Pobreza

O triste panorama das relações de trabalho em Portugal
categoria-trabalho edicao-2026-10-22 (46) Portugal Relações de trabalho Pobreza Código do Trabalho

O triste panorama das relações de trabalho em Portugal

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O triste panorama das relações de trabalho em Portugal

Um milhão de contratos precários, 2,5 milhões com salários inferiores a mil euros por mês, salários que representam cerca de 55 a 65% da média europeia. A “economia informal” representa mais de um terço (34,87%) de todo o PIB. Terceiro país da União Europeia com o maior número de acidentes de trabalho. Assédio moral, enfraquecimento da organização coletiva: eis um retrato sombrio do Portugal que trabalha.

ilustração: Rita Comedida

O chamado mundo das relações de trabalho, em particular do trabalho assalariado e por conta de outrem, está no nosso país, e ao contrário dos discursos oficiais, cada vez mais transformado num autêntico paraíso para os patrões, em particular os de grande dimensão, e num inferno para os trabalhadores. 

Na verdade, em 2025, a população ativa portuguesa rondava os 5,5 milhões, cerca de um milhão dos quais tinha vínculos precários, como contratos a prazo ou ainda mais precários, como contratos de trabalho temporário, três a quatro milhões tinham um salário inferior a 1300 euros mensais e 2,5 milhões, cerca de metade da mesma população ativa, um salário inferior a mil euros por mês. Dos mais de dois milhões de portugueses em situação de pobreza, um milhão são trabalhadores empregados, o que significa que os miseráveis salários que recebem são insuficientes para assegurar uma vida condigna. 

Dos mais de dois milhões de portugueses em situação de pobreza, um milhão são trabalhadores empregados.

Um milhão e novecentos mil trabalhadores tinha de trabalhar aos sábados, domingos, feriados ou à noite, sendo que os trabalhadores portugueses são dos que na UE-27 ganham salários mais baixos, cerca de 55 a 65% da média europeia, e mais de um milhão deles têm de trabalhar 49 horas ou mais por semana. 

Aliás, e de acordo com as próprias estatísticas da UE, os custos horários unitários de trabalho, incluindo salários, contribuições para a Segurança Social, custos dos seguros e outras despesas, eram em Portugal de 18,2 euros/hora, na UE 27 de 33,4 euros/hora e na zona euro 37 euros/hora. Enquanto isto, os cinco maiores bancos embolsam lucros gigantescos, da ordem dos 12 milhões de euros por dia, e as empresas de setores como combustíveis, eletricidade e distribuição alimentar acumulam ganhos da ordem das centenas de milhões de euros por ano. E um presidente da comissão executiva de uma das empresas mais cotadas na bolsa, o chamado PSI, aufere em média, entre vencimentos e prémios, mais de 1,4 milhões de euros por ano, ou seja, mais de 100 mil euros por mês.

Ademais, entre 2015 e 2024, o PIB (produto interno bruto) cresceu 21%, mas apenas 5% desse aumento veio da produtividade, sendo que em 20 anos, cresceu 49,9%, mas os salários reais apenas 39%, o que significa que mais 12% da riqueza criada pelo trabalho migrou para o capital. 

Segundo os estudos e estimativas do Observatório de Economia e Gestão de Fraude da Economia, sediado na Faculdade de Economia do Porto, a chamada “economia informal” ou “economia não registada” representava em 2023 mais de um terço (34,87%!) de todo o PIB. Ora nesta enorme área de atividade, onde não há leis do trabalho, nem tribunais do trabalho, nem Autoridade para as Condições do Trabalho, nem descontos para a Segurança Social, nem prestações sociais, está seguramente um número considerável de trabalhadores individuais e até de microempresários que não aguentam o peso de uma fiscalidade asfixiante. Mas estão também empresas de média e até de grande dimensão que, propositadamente, exercem pelo menos parte da sua atividade à margem da lei; e o caso das partes das remunerações pagas sem descontos, “por baixo da mesa”, é disso um exemplo significativo. 

Por outro lado, esta situação mascara também a realidade noutras matérias extremamente relevantes, à cabeça das quais está a sinistralidade laboral. Portugal, com uma média de acidentes de trabalho da ordem dos 190 mil por ano, é o terceiro país da União Europeia com o maior número de acidentes, mas esta realidade há de ser ainda muito superior, só que uma parte dela não é declarada. Tal como é aliás também incontornável o fenómeno da gigantesca subnotificação, ou falta de participação, das doenças profissionais. Sendo que muitas delas, inclusivamente mortais, são apenas descobertas já depois de o trabalhador passar à reforma. 

Como sucessivos estudos do economista Eugénio Rosa têm demonstrado, o número real dos desempregados é, desde logo, por força do elevado número de trabalhadores no desemprego que, pela idade, pela doença ou pelo cansaço não alimentam qualquer esperança de arranjar novo emprego e não se inscrevem nos centros de emprego, muito superior aos desempregados constantes das estatísticas oficiais. E destes apenas metade consegue ter direito a receber o magro subsídio de desemprego. Realmente é muito difícil um trabalhador despedido, mais ainda com 40 ou 50 anos de idade, encontrar um novo emprego, sendo que o desemprego de longa duração representa cerca de 37% do desemprego total. 

A situação dos jovens, e em particular dos jovens qualificados, é particularmente grave num país que aceitou destruir a sua capacidade produtiva e dedicar-se esmagadoramente à prestação de serviços de alta intensidade e baixa qualificação e remuneração, como a agricultura intensiva, a restauração e o turismo, atingindo assim o desemprego jovem entre os 16 e os 24 anos os 19,5%. 

Por outro lado, a vida no interior das empresas está cada vez mais difícil, com o assédio moral, ou seja, a política do medo, da perseguição, da discriminação, a ser generalizadamente utilizado como ferramenta de gestão para levar os trabalhadores a aceitarem piores condições de trabalho e/ou salários mais baixos. 

Os truques e as artimanhas patronais multiplicam-se e endurecem na maior das impunidades. Os salários “partidos” em várias componentes, em que apenas uma delas é chamada de vencimento base, e só ela constitui a base de cálculo, em caso de despedimento, por exemplo. Ou a composição do salário com prestações remuneratórias atribuídas – e logo também retiradas – por atos de gestão, ou seja, pelo mero arbítrio dos patrões, que assim conseguem manter aquietados e controlados um número significativo de trabalhadores que, com receio de verem a sua retribuição subitamente diminuída para cerca de metade, a tudo ou quase tudo se prestam. 

A chamada “avaliação de desempenho” está hoje generalizadamente transformada, até pela falta de efetivo controlo, seja ele sindical ou judicial, num meio privilegiado de conferir um verniz de pretensa objetividade ou cientificidade à discriminação e à perseguição e no colocar na calha para o despedimento os indesejáveis, ou seja, os trabalhadores que não baixam a cabeça e não abdicam de lutar pelos seus direitos e de denunciar as ilegalidades e arbítrios patronais. 

Os mecanismos de defesa individual e sobretudo coletiva dos trabalhadores estão muito enfraquecidos.

E os mecanismos de defesa individual e sobretudo coletiva dos trabalhadores estão muito enfraquecidos. Ainda que os números oficiais camuflem a realidade do elevado número de trabalhadores que são sindicalizados mas que, por receio de represálias, não o comunicam ao patrão, o certo é que, também por responsabilidade própria dos sindicatos, por incapacidade de compreender as novas realidades do mundo do trabalho e de combaterem o ultra individualismo da ideologia neoliberal e por terem aceitado um recuo histórico para serem meras estruturas de fraca reivindicação económica, a taxa oficial de sindicalização é muito baixa, rondando os cerca de 7%. 

