A vontade de censurar o digital deve-se não às falsidades que propaga, mas às verdades que só nele se revelam.
A necessidade de “verificar” e “controlar os conteúdos” perniciosos difundidos pelas redes sociais e na esfera digital tem vindo a picar o ponto no discurso predominante das nossas oligarquias liberais com uma regularidade crescente. O argumento é o de que é através do digital que se produz a “desordem informacional” do nosso tempo.
Os media convencionais, prossegue o argumento, empenhados na verdade, só na verdade e em nada mais que a verdade, apesar de toda a sua boa-vontade e diligência, não conseguem repor a ordem no discurso público.
Coisas como “bots”, “cyborgs”, “astroturfing digital” e muitas outras designações técnicas desenham um quadro real de circulação de lixo informacional considerável, capaz, de resto, de influenciar escolhas individuais e até coletivas de consumo comercial ou político. De passagem, na p. 20 da sua edição em português do Brasil, os autores do relatório referem-se, porém, a um problema menos considerado e objeto de bem menos investigação e relatórios: “Devemos também reconhecer, no entanto, o papel da televisão na disseminação da desinformação.” Mas é coisa de um parágrafo. Se o que se justifica por ser este relatório dedicado ao digital, o motivo enfraquece se pensarmos que a televisão ou os conteúdos televisivos integrados na esfera digital continuam a ser o principal meio de informação das diferentes gerações.
Precisamos de compreender por que motivos, sendo a televisão a principal fonte de informação nas nossas sociedades de oligarquia liberal, os olhos censórios se dirigem, primordial e quase exclusivamente, para o ‘digital’ e as ‘redes’.
Os novos Ministérios da Verdade
Precisamos de compreender por que motivos, sendo a televisão (por si só ou em integração com a esfera digital) a principal fonte de informação nas nossas sociedades de oligarquia liberal, autoproclamadas “democracias”, os olhos censórios se dirigem, primordial e quase exclusivamente, para o “digital” e as “redes”.
Uma dupla razão pode ajudar a este entendimento: por um lado, o reforço do negócio de entretenimento informativo proporcionado pela televisão, que concentra ainda uma percentagem quase leonina do mercado publicitário e da produção hegemónica de discurso político-ideológico; e, por outro lado, uma política de hierarquização da credibilidade que arvora os media hegemónicos não numa parte do ecossistema comunicacional, mas sim em árbitros aléticos
sobre o que é verdadeiro e o que é falso, sobre o que é importante e o que não o é.
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Deste modo, “os verificadores de factos” saltam dos ecrãs televisivos e das páginas ou sítios da imprensa encartada para os olhos e as mentes dos seus consumidores como definidores da credibilidade. Fiscalizam o discurso dos atores políticos (que não os do capital, vulgo “agentes económicos”), fiscalizam as “redes”, dizem o que é e o que não é, marcando assim uma posição de superioridade arbitral, ao mesmo tempo que se eximem ao exame que sobre eles deveria ser feito. A construção do dono da verdade torna-se assim um episódio de um falso regime de verdade que tem nas grandes corporações mediáticas o seu zénite inalcançável.
Pouco importa a parcialidade com que intervêm, enquadram, tematizam, distorcem, publicitam, obscurecem, ignoram, deturpam as existências das sociedades cuja consciência de si mesmas moldam em regime de permanência. Pouco importa que, aquando da entrada das tropas russas na Ucrânia, em 2022, as televisões do reino “ocidental” tenham exibido nos seus telejornais imagens de um videojogo para ilustrar a “batalha aérea de Kiev” contra os caças russos. Ou que tenham mostrado imagens de outro jogo de vídeo para ilustrar os seus noticiários acerca dos boicotes pelos Hutis iemenitas à navegação comercial, em
solidariedade com Gaza exterminada por Israel. Nada importa, na verdade, para quem se arvora em dono da verdade única e verdadeira.
O argumento da proteção da sociedade por via da censura, como o fez a União Europeia relativamente à comunicação social russa, é um velho álibi para a transformação das oligarquias liberais em oligocracias iliberais, que constitui hoje em dia o principal vetor da refascização do chamado Ocidente. Para quem tiver dúvidas, fica este ilustrativo fragmento do que está em causa com as “redes”, não muito diferente do que estava em causa há umas décadas com os jornais: “Declaro não ter nunca percebido esta incoerência que ninguém ainda me explicou claramente: por que motivo se exige atenta fiscalização dos géneros deteriorados – o arroz, o bacalhau, a manteiga – e se descura completamente a higiene do espírito” (António de Oliveira Salazar, 1945).
Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?
ilustração: Ricardo ferreira
Quando, por ocasião dos 50 anos de Abril e Novembro, uma turma de estudantes universitários elaborou uma série de trabalhos sobre esse período, constatou-se que todos os grupos que haviam escrito sobre o 25 de Novembro, de diferentes formas, partiam do mesmo pressuposto: a ação militar dos “moderados” tinha posto cobro a um “golpe da extrema-esquerda”, tinha evitado “a guerra civil e a ditadura” e instalado “a democracia”.
Foi fácil verificar que essa era uma resposta-tipo fornecida por todas as mais populares plataformas de inteligência artificial generativa então disponíveis. Ou seja, todos os textos dos estudantes eram diferentes, mas nenhum deles escapava à premissa base fornecida pela engenhoca.
A aceleração dos ritmos industrializados de ensino-aprendizagem com que se fabricalizou o ensino superior (esquartejado em cadeiras semestrais, saturado por turmas extensas, sobreposições inevitáveis de conteúdos, testes, trabalhos, provas, exames…) inviabilizou qualquer possibilidade de discutir seriamente quer o 25 de Novembro, quer a parametrização em que os dispositivos de IA o enquadravam, como e porquê.
O episódio ilustra com eloquência a conhecida e disputada tese da não neutralidade da técnica, por oposição à ideia generalizada de que as “tecnologias” são em si mesmas neutrais, só os seus usos lhes determinam a bondade ou maldade. De há muito que uma longa tradição de autores vem sustentadamente combatendo este ponto de vista. Uma nova técnica, como lembrava, há décadas, Neil Postman, muda tudo.
No caso da chamada inteligência artificial, cúspide até aqui das possibilidades geradas pelo que Touring chamou ao computador, “a máquina das máquinas”, a proposta é perigosamente extremista. Completar a inteligência humana, chamemos-lhe “natural”, por um dispositivo protético que potencie a primeira sem ser esmagada pelo segundo.
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Há, inclusivamente, quem se dedique a especular pelo prisma da filosofia política até que ponto um uso “socialista” desta ferramenta não poderia resolver no futuro problemas que os esboços socialistas passados não conseguiram solucionar. Mas essa é uma variante do modelo de raciocínio sobre a neutralidade da técnica. Numa reflexão penetrante, Evgeny Morozov expõe, sobre a IA, um ponto de vista diferente. Para o autor de “Socialism After AI” (https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/), a técnica não é “uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior”, uma perspetiva que constitui uma cegueira a respeito do problema de saber onde se situa presentemente o poder.
O poder de criar mundos
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
Um mês depois do sequestro do Presidente venezuelano Nicolás Maduro e da deputada e sua mulher, Cilia Flores, começam a poder discernir-se algumas coordenadas da nova situação no país e para além dele.
Judicialmente, o que parece restar, em termos de qualquer acusação possível, é a cada vez mais segura ideia de que o único crime cometido nesta situação foi o rapto militar de um dignitário estrangeiro. A intervenção militar norte-americana infringe, como é óbvio, o direito internacional, mas, inclusivamente, não passou pelas tramitações e autorizações parlamentares que poderiam cobrir de alguma legalidade interna a agressão contra outro país. O disfarce da missão militar como uma “operação policial” é evidentemente desmentido por si mesmo, dados os meios utilizados e a sua própria tipologia.
Por seu lado, em tribunal, da acusação caiu toda a oratória em torno do narcotráfico, ao reconhecer-se que não existia qualquer cartel de los Soles, pelo que Nicolás Maduro não poderia pertencer, estar ao serviço, servir-se ou chefiar uma inexistência. Quem minimamente conheça a Venezuela sabia desde o primeiro momento que a conveniente “norieguização” do processo não tinha qualquer sustentação.
Horas depois da agressão, caía também o argumento da exportação, nem que à bomba, da “democracia”, com Trump a esclarecer que “vamos fazer imenso dinheiro com a Venezuela”. O descoroçoamento da internacional propagandística agravou-se ainda com a queda da tese da falsificação eleitoral, quando o próprio Trump afirmou que Corina Machado não dispunha de representatividade ou respeito no país.
A madrugada de 4 de Janeiro
Duas grandes linhas preencheram o desconsolado vazio argumentativo em que Trump deixou em cacos os legitimadores de turno. A primeira era a de um suposto “abandono” do governo de Caracas pela Rússia e pela China. A segunda respeitava a uma suposta “traição” de Maduro pelos seus mais próximos co-dirigentes.
