O nervo

O nervo

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Quando a enfermeira te meteu na boca a agulha da anestesia, desataste a rir:

– Cortaste-me o lábio?

A dentista não te respondeu. Deixou-te cinco minutos a sós com o formigueiro na boca e nos lábios… Cinco minutos bastam para todas as perguntas existenciais, a começar pela mais simples: “Que sentido tem a vida se temos de morrer?”

Sorris, tentando não me ouvir. Sabes que te vou responder: “Que sentido teria a vida se não tivéssemos de morrer?”

A dentista voltou, segurou-te na cara, abriu-te a boca e enfiou uma barragem de borracha dentária. Furou o molar, tirou o nervo… Que maravilha: já não tens nervo!

Mas ainda não acabara. Encheu-te a boca de medicamentos estranhos que davam náuseas. Ia conversando contigo enquanto trabalhava. Tu, sem poder falar, só podias anuir com a cabeça.

Que maravilha: já não tens nervo, e acenas com a cabeça por tudo e por nada.

***

Naquele dia, fui ver a minha tia. Lembras-te?

Tinhas-me aconselhado a visitá-la por dever familiar, e foi o que fiz. Como não havia de fazê-lo? Não tinha alternativa a não ser acenar com a cabeça e andar sem nervo.

– Tia, tinha saudades tuas – disse-lhe, ao beijá-la. Ainda antes de se preocupar com o meu dente, disse-me:

– Liga ao meu filho, despachem-se.

Acenei com a cabeça sem perceber, liguei ao filho dela e saí com ele para a aldeia de Deir Dibouan. Pelo caminho, ele foi-me contando a história. Eu ia acenando com a cabeça.

– Viste a fila de rapazes nus amarrados? – Acenei com a cabeça, sem perceber. Continuou: – Os soldados tocavam-nos como se tocassem ovelhas. Não viste? –

Não, acenei com a cabeça. Ele disse:

– Dá-me um cigarro, vou-te contar.

– A história, primo, foi que…

“Em directo de Ramallah: Um jovem de 25 anos foi morto a tiro por colonos israelitas durante um ataque de colonos à aldeia de Deir Dibouan. Os colonos abriram fogo, ferindo gravemente o jovem Awad Awawdeh, que acabou por sucumbir. Na sequência do incidente, o exército de ocupação fechou a entrada da aldeia e deteve trinta habitantes.”

– A história é esta, primo… Tens um cigarro?

***

Deu-lhe um cigarro, acenando violentamente com a cabeça, com a mão no molar ainda dormente por causa da anestesia. A pensar que iam ao funeral, mas porque guiava o primo tão depressa?

O jovem tinha sido morto a tiro por um colono, com os soldados a cercá-los. As redes sociais encheram-se de poemas e emojis tristes:

“Deixaram-no morrer sozinho.”

“Porque te foste?”

“Não acreditem no ulular, acreditem na lágrima do pai a olhar para a fotografia.”

“As pessoas ficam a dormir, indiferentes.”

“Perderam-no, pessoa por pessoa.”

“Já ninguém sente nada… Está tudo morto!”

Desligou o telemóvel, não quis escrever. Só pensava em “que sentido tem a vida se temos de morrer?” 

Ao chegar à aldeia, percebeu por que o primo guiava tão depressa: queria juntar-se aos moradores, que já tinham saído, de autocarro. Estava lá toda a comunidade. Não estava sozinho, nunca sozinho.

***

Ias seguindo constantemente a notícia nas redes sociais, lendo as publicações e os poemas tristes. Acenavas com a cabeça. Os meios de comunicação e as redes sociais tinham-te dado a impressão de que ele estava sozinho, que tinha morrido sozinho, que tinha partido sozinho. Mas não, estavam lá todos os moradores da aldeia.

Já os que filmavam com câmaras, os que escreviam, os que contavam histórias e compunham poemas tristes, os que se deixavam seduzir pelos paradoxos da morte, os que procuravam a metáfora, os que imploravam lágrimas — esses todos não repararam em nada, porque não estavam presentes. Não era solidão; era uma redefinição dos laços sociais.

Quando saíste com o teu primo e a gente da aldeia dele, paraste. Lembras-te? O teu primo mandou-te despachar-te, mas não percebeste porquê. Desta vez, não acenaste com a cabeça: não o seguiste, optaste por ficar um pouco mais, recusaste-te a afastar-te das pessoas, da realidade, daquele momento existencial verdadeiro. O teu primo dizia para irmos embora, mas tu não cedeste; não acenaste com a cabeça.

– Vá lá, deixa a vez aos outros – disse ele. Então viste dezenas de autocarros das aldeias vizinhas que estavam à espera da vez: Silwad, Mughayir, Kufr Malik… As aldeias vizinhas desciam em fila, cada pessoa repetia o mesmo ao pai do jovem: “Estamos contigo, somos teus filhos.”

Todos repetiam estas palavras. Tu, imóvel, perdido nas publicações das redes sociais. Não viste os autocarros a chegarem? As aldeias a levantarem-se? Vinham todos saudar o pai na presença do corpo do seu filho mártir. E tu, pobre louco, continuas a perguntar “que sentido tem a vida se temos de morrer?” Respondo-te eu: “E que sentido teria a vida se não tivéssemos de morrer?”

Saíste da aldeia com a mão no molar.

– Que se passa? –  perguntei-te. Disseste-me:

– Não sei… Dói-me o nervo. Acho que a dentista não o tirou todo.


Publicado originalmente em https://hara36.substack.com. Vozes e histórias da Palestina.

Tradução de Adriano Zilhão.