E, mercê desse enfraquecimento da organização dos trabalhadores e das medidas cirúrgicas adotadas pelo Código do Trabalho e intensificadas pelas chamadas reformas laborais da Troika, e mantidas no essencial em vigor por todos os governos dos últimos 25 anos, a contratação coletiva, quer em termos de número absoluto de convenções coletivas, quer de número de trabalhadores abrangidos, desceu drasticamente, sendo os últimos dados oficiais de 272 convenções e 885 mil trabalhadores abrangidos, isto é, somente 15% do total. 

Ao contrário da sistemática propaganda patronal e governamental, o número e intensidade das formas de luta coletiva são fracos (tendo, porém, e felizmente, conhecido uma evolução bastante positiva com as duas greves gerais contra o pacote laboral). Assim, em 2024, segundo os dados do Ministério do Trabalho, verificaram-se apenas 219 greves, abrangendo perto de 66 mil trabalhadores. 

Em contrapartida, os despedimentos, em especial os despedimentos coletivos, que lançam trabalhadores para a rua às dezenas ou às centenas, têm aumentado, havendo atingido em 2025 os 562, com mais de 6500 trabalhadores despedidos. 

Por seu turno, os meios legais de defesa dos direitos dos trabalhadores constituem outra fraude. As custas judiciais são, precisamente para funcionarem como um travão no acesso aos tribunais do trabalho, escandalosamente caras e por isso, de acordo com os dados estatísticos do Ministério da Justiça, de cerca de 200 mil processos laborais entrados anualmente entre 1976 e 1978, passámos, sobretudo a partir de 1990 e em particular nos últimos 10-15 anos, para um número da ordem de apenas 50 mil. 

Grande parte dos julgadores desconhece o que é a realidade das relações de trabalho e de todas estas artimanhas patronais e o que é, por exemplo, o fortíssimo constrangimento que um trabalhador, sobretudo se for precário, enfrenta para conseguir arranjar prova testemunhal, através de colegas seus em situação idêntica e, logo, sujeitos a toda a espécie de retaliações. As indemnizações por danos morais, designadamente nos casos de violações graves dos direitos laborais, como por exemplo de assédio moral, são, mercê de uma dominante e miserabilista cultura judiciária, ridiculamente baixas, constituindo assim um meio de impunidade, senão mesmo de incentivo à reincidência dos patrões violadores da lei.

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As indemnizações legalmente devidas em caso de despedimento coletivo ou extinção do posto de trabalho são também escandalosamente baixas, porque calculadas apenas a partir daquilo que é pago ao trabalhador a título de remuneração base (e não de toda a retribuição que ele recebe) e à irrisória razão de 14 dias de retribuição por cada ano de antiguidade.

Acresce que se o trabalhador quiser impugnar um desses despedimentos, tem desde logo que devolver de imediato ao patrão a referida indemnização de antiguidade e depois esperar anos, às vezes três, quatro, cinco ou mesmo mais, por uma decisão favorável. A mesma demora espera também o trabalhador atingido por um despedimento individual ilícito, sendo certo que, com frequência, mesmo condenado a reintegrar o trabalhador, que por tal reintegração optou, o patrão não o reintegra, tudo isto sem consequências de maior.

Formação adequada e garantia das devidas condições de higiene e segurança no trabalho são coisas que, em muitos sectores e em muitas empresas, em particular, por exemplo, na construção civil e nas indústrias transformadoras (aqueles sectores nos quais se verifica um maior número de acidentes de trabalho), não existem, sendo mesmo consideradas um “custo” que é preciso diminuir a todo o transe ou até eliminar, para assim se garantirem maiores lucros.

E a atividade inspetiva e sancionatória, em particular por parte da propositadamente depauperada e desvalorizada ACT (Autoridade para as Condições de Trabalho) é coisa que também praticamente não existe.

Por fim, em caso de acidente de trabalho ou de doença profissional, os respetivos processos judiciais são uma verdadeira e longuíssima tortura e revitimização das vítimas da doença ou acidente, abandonadas à sua sorte, sem capacidade para guerrear com as poderosas seguradoras e os seus sempre prestáveis peritos. Para mais, com base numa Tabela Nacional de Incapacidades totalmente ultrapassada e inadequada, mas a cuja revisão o omnipotente lobby segurador se tem oposto com êxito desde há décadas.

A generalidade dos trabalhadores portugueses está assim sujeita a que, enquanto podem trabalhar no máximo das suas capacidades, lhes devorem a carne e lhes chupem o sangue, para, assim que sofrem um acidente, ficam doentes ou simplesmente mais velhos e cansados, serem, de forma totalmente indigna, atirados para um canto como um trapo imprestável.

É tempo, pois, de os trabalhadores portugueses e das organizações que dizem representá-los se erguerem, de forma resoluta e firme, em defesa da dignidade de quem trabalha!

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Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha

Receita: Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda

A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar.

A história do consumo das sopas de cavalo cansado em Portugal é mais complexa do que a caricatura a que frequentemente são reduzidas. Se, por um lado, tentam evocar um nostálgico universo rural de tradição, resistência e identidade popular, são sobretudo símbolo de pobreza extrema, de subalimentação e de práticas alimentares de recurso numa cultura nacionalista da alegre e modesta casinha, onde tudo o resto falha.

A origem da designação parece remontar ao século XIX, numa época anterior aos caminhos de ferro, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Ao longo do percurso, existiam pousadas onde viajantes e animais recuperavam forças. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar. Dessa prática teria surgido a expressão “sopas de cavalo cansado”.

Embora não existam fontes históricas definitivas que comprovem esta origem, a mesma interpretação aparece também na tradição galega, onde existem designações semelhantes, como sopas de cabalo cansado, sopas de burro cansado, sopas borrachas ou simplesmente sopas de viño. Em Portugal, além da expressão mais conhecida, registam-se igualmente variantes como “sopas de burro cansado” ou “sopas de vinho”, sobretudo em Trás-os-Montes e no Alto Douro.

Com o tempo, aquilo que terá começado como um alimento de recuperação para animais, transformou-se num pequeno-almoço comum entre as populações rurais pobres, sobretudo do Norte de Portugal. A dureza do trabalho agrícola, associada à escassez alimentar crónica, fazia do vinho não apenas uma bebida, mas também uma fonte de calorias e um elemento central da dieta quotidiana.

Existem outras sopas na cultura popular europeia que incluem vinho na sua composição, desde a sopa de cebola francesa, enriquecida com vinho branco ou xerez, as sopas alemãs e suíças de Riesling, passando pelas Weinsuppen do Norte de Itália, mas todas são bem mais sofisticadas e não refletem, como as nossas, uma utilização do vinho como ingrediente de reforço alimentar e energético.

A receita das sopas variava consoante a região e os recursos disponíveis. Na sua forma mais simples, consistia em pão duro demolhado em vinho tinto com açúcar. Noutras versões mais enriquecidas podiam juntar-se gema de ovo, mel, canela, broa de milho esfarelada ou vinho verde tinto. Servia-se numa malga ou tigela funda e era entendida como um alimento altamente energético, adequado ao desgaste físico do trabalho agrícola.