Trata-se de discurso para mostrar à “claque” doméstica como o poder dos EUA era de tal ordem que nem russos nem chineses ousaram defender Maduro. A segunda linha destinava-se a disfarçar como Trump temera que uma invasão se tornasse numa internamente inaceitável ‘vietnamização’ do caso.
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É ainda difícil precisar o sucedido na madrugada de 4 de janeiro. Militarmente, a operação terá tido, segundo fontes militares venezuelanas, um carácter experimental. Novas ferramentas de guerra eletrónica terão sido usadas para empastelar o espetro radioelétrico e de comunicações analógicas e digitais das Forças Armadas Venezuelanas, nomeadamente dos dispositivos sino-russos de deteção por radar e de reação antiaérea. A confirmar-se, trata-se de um ponto adicional de interesse para a intervenção, a investigação bélica.
Exigência da libertação
Quanto à situação política local, emerge de um sem-número de fontes uma quantidade incontrolável de versões. Confirma-se uma recomposição discreta nos quadros dirigentes, tanto militares quanto civis, a que se soma uma política gradual de libertação de detidos por delitos de motivação política. Acresce uma nova legislação relativa à exploração petrolífera que, todavia, não corresponde à propaganda de Washington. A nova lei prevê, pelo contrário, uma partição 70-30 e não a existente 50-50 em favor do Estado venezuelano no investimento empresarial estrangeiro.
Por saber fica, por ora, para onde e até onde a actual reconfiguração do processo político venezuelano pode dirigir-se, nesta sua terceira fase, depois de Chávez e de Maduro.
O poder chavista lança, entretanto, à escala mundial uma campanha pela imediata libertação de Nicolás Maduro e Cília Flores, que reclamaram em tribunal a condição de “prisioneiros de guerra”. A esta reivindicação juntam-se China, Rússia, os governos latino-americanos não controlados por Washington e uma extensa corrente progressista por todo o planeta.
Por saber fica, por ora, para onde e até onde a actual reconfiguração do processo político venezuelano pode dirigir-se, nesta sua terceira fase, depois de Chávez e de Maduro. O que se sabe de ciência certa é que com ela se atualiza o título de uma velha obra dos anos 1970 intitulada A inquietante América Latina. Um problema, mais um, recolocado à frágil consciência do mundo.
Quem conheça um pouco da história da moderna política revolucionária não ignora a fratura entre a participação ou não na chamada “frente institucional”. Depois do sonho sufragista dos revolucionários ingleses de seiscentos, dir-nos-á o classicista italiano Luciano Canfora que, na sua leitura, a segunda parte do Manifesto Comunista, de fevereiro de 1848, era um programa de alianças visando as eleições um pouco por toda a Europa. A participação na “frente institucional” tornou-se, à medida que a democracia eleitoral se ia tornando tão inevitável quanto impreterivelmente controlável (Hobsbawm), um objeto de ainda mais acesa disputa ideológica por parte dos setores revolucionários ou que como tal se entendiam.
Entre nós, ao longo das décadas de contrarrevolução, os momentos eleitorais –concretamente presidenciais – assumiram um peso emblemático. Episódios como os de 1976, Eanes/Otelo; de 1980, Eanes/Soares Carneiro, ou de 1986, Soares/Freitas do Amaral foram vividos como fronteira e confronto entre “direita e esquerda” e, acima de tudo, simbolizaram a opção efetiva pela política do “mal menor”.
Um olhar sobre os Presidentes até hoje dir-nos-á como, em verdade, nenhum deles cumpriu o que jurou, “cumprir e fazer cumprir a Constituição”, que continua a ser, apesar de tudo, a mais evoluída e progressiva peça de todo o nosso ordenamento jurídico.
Porém, com Presidentes eleitos e, sobretudo, reeleitos, por percentagens por vezes ridículas de votantes no universo eleitoral, nunca o quadro político de degradação da democracia, mesmo que compreendida enquanto simulacro, que é o que temos, foi tão comprometedor quanto é hoje.
Nesse sentido, para quem herde a ideia de que a “frente institucional” não é negligenciável na política revolucionária, nas circunstâncias atuais e sem que a minha ideia pretenda conter qualquer laivo de arrogância, a opção à esquerda começa e acaba em António Filipe.
Os trabalhadores
Ao trazer os trabalhadores para o centro do seu enunciado político, Filipe formula criticamente o que chama “o consenso neoliberal” de uma forma que abrange todo o respetivo espetro, incluído o candidato apoiado pelo PS. Com efeito, a candidatura de Seguro é o mais triste ‘ventre mole’ de algo que se reivindique “de esquerda” nesta terra em muitos anos. O seu apelo triste à “utilidade” do voto das esquerdas é talvez, no histórico da litania do “mal menor”, aquele que mais destoa no tempo e no modo.
