e os ataques às embarcações causaram profunda indignação.

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Riccardo Rudino, um estivador filiado no Colectivo Autónomo dos Trabalhadores Portuários (CALP), um sindicato independente de Génova, prometeu à multidão que se despedia dos navios que “se perdermos o contacto com os nossos camaradas da flotilha, nem que seja por 20 minutos, bloquearemos toda a Europa a partir das docas de Génova. Nem um prego daqui sai. Será uma greve global”.

Os estivadores de Génova acabaram por convocar rapidamente uma greve geral, para 22 de Setembro, em protesto contra a cumplicidade da Itália no ataque a Gaza. A USB, que conta cerca de 100 mil membros nos sectores privado e público, apoiou a acção. Cerca de meio milhão de pessoas abandonaram os postos de trabalho nesse dia. Um milhão participou em protestos pelas vilas e cidades de toda a Itália. Auto-estradas, ruas e metros ficaram paralisados, ao passo que, em todo o país, a população fazia sua a palavra de ordem “Blocchiamo tutto”: “Bloqueemos tudo!”

José Nivoi, um estivador e porta-voz do CALP que embarcou na Flotilha Global Sumud, concedeu uma entrevista, de bordo, no dia 23 de Setembro, em que apoiava a greve. Disse ele que “as mobilizações que temos estado a fazer são em apoio total à Palestina, e nós nunca recuámos”.

Nos dias 1 e 2 de Outubro de 2025, Israel interceptou os navios da flotilha e deteve as centenas de pessoas a bordo. Chegava a hora de dar corpo à ameaça de “nem um prego”. Os militantes italianos responderam com uma greve geral ainda maior, a 3 de Outubro. Desta vez, a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL), a maior federação sindical de Itália, convocou a greve, tal como a USB. Estima-se em 2 milhões os participantes nos protestos, em mais de oitenta cidades. Portos e auto-estradas bloqueados e encerrados, linhas ferroviárias interrompidas, escolas e universidades fechadas.

“As coisas organizaram-se muito rapidamente e fora do quadro legal de Itália. Tal como antes, envolveram cidades grandes e pequenas e muita gente que saiu à rua em solidariedade”, relata Petrarolo, da USB. “Claro que isso provocou uma reacção do Estado italiano, com multas aos sindicatos e acções policiais e judiciais contra os organizadores. Mas isso não impediu a organização, e o resultado concreto foi que, no dia seguinte, 1 milhão de pessoas saíram à rua em Roma.”

Os estivadores esperam aproveitar o balanço. O anúncio da jornada de luta de 30 de Outubro baseia-se na “Declaração de Istambul”, aprovada por todos os signatários. A par das reivindicações contra a guerra, os trabalhadores vincam a exigência de que “os acordos coletivos garantam aumentos salariais reais, emprego seguro, redução do horário de trabalho e disposições justas em matéria de pensões”. E não querem que a mecanização ou a inteligência artificial “eliminem postos de trabalho ou prejudiquem os direitos dos trabalhadores”.

Os sindicatos dizem-se “prontos para se reunirem com grupos organizados de estivadores de quaisquer outros portos interessados em integrar esta luta comum”.


*Sarah Lazare, publicado em In These Times (31 de Julho de 2026).

Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-cultura edicao-2026-09-03 (39) Odisseia Nolan Homero Guerra

A Odisseia de Nolan: do herói homérico ao anti-herói pós-moderno

A Odisseia é uma das principais epopeias da literatura grega antiga e uma das obras literárias mais antigas que sobreviveram. É atribuída a Homero, que teria vivido no século VIII antes da era corrente (AEC) e, tal como a Ilíada, centra-se nos acontecimentos associados a uma guerra, a de Troia, que terá ocorrido no século XIII ou início do século XII AEC, portanto há mais de 3000 anos. O realizador britânico Christopher Nolan, autor de filmes como a série dos Batman, Dunkirk ou Oppenheimer, realizou uma adaptação da Odisseia que tem levado multidões ao cinema neste verão de 2026 – e atraído também imensas críticas. O Maio publica, pela sua relevância, este texto de Andrés Ávila, da revista chilena El Porteño, para quem Nolan subverte completamente o sentido do poema. Isso “começa quando o filme coloca a culpa no centro da identidade do protagonista. Em Homero, a culpa constitui uma experiência que o herói deve viver e integrar; nunca o que o define. Na adaptação ocorre exatamente o contrário. A culpa deixa de ser uma dimensão da existência e passa a ser a essência do personagem. A partir desse momento, a viagem deixa de conduzir à autorrealização e passa a conduzir à negação de si próprio.”

Décadas mais tarde, os departamentos de economia universitários defendiam a existência de um “Homo economicus”. O Homo economicus representa o ser humano ideal, alguém que age de forma puramente racional, egoísta e focado em maximizar os seus próprios benefícios; isto é, alguém que calcula perfeitamente o custo-benefício de cada escolha. Todavia, o Prémio Nobel de Economia de 1978, Herbert Simon, apresentou o conceito de “racionalidade limitada” para caracterizar a essência da humanidade. Na mesma linha de raciocínio, a “economia comportamental”, popularizada por um autor recentemente falecido, Daniel Kahneman (cujo trabalho é admirável), provou que as decisões humanas são frequentemente influenciadas por emoções, sentimentos, vieses cognitivos, heurísticas e impulsos sociais, afastando-se inúmeras vezes do comportamento puramente mecânico, lógico, matemático e “racional”. Na prática, o Homo economicus não existe, é pura ilusão ou fantasia. É um “ser” utópico! É importante compreender que as pessoas agem repetidamente contra os seus próprios interesses: bebem demais, consomem drogas, fumam dois maços de tabaco por dia, entram em relações amorosas que as vão destruir, promovem conflitos que não têm condições de vencer, praticam a automutilação, mentem para si próprias sabendo que isso vai fazer que adoeçam, etc. A lista de situações que contraria o Homo economicus é quase infinita. Se a humanidade vivesse no paraíso, simplesmente iria destruí-lo, por puro tédio. A perfeição é insuportável para a natureza humana.

Os mentores do Homo economicus nunca leram, verdadeiramente, Dostoievski. Ele teria ridicularizado essa perspetiva sobre a humanidade. O “homem do subsolo”, muitas vezes, prefere agir contra os seus próprios interesses (regra geral, de forma destrutiva ou irracional) apenas para provar que tem livre-arbítrio, que tem autonomia, que tem poder de decisão, dado que ele não é “uma tecla de piano”, sem vontade própria. O “homem do subsolo” recusa a ideia de que a ciência e a lógica possam resolver todos os problemas humanos. Para os racionalistas 2+2 é igual a 4, mas para o homem do subsolo, 2+2 pode ser igual a 5. Isso não é ignorância, é uma fuga às convenções. Aliás, ele vai mais longe, quando afirma que “demasiada consciência é uma doença, uma verdadeira doença”!

O narrador também argumenta que o ser humano não quer ser uma simples peça na “engrenagem de um relógio”, quer ser livre. Porém, é essa mesma liberdade que o destrói. Afinal, a possibilidade/liberdade de escolha pode transformar-se num fardo demasiado pesado. Numa outra obra de Dostoievski, Os Irmãos Karamázov, o autor russo, através da voz do “grande inquisidor”, afirma que o homem não quer liberdade, quer pão! Essa ideia seria castradora para o homem do subsolo. É importante mencionar que, por vezes, a voz do “subsolo” vive dentro daquilo que é mais íntimo em cada um de nós. A nossa autoimagem fica abalada quando somos confrontados com os pensamentos do homem do subsolo. Por vezes, ele representa o espelho que nós nos recusamos a encarar, porque a imagem refletida pode ser tenebrosa.

O sociólogo contemporâneo que mais admiro, Pierre Bourdieu, defendeu que o Homo economicus está morto. Quase na mesma linha de pensamento, Friedrich Nietzsche afirmou (noutro contexto) que Deus está morto. Incluí Nietzsche no debate sobre a obra de Dostoievski porque, num determinado momento, o filosofo alemão afirmou que o escritor russo foi o único que lhe ensinou alguma coisa sobre psicologia, dado que consegue mergulhar com profundidade na complexidade da alma humana. Adentra-se no abismo da nossa consciência. É importante lembrar que Nietzsche raramente fazia elogios intelectuais a alguém. Dostoievski foi dos poucos a ter esse privilégio! Mas os elogios à obra de Dostoievski vieram de inúmeros quadrantes intelectuais. Certa vez, Liev Tolstoi disse: se virem Dostoievski, digam-lhe que o amo. Porém, eu quero perguntar: como não amar Dostoievski, após o enorme legado que nos deixou?

O livro Memórias do Subterrâneo está dividido em duas partes e funciona como uma espécie de diário do protagonista. Fiódor Dostoievski escreveu esta obra várias décadas antes de “nascer” o existencialismo de Sartre ou o absurdismo de Camus. Estas correntes filosóficas preconizam que o ser humano não nasce com um destino ou propósito pré-definido; aliás, Sartre afirma que “a existência precede a essência”. Numa outra obra impactante, O homem em busca de um sentido, de Viktor Frankl, o autor defende que o ser humano sem propósito já terá perecido antes mesmo de a morte física chegar. Não será essa a verdadeira condição do protagonista de Memórias do Subterrâneo? Contudo, as obras destes três autores (Sartre, Camus e Frankl) incluem recorrentemente fragmentos do “homem do subsolo”.

Na primeira parte do livro, o homem do subsolo tem 40 anos e afirma preferir viver num galinheiro a suportar os constrangimentos de habitar num “palácio de cristal”. O palácio de cristal representa a alegada perfeição do mundo que o homem do subsolo despreza. A humanidade precisa de caos e de sofrimento para existir, para se sentir viva. O homem do subsolo é um ex-funcionário público (aposentado) que recebeu uma pequena herança, vive na cidade de São Petersburgo e escolheu estar isolado da sociedade. Esta primeira parte é um magistral monólogo filosófico. Por vezes, o protagonista conversa sozinho, discute com o leitor, contradiz-se, insulta o leitor, pede desculpa e, depois, afirma que o pedido de desculpas era falso. Esta é a essência do “homem do subsolo”. Ele fica a remoer as ideias permanentemente, tem ódio de si próprio por não conseguir agir, mas depois acaba por se defender na frase seguinte e remata com o argumento de que odeia tudo e todos. O narrador é um homem rancoroso, amargo, mesquinho, paradoxal, cheio de ressentimentos e incapaz de estabelecer qualquer relação “saudável” com os outros. Obviamente que o “subsolo” não é um lugar físico, é algo interno, dentro dele, mas que nos obriga também a entrar dentro do nosso lado sombrio. Ele diz abertamente aquilo que qualquer um de nós teria terror simplesmente de pensar. É por isso que o livro é tão perturbador.

