Quando a enfermeira te meteu na boca a agulha da anestesia, desataste a rir:
– Cortaste-me o lábio?
A dentista não te respondeu. Deixou-te cinco minutos a sós com o formigueiro na boca e nos lábios… Cinco minutos bastam para todas as perguntas existenciais, a começar pela mais simples: “Que sentido tem a vida se temos de morrer?”
Sorris, tentando não me ouvir. Sabes que te vou responder: “Que sentido teria a vida se não tivéssemos de morrer?”
A dentista voltou, segurou-te na cara, abriu-te a boca e enfiou uma barragem de borracha dentária. Furou o molar, tirou o nervo… Que maravilha: já não tens nervo!
Mas ainda não acabara. Encheu-te a boca de medicamentos estranhos que davam náuseas. Ia conversando contigo enquanto trabalhava. Tu, sem poder falar, só podias anuir com a cabeça.
Que maravilha: já não tens nervo, e acenas com a cabeça por tudo e por nada.
***
Naquele dia, fui ver a minha tia. Lembras-te?
Tinhas-me aconselhado a visitá-la por dever familiar, e foi o que fiz. Como não havia de fazê-lo? Não tinha alternativa a não ser acenar com a cabeça e andar sem nervo.
– Tia, tinha saudades tuas – disse-lhe, ao beijá-la. Ainda antes de se preocupar com o meu dente, disse-me:
– Liga ao meu filho, despachem-se.
Acenei com a cabeça sem perceber, liguei ao filho dela e saí com ele para a aldeia de Deir Dibouan. Pelo caminho, ele foi-me contando a história. Eu ia acenando com a cabeça.
– Viste a fila de rapazes nus amarrados? – Acenei com a cabeça, sem perceber. Continuou: – Os soldados tocavam-nos como se tocassem ovelhas. Não viste? –
Não, acenei com a cabeça. Ele disse:
– Dá-me um cigarro, vou-te contar.
– A história, primo, foi que…
“Em directo de Ramallah: Um jovem de 25 anos foi morto a tiro por colonos israelitas durante um ataque de colonos à aldeia de Deir Dibouan. Os colonos abriram fogo, ferindo gravemente o jovem Awad Awawdeh, que acabou por sucumbir. Na sequência do incidente, o exército de ocupação fechou a entrada da aldeia e deteve trinta habitantes.”
– A história é esta, primo… Tens um cigarro?
***
Deu-lhe um cigarro, acenando violentamente com a cabeça, com a mão no molar ainda dormente por causa da anestesia. A pensar que iam ao funeral, mas porque guiava o primo tão depressa?
O jovem tinha sido morto a tiro por um colono, com os soldados a cercá-los. As redes sociais encheram-se de poemas e emojis tristes:
“Deixaram-no morrer sozinho.”
“Porque te foste?”
“Não acreditem no ulular, acreditem na lágrima do pai a olhar para a fotografia.”
“As pessoas ficam a dormir, indiferentes.”
“Perderam-no, pessoa por pessoa.”
“Já ninguém sente nada… Está tudo morto!”
Desligou o telemóvel, não quis escrever. Só pensava em “que sentido tem a vida se temos de morrer?”
Ao chegar à aldeia, percebeu por que o primo guiava tão depressa: queria juntar-se aos moradores, que já tinham saído, de autocarro. Estava lá toda a comunidade. Não estava sozinho, nunca sozinho.
***
Ias seguindo constantemente a notícia nas redes sociais, lendo as publicações e os poemas tristes. Acenavas com a cabeça. Os meios de comunicação e as redes sociais tinham-te dado a impressão de que ele estava sozinho, que tinha morrido sozinho, que tinha partido sozinho. Mas não, estavam lá todos os moradores da aldeia.
Já os que filmavam com câmaras, os que escreviam, os que contavam histórias e compunham poemas tristes, os que se deixavam seduzir pelos paradoxos da morte, os que procuravam a metáfora, os que imploravam lágrimas — esses todos não repararam em nada, porque não estavam presentes. Não era solidão; era uma redefinição dos laços sociais.
Quando saíste com o teu primo e a gente da aldeia dele, paraste. Lembras-te? O teu primo mandou-te despachar-te, mas não percebeste porquê. Desta vez, não acenaste com a cabeça: não o seguiste, optaste por ficar um pouco mais, recusaste-te a afastar-te das pessoas, da realidade, daquele momento existencial verdadeiro. O teu primo dizia para irmos embora, mas tu não cedeste; não acenaste com a cabeça.
– Vá lá, deixa a vez aos outros – disse ele. Então viste dezenas de autocarros das aldeias vizinhas que estavam à espera da vez: Silwad, Mughayir, Kufr Malik… As aldeias vizinhas desciam em fila, cada pessoa repetia o mesmo ao pai do jovem: “Estamos contigo, somos teus filhos.”
Todos repetiam estas palavras. Tu, imóvel, perdido nas publicações das redes sociais. Não viste os autocarros a chegarem? As aldeias a levantarem-se? Vinham todos saudar o pai na presença do corpo do seu filho mártir. E tu, pobre louco, continuas a perguntar “que sentido tem a vida se temos de morrer?” Respondo-te eu: “E que sentido teria a vida se não tivéssemos de morrer?”
Saíste da aldeia com a mão no molar.
– Que se passa? – perguntei-te. Disseste-me:
– Não sei… Dói-me o nervo. Acho que a dentista não o tirou todo.
Médicos de diversos países a trabalhar em Gaza observaram um padrão perturbador: crianças com um único ferimento de bala na cabeça ou no peito, sinal de que tinham sido deliberadamente alvejadas. Esta conclusão pôde ser tirada graças a uma pesquisa do jornal neerlandês de grande circulação de Volkskrant, que falou com médicos que estão entre as últimas testemunhas oculares internacionais presentes na Palestina.
Quinze médicos de diversos países disseram ao jornal neerlandês de Volkskrant que, durante o seu trabalho nos hospitais de Gaza, assistiram crianças até aos 15 anos com ferimentos de bala na cabeça ou no peito. Segundo a estimativa mais conservadora, assistiram 114 crianças com estes ferimentos, a maioria das quais faleceu.
O jornal falou com 17 médicos e uma enfermeira dos EUA, e também do Reino Unido, Austrália, Canadá e Holanda que trabalharam em seis hospitais e quatro clínicas em Gaza desde outubro de 2023. Quinze deles disseram ao de Volkskrant que trataram pelo menos 114 crianças até aos 15 anos com um único ferimento por arma de fogo na cabeça ou no peito. A maioria destas crianças morreu em consequência desses ferimentos. Os casos foram documentados entre o final de 2023 e meados de 2025 em 10 diferentes hospitais ou centros de saúde.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”
Um dos médicos, o cirurgião de trauma norte-americano Feroze Sidhwa, recordou o seu primeiro dia no Hospital Europeu de Gaza, em março de 2024, onde encontrou quatro rapazes com menos de 10 anos com ferimentos idênticos na cabeça num intervalo de 48 horas.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”, disse ao jornal o Dr. Feroze Sidhwa. Nos 13 dias seguintes, assistiu mais nove crianças com ferimentos semelhantes.
Testemunhas oculares disseram aos médicos que os projéteis provinham principalmente de atiradores de elite ou drones do Exército israelita (IDF).
Os médicos entrevistados enfatizaram que tais ferimentos dificilmente seriam acidentais. Peritos forenses consultados pelo jornal disseram que o padrão uniforme sugeria disparos direcionados, possivelmente por franco-atiradores ou drones.
Isso mesmo foi corroborado pelo antigo comandante das forças terrestres holandesas, Mart de Kruif, que afirmou que a probabilidade de terem sido disparos acidentais é insignificante, dado que os médicos descreveram mais de uma centena de casos.
O primeiro-ministro israelita, Netanyahu, e as chefias militares têm negado que os soldados estejam a atacar deliberadamente civis palestinianos. No entanto, soldados anónimos têm admitido repetidamente o contrário ao jornal israelita Haaretz.
Os médicos citados também descreveram o dilema moral que enfrentam: se falarem abertamente, podem ser impedidos de regressar a Gaza. Segundo a ONU, Israel negou a entrada a mais de 100 profissionais de saúde internacionais desde março de 2025, sem uma explicação detalhada.
Nota: este texto foi elaborado pelo Maio tendo como fontes, além do já mencionado artigo de de Volkskrant, outros media internacionais como a Al Jazeera, a BBC, The Guardian e a Reuters.
Nos últimos tempos, o presidente espanhol é tido como uma “voz progressista” face ao avanço da extrema-direita. As suas declarações a favor do povo palestiniano, discursos pelo “Não à guerra” e medidas como a regularização de milhares de migrantes tiveram impacto internacional. Compreende-se que, ante a ofensiva belicista de Trump e Netanyahu e as políticas de direitistas como Milei, o discurso de Sánchez desperte simpatia. No entanto, por detrás do seu discurso, espreita a gestão “progressista” do Estado capitalista e imperialista espanhol. Um projeto que, repetidamente, terminou em profundas deceções e preparou o terreno para o crescimento da extrema-direita.
Enquanto Sánchez colhe aplausos em fóruns internacionais, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol, força hegemónica do governo de coligação) acumula os seus piores resultados eleitorais em várias regiões. Recentemente, a indiciação do ex-presidente socialista José Luis Rodríguez Zapatero — chefe do Governo espanhol entre 2004 e 2011 — abalou o Governo, atingindo um dos aliados de Sánchez. O processo judicial investiga alegados crimes de tráfico de influências, branqueamento de capitais e organização criminosa relacionados com os apoios públicos concedidos à companhia aérea Plus Ultra durante a pandemia. O facto de a direita instrumentalizar o processo judicial para fins políticos não isenta Zapatero das suas responsabilidades, uma vez que este teria obtido benefícios económicos e pessoais durante o seu mandato governamental. O “caso Zapatero” revela o carácter de casta das elites políticas, tenham elas discurso progressista ou liberal.
Enquanto Sánchez vai tentando “cavalgar” a crise da sua coligação governamental, multiplicam-se as greves em massa no sector do ensino por todo o Estado espanhol, de Valência à Catalunha e a Aragão. Para setembro, espera-se um Outono quente no ensino, com novas greves por tempo indeterminado convocadas em Madrid e noutras regiões, lado a lado com outros sectores da saúde e serviços públicos. Passamos em seguida em revista a política do governo progressista em matérias fundamentais para a vida da classe trabalhadora: guerra, migrações, habitação e condições de trabalho.
O “Não à guerra” e os maiores orçamentos militares da história
Em março de 2026, em plena ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, Pedro Sánchez retomou o “Não à guerra” das grandes mobilizações de 2003 contra a invasão do Iraque. Uma verdadeira “usurpação” dessa palavra de ordem por parte de Sánchez, se considerarmos que foi o PSOE que levou a Espanha a aderir à NATO — após a famosa reviravolta de Felipe González no referendo de 1986, depois de ter prometido o contrário — e é o PSOE que hoje aumenta as despesas militares e o controlo das fronteiras.
O anúncio de que as bases norte-americanas em território espanhol não poderiam ser utilizadas para a operação dos EUA contra o Irão provocou uma reação furiosa de Trump. Mas entre a retórica de Sánchez e a realidade há uma grande distância. Primeiro, as bases já tinham servido para o início da Operação Fúria Épica (Epic Fury), com vários aviões de transporte e reabastecimento a partir de lá antes de a proibição ser formalizada. Mas há mais: enquanto fala de “não à guerra”, este Governo aumentou os orçamentos militares mais do que qualquer outro na história.
De acordo com o relatório do Centre Delàs — centro de estudos antimilitaristas com sede em Barcelona — intitulado “As despesas militares e o rearmamento da Espanha em 2025”, as despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB. São mais de 7 mil milhões acima dos 33 123 milhões que o Governo admite oficialmente, cujo cálculo omite rubricas militares dispersas por vários ministérios. O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) confirma um aumento de 50% num único ano: o maior salto da história recente do Estado espanhol, que entra assim no top 15 mundial dos países com maior despesa militar.
As despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB.
Este “progressismo militarista” concretiza-se no Plano Industrial e Tecnológico para a Segurança e a Defesa, anunciado por Sánchez em abril de 2025: injetou 10 471 milhões de euros extraordinários para antecipar a meta de 2% do PIB que a NATO tinha fixado para 2029. E fê-lo sem o submeter a votação parlamentar, aproveitando a prorrogação do Orçamento Geral do Estado de 2023. De onde vem o dinheiro? Em grande parte, de fundos europeus de reconstrução social e de verbas não executadas de outros ministérios. A isto acrescenta-se o compromisso plurianual em armamento. O próprio Centre Delàs calcula que, com estes compromissos, a despesa aproximar-se-á dos 3% do PIB nos próximos anos. Entretanto, os orçamentos da saúde, da educação e dos serviços públicos encontram-se sempre muito aquém das necessidades sociais.
Tal como denuncia a Assembleia Internacionalista de Madrid, uma iniciativa que reúne diversas organizações da esquerda do Estado espanhol, entre as quais a CRT: “Os recursos multimilionários que não serão destinados nem a escolas nem a hospitais serão utilizados para aumentar a militarização das fronteiras contra os migrantes, reforçar os interesses do imperialismo espanhol e aprofundar a pilhagem de outros povos do mundo. É no calor desta política que se fortalece a extrema-direita e o seu discurso reacionário.”
Palestina: entre o gesto e a realidade
O reconhecimento do Estado palestiniano pelo Governo espanhol — em conjunto com a Irlanda e a Noruega — e os confrontos diplomáticos com Telavive foram mais longe do que a média europeia. Respondem à pressão de milhões de pessoas que saíram às ruas em defesa da Palestina durante os mais de dois anos decorridos desde o início da ofensiva israelita sobre Gaza, em outubro de 2023; à força do movimento de solidariedade, aos acampamentos estudantis, a iniciativas como a Global Sumud Flotilla, que partiu de Barcelona em várias ocasiões, e ao ativismo massivo que chegou a travar nas ruas a Volta a Espanha em bicicleta, em repúdio pela participação de uma equipa israelita.
Mas entre a retórica e a realidade há, mais uma vez, um abismo. O “embargo de armas” a Israel revelou-se uma farsa: durante meses continuaram a ser autorizadas exportações, escalas de navios com material militar israelita em portos espanhóis e contratos com empresas israelitas do setor da defesa. A rutura formal das relações com Israel nunca chegou a ocorrer, nem mesmo nos piores momentos do genocídio em Gaza.
A crise da habitação no cerne da desigualdade
A questão da habitação é talvez o exemplo mais claro dos limites do governo progressista. Após seis anos de governos de coligação — primeiro com o Unidas Podemos, depois com o Sumar (a coligação à esquerda do PSOE liderada pela vice-presidente Yolanda Díaz) — não houve uma única reforma estrutural no domínio da habitação. Um trabalhador com um salário médio destina atualmente entre 45% e 60% do seu rendimento ao pagamento da renda, valor que, em muitos casos, é amplamente ultrapassado — uma situação em que o leitor português se reverá sem dificuldade. Entretanto, dez grandes senhorios acumulam cerca de 200 000 habitações para fins especulativos. Medidas tão elementares como a expropriação dos grandes senhorios, a proibição dos despejos e o teto às rendas de casa poderiam começar a dar resposta à crise habitacional. Mas o governo progressista não tem qualquer intenção de enfrentar o capital imobiliário nem os bancos.
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Migração: regularização e Lei dos Estrangeiros
Outra área em que o progressismo tenta angariar simpatias é a migratória. A regularização extraordinária aprovada a 15 de abril foi apresentada como o caminho oposto ao endurecimento racista dos governos europeus. E é preciso dizê-lo claramente: é uma conquista, mas não do governo, e sim do movimento em defesa dos imigrantes que há anos se mobiliza, recolhe assinaturas, apresenta iniciativas e sustenta a luta por documentos para todos. Vale a pena recordar, além disso, que governos de outras tendências políticas também realizaram regularizações semelhantes no passado. No entanto, a regularização tem prazos inferiores a três meses, exige a comprovação da ausência de antecedentes criminais e acarreta outras limitações, pelo que muitas pessoas ficarão de fora. Entretanto, os Centros de Internamento de Estrangeiros (CIE) continuam abertos, e todos os anos morrem milhares de migrantes ao tentarem atravessar o Mediterrâneo. Por sua vez, o Estado espanhol assinou e apoiou ativamente o Pacto Europeu sobre Migração e Asilo, uma das peças mais reacionárias da arquitetura migratória da UE, que generaliza a detenção na fronteira, externaliza o controlo para regimes autoritários e endurece os procedimentos de asilo.
Quebrar o ciclo de frustrações
Perante a ascensão da extrema-direita, muitos apresentam a coligação progressista do governo espanhol como um “mal menor” ou uma barreira de contenção face às opções de direita (o conservador Partido Popular, PP, e a extrema-direita do Vox). Uma estratégia que foi alimentada por partidos como o Podemos, inicialmente, e o Sumar, posteriormente, com a sua participação ministerial em governos de gestão capitalista. Ao mesmo tempo, as burocracias sindicais maioritárias — CCOO (Comissões Operárias) e UGT (União Geral dos Trabalhadores), as duas grandes centrais do Estado espanhol — garantiram uma longa “paz social”: não se convoca uma greve geral desde 2012, quando milhões se mobilizaram contra a reforma laboral do PP.
No entanto, os contrastes entre os discursos e a realidade geram muitas frustrações e mal-estar social. O crescimento do PP e do Vox em várias eleições regionais, como as recentes eleições na Andaluzia, mostra que a direita procura canalizar esse descontentamento. A queda do PSOE para um nível abaixo do seu “mínimo histórico” na Andaluzia não é insignificante, considerando que se trata de uma região onde, historicamente, teve um dos seus bastiões eleitorais: governou a comunidade ininterruptamente desde 1982 até 2018.
Mas o avanço da direita não é a única perspetiva possível. Nas últimas semanas, multiplicaram-se as greves no setor da educação na Catalunha, Valência, Aragão e Madrid: centenas de milhares de professores, juntamente com famílias e estudantes, exigem aumentos orçamentais, melhores condições de trabalho e melhores condições para o ensino público. Na Catalunha, onde governa o PSC (Partit dels Socialistes de Catalunya, federado com o PSOE de Sánchez), as trabalhadoras da educação votaram contra um acordo assinado pelos sindicatos maioritários. Lá observam-se tendências para formas de organização democrática em assembleia, com métodos combativos como bloqueios de ruas e avenidas. A coordenação das lutas, a exigência de uma greve geral dos serviços públicos e o desenvolvimento da auto-organização são o caminho para enfrentar tanto o governo progressista como os governos de direita — como os do PP, em alguns casos com o apoio do Vox, em Madrid ou Valência. Para desenvolver as tendências da luta de classes e evitar cair em novas armadilhas do “mal menor”, é mais do que nunca necessária uma esquerda que levante um programa de independência de classe, para que a crise seja paga pelos capitalistas.
Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam1 de terra custa hoje cerca de 100 shekels, quanto irá custar um bidão de azeite? Quem o comprará?”, exclama.
ilustração: Mantraste
Eyad Yousef é um agricultor palestiniano da aldeia de Taybeh, a leste de Ramallah. Também é mecânico de automóveis e pai de três filhos. Todos os anos, na Primavera, com os irmãos, planta ervilhas, lentilhas, pepinos, cebolas e outras culturas sazonais. Mas este ano é diferente.
Eyad já não trabalha a sua própria terra, inacessível devido à ameaça dos colonos israelitas, que patrulham constantemente a planície a leste da aldeia. Já nenhum proprietário de terras em Taybeh consegue aceder à sua propriedade.
“Este ano arrendei a terra de outra pessoa, mas não é que seja um contrato escrito, é só um acordo verbal”, explica Eyad. “Se, a qualquer momento, o proprietário decidir vender a terra, perco o que investi.”
Apesar disso, Eyad continua com a sua lavoura sazonal. “É o meu oxigénio.”
Desde Outubro de 2023, aumentaram exponencialmente, em número como em violência, os ataques de grupos de colonos israelitas a agricultores palestinianos na Cisjordânia.
Para muitos agricultores, é um duríssimo golpe à sua subsistência e modo de vida. Mas o impacto não se limita aos agricultores; está-se a desfigurar e dizimar parte substancial da economia palestiniana e um pilar das famílias rurais. Numa época em que os pogroms dos colonos nos campos aterrorizam os palestinianos, os agricultores têm estado na linha da frente da violência crescente.
Segundo o Centro de Informação Palestiniano, grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. O Gabinete de Coordenação Humanitária das Nações Unidas (OCHA) indica que, só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia. Mesmo quem não foi directamente afectado sente o efeito cumulativo da ofensiva, que se reflecte directamente no aumento dos preços dos produtos agrícolas.
Grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. Só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia.
Nem sempre foi assim. Os agricultores constituíam outrora a espinha dorsal da economia palestiniana. Sociedade historicamente agrária, a Palestina foi descrita, em 1887, pelo viajante britânico Lawrence Oliphant como “um lago verde de trigo ondulante”. Hoje a maior parte do trigo usado para fazer o pão consumido pelos palestinianos é importado. Uma transformação que é fruto de um historial de cada vez maiores pressões exercidas pelo colonialismo israelita sobre sucessivas gerações de agricultores palestinianos.
“Fui agricultor toda a vida”, diz Eyad. “Comecei a trabalhar na terra do meu pai, perto da colónia de Rimunim, a sudeste da aldeia; plantávamos trigo e cevada, de que a minha mãe fazia o nosso pão caseiro. Os meus irmãos e eu crescemos com o pão da terra.”
“Do ano 2000 em diante, esta terra ficou-nos inacessível”, recorda, “quando os colonos israelitas começaram a patrulhar no campo, que fica mesmo ao lado da colónia.” Ergue os olhos, como se estivesse a lembrar-se de algo. “Para dizer a verdade, lembro-me da construção da própria colónia, quando era miúdo, em 1979”, continua. “Lembro-me de que a nossa família perdeu uns 20 dunams, entre terras tomadas pela colónia e as que nos foram ficando progressivamente inacessíveis.”
À medida que o acesso às terras agrícolas se ia fechando, os agricultores palestinianos e os beduínos começaram a partilhar a terra disponível, entreajudando-se para tentarem manter a presença. Há oito anos, Eyad começou a ceder a parte da sua terra situada ao lado do assentamento a uma família beduína, que ali vivia e apascentava o seu rebanho, apesar do assédio crescente dos colonos israelitas.
“Sempre que podia ir à minha terra e trabalhá-la, também trabalhava a terra do meu vizinho”, explica Eyad, descrevendo a antiga prática rural palestiniana de entreajuda, o ‘auneh’. “Quando o meu vizinho ia à terra dele, também cuidava da minha. Se eu lavrava a terra deles, eles vinham ajudar-me na colheita; entretanto, os beduínos tiravam proveito de parte da terra e vigiavam o resto”, continua.
Chegou, entretanto, Outubro de 2023, e até as famílias beduínas foram expulsas. Na altura, Eyad não pensou que se viria a ver na mesma situação que os beduínos que tinham usado a sua terra.
“No ano passado, os colonos israelitas começaram a aproximar-se cada vez mais da zona urbana de Taybeh, e as nossas terras agrícolas mais próximas ficaram mais perigosas de frequentar e trabalhar”, diz Eyad. Quando lhe pergunto o que aconteceu da última vez que tentou ir a essa sua terra, ele faz uma pausa. “A última vez que lá fui foi há seis meses. Três colonos israelitas chegaram de carro, um deles armado, disse-me que me fosse embora. Disse que aquela terra já não fazia parte de Taybeh.”
1. Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah; 2. Azeitonas no mercado de Ramallah, 2022; 3. Eyad Yousef no seu campo de ervilhas.
Eyad Yousef no seu campo de ervilhasAzeitonas no mercado de Ramallah, 2022Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah
Quando chegou a Primavera, Eyad e os irmãos tiveram de encontrar uma solução para a temporada agrícola. Decidiram arrendar a mesma terra onde a família beduína se instalara depois de os colonos os terem expulsado da terra de Eyad, dois anos antes. “Primeiro falámos com os beduínos, depois com o proprietário, e dividimos a terra: os beduínos plantaram cevada para o gado em metade da parcela, e nós usámos a outra metade.”
Em cerca de dois dunams de terra, duas famílias palestinianas praticam agora agricultura sazonal e criação de gado. Toda a vida agrícola da região ficou confinada a um pequeno espaço, de onde se avistam os postos avançadas dos colonos, implantados nas colinas vizinhas — as colinas onde Eyad outrora lavrava a sua terra, lado a lado com os beduínos, que ali apascentavam os rebanhos.
Em certo sentido, partilham a perda. Entretanto, continuam a apoiar-se mutuamente na defesa do seu modo de vida e da sua relação com a terra. Os agricultores e os beduínos, os habitantes do campo palestiniano desfigurado, são, uns para os outros, os únicos apoios que têm ante um projecto colonial dotado de recursos infinitos e da impunidade que a maior parte do mundo ocidental lhe concede.
Além de Taybeh, a dinâmica repete-se em toda a Cisjordânia. Jamal Jumaa, responsável pela campanha popular Stop The Wall, diz à Hara 36 que “a dinâmica da expansão dos colonatos israelitas desde Outubro de 2023 é a mesma em todo o lado e obedece a um modelo claro.”
O modelo, como explica Jumaa, consiste em “conseguir fazer na Cisjordânia o mesmo que se fez em Gaza na década de 90.” Nos anos que se seguiram aos Acordos de Oslo, o Exército israelita transformou a maior parte das terras agrícolas de Gaza, situadas na periferia da Faixa, em zonas militares. Os palestinianos de Gaza acabaram confinados às zonas urbanas. Após a retirada israelita em 2005, Gaza ficou isolada, transformada em prisão a céu aberto, sem meios de subsistência.
“Na Cisjordânia, a primeira vítima desta violenta expansão colonial foi a pecuária”, explica Jumaa. “As famílias beduínas e os aldeões que criam gado já perderam as pastagens ou estão a perdê-las.”
Já se sente o efeito nos mercados locais, acrescenta Jumaa, o preço da carne fresca duplicou desde 2023. “A próxima coisa a ser arruinada é a produção de azeitonas”, continua.
