Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas?
E por que não te hei-de eu falar?
Walt Whitman
«A Ti», in Folhas de Erva
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
Relógio D’Água Editores, 2010
Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas? E por que não te hei-de eu falar? Walt Whitman «A Ti», in Folhas de Erva Tradução de Maria de Lourdes Guimarães Relógio D’Água Editores, 2010
Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas?
E por que não te hei-de eu falar?
Walt Whitman
«A Ti», in Folhas de Erva
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
Relógio D’Água Editores, 2010
Foi na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos.
O leitor pode estar a perguntar-se: “Será mesmo que a Odisseia é uma canção de luta?”
Antes de se tornar um livro ou um filme, tanto a Ilíada quanto a Odisseia de Homero eram cantos. Versos cantados, e é por essa denominação que continuam dividindo cada parte da narrativa desses heróis míticos – Aquiles e Ulisses (Odisseu). Não são “capítulos”, como na literatura, mas “cantos”.
Os poemas homéricos são bastante longos e, sendo cantados e memorizados, teriam sido propagados de geração em geração até ganhar a forma escrita alfabética dos Gregos. Posteriormente foram traduzidos para latim pelos Romanos e assim chegaram até nós seus versos, sem que saibamos ao certo como era a melodia original da música que os acompanhava.
Mas, considerando a Odisseia como canção, pode ser considerada “de luta”?
A tradição de contar em versos as façanhas dos guerreiros em sua memória remonta a esses aedos, como eram chamados na antiga Grécia os bardos que cantavam as glórias dos heróis do passado.
Na Ilíada se conta, na guerra de Troia, a razão da “fúria de Aquiles”, o modo como se enfrentou com Heitor após a morte de seu amigo Pátroclo, vestido com sua armadura. Na Odisseia, contudo, o que se narra é a história de Ulisses/Odisseu e suas peripécias (e também truques e mentiras) na tentativa de voltar e retomar o lar e o trono de rei na ilha de Ítaca.
É certo que a Ilíada trata da luta: a honra, a virtude, a destreza e a força dos guerreiros aqueus, em especial de Aquiles. Contudo, Odisseu luta não contra homens apenas, mas contra seres fantásticos, dotados de superpoderes, e até mesmo contra o deus dos mares Poseidon, cujo nome foi traduzido para o latim pelos romanos como Neptuno.
Considerando que a Odisseia é uma canção de luta, poderia perguntar-se: “Afinal, de que tipo de luta?” Não seria esta coluna dedicada especificamente à luta de classes?
As canções de luta de classes são, antes de mais nada, canções de luta, que conclamam à tomada de consciência, à mudança de atitude, ao rompimento com a passividade e o conformismo, e louvam aqueles que tiveram coragem para explicar, mobilizar e conduzir a luta da classe operária em diferentes sentidos e contextos.
Esse não é o sentido da Odisseia, onde o herói é um aristocrata, líder militar e proprietário de escravos que se manterão fieis ao seu amo para ajudá-lo a retomar o poder e ter restituídos seu lar, sua família e seus bens patrimoniais. Não se trata de tomada de consciência de classe, mas daquilo que Marx chamaria de uma disputa interclassista.
Na Odisseia, não há qualquer ruptura revolucionária com o modo de produção escravista antigo que, naquele contexto, estava se constituindo na Grécia e posteriormente em Roma, em oposição ao modo de produção asiático predominante nos impérios do Egito, da Mesopotâmia, da Pérsia, da Índia e da China antigas.
Então, qual é a importância desta canção de luta para o Ocidente e para a luta da classe trabalhadora? Ora, como diria o dramaturgo Bertolt Brecht, toda forma de linguagem reflete a ideologia de sua época, mas as formas estéticas que a elaboram servem como moldura narrativa de outras lutas a serem narradas. Cada povo e cada classe elabora seus próprios códigos de luta, mas sempre a partir de uma matriz referencial.
A Odisseia é um modelo que serviu a diversas historias na literatura, no cinema e nas artes plásticas relacionadas com o “retorno do herói”. Esse retorno pode também ser lido de forma alegórica, com a superação de desafios que a princípio o impediam de cumprir seus objetivos. Um jogo de estratégia em que a cada novo patamar de alcance surgem novas dificuldades imprevistas que envolvem o uso inteligente da força, da astúcia, das armas e em alguma instância da sorte, manifesta nessa história pela “ajuda dos deuses”.