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Na segunda parte, são narrados alguns episódios da vida do protagonista, quando ele tinha pouco mais de vinte anos. Nesta parte do livro, o homem do subsolo tenta demostrar como a sua “filosofia” se aplica na prática (e o resultado é doloroso para o leitor). Ele relata alguns episódios da sua vida, mas há três que são os principais: o embate com o oficial, o jantar com os ex-colegas de escola e o encontro com Liza (uma jovem prostituta que ele conheceu num bordel).

No primeiro episódio, o nosso protagonista, ao caminhar na rua, leva um encontrão casual de um oficial desconhecido. Fica ofendido e sente-se humilhado; por isso, planeia de forma minuciosa uma “vingança” que consiste simplesmente em não se desviar dele, num próximo encontro, apenas para não se sentir diminuído. Fica cerca de dois anos a planear o reencontro. Inclusive, pede dinheiro emprestado para comprar uma “roupa decente”, de modo a estar apresentável no dia em pretende devolver o encontrão. Tudo isto parece caricato, mas esta é a natureza humana quando o nosso comportamento é moldado pelas “energias” vindas dos porões do nosso subconsciente.

A segunda história é narrada pelo jovem protagonista quando o próprio se autoconvida para um jantar de despedida de um antigo colega de escola. Ele passa a noite inteira a insultar os ex-colegas, alternando entre sentimentos de superioridade intelectual e de humilhação profunda. Ninguém quer que ele vá ao jantar (nem ele próprio quer ir), mas, obviamente, acaba por marcar presença. Na maior parte do tempo é ignorado ou humilhado pelos demais. O homem do subsolo está alcoolizado e fica ainda mais desagradável.

Este jantar acaba por contextualizar o terceiro episódio, ou seja, após o jantar fracassado, ele vai a um bordel (para tirar desforro dos ex-colegas) e conhece Liza. Num momento de aparente empatia, o jovem homem do subsolo faz um discurso comovente sobre a miséria da vida dela, tenta convencê-la a mudar de vida (oferecendo-se como seu protetor) e disponibiliza-lhe o seu endereço. Depois, descreve com maldade como ela iria adoecer, envelhecer e morrer sem ninguém. Quando, alguns dias mais tarde, Liza o vai visitar no seu quarto miserável, ele (que nesse momento estava a discutir com o seu criado) sente-se exposto e humilhado pela sua própria pobreza. Em vez de acolhê-la, resolve insultá-la e rejeita-a com profunda crueldade. Liza vai embora, deixando em cima da mesa o dinheiro que ele tentou usar para a humilhar (o que elimina qualquer tipo de conexão verdadeira). Nesta ação Liza tem alguma nobreza de carácter, mas é vinda de alguém que ele considerava inferior, por isso o protagonista fica submerso em raiva, aumentando o seu isolamento. Depois disso, nunca mais se voltam a encontrar. Em parte, a sua amargura terá vindo daqui. Ele rejeitou qualquer possibilidade de ligação afetiva ou satisfação, por mera falta de compaixão.

Às vezes agimos contra nós próprios, contra o nosso próprio bem. Escolhemos sofrer, talvez por hábito, apenas para provar que somos livres, que temos vontade própria. Isso é absolutamente desconcertante, mas real.

Volto a sublinhar que o homem do subsolo demonstra que às vezes agimos contra nós próprios, contra o nosso próprio bem. Escolhemos sofrer, talvez por hábito, apenas para provar que somos livres, que temos vontade própria. Isso é absolutamente desconcertante, mas real. Podemos não o fazer de forma consciente, mas fazemo-lo! O ser humano é contraditório, é capaz de agir contra a sua própria felicidade, só para sentir que tem o poder de decidir. Talvez a maior crueldade na vida do homem do subsolo seja, justamente, a necessidade de viver intensamente aquilo que o fere e o faz sofrer.

O “homem do subsolo” mostra uma imagem aterradora e desconfortável da natureza humana, mas é demasiado honesta para que possa ser ignorada. O protagonista revela o lado mais sombrio da nossa essência, cheia de ressentimento, orgulho, raiva, rancor, ódio e, principalmente, a capacidade para se autoanular e autodestruir. Essa é a essência do “homem do subsolo” e, em certas situações, de nós mesmos. O livro não oferece respostas finais, não é um manual pronto, é algo para nos “despir”, para nos deixar “transparentes”, muito além daquilo que gostaríamos de ver e de mostrar.

Aqui fica o início do livro para despertar a vossa curiosidade de leitura:

“Eu sou um homem doente… Sou um homem mau. Sou um homem nada atraente. Penso que sofro do fígado. Aliás, não percebo patavina da minha doença nem sei ao certo de que é que sofro. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Além do mais, sou supersticioso em extremo; bem, o suficiente, ao menos, para respeitar a medicina. Tenho instrução bastante para não ser supersticioso, mas sou supersticioso. É por maldade que não me quero tratar. Isto é uma coisa que vocês, leitores, por certo não podem compreender. Pois, mas eu compreendo. É evidente que não sou capaz de explicar a quem prejudico neste caso com a minha maldade; sei muito bem que nem aos médicos posso ‘lixar’, de maneira nenhuma, ao recusar deixar-me tratar por eles; sei, melhor do que qualquer pessoa, que com tudo isso só me prejudico a mim mesmo e a mais ninguém. Mas mesmo assim, se não me trato, é por maldade. Dói-me o fígado, pois deixá-lo doer e que doa ainda mais!”
categoria-internacional Volkswagen Alemanha IG Metall Guerra edicao-2026-09-03 (39)

Volkswagen: entre a espada e o desemprego

Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

No dia 9 de Julho, no âmbito de uma acção do sindicato metalúrgico, IG Metall, trabalhadores da VW paralisaram o trabalho e concentraram-se frente aos portões das fábricas por todo o país. 

Estas acções foram, porém, fortemente entravadas pelo próprio sindicato metalúrgico alemão, o IG Metall! Assim, embora estejam em causa nada menos do que 100 mil dos cerca de 657 mil postos de trabalho em todo o mundo, o IG Metall só “mobilizou” delegados sindicais e membros de conselhos de empresa, não os sindicalizados em geral. A justificação da cúpula: “As acções são dos delegados sindicais e membros de conselhos de empresa do IG Metall. São acções de informação e protesto, não greves de advertência; tanto no âmbito do acordo colectivo de trabalho da Volkswagen AG como no sector da indústria metalúrgica e eléctrica, estamos actualmente em período abrangido pelo dever de paz laboral.” O próprio sindicato escreve que na sede do grupo, em Wolfsburg, maior fábrica de automóveis do mundo, que conta quase 70 mil trabalhadores, “participaram na acção 500 metalúrgicos”. Na unidade de Kassel-Baunatal, o IG Metall mobilizou cerca de 200 dos 15 mil trabalhadores. O que domina o estado de espírito dos operários, em contrapartida, é a ideia de greve. 

A destruição de forças produtivas e, portanto, de força de trabalho, produção, etc., está de novo a tomar proporções assustadoras. O desmantelamento de unidades de produção e a destruição de inúmeros postos de trabalho (incluindo os que dependem secundariamente da indústria) vai a par de ataques implacáveis aos acordos colectivos, aos salários, ao horário de trabalho e a outras conquistas. A política dos grandes grupos económicos está a arrastar regiões inteiras para a ruína. Os capitalistas podem contar com o apoio da Comissão Europeia e do Governo Merz-Klingbeil (o chanceler, democrata-cristão, e o vice-chanceler, social-democrata, NdT).

No centro de tudo, a indústria automóvel. Os recuos nas conquistas e no contrato colectivo registados nos anos transactos já “renderam” aos trabalhadores de todas as marcas do grupo VW montantes de “reduções de custos” na ordem dos milhares de milhões, com o consentimento do IG Metall. Assim foi o “compromisso” de 2024, que deu na eliminação de 50 mil postos de trabalho ao nível do grupo, em troca de uma garantia de manutenção das unidades fabris até ao ano de 2030. Agora, ao anunciar a liquidação de mais 50 mil postos de trabalho em todo o mundo, a administração do grupo rasga a garantia de manutenção das unidades: Zwickau, Emden, Neckarsulm, Hannover são para encerrar.

Ao anunciar a liquidação de mais 50 mil postos de trabalho em todo o mundo, a administração do grupo rasga a garantia de manutenção das unidades de Zwickau, Emden, Neckarsulm, Hannover.

Na reunião de 9 de Julho do Conselho Fiscal do grupo, o estado da Baixa Saxónia e os trabalhadores responderam com um claro “não”. O membro da administração da VW responsável pelos assuntos legais perguntou então se “os senhores” tinham consciência do alcance jurídico do seu voto. Os sindicalistas viram na interpelação uma ameaça velada de que seriam passíveis de acções de indemnização por danos causados (WirtschaftsWoche, 17-7-2026).

Uma questão de poder: desmontar a Lei Especial da VW 

Escreve a revista WirtschaftsWoche: “No fundo, o programa põe a questão do poder; é com ela que a Administração Executiva e as famílias proprietárias confrontam os trabalhadores e o estado da Baixa Saxónia.” O lado do capital, sobretudo as famílias Porsche e Piëch, exige a “reestruturação” do grupo, passando a “marca central, a VW” a ficar “independente”. Ficaria sem efeito a Lei Especial da VW e, consequentemente, neutralizado o estado da Baixa Saxónia e o “lado dos trabalhadores” (ver caixa).

Na óptica da facturação, o grupo é o maior fabricante automóvel do mundo. Em 2024, trabalhavam na Volkswagen mais de 684 mil trabalhadores. São agora, em todo o mundo, cerca de 657 mil.