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A produção de azeitonas e azeite é o sector agrícola mais importante da Palestina, sustentando a subsistência de cerca de cem mil famílias. A colheita anterior a 7 de Outubro permitiu produzir 23 mil toneladas de azeite, em 2022, número que caiu drasticamente para 10 mil toneladas em Outubro de 2023, coincidindo com a época da colheita. No ano passado, este valor diminuiu ainda mais, atingindo 8 mil toneladas. A ONU entende que a forte queda se pode atribuir ao efeito combinado de confiscações sistemáticas de terras, violência dos colonos, restrições militares israelitas e factores climáticos.
“Por isso a manutenção dos olivais se tornou tão dispendiosa”, explica Eyad. “Arar um olival enquanto os colonos rondam passou a ser um trabalho de risco.”
As actividades dos colonos são concertadas com o Exército israelita, que utiliza o arranque de oliveiras como ferramenta de “dissuasão” e punição colectiva em resposta a ataques contra colonos e soldados. Em Agosto de 2025, divulgadas informações de que um colono israelita fora atacado por um palestiniano perto da aldeia de al-Mughayyir, o Exército israelita arrasou mais de 10 mil oliveiras na aldeia, como represália e acção de “dissuasão” contra os habitantes.
Eyad continua a colher ervilhas. Deita as últimas vagens para o balde. Cala-se, visivelmente afectado pelo seu próprio depoimento. “Se as coisas continuarem assim, vamos acabar por importar azeite de Espanha”, acrescenta, pegando num punhado de ervilhas e levantando-as com um suspiro. “Só as sementes para produzir estas ervilhas custam 250 shekels. Para os recuperar, tenho de vender 25 quilos.”
Vai-se afastando da parcela. A jornada de trabalho terminou. Quando chega ao confim, vira-se. Reflecte no que acaba de fazer.
“Sabes o que ganho com esta safra de ervilhas? Umas trinta a quarenta refeições para a família. Poupava mais não comprando ervilhas do que a vendê-las”, atira, com sarcasmo.
Está o sol do meio-dia no zénite, Eyad regressa à oficina de reparação automóvel — a versão de Eyad do “segundo emprego” de cada agricultor palestiniano. Agradeço-lhe por ter falado comigo e embarco num mini-autocarro em direcção a Ramallah, centro comercial da Cisjordânia, onde se presume invisível o cheiro do campo palestiniano mortificado pelos colonos.
Chegado ao centro da cidade, saio da estação de transportes públicos e avisto um casal de idosos à beira do passeio. Sentados em cadeirinhas, têm à frente vários baldes de plástico cheios de favas verdes acabadas de colher, ainda na vagem. Aproximo-me e pergunto-lhes de onde vem o produto.
“Somos de Sinjil, a aldeia que o Exército israelita cercou completamente de arame farpado”, responde o homem. A mulher intervém: “As ervilhas estão a 10 shekels o quilo, um pouco mais caras do que no ano passado.” Ela parece quase desculpar-se, mas não o suficiente para esconder a exasperação. “Só que este ano, vamos ter de pagar renda pela terra.”
Vira-se para o marido como se se lembrasse de alguma coisa e comenta: “Sabes quanto vai custar um galão de azeite este ano? E alguém o quererá comprar?”
1 O dunam é a unidade de medida de superfície otomana, na Palestina equivalente a 1 km².
No dia 28 deste mês. A Justiça Federal de São Paulo condenou José Maria de Almeida, presidente do PSTU, partido legal brasileiro, a dois anos de detenção pelo suposto crime de racismo contra os judeus num ato público realizado na Avenida Paulista de São Paulo, em outubro de 2023.
As alegações para tal se baseiam no facto de que teria sido uma incitação contra todos os judeus, tanto do Brasil como de Israel.
Waldo Mermelstein, cidadão brasileiro e judeu de uma família oriunda do Leste da Europa vítima do holocausto, defende aqui Zé Maria e enquadra as perseguições que estão a ser feitas contra ativistas defensores dos Palestinianos, acusados de “antissemitismo”.
Waldo Mermelstein
A razão para tal é que ao denunciar as políticas sistematicamente discriminatórias contra os palestinos, estaria colocando em risco os judeus.
Em primeiro lugar, qual a razão desta ofensiva contra destacados opositores da política do Estado de Israel contra os Palestinos?
O fundamental é que após o ataque do Hamas contra Israel em 2023, o Estado sionista (como ele próprio se declara) lançou uma ofensiva militar bárbara contra a Faixa de Gaza, que destruiu propositalmente toda a infraestrutura para a vida dos Palestinos que ali habitam. Mais de 70 mil mortos, em sua maioria crianças (além de um número bem maior de vítimas não contabilizadas.
Quando do ataque do Hamas a Israel, entre algumas das primeiras reações lúcidas esteve a do secretário-geral da ONU, António Guterres, que recordou o que corretamente denominou de o contexto em que ocorreu. Em primeiro lugar, em sua declaração de 24 de outubro de 2023 em reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, disse que o ataque do Hamas “não aconteceu no vácuo”, mas sim no contexto de 56 anos de ocupação sufocante, com a ocupação contínua de territórios e a expansão de colonatos.
De uma forma mais concreta, o veterano jornalista do jornal israelita Haaretz Gideon Levy declarou à imprensa: “[os habitantes de Gaza] foram colocados por Israel durante 17 anos em uma jaula, o que vocês queriam que eles fizessem?” (referindo-se ao facto de Gaza ser totalmente cercada e dominada por mar, ar e terra desde 2006 e de Israel controlar até as quantidades de calorias que entram na dieta dos Palestinos).
Mas, com a visão da História, é importante alargar o panorama que levou à situação atual:
O sionismo é uma ideologia (e depois uma corrente política e, depois da criação do Estado de Israel, a ideologia do Estado, em suas versões de “esquerda” e direita, como o atual primeiro-ministro Netanyahu.
A Palestina tem sido habitada desde há vários séculos pelos seus habitantes originários, os árabes palestinos. A ideia do sionismo era que, para escapar do antissemitismo, os judeus deveriam emigrar para a Palestina, que supostamente estaria vazia (Daí o bordão sionista, “uma terra sem povo para um povo sem terra”.)
Por supostas razões bíblicas reivindicavam o direito de implantar seu Estado. Para facilitar a obra começaram uma ação de organização dos imigrantes em uma estrutura separada dos habitantes locais. Sob a proteção do Reino Unido, que de 1921 em diante tinha o Mandato da Liga das Nações para a Palestina e em 1948, sentiram que havia uma oportunidade única pelo contexto do Holocausto. Em uma fatídica sessão, a Assembleia da recentemente criada ONU aprovou a partilha do território, outorgando 55% (e as melhores terras) para o 1/3 de judeus que lá moravam. Por alguns anos essa votação foi possível na ONU, antes da entrada de dezenas de novos países com a libertação nacional em particular na África. Assim que foi votada a criação de Israel, os sionistas, então majoritariamente de “esquerda” (as aspas se devem a que não faz sentido um colonialista se declarar de esquerda e ser adepto de um projeto de um colonialismo de povoamento, em que além de dominarem a população local e o território cobiçado, queriam criar uma nova pátria). Não é um caso único, apesar das especificidades, mas os exemplos dos EUA, da Austrália e da Argélia oferecem formas similares, mas não, obviamente, idênticas.
A criação do novo Estado deu a grande oportunidade: as milícias sionistas realizaram a limpeza étnica de mais de 2/3 da população local e dominaram 78% do território da Palestina. E incumpriram uma resolução da ONU nunca revogada em que se declarava o direito absoluto a voltarem para suas terras e propriedades. Gaza é composta em 80% por refugiados palestinos. Após muitos anos negando esse facto, já começou a se formar um novo consenso de que houve uma expulsão planejada pelos sionistas. Devemos essa versão aos ativistas e historiadores palestinos e, depois, aos chamados “novos historiadores” em Israel, como Ilan Pappe e Avi Schlaim, que dissecaram o tema, inclusive em livros traduzidos para português.
O segundo passo foi o de moldar o novo Estado: ele seria um estado “judaico”, sem dar direitos iguais aos Palestinos. Foi votada uma “lei do retorno”, que permitia a qualquer judeu do mundo migrar para Israel, ao mesmo tempo que os mais de 750 mil palestinos expulsos poderiam fazê-lo1. Nos primeiros 19 anos estes foram dirigidos por um governo militar. Em 1956, Israel se configurou como o aliado mais fiável do imperialismo americano e ocidental no Oriente Médio. Um exemplo gritante disso foi a guerra conjunta com Inglaterra e França em 1956 contra o Egito de Gamal Abdel Nasser, que havia nacionalizado o canal de Suez. Em 1967, Israel se aproveita do erro de cálculo de Nasser de ameaçar Israel sem ter condições para tal e, como o apoio decisivo dos EUA, ocupam toda a Palestina. Desde então, os habitantes desses territórios vivem sob um regime abertamente discriminante: centenas de milhares de colonos ilegais se estabeleceram especialmente na Cisjordânia e em Jerusalém, destruindo qualquer possiblidade de uma solução injusta de dois Estados. Injusta porque permite que Israel fique com a maioria da Palestina, perante um Estado palestino desarmado e incapaz de funcionar.
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Pouco a pouco, o regime interno de Israel em relação aos Palestinos foi se tornando cada vez mais cruel. São os tempos do Muro da Vergonha na Cisjordânia, do bloqueio total de Gaza e da opressão cada vez maior dos palestinos de Israel propriamente. Exemplos disso são a lei da nacionalidade que decreta que o direito de autodeterminação em Israel é privativo dos judeus, que o único idioma oficial é o hebraico e que os colonatos judaicos nos territórios ocupados são um valor nacional e que deve ser promovido. Na verdade, codifica uma situação já existente, mas sempre é importante a formalização.
E isso nos leva às razões da perseguição e condenação de Zé Maria.
Em maio de 2016, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto (IHRA em sua sigla em inglês) adotou uma definição de antissemitismo que, infelizmente, foi adotada por muitos países e que declara que as críticas a Israel são uma forma de antissemitismo. Esta definição está sendo utilizada para impedir a ação e atemorizar os ativistas pró-palestinos.
Nesse contexto, surgem em muitos países causas judiciais e perseguição policial contra os que se solidarizam com a Palestina. Por exemplo, Jeremy Corbin, que foi ostracizado no Partido Trabalhista na Inglaterra com a falsa acusação de conivência com ações antissemitas.
No Brasil, já tivemos dois casos muito comentados, o ataque a Milton Temer e Breno Altman, ambos terminados sem condenação.
A agressão israelense a Gaza mudou muito o cenário da solidariedade com os Palestinos, em particular na Europa e nos EUA. Imensas manifestações na Inglaterra, greves gerais na Itália e na Espanha e um grande movimento nos EUA, inclusive pela maior comunidade judaica fora de Israel, em particular entre os jovens.
Tudo isso torna o sionismo mais agressivo. Dois exemplos recentes demonstram isso:
o sequestro da flotilha Global Sumud de ajuda humanitária para Gaza em águas internacionais próximas à Grécia, onde foram submetidos a violência extrema por 40 horas. Foram entregues ao Governo grego, onde foram submetidos à ação da polícia que quer deportá-los. Mais: dois dos ativistas foram levados para interrogatório em masmorras sionistas, Thiago Ávila (brasileiro) e Saif Abukeshekd, de origem palestina e que conta com nacionalidade espanhola e sueca, o que mostra a agressividade com qualquer movimento de solidariedade. Em resposta, já houve dezenas de manifestações na Itália contra esta violência. Para ler-se um relato oficial da Flotilha consultar: https://www.laizquierdadiario.com/Israel-libera-a-la-mayoria-de-los-secuestrados-de-la-Flotilla-a-Gaza-pero-mantiene-como-rehenes-a
A segunda mostra de agressividade inaudita mesmo para os sionistas é a lei que permite que haja uma diferenciação na punição de supostos crimes de sangue realizados por palestinos dentro de Israel e nos territórios palestinos ocupados, destinado a pena de morte por enforcamento. Esse é um retrato do apartheid a que são submetidos os palestinos. Essa agressividade derivada da efetividade do apoio mundial à solidariedade contra o apartheid e o genocídio é o que explica que agora busquem condenar Zé Maria por um crime que não cometeu.
É importante entender de quem estamos falando. Conheço o Zé Maria desde 1977, quando ele tinha 18 anos e fora preso por um mês por distribuir um panfleto convocando o Primeiro de Maio e foi submetido a fortes torturas que só cessaram quando o movimento estudantil saiu às ruas pela primeira vez desde 1968 e conquistou sua libertação e dos seus companheiros/as presos/s.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Depois disso, Zé Maria se transformou em parte da história da luta contra a ditadura e do movimento operário. Em 1979, no Congresso estadual do estado de São Paulo, na cidade de Lins, foi ele quem apresentou a moção aprovada por só um voto contrário, de um dirigente do PCB, para a criação de um partido de trabalhadores, que foi adotada pelo chamado Novo Sindicalismo, liderado por Lula e outros dirigentes.
Seguindo sua peregrinação militante, Zé Maria era um dos dirigentes da Oposição Sindical e se tornou dirigente dos metalúrgicos de Belo Horizonte e dirigiu a greve com ocupação e gestão operária por 10 dias (para evitar danos à maquinaria). E de lá para cá seguiu militando no movimento dos trabalhadores e desde alguns anos como dirigente do PSTU.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Como judeu, antissionista desde 1973, considero esta luta fundamental e que não tem nada a ver com antissemitismo, nem racismo, porque não ataca os judeus por serem judeus, mas os sionistas, sejam eles judeus ou parte da imensa legião de cristãos sionistas, embora a sentença tenha ignorado este facto, argumentando equivocadamente que ele fez ataques aos judeus do mundo. E aceita a alegação de que Israel fala pelos judeus. Eu e muitos outros judeus dizemos sempre: “Não em nosso nome.”
1 A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 194, ditando que "os refugiados que desejem retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais cedo possível, e que uma compensação deve ser paga pelos bens daqueles que optam por não retornar e pela perda ou dano à propriedade que, de acordo com os princípios do direito internacional ou da equidade, deve ser cumprida pelos governos ou autoridades responsáveis.
Se os maiores cineastas e artistas do nosso tempo não se conseguem levantar para dizer que o que tem acontecido em Gaza, o que está a acontecer em Gaza é um genocídio do povo palestiniano pelo Estado de Israel, saibam que a história os julgará.
In Which Annie Gives It Those Ones (“De como a Anita lhes mostra como é”), um filme algo esdrúxulo que escrevi há 38 anos, foi seleccionado para exibição na secção “Clássicos” da Berlinale 2026 (o festival de cinema de Berlim). Senti-o um pouco como um acto de ternura, uma maravilha.
Embora as posições que têm sido tomadas pelo Governo alemão e por várias instituições culturais alemãs sobre a Palestina me tenham perturbado profundamente, tenho sempre sentido solidariedade política ao expor a públicos alemães a minha opinião sobre o genocídio em Gaza. Isso permitia-me pensar em assistir à exibição de Annie na Berlinale.
Esta manhã, ouvi, tal como milhões de pessoas em todo o mundo, as inconcebíveis declarações de membros do júri do festival de cinema de Berlim quando lhes pediram que comentassem o genocídio em Gaza. Ouvi-los a dizer que a arte não deve ser política é de deixar qualquer um de boca aberta. É calar a discussão de um crime contra a humanidade que está a ocorrer à frente dos nossos olhos, ao vivo – quando os artistas, escritores e cineastas deviam estar a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para pará-lo.
Ouvi, tal como milhões de pessoas em todo o mundo, as inconcebíveis declarações de membros do júri do festival de cinema de Berlim quando lhes pediram que comentassem o genocídio em Gaza.
Vou dizer isto com toda a clareza: o que tem acontecido em Gaza, o que está a acontecer em Gaza, é um genocídio do povo palestiniano pelo Estado de Israel. É apoiado e financiado pelos governos dos Estados Unidos e da Alemanha, assim como por vários outros países da Europa, o que faz deles cúmplices do crime.
Se os maiores cineastas e artistas do nosso tempo não se conseguem levantar para dizer isto, saibam que a história os julgará. Eu fico chocada e enojada.
É com profundo pesar que me vejo obrigada a dizer que não comparecerei na Berlinale.
Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias
A Acumulação do Capital: Uma Contribuição à Teoria Econômica do Imperialismo, de Rosa Luxemburgo, foi publicado em 1913 às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Suas avaliações críticas ao colonialismo e ao imperialismo não estavam apartadas da sua própria experiência como uma judia crescendo na Polónia ocupada pela Rússia, ela estava pessoalmente consciente dos impactos da dominação colonial.
Já nos seus primeiros trabalhos, esteve comprometida com a denúncia de como o extermínio dos povos indígenas e a interferência do capitalismo euro-americano nas formações sociais do mundo não ocidental não eram um acidente ocasional da acumulação de capital, mas sua própria base. Faz parte do capitalismo eliminar as economias pré-capitalistas, autossuficientes e não monetárias, transformando-as em ferramentas para acumulação de capital. Para tanto, faz uso de métodos como violência, fraude e até mesmo de genocídios.
Nesse sentido, embora motivações ideológicas facilitem o processo, o imperialismo é impulsionado pelas engrenagens do próprio capital, e por isso é viabilizado tanto em formas autoritárias de governo, quanto em “democracias” capitalistas.
“Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.”
Maria Mies, uma das primeiras feministas a analisar sistematicamente o papel das mulheres no capitalismo com base na estrutura de Rosa Luxemburgo, em seu livro Patriarcado e acumulação em escala mundial, aplica a teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo às mulheres, ao seu trabalho e à família.
A abordagem de Mies traça paralelos entre o trabalho feminino e o trabalho não remunerado de camponeses, colónias e outros “meios não capitalistas”, que Luxemburgo descreveu como sendo explorados “gratuitamente”, de forma semelhante à natureza. Maria Mies não vê o patriarcado e o capitalismo como sistemas separados, antes compreende que eles formam uma única entidade: o patriarcado capitalista. Por isso, para ela a subjugação das mulheres não se deve à misoginia masculina inerente, mas sim a uma necessidade estrutural para a acumulação de capital. Assim como Rosa Luxemburgo via a acumulação primitiva como intrínseca ao capitalismo, Mies afirma que o capitalismo não pode funcionar sem o patriarcado, visto que a acumulação contínua de capital requer a manutenção ou a criação de relações de género patriarcais e/ou coloniais.
Se Mies vê o patriarcado como expressão intrínseca da acumulação primitiva, também é verdade que os sujeitos dentro de um estado de exceção estão a mercê da mesma lógica da acumulação primitiva. Nesse sentido, os corpos racializados e colonizados de Gaza encontram-se em posição equiparada de exploração. Se em certo contexto histórico de superexploração, trabalhavam para empresas israelitas como forças de reservas para baixarem os salários, agora são expulsos do próprio território para aumentarem o valor de exploração.
No livro Pele Negra, máscaras brancas Frantz Fanon argumentou que a crescente conscientização dos trabalhadores em países colonizadores e racistas – levou a uma evolução no conceito de raça. Se o racismo vulgar e biológico correspondia ao período de exploração bruta do trabalho físico, onde a subjugação e a desumanização dos escravizados eram justificadas por hierarquias raciais pseudocientíficas, à medida que os meios de produção se tornaram mais avançados, as técnicas de exploração — e as formas de racismo — tornaram-se mais dissimuladas. A distinção colonial/racial entre civilização e barbárie evoluiu para uma divisão entre aqueles percebidos como capazes de dominar a natureza e aqueles vistos como subjugados por ela ou inerentemente parte dela.
Já Tithi Bhattacharya defende que todo esse processo sempre aconteceu sobre uma base de racialização intensa, o que não só fomentou a manutenção dos salários baixos, como fez subempregos parecerem um presente do capital a determinadas comunidades racializadas. Reconhecer as principais vítimas desse caminho também nos faz compreender porque sindicatos formados em sua maioria por trabalhadores do Sul global compostos por uma classe trabalhadora diversa, demonstram maior solidariedade e identificação com Gaza do que tantos outros da Europa.
Contudo, é importante reconhecer que o que tem sido feito ainda é muito pouco. O que estamos a assistir nada mais é do que a lógica da guerra infinita como dispositivo de governo, onde a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Antes, o que temos visto é a consolidação daquilo que Giorgio Agamben chamou de paradigma da exceção. Simplesmente, porque militarizar as mentes é também acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo. É a banalização das piores violências, como um soberano que tem direito sobre a vida do outro.
Segundo Carl Schmitt, trata-se da construção no imaginário social de um inimigo eterno, onde a militarização das mentes emerge como uma técnica eficaz para acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo.
Fenómenos que podem ser observados desde os discursos de ódio e dessensibilização em face à violência estatal nas periferias do mundo, quanto na execução da política colonialista do Estado israelita que se estrutura desde a Guerra Fria através da emergência de um Estado que se estabeleceu enquanto superpotência na ordem bipolar. A política baseada no proveito político e económico feito pelo movimento sionista que fez que este se aliasse a uma potência capitalista imperialista, capaz de assegurar a expulsão sistemática dos Palestinos, é a prova da instrumentalização desse processo. Características que podem ser observadas na tentativa de confinar o máximo de palestinianos, mas também no roubo de recursos estratégicos (água e terra cultivável), utilização da mão de obra barata, trabalho análogo ao escravo.
Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza há décadas é compreender as estruturas que autorizam e naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo a serem aplicados em escala indefinida contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.
O ativista e investigador palestiniano Naji El Khatib, que esteve há meses numa palestra no Porto, refere, em entrevista à página francesa em linha Reporterre, que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político. Ele lembra que a colonização continua entretanto, com a cumplicidade material da França. O leitor notará que tudo o que Naji El-Khatib diz se aplica na íntegra ao reconhecimento da Palestina pelo Estado português e à figura cínica e sinistra feita pelo ministro Rangel e pelo presidente Marcelo.
Que pensa do anúncio de Emmanuel Macron de reconhecer o Estado palestiniano?
Naji El Khatib Este anúncio suscita-me, em primeiro lugar, muitas dúvidas. Agirá Emmanuel Macron por sentimento de culpa, ou será, antes, um caso de cálculo político, para recauchutar a sua imagem, quando há agora uma queixa apresentada contra ele no Tribunal Internacional de Justiça, por cumplicidade com genocídio? Neste contexto, custa não ver neste gesto uma manobra de diversão. Há meses que a rua francesa se mobiliza contra os massacres em Gaza e pelos direitos dos Palestinianos.
No entanto, não acredito que Macron esteja a agir por remorso. Os seus aliados dizem-no cínico: parece-me que o reconhecimento é principalmente uma ferramenta de comunicação política. Chega tarde, muito tarde. Já mais de 140 países reconheceram o Estado palestiniano. Acima de tudo, porém, este Estado, o Estado derivado dos acordos de Oslo (1993), é um “Estado fantoche”, incapaz de responder às necessidades reais dos Palestinianos.
Hoje, os territórios reservados a um futuro Estado palestiniano correspondem a uns meros 10% da Palestina mandatária original. Falo como refugiado: a minha família foi expulsa de Jaffa em 1948. Ora, 60% dos palestinianos partilham esse destino do exílio forçado. A questão do direito ao regresso sempre foi excluída das negociações.
O que nos é proposto não é um Estado viável, é um simulacro que ratifica o esquecimento de centenas de milhares de expulsos. Por isso falo de uma farsa, perigosa para os direitos históricos do povo palestiniano, do rio até ao mar.
Acusa a França de cumplicidade com Israel. Em que consiste a cumplicidade, na sua opinião?
Naji El Khatib Em primeiro lugar, cumplicidade material. A França nunca deixou de fornecer armas e munições a Israel. Novos carregamentos partem regularmente do Aeroporto de Roissy. Há também empresas francesas a fornecer tecnologias utilizadas nos drones israelitas. Esta cadeia de produção alimenta diretamente a máquina de guerra.
Há, todavia, resistência: os estivadores de Marselha têm-se recusado a carregar caixas destinadas a Israel. Já o Estado francês continua. Como se pode pretender estar a reconhecer o direito dos Palestinianos à autodeterminação se, ao mesmo tempo, se arma quem os bombardeia e coloniza a sua terra?
Cumplicidade, igualmente, política. A França não impôs nenhuma sanção, apesar de dispor de meios de pressão económica e diplomática significativos. Permanecer em silêncio diante de um genocídio é participar nele. O coletivo de 114 advogados que está por detrás da queixa contra o Estado francês evoca-o com clareza: não agir para impedir um crime é ser cúmplice dele. Macron tenta mascarar essa responsabilidade com um reconhecimento do Estado palestiniano, mas a realidade é outra: fornecimento de armas, nenhuma sanção, inércia diplomática. Tudo isto configura participação direta e indireta no genocídio.
Mesmo assim, que consequências concretas pode ter o reconhecimento?
Naji El Khatib Em política, o simbolismo só tem peso se se traduzir em relações de força. Reconhecer o Estado palestiniano sem agir contra o agressor não muda nada. Enquanto a colonização continuar a avançar, enquanto se multiplicarem os ataques de colonos armados, assim como as barragens de controlo, é do foro da ilusão andar a falar de Estado palestiniano.
Para o reconhecimento ter sentido, seriam necessárias medidas concretas: sanções económicas, embargo militar e científico, retirar o embaixador. A França tem meios para fazê-lo. Mas não há sinais que indiquem tal vontade. Este anúncio é, portanto, uma manobra do foro do marketing político e, o que é pior, sem sanções nem medidas concretas, o risco é que a seguir se acelere a colonização e os territórios palestinianos se fragmentem.
O que pensa da iniciativa da Flotilha da Liberdade para Gaza?
Naji El Khatib É um ato de coragem essencial. Perante o bloqueio e o genocídio, não podemos manter-nos espectadores. A Flotilha procura quebrar o isolamento de Gaza e levar ajuda vital a uma população atingida pela fome e pelos bombardeamentos. Centenas de pessoas já perderam a vida por falta de comida ou de cuidados médicos.
Eu próprio participei na Marcha para Gaza, no Egito, em junho. A iniciativa malogrou-se, mas encarnava essa vontade de “fazer algo”. A Flotilha inscreve-se na sua continuidade: encarna uma forma de esperança, provando que há gente, noutras partes do mundo, que não se contenta em manifestar-se, que está pronta a correr riscos perante uma máquina de guerra.