Mas nesse arco neoliberal Filipe ainda identifica os estilhaços respetivos, em candidaturas como a apoiada pelo Livre, dispensando-se explicações neste particular. Por outro lado, a dialética das “causas fraturantes”, grave equívoco trazido pelo Bloco à herança revolucionária da esquerda portuguesa desde os anos 1990, dificilmente poderia estar mais bem representado que por Catarina e o seu vaguíssimo discurso sobre “uma presidente” para “unir todos”, etc.
Mas existe mais uma razão de peso, e esta, a meu ver decisiva, para votar Filipe. O facto de ser o único candidato que, num tempo em que as questões internacionais se tornam esmagadoras, não tem manifestado tibiezas perante as máscaras do capital e do imperialismo. Não há concessões em relação à UE ou à Ucrânia, por exemplo, bem como acerca da necessidade de subtração da política do país ao servilismo “euro-satisfeito”. Não há, em suma, concessões, em nome de conceções abstratas de “democracia” e de “liberdade”, às formas que cada vez mais notoriamente menos têm a ver com a democracia e a liberdade que proclamam.
Nisto e não só, Filipe e o PCP, honra lhes seja feita, não têm cedido à violência crescente com que se procura condicionar e, em seguida, terraplanar qualquer posição vertical e séria no plano das questões internacionais, a troco de umas migalhas da ‘tolerante’ simpatia interna da direita político-mediática que tenta avassalar mesmo aqueles que combatendo-a cá dentro, a ela se juntam, porém, lá longe, onde, como diz o poema, o ar há de ser mais leve.
Quase nada de novo existe na agressão contra a Venezuela. O intervencionismo norte-americano na América Latina vem de longe.
Uma Venezuela cercada pela maior frota naval norte-americana deslocada para o mar das Caraíbas, sem que possa predizer-se com exatidão o que vai acontecer, constitui um valioso recordatório sobre a relação entre poder e indeterminação. Como bem teorizou Alain Badiou, a extensão do poder é diretamente proporcional à indeterminação com que procura exercer-se e forçar os seus limites. Quanto maior a indeterminação, quanto maior a dúvida sobre o seu alcance e a sua vontade, maior esse poder se torna.
Com Trump, pouco há de novo na política “hemisférica” da Casa Branca, mediante a reabilitação do arcaico direito feudal de “pernada” do velho Monroe, doutrinariamente lavrado em 1823. De um modo emblemático edificou-se, até, metonimicamente, a designação que funde um dos Estados do continente, os EUA, com a sua totalidade, “a América”.
Na sua fase historicamente mais recente este intervencionismo tem a sua génese em 1954 na “República das Bananas”, com o golpe contra o governo de Jacobo Arbenz, na Guatemala, ao serviço da United Fruits, a quem pertenceriam as plantações e os solos guatemaltecos. Este argumento reedita-se agora com uma das mais recentes declarações de Trump quando afirma que na Venezuela se trata de “recuperar”, sequestrando petroleiros “sancionados”, a propriedade norte-americana do petróleo venezuelano, “usurpado” pelo governo do país.
A Oeste quase nada de novo
Quase nada existe de novo na agressão contra a Venezuela. Nada que Cuba e os Cubanos desconheçam, enquanto vítimas de um dos maiores crimes de lesa-humanidade que continua placidamente a ser cometido com a continuada guerra económica que reduziu o país a uma pauperização tão indescritível quanto mal descrita e acusatoriamente voltada contra a revolução.
Nada de novo também, na ideia fundamental aplicada contra a Nicarágua sandinista nos anos 1980, quando se trocaram armas por dinheiro do narcotráfico (Oliver Norton e o Irão-Contra, lembramo-nos?), cujas perspetivas revolucionárias deviam ser afogadas por uma guerra de agressão em nome da “liberdade”.
Em suma, o “quase” neste nada de novo, no caso venezuelano, tem apenas a ver com os recursos naturais do país, dos mais ricos do mundo, que o situam no epicentro das guerras em curso por recursos.
Esse supremacismo reaparece no neo-colonial-imperialismo revestido não pelo termo ‘civilização’, mas pelos termos ‘democracia e direitos humanos.