Em 2025, o lucro do grupo Volkswagen caiu de 12.400 para 6900 milhões de euros. Só na Porsche, os lucros recuaram de mais de 5200 milhões para 90 milhões. Uns 3 mil milhões de lucros cessantes resultam da política aduaneira americana de Trump. Somam-se-lhes “quedas maciças dos lucros” na divisão de camiões, marcas MAN e Scania. O que implica, porém, que outras divisões do grupo tenham conseguido apresentar uma “boa” evolução dos proveitos. Os “accionistas” estão para receber cerca de 2600 milhões de euros! 

Em vez de automóveis ligeiros, o “Iron Dome” 

Segundo informações da revista Capital de 13-7-2026, o Governo SPD-Verdes da Baixa Saxónia está a ponderar adquirir uma participação na fábrica de Osnabrück da VW, que tem, caso contrário, encerramento previsto para o ano que vem. O objectivo da entrada de capital na VW de Osnabrück é a “reconversão” da produção automóvel à produção de armamento. “Tal opção é, pois, vista, no governo estadual, nomeadamente, como modelo para outras fábricas da VW cujo futuro está actualmente em discussão” (Capital, 13-7-2026). O método segue o da entrada da Baixa Saxónia e do Estado federal no capital dos estaleiros Meyer, em Papenburg (em que adquiriram uma participação total superior a 80%). Os estaleiros passariam a também poder produzir navios de guerra em Papenburg.

No caso de Osnabrück, está, ainda, em negociação a entrada do grupo armamentista israelita Rafael. É ao que alude o presidente do Grupo VW, Blume, quando vem dizer que “há soluções mais inteligentes do que encerrar fábricas” (Bild am Sonntag, 12.7.2026). Blume mantém a meta da destruição de cem mil postos de trabalho.

É, pois, evidente que vai ganhando tracção a conversão à produção para a guerra.

O sindicato IG Metall anuncia um “Outono quente”. 

O que é a VW e a Lei Especial da VW? 

Em Maio de 1937, formou-se, sob a batuta nazi através da DAF (Frente do Trabalho Alemã), a “Gesellschaft zur Vorbereitung des Deutschen Volkswagens mbH”, ou Sociedade de Preparação do Carro do Povo Alemão SARL, de onde emergiu a fábrica da VW. A Volkswagen é uma criação dos nazis, financiada pelo roubo das caixas de contribuições e fundos de greve, das sedes e locais dos sindicatos, desmantelados em 1933. A VW foi construída com o dinheiro da classe trabalhadora.

Em 1949, o governo militar britânico entregou a fábrica da VW ao Estado Federal e ao estado federado da Baixa Saxónia. O conflito criado pela política de privatização do Governo Federal, encabeçado pela CDU, com o estado da Baixa Saxónia, dirigido pelo SPD, e os trabalhadores e os sindicatos, redundou, em 1960, na lei especial da VW, que serviu de “compromisso”, de compensação pelas reivindicações que os sindicatos e os trabalhadores apresentavam, na qualidade de proprietários de facto. O cerne do compromisso, que tornou possível a privatização que criou a Volkswagen AG, é um acordo de prevenção do surgimento de um grande accionista dominante (com maioria superior a quatro quintos), conjugado com disposições de vasto alcance em matéria de co-gestão enquadradas no “compromisso histórico” de 1952.

Considerando as “liberdades fundamentais da UE”, “na opinião da Comissão estas considerações históricas são irrelevantes”. 

Em 2004, o “Comissário para o Mercado Interno” da UE, Bolkestein, deu início à ofensiva contra a lei especial da VW.

Em 23 de Outubro de 2007, o TJUE, Tribunal de Justiça da UE, proferiu uma decisão contra a Alemanha por motivo de “violação do Tratado por um Estado-membro”. A violação em causa era a das liberdades fundamentais da UE, artigos 43º e 56º do Tratado CE. O artigo 43º do Tratado CE prevê que, no âmbito da liberdade de estabelecimento, quem detenha uma participação no capital de uma sociedade possa exercer influência certa e condizente nas decisões dessa sociedade, podendo, nesse contexto, determinar a sua actividade. O artigo 56º do Tratado CE proíbe restrições à circulação de capitais.

A fundamentação da violação do Tratado pela Alemanha remeteu para o nº 1 do § 2º e para os nos 1 e 3 do § 4º da “Lei Especial da VW” de 21 de Julho de 1960, em cujos termos nenhum accionista pode exercer mais de 20 por cento dos direitos de voto, ainda que detenha uma participação de capital superior. A disposição permite, assim, bloquear aquisições, mudanças de local de produção e, consequentemente, encerramentos de unidades de produção. A VW ficou, pois, sob determinadas condições, protegida da especulação, desde que o estado da Baixa Saxónia fizesse uso da sua posição.

Quando o Governo Merkel “reformou” a Lei da VW, acabou por manter como estava o nº 3 do § 4º, de modo que continua a ser necessária a maioria de “mais de quatro quintos” para conseguir impor aquisições, etc. Ante a ameaça da situação emergente na luta de classes, o Governo achou por bem não fazer concessões maiores à Comissão Europeia. A Comissão Europeia teve de se contentar.

A Comissão declarou que as “considerações históricas” invocadas para o caso da VW são, para ela, “irrelevantes”. Sem poder entrar aqui em pormenores, da importância de Porsche e Piëch para a produção de armamento do Estado nazi, baseada na exploração e trabalho escravo de trabalhadores forçados e prisioneiros dos campos de concentração e por aí fora, o caso é que as “considerações históricas” nada mais reflectem do que o facto de este grupo económico ter surgido da espoliação do dinheiro dos sindicatos e do sangue dos trabalhadores forçados e prisioneiros dos campos de concentração. Para a Comissão Europeia: “irrelevante”. Mas não só: a Comissão exige que se volte a saquear a classe trabalhadora!


Traduzido e adaptado do jornal freie Plattform für Arbeiterpolitik, nº 121, de 29 de Julho de 2026.

Clima Desigualdade Guerra categoria-um livro edicao-2026-07-23 (37)

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática

Entre o colapso climático, a inação política própria de um sistema económico que o sustenta e a ascensão da extrema-direita, Quebrar em caso de emergência climática, escrito a várias mãos pelo coletivo Climáximo a convite da editora Tigre de Papel, desafia-nos a olhar de frente as catástrofes climáticas que têm acossado o planeta e a sonhar com o fim do capitalismo como a revolução que ainda pode devolver esperança ao futuro.

A emergência presente no título é um verdadeiro apelo à ação. A emergência em responder ao colapso é real: “A perspetiva de futuro sem uma revolução global resultará no fim do clima estável que permitiu o florescimento da atual civilização humana” (p. 23). 

Numa das suas obras1, Slavoj Žižek cita Orwell a propósito da questão das diferenças de classe (todos nós denunciamos as distinções de classe, mas são muito poucos os que querem seriamente aboli-las) para ilustrar que a possibilidade da transformação é evocada para garantir que a ação transformadora não terá lugar. Nesta linha de pensamento, e muito resumidamente, “a verdadeira coragem não é imaginarmos uma alternativa, mas aceitarmos as consequências do facto de não haver qualquer alternativa claramente discernível, o sonho de uma alternativa é um sintoma de cobardia teórica, funcionando com um fetiche que nos impede de pensarmos até ao fim o beco sem saída da nossa situação”. Este livro, Quebrar em caso de emergência climática, transporta-nos claramente até aqui, dá-nos essa imagem. E fá-lo quer no plano geral – “Não há mais tempo para a ilusão de que governos, instituições e empresas estão a fazer algo que não seja levar-nos para o fundo” (p. 9) –, quer no plano concreto: “Os Estados Unidos, o maior produtor mundial de petróleo e gás, o segundo produtor mundial de carvão e o maior emissor de gases com efeito de estufa da história, abandonam o acordo, em 2025, pela segunda vez” (p. 10). “Depois de invadir a Venezuela, Trump anunciou “o império fóssil vinha para tomar as reservas petrolíferas e determinar o rumo da sociedade da Venezuela” (p. 10).

Com este cenário, a verdadeira declaração subversiva de independência parte do pressuposto de que “pensar é aprender de novo a ver e a dirigir a atenção, a renomear a realidade”2, uma condição suficiente mas também necessária para ler este livro, que nos transmite uma sinceridade comovente ao reconhecer a responsabilidade individual e que, com toda a clareza e sem eufemismos, renomeia a realidade através de três pontos: o sistema capitalista provocou a crise climática; as elites estão a executar uma guerra sem precedentes; qualquer pessoa viva tem o dever moral, material e histórico de agir para parar esta guerra. Ou seja, o caos climático e a guerra não surgem só do ponto de vista interseccional, mas da própria essência e o nosso dever moral deve impelir-nos à ação. É, pois, esse convite que não só preenche as páginas deste livro, mas nos faz levantar da cadeira e sair a correr. Não para fugir, mas para agir. Aliás, ao introduzirem-se, habilmente, relatos de ação direta, a visualização mental da possibilidade de ação é inequívoca.

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Este livro possui, também, uma importante dimensão educativa. Se existe um campo em que a promessa de transformação é mais reiterada, é precisamente na educação, apresentada como motor de mobilidade social, como condição de emancipação, como resposta às desigualdades. E, no entanto, o que se observa é adestramento do seu papel. A Educação Ambiental é atirada para o desenvolvimento de competências utilitárias, para a adaptabilidade, no fundo, para a autorresponsabilização. O coletivo Climáximo, com esta escrita de vertente pedagógica, alia rigor conceptual e inteligibilidade, binómio próprio de quem domina o tema. O livro fornece toda a lexicologia fundamental para pensarmos no sentido de renomear a realidade: gases com efeito de estufa (GEE) , aquecimento global, o que é o clima, orçamento de carbono, neutralidade carbónica, ou a importância do fim dos combustíveis fósseis até 2030, a emergência! Cimenta as definições em dados concretos e ilustrados: “A Terra já aqueceu e arrefeceu antes, assim como variaram também os níveis de GEE na atmosfera, mas é precisamente pelo facto de as alterações no clima terrestre nunca terem sofrido alterações tão grandes em tão pouco tempo que estamos perante um evento histórico dramático” (p. 28). Faz conexões com a nossa vida atual: “Há ainda importantes impactos sociais e económicos, com consequências diretas e indiretas nos meios de subsistência e condições de povos inteiros, e exprimindo‑se frequentemente através de um aumento do custo de vida diretamente relacionado com a escassez (a ‘mão invisível’ do mercado a funcionar: menos comida implica comida mais cara). Pois sim, a crise climática já está a ter impacto na tua vida, mesmo que ainda não tenhas parado um pouco para pensar nela” (p. 35). Dá-nos uma visão utilitarista3 da ação em termos de ativismo, visível na forma como comparam o ganho da ação individual com a luta ativista. Num dos momentos do livro sustentam que um “monge franciscano climático” (p. 113), mesmo adotando um estilo de vida extremamente sóbrio, reduziria cerca de duas toneladas de emissões relativamente à média portuguesa, enquanto uma pessoa envolvida na luta antipetróleo poderia contribuir para evitar emissões significativamente superiores. 