Isto é tanto mais importante, quanto o Estado israelita tenta tirar legitimidade a estas ações e preparar os espíritos para ataques contra elas. Os participantes são muitas vezes caricaturados como “terroristas” ou “jihadistas", tal como aconteceu com o ataque ao barco turco que rumava a Gaza em 2010. Apesar dos riscos, a Flotilha não deixa de ser um gesto concreto de solidariedade.
Há muitos ativistas ecologistas a participar na Flotilha. Como entende esta ligação entre a luta pela Palestina e as lutas ambientalistas?
Naji El Khatib A expropriação da Palestina não afeta apenas terras e casas: também transforma o ambiente. Desapareceu de toda a Galileia o tomilho selvagem, o zaatar. As florestas plantadas por Israel com espécies importadas da Europa destruíram as plantas locais e apagaram os vestígios das aldeias palestinianas destruídas em 1948. Com os bombardeamentos maciços, Gaza está a tornar-se inabitável, os solos, contaminados.
Genocídio e ecocídio andam de mãos dadas. Defender a Palestina é defender, ao mesmo tempo, um povo e o seu ambiente, a sua cultura e a sua ligação à terra. Por isso é tão importante a presença de ativistas ecologistas na Flotilha. Lembra que a luta pela Palestina é também uma luta por terras viáveis e um ambiente habitável. São lutas que não estão separadas, estão profundamente ligadas.
Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. Nenhuma compensação ou ajuste que não inclua o regresso ao trabalho no cais do seu porta-voz Erik Helgeson será aceite.
O Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco reafirmou o seu compromisso de acabar com o comércio de material militar com Israel. O Tribunal do Trabalho escuta, entretanto, as alegações iniciais relativas ao despedimento do porta-voz nacional do sindicato, Erik Helgeson.
Em dezembro do ano passado, o Sindicato dos Estivadores sueco organizou um referendo sobre uma acção sindical de embargo do transporte por portos suecos de material militar de e para Israel. 68% dos sindicalizados de todo o país votaram a favor de avançar com o protesto, em solidariedade com a população civil palestiniana de Gaza e da Cisjordânia.
A acção do sindicato foi ferozmente contestada pelos empregadores portuários tanto na comunicação social como junto do Tribunal do Trabalho sueco. O sindicato avançou na mesma. Em fevereiro, o Tribunal do Trabalho concluiu pela legalidade da acção de solidariedade, que se poderia desenrolar nos termos planeados.
No entanto, no próprio dia do veredicto, o porta-voz do sindicato e vice-presidente nacional, Erik Helgeson, foi despedido pelo seu empregador, o Terminal Roro (de embarque e desembarque rolante) de Gotemburgo, cujo proprietário é a DFDS. O empregador notificou o despedimento em comunicado de imprensa em que referia preocupações de “segurança nacional”.
Esta semana, oito meses depois de defender em tribunal a acção solidária do sindicato, Helgeson voltou ao Tribunal do Trabalho de Estocolmo. Estava em causa, desta vez, o seu próprio despedimento ilegal. Era a primeira audição do caso, que se prevê arrastar-se até ao segundo semestre de 2026.
Na segunda-feira, dirigindo-se a apoiantes à porta do tribunal, Helgeson reafirmou que o sindicato se manterá firme.
* Nunca os empregadores irão ditar quem há-de poder falar pelo SDU. Numa democracia digna desse nome, tal decisão cabe exclusivamente aos estivadores sindicalizados.
* O SDU não se coibirá de manifestar solidariedade com outros trabalhadores sujeitos a injustiças. Atacar os nossos representantes eleitos não nos silenciará. A decisão dos sindicalizados de estarem solidários com a classe trabalhadora palestiniana mantém-se.
* É uma vergonha que o Estado sueco esteja, na realidade, a aumentar as suas importações de material militar de Israel quando 20 mil crianças palestinianas foram mortas na ofensiva contra Gaza. De acordo com a organização Save The Children, é o equivalente a uma criança morta por hora ao longo dos últimos 23 meses. O comércio de material militar com Israel tem de acabar.
* O SDU não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. Nenhuma compensação ou ajuste que não inclua o regresso de Erik ao trabalho no cais será aceite.
Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita — mas também pelo irmão egípcio. Alguns milhares de ativistas não podem franquear uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.
Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita — mas também pelo irmão egípcio. Alguns milhares de ativistas não podem franquear uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.
No dia 6 de dezembro de 2003, no auge da Intifada, após uma noite difícil, de combates incessantes entre o exército israelita e os combatentes palestinianos no bairro de al-Yasmina, na velha cidade de Nablus, onde eu na altura vivia, recebi uma mensagem do Consulado Francês em Jerusalém Oriental a anunciar-me que a minha viagem a Gaza estava cancelada.
Peguei nas coisas que tinha preparadas para um dia normal de trabalho na Universidade An-Najah, dividido entre a raiva e a resignação. Pronto: depois de meses de espera na lista de pessoas com autorização para se deslocarem a Gaza, tinham-me riscado da lista.
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Telefonei para Jerusalém. A resposta pacificou um pouco a minha raiva: Jane Birkin e os seus músicos precisavam de todos os veículos do Consulado Francês em Jerusalém Oriental para se poderem deslocar a Gaza e dar um concerto no Centro Cultural Rashad al-Shawa nos dias 8 e 9 de dezembro.
Pensei com os meus botões: que azar o meu, um palestiniano nascido no Líbano, animado pela paixão ardente de descobrir todos os recantos da Palestina, do rio até ao mar. Nablus representava, para mim, muito mais do que a universidade: era o meu ponto de partida para visitar todas as cidades e aldeias da Palestina. Exceto Gaza.
Mas que raio ia Jane Birkin fazer a Gaza? Cantar? Ou impedir as minhas peregrinações físicas e mentais aos lugares da minha memória familiar?
Como a maior parte dos Yafawi (habitantes de Jaffa) que fugiram da cidade por mar quando ela caiu perante a Telavive triunfante, eu estava para nascer em Gaza. Mas a inexperiência marítima de um pescador que nunca se atrevera a afastar-se da costa para pescar fez que acabasse por nascer noutro sítio, longe de Gaza. Em vez de se dirigir para sul, para Gaza, ele enganou-se no rumo e navegou para norte, em direção ao Líbano.
Desde então, visitar Gaza, onde eu devia ter nascido, tornou-se-me insistente obsessão. Tentei outra vez, em 2012. Não fui bem-sucedido. A minha frustração só crescia.
Junho de 2025. O meu filho mais velho, Samy, falou-me de uma marcha que se estava a organizar: para Gaza. Enquanto o escutava, vieram-me ao de cima todos os desejos insatisfeitos, todas as frustrações recalcadas. No espaço de poucos segundos, vi-me a entrar em Gaza — já não Gaza de 2003 ou de 2012, mas Gaza depois da guerra e do genocídio.
Sem hesitar, respondi: “Eu vou.”
Ele respondeu, com toda a naturalidade: “Eu também.”
Alguns dias depois, comprámos bilhetes para o Cairo. Era o meu segundo regresso à Palestina com destino a Gaza. Gaza encerra em si mesma todas as dimensões políticas, históricas e humanas da Palestina.
Gaza, gigantesco campo de refugiados.
Gaza, prisão a céu aberto.
Gaza que resiste.
Gaza, centelha de todas as lutas do povo palestiniano, de 1948 aos nossos dias.
Eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita, mas também pelo irmão egípcio.
Entre sonho e realidade, inscrevi-me oficialmente. Comecei a receber uma avalanche de mensagens da “March to Gaza” através dos respetivos grupos WhatsApp e Telegram. O número de inscritos aumentava de dia para dia.
Invadia-me um sentimento de felicidade, misturado com algum receio, ao ouvir e ler as ideias expressas por alguns participantes. Pouco a pouco, apesar de as condições serem tudo menos ideais, formou-se uma comunidade movida por um entusiasmo que alimentava uma mobilização internacional.
Um movimento de cidadãos, popular, não elitista, sem filiação política. Um movimento sem precedentes, que se poderia dizer internacionalista de tipo novo. Nos seus membros não há qualquer semelhança com os internacionalistas da guerra civil de Espanha, nem com os partidários de um internacionalismo comunista ou revolucionário clássico. Não reivindicam uma ideologia que sustente que os seres humanos se devam unir para defender interesses comuns por sobre fronteiras nacionais, políticas, culturais ou raciais.
Internacionalizaram-se antes pela Palestina, transmudada em símbolo universal de justiça.
Apesar do impasse do horizonte palestiniano enquanto se desenrola o genocído, a Palestina emerge em moldes que transcendem as suas fronteiras, a sua geografia e o seu povo. Ela encarna a “mais-valia” das lutas pela liberdade que transcendem os quadros nacionais e estatais. É a Palestina “não-palestiniana”, a Palestina de todos os que aspiram à liberdade, fora do espartilho do mercado capitalista e dos interesses imperialistas.
Não surpreende, pois, que a Palestina se tenha volvido causa principal da justiça no mundo, denunciando a injustiça nos quatro cantos do globo.
Emergindo como símbolo de justiça e projeto de libertação radical para a terra e a humanidade, a Palestina transcende as fronteiras naturais e humanas do seu território e do seu povo. Torna-se assim valor e símbolo universal.
Em nome deste internacionalismo palestinizado, os manifestantes encarnam a solidariedade internacional sem fronteiras nem exceções: defender a dignidade, a liberdade e a autodeterminação dos povos passa a compromisso universal. Na hora de lutar contra o genocídio, internacionalismo significa levantar-se e tomar a iniciativa, como ser humano responsável.
Estes internacionalistas são a gente fantástica que encontrei no Cairo e, depois, na primeira e na segunda barragem, onde as forças de segurança egípcias nos trataram à bruta, nos prenderam e agrediram para nos impedir de continuar o caminho para Ismailia e chegar a Al-Arish, ponto de partida para Gaza.
Tive a sorte imensa de conhecer seres humanos notáveis, chegados de dúzias de países, movidos pela compaixão pela Palestina e pela sua justa causa, exigindo o fim do genocídio em Gaza e a liberdade para a Palestina, do rio até ao mar.
Como participante palestiniano nesta marcha para Gaza, agradeci a todos por estarem do lado bom da história, o da justiça e da liberdade.
Fui testemunha do entusiasmo avassalador e da coragem sincera dos participantes na marcha. Mas também ouvi comentários irresponsáveis de uns poucos, observei falta de organização e de disciplina e, sobretudo, ignorância do território egípcio que tínhamos de atravessar.
Os organizadores anunciavam que “a Marcha Mundial para Gaza é um movimento de cidadãos, apolítico e independente”. Será, porém, possível escapar realmente à política e ao seu cálculo frio, desprovido de considerações humanistas e éticas?
Como há de querer chamar-se “apolítico” a um movimento que é fundamentalmente político, que exige o fim do genocídio, a retirada do exército israelita de Gaza e o levantamento do bloqueio imposto tanto por Israel como pelo Egito?
Ser a marcha um ato cívico por excelência não contradiz a sua natureza eminentemente política, por muito que os organizadores digam que “não representamos nenhum partido, ideologia ou religião. Representamos o povo, em toda a sua diversidade e humanidade”.
Na realidade, apesar destas afirmações simplistas e ingénuas, é exatamente no campo da política que nos movemos. A atitude das autoridades egípcias pôs à vista de todos o carácter profundamente político da marcha: proibida, os seus participantes detidos, agredidos e deportados, apesar de pacíficos e sem intenção violenta alguma.
A política do Estado egípcio responde à lógica do poder, aos interesses da classe dominante e a um cálculo frio em que não interessam para nada os “princípios orientadores” da marcha: justiça, dignidade humana, paz.
A ingenuidade que os organizadores exibiram ocultou as realidades políticas do momento. Quando estas realidades nos caíram brutalmente em cima, muitos participantes da marcha ficaram estupefactos.
Uma participante de origem árabe perguntou-me como era possível um Estado “irmão”, árabe e muçulmano, como o Egito comportar-se desta maneira.
Um jovem quis alugar uma motoreta para passar as barragens, convencido de que os jovens gendarmes egípcios nunca se atreveriam a disparar contra europeus solidários com a Palestina.
De cada vez que eu explicava as realidades do terreno, vi instalar-se deceção e desconfiança para comigo. Quando disse que não estávamos num país amigo, houve quem protestasse ruidosamente. As rusgas violentas da polícia aos hotéis e apartamentos em que estávamos, no Cairo, foram, porém, suficientes para que a realidade aparecesse nua e crua.
Não é que a cumplicidade do Egito seja novidade. O regime tem Gaza selada e isolada há anos, mesmo quando as forças israelitas não ocupam o lado palestiniano de Rafah. Milhares de palestinianos tiveram de pagar mais de 5000 dólares por pessoa para fugirem ao genocídio. Outros ainda têm de pagar quantias exorbitantes para que os camiões de ajuda humanitária possam entrar em Gaza.
O Egito continua a negar aos palestinianos que se encontram no seu território o direito a trabalhar, agravando a sua situação económica e deixando centenas de famílias em situação precária. Há quem acabe por querer voltar para Gaza. Têm, no entanto, o caminho obstruído.
De nada serve adoçar a realidade dos regimes cúmplices e dos mecanismos repressivos. O Egito viola a sua própria soberania quando permite que empresas como a Erjani lucrem com o bloqueio e o genocídio, concedendo seletivamente autorizações de entrada e saída de Gaza, esta faixa de Gaza que há décadas explora.
No regime do bloqueio, cada movimento requer subornos e esquemas clandestinos, reforçando um sistema mafioso assente no sofrimento dos palestinianos.
A caravana de Sumud e a Marcha Mundial para Gaza são atos de desafio, não ameaças militares. Uns poucos milhares de ativistas não podem atravessar uma das fronteiras mais militarizadas do mundo: a passagem de Rafah.
Contudo, os internacionalistas por Gaza e contra o genocídio encontrarão outras formas de continuar a luta pela Palestina e pela justiça à escala mundial.
Pela minha parte, eu lá continuarei, no meio daquela gente sincera e amorosa, na esperança de, um dia, ver Gaza, o meu amor.
A segunda mostra de agressividade inaudita mesmo para os sionistas é a lei que permite que haja uma diferenciação na punição de supostos crimes de sangue realizados por palestinos dentro de Israel e nos territórios palestinos ocupados, destinado a pena de morte por enforcamento. Esse é um retrato do apartheid a que são submetidos os palestinos. Essa agressividade derivada da efetividade do apoio mundial à solidariedade contra o apartheid e o genocídio é o que explica que agora busquem condenar Zé Maria por um crime que não cometeu.
É importante entender de quem estamos falando. Conheço o Zé Maria desde 1977, quando ele tinha 18 anos e fora preso por um mês por distribuir um panfleto convocando o Primeiro de Maio e foi submetido a fortes torturas que só cessaram quando o movimento estudantil saiu às ruas pela primeira vez desde 1968 e conquistou sua libertação e dos seus companheiros/as presos/s.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Depois disso, Zé Maria se transformou em parte da história da luta contra a ditadura e do movimento operário. Em 1979, no Congresso estadual do estado de São Paulo, na cidade de Lins, foi ele quem apresentou a moção aprovada por só um voto contrário, de um dirigente do PCB, para a criação de um partido de trabalhadores, que foi adotada pelo chamado Novo Sindicalismo, liderado por Lula e outros dirigentes.
Seguindo sua peregrinação militante, Zé Maria era um dos dirigentes da Oposição Sindical e se tornou dirigente dos metalúrgicos de Belo Horizonte e dirigiu a greve com ocupação e gestão operária por 10 dias (para evitar danos à maquinaria). E de lá para cá seguiu militando no movimento dos trabalhadores e desde alguns anos como dirigente do PSTU.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Como judeu, antissionista desde 1973, considero esta luta fundamental e que não tem nada a ver com antissemitismo, nem racismo, porque não ataca os judeus por serem judeus, mas os sionistas, sejam eles judeus ou parte da imensa legião de cristãos sionistas, embora a sentença tenha ignorado este facto, argumentando equivocadamente que ele fez ataques aos judeus do mundo. E aceita a alegação de que Israel fala pelos judeus. Eu e muitos outros judeus dizemos sempre: “Não em nosso nome.”
1 A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 194, ditando que "os refugiados que desejem retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais cedo possível, e que uma compensação deve ser paga pelos bens daqueles que optam por não retornar e pela perda ou dano à propriedade que, de acordo com os princípios do direito internacional ou da equidade, deve ser cumprida pelos governos ou autoridades responsáveis.
In Which Annie Gives It Those Ones (“De como a Anita lhes mostra como é”), um filme algo esdrúxulo que escrevi há 38 anos, foi seleccionado para exibição na secção “Clássicos” da Berlinale 2026 (o festival de cinema de Berlim). Senti-o um pouco como um acto de ternura, uma maravilha.
Embora as posições que têm sido tomadas pelo Governo alemão e por várias instituições culturais alemãs sobre a Palestina me tenham perturbado profundamente, tenho sempre sentido solidariedade política ao expor a públicos alemães a minha opinião sobre o genocídio em Gaza. Isso permitia-me pensar em assistir à exibição de Annie na Berlinale.
Esta manhã, ouvi, tal como milhões de pessoas em todo o mundo, as inconcebíveis declarações de membros do júri do festival de cinema de Berlim quando lhes pediram que comentassem o genocídio em Gaza. Ouvi-los a dizer que a arte não deve ser política é de deixar qualquer um de boca aberta. É calar a discussão de um crime contra a humanidade que está a ocorrer à frente dos nossos olhos, ao vivo – quando os artistas, escritores e cineastas deviam estar a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para pará-lo.
Ouvi, tal como milhões de pessoas em todo o mundo, as inconcebíveis declarações de membros do júri do festival de cinema de Berlim quando lhes pediram que comentassem o genocídio em Gaza.
Vou dizer isto com toda a clareza: o que tem acontecido em Gaza, o que está a acontecer em Gaza, é um genocídio do povo palestiniano pelo Estado de Israel. É apoiado e financiado pelos governos dos Estados Unidos e da Alemanha, assim como por vários outros países da Europa, o que faz deles cúmplices do crime.
Se os maiores cineastas e artistas do nosso tempo não se conseguem levantar para dizer isto, saibam que a história os julgará. Eu fico chocada e enojada.
É com profundo pesar que me vejo obrigada a dizer que não comparecerei na Berlinale.
A Acumulação do Capital: Uma Contribuição à Teoria Econômica do Imperialismo, de Rosa Luxemburgo, foi publicado em 1913 às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Suas avaliações críticas ao colonialismo e ao imperialismo não estavam apartadas da sua própria experiência como uma judia crescendo na Polónia ocupada pela Rússia, ela estava pessoalmente consciente dos impactos da dominação colonial.
Já nos seus primeiros trabalhos, esteve comprometida com a denúncia de como o extermínio dos povos indígenas e a interferência do capitalismo euro-americano nas formações sociais do mundo não ocidental não eram um acidente ocasional da acumulação de capital, mas sua própria base. Faz parte do capitalismo eliminar as economias pré-capitalistas, autossuficientes e não monetárias, transformando-as em ferramentas para acumulação de capital. Para tanto, faz uso de métodos como violência, fraude e até mesmo de genocídios.
Nesse sentido, embora motivações ideológicas facilitem o processo, o imperialismo é impulsionado pelas engrenagens do próprio capital, e por isso é viabilizado tanto em formas autoritárias de governo, quanto em “democracias” capitalistas.
“Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.”
Maria Mies, uma das primeiras feministas a analisar sistematicamente o papel das mulheres no capitalismo com base na estrutura de Rosa Luxemburgo, em seu livro Patriarcado e acumulação em escala mundial, aplica a teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo às mulheres, ao seu trabalho e à família.
A abordagem de Mies traça paralelos entre o trabalho feminino e o trabalho não remunerado de camponeses, colónias e outros “meios não capitalistas”, que Luxemburgo descreveu como sendo explorados “gratuitamente”, de forma semelhante à natureza. Maria Mies não vê o patriarcado e o capitalismo como sistemas separados, antes compreende que eles formam uma única entidade: o patriarcado capitalista. Por isso, para ela a subjugação das mulheres não se deve à misoginia masculina inerente, mas sim a uma necessidade estrutural para a acumulação de capital. Assim como Rosa Luxemburgo via a acumulação primitiva como intrínseca ao capitalismo, Mies afirma que o capitalismo não pode funcionar sem o patriarcado, visto que a acumulação contínua de capital requer a manutenção ou a criação de relações de género patriarcais e/ou coloniais.
Se Mies vê o patriarcado como expressão intrínseca da acumulação primitiva, também é verdade que os sujeitos dentro de um estado de exceção estão a mercê da mesma lógica da acumulação primitiva. Nesse sentido, os corpos racializados e colonizados de Gaza encontram-se em posição equiparada de exploração. Se em certo contexto histórico de superexploração, trabalhavam para empresas israelitas como forças de reservas para baixarem os salários, agora são expulsos do próprio território para aumentarem o valor de exploração.
No livro Pele Negra, máscaras brancas Frantz Fanon argumentou que a crescente conscientização dos trabalhadores em países colonizadores e racistas – levou a uma evolução no conceito de raça. Se o racismo vulgar e biológico correspondia ao período de exploração bruta do trabalho físico, onde a subjugação e a desumanização dos escravizados eram justificadas por hierarquias raciais pseudocientíficas, à medida que os meios de produção se tornaram mais avançados, as técnicas de exploração — e as formas de racismo — tornaram-se mais dissimuladas. A distinção colonial/racial entre civilização e barbárie evoluiu para uma divisão entre aqueles percebidos como capazes de dominar a natureza e aqueles vistos como subjugados por ela ou inerentemente parte dela.
Já Tithi Bhattacharya defende que todo esse processo sempre aconteceu sobre uma base de racialização intensa, o que não só fomentou a manutenção dos salários baixos, como fez subempregos parecerem um presente do capital a determinadas comunidades racializadas. Reconhecer as principais vítimas desse caminho também nos faz compreender porque sindicatos formados em sua maioria por trabalhadores do Sul global compostos por uma classe trabalhadora diversa, demonstram maior solidariedade e identificação com Gaza do que tantos outros da Europa.
Contudo, é importante reconhecer que o que tem sido feito ainda é muito pouco. O que estamos a assistir nada mais é do que a lógica da guerra infinita como dispositivo de governo, onde a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Antes, o que temos visto é a consolidação daquilo que Giorgio Agamben chamou de paradigma da exceção. Simplesmente, porque militarizar as mentes é também acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo. É a banalização das piores violências, como um soberano que tem direito sobre a vida do outro.
Segundo Carl Schmitt, trata-se da construção no imaginário social de um inimigo eterno, onde a militarização das mentes emerge como uma técnica eficaz para acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo.
Fenómenos que podem ser observados desde os discursos de ódio e dessensibilização em face à violência estatal nas periferias do mundo, quanto na execução da política colonialista do Estado israelita que se estrutura desde a Guerra Fria através da emergência de um Estado que se estabeleceu enquanto superpotência na ordem bipolar. A política baseada no proveito político e económico feito pelo movimento sionista que fez que este se aliasse a uma potência capitalista imperialista, capaz de assegurar a expulsão sistemática dos Palestinos, é a prova da instrumentalização desse processo. Características que podem ser observadas na tentativa de confinar o máximo de palestinianos, mas também no roubo de recursos estratégicos (água e terra cultivável), utilização da mão de obra barata, trabalho análogo ao escravo.
Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza há décadas é compreender as estruturas que autorizam e naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo a serem aplicados em escala indefinida contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.
Quando a enfermeira te meteu na boca a agulha da anestesia, desataste a rir:
– Cortaste-me o lábio?
A dentista não te respondeu. Deixou-te cinco minutos a sós com o formigueiro na boca e nos lábios… Cinco minutos bastam para todas as perguntas existenciais, a começar pela mais simples: “Que sentido tem a vida se temos de morrer?”
Sorris, tentando não me ouvir. Sabes que te vou responder: “Que sentido teria a vida se não tivéssemos de morrer?”
A dentista voltou, segurou-te na cara, abriu-te a boca e enfiou uma barragem de borracha dentária. Furou o molar, tirou o nervo… Que maravilha: já não tens nervo!
Mas ainda não acabara. Encheu-te a boca de medicamentos estranhos que davam náuseas. Ia conversando contigo enquanto trabalhava. Tu, sem poder falar, só podias anuir com a cabeça.
Que maravilha: já não tens nervo, e acenas com a cabeça por tudo e por nada.
***
Naquele dia, fui ver a minha tia. Lembras-te?
Tinhas-me aconselhado a visitá-la por dever familiar, e foi o que fiz. Como não havia de fazê-lo? Não tinha alternativa a não ser acenar com a cabeça e andar sem nervo.
– Tia, tinha saudades tuas – disse-lhe, ao beijá-la. Ainda antes de se preocupar com o meu dente, disse-me:
– Liga ao meu filho, despachem-se.
Acenei com a cabeça sem perceber, liguei ao filho dela e saí com ele para a aldeia de Deir Dibouan. Pelo caminho, ele foi-me contando a história. Eu ia acenando com a cabeça.
– Viste a fila de rapazes nus amarrados? – Acenei com a cabeça, sem perceber. Continuou: – Os soldados tocavam-nos como se tocassem ovelhas. Não viste? –
Não, acenei com a cabeça. Ele disse:
– Dá-me um cigarro, vou-te contar.
– A história, primo, foi que…
“Em directo de Ramallah: Um jovem de 25 anos foi morto a tiro por colonos israelitas durante um ataque de colonos à aldeia de Deir Dibouan. Os colonos abriram fogo, ferindo gravemente o jovem Awad Awawdeh, que acabou por sucumbir. Na sequência do incidente, o exército de ocupação fechou a entrada da aldeia e deteve trinta habitantes.”
– A história é esta, primo… Tens um cigarro?
***
Deu-lhe um cigarro, acenando violentamente com a cabeça, com a mão no molar ainda dormente por causa da anestesia. A pensar que iam ao funeral, mas porque guiava o primo tão depressa?