Estas práticas alimentares surgem num contexto histórico marcado por profundas carências económicas e sociais. Durante as décadas de 1930 e 1940 grande parte da população vivia em condições de miséria extrema, onde o salário do chamado “chefe de família” era insuficiente para assegurar sequer uma alimentação básica. Para sobreviver, era necessário o trabalho de todos os membros da família, incluindo crianças.

As sopas de cavalo cansado não eram, assim, apenas uma tradição gastronómica da ruralidade: eram uma resposta pragmática à fome, ao desgaste físico e à ausência de alternativas alimentares. O vinho, diluído no quotidiano rural, era encarado como um alimento fortalecedor, quase medicinal.

A vitivinicultura em Portugal, abençoado com o maior número de castas autóctones do mundo, umas notáveis 250, era um dos pilares da economia portuguesa. Nos anos 1940, a vinha ocupava 320 mil hectares repartidos por mais de 300 mil produtores, quase todos de pequena ou muito pequena dimensão, e era a que mobilizava mais mão de obra e durante mais tempo. O vinho representava uma das principais exportações nacionais, apenas ultrapassada pela da cortiça. Organismos como a Junta Nacional do Vinho, criada em 1937, ou o Grémio dos Armazenistas de Vinho controlavam preços, produção e propaganda, e promoviam intensamente a produção e o consumo de vinho como símbolo da identidade nacional, difundindo a ideia de que “beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses”.

O regime utilizava a iconografia rural e vínica como instrumento de propaganda nacionalista, apresentando um país harmonioso e tradicional que contrastava fortemente com a realidade de pobreza vivida por grande parte da população.

Em 1938, surgia um cartaz do Grémio dos Armazenistas de Vinho, conhecido como o Cartaz das Tabernas, que misturava com pouco rigor regras sanitárias e alegados argumentos científicos. O cartaz proclamava coisas extraordinárias como: “o alcoolismo é combatido pelo consumo de vinho”, frase atribuída a um misterioso Dr. Bertillon. Citava ainda, supostamente, Louis Pasteur com “o vinho é a mais sã e higiénica das bebidas”, demonizando as bebidas destiladas estrangeiras, onde se inclui a cerveja, essas sim, fontes de decadência social e moral. A propaganda chegava ao ponto de declarar que “um litro de vinho de 10º corresponde, como alimento, a 90 cl de leite, 370 g de pão, 585 g de carne ou cinco ovos”.

Contudo, a relação social com o álcool transformou-se profundamente ao longo do século XX e início do século XXI. Se durante décadas o consumo de vinho foi associado à força física, ao convívio, à celebração e até à saúde, hoje cresce uma visão muito mais crítica sobre o álcool e os seus impactos sociais e sanitários.

Depois do aumento do consumo durante o confinamento, houve um declínio geral no hábito de beber: as pessoas mais velhas continuam a ser as que mais bebem, enquanto os menos propensos ao consumo têm entre 16 e 24 anos, sendo que 26% dessa faixa etária é totalmente abstémia. São muitos jovens sóbrios. A cultura da grande bebedeira como evento olímpico regular que marcou os anos 1980 e 1990 perde prestígio social e o álcool deixa de ser um ritual obrigatório de integração juvenil e passa, para muitos, a representar algo antiquado, dispendioso e pouco desejável. Surgem agora as raves sem álcool, em cafés e padarias, apenas movidas a boas vibrações e o kombucha. Quantos Salazares seriam hoje precisos para devolver a alma genuinamente boémia ao dancefloor?

As razões para esta mudança são várias. Sair à noite tornou-se muito mais caro, mas sobretudo há alterações culturais profundas: maior preocupação com a saúde mental e física, novas formas de socialização, transformação das relações e menor pressão social para beber. Paralelamente, muitos espaços tradicionais de convívio noturno enfrentam dificuldades económicas e muitos encerram, pressionados pela gentrificação urbana, pelo aumento dos custos operacionais, mas, em grande parte, pela diminuição do consumo de álcool.

Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda

Ingredientes:

  • 1 pera bem firme
  • 2 copos generosos de vinho tinto
  • 1 cálice de vinho do porto
  • 1 cálice de aguardente velha
  • 3 colheres de sopa de açúcar
  • 3 colheres de sopa de flocos de aveia finos
  • 1 estrela de anis
  • 2 cravinhos
  • 1 pau de canela
  • Raspas de chocolate negro

Descasque a pera mantendo-a inteira e leve a lume moderado com todos os outros ingredientes, exceto a aveia e o chocolate. Deixe cozer a pera cerca de 10 minutos, retire-a e reserve.

Acrescente os flocos de aveia e deixe que cozinhem enquanto o molho reduz, mexendo sempre.

Sirva esta mistura numa taça, coloque por cima a pera e finalize com as raspas de chocolate

Bulgária Emigração Euro Pobreza categoria-internacional edicao-2026-05-28 (29)

Bulgária: medo do euro dá a vitória a Radev

Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.

ilustração: Ricardo Ferreira

As eleições búlgaras, realizadas logo a seguir às húngaras, foram interpretadas pelos meios de comunicação italianos como sinal em contramão com a liquidação de Orbán, portanto como sinal “eurocéptico” e, logo, pró-russo. Interpretação decididamente parcial. Poucos recordaram que a Bulgária acolhe quatro bases militares dos EUA desde 2006, com 2500 soldados em regime de rotação. Uma delas fica em Bezmer, a menos de 100 km do Mar Negro. E foi em Bezmer que, em Dezembro de 2025, a italiana Crosetto assinou com a Bulgária um acordo para a construção e gestão conjunta de uma nova infra-estrutura militar.

Uma correcta interpretação destas eleições deve ter em conta o quadro internacional global. Estamos a falar de um pequeno país com 6,6 milhões de habitantes (dos quais 1,4 milhões emigraram para o estrangeiro), em constante declínio demográfico1, o mais pobre da Europa2, a quem a recente entrada na zona euro não fez bem — zona da qual, e não é mero acaso, a Hungria não faz parte. País que, ainda assim, devido à sua localização geográfica perto dos estreitos que comunicam com o Mediterrâneo, de frente para a Rússia, a Turquia e o Médio Oriente, pode negociar em várias frentes, e não apenas no contexto da guerra na Ucrânia.

Embora se tenda a falar menos disso, a guerra na Ucrânia (no matadouro ucraniano) ainda está em curso. Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.


Regresso ao passado?

Para compreender a política búlgara, é necessária uma breve incursão pela sua história. Em ambas as guerras mundiais, a Bulgária esteve do lado dos perdedores e, na segunda, ao lado da Alemanha. Em Ialta, foi concedida pelos EUA à esfera de influência da URSS. Antes da queda do Muro de Berlim (1989), a Bulgária foi o país mais fiel às directrizes estalinistas e pós-estalinistas. Depois, consolidou-se, tal como na Rússia ou na Ucrânia, o poder dos oligarcas, na linha da antiga política de autoritarismo real dos Saxe-Coburgo. Até meados da década de 1980, o país era predominantemente agrícola. [Não por acaso, nos movimentos de massas depois da Primeira Guerra Mundial, os mais activos não foram os operários, como na Hungria ou na Alemanha, mas os camponeses pobres ou pequenos proprietários de terras.]