Tudo isto pode parecer uma distopia – exemplo que dão no livro, com o filme Don’t look up (Não Olhem para Cima) –, mas não é. “Foi por isso mesmo que estas elites apostaram na extrema-direita como a camada violenta que garantirá a continuação da exploração, cada vez mais exacerbada, até chegarmos a pontos de colapso” (p. 41). Na mesma linha de Žižek, o Climáximo adverte para o aceleracionismo que convém à extrema-direita “Eles vieram para manter a exploração, para a acelerar até ao último momento” (p. 10). Esta leitura encontra eco nas reflexões de Naomi Klein, que alerta para a existência de um “sobrevivencialismo monstruoso e supremacista” por parte dos magnatas da tecnologia. Por sua vez, Leonor Canadas, do coletivo Climáximo, relembra, numa sessão de apresentação, que “estamos mais próximas de ser refugiadas climáticas do que ser bilionárias”. A célebre frase “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” introduz uma secção preciosa de desconstrução da inevitabilidade da vida no seio do sistema capitalista e deste éter invisível, bem como a responsabilidade sobre a perpetuação da crise climática, não esquecendo que “o modelo energético fóssil tornou‑se a espinha dorsal da dominação colonial” (p. 78).

A formulação da frase “a guerra mata e é por isso que o debate sobre a guerra é tão intenso”4 pode ajudar a compreender a força com que Quebrar em caso de emergência climática evoca as vítimas do inferno climático e descreve a crise atual em termos de guerra. Define-se urgência suprema como o momento em que os valores mais profundos de uma comunidade e a sua própria sobrevivência coletiva se encontram sob ameaça iminente, exigindo decisões extraordinárias. É precisamente nesse estado de exceção que o coletivo Climáximo situa a emergência climática, e a sua conexão com Gaza. Gaza interpela-nos porque ali se revela, em toda a sua nudez, uma forma de poder que ameaça reorganizar o mundo inteiro, uma política de desenraizamento5 da própria condição humana, ou seja, uma espécie de vida pós-humana. É esta dissociação de nós mesmos que surge no livro e da qual emerge a referência à crise dos cuidados, conceito de Nancy Fraser, “como uma crescente dificuldade de dar resposta às necessidades de cuidados e de reprodução das comunidades” (p. 90). Pensar a interrupção seria, então, perguntar-nos que laços, que memórias e que formas de enraizamento continuam a ser capazes de impor um limite à força. No documentário, Com a Alma na Mão, Caminha, Fatem diz-nos que “antes da guerra só tirava fotografias a coisas belas, agora é só destruição. Mas é uma forma de ainda procurar vida no meio da morte”.

Há esperança? Quebrar em caso de emergência climática responde sem hesitação: a revolução. “É impossível descrever o que acontecerá sem usar a palavra revolução. As petrolíferas sabem‑no, os governos sabem‑no, os ultrarricos sabem‑no, e já é mais que tempo de nós, classe trabalhadora, o sabermos” (p. 98). David Harvey afirma que o capital nunca cairá por si mesmo. Haverá que empurrá-lo. É nesta convicção que o coletivo Climáximo apresenta um Plano de Desarmamento e um Plano de Paz. De que precisamos mais?


1Žižek, A Coragem do Desespero, Relógio d’Água, 2017.
2Amador Fernández-Savater, La batalla del pensamiento, NED Ediciones, abril de 2026.
3Na perspetiva utilitarista de justiça a deliberação de uma ação a realizar tem em vista o maior alcance de resultados.
4Michael Walzer no livro A Guerra em Debate, Cotovia 2004.
5Amador Fernández-Savater.

Armamento Defesa Guerra categoria-política edicao-2026-07-02 (34)

Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial

O horror da guerra: vidas perdidas, casas destruídas; inválidos e mutilados; milhões de deslocados, logo, refugiados; espécies extintas, vastos danos ambientais; o planeta mortificado. Há, porém, quem não sofra por aí além com a guerra: o complexo militar-industrial de empresas das grandes economias, a indústria de combustíveis fósseis e os monopólios globais da alimentação — e a grande banca.

ilustração: Mantraste

No dia 17 de Janeiro de 1961, o então presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, alertou, no seu discurso de despedida, contra a formação de um complexo militar-industrial. “Fomos obrigados a criar uma indústria de armamento permanente de dimensão vasta... Mas devemos proteger-nos de que o complexo militar-industrial adquira influência indevida, procure-a ele ou não. Há e continuará a haver potencial para que aumente desastrosamente o descaminho de poder.” Desde o aviso de Eisenhower, o complexo militar-industrial tem crescido como um cogumelo nuclear, permitindo extrair lucros imensos de guerras intermináveis.

A administração Trump diz que a guerra contra o Irão custou, até agora, 25 mil milhões de dólares. O número, adiantado pelo Pentágono, reflecte uma conta selectiva dos custos que a Operação Epic Fury está a somar: o preço dos mais de 2 mil mísseis Tomahawk e Patriot já disparados, dos aviões de guerra que já voaram e, em alguns casos, se perderam e do restante do equipamento já triturado. Mas é uma vasta subestimação. O valor real andará mais pelos 3 biliões de dólares: 4 mil dólares por família americana nos próximos cinco anos.

Para onde vai este dinheiro todo? Para empresas que lucram com a economia de guerra: empreiteiros da defesa, fornecedores de armas, produtores de energia, empresas alimentares e investidores financeiros.

Desde que os EUA e Israel atacaram o Irão, no dia 28 de Fevereiro, as empresas de defesa norte-americanas, incluindo a Lockheed Martin, a Northrop Grumman e a RTX, viram o valor das suas acções subir entre 25 e 30 mil milhões de dólares num só dia. Em Israel, a Elbit Systems passou a ser a empresa cotada de maior valor do país, subindo as suas acções 45% desde Janeiro. Na Europa e no Reino Unido, as acções do sector da defesa dispararam. A guerra cria aos governos a necessidade de reabastecerem os arsenais, assim disparando a procura. A Lockheed Martin, a Boeing e a Northrop Grumman, três das maiores empresas de material de defesa do mundo, anunciaram, cada uma, ter carteiras de encomendas recorde no final do primeiro trimestre de 2026.

Criando os conflitos uma forte procura de equipamento militar, munições e sistemas de defesas, incham os livros de encomendas e a facturação dos fabricantes de armas. As vendas de armas têm sido uma fonte de receitas e lucros cada vez mais importante para os grandes fabricantes de armamento. Em 18 dos últimos 20 anos, foram os EUA o país que deteve a maior quota do mercado global de armamento. Os negócios mais lucrativos são os que dizem respeito a sistemas como os caças F-16 e F-35 (Lockheed Martin), os caças F-15 e os helicópteros de ataque Apache (Boeing), bombas de precisão e mísseis ar-terra (Raytheon) e sistemas de defesa antimísseis (Raytheon e Lockheed Martin). 

Nos últimos anos, o maior e mais controverso mercado armamentista dos EUA tem sido o Médio Oriente, particularmente as vendas a países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que têm estado metidos numa guerra devastadora no Iémen e a alimentar conflitos noutros pontos da região. Além, claro, das vendas em grande escala a Israel para a ocupação militar de Gaza, do Líbano e da Síria. Para conseguirem pôr os governos a gastar em armamento, os fabricantes gastam milhares de milhões em acções de lóbi e na promoção de representantes seus para cargos governamentais. Por exemplo, dos últimos cinco secretários da Defesa dos EUA, quatro vieram da indústria de armamento.

Somam-se os trabalhos de logística e reconstrução em zonas de guerra. O caos da guerra, a falta de supervisão governamental e os volumes de fundos injectados no esforço de reconstrução revertem em lucros para muitas empresas. O mais conhecido empreiteiro contratado para a reconstrução e logística no Iraque e no Afeganistão foi a Halliburton. Quando ambas as guerras começaram, a Halliburton coordenou uma vasta gama de funções de apoio às tropas no terreno, desde a instalação de bases militares à manutenção de equipamentos e ao fornecimento de serviços de alimentação e lavandaria. A Halliburton multiplicou por mais de dez o valor dos seus contratos durante os quatro anos da ocupação militar dos EUA no Iraque e no Afeganistão.

 

Estando a vida a ser aniquilada em Gaza, e a Cisjordânia submetida a uma escalada de ataques, este relatório mostra por que razão o genocídio israelita continua: porque é lucrativo para muitos”, diz o relatório Albanese

 

A Halliburton lucrou também com a construção de refeitórios e o fornecimento de refeições em aproximadamente 60 bases em todo o Iraque. Uma comissão do governo dos EUA apurou que, do contrato de 1200 milhões de dólares, mais de 350 milhões de dólares foram pagos por serviço nenhum prestado (36% das refeições). O processo de reconstrução afegão também foi rico em casos de fraude, desperdício e abuso. Uma estrutura de missão económica que gastou 43 milhões de dólares numa estação de serviço que nunca foi usada, outros 150 milhões de dólares gastos em luxuosos alojamentos para conselheiros económicos dos EUA e 3 milhões de dólares em barcos de patrulha para a polícia afegã que também nunca foram usados. Parte significativa dos 2 mil milhões de dólares em contratos de transporte com empresas norte-americanas e afegãs acabaram como luvas a senhores da guerra, oficiais da polícia ou como pagamentos aos talibãs, chegando a 1500 dólares por camião, ou meio milhão de dólares por cada grande comboio de 300 camiões.