A balada épica inspirou o cancioneiro dos trovadores de diversos contextos e épocas. Assim seria o Cantar del mio Cid ou a Chanson de Roland. Mais tarde, Os Lusíadas, de Camões, acabou sendo escrito diretamente inspirado na epopeia de Homero, em grande parte as viagens de Ulisses – a quem se atribuiu erroneamente a fundação de Lisboa, embora os Fenícios já andassem na costa de Portugal bem antes dos Gregos.
Até o início do século XX, o certo é que foi através de canções que foram propagadas as façanhas de heróis e anti-heróis populares. De malfeitores do “velho oeste” dos Estados Unidos, como Billy the Kid, personagens míticos como o gaúcho argentino Martín Fierro ou heróis populares de moral duvidosa como Lampião, o bandoleiro nordestino conhecido como o “rei do cangaço”, no Brasil. Essas narrativas épicas, cantadas em feiras itinerantes, eram vendidas em folhetos onde poderia se acompanhar a letra, gravuras da estória e às vezes até mesmo a partitura da melodia.
É precisamente na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos, com o bordão que sintetiza a trama da história: “Ulisses da guerra pra casa voltando/ enfrenta Neptuno na fúria do mar”. Este é um panorama da Odisseia, uma cantoria de quase 20 minutos, resumindo o que no cinema dura duas ou até três horas, como a recente produção do cineasta Christopher Nolan.
A versão também é mais curta que outros poemas e obras literárias que se inspiram ou parodiam a Odisseia de Homero, como os Cantos de Ezra Pound ou o Ulysses de James Joyce. Aliás, Joyce escreveu sua versão vanguardista da Odisseia em Zurique, na mesma época em que Lenine ali se encontrava exilado, em 1916, no contexto da Primeira Guerra Mundial. Sabe-se que Lenine morava na mesma rua do Cabaret Voltaire, a casa noturna criada por Hugo Ball para produzir happenings dadaístas que desafiavam a estética tradicional. E talvez Lenine e Joyce tenham até mesmo casualmente conversado algum dia sobre literatura, podendo o escritor irlandês ter comentado ao revolucionário russo sobre seu ambicioso projeto homérico moderno que começara a escrever ali em Zurique.
Tudo isso poderia ter acontecido, mas o facto é que em outubro de 1917, na Estação Finlândia, Lenine dava início à revolução que acabaria com a exploração dos trabalhadores pela burguesia ociosa – o início de uma grande odisseia da classe trabalhadora. Mas não se tratava de restaurar uma era gloriosa da monarquia anterior, senão de inaugurar um mundo inteiramente novo. Para isso mobilizou toda sua capacidade na elaboração de táticas e estratégias que permitissem construir um poder paralelo para confrontar o Estado, tomar o poder, acabar com a guerra e dividir as terras.
Em outras palavras, tratava-se de usar a força e a astúcia para acabar com o mundo que os senhores da guerra e da terra haviam criado. Homens como os que lutaram na guerra de Troia, que acabou vencida não apenas pela força, mas sobretudo pela estratégia de Ulisses, astúcia que Homero cantou em versos, propagando suas aventuras ao longo de séculos. Se Ulisses retomou o poder, isso não seria possível sem a ajuda de entidades divinas e humanas, como a do seu filho, a do rei dos Feácios, mas também da classe trabalhadora representada pelo porqueiro Eumeu e do vaqueiro que, armados a seu lado, enfrentam seus inimigos.
Aqui, deixo uma livre interpretação da “canção de luta” de Homero que deveria se propagar em canto acompanhada apenas do arpejo lírico. Usamos apenas gravuras de John Flaxman, um artista inglês romântico do final do século XVIII cuja obra foi publicada no contexto das guerras napoleónicas. Porque, afinal, toda adaptação de uma odisseia sempre reflete o presente sobre o passado clássico da humanidade, de onde surgem sempre novas interpretações.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”.
“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”
Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação.
Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.
Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.
Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.
É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.
Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”
É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.
Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.
Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade.
A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas.
Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.
Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa.
Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”
Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.
Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.
Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.
Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.
Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida.
Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.
Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.
Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.
Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.
Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.
Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.
Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.
O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia.
Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.
Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega.
Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.
O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.
Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.
A questão é se sobreviveremos ao processo.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, otimização é um nome feminino que designa 1) ato ou efeito de otimizar; 2) reestruturação efetuada com o objetivo de obter o maior rendimento possível; 3) determinação, no estudo de um problema, da solução que, de entre todas as soluções possíveis, conduza
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, otimização é um nome feminino que designa 1) ato ou efeito de otimizar; 2) reestruturação efetuada com o objetivo de obter o maior rendimento possível; 3) determinação, no estudo de um problema, da solução que, de entre todas as soluções possíveis, conduza aos resultados mais satisfatórios.
EM NOVILÍNGUA:
Se perguntarmos ao Google, este, usando a IA, diz-nos que a definição básica de otimização significa reestruturar ou ajustar variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível. Usando a nossa própria inteligência, numa simples ida ao supermercado, podemos ver como se “reestruturam ou ajustam variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível”: a variável “emprego” nas caixas foi “reestruturada” para obter o “maior rendimento ou o melhor resultado possível” (para os patrões): os clientes são agora “convidados” a fazer o trabalho dos e das operadoras de caixa que foram, entretanto, despedidos. Ou então fazem fila pacientemente por vezes na única caixa aberta operada por um empregado. ASP
Sai agosto, entra setembro. E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise, regressa a penates.
Agosto é um mês que me irrita, desde que não o passo no meio dos montes ou na cidade do Porto.
Eu adorava ficar na cidade em agosto, porque estavam os amigos que viviam fora, de férias e cheios de tempo.
O Porto serenava, tinha uma onda diferente do resto do ano.
Na Beira Alta não me apercebia da turba, a não ser numa festa ou outra.
Juntávamos o grupo de urbanitas que desciam ao povoado vindos como bandos de pardais.
Este ano a Costa Nova estava a rebentar pelas costuras, apesar da quebra no consumo. A lancheira ganhou aos bares e restaurantes, cujo preço é incomportável para uma família.
Começaram por cortar nas entradas e nas saídas, as sobremesas. Depois dividiam um prato, uma água e até um café.
Os restaurantes mais caros, a dita pancada alta, sempre cheios a baterem certo com o luxuoso parque automóvel.
Há qualquer coisa que não bate certo, porque nunca vi, a não ser no tempo dos yuppies, tanto carro de luxo. Ferrari para aqui, Aston Martin para ali, Maseratis lindos.
E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise.
Aqui em Aveiro diz-se que quem não rema, já remou, o que é certinho como o Big Ben.
Agosto descarna todas estas idiossincrasias que me fazem pele de galinha.
Uns cospem para o chão, outros ameaçam de pancadaria por um lugar de estacionamento, a tatuagem suada numa camisola de mangas cavas, o gelado a ser lambido por um piercing na ponta da língua...
E eu sempre a dizer a mim que não tinha fumado nada, que não tinha engolido nadinha, que tudo é real, que tenho de aguentar, o ai aguenta, aguenta do outro pedante, até setembro.
E aguentei.
Hoje vai tocar a corneta.
A partir de amanhã, como dizia a nossa Sophia de Mello Breyner, vai-se notar mais aristocracia de comportamento, que era o seu grande objetivo com o socialismo, um sentido de solidariedade, de igualdade, de fraternidade.
Os mais humildes são quase sempre os mais nobres.
Todos os anos, nas freguesias da ilha Terceira, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?”

Deve haver poucas coisas de que goste ou desgoste tanto como uma boa e uma má peça de teatro. Colam-se ao corpo o belo, o sublime, a criação, e o torpe, o bizarro e o constrangimento. No tempo de Shakespeare o teatro era popular, durava com frequência cinco horas, e as pessoas conversavam, comiam, pateavam, aplaudiam, bebiam e riam no meio da peça.
Leva-me a imaginação para cinco horas de uma peça, cinco horas sentados, sem respirar (tossir é ainda mais grave), conceptual, sem narrativa, com atores tão dramáticos que exageram o exagero e que o encenador acha que para ver as entranhas é preciso mostrá-las.