Uma revolução bem-sucedida num dos países mais ricos do planeta não representaria apenas um mau exemplo para os restantes povos, como o constituído representado por Cuba ou pela Nicarágua. Poderia, ao invés, transformar a Venezuela numa potência regional poderosa, cujo “descontrolo” representaria uma enorme esperança e apoio para outros povos latino-americanos e não só. Por conseguinte, não existe qualquer inquietação com “a democracia” ou os “direitos humanos” dos Venezuelanos, fórmula que substituiu no discurso supremacista do Norte ocidental, as antigas e hoje insustentáveis bases argumentativas, de levar aos “selvagens” os méritos cristãos da “civilização”. Esse supremacismo reaparece, assim, no neo-colonial-imperialismo, revestido não pelo termo “civilização”, mas sim pelos termos “democracia e direitos humanos”.
As esquerdas e o conto do vigário
Desafortunadamente, não causa grande surpresa a adesão de várias esquerdas europeias ocidentais (e não só), a este argumento neo-imperial, sempre que, antes ou depois da crítica ao intervencionismo de Washington, tem de haver uma referência “ao regime de Maduro”.
Trata-se, aliás, a meu ver do mesmo “mas” a que essas mesmas esquerdas recorrem quando, a respeito de outras áreas internacionais e da geopolítica, tentam enquadrar-se sem maiores percalços nas dinâmicas de extrema-direitização das suas existências políticas nacionais.
O problema não parece, pois, um qualquer debate (legítimo) sobre o processo venezuelano iniciado com Chávez. Mas, como a classe de oportunismo que prodigaliza uma suave cumplicidade pós-moderna com as políticas imperiais, travestida de um discurso de “esquerda linha branca”, passível de ser encontrado a propósito de cada esquina mais agreste do mundo dos nossos dias. Como se em causa estivessem as escolhas dos Venezuelanos e não o novel e agressivo supremacismo imperial.
Num texto com perto de duas décadas, o investigador académico francês em jornalismo Alain Accardo explicou as estruturas de condicionamento da chamada “opinião pública”, a partir do condicionamento dos próprios condicionadores, nomeadamente os jornalistas.
ilustração: Pedro Páscoa
Escrevia Accardo que “o observador do sistema mediático deve partir do princípio de que, na sua grande maioria, os jornalistas não estão maquiavelicamente apostados em manipular o público para maior proveito dos acionistas das empresas de imprensa em particular e dos investidores capitalistas em geral. Se agem como ‘condicionadores’ daqueles a quem se dirigem, não será tanto por vontade expressa de os condicionar, quanto pelo facto de serem eles próprios condicionados, e a um grau de que a maioria nem sequer suspeita. Fazendo (ou não fazendo) cada um deles espontaneamente aquilo que deseja fazer, concordam espontaneamente uns com os outros. Inspirados no poeta Robert Desnos, poderíamos dizer que os jornalistas obedecem à lógica do pelicano: “O pelicano põe um ovo branquinho. De onde sai, inevitavelmente, outro que faz o mesmo.”
Já data, aliás, de há quase setenta anos um outro texto seminal sobre como é ilusória a aparência de que são os jornalistas quem faz jornalismo, porque a realidade é a inversa, é o jornalismo que faz os jornalistas. Segundo o seu autor, o antigo jornalista norte-americano e posteriormente investigador Warren Breed, a “socialização” dos neófitos pela redação produz-se “por osmose”, com os jovens repórteres a aprenderem as técnicas do ofício e as regras da arte a partir da leitura quotidiana do próprio jornal, através do enquadramento dos seus colegas seniores e, por fim, da linha editorial que é aplicada de modo sempre oblíquo, não explícito, por parte das chefias. O mecanismo fundamental, como observava Breed no seu estudo sobre o controlo social na redação, como lhe chamou, era o da punição-recompensa, segundo o grau de afastamento ou aproximação aos requisitos do “jornal”.
Para além de tudo o que se modificou no plano tecnológico e das alterações no campo dos media em mais de meio século, no plano mais profundo, o processo permanece inteiramente válido no presente, segundo ex-jornalistas que optaram por sair para abraçar carreiras académicas nas universidades.