No pós-guerra, a Bulgária aceitou o papel de ajudante da política externa da URSS, enviando armas e soldados em apoio aos movimentos de libertação apoiados pela URSS (Vietname, Indonésia, Angola, etc.), mais tarde aos regimes amigos (10 mil búlgaros enviados para a Líbia em 1984, participação na invasão russa do Afeganistão em 1980), constituindo uma espécie de prefiguração do grupo Wagner. Como a Checoslováquia, a Bulgária foi frequentemente acusada pelo Ocidente de vender armas a “terroristas” ou revolucionários.

Tal como a URSS e os restantes países do Leste, o país abriu-se à penetração de tecnologia e capitais da Europa Ocidental, em primeiro lugar da Alemanha, logo no início dos anos 70. De entre os vários países do Comecon, tinha a mais elevada taxa de trocas comerciais com a Europa Ocidental.

Após o colapso da URSS, em 1989, as primeiras eleições foram vencidas pelo Partido Socialista, as novas vestes envergadas pelos antigos estalinistas “democratizados”, mas entre 1992 e 1994 uma nova vaga de partidos liberais encarregou-se de lançar um plano de privatizações. As indústrias privatizadas, pouco competitivas e sem o apoio de infra-estruturas adequadas, faliram na sua maioria, provocando vagas de despedimentos. Isso explica o frequente regresso ao governo dos socialistas, que se apresentavam como defensores dos trabalhadores empobrecidos contra os excessos do mercado livre, ao passo que a população mais idosa sentia saudades dos serviços de saúde e da escola do antigo regime soviético.

Pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza.

Muito rapidamente, pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza. Recorde-se que, de 2001 a 2005, o governo búlgaro foi chefiado por Simeão de Saxe-Coburgo, filho do “czar” búlgaro Boris III. Não vale muito a pena acompanhar as idas e vindas eleitorais; pode-se, em resumo, dizer que, na era pós-soviética, o desemprego e a emigração foram uma constante, enquanto os níveis de vida, depois de se despenharem durante alguns anos, foram melhorando muito lentamente.

Se, no período da URSS, a única indústria que se desenvolveu em grande escala foi a siderúrgica (também graças à existência de lenhite e ferro), com, em segundo plano, a têxtil e agro-alimentar (além da transformação do tabaco), em meados dos anos 90 inicia-se a diversificação industrial, com o desenvolvimento da mecânica e da química.

Intervenção dos EUA e da Europa

Após o colapso da URSS, também na Bulgária houve uma intervenção financeira americana substancial (mais de 600 milhões de dólares até 2007), que levou o país à NATO em 2004 (com a ajuda do já mencionado Simeão de Saxe-Coburgo). Confirmando a tendência de se colocar ao serviço do mais forte, a Bulgária enviou contingentes militares para a Bósnia em 1996 e para o Kosovo em 1999 (missões contestadas pelo Partido Socialista pró-russo). Outros contingentes foram enviados para o Afeganistão de 2001 a 2014 e para o Iraque de 2003 a 2005, ao lado dos EUA.

Tal como aconteceu com muitos outros países da Europa de Leste, a adesão à NATO precedeu a adesão à UE, que ocorreu em 2007. A entrada na UE implicou o acesso a financiamentos substanciais, sobretudo para a agricultura (PAC)3. Intensificou-se, porém, o massacre social liberal. Uma sondagem de 2009 indicava que 76% dos búlgaros se consideravam insatisfeitos com o sistema democrático, 63% achavam que o mercado livre não melhorava a vida das pessoas, e apenas 11% dos búlgaros concordavam que a população comum tinha beneficiado das mudanças após 1989. Nesta avaliação categoricamente negativa, pesavam de maneira determinante os efeitos sobre os trabalhadores da entrada na esfera de influência ocidental.

A entrada da Bulgária na NATO e na UE não alterou a grande dependência do petróleo russo, fornecido principalmente pela Lukoil, que garantia até 80% das necessidades energéticas do país, a que se juntou posteriormente o gás do Azerbaijão. Tudo mudou em 2022 com a guerra na Ucrânia.

Antes das eleições

A política dos partidos burgueses deu escassíssima resposta às contradições sociais mais agudas do país. O Parlamento fragmentou-se: às eleições de 2026 apresentaram-se 24 partidos e coligações. Daí a incapacidade de criar governos estáveis e eficazes e o recurso contínuo a eleições antecipadas (oito nos últimos 5 anos)4. As eleições legislativas de 2026 foram o resultado dos protestos em massa de Dezembro de 2025 contra o projecto de orçamento para 2026, que previa aumentos dos impostos e contribuições sobre os salários. Um orçamento, reflexo de uma sociedade em que o parasitismo de poucos ricos era pago por muitos, com as desigualdades sociais em constante aumento (os 20% mais ricos possuem 8 vezes mais do que os 20% mais pobres; média da UE: 4,9 vezes)5.

O plano foi retirado, e o Presidente da República, Rumen Radev, que agora venceu as eleições, dissolveu o Parlamento, criou, em Março, o seu próprio partido, Bulgária Progressista, e propôs-se a si próprio como solução para os problemas, na tradição populista do homem forte.

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A proposta política de Radev

Neste contexto, Rumen Radev, ex-general, ex-piloto de elite da Força Aérea, ex-Presidente da República (2017-2026), eleito com os votos do Partido Socialista de ascendência estalinista, não é propriamente um homem novo, tal como Magyar não é novo em relação a Orban. Venceu com 44,7% dos votos, conquistando 130 lugares em 240.

Conseguiu convencer os búlgaros a voltarem às urnas (48,5% do eleitorado votou, contra 33% em 2024), agitando não temas internacionais, mas propostas sociais, acompanhadas pelo apelo aos valores nacionais e patrióticos: o orgulho de pertencer ao povo eslavo e à Igreja Ortodoxa, mas sempre ostentando grande pragmatismo. Foi esta combinação hábil que lhe granjeou credibilidade junto das massas.

Entre as suas propostas sociais (que resta ver se serão cumpridas): aumentar as pensões, adaptar os cuidados de saúde às necessidades das pessoas com deficiência e idosas, garantir água potável a todos (actualmente, especialmente nas cidades, o abastecimento diário não ultrapassa três horas), melhorar os transportes públicos.

Radev levantou também o tema da luta contra a corrupção e os métodos mafiosos que caracterizam o modelo oligárquico6. Os protestos contra a corrupção tinham ocasionado manifestações generalizadas em 2020. A palavra de ordem anti-corrupção é menos uma exigência moral ou cívica e mais uma resposta à necessidade do capitalismo búlgaro de racionalizar o sistema produtivo e reduzir o parasitismo.

Uma análise recente da OCDE aponta para a necessidade de enfrentar o envelhecimento da força de trabalho, a fuga de mão-de-obra e de cérebros jovens para o estrangeiro devido a salários demasiado baixos, mas também a baixa produtividade. Não há massa suficiente de capital investido e, para atrair capital estrangeiro, já não bastam salários baixos; é necessário adequar as competências da mão-de-obra, investindo em cursos profissionais. É preciso reduzir “os obstáculos regulamentares” (leia-se: cortar nos subornos aos funcionários que emitem licenças de investimento, cortar nas luvas exigidas pelos mafiosos) e, por fim, é preciso modernizar a infra-estrutura. O país deu um exemplo de ineficiência no caso do PNRR. Havendo fundos europeus no valor de 6700 milhões de euros, o governo só conseguiu gastar 1400 milhões em 2025. Outro fracasso parcial foi a adesão ao espaço Schengen em 2024, pois o país não aplica Schengen nas fronteiras terrestres. Estas, as observações da OCDE. É muito duvidoso que possam ter impacto positivo na condição dos proletários e dos camponeses búlgaros.