O que mudou de Shakespeare até hoje? Ouço tantos atores queixarem-se do público, creio que não sabem, ou já deixaram de saber, que só quando todos fizermos teatro haverá públicos para teatro. Foi mais ou menos isso que encontrei na ilha Terceira. E não me tomem por defensora dessa ideia de que só o que é lúdico e alegre é tolerável. Em rigor, uma boa peça de teatro, dramática, intensa, profunda, só pode ser boa quando amplas camadas da população fazem teatro, é esse o meu argumento, e que remete para uma ideia que não é minha, mas de um senhor barbudo, desconhecido por tantos, chamado Karl Marx: no capitalismo dá-se a separação entre produtores e consumidores; nem todos seremos grandes atores, mas todos iremos gostar de teatro se todos fizermos teatro ou, como disse Boal, o teatro é tão importante que até deve ser feito por atores.
Recordo de memória um testemunho do Zeca, já amado pelas massas, em que ele dizia que agora tinha muito público, mas do que ele gostava mesmo era de cantar com as pessoas e não para as pessoas.
Fui àquela que foi, com certeza, a festa mais deslumbrante onde alguma vez estive na vida – e olhem que conheço algumas festas populares nos Alpes e nos Pirenéus, refúgios de cultura que a orografia, a vida camponesa e os subsídios agrícolas preservaram. A festa foi o Carnaval da Ilha Terceira. Uma ilha em que todos fazem teatro. Uma ilha que mudou a relação entre produtores e consumidores, e o sentido do trabalho e, por isso, da cultura.
Não imaginava que pudesse estar sete horas a assistir a teatro sem debandar ou atirar tomates ao palco. Mas estive, e durante três dias, sete horas num dia, cinco no outro. Espero convencer-vos de que não exagero nas palavras. Tudo o que morreu em quase toda a parte do mundo ali mantém-se vivo, como semente de um futuro porvir. Na Terceira quem produz é quem consome, os que escutam música são músicos, os espectadores também fazem teatro, a cultura é de todos. Por razões que não estão totalmente claras – apesar de muitos terem estudado, e bem, o fenómeno –, o Carnaval como sempre foi, teatro popular (não teatro para o povo), ali mantém-se.
Todos os anos, nas freguesias da ilha, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?” Vão ter com poetas locais – alguns escritores maiores formados em anos desta façanha que é ser humano – e contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA, da falta de dinheiro e dos esquemas para o conseguir, das vaquinhas e das touradas, do amor, da morte, da vida. Nada de humano lhes é estranho. Reconhecimento e representação, duas palavras-chave para entender a subjetividade e a política. Depois, a eles juntam-se um dos mais de 30 grupos musicais das filarmónicas que, agora com o roubo da IA e dos direitos de autor pelas big techs e afins, voltaram a compor mais músicas originais. Pede-se às costureiras para fazerem os fatos, em geral pomposos e brilhantes, e por elas desenhados. Também aqui quem faz pensa. Ensaia-se durante os dias frios de janeiro, nas sedes das sociedades recreativas, casas do povo, dezenas destes lugares e, se necessário, garagens, com batata-doce e alfaias agrícolas ao lado de cervejas e alcatra fumegante. Há grupos de homens, mulheres, mistos, jovens e velhos, lavradores, cabeleireiras, biólogos, mecânicos, professores, polícias, enfermeiros, lavradores, cientistas, um encontro democrático, igualitário.
Contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA…
Geralmente cada peça dura entre 25 e 40 minutos. Quando chega o dia, cada grupo de bailinhos, em geral 20 a 30 pessoas, vai de freguesia em freguesia apresentar no palco da sociedade filarmónica, recreativa, casa do povo, dos lavradores, o seu bailinho. Não há dinheiro, ninguém paga para fazer, entrar, assistir e participar.
É muito difícil explicar a todos, mas sobretudo aos atores, que o problema do teatro não está no público. Nem o problema dos escritores ou dos músicos está nos leitores e nos ouvintes. O problema está nesta divisão entre produtores e consumidores, entrem quem pensa e quem faz.