Luís Miguel Loureiro, hoje docente e investigador na Universidade do Minho, corrobora este ponto de vista. Para este antigo jornalista da RTP, onde trabalhou quase três décadas: “Chegado ao ecossistema, o novo jornalista é rapidamente absorvido, passando a trabalhar, normalmente sem o notar, de acordo com uma normatividade implícita, não dita, pela qual se regem as relações de trabalho estabelecidas a partir de uma organização profundamente hierarquizada, como qualquer estrutura produtiva industrial. Ou então, nota, quando essa normatividade se abate violentamente sobre a sua capacidade individual de questionamento do mundo, reduzindo o espectro possível de criatividade.”
ilustração: Robson Villaba
Disciplinar as mentes
Aquilo a que este antigo repórter televisivo, que iniciou a sua carreira na Rádio (Nova e Comercial) chama a redução do espetro criativo, corresponde ao que o autor Jeff Schmidt, na sua obra Disciplined Minds sobre os profissionais assalariados, considerou a política do apoliticismo. Schmidt não se referia só, mas também, ao jornalismo para dizer como, em diferentes profissões, usualmente associadas ao trabalho intelectual, dos juristas aos profissionais de saúde, passando pelos jornalistas, claro, a “recusa dos profissionais em questionar a política incorporada no seu trabalho serve os interesses daqueles que detêm poder na sociedade e contribui para a manutenção do statu quo social e económico”.
No entanto, observa perspicazmente Schmidt, “abster-se de questionar não parece um ato político, e por isso, os profissionais mantêm a aparência de neutralidade política no exercício das suas funções”. Na realidade, o que isto significa é que o “‘julgamento profissional’ ou a ‘opinião especializada’ do trabalhador intelectual não é objetiva, como se proclama, mas tende a favorecer os interesses do seu empregador. (Apoiar o empregador e apoiar o sistema em sentido lato não são exatamente a mesma coisa, mas, sendo este essencialmente um sistema corporativo, uma coisa reforça a outra)”, aclara o autor.
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Para Luís Miguel Loureiro, desde o período do seu ingresso na profissão, há três décadas, foi notória “uma cada vez maior rarefação da indisciplina sã do questionamento”. Para isso, diagnostica, “contribuíram decisivamente as condições cada vez mais precárias do trabalho dos jornalistas, não apenas da precarização das relações socioeconómicas do trabalho, cada vez mais individualizadas, mas de todas as condições objetivas para a produção noticiosa: do abocanhamento das redações, cada vez mais pequenas, pelos agentes e estruturas, crescente e assimetricamente poderosos, da comunicação estratégica e propagandística profissionalizada, ao desgaste, quando não esgotamento e total captura dos dispositivos democráticos de representação coletiva dos jornalistas”.
A fuelização do medo
Alexandra Figueira, outra jornalista que trocou, há quatro anos, a carreira nas redações jornalísticas pela academia, reforça a importância destes mecanismos de “captura”, como os designa Luís Loureiro. Por comparação com os anos 1990, quando ingressou na profissão, Alexandra Figueira constata que no Jornal de Notícias, onde desenvolveu grande parte da sua carreia jornalística “a redação, que já não era muito contestatária, tornou-se progressivamente mais amorfa. O Conselho de Redação raras vezes auscultava a redação e deixava passar largas semanas entre cada reunião com a direção e o comunicado com o que lá foi discutido. As datas e a ordem de trabalhos das reuniões não eram divulgadas previamente”.
“Costumo dizer que sobrevivi a três despedimentos coletivos. Não sei o que aconteceria no quarto. Saí do jornalismo antes disso”, diz a antiga jornalista do JN e Diário Económico, hoje professora na Universidade Lusófona. “Num desses despedimentos coletivos, recordo-me de ter passado uma manhã a olhar para o telemóvel, à espera que tocasse. Corria a informação de que os recursos humanos estavam a telefonar a alguns de nós para comunicar o despedimento. Qualquer um podia ser abrangido, naturalmente, inclusive eu.”
Esta era a nova realidade para os jornalistas, que em finais da década de 1980 e princípio da seguinte tinham vivido o que poderia considerar-se à escala nacional um boom do sector, com contratações salarialmente mais compensadoras e surgimentos de novos títulos, haviam assistido e vivido ao processo de aburguesamento das redações dos media e da formação de uma elite organizada que passou rapidamente a funcionar primeiro em formação espontânea e, progressivamente, por cooptação, em função de amizades pessoais e/ou, sobretudo, de solidariedades políticas.
“A maior exceção”, recorda a exredatora do Económico e do JN, “resultou num grande momento de união a que já só assisti como espectadora”, em 2023, no âmbito da venda do grupo ao World Opportunity Fund e do despedimento coletivo anunciado de 150 trabalhadores. “Na altura, as redações do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias, do Dinheiro Vivo e da TSF mostraram uma enorme capacidade de mobilização, lideradas pelos jornalistas mais jovens, com o apoio do Sindicato de Jornalistas. A venda de todo o Global Media Group ao World Opportunity Fund foi revertida. Em alternativa, o Jornal de Notícias e a TSF foram vendidos à Notícias Ilimitadas, de um grupo de investidores do Norte que estará ligado ao dono do Global Media Group, Marco Galinha.”