O jovem tinha sido morto a tiro por um colono, com os soldados a cercá-los. As redes sociais encheram-se de poemas e emojis tristes:
“Deixaram-no morrer sozinho.”
“Porque te foste?”
“Não acreditem no ulular, acreditem na lágrima do pai a olhar para a fotografia.”
“As pessoas ficam a dormir, indiferentes.”
“Perderam-no, pessoa por pessoa.”
“Já ninguém sente nada… Está tudo morto!”
Desligou o telemóvel, não quis escrever. Só pensava em “que sentido tem a vida se temos de morrer?”
Ao chegar à aldeia, percebeu por que o primo guiava tão depressa: queria juntar-se aos moradores, que já tinham saído, de autocarro. Estava lá toda a comunidade. Não estava sozinho, nunca sozinho.
***
Ias seguindo constantemente a notícia nas redes sociais, lendo as publicações e os poemas tristes. Acenavas com a cabeça. Os meios de comunicação e as redes sociais tinham-te dado a impressão de que ele estava sozinho, que tinha morrido sozinho, que tinha partido sozinho. Mas não, estavam lá todos os moradores da aldeia.
Já os que filmavam com câmaras, os que escreviam, os que contavam histórias e compunham poemas tristes, os que se deixavam seduzir pelos paradoxos da morte, os que procuravam a metáfora, os que imploravam lágrimas — esses todos não repararam em nada, porque não estavam presentes. Não era solidão; era uma redefinição dos laços sociais.
Quando saíste com o teu primo e a gente da aldeia dele, paraste. Lembras-te? O teu primo mandou-te despachar-te, mas não percebeste porquê. Desta vez, não acenaste com a cabeça: não o seguiste, optaste por ficar um pouco mais, recusaste-te a afastar-te das pessoas, da realidade, daquele momento existencial verdadeiro. O teu primo dizia para irmos embora, mas tu não cedeste; não acenaste com a cabeça.
– Vá lá, deixa a vez aos outros – disse ele. Então viste dezenas de autocarros das aldeias vizinhas que estavam à espera da vez: Silwad, Mughayir, Kufr Malik… As aldeias vizinhas desciam em fila, cada pessoa repetia o mesmo ao pai do jovem: “Estamos contigo, somos teus filhos.”
Todos repetiam estas palavras. Tu, imóvel, perdido nas publicações das redes sociais. Não viste os autocarros a chegarem? As aldeias a levantarem-se? Vinham todos saudar o pai na presença do corpo do seu filho mártir. E tu, pobre louco, continuas a perguntar “que sentido tem a vida se temos de morrer?” Respondo-te eu: “E que sentido teria a vida se não tivéssemos de morrer?”
Saíste da aldeia com a mão no molar.
– Que se passa? – perguntei-te. Disseste-me:
– Não sei… Dói-me o nervo. Acho que a dentista não o tirou todo.
Médicos de diversos países a trabalhar em Gaza observaram um padrão perturbador: crianças com um único ferimento de bala na cabeça ou no peito, sinal de que tinham sido deliberadamente alvejadas. Esta conclusão pôde ser tirada graças a uma pesquisa do jornal neerlandês de grande circulação de Volkskrant, que falou com médicos que estão entre as últimas testemunhas oculares internacionais presentes na Palestina.
Quinze médicos de diversos países disseram ao jornal neerlandês de Volkskrant que, durante o seu trabalho nos hospitais de Gaza, assistiram crianças até aos 15 anos com ferimentos de bala na cabeça ou no peito. Segundo a estimativa mais conservadora, assistiram 114 crianças com estes ferimentos, a maioria das quais faleceu.
O jornal falou com 17 médicos e uma enfermeira dos EUA, e também do Reino Unido, Austrália, Canadá e Holanda que trabalharam em seis hospitais e quatro clínicas em Gaza desde outubro de 2023. Quinze deles disseram ao de Volkskrant que trataram pelo menos 114 crianças até aos 15 anos com um único ferimento por arma de fogo na cabeça ou no peito. A maioria destas crianças morreu em consequência desses ferimentos. Os casos foram documentados entre o final de 2023 e meados de 2025 em 10 diferentes hospitais ou centros de saúde.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”
Um dos médicos, o cirurgião de trauma norte-americano Feroze Sidhwa, recordou o seu primeiro dia no Hospital Europeu de Gaza, em março de 2024, onde encontrou quatro rapazes com menos de 10 anos com ferimentos idênticos na cabeça num intervalo de 48 horas.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”, disse ao jornal o Dr. Feroze Sidhwa. Nos 13 dias seguintes, assistiu mais nove crianças com ferimentos semelhantes.
Testemunhas oculares disseram aos médicos que os projéteis provinham principalmente de atiradores de elite ou drones do Exército israelita (IDF).
Os médicos entrevistados enfatizaram que tais ferimentos dificilmente seriam acidentais. Peritos forenses consultados pelo jornal disseram que o padrão uniforme sugeria disparos direcionados, possivelmente por franco-atiradores ou drones.
Isso mesmo foi corroborado pelo antigo comandante das forças terrestres holandesas, Mart de Kruif, que afirmou que a probabilidade de terem sido disparos acidentais é insignificante, dado que os médicos descreveram mais de uma centena de casos.
O primeiro-ministro israelita, Netanyahu, e as chefias militares têm negado que os soldados estejam a atacar deliberadamente civis palestinianos. No entanto, soldados anónimos têm admitido repetidamente o contrário ao jornal israelita Haaretz.
Os médicos citados também descreveram o dilema moral que enfrentam: se falarem abertamente, podem ser impedidos de regressar a Gaza. Segundo a ONU, Israel negou a entrada a mais de 100 profissionais de saúde internacionais desde março de 2025, sem uma explicação detalhada.
Nota: este texto foi elaborado pelo Maio tendo como fontes, além do já mencionado artigo de de Volkskrant, outros media internacionais como a Al Jazeera, a BBC, The Guardian e a Reuters.
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Nos últimos tempos, o presidente espanhol é tido como uma “voz progressista” face ao avanço da extrema-direita. As suas declarações a favor do povo palestiniano, discursos pelo “Não à guerra” e medidas como a regularização de milhares de migrantes tiveram impacto internacional. Compreende-se que, ante a ofensiva belicista de Trump e Netanyahu e as políticas de direitistas como Milei, o discurso de Sánchez desperte simpatia. No entanto, por detrás do seu discurso, espreita a gestão “progressista” do Estado capitalista e imperialista espanhol. Um projeto que, repetidamente, terminou em profundas deceções e preparou o terreno para o crescimento da extrema-direita.
Enquanto Sánchez colhe aplausos em fóruns internacionais, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol, força hegemónica do governo de coligação) acumula os seus piores resultados eleitorais em várias regiões. Recentemente, a indiciação do ex-presidente socialista José Luis Rodríguez Zapatero — chefe do Governo espanhol entre 2004 e 2011 — abalou o Governo, atingindo um dos aliados de Sánchez. O processo judicial investiga alegados crimes de tráfico de influências, branqueamento de capitais e organização criminosa relacionados com os apoios públicos concedidos à companhia aérea Plus Ultra durante a pandemia. O facto de a direita instrumentalizar o processo judicial para fins políticos não isenta Zapatero das suas responsabilidades, uma vez que este teria obtido benefícios económicos e pessoais durante o seu mandato governamental. O “caso Zapatero” revela o carácter de casta das elites políticas, tenham elas discurso progressista ou liberal.
Enquanto Sánchez vai tentando “cavalgar” a crise da sua coligação governamental, multiplicam-se as greves em massa no sector do ensino por todo o Estado espanhol, de Valência à Catalunha e a Aragão. Para setembro, espera-se um Outono quente no ensino, com novas greves por tempo indeterminado convocadas em Madrid e noutras regiões, lado a lado com outros sectores da saúde e serviços públicos. Passamos em seguida em revista a política do governo progressista em matérias fundamentais para a vida da classe trabalhadora: guerra, migrações, habitação e condições de trabalho.
O “Não à guerra” e os maiores orçamentos militares da história
Em março de 2026, em plena ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, Pedro Sánchez retomou o “Não à guerra” das grandes mobilizações de 2003 contra a invasão do Iraque. Uma verdadeira “usurpação” dessa palavra de ordem por parte de Sánchez, se considerarmos que foi o PSOE que levou a Espanha a aderir à NATO — após a famosa reviravolta de Felipe González no referendo de 1986, depois de ter prometido o contrário — e é o PSOE que hoje aumenta as despesas militares e o controlo das fronteiras.
O anúncio de que as bases norte-americanas em território espanhol não poderiam ser utilizadas para a operação dos EUA contra o Irão provocou uma reação furiosa de Trump. Mas entre a retórica de Sánchez e a realidade há uma grande distância. Primeiro, as bases já tinham servido para o início da Operação Fúria Épica (Epic Fury), com vários aviões de transporte e reabastecimento a partir de lá antes de a proibição ser formalizada. Mas há mais: enquanto fala de “não à guerra”, este Governo aumentou os orçamentos militares mais do que qualquer outro na história.
De acordo com o relatório do Centre Delàs — centro de estudos antimilitaristas com sede em Barcelona — intitulado “As despesas militares e o rearmamento da Espanha em 2025”, as despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB. São mais de 7 mil milhões acima dos 33 123 milhões que o Governo admite oficialmente, cujo cálculo omite rubricas militares dispersas por vários ministérios. O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) confirma um aumento de 50% num único ano: o maior salto da história recente do Estado espanhol, que entra assim no top 15 mundial dos países com maior despesa militar.
As despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB.
Este “progressismo militarista” concretiza-se no Plano Industrial e Tecnológico para a Segurança e a Defesa, anunciado por Sánchez em abril de 2025: injetou 10 471 milhões de euros extraordinários para antecipar a meta de 2% do PIB que a NATO tinha fixado para 2029. E fê-lo sem o submeter a votação parlamentar, aproveitando a prorrogação do Orçamento Geral do Estado de 2023. De onde vem o dinheiro? Em grande parte, de fundos europeus de reconstrução social e de verbas não executadas de outros ministérios. A isto acrescenta-se o compromisso plurianual em armamento. O próprio Centre Delàs calcula que, com estes compromissos, a despesa aproximar-se-á dos 3% do PIB nos próximos anos. Entretanto, os orçamentos da saúde, da educação e dos serviços públicos encontram-se sempre muito aquém das necessidades sociais.
Tal como denuncia a Assembleia Internacionalista de Madrid, uma iniciativa que reúne diversas organizações da esquerda do Estado espanhol, entre as quais a CRT: “Os recursos multimilionários que não serão destinados nem a escolas nem a hospitais serão utilizados para aumentar a militarização das fronteiras contra os migrantes, reforçar os interesses do imperialismo espanhol e aprofundar a pilhagem de outros povos do mundo. É no calor desta política que se fortalece a extrema-direita e o seu discurso reacionário.”
Palestina: entre o gesto e a realidade
O reconhecimento do Estado palestiniano pelo Governo espanhol — em conjunto com a Irlanda e a Noruega — e os confrontos diplomáticos com Telavive foram mais longe do que a média europeia. Respondem à pressão de milhões de pessoas que saíram às ruas em defesa da Palestina durante os mais de dois anos decorridos desde o início da ofensiva israelita sobre Gaza, em outubro de 2023; à força do movimento de solidariedade, aos acampamentos estudantis, a iniciativas como a Global Sumud Flotilla, que partiu de Barcelona em várias ocasiões, e ao ativismo massivo que chegou a travar nas ruas a Volta a Espanha em bicicleta, em repúdio pela participação de uma equipa israelita.
Mas entre a retórica e a realidade há, mais uma vez, um abismo. O “embargo de armas” a Israel revelou-se uma farsa: durante meses continuaram a ser autorizadas exportações, escalas de navios com material militar israelita em portos espanhóis e contratos com empresas israelitas do setor da defesa. A rutura formal das relações com Israel nunca chegou a ocorrer, nem mesmo nos piores momentos do genocídio em Gaza.
A crise da habitação no cerne da desigualdade
A questão da habitação é talvez o exemplo mais claro dos limites do governo progressista. Após seis anos de governos de coligação — primeiro com o Unidas Podemos, depois com o Sumar (a coligação à esquerda do PSOE liderada pela vice-presidente Yolanda Díaz) — não houve uma única reforma estrutural no domínio da habitação. Um trabalhador com um salário médio destina atualmente entre 45% e 60% do seu rendimento ao pagamento da renda, valor que, em muitos casos, é amplamente ultrapassado — uma situação em que o leitor português se reverá sem dificuldade. Entretanto, dez grandes senhorios acumulam cerca de 200 000 habitações para fins especulativos. Medidas tão elementares como a expropriação dos grandes senhorios, a proibição dos despejos e o teto às rendas de casa poderiam começar a dar resposta à crise habitacional. Mas o governo progressista não tem qualquer intenção de enfrentar o capital imobiliário nem os bancos.
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Migração: regularização e Lei dos Estrangeiros
Outra área em que o progressismo tenta angariar simpatias é a migratória. A regularização extraordinária aprovada a 15 de abril foi apresentada como o caminho oposto ao endurecimento racista dos governos europeus. E é preciso dizê-lo claramente: é uma conquista, mas não do governo, e sim do movimento em defesa dos imigrantes que há anos se mobiliza, recolhe assinaturas, apresenta iniciativas e sustenta a luta por documentos para todos. Vale a pena recordar, além disso, que governos de outras tendências políticas também realizaram regularizações semelhantes no passado. No entanto, a regularização tem prazos inferiores a três meses, exige a comprovação da ausência de antecedentes criminais e acarreta outras limitações, pelo que muitas pessoas ficarão de fora. Entretanto, os Centros de Internamento de Estrangeiros (CIE) continuam abertos, e todos os anos morrem milhares de migrantes ao tentarem atravessar o Mediterrâneo. Por sua vez, o Estado espanhol assinou e apoiou ativamente o Pacto Europeu sobre Migração e Asilo, uma das peças mais reacionárias da arquitetura migratória da UE, que generaliza a detenção na fronteira, externaliza o controlo para regimes autoritários e endurece os procedimentos de asilo.
Quebrar o ciclo de frustrações
Perante a ascensão da extrema-direita, muitos apresentam a coligação progressista do governo espanhol como um “mal menor” ou uma barreira de contenção face às opções de direita (o conservador Partido Popular, PP, e a extrema-direita do Vox). Uma estratégia que foi alimentada por partidos como o Podemos, inicialmente, e o Sumar, posteriormente, com a sua participação ministerial em governos de gestão capitalista. Ao mesmo tempo, as burocracias sindicais maioritárias — CCOO (Comissões Operárias) e UGT (União Geral dos Trabalhadores), as duas grandes centrais do Estado espanhol — garantiram uma longa “paz social”: não se convoca uma greve geral desde 2012, quando milhões se mobilizaram contra a reforma laboral do PP.
No entanto, os contrastes entre os discursos e a realidade geram muitas frustrações e mal-estar social. O crescimento do PP e do Vox em várias eleições regionais, como as recentes eleições na Andaluzia, mostra que a direita procura canalizar esse descontentamento. A queda do PSOE para um nível abaixo do seu “mínimo histórico” na Andaluzia não é insignificante, considerando que se trata de uma região onde, historicamente, teve um dos seus bastiões eleitorais: governou a comunidade ininterruptamente desde 1982 até 2018.
Mas o avanço da direita não é a única perspetiva possível. Nas últimas semanas, multiplicaram-se as greves no setor da educação na Catalunha, Valência, Aragão e Madrid: centenas de milhares de professores, juntamente com famílias e estudantes, exigem aumentos orçamentais, melhores condições de trabalho e melhores condições para o ensino público. Na Catalunha, onde governa o PSC (Partit dels Socialistes de Catalunya, federado com o PSOE de Sánchez), as trabalhadoras da educação votaram contra um acordo assinado pelos sindicatos maioritários. Lá observam-se tendências para formas de organização democrática em assembleia, com métodos combativos como bloqueios de ruas e avenidas. A coordenação das lutas, a exigência de uma greve geral dos serviços públicos e o desenvolvimento da auto-organização são o caminho para enfrentar tanto o governo progressista como os governos de direita — como os do PP, em alguns casos com o apoio do Vox, em Madrid ou Valência. Para desenvolver as tendências da luta de classes e evitar cair em novas armadilhas do “mal menor”, é mais do que nunca necessária uma esquerda que levante um programa de independência de classe, para que a crise seja paga pelos capitalistas.
Tradução de Octávio Lima.
ilustração: Mantraste
Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam1 de terra custa hoje cerca de 100 shekels, quanto irá custar um bidão de azeite? Quem o comprará?”, exclama.
ilustração: Mantraste
Eyad Yousef é um agricultor palestiniano da aldeia de Taybeh, a leste de Ramallah. Também é mecânico de automóveis e pai de três filhos. Todos os anos, na Primavera, com os irmãos, planta ervilhas, lentilhas, pepinos, cebolas e outras culturas sazonais. Mas este ano é diferente.
Eyad já não trabalha a sua própria terra, inacessível devido à ameaça dos colonos israelitas, que patrulham constantemente a planície a leste da aldeia. Já nenhum proprietário de terras em Taybeh consegue aceder à sua propriedade.
“Este ano arrendei a terra de outra pessoa, mas não é que seja um contrato escrito, é só um acordo verbal”, explica Eyad. “Se, a qualquer momento, o proprietário decidir vender a terra, perco o que investi.”
Apesar disso, Eyad continua com a sua lavoura sazonal. “É o meu oxigénio.”
Desde Outubro de 2023, aumentaram exponencialmente, em número como em violência, os ataques de grupos de colonos israelitas a agricultores palestinianos na Cisjordânia.
Para muitos agricultores, é um duríssimo golpe à sua subsistência e modo de vida. Mas o impacto não se limita aos agricultores; está-se a desfigurar e dizimar parte substancial da economia palestiniana e um pilar das famílias rurais. Numa época em que os pogroms dos colonos nos campos aterrorizam os palestinianos, os agricultores têm estado na linha da frente da violência crescente.
Segundo o Centro de Informação Palestiniano, grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. O Gabinete de Coordenação Humanitária das Nações Unidas (OCHA) indica que, só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia. Mesmo quem não foi directamente afectado sente o efeito cumulativo da ofensiva, que se reflecte directamente no aumento dos preços dos produtos agrícolas.
Grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. Só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia.
Nem sempre foi assim. Os agricultores constituíam outrora a espinha dorsal da economia palestiniana. Sociedade historicamente agrária, a Palestina foi descrita, em 1887, pelo viajante britânico Lawrence Oliphant como “um lago verde de trigo ondulante”. Hoje a maior parte do trigo usado para fazer o pão consumido pelos palestinianos é importado. Uma transformação que é fruto de um historial de cada vez maiores pressões exercidas pelo colonialismo israelita sobre sucessivas gerações de agricultores palestinianos.
“Fui agricultor toda a vida”, diz Eyad. “Comecei a trabalhar na terra do meu pai, perto da colónia de Rimunim, a sudeste da aldeia; plantávamos trigo e cevada, de que a minha mãe fazia o nosso pão caseiro. Os meus irmãos e eu crescemos com o pão da terra.”
“Do ano 2000 em diante, esta terra ficou-nos inacessível”, recorda, “quando os colonos israelitas começaram a patrulhar no campo, que fica mesmo ao lado da colónia.” Ergue os olhos, como se estivesse a lembrar-se de algo. “Para dizer a verdade, lembro-me da construção da própria colónia, quando era miúdo, em 1979”, continua. “Lembro-me de que a nossa família perdeu uns 20 dunams, entre terras tomadas pela colónia e as que nos foram ficando progressivamente inacessíveis.”
À medida que o acesso às terras agrícolas se ia fechando, os agricultores palestinianos e os beduínos começaram a partilhar a terra disponível, entreajudando-se para tentarem manter a presença. Há oito anos, Eyad começou a ceder a parte da sua terra situada ao lado do assentamento a uma família beduína, que ali vivia e apascentava o seu rebanho, apesar do assédio crescente dos colonos israelitas.
“Sempre que podia ir à minha terra e trabalhá-la, também trabalhava a terra do meu vizinho”, explica Eyad, descrevendo a antiga prática rural palestiniana de entreajuda, o ‘auneh’. “Quando o meu vizinho ia à terra dele, também cuidava da minha. Se eu lavrava a terra deles, eles vinham ajudar-me na colheita; entretanto, os beduínos tiravam proveito de parte da terra e vigiavam o resto”, continua.
Chegou, entretanto, Outubro de 2023, e até as famílias beduínas foram expulsas. Na altura, Eyad não pensou que se viria a ver na mesma situação que os beduínos que tinham usado a sua terra.
“No ano passado, os colonos israelitas começaram a aproximar-se cada vez mais da zona urbana de Taybeh, e as nossas terras agrícolas mais próximas ficaram mais perigosas de frequentar e trabalhar”, diz Eyad. Quando lhe pergunto o que aconteceu da última vez que tentou ir a essa sua terra, ele faz uma pausa. “A última vez que lá fui foi há seis meses. Três colonos israelitas chegaram de carro, um deles armado, disse-me que me fosse embora. Disse que aquela terra já não fazia parte de Taybeh.”
1. Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah; 2. Azeitonas no mercado de Ramallah, 2022; 3. Eyad Yousef no seu campo de ervilhas.
Eyad Yousef no seu campo de ervilhasAzeitonas no mercado de Ramallah, 2022Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah
Quando chegou a Primavera, Eyad e os irmãos tiveram de encontrar uma solução para a temporada agrícola. Decidiram arrendar a mesma terra onde a família beduína se instalara depois de os colonos os terem expulsado da terra de Eyad, dois anos antes. “Primeiro falámos com os beduínos, depois com o proprietário, e dividimos a terra: os beduínos plantaram cevada para o gado em metade da parcela, e nós usámos a outra metade.”
Em cerca de dois dunams de terra, duas famílias palestinianas praticam agora agricultura sazonal e criação de gado. Toda a vida agrícola da região ficou confinada a um pequeno espaço, de onde se avistam os postos avançadas dos colonos, implantados nas colinas vizinhas — as colinas onde Eyad outrora lavrava a sua terra, lado a lado com os beduínos, que ali apascentavam os rebanhos.
Em certo sentido, partilham a perda. Entretanto, continuam a apoiar-se mutuamente na defesa do seu modo de vida e da sua relação com a terra. Os agricultores e os beduínos, os habitantes do campo palestiniano desfigurado, são, uns para os outros, os únicos apoios que têm ante um projecto colonial dotado de recursos infinitos e da impunidade que a maior parte do mundo ocidental lhe concede.
Além de Taybeh, a dinâmica repete-se em toda a Cisjordânia. Jamal Jumaa, responsável pela campanha popular Stop The Wall, diz à Hara 36 que “a dinâmica da expansão dos colonatos israelitas desde Outubro de 2023 é a mesma em todo o lado e obedece a um modelo claro.”
O modelo, como explica Jumaa, consiste em “conseguir fazer na Cisjordânia o mesmo que se fez em Gaza na década de 90.” Nos anos que se seguiram aos Acordos de Oslo, o Exército israelita transformou a maior parte das terras agrícolas de Gaza, situadas na periferia da Faixa, em zonas militares. Os palestinianos de Gaza acabaram confinados às zonas urbanas. Após a retirada israelita em 2005, Gaza ficou isolada, transformada em prisão a céu aberto, sem meios de subsistência.
“Na Cisjordânia, a primeira vítima desta violenta expansão colonial foi a pecuária”, explica Jumaa. “As famílias beduínas e os aldeões que criam gado já perderam as pastagens ou estão a perdê-las.”
Já se sente o efeito nos mercados locais, acrescenta Jumaa, o preço da carne fresca duplicou desde 2023. “A próxima coisa a ser arruinada é a produção de azeitonas”, continua.
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A produção de azeitonas e azeite é o sector agrícola mais importante da Palestina, sustentando a subsistência de cerca de cem mil famílias. A colheita anterior a 7 de Outubro permitiu produzir 23 mil toneladas de azeite, em 2022, número que caiu drasticamente para 10 mil toneladas em Outubro de 2023, coincidindo com a época da colheita. No ano passado, este valor diminuiu ainda mais, atingindo 8 mil toneladas. A ONU entende que a forte queda se pode atribuir ao efeito combinado de confiscações sistemáticas de terras, violência dos colonos, restrições militares israelitas e factores climáticos.
“Por isso a manutenção dos olivais se tornou tão dispendiosa”, explica Eyad. “Arar um olival enquanto os colonos rondam passou a ser um trabalho de risco.”
As actividades dos colonos são concertadas com o Exército israelita, que utiliza o arranque de oliveiras como ferramenta de “dissuasão” e punição colectiva em resposta a ataques contra colonos e soldados. Em Agosto de 2025, divulgadas informações de que um colono israelita fora atacado por um palestiniano perto da aldeia de al-Mughayyir, o Exército israelita arrasou mais de 10 mil oliveiras na aldeia, como represália e acção de “dissuasão” contra os habitantes.
Eyad continua a colher ervilhas. Deita as últimas vagens para o balde. Cala-se, visivelmente afectado pelo seu próprio depoimento. “Se as coisas continuarem assim, vamos acabar por importar azeite de Espanha”, acrescenta, pegando num punhado de ervilhas e levantando-as com um suspiro. “Só as sementes para produzir estas ervilhas custam 250 shekels. Para os recuperar, tenho de vender 25 quilos.”
Vai-se afastando da parcela. A jornada de trabalho terminou. Quando chega ao confim, vira-se. Reflecte no que acaba de fazer.
“Sabes o que ganho com esta safra de ervilhas? Umas trinta a quarenta refeições para a família. Poupava mais não comprando ervilhas do que a vendê-las”, atira, com sarcasmo.
Está o sol do meio-dia no zénite, Eyad regressa à oficina de reparação automóvel — a versão de Eyad do “segundo emprego” de cada agricultor palestiniano. Agradeço-lhe por ter falado comigo e embarco num mini-autocarro em direcção a Ramallah, centro comercial da Cisjordânia, onde se presume invisível o cheiro do campo palestiniano mortificado pelos colonos.
Chegado ao centro da cidade, saio da estação de transportes públicos e avisto um casal de idosos à beira do passeio. Sentados em cadeirinhas, têm à frente vários baldes de plástico cheios de favas verdes acabadas de colher, ainda na vagem. Aproximo-me e pergunto-lhes de onde vem o produto.