O sociólogo Richard Sennett defende que a democracia não se encontra numa cidade em que cada um respeita a cultura do outro, essencializada (visão kantiana e multiculturalista), mas na existência de espaços – como não elogiar as sociedades filarmónicas, o sentar à mesma mesa e conviver, os bailes? – onde vivemos e convivemos com quem é diferente (universalismo concreto). Uma cidade sem muros nem ameias foi o que encontrei no Carnaval da Terceira.
A classificação eventual do Carnaval da Terceira como património imaterial da humanidade reconhece a importância desta cultura, desta gente, desta arte, mas paradoxalmente pode impor-lhe limites e uma arquitetura que põe em causa essa mesma espontaneidade, essa relação entre trabalho e cultura, essa autonomia, que faz este carnaval. Caberá aos que fazem teatro pensar sobre este desafio.
*Este artigo foi realizado no âmbito da residência da historiadora Raquel Varela na 1ª edição do Monte Brasil – Festival Internacional de Literatura e História de Angra do Heroísmo. Associação Dois Caminhos/Lar Doce Livro.
Sindicatos representativos de operários de quarenta portos da Europa e do Mediterrâneo apelam a jornada de luta internacional contra a guerra e o genocídio no dia 30 de Outubro.

Sindicatos de estivadores de França, Grécia, País Basco, Turquia, Marrocos e Itália convocam para 30 de Outubro uma jornada internacional de luta “contra a guerra e a militarização”. Exigem o fim do “genocídio do povo palestiniano” e das “guerras de agressão dos EUA e de Israel no Médio Oriente e contra o Irão”.
“Cada sindicato decidirá a forma de mobilização mais adequada consoante as circunstâncias nacionais, a partir de acções de greve e de um compromisso comum de impedir carregamentos de morte e destruição”, lê-se numa declaração conjunta dos sindicatos enviada às publicações Workday Magazine e In These Times no dia 31 de Julho.
Em conjunto, estes sindicatos representam, como referem na sua declaração, operários de 40 portos da Europa e do Mediterrâneo. O apelo a escalar a luta saiu de uma reunião de sindicatos de trabalhadores portuários realizada em Istambul em Maio passado. No anúncio que fizeram, manifestam, ainda, “solidariedade plena com os povos de Cuba, da Venezuela e do Sudão” e defendem que “os portos não podem ser usados para transportar armas, munições, equipamento militar ou tropas destinados a zonas de guerra”.
“Não à economia de guerra, aos planos de rearmamento dos Estados e ao projecto de militarização dos portos e infra-estruturas estratégicas da UE”, defendem os sindicatos no comunicado. “Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar guerras”. Entre os signatários contam-se a CGT FNPD de França, o ENEDEP da Grécia, o LAB do País Basco, o LIMAN-IS da Turquia, a ODT de Marrocos e a ORSA Porti e a USB de Itália.
Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar a guerra.
Tem havido, desde Outubro de 2023, repetidos apelos de sindicalistas palestinianos aos sindicalistas de todo o mundo para que entrem em greve e se recusem a operar carregamentos de armas destinados a Israel, protestem contra a campanha militar de Israel em Gaza, denunciada como genocídio por grupos de direitos humanos de primeira linha e académicos (os Estados Unidos têm prestado decisivo apoio político e financeiro a Israel). Em 5 de Abril de 2025, a Federação Geral dos Sindicatos de Gaza apelou a que os sindicalistas “fizessem pressão a sério para acabar com esta guerra suja”. Os estivadores têm-se empenhado activamente em corresponder a este apelo.
Da Bélgica à Suécia e à Itália, estivadores têm-se recusado a manusear componentes de armas com destino a Gaza. No dia 6 de Fevereiro, paralisaram 21 portos em todo o Mediterrâneo, incluindo Bilbau e Tânger, em protesto contra o uso de infra-estruturas portuárias civis para fins militares e a integração dos seus postos de trabalho numa economia de guerra.