E a vida prosseguiu, com uma repetitividade que só é perturbada pelo temor pessoal de quando chegará a cada um a sua vez. O medo do despedimento por parte dos repórteres de base encontra um eco inconfessado no medo dos chefes de, a qualquer momento, poderem vir a ser demitidos. Assim, hegemonia político-empresarial converte-se numa obediência generalizada no plano profissional e numa desestruturação radical da situação laboral.
Beneficiando de um estatuto formal equiparável ao que outrora se designava por “profissões liberais” ou “profissionais independentes”, à medida que a proletarização e a precarização se instalaram, o exercício profissional do jornalismo tornou-se cada vez mais uma ocupação insegura, onde o que é verdade hoje pode já não o ser amanhã. A insegurança que percorre a generalidade da prestação laboral no país, sobretudo no setor privado, abate-se também sobre as estruturas jornalísticas, sendo que, como sublinha Alexandra Figueira, “toda a imprensa portuguesa é privada, uma vez que não existe qualquer jornal de capitais públicos”.
A sensação de estar sempre em falta
“A minha sensação é de que estava sempre a trabalhar em défice”, diz Alexandra Figueira, a propósito do assoberbamento de trabalho e da intensificação da sua sobre-exploração. Com o passar dos anos, recorda a antiga redatora, “o volume de trabalho foi-se tornando avassalador. Havia cada vez menos jornalistas para responder a um número cada vez maior de solicitações. Ao usual trabalho para a edição em papel, acrescentou-se o online, com exigências muito próprias.”
Para além da crise geral de improdutividade do capital, num país com baixos índices de consumo de imprensa e altos indicadores de concentração publicitária nas televisões e, progressivamente, no digital, foi-se adensando o que Luís Miguel Loureiro define como a “complexidade do ecossistema” mediático, “no qual se cruzam todo o tipo de interesses, seria inocente da minha parte afirmar que os interesses e valores mais ‘elevados’ (o interesse público e a aferição dos valores-notícia, exclusivamente, pela lente ético-metodológica da objetividade) se conseguem sobrepor aos interesses comezinhos (dos interesses das fontes aos interesses particulares dos intervenientes no processo de produção noticiosa) que permeiam o quotidiano do trabalho da redação”.
Alexandra Figueira evoca a este respeito um episódio da sua vida jornalística quando recebeu da parte de um diretor a informação de que uma notícia sua “tinha custado um contrato de publicidade de alguns milhares de euros. A notícia já tinha sido publicada há algum tempo e nunca compreendi a razão pela qual o diretor me contou essa história”. Ou seja, enquanto mecanismos de condicionamento e mesmo afirmando não querer “medir a intenção do diretor” referido, o efeito, concluiu a ex-jornalista, “só poderia ser um: ainda que subconsciente, a autocensura relativa a histórias negativas sobre potenciais anunciantes”.
Formação: entre a técnica e a crítica
Para quem tenha integrado as primeiras gerações de jovens sonhadores que ingressavam nas faculdades para estudar jornalismo e acederem posteriormente à profissão, após Abril, em especial quando do arranque dos primeiros cursos superiores nesta área em inícios da década de 1980, e que acompanhe hoje as gerações que optam pelos cursos de jornalismo e comunicação, os efeitos derrisórios desta “agonia do jornalismo”, como muitos lhe chamam, é notória a abissal diferença de expectativas e a devastadora amputação do sonho.
Outrora movidos pela razão social de promover a justiça, defender a verdade, vigiar os poderes e exercer a liberdade de defender a democracia, opõem-se hoje perspetivas de alcançar se não a fama individual plasmada na figura do “pivô” de televisão, pelo menos a tentativa de conseguir chegar a trabalhar num jornal, numa estação de rádio ou de televisão em condições de sobrevivência mínimas.
A regra de ouro, imperativo absoluto, de atomização individual, de rejeição de qualquer tipo de ação coletiva organizada ou espontânea dentro das redações que possa meter “um pauzinho na engrenagem”, impera e coloniza os próprios imaginários da profissão. Só muito recentemente, um estudo da Universidade da Beira Interior conduzido entre profissionais do jornalismo em Portugal consegue captar uma perceção que, em termos explícitos, nunca havia sido ventilada, quando praticamente metade dos inquiridos se consideravam a si mesmos e aos jornalistas em geral como fatores de propagação de desinformação.