“Somos de Sinjil, a aldeia que o Exército israelita cercou completamente de arame farpado”, responde o homem. A mulher intervém: “As ervilhas estão a 10 shekels o quilo, um pouco mais caras do que no ano passado.” Ela parece quase desculpar-se, mas não o suficiente para esconder a exasperação. “Só que este ano, vamos ter de pagar renda pela terra.”
Vira-se para o marido como se se lembrasse de alguma coisa e comenta: “Sabes quanto vai custar um galão de azeite este ano? E alguém o quererá comprar?”
1 O dunam é a unidade de medida de superfície otomana, na Palestina equivalente a 1 km².
No dia 28 deste mês. A Justiça Federal de São Paulo condenou José Maria de Almeida, presidente do PSTU, partido legal brasileiro, a dois anos de detenção pelo suposto crime de racismo contra os judeus num ato público realizado na Avenida Paulista de São Paulo, em outubro de 2023.
As alegações para tal se baseiam no facto de que teria sido uma incitação contra todos os judeus, tanto do Brasil como de Israel.
Waldo Mermelstein, cidadão brasileiro e judeu de uma família oriunda do Leste da Europa vítima do holocausto, defende aqui Zé Maria e enquadra as perseguições que estão a ser feitas contra ativistas defensores dos Palestinianos, acusados de “antissemitismo”.
Waldo Mermelstein
A razão para tal é que ao denunciar as políticas sistematicamente discriminatórias contra os palestinos, estaria colocando em risco os judeus.
Em primeiro lugar, qual a razão desta ofensiva contra destacados opositores da política do Estado de Israel contra os Palestinos?
O fundamental é que após o ataque do Hamas contra Israel em 2023, o Estado sionista (como ele próprio se declara) lançou uma ofensiva militar bárbara contra a Faixa de Gaza, que destruiu propositalmente toda a infraestrutura para a vida dos Palestinos que ali habitam. Mais de 70 mil mortos, em sua maioria crianças (além de um número bem maior de vítimas não contabilizadas.
Quando do ataque do Hamas a Israel, entre algumas das primeiras reações lúcidas esteve a do secretário-geral da ONU, António Guterres, que recordou o que corretamente denominou de o contexto em que ocorreu. Em primeiro lugar, em sua declaração de 24 de outubro de 2023 em reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, disse que o ataque do Hamas “não aconteceu no vácuo”, mas sim no contexto de 56 anos de ocupação sufocante, com a ocupação contínua de territórios e a expansão de colonatos.
De uma forma mais concreta, o veterano jornalista do jornal israelita Haaretz Gideon Levy declarou à imprensa: “[os habitantes de Gaza] foram colocados por Israel durante 17 anos em uma jaula, o que vocês queriam que eles fizessem?” (referindo-se ao facto de Gaza ser totalmente cercada e dominada por mar, ar e terra desde 2006 e de Israel controlar até as quantidades de calorias que entram na dieta dos Palestinos).
Mas, com a visão da História, é importante alargar o panorama que levou à situação atual:
O sionismo é uma ideologia (e depois uma corrente política e, depois da criação do Estado de Israel, a ideologia do Estado, em suas versões de “esquerda” e direita, como o atual primeiro-ministro Netanyahu.
A Palestina tem sido habitada desde há vários séculos pelos seus habitantes originários, os árabes palestinos. A ideia do sionismo era que, para escapar do antissemitismo, os judeus deveriam emigrar para a Palestina, que supostamente estaria vazia (Daí o bordão sionista, “uma terra sem povo para um povo sem terra”.)
Por supostas razões bíblicas reivindicavam o direito de implantar seu Estado. Para facilitar a obra começaram uma ação de organização dos imigrantes em uma estrutura separada dos habitantes locais. Sob a proteção do Reino Unido, que de 1921 em diante tinha o Mandato da Liga das Nações para a Palestina e em 1948, sentiram que havia uma oportunidade única pelo contexto do Holocausto. Em uma fatídica sessão, a Assembleia da recentemente criada ONU aprovou a partilha do território, outorgando 55% (e as melhores terras) para o 1/3 de judeus que lá moravam. Por alguns anos essa votação foi possível na ONU, antes da entrada de dezenas de novos países com a libertação nacional em particular na África. Assim que foi votada a criação de Israel, os sionistas, então majoritariamente de “esquerda” (as aspas se devem a que não faz sentido um colonialista se declarar de esquerda e ser adepto de um projeto de um colonialismo de povoamento, em que além de dominarem a população local e o território cobiçado, queriam criar uma nova pátria). Não é um caso único, apesar das especificidades, mas os exemplos dos EUA, da Austrália e da Argélia oferecem formas similares, mas não, obviamente, idênticas.
A criação do novo Estado deu a grande oportunidade: as milícias sionistas realizaram a limpeza étnica de mais de 2/3 da população local e dominaram 78% do território da Palestina. E incumpriram uma resolução da ONU nunca revogada em que se declarava o direito absoluto a voltarem para suas terras e propriedades. Gaza é composta em 80% por refugiados palestinos. Após muitos anos negando esse facto, já começou a se formar um novo consenso de que houve uma expulsão planejada pelos sionistas. Devemos essa versão aos ativistas e historiadores palestinos e, depois, aos chamados “novos historiadores” em Israel, como Ilan Pappe e Avi Schlaim, que dissecaram o tema, inclusive em livros traduzidos para português.
O segundo passo foi o de moldar o novo Estado: ele seria um estado “judaico”, sem dar direitos iguais aos Palestinos. Foi votada uma “lei do retorno”, que permitia a qualquer judeu do mundo migrar para Israel, ao mesmo tempo que os mais de 750 mil palestinos expulsos poderiam fazê-lo1. Nos primeiros 19 anos estes foram dirigidos por um governo militar. Em 1956, Israel se configurou como o aliado mais fiável do imperialismo americano e ocidental no Oriente Médio. Um exemplo gritante disso foi a guerra conjunta com Inglaterra e França em 1956 contra o Egito de Gamal Abdel Nasser, que havia nacionalizado o canal de Suez. Em 1967, Israel se aproveita do erro de cálculo de Nasser de ameaçar Israel sem ter condições para tal e, como o apoio decisivo dos EUA, ocupam toda a Palestina. Desde então, os habitantes desses territórios vivem sob um regime abertamente discriminante: centenas de milhares de colonos ilegais se estabeleceram especialmente na Cisjordânia e em Jerusalém, destruindo qualquer possiblidade de uma solução injusta de dois Estados. Injusta porque permite que Israel fique com a maioria da Palestina, perante um Estado palestino desarmado e incapaz de funcionar.
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Pouco a pouco, o regime interno de Israel em relação aos Palestinos foi se tornando cada vez mais cruel. São os tempos do Muro da Vergonha na Cisjordânia, do bloqueio total de Gaza e da opressão cada vez maior dos palestinos de Israel propriamente. Exemplos disso são a lei da nacionalidade que decreta que o direito de autodeterminação em Israel é privativo dos judeus, que o único idioma oficial é o hebraico e que os colonatos judaicos nos territórios ocupados são um valor nacional e que deve ser promovido. Na verdade, codifica uma situação já existente, mas sempre é importante a formalização.
E isso nos leva às razões da perseguição e condenação de Zé Maria.
Em maio de 2016, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto (IHRA em sua sigla em inglês) adotou uma definição de antissemitismo que, infelizmente, foi adotada por muitos países e que declara que as críticas a Israel são uma forma de antissemitismo. Esta definição está sendo utilizada para impedir a ação e atemorizar os ativistas pró-palestinos.
Nesse contexto, surgem em muitos países causas judiciais e perseguição policial contra os que se solidarizam com a Palestina. Por exemplo, Jeremy Corbin, que foi ostracizado no Partido Trabalhista na Inglaterra com a falsa acusação de conivência com ações antissemitas.
No Brasil, já tivemos dois casos muito comentados, o ataque a Milton Temer e Breno Altman, ambos terminados sem condenação.
A agressão israelense a Gaza mudou muito o cenário da solidariedade com os Palestinos, em particular na Europa e nos EUA. Imensas manifestações na Inglaterra, greves gerais na Itália e na Espanha e um grande movimento nos EUA, inclusive pela maior comunidade judaica fora de Israel, em particular entre os jovens.
Tudo isso torna o sionismo mais agressivo. Dois exemplos recentes demonstram isso:
o sequestro da flotilha Global Sumud de ajuda humanitária para Gaza em águas internacionais próximas à Grécia, onde foram submetidos a violência extrema por 40 horas. Foram entregues ao Governo grego, onde foram submetidos à ação da polícia que quer deportá-los. Mais: dois dos ativistas foram levados para interrogatório em masmorras sionistas, Thiago Ávila (brasileiro) e Saif Abukeshekd, de origem palestina e que conta com nacionalidade espanhola e sueca, o que mostra a agressividade com qualquer movimento de solidariedade. Em resposta, já houve dezenas de manifestações na Itália contra esta violência. Para ler-se um relato oficial da Flotilha consultar: https://www.laizquierdadiario.com/Israel-libera-a-la-mayoria-de-los-secuestrados-de-la-Flotilla-a-Gaza-pero-mantiene-como-rehenes-a
A segunda mostra de agressividade inaudita mesmo para os sionistas é a lei que permite que haja uma diferenciação na punição de supostos crimes de sangue realizados por palestinos dentro de Israel e nos territórios palestinos ocupados, destinado a pena de morte por enforcamento. Esse é um retrato do apartheid a que são submetidos os palestinos. Essa agressividade derivada da efetividade do apoio mundial à solidariedade contra o apartheid e o genocídio é o que explica que agora busquem condenar Zé Maria por um crime que não cometeu.
É importante entender de quem estamos falando. Conheço o Zé Maria desde 1977, quando ele tinha 18 anos e fora preso por um mês por distribuir um panfleto convocando o Primeiro de Maio e foi submetido a fortes torturas que só cessaram quando o movimento estudantil saiu às ruas pela primeira vez desde 1968 e conquistou sua libertação e dos seus companheiros/as presos/s.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Depois disso, Zé Maria se transformou em parte da história da luta contra a ditadura e do movimento operário. Em 1979, no Congresso estadual do estado de São Paulo, na cidade de Lins, foi ele quem apresentou a moção aprovada por só um voto contrário, de um dirigente do PCB, para a criação de um partido de trabalhadores, que foi adotada pelo chamado Novo Sindicalismo, liderado por Lula e outros dirigentes.
Seguindo sua peregrinação militante, Zé Maria era um dos dirigentes da Oposição Sindical e se tornou dirigente dos metalúrgicos de Belo Horizonte e dirigiu a greve com ocupação e gestão operária por 10 dias (para evitar danos à maquinaria). E de lá para cá seguiu militando no movimento dos trabalhadores e desde alguns anos como dirigente do PSTU.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Como judeu, antissionista desde 1973, considero esta luta fundamental e que não tem nada a ver com antissemitismo, nem racismo, porque não ataca os judeus por serem judeus, mas os sionistas, sejam eles judeus ou parte da imensa legião de cristãos sionistas, embora a sentença tenha ignorado este facto, argumentando equivocadamente que ele fez ataques aos judeus do mundo. E aceita a alegação de que Israel fala pelos judeus. Eu e muitos outros judeus dizemos sempre: “Não em nosso nome.”
1 A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 194, ditando que "os refugiados que desejem retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais cedo possível, e que uma compensação deve ser paga pelos bens daqueles que optam por não retornar e pela perda ou dano à propriedade que, de acordo com os princípios do direito internacional ou da equidade, deve ser cumprida pelos governos ou autoridades responsáveis.
Se os maiores cineastas e artistas do nosso tempo não se conseguem levantar para dizer que o que tem acontecido em Gaza, o que está a acontecer em Gaza é um genocídio do povo palestiniano pelo Estado de Israel, saibam que a história os julgará.
In Which Annie Gives It Those Ones (“De como a Anita lhes mostra como é”), um filme algo esdrúxulo que escrevi há 38 anos, foi seleccionado para exibição na secção “Clássicos” da Berlinale 2026 (o festival de cinema de Berlim). Senti-o um pouco como um acto de ternura, uma maravilha.
Embora as posições que têm sido tomadas pelo Governo alemão e por várias instituições culturais alemãs sobre a Palestina me tenham perturbado profundamente, tenho sempre sentido solidariedade política ao expor a públicos alemães a minha opinião sobre o genocídio em Gaza. Isso permitia-me pensar em assistir à exibição de Annie na Berlinale.
Esta manhã, ouvi, tal como milhões de pessoas em todo o mundo, as inconcebíveis declarações de membros do júri do festival de cinema de Berlim quando lhes pediram que comentassem o genocídio em Gaza. Ouvi-los a dizer que a arte não deve ser política é de deixar qualquer um de boca aberta. É calar a discussão de um crime contra a humanidade que está a ocorrer à frente dos nossos olhos, ao vivo – quando os artistas, escritores e cineastas deviam estar a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para pará-lo.
Ouvi, tal como milhões de pessoas em todo o mundo, as inconcebíveis declarações de membros do júri do festival de cinema de Berlim quando lhes pediram que comentassem o genocídio em Gaza.
Vou dizer isto com toda a clareza: o que tem acontecido em Gaza, o que está a acontecer em Gaza, é um genocídio do povo palestiniano pelo Estado de Israel. É apoiado e financiado pelos governos dos Estados Unidos e da Alemanha, assim como por vários outros países da Europa, o que faz deles cúmplices do crime.
Se os maiores cineastas e artistas do nosso tempo não se conseguem levantar para dizer isto, saibam que a história os julgará. Eu fico chocada e enojada.
É com profundo pesar que me vejo obrigada a dizer que não comparecerei na Berlinale.
Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias
A Acumulação do Capital: Uma Contribuição à Teoria Econômica do Imperialismo, de Rosa Luxemburgo, foi publicado em 1913 às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Suas avaliações críticas ao colonialismo e ao imperialismo não estavam apartadas da sua própria experiência como uma judia crescendo na Polónia ocupada pela Rússia, ela estava pessoalmente consciente dos impactos da dominação colonial.
Já nos seus primeiros trabalhos, esteve comprometida com a denúncia de como o extermínio dos povos indígenas e a interferência do capitalismo euro-americano nas formações sociais do mundo não ocidental não eram um acidente ocasional da acumulação de capital, mas sua própria base. Faz parte do capitalismo eliminar as economias pré-capitalistas, autossuficientes e não monetárias, transformando-as em ferramentas para acumulação de capital. Para tanto, faz uso de métodos como violência, fraude e até mesmo de genocídios.
Nesse sentido, embora motivações ideológicas facilitem o processo, o imperialismo é impulsionado pelas engrenagens do próprio capital, e por isso é viabilizado tanto em formas autoritárias de governo, quanto em “democracias” capitalistas.
“Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.”
Maria Mies, uma das primeiras feministas a analisar sistematicamente o papel das mulheres no capitalismo com base na estrutura de Rosa Luxemburgo, em seu livro Patriarcado e acumulação em escala mundial, aplica a teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo às mulheres, ao seu trabalho e à família.
A abordagem de Mies traça paralelos entre o trabalho feminino e o trabalho não remunerado de camponeses, colónias e outros “meios não capitalistas”, que Luxemburgo descreveu como sendo explorados “gratuitamente”, de forma semelhante à natureza. Maria Mies não vê o patriarcado e o capitalismo como sistemas separados, antes compreende que eles formam uma única entidade: o patriarcado capitalista. Por isso, para ela a subjugação das mulheres não se deve à misoginia masculina inerente, mas sim a uma necessidade estrutural para a acumulação de capital. Assim como Rosa Luxemburgo via a acumulação primitiva como intrínseca ao capitalismo, Mies afirma que o capitalismo não pode funcionar sem o patriarcado, visto que a acumulação contínua de capital requer a manutenção ou a criação de relações de género patriarcais e/ou coloniais.
Se Mies vê o patriarcado como expressão intrínseca da acumulação primitiva, também é verdade que os sujeitos dentro de um estado de exceção estão a mercê da mesma lógica da acumulação primitiva. Nesse sentido, os corpos racializados e colonizados de Gaza encontram-se em posição equiparada de exploração. Se em certo contexto histórico de superexploração, trabalhavam para empresas israelitas como forças de reservas para baixarem os salários, agora são expulsos do próprio território para aumentarem o valor de exploração.
No livro Pele Negra, máscaras brancas Frantz Fanon argumentou que a crescente conscientização dos trabalhadores em países colonizadores e racistas – levou a uma evolução no conceito de raça. Se o racismo vulgar e biológico correspondia ao período de exploração bruta do trabalho físico, onde a subjugação e a desumanização dos escravizados eram justificadas por hierarquias raciais pseudocientíficas, à medida que os meios de produção se tornaram mais avançados, as técnicas de exploração — e as formas de racismo — tornaram-se mais dissimuladas. A distinção colonial/racial entre civilização e barbárie evoluiu para uma divisão entre aqueles percebidos como capazes de dominar a natureza e aqueles vistos como subjugados por ela ou inerentemente parte dela.
Já Tithi Bhattacharya defende que todo esse processo sempre aconteceu sobre uma base de racialização intensa, o que não só fomentou a manutenção dos salários baixos, como fez subempregos parecerem um presente do capital a determinadas comunidades racializadas. Reconhecer as principais vítimas desse caminho também nos faz compreender porque sindicatos formados em sua maioria por trabalhadores do Sul global compostos por uma classe trabalhadora diversa, demonstram maior solidariedade e identificação com Gaza do que tantos outros da Europa.
Contudo, é importante reconhecer que o que tem sido feito ainda é muito pouco. O que estamos a assistir nada mais é do que a lógica da guerra infinita como dispositivo de governo, onde a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Antes, o que temos visto é a consolidação daquilo que Giorgio Agamben chamou de paradigma da exceção. Simplesmente, porque militarizar as mentes é também acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo. É a banalização das piores violências, como um soberano que tem direito sobre a vida do outro.
Segundo Carl Schmitt, trata-se da construção no imaginário social de um inimigo eterno, onde a militarização das mentes emerge como uma técnica eficaz para acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo.
Fenómenos que podem ser observados desde os discursos de ódio e dessensibilização em face à violência estatal nas periferias do mundo, quanto na execução da política colonialista do Estado israelita que se estrutura desde a Guerra Fria através da emergência de um Estado que se estabeleceu enquanto superpotência na ordem bipolar. A política baseada no proveito político e económico feito pelo movimento sionista que fez que este se aliasse a uma potência capitalista imperialista, capaz de assegurar a expulsão sistemática dos Palestinos, é a prova da instrumentalização desse processo. Características que podem ser observadas na tentativa de confinar o máximo de palestinianos, mas também no roubo de recursos estratégicos (água e terra cultivável), utilização da mão de obra barata, trabalho análogo ao escravo.
Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza há décadas é compreender as estruturas que autorizam e naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo a serem aplicados em escala indefinida contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.
Entrevista com Naji El Khatib
O ativista e investigador palestiniano Naji El Khatib, que esteve há meses numa palestra no Porto, refere, em entrevista à página francesa em linha Reporterre, que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político. Ele lembra que a colonização continua entretanto, com a cumplicidade material da França. O leitor notará que tudo o que Naji El-Khatib diz se aplica na íntegra ao reconhecimento da Palestina pelo Estado português e à figura cínica e sinistra feita pelo ministro Rangel e pelo presidente Marcelo.
Que pensa do anúncio de Emmanuel Macron de reconhecer o Estado palestiniano?
Naji El Khatib Este anúncio suscita-me, em primeiro lugar, muitas dúvidas. Agirá Emmanuel Macron por sentimento de culpa, ou será, antes, um caso de cálculo político, para recauchutar a sua imagem, quando há agora uma queixa apresentada contra ele no Tribunal Internacional de Justiça, por cumplicidade com genocídio? Neste contexto, custa não ver neste gesto uma manobra de diversão. Há meses que a rua francesa se mobiliza contra os massacres em Gaza e pelos direitos dos Palestinianos.
No entanto, não acredito que Macron esteja a agir por remorso. Os seus aliados dizem-no cínico: parece-me que o reconhecimento é principalmente uma ferramenta de comunicação política. Chega tarde, muito tarde. Já mais de 140 países reconheceram o Estado palestiniano. Acima de tudo, porém, este Estado, o Estado derivado dos acordos de Oslo (1993), é um “Estado fantoche”, incapaz de responder às necessidades reais dos Palestinianos.
Hoje, os territórios reservados a um futuro Estado palestiniano correspondem a uns meros 10% da Palestina mandatária original. Falo como refugiado: a minha família foi expulsa de Jaffa em 1948. Ora, 60% dos palestinianos partilham esse destino do exílio forçado. A questão do direito ao regresso sempre foi excluída das negociações.
O que nos é proposto não é um Estado viável, é um simulacro que ratifica o esquecimento de centenas de milhares de expulsos. Por isso falo de uma farsa, perigosa para os direitos históricos do povo palestiniano, do rio até ao mar.
Acusa a França de cumplicidade com Israel. Em que consiste a cumplicidade, na sua opinião?
Naji El Khatib Em primeiro lugar, cumplicidade material. A França nunca deixou de fornecer armas e munições a Israel. Novos carregamentos partem regularmente do Aeroporto de Roissy. Há também empresas francesas a fornecer tecnologias utilizadas nos drones israelitas. Esta cadeia de produção alimenta diretamente a máquina de guerra.
Há, todavia, resistência: os estivadores de Marselha têm-se recusado a carregar caixas destinadas a Israel. Já o Estado francês continua. Como se pode pretender estar a reconhecer o direito dos Palestinianos à autodeterminação se, ao mesmo tempo, se arma quem os bombardeia e coloniza a sua terra?
Cumplicidade, igualmente, política. A França não impôs nenhuma sanção, apesar de dispor de meios de pressão económica e diplomática significativos. Permanecer em silêncio diante de um genocídio é participar nele. O coletivo de 114 advogados que está por detrás da queixa contra o Estado francês evoca-o com clareza: não agir para impedir um crime é ser cúmplice dele. Macron tenta mascarar essa responsabilidade com um reconhecimento do Estado palestiniano, mas a realidade é outra: fornecimento de armas, nenhuma sanção, inércia diplomática. Tudo isto configura participação direta e indireta no genocídio.
Mesmo assim, que consequências concretas pode ter o reconhecimento?
Naji El Khatib Em política, o simbolismo só tem peso se se traduzir em relações de força. Reconhecer o Estado palestiniano sem agir contra o agressor não muda nada. Enquanto a colonização continuar a avançar, enquanto se multiplicarem os ataques de colonos armados, assim como as barragens de controlo, é do foro da ilusão andar a falar de Estado palestiniano.
Para o reconhecimento ter sentido, seriam necessárias medidas concretas: sanções económicas, embargo militar e científico, retirar o embaixador. A França tem meios para fazê-lo. Mas não há sinais que indiquem tal vontade. Este anúncio é, portanto, uma manobra do foro do marketing político e, o que é pior, sem sanções nem medidas concretas, o risco é que a seguir se acelere a colonização e os territórios palestinianos se fragmentem.
O que pensa da iniciativa da Flotilha da Liberdade para Gaza?
Naji El Khatib É um ato de coragem essencial. Perante o bloqueio e o genocídio, não podemos manter-nos espectadores. A Flotilha procura quebrar o isolamento de Gaza e levar ajuda vital a uma população atingida pela fome e pelos bombardeamentos. Centenas de pessoas já perderam a vida por falta de comida ou de cuidados médicos.
Eu próprio participei na Marcha para Gaza, no Egito, em junho. A iniciativa malogrou-se, mas encarnava essa vontade de “fazer algo”. A Flotilha inscreve-se na sua continuidade: encarna uma forma de esperança, provando que há gente, noutras partes do mundo, que não se contenta em manifestar-se, que está pronta a correr riscos perante uma máquina de guerra.
Isto é tanto mais importante, quanto o Estado israelita tenta tirar legitimidade a estas ações e preparar os espíritos para ataques contra elas. Os participantes são muitas vezes caricaturados como “terroristas” ou “jihadistas", tal como aconteceu com o ataque ao barco turco que rumava a Gaza em 2010. Apesar dos riscos, a Flotilha não deixa de ser um gesto concreto de solidariedade.
Há muitos ativistas ecologistas a participar na Flotilha. Como entende esta ligação entre a luta pela Palestina e as lutas ambientalistas?
Naji El Khatib A expropriação da Palestina não afeta apenas terras e casas: também transforma o ambiente. Desapareceu de toda a Galileia o tomilho selvagem, o zaatar. As florestas plantadas por Israel com espécies importadas da Europa destruíram as plantas locais e apagaram os vestígios das aldeias palestinianas destruídas em 1948. Com os bombardeamentos maciços, Gaza está a tornar-se inabitável, os solos, contaminados.
Genocídio e ecocídio andam de mãos dadas. Defender a Palestina é defender, ao mesmo tempo, um povo e o seu ambiente, a sua cultura e a sua ligação à terra. Por isso é tão importante a presença de ativistas ecologistas na Flotilha. Lembra que a luta pela Palestina é também uma luta por terras viáveis e um ambiente habitável. São lutas que não estão separadas, estão profundamente ligadas.
Os subscritores deste apelo emitem este pedido urgente
Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. Nenhuma compensação ou ajuste que não inclua o regresso ao trabalho no cais do seu porta-voz Erik Helgeson será aceite.
O Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco reafirmou o seu compromisso de acabar com o comércio de material militar com Israel. O Tribunal do Trabalho escuta, entretanto, as alegações iniciais relativas ao despedimento do porta-voz nacional do sindicato, Erik Helgeson.
Em dezembro do ano passado, o Sindicato dos Estivadores sueco organizou um referendo sobre uma acção sindical de embargo do transporte por portos suecos de material militar de e para Israel. 68% dos sindicalizados de todo o país votaram a favor de avançar com o protesto, em solidariedade com a população civil palestiniana de Gaza e da Cisjordânia.
A acção do sindicato foi ferozmente contestada pelos empregadores portuários tanto na comunicação social como junto do Tribunal do Trabalho sueco. O sindicato avançou na mesma. Em fevereiro, o Tribunal do Trabalho concluiu pela legalidade da acção de solidariedade, que se poderia desenrolar nos termos planeados.