Um relatório de Francesca Albanese ao Conselho de Direitos Humanos da ONU aponta que empresas de todo o mundo têm participado a fundo no apoio a Israel nos 21 meses do assalto deste a Gaza. “Estando a vida a ser aniquilada em Gaza, e a Cisjordânia submetido a uma escalada de ataques, este relatório mostra por que razão o genocídio israelita continua: porque é lucrativo para muitos”, diz o relatório. O relatório Albanese critica fabricantes de equipamento pesado, como a Caterpillar e a Volvo, por alegadamente fornecerem maquinaria pesada utilizada em demolições em massa de casas, mesquitas e infra-estruturas em Gaza e na Cisjordânia. O relatório elenca empresas de gestão de activos, incluindo a Pimco (propriedade da empresa de serviços financeiros alemã Allianz) e a Vanguard como grandes compradoras de obrigações do Tesouro israelitas.

Após a destruição total de Gaza pelas forças armadas israelitas, financiada por ajuda norte-americana, o presidente dos EUA, Trump, criou um Conselho de Paz, em cujo âmbito sessenta governos acordaram em pôr à disposição verbas para a “reconstrução” de Gaza. Um mapa do “Plano Director” americano apresenta uma zona reservada a “turismo costeiro”, com 180 arranha-céus, bem como várias zonas reservadas a “áreas residenciais”, “complexo industrial, centros de dados, indústrias de ponta” e “parques, agricultura e instalações desportivas”. “Grande negócio imobiliário”, disse Trump.

No entanto, como a guerra com o Irão está a revelar, não é só lucros para empreiteiros da área da defesa e fabricantes de armas. O mais forte impacto económico da guerra com o Irão tem sido o disparar dos preços da energia. Cerca de um quinto do petróleo e gás do mundo é transportado através do estreito de Ormuz, mas esses carregamentos pararam, para todos os efeitos, no final de Fevereiro. O resultado tem sido uma montanha-russa de oscilações de preços nos mercados energéticos, para benefício de algumas das maiores empresas de petróleo e gás do mundo.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia proporcionou às cinco maiores empresas mundiais de petróleo e gás lucros recorde de 192 mil milhões de euros (209 mil milhões de dólares) em 2022, tendo elas distribuído 102 mil milhões de dólares (93 mil milhões de euros) aos seus investidores na forma de dividendos e recompras de acções. Na guerra do Irão, os principais beneficiários têm sido as gigantes petrolíferas europeias e norte-americanas. Os lucros da BP mais do que duplicaram para 3200 milhões de dólares (2400 milhões de libras) nos primeiros três meses do ano, graças ao que a empresa descreveu como um desempenho “excepcional” da sua divisão comercial. A Shell também superou as expectativas dos analistas, ao anunciar um aumento dos lucros do primeiro trimestre para 6920 milhões de dólares. Outra gigante internacional, a TotalEnergies, viu os seus lucros darem um salto de quase um terço, para 5400 milhões de dólares no primeiro trimestre de 2026, puxados pela volatilidade nos mercados do petróleo e da energia. As gigantes norte-americanas ExxonMobil e Chevron viram os seus lucros cair em comparação com o período homólogo do ano passado por causa das perturbações do abastecimento proveniente do Médio Oriente, mas ambas esperam vê-los subir mais durante o ano, mantendo-se o preço do petróleo significativamente acima de quando a guerra começou.

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E há os bancos. Mercados voláteis com preços a subir e descer a pique potenciam os volumes negociados, produzindo lucrativas comissões para os grandes bancos de investimento e corretoras. Alguns dos maiores bancos norte-americanos viram os seus lucros acelerar durante a guerra no Irão. A divisão comercial do JP Morgan registou receitas recorde de 11 600 milhões de dólares nos primeiros três meses de 2026, contribuindo para que o banco, no seu todo, conseguisse o seu segundo maior lucro trimestral de sempre. Entre os restantes bancos do grupo dos “Seis Grandes” dos EUA — que incluem o Bank of America, o Morgan Stanley, o Citigroup, o Goldman Sachs e o Wells Fargo, além do JP Morgan — os lucros de todos eles aumentaram substancialmente no primeiro trimestre do ano. No total, os bancos registaram 47 700 milhões de dólares de lucros nos primeiros três meses de 2026.

Com o estreito de Ormuz, no Golfo, ainda bloqueado, não foram só o petróleo e o gás a registar aumentos acentuados de preços e escassez crescente; caiu também o abastecimento de produtos alimentares e agrícolas críticos, disparando os preços. O punhado de mega-empresas que controlam a grande maioria do nosso abastecimento alimentar global tem feito lucros à grande. Das sementes deitadas ao solo aos produtos postos nas prateleiras dos supermercados, estas empresas ditam preços, limitam as escolhas dos consumidores e espremem os agricultores e trabalhadores independentes. 

Os preços dos fertilizantes à base de azoto, que já estavam elevados antes do início da guerra devido ao congestionamento da oferta, registaram agora aumentos espectaculares. Os preços da ureia subiram cerca de 36% nos EUA e 70% no Egipto, país de pobreza extrema. Os preços dos alimentos e dos fertilizantes disparam, para proveito destes grandes conglomerados agrícolas. A CF Industries Holdings Inc. e a Nutrien Ltd. registaram, ambas, aumentos de quase 20% nas vendas no último trimestre, beneficiando dos preços mais elevados dos fertilizantes nitrogenados, aplicados nos campos de milho e soja para sustentar a produtividade das safras. “O conflito com o Irão representa o terceiro grande choque sofrido pela oferta e procura no mercado global do azoto nos últimos seis anos, pondo a nu a fragilidade da cadeia global do abastecimento de azoto”, referiu Chris Bohn, o director executivo da CF Industries. “Num ambiente de perturbações geopolíticas frequentes, vemos o muito que valem a verdadeira estabilidade da nossa rede, que é difícil de replicar, e os nossos activos de superior qualidade” (por outras palavras, lucros enormes).

Marx disse uma vez que a história da humanidade é a história da luta de classes. É, também, uma história de guerras sem fim. O capitalismo moderno do século XX foi o mais sanguinário da história. Tem-se estimado em 187 milhões o número total de mortes causadas pelas suas guerras ou com elas conotadas, o equivalente a mais de 10% da população mundial em 1913. O século XXI tem dado continuidade a este pesadelo, mundo fora. Guerras intermináveis causam a morte e a destruição de milhões de pessoas, mas também lucros intermináveis para o complexo militar-industrial de conglomerados gigantes e seus proprietários super-ricos.


Tradução de Adriano Zilhão.

Guerra Pátria SMO categoria-opinião edicao-2026-06-04 (30)

A pátria nos contempla

A pátria não passa de uma entidade abstrata que, explorando os mais fundos sentimentos populares de ligação à terra, à pequena propriedade, à cultura, à tradição, ao modus vivendi, à própria história, obriga o povo trabalhador a servir, com dedicação e alegria, os interesse rapaces e desumanos da classe dirigente. Até à morte.

Hoje, para abordar a guerra, que não passa de terrorismo, só pondo Orwell a ler Clauzewitz. Ou seja: a política é continuação da guerra por outros meios e 

guerra é paz, paz é guerra.

Guerra é terrorismo, é o que é!

O proletariado, o povo, os povos, nunca passaram de carne para canhão nas guerras imperialistas de todos os tempos

A Segunda Guerra Mundial foi a única em que proletariado se defendeu integrado num exército imperialista, porque contra o monstro nazifascista e, também, batendo-se heroicamente, autonomamente, nas resistências ao invasor. 

A URSS, primeiro e fundamental objetivo da guerra de Hitler, e referência absoluta para o proletariado naqueles anos de desastre e de ameaça à própria humanidade, foi, pelo seu sacrifício e pela sua resposta heroica ao invasor nazi, a grande vencedora da Segunda Guerra Mundial.

Nas guerras de libertação das colónias portuguesas, a que chamamos guerra colonial, o colonialismo e o fascismo foram derrotados sem apelo nem agravo. 

À luta dos movimentos de libertação juntou-se a ação dos capitães de Abril, conscientes da derrota iminente no terreno e do isolamento do regime junto ao povo, que se refletia no repúdio generalizado da guerra. 

No dia 25 de Abril as próprias Forças Armadas, ao serviço do colonialismo e do fascismo, a que chamavam defesa da pátria, foram derrotadas pelo Movimento dos Capitães. 

Portanto, a pátria portuguesa ficou em perigo exatamente no 25 de Abril e no PREC, quando um grande movimento popular, sustentado pela adesão dos soldados, questionou o que até então era inquestionável e até então os pilares da pátria: os pais fundadores, os reis do povo, os santos condestáveis, os heróis sem mácula, os tribunos impolutos, as instituições venerandas, a hierarquia militar. 

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A pátria não passa de uma entidade abstrata que, explorando os mais fundos sentimentos populares de ligação à terra, à pequena propriedade, à cultura, à tradição, ao modus vivendi, à própria história, obriga o povo trabalhador a servir, com dedicação e alegria, os interesse rapaces e desumanos da classe dirigente. Até à morte.

A classe dirigente todos a conhecemos. E quem não a conhecer que a compre, como diz o outro.

Eu faço já uma declaração de interesses: a minha pátria não é aquela que o Jorge de Sena, mestre do sarcasmo demolidor, quis beijar apaixonadamente na boca.

A minha pátria é a do José Fanha no seu poema “Eu sou português aqui”.

Hoje, a luta contra a guerra é a mesma que contra a guerra social; os campos em confronto são os mesmos, trabalhadores e imperialismo, mesmo que por interpostos governos.

Por isso, a necessidade de unificar as lutas contra a guerra, contra as alterações climáticas e contra os governos do capital e daí a necessidade de desmascarar a mitologia atrás da qual escondem o objetivo: aumentar a exploração e os negócios do armamento e das big techs.

Servem-nos em bandeja colorida: “A pátria obra de soldados”. Dulce et decorum est pro patria mori (Horácio) (É doce e honroso morrer pela pátria).

Pacheco Pereira, um dos nossos mais elaborados e firmes opositores do partido fascista, mas incapaz de se libertar da “memória das naus” e do “patriotismo” que nos levou ao desastre da Flandres e à guerra colonial, a servir o imperialismo na NATO e a “prolongar a guerra até à derrota da Rússia”, como proclamou António Costa, antecipando o kiss my ass de Trump, quer repor o serviço militar obrigatório (SMO), deitando às urtigas o que a vontade expressa democraticamente por todos os partidos, apertados pela juventude, decidiu nos idos de 2004: o fim do SMO.