Até aqui, em Portugal como noutras geografias, os jornalistas atribuíam os fatores de pressão e controlo do seu trabalho quase em exclusivo ao que, na gíria profissional, é conhecido como “rotinas e constrangimentos” operacionais, falta de espaço, de tempo, pressão para publicar mais cedo que “a concorrência”, etc. Esse estudo parece sugerir, pela primeira vez, um eventual ganho de consciência sobre a realidade da profissão e a captura hegemónica das suas empresas, órgãos e títulos pela economia política predominante do grande capital.
Em que medida pode isso vir a tornar-se uma consciência crítica e contestatária ou simplesmente em mais um saber dócil e de docilização, com toda a carga de cinismo para o futuro imediato e de médio prazo da profissão entre nós, é difícil predizer. Para Alexandra Figueira, hoje na sua ocupação académica, a opção “tem sido privilegiar o conhecimento da realidade, dos efeitos dos media, das teorias do jornalismo, a capacidade crítica sobre a profissão, a sociedade, a política”. Para Luís Miguel Loureiro, de resto, a questão é idêntica, a consciência da “inadequação total que sei existir entre a ferramentação crítica que tento incutir nos meus estudantes e o ambiente de controlo que sei que irão, fatalmente, encontrar nas redações”.
Profissão para cínicos?
Suscitará poucas dúvidas a afirmação de que o jornalismo e as indústrias da consciência em geral – a que não escapa o sistema de ensino – estarão no epicentro do contraste entre a conceção clássica da política como modalidade superior de organização da vida dos coletivos humanos e a sua versão moderna de luta pela conquista e manutenção no poder de oligarquias organizadas em torno dos fluxos de capital.
Se, ao longo de toda a história do jornalismo industrial e, hoje, digital também, não faltam exemplos de integridade, valentia, militância pela difusão do real com verdade e não apenas como verosimilhança – que é o que hoje sucede –, se não faltam nomes como os de Seymour Hearsh, Robert Fisk, Julian Assange, Ryszard Kapuściński, ou os jovens Woodward e Bernstein e tantos outros, a sua realidade reside na condição de exceções que todos eles representaram e não poucos atraiçoaram.
Para os media corporativos a grande e única verdade é a do mundo dos negócios e dos interesses que se conjuram no seu seio, ao qual pertencem, aliás, os grandes grupos mediáticos, quer à escala local, quer global, a qual um antigo diretor da televisão norte-americana CBS resumiu numa frase simples acerca das opções editoriais e profissionais em jornalismo: “a merda dá dinheiro”. O resto é lirismo e filosofia.
Também na academia se conhece bem o problema, como se deduz das palavras de Alexandra Figueira: “O saber técnico – construir uma pirâmide invertida ou uma técnica de reportagem – é muito relevante, mas é relativamente fácil de transmitir. O mais difícil é dar aos jovens capacidade para questionar por que razão se faz uma pergunta e não outra, se escolhe um determinado aspeto da realidade para título, se ouve a pessoa A em vez da pessoa B. Privilegiar a execução técnica tem como efeito diminuir o espírito crítico dos estudantes. Enviar para as redações meros executantes técnicos é precisamente do que o jornalismo não necessita”. E grande parte dos cursos de formação foi cedendo à opção mais fácil e também a mais ilusória, a de que o jornalismo é um problema técnico, que encontra na técnica a gama das suas soluções, permitindo uma via de fuga para o problema político central que Charles Wright Mills, sociólogo norte-americano, deixou formulado desde os anos 1950: “entre a consciência e a existência fica a comunicação, que influencia a consciência que os homens têm da sua existência”.
Para Luís Miguel Loureiro, de resto, o problema abate-se, de forma semelhante não apenas no jornalismo profissional, mas na academia: “Penso até”, afirma, “pelo que observo, que está em decadência o próprio professor que viva, na academia, o dilema que eu vivo diariamente. Considero, mesmo assim, que não tenho alternativa: não concebo formação de jornalistas que não se funde em modelos de questionamento integral e de indisciplina intelectual militante perante a realidade.”
Sem dúvida que tinha razão Kapuściński ao intitular um dos seus livros que “esta profissão não é para cínicos”. E no entanto, parece não existir crítica da razão cínica bastante para cumprir a consigna do insigne repórter polaco. A crítica do jornalismo e a imprescindível distinção entre jornalismo e jornalistas que lhe deve presidir constituem-se hoje como elementos centrais de uma profissão e de uma atividade social que se degrada tanto quanto mais necessária se faz a sua integridade ou, pelo menos, a consciência crítica e a luta por ela.
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