Os meios de comunicação italianos têm vincado o eurocepticismo de Radev. Mas é facto assente que a classe dirigente búlgara não pode renunciar às copiosas subvenções europeias, nem ao mercado europeu. Actualmente, 65,7% do comércio da Bulgária é com a UE; o principal parceiro é a Alemanha, com 13,5%. Só o plano da UE para 2021-27 previa para a Bulgária a concessão de 17 mil milhões de euros (incluindo os 6700 milhões de fundos do PNRR).

Radev opôs-se simplesmente à entrada da Bulgária na zona euro a 1 de Janeiro de 2026. Em Dezembro, apenas os bancos, o comércio e as empresas previam tirar partido disso. Em contrapartida, entre a população, sobretudo os mais desfavorecidos, 6 em cada 10 búlgaros eram contra. Os trabalhadores, justamente, sabendo do acontecido nos países que foram aderindo ao euro, temem uma vaga de aumentos de preços, que, neste caso, se somaria ao aumento dos custos energéticos já ocorrido devido à guerra na Ucrânia, que a UE erigiu em sua razão “existencial”. Radev, na qualidade de Presidente da República, cavalgando o descontentamento, definiu a adesão ao euro como “prematura”, solicitando um referendo, o que foi rejeitado pelo Tribunal Constitucional7.

Radev foi apresentado como pró-russo com base no seu entendimento (realista) de que era preferível ter petróleo proveniente de países vizinhos (incluindo a Rússia, além do Azerbaijão) a preços mais convenientes a abastecer-se de GNL americano a custos muitíssimos mais altos. Diga-se que o partido pró-russo mais coerente, os socialistas, não entrou no parlamento, tendo-se ficado por 3,02% dos votos.

É evidente que, para a Bulgária, restabelecer as relações energéticas com a Rússia teria valia estratégica, porque poria o país a salvo de eventuais cortes no abastecimento e, sobretudo, por ser muito mais económico.

Além disso, a Bulgária poderia desempenhar o papel de país de trânsito para o petróleo russo ou azeri se a Europa voltasse a comprar à Rússia, pois passam pelo seu território muitos oleodutos e gasodutos (por exemplo, o Turkstream). A Hungria de Magyar conseguiu acesso ao petróleo russo, por que não a Bulgária?

Sobre a guerra na Ucrânia – um desmentido mais das narrativas dominantes — Radev definiu a Rússia como “agressor”, mas sem partilhar a atitude belicista de países como a Polónia ou as repúblicas bálticas; declarou, ainda, ser contrário ao fornecimento de armas a Kiev — declaração a tomar, porém, com pinças. Desde 2023, a Bulgária aumentou as suas exportações de armas em 900%. E o principal comprador foi precisamente a Ucrânia de Zelensky. Isto na prática, não nas evidências diplomáticas: as exportações de armas e equipamento militar passaram por países terceiros, nomeadamente a Polónia e a Roménia. Uma “triangulação” à qual a Bulgária decerto não renunciará, visto representar uma das receitas mais lucrativas da sua andrajosa economia.

A declaração de Radev insere-se, portanto, na lógica da “moeda de troca” típica dos países mais fracos da UE e representa, diga-se, um piscar de olhos a Trump, para o caso de este querer continuar a tentar alguma abertura à Rússia para quebrar o eixo desta com a China. A burguesia búlgara está sempre pronta, como a sua história demonstra, a servir o melhor licitante. Certamente um problema para a Europa, ou pelo menos para a Alemanha e França, face aos EUA.


Traduzido e adaptado do artigo “Bulgaria: la paura dell’euro fa vincere Radev”, in Il Pungolo Rosso”, 5 de Maio de 2026, por Adriano Zilhão.


  1. Em 1989, a Bulgária tinha 8,7 milhões de habitantes.
  2. O rendimento médio mensal é de cerca de 15 mil € contra uma média europeia de 40 mil.
  3. Ainda em 2014, 82% das empresas agrícolas, nascidas da desagregação das cooperativas estatais, dispunham apenas de cerca de 2 hectares. A agricultura ocupava 18% da população activa. A fraca produtividade foi em parte compensada pelo desenvolvimento do sector agro-alimentar.
  4. A dispersão de votos é corrigida pelo limiar de 4%. Por exemplo, nas recentes eleições, ultrapassaram-no: Gerb – SDS, partido ainda no governo, com o primeiro-ministro Rossen Jelyakov, pró-europeu e de centro-direita, dirigido por Boyko Borissov; caiu para 13,4% dos votos (39 lugares); Bulgária Democrática PP-DB, obteve 12,62% (37 assentos); O Movimento pelos Direitos e pela Liberdade (DPS) obteve 7,12% (21 assentos); Renascimento (Vazraždane), de extrema-direita, obteve 4,26% e 13 assentos.
  5. Um dos instrumentos para aumentar as desigualdades sociais é o sistema tributário – a taxa de imposto única de 10% (flat tax), defendida pelos liberais.
  6. Um dos oligarcas mais comentados, influente nos negócios e na política, é Delyan Peevski, chefe do partido Movimento pelos Direitos e Liberdades (Dvizhenie), ex-magnata dos meios de comunicação social, membro do Parlamento, sancionado por corrupção nos EUA e no Reino Unido.
  7. A Bulgária é o 21.º país a entrar na zona euro, da qual não fazem parte a Suécia, a Dinamarca, a Polónia, a Roménia, a República Checa e a Hungria.
categoria-política Especulação Guerra Pensões Pobreza Segurança social edicao-2025-10-23 (02)

As pensões na mira da “roleta da especulação” do capital financeiro e da guerra​

O governo AD pretende “reformar” a segurança social em três pontos fundamentais: redução da taxa contributiva global com vista a reduzir os custos do trabalho para o empregador; expansão dos planos privados de pensões; pôr termo à garantia universal de pensões mínimas do regime contributivo

“a segurança social é um sistema que deveria ser desligado da relação laboral, porque cada vez mais a relação laboral será uma relação pouco estável.”

Luís Cabral, professor da Universidade de Nova Iorque e colaborador na AESE, ao jornal Público1

A crise do sistema do capital tem vindo a acentuar-lhe o carácter austeritário e depredador, nos campos ambiental, do trabalho e social. Potencia o avanço da direita e da extrema-direita no mundo, agora reforçado com Trump pela segunda vez na presidência dos Estados Unidos.

A guerra em curso na Europa, a barbárie e o genocídio em Gaza são a “política por outros meios”, os mecanismos com que a Nato pretende subjugar os povos e as nações. A Nato pressiona para as despesas militares aumentarem para 5% do PIB de cada Estado. Para isso, “os cidadãos devem aceitar fazer sacrifícios, como cortes nas pensões, na saúde, nos sistemas de segurança (…)” (Mark Rutte, secretário-geral da Nato). A UE, através do plano Draghi e de um pacote de investimentos de 800 000 M€, dotou-se de uma “bússola da competitividade”. 650 000 M€ são para sair dos orçamentos nacionais, tendo estes autorização para ultrapassar as metas do pacto de estabilidade. Para a guerra permite-se, para o investimento público e as necessidades sociais, não.