Tudo porque, como na divertida comédia de Norman Jewison, em plena guerra fria, “Vêm Aí os Russos.”

 Resumindo, há uma palavra de ordem a palpitar no peito dos mancebos: “Vai tu!”

 Mas não só: há razões mais fundas: daquelas que levam às grandes tragédias e que nos assombram e que uniram, nos idos de Março de 2003, em apoio ao crime de guerra que foi a invasão do Iraque por George W. Bush, alguns dos nossos mais eminentes e preclaros intelectuais como Vasco Pulido Valente, José Manuel Fernandes, João Carlos Espada, o filósofo Fernando Gil, em redor do próprio Pacheco Pereira, em defesa da nossa civilização, pois que se tratava de um confronto de civilizações. 

Pacheco quer a juventude pronta para defender a pátria dele e a civilização de Trump e associados. Infelizmente, ele já não tem idade, confessou, para integrar a tropa bem alinhada, pala nos olhos, continência à devida distância. Mas os jovens, há que prepará-los.

E, não esquecer, sempre prontos: dulce et decorum est...

Resumindo, há uma palavra de ordem a palpitar no peito dos mancebos: “Vai tu!”

A pátria, como fetiche do poder, sustentada sobre mitos que até podem ajudar a sobreviver e a aceitar o mundo humano, uma espécie de ópio do povo, mas impedem a sua transformação e promovem a irracional sujeição. 

Os “nossos” aliados são os nossos inimigos, como não será difícil provar. Se não o sabemos, somos capazes de senti-lo. E o Orwell que não nos larga!

Contra os glutões, marchar, marchar!

Deserção Fernando Cardeira Guerra PAIGC categoria-história edicao-2026-06-04 (30)

Porque recusámos a guerra colonial - 2.ª parte

A deserção colectiva destes 10 oficiais tem dois aspectos que fazem dela um caso único da história da oposição à guerra colonial no seio das Forças Armadas. O primeiro é que nela estiveram envolvidos jovens oficiais que haviam sido alunos da Academia Militar (AM) durante mais de 8 anos. O segundo aspecto, talvez o mais importante, é que estes oficiais (tenentes milicianos) quiseram eles próprios transformar a sua deserção num acontecimento político de luta contra a guerra colonial e contra o fascismo.

Considero que a deserção colectiva de que fiz parte foi um importante episódio da luta contra o fascismo e contra a guerra colonial. O facto de o episódio ter sido durante décadas esquecido, ou menorizado, não lhe retira a importância que teve. Numa mensagem a propósito do falecimento em 2019, de Fernando Pais Mendes, um dos desertores do grupo, o coronel Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril, afirma que esta deserção colectiva “foi fundamental para ajudar a abrir as mentalidades dos oficiais do Quadro Permanente, no que ao regime ditatorial e à guerra colonial dizia respeito, a caminho do que seria a criação do Movimento dos Capitães, do Movimento das Forças Armadas, do 25 de Abril de 1974.”

A deserção colectiva destes 10 oficiais tem dois aspectos que fazem dela um caso único da história da oposição à guerra colonial no seio das Forças Armadas. O primeiro é que nela estiveram envolvidos jovens oficiais que haviam sido alunos da Academia Militar (AM) durante mais de 8 anos. O segundo aspecto, talvez o mais importante, é que estes oficiais (tenentes milicianos) quiseram eles próprios transformar a sua deserção num acontecimento político de luta contra a guerra colonial e contra o fascismo. E souberam fazê-lo pelos seus próprios meios, expondo publicamente em conferências de imprensa, entrevistas para jornais e rádios, gravações radiofónicas, ou através do envio de centenas de cartas e postais a amigos e conhecidos, a sua franca condenação da guerra colonial, a denúncia dos seus crimes, e também o seu apoio à luta de libertação nas colónias portuguesas. Estas iniciativas não contaram nunca com o apoio ou o incentivo de qualquer organização ou partido político da Oposição ao regime fascista.

Além da importância política a nível do impacto no seio das Forças Armadas, através da descrença que produziam na moral das tropas que ficavam no Continente, no mau exemplo que davam ao mostrar que era possível recusar a guerra, saliento a enorme importância da propaganda política contra a guerra, e também contra o fascismo, que uma boa parte dos desertores fez no exílio sobretudo a partir do fim dos anos 60.

As nossas conferências de imprensa de 16 de Setembro de 1970, em Estocolmo (e as declarações à BBC no mesmo dia), e de 22 de Dezembro, em Bruxelas, têm um forte impacto não apenas no estrangeiro mas também em Portugal. Quando os jornais portugueses publicam, a 31 de Dezembro de 1970, o discurso do ministro da Defesa Nacional e do Exército, general Sá Viana Rebelo, a nossa deserção passa a ser, ainda mais, do domínio público. O Século destaca mesmo, em subtítulo, “Deserção de tenentes milicianos para a Suécia”. No parágrafo que nos é dedicado, o general fascista afirma: “Tão nefasta é esta acção (a contaminação da juventude por ideias subversivas) que ainda há alguns meses desertaram para a Suécia 6 tenentes milicianos, antigos alunos de engenharia da Academia Militar que, nos termos da legislação até há pouco vigente, tiveram de frequentar os 3 últimos anos numa escola de engenharia civil de Lisboa e que, neste estabelecimento receberam a inspiração suficiente para trair a Pátria e fazer no estrangeiro uma torpe campanha contra o seu país e contra os camaradas do Exército, onde nunca efectivamente serviram.”. Na verdade, o ministro mentia descaradamente, pois sabia muito bem que eram já dez, e não 6, os ex-alunos da AM que haviam, entretanto, desertado, 7 para a Suécia e 3 para a Bélgica. 

Telegrama: “Caro amigo, saúdo respeito corajoso oficial que dando provas elevada consciência política e grande patriotismo recusou criminosa guerra colonial contra nosso povo.” Assinado: Amílcar Cabral.

 No mesmo dia desta Conferência de Imprensa em Estocolmo recebemos em Uppsala um telegrama da BBC a pedir-nos uma entrevista telefónica. Fernando Pais Mendes respondeu às perguntas feitas de Londres pelo jornalista Luís Amorim de Sousa para a emissão que foi escutada em Portugal: “… o tenente Fernando Paes Mendes, falando em nome do grupo, disse-me que tinham tomado essa resolução por estarem em total desacordo com a guerra que o Governo português desenvolve nas colónias de Angola, Moçambique e Guiné. (…) Paes Mendes declarou, por fim, que ele e os seus companheiros estão totalmente solidários com todos aqueles que pegam em armas para libertar as colónias portuguesas, acrescentando: este é o facto mais importante para a libertação do próprio povo português.”

Estas declarações fizeram a capa do boletim PAIGC Actualités de Setembro de 1970 onde eram publicadas as nossas fotografias de militares fardados. Algum tempo depois, recebemos o telegrama que nos foi enviado pelo secretário-geral do PAIGC: “Caro amigo, saúdo respeito corajoso oficial que dando provas elevada consciência política e grande patriotismo recusou criminosa guerra colonial contra nosso povo”. Assinado: Amílcar Cabral. É difícil descrever quão profundamente nos tocou e nos deixou orgulhosos este telegrama, num momento em que, um mês depois de termos desertado, a divulgação da nossa deserção era absolutamente ignorada pela generalidade da Oposição política portuguesa, tanto em Portugal como no estrangeiro.

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As diferentes posições assumidas pelas organizações políticas que se opunham ao fascismo e à guerra colonial.

Havia então uma questão que ainda hoje é debatida: como lutar contra a guerra colonial no seio de um regime fascista repressivo e das forças armadas que o suportavam, vigiados pela PIDE e pelos seus colaboradores civis e militares, muitos deles autênticos pides? Fazer a vida militar nos quartéis e embarcar com as tropas para África para aí fazer trabalho político junto dos soldados na frente de batalha, mesmo estando contra a guerra? Quando decidimos desertar fizemo-lo sem quaisquer compromissos exteriores ao grupo, e não admitimos nunca qualquer hipótese de embarcar para África. A nossa já longa ligação à instituição militar, o conhecimento profundo que tínhamos do funcionamento da máquina militar, longa de cerca de 10 anos de tropa, levou-nos a recusar as ideias de que seria melhor ficar por cá e embarcar para fazer trabalho político no meio das tropas, pois sabíamos bem que ir para a guerra seria para nela ter de participar por inteiro. Considerávamos que era impossível apelar à deserção ou organizar qualquer tipo de acção contra a guerra no seio de um Exército envolvido em operações militares. E tínhamos toda a razão, pois o certo é que durante o ano e meio de tropa como milicianos, mesmo em Portugal, nunca nenhum de nós foi sequer contactado no sentido de organizar uma deserção colectiva. A deserção colectiva, a única de que tenho conhecimento durante os 14 anos de guerra colonial, organizámo-la nós, apesar de aconselhados a não o fazer!

Termino reforçando a ideia de que um maior incentivo e apoio à deserção teria permitido criar maiores dificuldades ao regime fascista e teria mesmo levado a um provável encurtamento da duração da guerra. É óbvio que à deserção, em geral, não foi dada a devida importância política. 


Porque recusámos a guerra colonial - 1ª. parte
O conhecimento do que se estava a passar em Angola rapidamente me levou a pôr em causa não apenas a guerra, mas também o meu papel como elemento que havia aderido às forças armadas. Ao fim de algum tempo passei a sentir-me deslocado no seio deste Exército…
Deserção Guerra Liberdade categoria-história edicao-2026-05-28 (29)

Porque recusámos a guerra colonial - 1ª. parte

O conhecimento do que se estava a passar em Angola rapidamente me levou a pôr em causa não apenas a guerra, mas também o meu papel como elemento que havia aderido às forças armadas. Ao fim de algum tempo passei a sentir-me deslocado no seio deste Exército, e o meu pensamento passou a concentrar-se em tentar descobrir qual a melhor maneira de sair dali.