No entanto, no próprio dia do veredicto, o porta-voz do sindicato e vice-presidente nacional, Erik Helgeson, foi despedido pelo seu empregador, o Terminal Roro (de embarque e desembarque rolante) de Gotemburgo, cujo proprietário é a DFDS. O empregador notificou o despedimento em comunicado de imprensa em que referia preocupações de “segurança nacional”.
Esta semana, oito meses depois de defender em tribunal a acção solidária do sindicato, Helgeson voltou ao Tribunal do Trabalho de Estocolmo. Estava em causa, desta vez, o seu próprio despedimento ilegal. Era a primeira audição do caso, que se prevê arrastar-se até ao segundo semestre de 2026.
Na segunda-feira, dirigindo-se a apoiantes à porta do tribunal, Helgeson reafirmou que o sindicato se manterá firme.
* Nunca os empregadores irão ditar quem há-de poder falar pelo SDU. Numa democracia digna desse nome, tal decisão cabe exclusivamente aos estivadores sindicalizados.
* O SDU não se coibirá de manifestar solidariedade com outros trabalhadores sujeitos a injustiças. Atacar os nossos representantes eleitos não nos silenciará. A decisão dos sindicalizados de estarem solidários com a classe trabalhadora palestiniana mantém-se.
* É uma vergonha que o Estado sueco esteja, na realidade, a aumentar as suas importações de material militar de Israel quando 20 mil crianças palestinianas foram mortas na ofensiva contra Gaza. De acordo com a organização Save The Children, é o equivalente a uma criança morta por hora ao longo dos últimos 23 meses. O comércio de material militar com Israel tem de acabar.
* O SDU não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. Nenhuma compensação ou ajuste que não inclua o regresso de Erik ao trabalho no cais será aceite.
gaza
Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita — mas também pelo irmão egípcio. Alguns milhares de ativistas não podem franquear uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.
Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita — mas também pelo irmão egípcio. Alguns milhares de ativistas não podem franquear uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.
No dia 6 de dezembro de 2003, no auge da Intifada, após uma noite difícil, de combates incessantes entre o exército israelita e os combatentes palestinianos no bairro de al-Yasmina, na velha cidade de Nablus, onde eu na altura vivia, recebi uma mensagem do Consulado Francês em Jerusalém Oriental a anunciar-me que a minha viagem a Gaza estava cancelada.
Peguei nas coisas que tinha preparadas para um dia normal de trabalho na Universidade An-Najah, dividido entre a raiva e a resignação. Pronto: depois de meses de espera na lista de pessoas com autorização para se deslocarem a Gaza, tinham-me riscado da lista.
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Telefonei para Jerusalém. A resposta pacificou um pouco a minha raiva: Jane Birkin e os seus músicos precisavam de todos os veículos do Consulado Francês em Jerusalém Oriental para se poderem deslocar a Gaza e dar um concerto no Centro Cultural Rashad al-Shawa nos dias 8 e 9 de dezembro.
Pensei com os meus botões: que azar o meu, um palestiniano nascido no Líbano, animado pela paixão ardente de descobrir todos os recantos da Palestina, do rio até ao mar. Nablus representava, para mim, muito mais do que a universidade: era o meu ponto de partida para visitar todas as cidades e aldeias da Palestina. Exceto Gaza.
Mas que raio ia Jane Birkin fazer a Gaza? Cantar? Ou impedir as minhas peregrinações físicas e mentais aos lugares da minha memória familiar?
Como a maior parte dos Yafawi (habitantes de Jaffa) que fugiram da cidade por mar quando ela caiu perante a Telavive triunfante, eu estava para nascer em Gaza. Mas a inexperiência marítima de um pescador que nunca se atrevera a afastar-se da costa para pescar fez que acabasse por nascer noutro sítio, longe de Gaza. Em vez de se dirigir para sul, para Gaza, ele enganou-se no rumo e navegou para norte, em direção ao Líbano.
Desde então, visitar Gaza, onde eu devia ter nascido, tornou-se-me insistente obsessão. Tentei outra vez, em 2012. Não fui bem-sucedido. A minha frustração só crescia.
Junho de 2025. O meu filho mais velho, Samy, falou-me de uma marcha que se estava a organizar: para Gaza. Enquanto o escutava, vieram-me ao de cima todos os desejos insatisfeitos, todas as frustrações recalcadas. No espaço de poucos segundos, vi-me a entrar em Gaza — já não Gaza de 2003 ou de 2012, mas Gaza depois da guerra e do genocídio.
Sem hesitar, respondi: “Eu vou.”
Ele respondeu, com toda a naturalidade: “Eu também.”
Alguns dias depois, comprámos bilhetes para o Cairo. Era o meu segundo regresso à Palestina com destino a Gaza. Gaza encerra em si mesma todas as dimensões políticas, históricas e humanas da Palestina.
Gaza, gigantesco campo de refugiados.
Gaza, prisão a céu aberto.
Gaza que resiste.
Gaza, centelha de todas as lutas do povo palestiniano, de 1948 aos nossos dias.
Eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita, mas também pelo irmão egípcio.
Entre sonho e realidade, inscrevi-me oficialmente. Comecei a receber uma avalanche de mensagens da “March to Gaza” através dos respetivos grupos WhatsApp e Telegram. O número de inscritos aumentava de dia para dia.
Invadia-me um sentimento de felicidade, misturado com algum receio, ao ouvir e ler as ideias expressas por alguns participantes. Pouco a pouco, apesar de as condições serem tudo menos ideais, formou-se uma comunidade movida por um entusiasmo que alimentava uma mobilização internacional.
Um movimento de cidadãos, popular, não elitista, sem filiação política. Um movimento sem precedentes, que se poderia dizer internacionalista de tipo novo. Nos seus membros não há qualquer semelhança com os internacionalistas da guerra civil de Espanha, nem com os partidários de um internacionalismo comunista ou revolucionário clássico. Não reivindicam uma ideologia que sustente que os seres humanos se devam unir para defender interesses comuns por sobre fronteiras nacionais, políticas, culturais ou raciais.
Internacionalizaram-se antes pela Palestina, transmudada em símbolo universal de justiça.
Apesar do impasse do horizonte palestiniano enquanto se desenrola o genocído, a Palestina emerge em moldes que transcendem as suas fronteiras, a sua geografia e o seu povo. Ela encarna a “mais-valia” das lutas pela liberdade que transcendem os quadros nacionais e estatais. É a Palestina “não-palestiniana”, a Palestina de todos os que aspiram à liberdade, fora do espartilho do mercado capitalista e dos interesses imperialistas.
Não surpreende, pois, que a Palestina se tenha volvido causa principal da justiça no mundo, denunciando a injustiça nos quatro cantos do globo.
Emergindo como símbolo de justiça e projeto de libertação radical para a terra e a humanidade, a Palestina transcende as fronteiras naturais e humanas do seu território e do seu povo. Torna-se assim valor e símbolo universal.
Em nome deste internacionalismo palestinizado, os manifestantes encarnam a solidariedade internacional sem fronteiras nem exceções: defender a dignidade, a liberdade e a autodeterminação dos povos passa a compromisso universal. Na hora de lutar contra o genocídio, internacionalismo significa levantar-se e tomar a iniciativa, como ser humano responsável.
Estes internacionalistas são a gente fantástica que encontrei no Cairo e, depois, na primeira e na segunda barragem, onde as forças de segurança egípcias nos trataram à bruta, nos prenderam e agrediram para nos impedir de continuar o caminho para Ismailia e chegar a Al-Arish, ponto de partida para Gaza.
Tive a sorte imensa de conhecer seres humanos notáveis, chegados de dúzias de países, movidos pela compaixão pela Palestina e pela sua justa causa, exigindo o fim do genocídio em Gaza e a liberdade para a Palestina, do rio até ao mar.
Como participante palestiniano nesta marcha para Gaza, agradeci a todos por estarem do lado bom da história, o da justiça e da liberdade.
Fui testemunha do entusiasmo avassalador e da coragem sincera dos participantes na marcha. Mas também ouvi comentários irresponsáveis de uns poucos, observei falta de organização e de disciplina e, sobretudo, ignorância do território egípcio que tínhamos de atravessar.
Os organizadores anunciavam que “a Marcha Mundial para Gaza é um movimento de cidadãos, apolítico e independente”. Será, porém, possível escapar realmente à política e ao seu cálculo frio, desprovido de considerações humanistas e éticas?
Como há de querer chamar-se “apolítico” a um movimento que é fundamentalmente político, que exige o fim do genocídio, a retirada do exército israelita de Gaza e o levantamento do bloqueio imposto tanto por Israel como pelo Egito?
Ser a marcha um ato cívico por excelência não contradiz a sua natureza eminentemente política, por muito que os organizadores digam que “não representamos nenhum partido, ideologia ou religião. Representamos o povo, em toda a sua diversidade e humanidade”.
Na realidade, apesar destas afirmações simplistas e ingénuas, é exatamente no campo da política que nos movemos. A atitude das autoridades egípcias pôs à vista de todos o carácter profundamente político da marcha: proibida, os seus participantes detidos, agredidos e deportados, apesar de pacíficos e sem intenção violenta alguma.
A política do Estado egípcio responde à lógica do poder, aos interesses da classe dominante e a um cálculo frio em que não interessam para nada os “princípios orientadores” da marcha: justiça, dignidade humana, paz.
A ingenuidade que os organizadores exibiram ocultou as realidades políticas do momento. Quando estas realidades nos caíram brutalmente em cima, muitos participantes da marcha ficaram estupefactos.
Uma participante de origem árabe perguntou-me como era possível um Estado “irmão”, árabe e muçulmano, como o Egito comportar-se desta maneira.
Um jovem quis alugar uma motoreta para passar as barragens, convencido de que os jovens gendarmes egípcios nunca se atreveriam a disparar contra europeus solidários com a Palestina.
De cada vez que eu explicava as realidades do terreno, vi instalar-se deceção e desconfiança para comigo. Quando disse que não estávamos num país amigo, houve quem protestasse ruidosamente. As rusgas violentas da polícia aos hotéis e apartamentos em que estávamos, no Cairo, foram, porém, suficientes para que a realidade aparecesse nua e crua.
Não é que a cumplicidade do Egito seja novidade. O regime tem Gaza selada e isolada há anos, mesmo quando as forças israelitas não ocupam o lado palestiniano de Rafah. Milhares de palestinianos tiveram de pagar mais de 5000 dólares por pessoa para fugirem ao genocídio. Outros ainda têm de pagar quantias exorbitantes para que os camiões de ajuda humanitária possam entrar em Gaza.
O Egito continua a negar aos palestinianos que se encontram no seu território o direito a trabalhar, agravando a sua situação económica e deixando centenas de famílias em situação precária. Há quem acabe por querer voltar para Gaza. Têm, no entanto, o caminho obstruído.
De nada serve adoçar a realidade dos regimes cúmplices e dos mecanismos repressivos. O Egito viola a sua própria soberania quando permite que empresas como a Erjani lucrem com o bloqueio e o genocídio, concedendo seletivamente autorizações de entrada e saída de Gaza, esta faixa de Gaza que há décadas explora.
No regime do bloqueio, cada movimento requer subornos e esquemas clandestinos, reforçando um sistema mafioso assente no sofrimento dos palestinianos.
A caravana de Sumud e a Marcha Mundial para Gaza são atos de desafio, não ameaças militares. Uns poucos milhares de ativistas não podem atravessar uma das fronteiras mais militarizadas do mundo: a passagem de Rafah.
Contudo, os internacionalistas por Gaza e contra o genocídio encontrarão outras formas de continuar a luta pela Palestina e pela justiça à escala mundial.
Pela minha parte, eu lá continuarei, no meio daquela gente sincera e amorosa, na esperança de, um dia, ver Gaza, o meu amor.
Quando a enfermeira te meteu na boca a agulha da anestesia, desataste a rir:
– Cortaste-me o lábio?
A dentista não te respondeu. Deixou-te cinco minutos a sós com o formigueiro na boca e nos lábios… Cinco minutos bastam para todas as perguntas existenciais, a começar pela mais simples: “Que sentido tem a vida se temos de morrer?”
Sorris, tentando não me ouvir. Sabes que te vou responder: “Que sentido teria a vida se não tivéssemos de morrer?”
A dentista voltou, segurou-te na cara, abriu-te a boca e enfiou uma barragem de borracha dentária. Furou o molar, tirou o nervo… Que maravilha: já não tens nervo!
Mas ainda não acabara. Encheu-te a boca de medicamentos estranhos que davam náuseas. Ia conversando contigo enquanto trabalhava. Tu, sem poder falar, só podias anuir com a cabeça.
Que maravilha: já não tens nervo, e acenas com a cabeça por tudo e por nada.
***
Naquele dia, fui ver a minha tia. Lembras-te?
Tinhas-me aconselhado a visitá-la por dever familiar, e foi o que fiz. Como não havia de fazê-lo? Não tinha alternativa a não ser acenar com a cabeça e andar sem nervo.
– Tia, tinha saudades tuas – disse-lhe, ao beijá-la. Ainda antes de se preocupar com o meu dente, disse-me:
– Liga ao meu filho, despachem-se.
Acenei com a cabeça sem perceber, liguei ao filho dela e saí com ele para a aldeia de Deir Dibouan. Pelo caminho, ele foi-me contando a história. Eu ia acenando com a cabeça.
– Viste a fila de rapazes nus amarrados? – Acenei com a cabeça, sem perceber. Continuou: – Os soldados tocavam-nos como se tocassem ovelhas. Não viste? –
Não, acenei com a cabeça. Ele disse:
– Dá-me um cigarro, vou-te contar.
– A história, primo, foi que…
“Em directo de Ramallah: Um jovem de 25 anos foi morto a tiro por colonos israelitas durante um ataque de colonos à aldeia de Deir Dibouan. Os colonos abriram fogo, ferindo gravemente o jovem Awad Awawdeh, que acabou por sucumbir. Na sequência do incidente, o exército de ocupação fechou a entrada da aldeia e deteve trinta habitantes.”
– A história é esta, primo… Tens um cigarro?
***
Deu-lhe um cigarro, acenando violentamente com a cabeça, com a mão no molar ainda dormente por causa da anestesia. A pensar que iam ao funeral, mas porque guiava o primo tão depressa?
O jovem tinha sido morto a tiro por um colono, com os soldados a cercá-los. As redes sociais encheram-se de poemas e emojis tristes:
“Deixaram-no morrer sozinho.”
“Porque te foste?”
“Não acreditem no ulular, acreditem na lágrima do pai a olhar para a fotografia.”
“As pessoas ficam a dormir, indiferentes.”
“Perderam-no, pessoa por pessoa.”
“Já ninguém sente nada… Está tudo morto!”
Desligou o telemóvel, não quis escrever. Só pensava em “que sentido tem a vida se temos de morrer?”
Ao chegar à aldeia, percebeu por que o primo guiava tão depressa: queria juntar-se aos moradores, que já tinham saído, de autocarro. Estava lá toda a comunidade. Não estava sozinho, nunca sozinho.
***
Ias seguindo constantemente a notícia nas redes sociais, lendo as publicações e os poemas tristes. Acenavas com a cabeça. Os meios de comunicação e as redes sociais tinham-te dado a impressão de que ele estava sozinho, que tinha morrido sozinho, que tinha partido sozinho. Mas não, estavam lá todos os moradores da aldeia.
Já os que filmavam com câmaras, os que escreviam, os que contavam histórias e compunham poemas tristes, os que se deixavam seduzir pelos paradoxos da morte, os que procuravam a metáfora, os que imploravam lágrimas — esses todos não repararam em nada, porque não estavam presentes. Não era solidão; era uma redefinição dos laços sociais.
Quando saíste com o teu primo e a gente da aldeia dele, paraste. Lembras-te? O teu primo mandou-te despachar-te, mas não percebeste porquê. Desta vez, não acenaste com a cabeça: não o seguiste, optaste por ficar um pouco mais, recusaste-te a afastar-te das pessoas, da realidade, daquele momento existencial verdadeiro. O teu primo dizia para irmos embora, mas tu não cedeste; não acenaste com a cabeça.
– Vá lá, deixa a vez aos outros – disse ele. Então viste dezenas de autocarros das aldeias vizinhas que estavam à espera da vez: Silwad, Mughayir, Kufr Malik… As aldeias vizinhas desciam em fila, cada pessoa repetia o mesmo ao pai do jovem: “Estamos contigo, somos teus filhos.”
Todos repetiam estas palavras. Tu, imóvel, perdido nas publicações das redes sociais. Não viste os autocarros a chegarem? As aldeias a levantarem-se? Vinham todos saudar o pai na presença do corpo do seu filho mártir. E tu, pobre louco, continuas a perguntar “que sentido tem a vida se temos de morrer?” Respondo-te eu: “E que sentido teria a vida se não tivéssemos de morrer?”
Saíste da aldeia com a mão no molar.
– Que se passa? – perguntei-te. Disseste-me:
– Não sei… Dói-me o nervo. Acho que a dentista não o tirou todo.
Médicos de diversos países a trabalhar em Gaza observaram um padrão perturbador: crianças com um único ferimento de bala na cabeça ou no peito, sinal de que tinham sido deliberadamente alvejadas. Esta conclusão pôde ser tirada graças a uma pesquisa do jornal neerlandês de grande circulação de Volkskrant, que falou com médicos que estão entre as últimas testemunhas oculares internacionais presentes na Palestina.
Quinze médicos de diversos países disseram ao jornal neerlandês de Volkskrant que, durante o seu trabalho nos hospitais de Gaza, assistiram crianças até aos 15 anos com ferimentos de bala na cabeça ou no peito. Segundo a estimativa mais conservadora, assistiram 114 crianças com estes ferimentos, a maioria das quais faleceu.
O jornal falou com 17 médicos e uma enfermeira dos EUA, e também do Reino Unido, Austrália, Canadá e Holanda que trabalharam em seis hospitais e quatro clínicas em Gaza desde outubro de 2023. Quinze deles disseram ao de Volkskrant que trataram pelo menos 114 crianças até aos 15 anos com um único ferimento por arma de fogo na cabeça ou no peito. A maioria destas crianças morreu em consequência desses ferimentos. Os casos foram documentados entre o final de 2023 e meados de 2025 em 10 diferentes hospitais ou centros de saúde.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”
Um dos médicos, o cirurgião de trauma norte-americano Feroze Sidhwa, recordou o seu primeiro dia no Hospital Europeu de Gaza, em março de 2024, onde encontrou quatro rapazes com menos de 10 anos com ferimentos idênticos na cabeça num intervalo de 48 horas.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”, disse ao jornal o Dr. Feroze Sidhwa. Nos 13 dias seguintes, assistiu mais nove crianças com ferimentos semelhantes.
Testemunhas oculares disseram aos médicos que os projéteis provinham principalmente de atiradores de elite ou drones do Exército israelita (IDF).
Os médicos entrevistados enfatizaram que tais ferimentos dificilmente seriam acidentais. Peritos forenses consultados pelo jornal disseram que o padrão uniforme sugeria disparos direcionados, possivelmente por franco-atiradores ou drones.
Isso mesmo foi corroborado pelo antigo comandante das forças terrestres holandesas, Mart de Kruif, que afirmou que a probabilidade de terem sido disparos acidentais é insignificante, dado que os médicos descreveram mais de uma centena de casos.
O primeiro-ministro israelita, Netanyahu, e as chefias militares têm negado que os soldados estejam a atacar deliberadamente civis palestinianos. No entanto, soldados anónimos têm admitido repetidamente o contrário ao jornal israelita Haaretz.
Os médicos citados também descreveram o dilema moral que enfrentam: se falarem abertamente, podem ser impedidos de regressar a Gaza. Segundo a ONU, Israel negou a entrada a mais de 100 profissionais de saúde internacionais desde março de 2025, sem uma explicação detalhada.
Nota: este texto foi elaborado pelo Maio tendo como fontes, além do já mencionado artigo de de Volkskrant, outros media internacionais como a Al Jazeera, a BBC, The Guardian e a Reuters.
Nos últimos tempos, o presidente espanhol é tido como uma “voz progressista” face ao avanço da extrema-direita. As suas declarações a favor do povo palestiniano, discursos pelo “Não à guerra” e medidas como a regularização de milhares de migrantes tiveram impacto internacional. Compreende-se que, ante a ofensiva belicista de Trump e Netanyahu e as políticas de direitistas como Milei, o discurso de Sánchez desperte simpatia. No entanto, por detrás do seu discurso, espreita a gestão “progressista” do Estado capitalista e imperialista espanhol. Um projeto que, repetidamente, terminou em profundas deceções e preparou o terreno para o crescimento da extrema-direita.
Enquanto Sánchez colhe aplausos em fóruns internacionais, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol, força hegemónica do governo de coligação) acumula os seus piores resultados eleitorais em várias regiões. Recentemente, a indiciação do ex-presidente socialista José Luis Rodríguez Zapatero — chefe do Governo espanhol entre 2004 e 2011 — abalou o Governo, atingindo um dos aliados de Sánchez. O processo judicial investiga alegados crimes de tráfico de influências, branqueamento de capitais e organização criminosa relacionados com os apoios públicos concedidos à companhia aérea Plus Ultra durante a pandemia. O facto de a direita instrumentalizar o processo judicial para fins políticos não isenta Zapatero das suas responsabilidades, uma vez que este teria obtido benefícios económicos e pessoais durante o seu mandato governamental. O “caso Zapatero” revela o carácter de casta das elites políticas, tenham elas discurso progressista ou liberal.
Enquanto Sánchez vai tentando “cavalgar” a crise da sua coligação governamental, multiplicam-se as greves em massa no sector do ensino por todo o Estado espanhol, de Valência à Catalunha e a Aragão. Para setembro, espera-se um Outono quente no ensino, com novas greves por tempo indeterminado convocadas em Madrid e noutras regiões, lado a lado com outros sectores da saúde e serviços públicos. Passamos em seguida em revista a política do governo progressista em matérias fundamentais para a vida da classe trabalhadora: guerra, migrações, habitação e condições de trabalho.
O “Não à guerra” e os maiores orçamentos militares da história
Em março de 2026, em plena ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, Pedro Sánchez retomou o “Não à guerra” das grandes mobilizações de 2003 contra a invasão do Iraque. Uma verdadeira “usurpação” dessa palavra de ordem por parte de Sánchez, se considerarmos que foi o PSOE que levou a Espanha a aderir à NATO — após a famosa reviravolta de Felipe González no referendo de 1986, depois de ter prometido o contrário — e é o PSOE que hoje aumenta as despesas militares e o controlo das fronteiras.
O anúncio de que as bases norte-americanas em território espanhol não poderiam ser utilizadas para a operação dos EUA contra o Irão provocou uma reação furiosa de Trump. Mas entre a retórica de Sánchez e a realidade há uma grande distância. Primeiro, as bases já tinham servido para o início da Operação Fúria Épica (Epic Fury), com vários aviões de transporte e reabastecimento a partir de lá antes de a proibição ser formalizada. Mas há mais: enquanto fala de “não à guerra”, este Governo aumentou os orçamentos militares mais do que qualquer outro na história.
De acordo com o relatório do Centre Delàs — centro de estudos antimilitaristas com sede em Barcelona — intitulado “As despesas militares e o rearmamento da Espanha em 2025”, as despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB. São mais de 7 mil milhões acima dos 33 123 milhões que o Governo admite oficialmente, cujo cálculo omite rubricas militares dispersas por vários ministérios. O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) confirma um aumento de 50% num único ano: o maior salto da história recente do Estado espanhol, que entra assim no top 15 mundial dos países com maior despesa militar.
As despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB.
Este “progressismo militarista” concretiza-se no Plano Industrial e Tecnológico para a Segurança e a Defesa, anunciado por Sánchez em abril de 2025: injetou 10 471 milhões de euros extraordinários para antecipar a meta de 2% do PIB que a NATO tinha fixado para 2029. E fê-lo sem o submeter a votação parlamentar, aproveitando a prorrogação do Orçamento Geral do Estado de 2023. De onde vem o dinheiro? Em grande parte, de fundos europeus de reconstrução social e de verbas não executadas de outros ministérios. A isto acrescenta-se o compromisso plurianual em armamento. O próprio Centre Delàs calcula que, com estes compromissos, a despesa aproximar-se-á dos 3% do PIB nos próximos anos. Entretanto, os orçamentos da saúde, da educação e dos serviços públicos encontram-se sempre muito aquém das necessidades sociais.
Tal como denuncia a Assembleia Internacionalista de Madrid, uma iniciativa que reúne diversas organizações da esquerda do Estado espanhol, entre as quais a CRT: “Os recursos multimilionários que não serão destinados nem a escolas nem a hospitais serão utilizados para aumentar a militarização das fronteiras contra os migrantes, reforçar os interesses do imperialismo espanhol e aprofundar a pilhagem de outros povos do mundo. É no calor desta política que se fortalece a extrema-direita e o seu discurso reacionário.”
Palestina: entre o gesto e a realidade
O reconhecimento do Estado palestiniano pelo Governo espanhol — em conjunto com a Irlanda e a Noruega — e os confrontos diplomáticos com Telavive foram mais longe do que a média europeia. Respondem à pressão de milhões de pessoas que saíram às ruas em defesa da Palestina durante os mais de dois anos decorridos desde o início da ofensiva israelita sobre Gaza, em outubro de 2023; à força do movimento de solidariedade, aos acampamentos estudantis, a iniciativas como a Global Sumud Flotilla, que partiu de Barcelona em várias ocasiões, e ao ativismo massivo que chegou a travar nas ruas a Volta a Espanha em bicicleta, em repúdio pela participação de uma equipa israelita.
Mas entre a retórica e a realidade há, mais uma vez, um abismo. O “embargo de armas” a Israel revelou-se uma farsa: durante meses continuaram a ser autorizadas exportações, escalas de navios com material militar israelita em portos espanhóis e contratos com empresas israelitas do setor da defesa. A rutura formal das relações com Israel nunca chegou a ocorrer, nem mesmo nos piores momentos do genocídio em Gaza.