Espalhar o medo social é o modus operandi do capital financeiro. Foi assim quando a troika interveio, concretizando a mais brutal transferência de rendimentos do trabalho para o capital, com o objetivo de baixar os custos de trabalho para os patrões (TSU), objetivo que se mantém.

Portugal é um país periférico, com investimento público diminuto e elevadíssima taxa de privatização dos sectores estratégicos. Quase 2 milhões de pessoas vivem na pobreza, e mais 1 milhão em grande vulnerabilidade. Esta situação mais do que duplicaria se não houvesse apoios sociais aos reformados e desempregados. Acrescem os 51% dos reformados da segurança social (2024) que vivem abaixo do limiar de pobreza (632€). Três em cada cinco portugueses não têm condições para satisfazer as suas necessidades básicas. Mesmo trabalhando, 900 mil trabalhadores são pobres. Os salários são baixíssimos. 3,4 milhões de trabalhadores ganham entre oitocentos e mil euros. Cresce a uberização do trabalho, enquanto os patrões usam e abusam da mão de obra imigrante (1,6 milhões), superexplorada e sem direitos. Os agiotas e angariadores saem ilesos.

Um pouco por toda a Europa, os sistemas públicos de segurança social têm estado na mira do capital. Muitas alterações impostas seguem o modelo de sistemas mistos de capitalização e do aumento da idade da aposentação. Em Portugal, desde 2007, o maior ataque foram sem dúvida os cortes nas pensões e nas prestações sociais durante a intervenção da troika (de que não recuperámos) e o ataque à TSU (taxa social única) em nome do aumento da “competitividade da economia”, prejudicando seriamente o futuro dos trabalhadores e das suas pensões. É a diminuição dos custos do trabalho, a “desvalorização fiscal” a favor dos patrões: se aquela medida não tivesse sido travada, teria sido uma brutal transferência do trabalho para o capital. “Que se lixe a troika!” pôs 1 milhão de trabalhadores e jovens na rua, e a medida não passou. Mas está hoje de novo em cima da mesa.

Diz-se que o nosso “sistema previdencial da segurança social está de boa saúde”2. No entanto, duas ofensivas estão em curso. Uma parte da comissária europeia, M. Luís Albuquerque3, a outra, do governo AD, dando continuação ao trabalho desenvolvido pelo anterior governo PS de António Costa. Este nomeara uma nova comissão, dirigida por Jorge Bravo (professor universitário, com ligações ao sector dos seguros e fundos privados de pensões), para aprofundar propostas do “Livro Verde para a sustentabilidade das pensões”. A Comissão começou logo por juntar os dois sistemas de pensões – o sistema público da segurança social e o da Caixa Geral de Aposentações – para concluir que são deficitários. Uma grosseira manipulação, dada as diferenças entre os sistemas.

Em entrevista ao Jornal de Negócios4, M. Luís Albuquerque entra na disputa pelas “poupanças dos Europeus”: quer usar as pensões para investir em armas. Manifestou, ainda, a sua “determinação” em erguer uma segurança social aberta ao capital financeiro, banca, seguradoras, fundos especulativos, em três pilares: o público, o de pensões complementares ao nível da empresa (de inscrição obrigatória?) e PPR europeus5, pilar privado de pensões.

O governo AD reconhece, por um lado, “a boa saúde” do sistema público de segurança social: “em março de 2025, já possuía uma carteira de ativos de cerca de 39 400 M€, assegurando já 24,48 meses de pensões, prevendo-se que o Fundo não esgote até 2070”6, reforçado agora com novo “excedente do sistema” de mais 5600 M€. Não obstante, persiste na sua visão neoliberal de “reformar” o sistema público de repartição em três pontos fundamentais: “proposta de redução da taxa contributiva global sobre o salário associada à introdução de uma contribuição sobre o valor acrescentado líquido, com vista a reduzir os custos do trabalho para o empregador; projeto de expansão dos planos privados de pensões (profissionais e pessoais), com o envolvimento ativo do Estado em matéria orçamental e regulamentar; recomendação de pôr termo à garantia universal de pensões mínimas do regime contributivo, passando a sujeitar a garantia de mínimos a condição de recursos.”

O modo de produção tem vindo a mudar, obrigando-nos a refletir também no reforço da sustentabilidade do sistema público de segurança social, mas sem abdicar do seu carácter intergeracional, universal e solidário.

O capital vai preconizar que todas as gerações aceitem abdicar dos direitos presentes e futuros. Tal significaria o triunfo em toda a linha do fascismo social. A nossa unidade é fundamental. Só quem abdica de lutar não vence!•


  1. Luís Cabral ao jornal Público de 8 de junho de 2025.
  2. Min. do Trabalho e Segurança Social ao jornal Público de 20 de março de 2025.
  3. Maria Luís Albuquerque, ex-ministra das Finanças do Governo de Passos Coelho durante a intervenção da troika e atual comissária europeia para os serviços financeiros e união das poupanças.
  4. Jornal de Negócios, 2 de junho de 2025.“Vamos recomendar inscrição automática no Pilar 2 das Pensões”
  5. PPR europeus: Criado o PPR Europeu, um negócio à medida do mercado de capitais, Esquerda,net
  6. CGTP-IN: “Defender a segurança social pública, universal e solidária”, 8 de maio de 2025.

categoria-reportagem Guerra Pensões Pobreza Segurança social Uberização edicao-2025-10-16 (01)

condicionadores condicionados

Num texto com perto de duas décadas, o investigador académico francês em jornalismo Alain Accardo explicou as estruturas de condicionamento da chamada “opinião pública”, a partir do condicionamento dos próprios condicionadores, nomeadamente os jornalistas.

ilustração: Pedro Páscoa

Escrevia Accardo que “o observador do sistema mediático deve partir do princípio de que, na sua grande maioria, os jornalistas não estão maquiavelicamente apostados em manipular o público para maior proveito dos acionistas das empresas de imprensa em particular e dos investidores capitalistas em geral. Se agem como ‘condicionadores’ daqueles a quem se dirigem, não será tanto por vontade expressa de os condicionar, quanto pelo facto de serem eles próprios condicionados, e a um grau de que a maioria nem sequer suspeita. Fazendo (ou não fazendo) cada um deles espontaneamente aquilo que deseja fazer, concordam espontaneamente uns com os outros. Inspirados no poeta Robert Desnos, poderíamos dizer que os jornalistas obedecem à lógica do pelicano: “O pelicano põe um ovo branquinho. De onde sai, inevitavelmente, outro que faz o mesmo.”

Já data, aliás, de há quase setenta anos um outro texto seminal sobre como é ilusória a aparência de que são os jornalistas quem faz jornalismo, porque a realidade é a inversa, é o jornalismo que faz os jornalistas. Segundo o seu autor, o antigo jornalista norte-americano e posteriormente investigador Warren Breed, a “socialização” dos neófitos pela redação produz-se “por osmose”, com os jovens repórteres a aprenderem as técnicas do ofício e as regras da arte a partir da leitura quotidiana do próprio jornal, através do enquadramento dos seus colegas seniores e, por fim, da linha editorial que é aplicada de modo sempre oblíquo, não explícito, por parte das chefias. O mecanismo fundamental, como observava Breed no seu estudo sobre o controlo social na redação, como lhe chamou, era o da punição-recompensa, segundo o grau de afastamento ou aproximação aos requisitos do “jornal”.