O início da nossa história coincide com o começo da guerra colonial em África. Uma grande parte dos oficiais que prepararam e fizeram o 25 de Abril entraram para a Academia Militar (AM) entre 1960 e 1964. Quando entrei no quartel da Academia Militar na Amadora em Outubro de 1961, a guerra em Angola havia começado apenas oito meses antes, a 4 de Fevereiro de 1961. As portas da AM foram então abertas, como prémio, aos primeiros “heróis” das bárbaras campanhas de morticínio perpetradas em Angola nesses primeiros meses da guerra colonial. Foi assim que tive o “privilégio” de ouvir em primeira mão, e contadas pelos próprios “heróis”, as histórias dos assassínios e torturas cometidos em Angola.

O conhecimento do que se estava a passar em Angola rapidamente me levou a pôr em causa não apenas a guerra, mas também o meu papel como elemento que havia aderido às Forças Armadas. Ao fim de algum tempo passei a sentir-me deslocado no seio deste Exército, e o meu pensamento passou a concentrar-se em tentar descobrir qual a melhor maneira de sair dali. Após quatro anos de estudos de Engenharia na Academia Militar, promovidos a alferes, somos matriculados no Instituto Superior Técnico (IST) para completar os três anos de curso que faltavam. Chegados ao Técnico, deparamos com a informação e o debate político que, apesar de tudo, existia nas universidades portuguesas, sobretudo no IST em Lisboa. Neste ambiente, para além da grande actividade política de agitação, abre-se-me a porta da literatura revolucionária, proibida, mas de relativamente fácil aquisição.

Com a transição para o Técnico em 1965 a nossa atitude começa a mudar de modo rápido e imparável. Não se trata apenas de uma evolução ideológica a nível pessoal, fruto já das muitas leituras e do acesso a filmes e debates políticos no seio da universidade, é antes uma evolução que acompanha a crescente radicalização dos movimentos de oposição à guerra colonial e à ditadura fascista.

O impacto destas quatro semanas vividas no estrangeiro, com toda a liberdade para ver filmes que eram proibidos em Portugal, ler livros aqui censurados, assistir a manifestações de rua, foi enorme.

Apesar de um maior interesse pela actividade política do que pelos estudos, acabo por ser finalista do Curso de Engenharia Electrotécnica, em 1968. Isso permite-me a inscrição no grupo de alunos que organizará uma viagem que irá percorrer as principais capitais da Europa durante quase um mês, em Março e Abril de 1968. Esta viagem de finalistas do IST, com cerca de 40 elementos, inclui oito que são alunos da AM. A influência desta viagem é fundamental para o que se passará a seguir. Destes oito elementos acabarão por recusar a guerra colonial e desertar para a Suécia nada menos do que cinco. O impacto destas quatro semanas vividas no estrangeiro, com passagens por Paris, Londres, Bruxelas, Amsterdão, Copenhaga e Estocolmo, com toda a liberdade para ver filmes que eram proibidos em Portugal, ler livros aqui censurados, assistir a manifestações de rua, foi enorme. Ninguém voltou igual ao que era antes do início desta viagem.

No regresso, uma primeira decisão crucial estava tomada: deixar a AM e acabar com a carreira das armas. Nesse momento, era já para nós, acima de tudo, uma questão de consciência.

A contradição entre ser contra o regime e contra a guerra colonial e ao mesmo tempo servir as suas forças armadas tornou-se óbvia. É assim que nos últimos meses de 1968 umas dezenas de alunos da AM resolvem recorrer aos meios legais para deixar as fileiras da AM, pagando para tal uma pesada indemnização ao Estado.

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Em Abril e Maio de 1969 somos enviados para o quartel da Escola Prática de Infantaria, em Mafra, a fim de cumprir quatro anos de Serviço Militar Obrigatório (SMO). Aqui nos vamos encontrar com mais de uma dezena de ex-alunos da AM e também com colegas de cursos de Engenharia do IST que ali cumpriam o SMO. Agora, livres de compromissos, perdido o medo de falar, a influência da nossa linguagem, das nossas ideias e das nossas atitudes passou a ter grande impacto junto dos quadros do Exército.

Depois de cerca de seis meses passados em Mafra como instrutores do Curso de Oficiais Milicianos (COM), somos dispersos por diferentes quartéis do país, desta vez para desempenhar o papel de instrutores de soldados recrutas. Nada sabíamos sobre o nosso futuro, mas era certo que a mobilização para as colónias nos viria bater à porta. O que não esperávamos era que no início do ano de 1970 fôssemos reencontrar mais de uma vintena destes ex-alunos da AM no quartel do RI 5 das Caldas da Rainha.

De imediato começamos a reunir-nos em conversas informais em que a pergunta era uma única: o que fazer? O sigilo das nossas reuniões passou a ser total desde o primeiro dia. Assim é que, em Fevereiro ou Março de 1970 já havíamos decidido o que fazer no caso de mobilização para a guerra colonial. Iniciamos então os primeiros contactos com gente da Oposição no sentido de obter documentos e ajuda para passar a fronteira. Rapidamente verificámos que o melhor era contar com os nossos próprios meios, pois a reacção dos elementos contactados foi tentar convencer-nos a não desertar dado que, diziam eles, a nossa experiência e a condição de ex-oficiais de carreira poderia ser de grande utilidade para a luta contra a guerra colonial no seio das FA. A nossa recusa de enveredar por esse caminho, que significava embarcar para as colónias, foi imediata e taxativa: DESERTÁMOS E DENUNCIÁMOS OS CRIMES DA GUERRA COLONIAL.

Esta deserção, resultado de uma iniciativa colectiva de 10 oficiais da Academia Militar, por isso mesmo teve um forte impacto no seio das forças armadas portuguesas: ao longo dos 14 anos da guerra colonial, foi a que maior impacto teve tanto no estrangeiro como em Portugal, aqui sobretudo pela grande divulgação que houve no interior dos quartéis, tanto na metrópole como no “ultramar”.


Porque recusámos a guerra colonial - 2.ª parte
A deserção colectiva destes 10 oficiais tem dois aspectos que fazem dela um caso único da história da oposição à guerra colonial no seio das Forças Armadas. O primeiro é que nela estiveram envolvidos jovens oficiais que haviam sido alunos da Academia Militar (AM) durante mais de 8 anos. O segundo as
categoria-internacional Alemanha Guerra Serviço Militar Obrigatório edicao-2026-05-21 (28)

Novas manifestações de massas de alunos do secundário contra a restauração do serviço militar obrigatório

Alemanha

No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Março.

Convocou as manifestações o movimento “Greve estudantil contra o serviço militar obrigatório”. Entre as palavras de ordem, lia-se e ouvia-se: “Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!”, “Vagas para aprendizes, sim, intervenções militares, não!”, “Não aos cortes no ensino!”

Reproduzimos excertos da intervenção de um liceal de 17 anos numa das primeiras manifestações:

“Minhas senhoras e meus senhores, caros companheiros e companheiras de luta, estimada carne para canhão,

Vivemos tempos sombrios. Guerras assolam o mundo: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a guerra que reduziu a Faixa de Gaza a escombros, as guerras no Irão e no Sudão, no Iémen, em grande parte de África. Porém, todos nós sabemos que, primeiro, a guerra também já chegou à Europa e, segundo, que estão de novo a chover bombas na Alemanha. Bombas contra os mais fracos, que não têm poder para se defenderem; bombas contra os que não estão suficientemente representados nos parlamentos desta república; bombas contra a juventude!

(...) A reposição do serviço militar obrigatório pela porta do cavalo, o serviço forçado para um Estado que não quer saber de nós para nada talvez seja o ataque mais violento à jovem geração a que há muito assistimos — se bem que já faça muitos anos que os vemos a fazerem poupanças à custa de quem ainda não tem direito de voto. Por exemplo, no ensino. Damos com um sistema federal de ensino obsoleto, que tresanda a uniformes prussianos puídos, com escolas a cair, casas de banho imundas, salas de aula a abarrotar como galinheiros: como é que, assim, se consegue aprender?! Indigno, num país como a Alemanha! Ponho isto à vossa consideração: é mais fácil mandar em cidadãos e mandar em soldados que não sabem nada de nada.

Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!

A dignidade da pessoa humana é inviolável. Porventura a frase mais sensata da história alemã. A dignidade da pessoa humana é inviolável.

Esta frase, este princípio fundamental da nossa Constituição, está hoje profundamente abalada. É incompatível com a dignidade da pessoa humana fazer de arma ambulante, de mero executante de ordens, de número numa lista de recrutamento militar; é incompatível com o que as mães e os pais da nossa Constituição quiseram para a Alemanha, como nação livre e pacífica. Embora a possibilidade do serviço militar obrigatório esteja consagrada na Constituição, só o está desde 1954, cinco anos depois de aprovada a Constituição. A quem o devemos? Claro que maioritariamente à CDU, ao SPD e ao FDP, os suspeitos do costume. O serviço militar obrigatório foi lá metido posteriormente e, já se sabe: quando, como neste caso, a Constituição é contraditória, conta a interpretação de quem governa! Desfavorece-nos que seja a CDU quem actualmente detém o poder e que o SPD há muito tenha perdido o espírito lutador.

Os governantes costumam dizer que é a nossa vez de retribuir à sociedade. A minha pergunta é: retribuir o quê? O que é que a sociedade fez por nós? Educação? Agora mesmo falei dela, não deve ser. Liberdade? Está agora mesmo a ser espezinhada, não deve ser. Paz? Diz o ministro da Defesa que devemos estar prontos não para a paz, mas para a guerra. Portanto, também não. Retribuir o quê, então? Desinteresse?

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Com certeza que nos podemos dar por felizes por vivermos neste país relativamente privilegiado. Só que é igualmente verdade que nada do que nos foi dado o foi por generosidade ou misericórdia. Foi tudo, no fim de contas, para manter a sociedade tal como é. Não há problema. O problema é que nos queiram enfiar na tola o contrário, dia após dia.

(...) Aprovou-se hoje uma lei que prevê (...) o levantamento forçado de dados, a inspecção à força.

(...) Não se vê onde está o voluntariado. É uma obrigação disfarçada. E o pior é que nem sequer se deram ao trabalho de o esconder. De nós não vem nenhum perigo. Não podemos votar. Não temos voz. Somos insignificantes aos olhos de Pistorius [ministro da Defesa], Merz [o chanceler] e companhia, somos problemas com que lidar mais tarde.