A crise da habitação no cerne da desigualdade
A questão da habitação é talvez o exemplo mais claro dos limites do governo progressista. Após seis anos de governos de coligação — primeiro com o Unidas Podemos, depois com o Sumar (a coligação à esquerda do PSOE liderada pela vice-presidente Yolanda Díaz) — não houve uma única reforma estrutural no domínio da habitação. Um trabalhador com um salário médio destina atualmente entre 45% e 60% do seu rendimento ao pagamento da renda, valor que, em muitos casos, é amplamente ultrapassado — uma situação em que o leitor português se reverá sem dificuldade. Entretanto, dez grandes senhorios acumulam cerca de 200 000 habitações para fins especulativos. Medidas tão elementares como a expropriação dos grandes senhorios, a proibição dos despejos e o teto às rendas de casa poderiam começar a dar resposta à crise habitacional. Mas o governo progressista não tem qualquer intenção de enfrentar o capital imobiliário nem os bancos.
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Migração: regularização e Lei dos Estrangeiros
Outra área em que o progressismo tenta angariar simpatias é a migratória. A regularização extraordinária aprovada a 15 de abril foi apresentada como o caminho oposto ao endurecimento racista dos governos europeus. E é preciso dizê-lo claramente: é uma conquista, mas não do governo, e sim do movimento em defesa dos imigrantes que há anos se mobiliza, recolhe assinaturas, apresenta iniciativas e sustenta a luta por documentos para todos. Vale a pena recordar, além disso, que governos de outras tendências políticas também realizaram regularizações semelhantes no passado. No entanto, a regularização tem prazos inferiores a três meses, exige a comprovação da ausência de antecedentes criminais e acarreta outras limitações, pelo que muitas pessoas ficarão de fora. Entretanto, os Centros de Internamento de Estrangeiros (CIE) continuam abertos, e todos os anos morrem milhares de migrantes ao tentarem atravessar o Mediterrâneo. Por sua vez, o Estado espanhol assinou e apoiou ativamente o Pacto Europeu sobre Migração e Asilo, uma das peças mais reacionárias da arquitetura migratória da UE, que generaliza a detenção na fronteira, externaliza o controlo para regimes autoritários e endurece os procedimentos de asilo.
Quebrar o ciclo de frustrações
Perante a ascensão da extrema-direita, muitos apresentam a coligação progressista do governo espanhol como um “mal menor” ou uma barreira de contenção face às opções de direita (o conservador Partido Popular, PP, e a extrema-direita do Vox). Uma estratégia que foi alimentada por partidos como o Podemos, inicialmente, e o Sumar, posteriormente, com a sua participação ministerial em governos de gestão capitalista. Ao mesmo tempo, as burocracias sindicais maioritárias — CCOO (Comissões Operárias) e UGT (União Geral dos Trabalhadores), as duas grandes centrais do Estado espanhol — garantiram uma longa “paz social”: não se convoca uma greve geral desde 2012, quando milhões se mobilizaram contra a reforma laboral do PP.
No entanto, os contrastes entre os discursos e a realidade geram muitas frustrações e mal-estar social. O crescimento do PP e do Vox em várias eleições regionais, como as recentes eleições na Andaluzia, mostra que a direita procura canalizar esse descontentamento. A queda do PSOE para um nível abaixo do seu “mínimo histórico” na Andaluzia não é insignificante, considerando que se trata de uma região onde, historicamente, teve um dos seus bastiões eleitorais: governou a comunidade ininterruptamente desde 1982 até 2018.
Mas o avanço da direita não é a única perspetiva possível. Nas últimas semanas, multiplicaram-se as greves no setor da educação na Catalunha, Valência, Aragão e Madrid: centenas de milhares de professores, juntamente com famílias e estudantes, exigem aumentos orçamentais, melhores condições de trabalho e melhores condições para o ensino público. Na Catalunha, onde governa o PSC (Partit dels Socialistes de Catalunya, federado com o PSOE de Sánchez), as trabalhadoras da educação votaram contra um acordo assinado pelos sindicatos maioritários. Lá observam-se tendências para formas de organização democrática em assembleia, com métodos combativos como bloqueios de ruas e avenidas. A coordenação das lutas, a exigência de uma greve geral dos serviços públicos e o desenvolvimento da auto-organização são o caminho para enfrentar tanto o governo progressista como os governos de direita — como os do PP, em alguns casos com o apoio do Vox, em Madrid ou Valência. Para desenvolver as tendências da luta de classes e evitar cair em novas armadilhas do “mal menor”, é mais do que nunca necessária uma esquerda que levante um programa de independência de classe, para que a crise seja paga pelos capitalistas.
Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam1 de terra custa hoje cerca de 100 shekels, quanto irá custar um bidão de azeite? Quem o comprará?”, exclama.
ilustração: Mantraste
Eyad Yousef é um agricultor palestiniano da aldeia de Taybeh, a leste de Ramallah. Também é mecânico de automóveis e pai de três filhos. Todos os anos, na Primavera, com os irmãos, planta ervilhas, lentilhas, pepinos, cebolas e outras culturas sazonais. Mas este ano é diferente.
Eyad já não trabalha a sua própria terra, inacessível devido à ameaça dos colonos israelitas, que patrulham constantemente a planície a leste da aldeia. Já nenhum proprietário de terras em Taybeh consegue aceder à sua propriedade.
“Este ano arrendei a terra de outra pessoa, mas não é que seja um contrato escrito, é só um acordo verbal”, explica Eyad. “Se, a qualquer momento, o proprietário decidir vender a terra, perco o que investi.”
Apesar disso, Eyad continua com a sua lavoura sazonal. “É o meu oxigénio.”
Desde Outubro de 2023, aumentaram exponencialmente, em número como em violência, os ataques de grupos de colonos israelitas a agricultores palestinianos na Cisjordânia.
Para muitos agricultores, é um duríssimo golpe à sua subsistência e modo de vida. Mas o impacto não se limita aos agricultores; está-se a desfigurar e dizimar parte substancial da economia palestiniana e um pilar das famílias rurais. Numa época em que os pogroms dos colonos nos campos aterrorizam os palestinianos, os agricultores têm estado na linha da frente da violência crescente.
Segundo o Centro de Informação Palestiniano, grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. O Gabinete de Coordenação Humanitária das Nações Unidas (OCHA) indica que, só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia. Mesmo quem não foi directamente afectado sente o efeito cumulativo da ofensiva, que se reflecte directamente no aumento dos preços dos produtos agrícolas.
Grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. Só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia.
Nem sempre foi assim. Os agricultores constituíam outrora a espinha dorsal da economia palestiniana. Sociedade historicamente agrária, a Palestina foi descrita, em 1887, pelo viajante britânico Lawrence Oliphant como “um lago verde de trigo ondulante”. Hoje a maior parte do trigo usado para fazer o pão consumido pelos palestinianos é importado. Uma transformação que é fruto de um historial de cada vez maiores pressões exercidas pelo colonialismo israelita sobre sucessivas gerações de agricultores palestinianos.
“Fui agricultor toda a vida”, diz Eyad. “Comecei a trabalhar na terra do meu pai, perto da colónia de Rimunim, a sudeste da aldeia; plantávamos trigo e cevada, de que a minha mãe fazia o nosso pão caseiro. Os meus irmãos e eu crescemos com o pão da terra.”
“Do ano 2000 em diante, esta terra ficou-nos inacessível”, recorda, “quando os colonos israelitas começaram a patrulhar no campo, que fica mesmo ao lado da colónia.” Ergue os olhos, como se estivesse a lembrar-se de algo. “Para dizer a verdade, lembro-me da construção da própria colónia, quando era miúdo, em 1979”, continua. “Lembro-me de que a nossa família perdeu uns 20 dunams, entre terras tomadas pela colónia e as que nos foram ficando progressivamente inacessíveis.”
À medida que o acesso às terras agrícolas se ia fechando, os agricultores palestinianos e os beduínos começaram a partilhar a terra disponível, entreajudando-se para tentarem manter a presença. Há oito anos, Eyad começou a ceder a parte da sua terra situada ao lado do assentamento a uma família beduína, que ali vivia e apascentava o seu rebanho, apesar do assédio crescente dos colonos israelitas.
“Sempre que podia ir à minha terra e trabalhá-la, também trabalhava a terra do meu vizinho”, explica Eyad, descrevendo a antiga prática rural palestiniana de entreajuda, o ‘auneh’. “Quando o meu vizinho ia à terra dele, também cuidava da minha. Se eu lavrava a terra deles, eles vinham ajudar-me na colheita; entretanto, os beduínos tiravam proveito de parte da terra e vigiavam o resto”, continua.
Chegou, entretanto, Outubro de 2023, e até as famílias beduínas foram expulsas. Na altura, Eyad não pensou que se viria a ver na mesma situação que os beduínos que tinham usado a sua terra.
“No ano passado, os colonos israelitas começaram a aproximar-se cada vez mais da zona urbana de Taybeh, e as nossas terras agrícolas mais próximas ficaram mais perigosas de frequentar e trabalhar”, diz Eyad. Quando lhe pergunto o que aconteceu da última vez que tentou ir a essa sua terra, ele faz uma pausa. “A última vez que lá fui foi há seis meses. Três colonos israelitas chegaram de carro, um deles armado, disse-me que me fosse embora. Disse que aquela terra já não fazia parte de Taybeh.”
1. Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah; 2. Azeitonas no mercado de Ramallah, 2022; 3. Eyad Yousef no seu campo de ervilhas.
Eyad Yousef no seu campo de ervilhasAzeitonas no mercado de Ramallah, 2022Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah
Quando chegou a Primavera, Eyad e os irmãos tiveram de encontrar uma solução para a temporada agrícola. Decidiram arrendar a mesma terra onde a família beduína se instalara depois de os colonos os terem expulsado da terra de Eyad, dois anos antes. “Primeiro falámos com os beduínos, depois com o proprietário, e dividimos a terra: os beduínos plantaram cevada para o gado em metade da parcela, e nós usámos a outra metade.”
Em cerca de dois dunams de terra, duas famílias palestinianas praticam agora agricultura sazonal e criação de gado. Toda a vida agrícola da região ficou confinada a um pequeno espaço, de onde se avistam os postos avançadas dos colonos, implantados nas colinas vizinhas — as colinas onde Eyad outrora lavrava a sua terra, lado a lado com os beduínos, que ali apascentavam os rebanhos.
Em certo sentido, partilham a perda. Entretanto, continuam a apoiar-se mutuamente na defesa do seu modo de vida e da sua relação com a terra. Os agricultores e os beduínos, os habitantes do campo palestiniano desfigurado, são, uns para os outros, os únicos apoios que têm ante um projecto colonial dotado de recursos infinitos e da impunidade que a maior parte do mundo ocidental lhe concede.
Além de Taybeh, a dinâmica repete-se em toda a Cisjordânia. Jamal Jumaa, responsável pela campanha popular Stop The Wall, diz à Hara 36 que “a dinâmica da expansão dos colonatos israelitas desde Outubro de 2023 é a mesma em todo o lado e obedece a um modelo claro.”
O modelo, como explica Jumaa, consiste em “conseguir fazer na Cisjordânia o mesmo que se fez em Gaza na década de 90.” Nos anos que se seguiram aos Acordos de Oslo, o Exército israelita transformou a maior parte das terras agrícolas de Gaza, situadas na periferia da Faixa, em zonas militares. Os palestinianos de Gaza acabaram confinados às zonas urbanas. Após a retirada israelita em 2005, Gaza ficou isolada, transformada em prisão a céu aberto, sem meios de subsistência.
“Na Cisjordânia, a primeira vítima desta violenta expansão colonial foi a pecuária”, explica Jumaa. “As famílias beduínas e os aldeões que criam gado já perderam as pastagens ou estão a perdê-las.”
Já se sente o efeito nos mercados locais, acrescenta Jumaa, o preço da carne fresca duplicou desde 2023. “A próxima coisa a ser arruinada é a produção de azeitonas”, continua.
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A produção de azeitonas e azeite é o sector agrícola mais importante da Palestina, sustentando a subsistência de cerca de cem mil famílias. A colheita anterior a 7 de Outubro permitiu produzir 23 mil toneladas de azeite, em 2022, número que caiu drasticamente para 10 mil toneladas em Outubro de 2023, coincidindo com a época da colheita. No ano passado, este valor diminuiu ainda mais, atingindo 8 mil toneladas. A ONU entende que a forte queda se pode atribuir ao efeito combinado de confiscações sistemáticas de terras, violência dos colonos, restrições militares israelitas e factores climáticos.
“Por isso a manutenção dos olivais se tornou tão dispendiosa”, explica Eyad. “Arar um olival enquanto os colonos rondam passou a ser um trabalho de risco.”
As actividades dos colonos são concertadas com o Exército israelita, que utiliza o arranque de oliveiras como ferramenta de “dissuasão” e punição colectiva em resposta a ataques contra colonos e soldados. Em Agosto de 2025, divulgadas informações de que um colono israelita fora atacado por um palestiniano perto da aldeia de al-Mughayyir, o Exército israelita arrasou mais de 10 mil oliveiras na aldeia, como represália e acção de “dissuasão” contra os habitantes.
Eyad continua a colher ervilhas. Deita as últimas vagens para o balde. Cala-se, visivelmente afectado pelo seu próprio depoimento. “Se as coisas continuarem assim, vamos acabar por importar azeite de Espanha”, acrescenta, pegando num punhado de ervilhas e levantando-as com um suspiro. “Só as sementes para produzir estas ervilhas custam 250 shekels. Para os recuperar, tenho de vender 25 quilos.”
Vai-se afastando da parcela. A jornada de trabalho terminou. Quando chega ao confim, vira-se. Reflecte no que acaba de fazer.
“Sabes o que ganho com esta safra de ervilhas? Umas trinta a quarenta refeições para a família. Poupava mais não comprando ervilhas do que a vendê-las”, atira, com sarcasmo.
Está o sol do meio-dia no zénite, Eyad regressa à oficina de reparação automóvel — a versão de Eyad do “segundo emprego” de cada agricultor palestiniano. Agradeço-lhe por ter falado comigo e embarco num mini-autocarro em direcção a Ramallah, centro comercial da Cisjordânia, onde se presume invisível o cheiro do campo palestiniano mortificado pelos colonos.
Chegado ao centro da cidade, saio da estação de transportes públicos e avisto um casal de idosos à beira do passeio. Sentados em cadeirinhas, têm à frente vários baldes de plástico cheios de favas verdes acabadas de colher, ainda na vagem. Aproximo-me e pergunto-lhes de onde vem o produto.
“Somos de Sinjil, a aldeia que o Exército israelita cercou completamente de arame farpado”, responde o homem. A mulher intervém: “As ervilhas estão a 10 shekels o quilo, um pouco mais caras do que no ano passado.” Ela parece quase desculpar-se, mas não o suficiente para esconder a exasperação. “Só que este ano, vamos ter de pagar renda pela terra.”
Vira-se para o marido como se se lembrasse de alguma coisa e comenta: “Sabes quanto vai custar um galão de azeite este ano? E alguém o quererá comprar?”
1 O dunam é a unidade de medida de superfície otomana, na Palestina equivalente a 1 km².
No dia 28 deste mês. A Justiça Federal de São Paulo condenou José Maria de Almeida, presidente do PSTU, partido legal brasileiro, a dois anos de detenção pelo suposto crime de racismo contra os judeus num ato público realizado na Avenida Paulista de São Paulo, em outubro de 2023.
As alegações para tal se baseiam no facto de que teria sido uma incitação contra todos os judeus, tanto do Brasil como de Israel.
Waldo Mermelstein, cidadão brasileiro e judeu de uma família oriunda do Leste da Europa vítima do holocausto, defende aqui Zé Maria e enquadra as perseguições que estão a ser feitas contra ativistas defensores dos Palestinianos, acusados de “antissemitismo”.
Waldo Mermelstein
A razão para tal é que ao denunciar as políticas sistematicamente discriminatórias contra os palestinos, estaria colocando em risco os judeus.
Em primeiro lugar, qual a razão desta ofensiva contra destacados opositores da política do Estado de Israel contra os Palestinos?
O fundamental é que após o ataque do Hamas contra Israel em 2023, o Estado sionista (como ele próprio se declara) lançou uma ofensiva militar bárbara contra a Faixa de Gaza, que destruiu propositalmente toda a infraestrutura para a vida dos Palestinos que ali habitam. Mais de 70 mil mortos, em sua maioria crianças (além de um número bem maior de vítimas não contabilizadas.
Quando do ataque do Hamas a Israel, entre algumas das primeiras reações lúcidas esteve a do secretário-geral da ONU, António Guterres, que recordou o que corretamente denominou de o contexto em que ocorreu. Em primeiro lugar, em sua declaração de 24 de outubro de 2023 em reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, disse que o ataque do Hamas “não aconteceu no vácuo”, mas sim no contexto de 56 anos de ocupação sufocante, com a ocupação contínua de territórios e a expansão de colonatos.
De uma forma mais concreta, o veterano jornalista do jornal israelita Haaretz Gideon Levy declarou à imprensa: “[os habitantes de Gaza] foram colocados por Israel durante 17 anos em uma jaula, o que vocês queriam que eles fizessem?” (referindo-se ao facto de Gaza ser totalmente cercada e dominada por mar, ar e terra desde 2006 e de Israel controlar até as quantidades de calorias que entram na dieta dos Palestinos).
Mas, com a visão da História, é importante alargar o panorama que levou à situação atual:
O sionismo é uma ideologia (e depois uma corrente política e, depois da criação do Estado de Israel, a ideologia do Estado, em suas versões de “esquerda” e direita, como o atual primeiro-ministro Netanyahu.
A Palestina tem sido habitada desde há vários séculos pelos seus habitantes originários, os árabes palestinos. A ideia do sionismo era que, para escapar do antissemitismo, os judeus deveriam emigrar para a Palestina, que supostamente estaria vazia (Daí o bordão sionista, “uma terra sem povo para um povo sem terra”.)
Por supostas razões bíblicas reivindicavam o direito de implantar seu Estado. Para facilitar a obra começaram uma ação de organização dos imigrantes em uma estrutura separada dos habitantes locais. Sob a proteção do Reino Unido, que de 1921 em diante tinha o Mandato da Liga das Nações para a Palestina e em 1948, sentiram que havia uma oportunidade única pelo contexto do Holocausto. Em uma fatídica sessão, a Assembleia da recentemente criada ONU aprovou a partilha do território, outorgando 55% (e as melhores terras) para o 1/3 de judeus que lá moravam. Por alguns anos essa votação foi possível na ONU, antes da entrada de dezenas de novos países com a libertação nacional em particular na África. Assim que foi votada a criação de Israel, os sionistas, então majoritariamente de “esquerda” (as aspas se devem a que não faz sentido um colonialista se declarar de esquerda e ser adepto de um projeto de um colonialismo de povoamento, em que além de dominarem a população local e o território cobiçado, queriam criar uma nova pátria). Não é um caso único, apesar das especificidades, mas os exemplos dos EUA, da Austrália e da Argélia oferecem formas similares, mas não, obviamente, idênticas.
A criação do novo Estado deu a grande oportunidade: as milícias sionistas realizaram a limpeza étnica de mais de 2/3 da população local e dominaram 78% do território da Palestina. E incumpriram uma resolução da ONU nunca revogada em que se declarava o direito absoluto a voltarem para suas terras e propriedades. Gaza é composta em 80% por refugiados palestinos. Após muitos anos negando esse facto, já começou a se formar um novo consenso de que houve uma expulsão planejada pelos sionistas. Devemos essa versão aos ativistas e historiadores palestinos e, depois, aos chamados “novos historiadores” em Israel, como Ilan Pappe e Avi Schlaim, que dissecaram o tema, inclusive em livros traduzidos para português.
O segundo passo foi o de moldar o novo Estado: ele seria um estado “judaico”, sem dar direitos iguais aos Palestinos. Foi votada uma “lei do retorno”, que permitia a qualquer judeu do mundo migrar para Israel, ao mesmo tempo que os mais de 750 mil palestinos expulsos poderiam fazê-lo1. Nos primeiros 19 anos estes foram dirigidos por um governo militar. Em 1956, Israel se configurou como o aliado mais fiável do imperialismo americano e ocidental no Oriente Médio. Um exemplo gritante disso foi a guerra conjunta com Inglaterra e França em 1956 contra o Egito de Gamal Abdel Nasser, que havia nacionalizado o canal de Suez. Em 1967, Israel se aproveita do erro de cálculo de Nasser de ameaçar Israel sem ter condições para tal e, como o apoio decisivo dos EUA, ocupam toda a Palestina. Desde então, os habitantes desses territórios vivem sob um regime abertamente discriminante: centenas de milhares de colonos ilegais se estabeleceram especialmente na Cisjordânia e em Jerusalém, destruindo qualquer possiblidade de uma solução injusta de dois Estados. Injusta porque permite que Israel fique com a maioria da Palestina, perante um Estado palestino desarmado e incapaz de funcionar.
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Pouco a pouco, o regime interno de Israel em relação aos Palestinos foi se tornando cada vez mais cruel. São os tempos do Muro da Vergonha na Cisjordânia, do bloqueio total de Gaza e da opressão cada vez maior dos palestinos de Israel propriamente. Exemplos disso são a lei da nacionalidade que decreta que o direito de autodeterminação em Israel é privativo dos judeus, que o único idioma oficial é o hebraico e que os colonatos judaicos nos territórios ocupados são um valor nacional e que deve ser promovido. Na verdade, codifica uma situação já existente, mas sempre é importante a formalização.
E isso nos leva às razões da perseguição e condenação de Zé Maria.
Em maio de 2016, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto (IHRA em sua sigla em inglês) adotou uma definição de antissemitismo que, infelizmente, foi adotada por muitos países e que declara que as críticas a Israel são uma forma de antissemitismo. Esta definição está sendo utilizada para impedir a ação e atemorizar os ativistas pró-palestinos.
Nesse contexto, surgem em muitos países causas judiciais e perseguição policial contra os que se solidarizam com a Palestina. Por exemplo, Jeremy Corbin, que foi ostracizado no Partido Trabalhista na Inglaterra com a falsa acusação de conivência com ações antissemitas.
No Brasil, já tivemos dois casos muito comentados, o ataque a Milton Temer e Breno Altman, ambos terminados sem condenação.
A agressão israelense a Gaza mudou muito o cenário da solidariedade com os Palestinos, em particular na Europa e nos EUA. Imensas manifestações na Inglaterra, greves gerais na Itália e na Espanha e um grande movimento nos EUA, inclusive pela maior comunidade judaica fora de Israel, em particular entre os jovens.
Tudo isso torna o sionismo mais agressivo. Dois exemplos recentes demonstram isso:
o sequestro da flotilha Global Sumud de ajuda humanitária para Gaza em águas internacionais próximas à Grécia, onde foram submetidos a violência extrema por 40 horas. Foram entregues ao Governo grego, onde foram submetidos à ação da polícia que quer deportá-los. Mais: dois dos ativistas foram levados para interrogatório em masmorras sionistas, Thiago Ávila (brasileiro) e Saif Abukeshekd, de origem palestina e que conta com nacionalidade espanhola e sueca, o que mostra a agressividade com qualquer movimento de solidariedade. Em resposta, já houve dezenas de manifestações na Itália contra esta violência. Para ler-se um relato oficial da Flotilha consultar: https://www.laizquierdadiario.com/Israel-libera-a-la-mayoria-de-los-secuestrados-de-la-Flotilla-a-Gaza-pero-mantiene-como-rehenes-a
A segunda mostra de agressividade inaudita mesmo para os sionistas é a lei que permite que haja uma diferenciação na punição de supostos crimes de sangue realizados por palestinos dentro de Israel e nos territórios palestinos ocupados, destinado a pena de morte por enforcamento. Esse é um retrato do apartheid a que são submetidos os palestinos. Essa agressividade derivada da efetividade do apoio mundial à solidariedade contra o apartheid e o genocídio é o que explica que agora busquem condenar Zé Maria por um crime que não cometeu.
É importante entender de quem estamos falando. Conheço o Zé Maria desde 1977, quando ele tinha 18 anos e fora preso por um mês por distribuir um panfleto convocando o Primeiro de Maio e foi submetido a fortes torturas que só cessaram quando o movimento estudantil saiu às ruas pela primeira vez desde 1968 e conquistou sua libertação e dos seus companheiros/as presos/s.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Depois disso, Zé Maria se transformou em parte da história da luta contra a ditadura e do movimento operário. Em 1979, no Congresso estadual do estado de São Paulo, na cidade de Lins, foi ele quem apresentou a moção aprovada por só um voto contrário, de um dirigente do PCB, para a criação de um partido de trabalhadores, que foi adotada pelo chamado Novo Sindicalismo, liderado por Lula e outros dirigentes.
Seguindo sua peregrinação militante, Zé Maria era um dos dirigentes da Oposição Sindical e se tornou dirigente dos metalúrgicos de Belo Horizonte e dirigiu a greve com ocupação e gestão operária por 10 dias (para evitar danos à maquinaria). E de lá para cá seguiu militando no movimento dos trabalhadores e desde alguns anos como dirigente do PSTU.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Como judeu, antissionista desde 1973, considero esta luta fundamental e que não tem nada a ver com antissemitismo, nem racismo, porque não ataca os judeus por serem judeus, mas os sionistas, sejam eles judeus ou parte da imensa legião de cristãos sionistas, embora a sentença tenha ignorado este facto, argumentando equivocadamente que ele fez ataques aos judeus do mundo. E aceita a alegação de que Israel fala pelos judeus. Eu e muitos outros judeus dizemos sempre: “Não em nosso nome.”
1 A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 194, ditando que "os refugiados que desejem retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais cedo possível, e que uma compensação deve ser paga pelos bens daqueles que optam por não retornar e pela perda ou dano à propriedade que, de acordo com os princípios do direito internacional ou da equidade, deve ser cumprida pelos governos ou autoridades responsáveis.
Se os maiores cineastas e artistas do nosso tempo não se conseguem levantar para dizer que o que tem acontecido em Gaza, o que está a acontecer em Gaza é um genocídio do povo palestiniano pelo Estado de Israel, saibam que a história os julgará.