Para além de tudo o que se modificou no plano tecnológico e das alterações no campo dos media em mais de meio século, no plano mais profundo, o processo permanece inteiramente válido no presente, segundo ex-jornalistas que optaram por sair para abraçar carreiras académicas nas universidades.

Luís Miguel Loureiro, hoje docente e investigador na Universidade do Minho, corrobora este ponto de vista. Para este antigo jornalista da RTP, onde trabalhou quase três décadas: “Chegado ao ecossistema, o novo jornalista é rapidamente absorvido, passando a trabalhar, normalmente sem o notar, de acordo com uma normatividade implícita, não dita, pela qual se regem as relações de trabalho estabelecidas a partir de uma organização profundamente hierarquizada, como qualquer estrutura produtiva industrial. Ou então, nota, quando essa normatividade se abate violentamente sobre a sua capacidade individual de questionamento do mundo, reduzindo o espectro possível de criatividade.”

ilustração: Robson Villaba



Disciplinar as mentes

Aquilo a que este antigo repórter televisivo, que iniciou a sua carreira na Rádio (Nova e Comercial) chama a redução do espetro criativo, corresponde ao que o autor Jeff Schmidt, na sua obra Disciplined Minds sobre os profissionais assalariados, considerou a política do apoliticismo. Schmidt não se referia só, mas também, ao jornalismo para dizer como, em diferentes profissões, usualmente associadas ao trabalho intelectual, dos juristas aos profissionais de saúde, passando pelos jornalistas, claro, a “recusa dos profissionais em questionar a política incorporada no seu trabalho serve os interesses daqueles que detêm poder na sociedade e contribui para a manutenção do statu quo social e económico”.

No entanto, observa perspicazmente Schmidt, “abster-se de questionar não parece um ato político, e por isso, os profissionais mantêm a aparência de neutralidade política no exercício das suas funções”. Na realidade, o que isto significa é que o “‘julgamento profissional’ ou a ‘opinião especializada’ do trabalhador intelectual não é objetiva, como se proclama, mas tende a favorecer os interesses do seu empregador. (Apoiar o empregador e apoiar o sistema em sentido lato não são exatamente a mesma coisa, mas, sendo este essencialmente um sistema corporativo, uma coisa reforça a outra)”, aclara o autor.

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Para Luís Miguel Loureiro, desde o período do seu ingresso na profissão, há três décadas, foi notória “uma cada vez maior rarefação da indisciplina sã do questionamento”. Para isso, diagnostica, “contribuíram decisivamente as condições cada vez mais precárias do trabalho dos jornalistas, não apenas da precarização das relações socioeconómicas do trabalho, cada vez mais individualizadas, mas de todas as condições objetivas para a produção noticiosa: do abocanhamento das redações, cada vez mais pequenas, pelos agentes e estruturas, crescente e assimetricamente poderosos, da comunicação estratégica e propagandística profissionalizada, ao desgaste, quando não esgotamento e total captura dos dispositivos democráticos de representação coletiva dos jornalistas”.

A fuelização do medo

Alexandra Figueira, outra jornalista que trocou, há quatro anos, a carreira nas redações jornalísticas pela academia, reforça a importância destes mecanismos de “captura”, como os designa Luís Loureiro. Por comparação com os anos 1990, quando ingressou na profissão, Alexandra Figueira constata que no Jornal de Notícias, onde desenvolveu grande parte da sua carreia jornalística “a redação, que já não era muito contestatária, tornou-se progressivamente mais amorfa. O Conselho de Redação raras vezes auscultava a redação e deixava passar largas semanas entre cada reunião com a direção e o comunicado com o que lá foi discutido. As datas e a ordem de trabalhos das reuniões não eram divulgadas previamente”.

“Costumo dizer que sobrevivi a três despedimentos coletivos. Não sei o que aconteceria no quarto. Saí do jornalismo antes disso”, diz a antiga jornalista do JN e Diário Económico, hoje professora na Universidade Lusófona. “Num desses despedimentos coletivos, recordo-me de ter passado uma manhã a olhar para o telemóvel, à espera que tocasse. Corria a informação de que os recursos humanos estavam a telefonar a alguns de nós para comunicar o despedimento. Qualquer um podia ser abrangido, naturalmente, inclusive eu.”

Esta era a nova realidade para os jornalistas, que em finais da década de 1980 e princípio da seguinte tinham vivido o que poderia considerar-se à escala nacional um boom do sector, com contratações salarialmente mais compensadoras e surgimentos de novos títulos, haviam assistido e vivido ao processo de aburguesamento das redações dos media e da formação de uma elite organizada que passou rapidamente a funcionar primeiro em formação espontânea e, progressivamente, por cooptação, em função de amizades pessoais e/ou, sobretudo, de solidariedades políticas.

“A maior exceção”, recorda a exredatora do Económico e do JN, “resultou num grande momento de união a que já só assisti como espectadora”, em 2023, no âmbito da venda do grupo ao World Opportunity Fund e do despedimento coletivo anunciado de 150 trabalhadores. “Na altura, as redações do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias, do Dinheiro Vivo e da TSF mostraram uma enorme capacidade de mobilização, lideradas pelos jornalistas mais jovens, com o apoio do Sindicato de Jornalistas. A venda de todo o Global Media Group ao World Opportunity Fund foi revertida. Em alternativa, o Jornal de Notícias e a TSF foram vendidos à Notícias Ilimitadas, de um grupo de investidores do Norte que estará ligado ao dono do Global Media Group, Marco Galinha.”

E a vida prosseguiu, com uma repetitividade que só é perturbada pelo temor pessoal de quando chegará a cada um a sua vez. O medo do despedimento por parte dos repórteres de base encontra um eco inconfessado no medo dos chefes de, a qualquer momento, poderem vir a ser demitidos. Assim, hegemonia político-empresarial converte-se numa obediência generalizada no plano profissional e numa desestruturação radical da situação laboral.

Beneficiando de um estatuto formal equiparável ao que outrora se designava por “profissões liberais” ou “profissionais independentes”, à medida que a proletarização e a precarização se instalaram, o exercício profissional do jornalismo tornou-se cada vez mais uma ocupação insegura, onde o que é verdade hoje pode já não o ser amanhã. A insegurança que percorre a generalidade da prestação laboral no país, sobretudo no setor privado, abate-se também sobre as estruturas jornalísticas, sendo que, como sublinha Alexandra Figueira, “toda a imprensa portuguesa é privada, uma vez que não existe qualquer jornal de capitais públicos”.

A sensação de estar sempre em falta


“A minha sensação é de que estava sempre a trabalhar em défice”, diz Alexandra Figueira, a propósito do assoberbamento de trabalho e da intensificação da sua sobre-exploração. Com o passar dos anos, recorda a antiga redatora, “o volume de trabalho foi-se tornando avassalador. Havia cada vez menos jornalistas para responder a um número cada vez maior de solicitações. Ao usual trabalho para a edição em papel, acrescentou-se o online, com exigências muito próprias.”