Talvez achem que nem sequer seja preciso. Que, com tempo suficiente de recruta e humilhações na tropa, se calhar aprendemos qual é o nosso lugar na sociedade. Lamento ter de desapontar os estimados senhores da política. A gente sabe muito bem qual é nosso lugar. É aqui mesmo. Hoje estamos todos juntos aqui para mostrar que não nos deixaremos escravizar. Lutaremos pela nossa liberdade. Pacificamente, mas com determinação. Não nos deixaremos subjugar.

Estão sempre a dizer que a nossa geração é rebelde e insubmissa, preguiçosa e indisciplinada. Não é o que eu vejo. Porém, caros companheiros de luta, acho que temos de mostrar às chefias das Forças Armadas, àqueles masoquistas que ficaram pela fase infantil da execução automática de ordens, que acham que pôr gente a rastejar na lama e a disparar sobre outras pessoas é uma actividade cheia de significado, ao nosso ministro da Guerra, a todo o Governo e a todo o país, o que realmente significa ser rebelde. Toca a dar-lhes um motivo para nos chamarem isso. Faltemos às convocatórias, condenemos uns questionários ao desaparecimento, mostremos desobediência! E se, mesmo assim, acabarmos na praça de armas, demos em uníssono um passo para fora das fileiras, proclamando ao mundo: “A dignidade da pessoa humana é inviolável!”


Joe Körner
[Discurso proferido no dia 5 de Dezembro de 2025, em Erfurt, na primeira manifestação contra a nova lei do serviço militar, aprovada nesse mesmo dia].

Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-política Guerra Irão Petróleo Trump Economia edicao-2026-05-28 (29)

O grande negócio do petróleo e da guerra

No dia 23 de Março, 15 minutos antes de Trump anunciar que adiava os ataques à rede eléctrica iraniana, houve apostas de quase 600 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo. No dia 17 de Abril, 20 minutos antes de o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, anunciar nas redes sociais que o estreito de Ormuz estava aberto, os corretores apostaram 760 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.

Os governos de países da União Europeia têm falado da eventual necessidade da possível criação de um hipotético imposto sobre os super-lucros obtidos pelas petrolíferas e afins em consequência dos aumentos de preços dos combustíveis directamente resultantes da guerra que Trump lançou contra o Irão (sem nunca a declarar). A teoria é que, arrecadando pela via fiscal um bocadinho dos super-lucros que as petrolíferas sacaram pela guerra e pela crise, se tem mão na especulação com os combustíveis fósseis e nos mercadores da guerra.

Muito bem.

Acontece que a verdade é ligeiramente mais maçadora. Primeiro, as medidas fiscais de (ligeiro) desagravamento dos impostos sobre os combustíveis não influenciam directamente o que as petrolíferas e as gasolineiras cobram ao consumidor; em princípio, reduzem apenas o que as petrolíferas pagam ao Estado. Portanto, o dinheiro, para começar, vai direitinho parar aos cofres da indústria, pelo menos em parte.

Contudo, quem, na realidade, lucra à grande com a escalada geopolítica não são forçosamente as empresas enquanto tais. Onde, hoje em dia, se cola às mercadorias comerciadas um preço pelo “risco geopolítico” é nas bolsas de Nova Iorque, Chicago e Londres. Lá se situam os geiseres dos lucros astronómicos.

O fisco português, e os outros, mal vê um chavo.

A trincheira do carcanhol

Ainda a esquadra americana não tinha disparado um Tomahawk contra o Irão, já os artilheiros do carcanhol estavam aos seus postos nas bolsas.

No dia 13 de Fevereiro de 2026, soube-se que o porta-aviões mais poderoso do mundo, o USS Gerald R. Ford, rumava ao mar da Arábia. Duas semanas mais tarde, caía assassinado o aiatola Ali Khamenei.

Já nessa altura, para quem soubesse (de “saber”, verbo: neste caso, “ter boas fontes de informação”), valeria a pena apostar, na bolsa, no aumento, ou na baixa, do preço do petróleo.

Atenção: o preço do petróleo é determinado com grande antecedência, não tanto pela oferta de petróleo que há e pela procura do petróleo que há, mas muito mais pelas apostas feitas em bolsa por gente com muito, muito dinheiro — que não se contenta com depósitos a prazo e obrigações de 1,2% ao ano.

As apostas desse pessoal chamam-se futures; é mais bonito.

Incidem em como o preço do petróleo (e não só) vá evoluir no futuro. A evolução dos preços futuros não depende tanto da oferta previsível, ou seja, das condições técnicas de quem produz e produzirá, mas mais, por exemplo, de quem permitirá que se produza ou não. Sobretudo porque, como diria o economista, a procura é muito pouco “elástica”. Em português corrente: o trabalhador, para ir trabalhar, tem de meter gasolina, seja qual for o preço, sobretudo se não houver transportes públicos decentes. E a indústria? Acham que pode funcionar ao pedal?

Uma semana mais tarde, 20 de Fevereiro, Donald Trump intensificou a escalada. E baixou, assim, o risco de a aposta na guerra dar para o torto. No avião presidencial, Air Force One, perguntaram a Trump qual o teor do ultimato que dera ao Irão. Trump largou a senha: “Dez a 15 dias, no máximo. Ou há acordo, ou eles estão feitos.”

Ora, as transacções que mais deram nas vistas, as mais lucrativas, só ocorreram alguns dias mais tarde.

Contemple-se o processo da erupção do super-lucro, esse perfeito encaixe entre política, guerra e mercado de capitais.

No dia 23 de Março, 15 minutos antes de Trump anunciar que adiava os ataques à rede eléctrica iraniana, houve apostas de quase 600 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.

No dia 7 de Abril, poucas horas antes do cessar-fogo temporário anunciado por Trump, fecharam-se apostas no valor de cerca de 960 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.

No dia 17 de Abril, 20 minutos antes de o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão anunciar nas redes sociais que o estreito de Ormuz estava aberto, os corretores apostaram 760 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo.

No dia 21 de Abril, 15 minutos antes de Trump anunciar a prorrogação da trégua, seguiu-se outra série de apostas na queda dos preços do petróleo, no valor de 430 milhões de dólares.

Entre 28 de Fevereiro e 7 de Abril, as acções dos fabricantes de semicondutores, para quem o bloqueio do estreito de Ormuz era potencialmente catastrófico, caíram de 6 a 12%. Segundo os peritos, durante essa semana, a variação de preços incorporou antecipadamente 70% dos efeitos da guerra: a “volatilidade” dos preços atingiu níveis que não se viam desde a crise financeira de 2008.

No dia 28 de Fevereiro de 2026, tivera início a Operação Epic Fury.

Morto o aiatola e fustigados os centros de comando em Teerão por uma chuva de bombas, a alcavala bolsista da guerra disparou de imediato. Desde que o ano começou, o petróleo Brent já subiu quase 70%; situa-se agora acima de 100 dólares por barril. Quem, chegado o início de Maio, tivesse tido a “coragem” (leia-se: a “informação”) para “investir” na ruinosa devastação do Irão, desprezando, portanto, a bela diplomacia, podia tirar um famoso balanço do rendimento do investimento feito em poucos dias.

As acções da neerlando-britânica Shell aumentaram 13,5%.

As da britânica BP aumentaram mais de 23%, apesar de ter activos muito próximos da zona de conflito.

As da francesa TotalEnergies subiram 34%, sem dúvida à luz das suas capacidades alternativas em África.

As da norueguesa Equinor subiram 56%. A empresa estatal norueguesa beneficiou dos novos preços, apesar de estar muito fora do alcance dos mísseis.

Quem comprou cedo conseguiu rendimentos muito superiores aos dos “mercados” genéricos. Os “super-lucros” foram apostas na escalada geopolítica. Note-se que os lucros extraordinários não começaram por cair no colo das empresas propriamente ditas, mas no dos fundos e especuladores profissionais que apostaram nessas empresas e matérias-primas.

Lucro da Shell aumentou 13,5%, da BP aumentou mais de 23%, da norueguesa Equinor subiu 56%. Quem comprou cedo, conseguiu rendimentos muito superiores aos dos “mercados” genéricos.

Ninguém devia, porém, ignorar que os grandes accionistas dos fundos que detêm os fundos que detêm os fundos que detêm as acções de todas as grandes empresas do mundo são as mesmas que detêm os fundos que detêm os fundos que detêm os fundos que especulam com as acções de todas as grandes empresas do mundo. Portanto, terem lucrado as “petrolíferas” ou os “especuladores” vai dar ao mesmo — lucrou o 0,1% que detém quase tudo.

Os “mercados” apostaram em que Trump não se ficaria por ameaças, instigaria uma guerra a sério. O que Trump fez a seguir enriqueceu abruptamente quem (está bem, já todos eram super-ricos) detinha informações sobre o que Trump ia fazer (será possível excluir que Trump fosse um dos que sabiam o que Trump ia fazer?).

Nesta sociedade de imperialismo em decomposição acelerada, a aposta na guerra, no armamento, nos bombardeamentos e na destruição é o passaporte dourado: o verdadeiro “visto gold”.

A campanha de Trump contra o Irão, tenha ela caído ou não num beco sem saída político-militar, longe de ser uma desgraça, foi, para o capital, um feliz evento. “Ganhador da guerra” foi quem “percebeu” (desculpai o eufemismo) que a era da diplomacia terminou no dia 13 de Fevereiro e que Trump, há pouco candidato ao Prémio Nobel da Paz, estava determinado a entrar para a história como presidente da guerra.

O “fire and fury” da Casa Branca é o “lucro do camandro” de Wall Street. É lá que os capitalistas do mundo, incluindo os europeus, escondem os super-lucros da guerra — de que os políticos “europeus”, suando as estopinhas, falam como amoladores de unhas dos pés.

Conceda-se: o imposto sobre os lucros é para um político da vasta espécie rangel-montenegrina uma oportunidade fantástica, e rara, de parecer preocupado com as dificuldades da gente simples e se indignar com lucros “excessivos” — além de poder dar momentâneo alto à “narrativa” do Chega (ai, a lamentável falta de sentido de Estado!).

A ginjinha: boa parte das informações para este artigo foi respigada de meios de informação financeiros. Num deles, The Pioneer, elas são apresentadas… para demonstrar que não tem sentido os governos europeus adoptarem os tais impostos sobre os super-lucros, pois quem os embolsou não está ao alcance dos respectivos fiscos!

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