In Which Annie Gives It Those Ones (“De como a Anita lhes mostra como é”), um filme algo esdrúxulo que escrevi há 38 anos, foi seleccionado para exibição na secção “Clássicos” da Berlinale 2026 (o festival de cinema de Berlim). Senti-o um pouco como um acto de ternura, uma maravilha.
Embora as posições que têm sido tomadas pelo Governo alemão e por várias instituições culturais alemãs sobre a Palestina me tenham perturbado profundamente, tenho sempre sentido solidariedade política ao expor a públicos alemães a minha opinião sobre o genocídio em Gaza. Isso permitia-me pensar em assistir à exibição de Annie na Berlinale.
Esta manhã, ouvi, tal como milhões de pessoas em todo o mundo, as inconcebíveis declarações de membros do júri do festival de cinema de Berlim quando lhes pediram que comentassem o genocídio em Gaza. Ouvi-los a dizer que a arte não deve ser política é de deixar qualquer um de boca aberta. É calar a discussão de um crime contra a humanidade que está a ocorrer à frente dos nossos olhos, ao vivo – quando os artistas, escritores e cineastas deviam estar a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para pará-lo.
Ouvi, tal como milhões de pessoas em todo o mundo, as inconcebíveis declarações de membros do júri do festival de cinema de Berlim quando lhes pediram que comentassem o genocídio em Gaza.
Vou dizer isto com toda a clareza: o que tem acontecido em Gaza, o que está a acontecer em Gaza, é um genocídio do povo palestiniano pelo Estado de Israel. É apoiado e financiado pelos governos dos Estados Unidos e da Alemanha, assim como por vários outros países da Europa, o que faz deles cúmplices do crime.
Se os maiores cineastas e artistas do nosso tempo não se conseguem levantar para dizer isto, saibam que a história os julgará. Eu fico chocada e enojada.
É com profundo pesar que me vejo obrigada a dizer que não comparecerei na Berlinale.
Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias
A Acumulação do Capital: Uma Contribuição à Teoria Econômica do Imperialismo, de Rosa Luxemburgo, foi publicado em 1913 às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Suas avaliações críticas ao colonialismo e ao imperialismo não estavam apartadas da sua própria experiência como uma judia crescendo na Polónia ocupada pela Rússia, ela estava pessoalmente consciente dos impactos da dominação colonial.
Já nos seus primeiros trabalhos, esteve comprometida com a denúncia de como o extermínio dos povos indígenas e a interferência do capitalismo euro-americano nas formações sociais do mundo não ocidental não eram um acidente ocasional da acumulação de capital, mas sua própria base. Faz parte do capitalismo eliminar as economias pré-capitalistas, autossuficientes e não monetárias, transformando-as em ferramentas para acumulação de capital. Para tanto, faz uso de métodos como violência, fraude e até mesmo de genocídios.
Nesse sentido, embora motivações ideológicas facilitem o processo, o imperialismo é impulsionado pelas engrenagens do próprio capital, e por isso é viabilizado tanto em formas autoritárias de governo, quanto em “democracias” capitalistas.
“Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.”
Maria Mies, uma das primeiras feministas a analisar sistematicamente o papel das mulheres no capitalismo com base na estrutura de Rosa Luxemburgo, em seu livro Patriarcado e acumulação em escala mundial, aplica a teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo às mulheres, ao seu trabalho e à família.
A abordagem de Mies traça paralelos entre o trabalho feminino e o trabalho não remunerado de camponeses, colónias e outros “meios não capitalistas”, que Luxemburgo descreveu como sendo explorados “gratuitamente”, de forma semelhante à natureza. Maria Mies não vê o patriarcado e o capitalismo como sistemas separados, antes compreende que eles formam uma única entidade: o patriarcado capitalista. Por isso, para ela a subjugação das mulheres não se deve à misoginia masculina inerente, mas sim a uma necessidade estrutural para a acumulação de capital. Assim como Rosa Luxemburgo via a acumulação primitiva como intrínseca ao capitalismo, Mies afirma que o capitalismo não pode funcionar sem o patriarcado, visto que a acumulação contínua de capital requer a manutenção ou a criação de relações de género patriarcais e/ou coloniais.
Se Mies vê o patriarcado como expressão intrínseca da acumulação primitiva, também é verdade que os sujeitos dentro de um estado de exceção estão a mercê da mesma lógica da acumulação primitiva. Nesse sentido, os corpos racializados e colonizados de Gaza encontram-se em posição equiparada de exploração. Se em certo contexto histórico de superexploração, trabalhavam para empresas israelitas como forças de reservas para baixarem os salários, agora são expulsos do próprio território para aumentarem o valor de exploração.
No livro Pele Negra, máscaras brancas Frantz Fanon argumentou que a crescente conscientização dos trabalhadores em países colonizadores e racistas – levou a uma evolução no conceito de raça. Se o racismo vulgar e biológico correspondia ao período de exploração bruta do trabalho físico, onde a subjugação e a desumanização dos escravizados eram justificadas por hierarquias raciais pseudocientíficas, à medida que os meios de produção se tornaram mais avançados, as técnicas de exploração — e as formas de racismo — tornaram-se mais dissimuladas. A distinção colonial/racial entre civilização e barbárie evoluiu para uma divisão entre aqueles percebidos como capazes de dominar a natureza e aqueles vistos como subjugados por ela ou inerentemente parte dela.
Já Tithi Bhattacharya defende que todo esse processo sempre aconteceu sobre uma base de racialização intensa, o que não só fomentou a manutenção dos salários baixos, como fez subempregos parecerem um presente do capital a determinadas comunidades racializadas. Reconhecer as principais vítimas desse caminho também nos faz compreender porque sindicatos formados em sua maioria por trabalhadores do Sul global compostos por uma classe trabalhadora diversa, demonstram maior solidariedade e identificação com Gaza do que tantos outros da Europa.
Contudo, é importante reconhecer que o que tem sido feito ainda é muito pouco. O que estamos a assistir nada mais é do que a lógica da guerra infinita como dispositivo de governo, onde a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Antes, o que temos visto é a consolidação daquilo que Giorgio Agamben chamou de paradigma da exceção. Simplesmente, porque militarizar as mentes é também acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo. É a banalização das piores violências, como um soberano que tem direito sobre a vida do outro.
Segundo Carl Schmitt, trata-se da construção no imaginário social de um inimigo eterno, onde a militarização das mentes emerge como uma técnica eficaz para acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo.
Fenómenos que podem ser observados desde os discursos de ódio e dessensibilização em face à violência estatal nas periferias do mundo, quanto na execução da política colonialista do Estado israelita que se estrutura desde a Guerra Fria através da emergência de um Estado que se estabeleceu enquanto superpotência na ordem bipolar. A política baseada no proveito político e económico feito pelo movimento sionista que fez que este se aliasse a uma potência capitalista imperialista, capaz de assegurar a expulsão sistemática dos Palestinos, é a prova da instrumentalização desse processo. Características que podem ser observadas na tentativa de confinar o máximo de palestinianos, mas também no roubo de recursos estratégicos (água e terra cultivável), utilização da mão de obra barata, trabalho análogo ao escravo.
Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza há décadas é compreender as estruturas que autorizam e naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo a serem aplicados em escala indefinida contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.
O ativista e investigador palestiniano Naji El Khatib, que esteve há meses numa palestra no Porto, refere, em entrevista à página francesa em linha Reporterre, que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político. Ele lembra que a colonização continua entretanto, com a cumplicidade material da França. O leitor notará que tudo o que Naji El-Khatib diz se aplica na íntegra ao reconhecimento da Palestina pelo Estado português e à figura cínica e sinistra feita pelo ministro Rangel e pelo presidente Marcelo.
Que pensa do anúncio de Emmanuel Macron de reconhecer o Estado palestiniano?
Naji El Khatib Este anúncio suscita-me, em primeiro lugar, muitas dúvidas. Agirá Emmanuel Macron por sentimento de culpa, ou será, antes, um caso de cálculo político, para recauchutar a sua imagem, quando há agora uma queixa apresentada contra ele no Tribunal Internacional de Justiça, por cumplicidade com genocídio? Neste contexto, custa não ver neste gesto uma manobra de diversão. Há meses que a rua francesa se mobiliza contra os massacres em Gaza e pelos direitos dos Palestinianos.
No entanto, não acredito que Macron esteja a agir por remorso. Os seus aliados dizem-no cínico: parece-me que o reconhecimento é principalmente uma ferramenta de comunicação política. Chega tarde, muito tarde. Já mais de 140 países reconheceram o Estado palestiniano. Acima de tudo, porém, este Estado, o Estado derivado dos acordos de Oslo (1993), é um “Estado fantoche”, incapaz de responder às necessidades reais dos Palestinianos.
Hoje, os territórios reservados a um futuro Estado palestiniano correspondem a uns meros 10% da Palestina mandatária original. Falo como refugiado: a minha família foi expulsa de Jaffa em 1948. Ora, 60% dos palestinianos partilham esse destino do exílio forçado. A questão do direito ao regresso sempre foi excluída das negociações.
O que nos é proposto não é um Estado viável, é um simulacro que ratifica o esquecimento de centenas de milhares de expulsos. Por isso falo de uma farsa, perigosa para os direitos históricos do povo palestiniano, do rio até ao mar.
Acusa a França de cumplicidade com Israel. Em que consiste a cumplicidade, na sua opinião?
Naji El Khatib Em primeiro lugar, cumplicidade material. A França nunca deixou de fornecer armas e munições a Israel. Novos carregamentos partem regularmente do Aeroporto de Roissy. Há também empresas francesas a fornecer tecnologias utilizadas nos drones israelitas. Esta cadeia de produção alimenta diretamente a máquina de guerra.
Há, todavia, resistência: os estivadores de Marselha têm-se recusado a carregar caixas destinadas a Israel. Já o Estado francês continua. Como se pode pretender estar a reconhecer o direito dos Palestinianos à autodeterminação se, ao mesmo tempo, se arma quem os bombardeia e coloniza a sua terra?
Cumplicidade, igualmente, política. A França não impôs nenhuma sanção, apesar de dispor de meios de pressão económica e diplomática significativos. Permanecer em silêncio diante de um genocídio é participar nele. O coletivo de 114 advogados que está por detrás da queixa contra o Estado francês evoca-o com clareza: não agir para impedir um crime é ser cúmplice dele. Macron tenta mascarar essa responsabilidade com um reconhecimento do Estado palestiniano, mas a realidade é outra: fornecimento de armas, nenhuma sanção, inércia diplomática. Tudo isto configura participação direta e indireta no genocídio.
Mesmo assim, que consequências concretas pode ter o reconhecimento?
Naji El Khatib Em política, o simbolismo só tem peso se se traduzir em relações de força. Reconhecer o Estado palestiniano sem agir contra o agressor não muda nada. Enquanto a colonização continuar a avançar, enquanto se multiplicarem os ataques de colonos armados, assim como as barragens de controlo, é do foro da ilusão andar a falar de Estado palestiniano.
Para o reconhecimento ter sentido, seriam necessárias medidas concretas: sanções económicas, embargo militar e científico, retirar o embaixador. A França tem meios para fazê-lo. Mas não há sinais que indiquem tal vontade. Este anúncio é, portanto, uma manobra do foro do marketing político e, o que é pior, sem sanções nem medidas concretas, o risco é que a seguir se acelere a colonização e os territórios palestinianos se fragmentem.
O que pensa da iniciativa da Flotilha da Liberdade para Gaza?
Naji El Khatib É um ato de coragem essencial. Perante o bloqueio e o genocídio, não podemos manter-nos espectadores. A Flotilha procura quebrar o isolamento de Gaza e levar ajuda vital a uma população atingida pela fome e pelos bombardeamentos. Centenas de pessoas já perderam a vida por falta de comida ou de cuidados médicos.
Eu próprio participei na Marcha para Gaza, no Egito, em junho. A iniciativa malogrou-se, mas encarnava essa vontade de “fazer algo”. A Flotilha inscreve-se na sua continuidade: encarna uma forma de esperança, provando que há gente, noutras partes do mundo, que não se contenta em manifestar-se, que está pronta a correr riscos perante uma máquina de guerra.
Isto é tanto mais importante, quanto o Estado israelita tenta tirar legitimidade a estas ações e preparar os espíritos para ataques contra elas. Os participantes são muitas vezes caricaturados como “terroristas” ou “jihadistas", tal como aconteceu com o ataque ao barco turco que rumava a Gaza em 2010. Apesar dos riscos, a Flotilha não deixa de ser um gesto concreto de solidariedade.
Há muitos ativistas ecologistas a participar na Flotilha. Como entende esta ligação entre a luta pela Palestina e as lutas ambientalistas?
Naji El Khatib A expropriação da Palestina não afeta apenas terras e casas: também transforma o ambiente. Desapareceu de toda a Galileia o tomilho selvagem, o zaatar. As florestas plantadas por Israel com espécies importadas da Europa destruíram as plantas locais e apagaram os vestígios das aldeias palestinianas destruídas em 1948. Com os bombardeamentos maciços, Gaza está a tornar-se inabitável, os solos, contaminados.
Genocídio e ecocídio andam de mãos dadas. Defender a Palestina é defender, ao mesmo tempo, um povo e o seu ambiente, a sua cultura e a sua ligação à terra. Por isso é tão importante a presença de ativistas ecologistas na Flotilha. Lembra que a luta pela Palestina é também uma luta por terras viáveis e um ambiente habitável. São lutas que não estão separadas, estão profundamente ligadas.
Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. Nenhuma compensação ou ajuste que não inclua o regresso ao trabalho no cais do seu porta-voz Erik Helgeson será aceite.
O Sindicato dos Estivadores (SDU) sueco reafirmou o seu compromisso de acabar com o comércio de material militar com Israel. O Tribunal do Trabalho escuta, entretanto, as alegações iniciais relativas ao despedimento do porta-voz nacional do sindicato, Erik Helgeson.
Em dezembro do ano passado, o Sindicato dos Estivadores sueco organizou um referendo sobre uma acção sindical de embargo do transporte por portos suecos de material militar de e para Israel. 68% dos sindicalizados de todo o país votaram a favor de avançar com o protesto, em solidariedade com a população civil palestiniana de Gaza e da Cisjordânia.
A acção do sindicato foi ferozmente contestada pelos empregadores portuários tanto na comunicação social como junto do Tribunal do Trabalho sueco. O sindicato avançou na mesma. Em fevereiro, o Tribunal do Trabalho concluiu pela legalidade da acção de solidariedade, que se poderia desenrolar nos termos planeados.
No entanto, no próprio dia do veredicto, o porta-voz do sindicato e vice-presidente nacional, Erik Helgeson, foi despedido pelo seu empregador, o Terminal Roro (de embarque e desembarque rolante) de Gotemburgo, cujo proprietário é a DFDS. O empregador notificou o despedimento em comunicado de imprensa em que referia preocupações de “segurança nacional”.
Esta semana, oito meses depois de defender em tribunal a acção solidária do sindicato, Helgeson voltou ao Tribunal do Trabalho de Estocolmo. Estava em causa, desta vez, o seu próprio despedimento ilegal. Era a primeira audição do caso, que se prevê arrastar-se até ao segundo semestre de 2026.
Na segunda-feira, dirigindo-se a apoiantes à porta do tribunal, Helgeson reafirmou que o sindicato se manterá firme.
* Nunca os empregadores irão ditar quem há-de poder falar pelo SDU. Numa democracia digna desse nome, tal decisão cabe exclusivamente aos estivadores sindicalizados.
* O SDU não se coibirá de manifestar solidariedade com outros trabalhadores sujeitos a injustiças. Atacar os nossos representantes eleitos não nos silenciará. A decisão dos sindicalizados de estarem solidários com a classe trabalhadora palestiniana mantém-se.
* É uma vergonha que o Estado sueco esteja, na realidade, a aumentar as suas importações de material militar de Israel quando 20 mil crianças palestinianas foram mortas na ofensiva contra Gaza. De acordo com a organização Save The Children, é o equivalente a uma criança morta por hora ao longo dos últimos 23 meses. O comércio de material militar com Israel tem de acabar.
* O SDU não se deixará abater nem pela difamação nem por exaustivos processos judiciais. Nenhuma compensação ou ajuste que não inclua o regresso de Erik ao trabalho no cais será aceite.
Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita — mas também pelo irmão egípcio. Alguns milhares de ativistas não podem franquear uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.
Junho de 2025: eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita — mas também pelo irmão egípcio. Alguns milhares de ativistas não podem franquear uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.
No dia 6 de dezembro de 2003, no auge da Intifada, após uma noite difícil, de combates incessantes entre o exército israelita e os combatentes palestinianos no bairro de al-Yasmina, na velha cidade de Nablus, onde eu na altura vivia, recebi uma mensagem do Consulado Francês em Jerusalém Oriental a anunciar-me que a minha viagem a Gaza estava cancelada.
Peguei nas coisas que tinha preparadas para um dia normal de trabalho na Universidade An-Najah, dividido entre a raiva e a resignação. Pronto: depois de meses de espera na lista de pessoas com autorização para se deslocarem a Gaza, tinham-me riscado da lista.
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Telefonei para Jerusalém. A resposta pacificou um pouco a minha raiva: Jane Birkin e os seus músicos precisavam de todos os veículos do Consulado Francês em Jerusalém Oriental para se poderem deslocar a Gaza e dar um concerto no Centro Cultural Rashad al-Shawa nos dias 8 e 9 de dezembro.
Pensei com os meus botões: que azar o meu, um palestiniano nascido no Líbano, animado pela paixão ardente de descobrir todos os recantos da Palestina, do rio até ao mar. Nablus representava, para mim, muito mais do que a universidade: era o meu ponto de partida para visitar todas as cidades e aldeias da Palestina. Exceto Gaza.
Mas que raio ia Jane Birkin fazer a Gaza? Cantar? Ou impedir as minhas peregrinações físicas e mentais aos lugares da minha memória familiar?
Como a maior parte dos Yafawi (habitantes de Jaffa) que fugiram da cidade por mar quando ela caiu perante a Telavive triunfante, eu estava para nascer em Gaza. Mas a inexperiência marítima de um pescador que nunca se atrevera a afastar-se da costa para pescar fez que acabasse por nascer noutro sítio, longe de Gaza. Em vez de se dirigir para sul, para Gaza, ele enganou-se no rumo e navegou para norte, em direção ao Líbano.
Desde então, visitar Gaza, onde eu devia ter nascido, tornou-se-me insistente obsessão. Tentei outra vez, em 2012. Não fui bem-sucedido. A minha frustração só crescia.
Junho de 2025. O meu filho mais velho, Samy, falou-me de uma marcha que se estava a organizar: para Gaza. Enquanto o escutava, vieram-me ao de cima todos os desejos insatisfeitos, todas as frustrações recalcadas. No espaço de poucos segundos, vi-me a entrar em Gaza — já não Gaza de 2003 ou de 2012, mas Gaza depois da guerra e do genocídio.
Sem hesitar, respondi: “Eu vou.”
Ele respondeu, com toda a naturalidade: “Eu também.”
Alguns dias depois, comprámos bilhetes para o Cairo. Era o meu segundo regresso à Palestina com destino a Gaza. Gaza encerra em si mesma todas as dimensões políticas, históricas e humanas da Palestina.
Gaza, gigantesco campo de refugiados.
Gaza, prisão a céu aberto.
Gaza que resiste.
Gaza, centelha de todas as lutas do povo palestiniano, de 1948 aos nossos dias.
Eis-nos a caminho de Gaza, a desejada, a inacessível, encerrada por detrás dos muros do bloqueio imposto pelo inimigo israelita, mas também pelo irmão egípcio.
Entre sonho e realidade, inscrevi-me oficialmente. Comecei a receber uma avalanche de mensagens da “March to Gaza” através dos respetivos grupos WhatsApp e Telegram. O número de inscritos aumentava de dia para dia.
Invadia-me um sentimento de felicidade, misturado com algum receio, ao ouvir e ler as ideias expressas por alguns participantes. Pouco a pouco, apesar de as condições serem tudo menos ideais, formou-se uma comunidade movida por um entusiasmo que alimentava uma mobilização internacional.
Um movimento de cidadãos, popular, não elitista, sem filiação política. Um movimento sem precedentes, que se poderia dizer internacionalista de tipo novo. Nos seus membros não há qualquer semelhança com os internacionalistas da guerra civil de Espanha, nem com os partidários de um internacionalismo comunista ou revolucionário clássico. Não reivindicam uma ideologia que sustente que os seres humanos se devam unir para defender interesses comuns por sobre fronteiras nacionais, políticas, culturais ou raciais.
Internacionalizaram-se antes pela Palestina, transmudada em símbolo universal de justiça.
Apesar do impasse do horizonte palestiniano enquanto se desenrola o genocído, a Palestina emerge em moldes que transcendem as suas fronteiras, a sua geografia e o seu povo. Ela encarna a “mais-valia” das lutas pela liberdade que transcendem os quadros nacionais e estatais. É a Palestina “não-palestiniana”, a Palestina de todos os que aspiram à liberdade, fora do espartilho do mercado capitalista e dos interesses imperialistas.
Não surpreende, pois, que a Palestina se tenha volvido causa principal da justiça no mundo, denunciando a injustiça nos quatro cantos do globo.
Emergindo como símbolo de justiça e projeto de libertação radical para a terra e a humanidade, a Palestina transcende as fronteiras naturais e humanas do seu território e do seu povo. Torna-se assim valor e símbolo universal.
Em nome deste internacionalismo palestinizado, os manifestantes encarnam a solidariedade internacional sem fronteiras nem exceções: defender a dignidade, a liberdade e a autodeterminação dos povos passa a compromisso universal. Na hora de lutar contra o genocídio, internacionalismo significa levantar-se e tomar a iniciativa, como ser humano responsável.
Estes internacionalistas são a gente fantástica que encontrei no Cairo e, depois, na primeira e na segunda barragem, onde as forças de segurança egípcias nos trataram à bruta, nos prenderam e agrediram para nos impedir de continuar o caminho para Ismailia e chegar a Al-Arish, ponto de partida para Gaza.
Tive a sorte imensa de conhecer seres humanos notáveis, chegados de dúzias de países, movidos pela compaixão pela Palestina e pela sua justa causa, exigindo o fim do genocídio em Gaza e a liberdade para a Palestina, do rio até ao mar.
Como participante palestiniano nesta marcha para Gaza, agradeci a todos por estarem do lado bom da história, o da justiça e da liberdade.
Fui testemunha do entusiasmo avassalador e da coragem sincera dos participantes na marcha. Mas também ouvi comentários irresponsáveis de uns poucos, observei falta de organização e de disciplina e, sobretudo, ignorância do território egípcio que tínhamos de atravessar.
Os organizadores anunciavam que “a Marcha Mundial para Gaza é um movimento de cidadãos, apolítico e independente”. Será, porém, possível escapar realmente à política e ao seu cálculo frio, desprovido de considerações humanistas e éticas?
Como há de querer chamar-se “apolítico” a um movimento que é fundamentalmente político, que exige o fim do genocídio, a retirada do exército israelita de Gaza e o levantamento do bloqueio imposto tanto por Israel como pelo Egito?
Ser a marcha um ato cívico por excelência não contradiz a sua natureza eminentemente política, por muito que os organizadores digam que “não representamos nenhum partido, ideologia ou religião. Representamos o povo, em toda a sua diversidade e humanidade”.
Na realidade, apesar destas afirmações simplistas e ingénuas, é exatamente no campo da política que nos movemos. A atitude das autoridades egípcias pôs à vista de todos o carácter profundamente político da marcha: proibida, os seus participantes detidos, agredidos e deportados, apesar de pacíficos e sem intenção violenta alguma.
A política do Estado egípcio responde à lógica do poder, aos interesses da classe dominante e a um cálculo frio em que não interessam para nada os “princípios orientadores” da marcha: justiça, dignidade humana, paz.
A ingenuidade que os organizadores exibiram ocultou as realidades políticas do momento. Quando estas realidades nos caíram brutalmente em cima, muitos participantes da marcha ficaram estupefactos.
Uma participante de origem árabe perguntou-me como era possível um Estado “irmão”, árabe e muçulmano, como o Egito comportar-se desta maneira.
Um jovem quis alugar uma motoreta para passar as barragens, convencido de que os jovens gendarmes egípcios nunca se atreveriam a disparar contra europeus solidários com a Palestina.
De cada vez que eu explicava as realidades do terreno, vi instalar-se deceção e desconfiança para comigo. Quando disse que não estávamos num país amigo, houve quem protestasse ruidosamente. As rusgas violentas da polícia aos hotéis e apartamentos em que estávamos, no Cairo, foram, porém, suficientes para que a realidade aparecesse nua e crua.
Não é que a cumplicidade do Egito seja novidade. O regime tem Gaza selada e isolada há anos, mesmo quando as forças israelitas não ocupam o lado palestiniano de Rafah. Milhares de palestinianos tiveram de pagar mais de 5000 dólares por pessoa para fugirem ao genocídio. Outros ainda têm de pagar quantias exorbitantes para que os camiões de ajuda humanitária possam entrar em Gaza.
O Egito continua a negar aos palestinianos que se encontram no seu território o direito a trabalhar, agravando a sua situação económica e deixando centenas de famílias em situação precária. Há quem acabe por querer voltar para Gaza. Têm, no entanto, o caminho obstruído.
De nada serve adoçar a realidade dos regimes cúmplices e dos mecanismos repressivos. O Egito viola a sua própria soberania quando permite que empresas como a Erjani lucrem com o bloqueio e o genocídio, concedendo seletivamente autorizações de entrada e saída de Gaza, esta faixa de Gaza que há décadas explora.
No regime do bloqueio, cada movimento requer subornos e esquemas clandestinos, reforçando um sistema mafioso assente no sofrimento dos palestinianos.
A caravana de Sumud e a Marcha Mundial para Gaza são atos de desafio, não ameaças militares. Uns poucos milhares de ativistas não podem atravessar uma das fronteiras mais militarizadas do mundo: a passagem de Rafah.
Contudo, os internacionalistas por Gaza e contra o genocídio encontrarão outras formas de continuar a luta pela Palestina e pela justiça à escala mundial.
Pela minha parte, eu lá continuarei, no meio daquela gente sincera e amorosa, na esperança de, um dia, ver Gaza, o meu amor.
Ilustrações:
João Mascarenhas
Inês Milagros
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