Para além da crise geral de improdutividade do capital, num país com baixos índices de consumo de imprensa e altos indicadores de concentração publicitária nas televisões e, progressivamente, no digital, foi-se adensando o que Luís Miguel Loureiro define como a “complexidade do ecossistema” mediático, “no qual se cruzam todo o tipo de interesses, seria inocente da minha parte afirmar que os interesses e valores mais ‘elevados’ (o interesse público e a aferição dos valores-notícia, exclusivamente, pela lente ético-metodológica da objetividade) se conseguem sobrepor aos interesses comezinhos (dos interesses das fontes aos interesses particulares dos intervenientes no processo de produção noticiosa) que permeiam o quotidiano do trabalho da redação”.

Alexandra Figueira evoca a este respeito um episódio da sua vida jornalística quando recebeu da parte de um diretor a informação de que uma notícia sua “tinha custado um contrato de publicidade de alguns milhares de euros. A notícia já tinha sido publicada há algum tempo e nunca compreendi a razão pela qual o diretor me contou essa história”. Ou seja, enquanto mecanismos de condicionamento e mesmo afirmando não querer “medir a intenção do diretor” referido, o efeito, concluiu a ex-jornalista, “só poderia ser um: ainda que subconsciente, a autocensura relativa a histórias negativas sobre potenciais anunciantes”.

Formação: entre a técnica e a crítica

Para quem tenha integrado as primeiras gerações de jovens sonhadores que ingressavam nas faculdades para estudar jornalismo e acederem posteriormente à profissão, após Abril, em especial quando do arranque dos primeiros cursos superiores nesta área em inícios da década de 1980, e que acompanhe hoje as gerações que optam pelos cursos de jornalismo e comunicação, os efeitos derrisórios desta “agonia do jornalismo”, como muitos lhe chamam, é notória a abissal diferença de expectativas e a devastadora amputação do sonho.

Outrora movidos pela razão social de promover a justiça, defender a verdade, vigiar os poderes e exercer a liberdade de defender a democracia, opõem-se hoje perspetivas de alcançar se não a fama individual plasmada na figura do “pivô” de televisão, pelo menos a tentativa de conseguir chegar a trabalhar num jornal, numa estação de rádio ou de televisão em condições de sobrevivência mínimas.

A regra de ouro, imperativo absoluto, de atomização individual, de rejeição de qualquer tipo de ação coletiva organizada ou espontânea dentro das redações que possa meter “um pauzinho na engrenagem”, impera e coloniza os próprios imaginários da profissão. Só muito recentemente, um estudo da Universidade da Beira Interior conduzido entre profissionais do jornalismo em Portugal consegue captar uma perceção que, em termos explícitos, nunca havia sido ventilada, quando praticamente metade dos inquiridos se consideravam a si mesmos e aos jornalistas em geral como fatores de propagação de desinformação.

Até aqui, em Portugal como noutras geografias, os jornalistas atribuíam os fatores de pressão e controlo do seu trabalho quase em exclusivo ao que, na gíria profissional, é conhecido como “rotinas e constrangimentos” operacionais, falta de espaço, de tempo, pressão para publicar mais cedo que “a concorrência”, etc. Esse estudo parece sugerir, pela primeira vez, um eventual ganho de consciência sobre a realidade da profissão e a captura hegemónica das suas empresas, órgãos e títulos pela economia política predominante do grande capital.

Em que medida pode isso vir a tornar-se uma consciência crítica e contestatária ou simplesmente em mais um saber dócil e de docilização, com toda a carga de cinismo para o futuro imediato e de médio prazo da profissão entre nós, é difícil predizer. Para Alexandra Figueira, hoje na sua ocupação académica, a opção “tem sido privilegiar o conhecimento da realidade, dos efeitos dos media, das teorias do jornalismo, a capacidade crítica sobre a profissão, a sociedade, a política”. Para Luís Miguel Loureiro, de resto, a questão é idêntica, a consciência da “inadequação total que sei existir entre a ferramentação crítica que tento incutir nos meus estudantes e o ambiente de controlo que sei que irão, fatalmente, encontrar nas redações”.

Profissão para cínicos?

Suscitará poucas dúvidas a afirmação de que o jornalismo e as indústrias da consciência em geral – a que não escapa o sistema de ensino – estarão no epicentro do contraste entre a conceção clássica da política como modalidade superior de organização da vida dos coletivos humanos e a sua versão moderna de luta pela conquista e manutenção no poder de oligarquias organizadas em torno dos fluxos de capital.

Se, ao longo de toda a história do jornalismo industrial e, hoje, digital também, não faltam exemplos de integridade, valentia, militância pela difusão do real com verdade e não apenas como verosimilhança – que é o que hoje sucede –, se não faltam nomes como os de Seymour Hearsh, Robert Fisk, Julian Assange, Ryszard Kapuściński, ou os jovens Woodward e Bernstein e tantos outros, a sua realidade reside na condição de exceções que todos eles representaram e não poucos atraiçoaram.

Para os media corporativos a grande e única verdade é a do mundo dos negócios e dos interesses que se conjuram no seu seio, ao qual pertencem, aliás, os grandes grupos mediáticos, quer à escala local, quer global, a qual um antigo diretor da televisão norte-americana CBS resumiu numa frase simples acerca das opções editoriais e profissionais em jornalismo: “a merda dá dinheiro”. O resto é lirismo e filosofia.

Também na academia se conhece bem o problema, como se deduz das palavras de Alexandra Figueira: “O saber técnico – construir uma pirâmide invertida ou uma técnica de reportagem – é muito relevante, mas é relativamente fácil de transmitir. O mais difícil é dar aos jovens capacidade para questionar por que razão se faz uma pergunta e não outra, se escolhe um determinado aspeto da realidade para título, se ouve a pessoa A em vez da pessoa B. Privilegiar a execução técnica tem como efeito diminuir o espírito crítico dos estudantes. Enviar para as redações meros executantes técnicos é precisamente do que o jornalismo não necessita”. E grande parte dos cursos de formação foi cedendo à opção mais fácil e também a mais ilusória, a de que o jornalismo é um problema técnico, que encontra na técnica a gama das suas soluções, permitindo uma via de fuga para o problema político central que Charles Wright Mills, sociólogo norte-americano, deixou formulado desde os anos 1950: “entre a consciência e a existência fica a comunicação, que influencia a consciência que os homens têm da sua existência”.

Para Luís Miguel Loureiro, de resto, o problema abate-se, de forma semelhante não apenas no jornalismo profissional, mas na academia: “Penso até”, afirma, “pelo que observo, que está em decadência o próprio professor que viva, na academia, o dilema que eu vivo diariamente. Considero, mesmo assim, que não tenho alternativa: não concebo formação de jornalistas que não se funde em modelos de questionamento integral e de indisciplina intelectual militante perante a realidade.”

Sem dúvida que tinha razão Kapuściński ao intitular um dos seus livros que “esta profissão não é para cínicos”. E no entanto, parece não existir crítica da razão cínica bastante para cumprir a consigna do insigne repórter polaco. A crítica do jornalismo e a imprescindível distinção entre jornalismo e jornalistas que lhe deve presidir constituem-se hoje como elementos centrais de uma profissão e de uma atividade social que se degrada tanto quanto mais necessária se faz a sua integridade ou, pelo menos, a consciência crítica e a luta por ela.

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categoria-reportagem Guerra Pensões Pobreza Segurança social Uberização edicao-2025-10-16 (01)

condicionadores condicionados

Num texto com perto de duas décadas, o investigador académico francês em jornalismo Alain Accardo explicou as estruturas de condicionamento da chamada “opinião pública”...

Rui Pereira

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