A declaração surge na sequência das duas greves gerais realizadas em Itália no Outono de 2025 em solidariedade com os Palestinianos. Há dez meses, cerca de 60 estivadores reuniram-se no edifício da Autoridade Portuária de Civitavecchia, uma pequena cidade costeira italiana a noroeste de Roma. Era o dia 22 de Setembro de 2025. Tinham abandonado os postos de trabalho ao começar o dia, paralisando o porto, como parte de uma greve geral para protestar contra o facto de o Governo italiano ser o terceiro maior fornecedor de armas a Israel. Viram-se rodeados por cerca de 600 pessoas a aplaudi-los — estudantes, professores, trabalhadores ferroviários, funcionários públicos —, uma multidão significativa para uma cidade tão pequena.
“Que bela imagem, os estivadores rodeados pela sua cidade”, recorda Riccardo Petrarolo, um membro da coordenadora nacional da USB (Unione Sindacale di Base) nos portos italianos.
Os estivadores começaram a receber mensagens WhatsApp de colegas de cidades maiores, como Livorno e Génova, a informá-los de que também os operários dessas cidades tinham paralisado os portos. E dos meios de comunicação social iam aparecendo notícias de greves e encerramentos. “Diziam que exactamente a mesma coisa estava a acontecer nos outros portos”, refere Petrarolo. De cada vez que estivadores anunciavam um novo encerramento pelo sistema de som, conta-me Petrarolo, a multidão soltava “um grito de aplauso, como num estádio”.
Estas acções são fruto de décadas de relações com os Palestinianos construídas pelos operários e de anos de mobilização contra a participação no transporte de armas. A 30 de Agosto de 2025, 40 mil pessoas reuniram-se em Génova para despedir a Flotilha Global Sumud, que partia para levar alimentos e ajuda a Gaza. A luta da flotilha para chegar a Gaza calou fundo entre os trabalhadores do mar — os que trabalham nas docas, os que carregam e descarregam navios, os que reparam e movimentam equipamento e transportam mercadorias para outros portos; e os ataques às embarcações causaram profunda indignação.
Riccardo Rudino, um estivador filiado no Colectivo Autónomo dos Trabalhadores Portuários (CALP), um sindicato independente de Génova, prometeu à multidão que se despedia dos navios que “se perdermos o contacto com os nossos camaradas da flotilha, nem que seja por 20 minutos, bloquearemos toda a Europa a partir das docas de Génova. Nem um prego daqui sai. Será uma greve global”.
Os estivadores de Génova acabaram por convocar rapidamente uma greve geral, para 22 de Setembro, em protesto contra a cumplicidade da Itália no ataque a Gaza. A USB, que conta cerca de 100 mil membros nos sectores privado e público, apoiou a acção. Cerca de meio milhão de pessoas abandonaram os postos de trabalho nesse dia. Um milhão participou em protestos pelas vilas e cidades de toda a Itália. Auto-estradas, ruas e metros ficaram paralisados, ao passo que, em todo o país, a população fazia sua a palavra de ordem “Blocchiamo tutto”: “Bloqueemos tudo!”
José Nivoi, um estivador e porta-voz do CALP que embarcou na Flotilha Global Sumud, concedeu uma entrevista, de bordo, no dia 23 de Setembro, em que apoiava a greve. Disse ele que “as mobilizações que temos estado a fazer são em apoio total à Palestina, e nós nunca recuámos”.
Nos dias 1 e 2 de Outubro de 2025, Israel interceptou os navios da flotilha e deteve as centenas de pessoas a bordo. Chegava a hora de dar corpo à ameaça de “nem um prego”. Os militantes italianos responderam com uma greve geral ainda maior, a 3 de Outubro. Desta vez, a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL), a maior federação sindical de Itália, convocou a greve, tal como a USB. Estima-se em 2 milhões os participantes nos protestos, em mais de oitenta cidades. Portos e auto-estradas bloqueados e encerrados, linhas ferroviárias interrompidas, escolas e universidades fechadas.
“As coisas organizaram-se muito rapidamente e fora do quadro legal de Itália. Tal como antes, envolveram cidades grandes e pequenas e muita gente que saiu à rua em solidariedade”, relata Petrarolo, da USB. “Claro que isso provocou uma reacção do Estado italiano, com multas aos sindicatos e acções policiais e judiciais contra os organizadores. Mas isso não impediu a organização, e o resultado concreto foi que, no dia seguinte, 1 milhão de pessoas saíram à rua em Roma.”
Os estivadores esperam aproveitar o balanço. O anúncio da jornada de luta de 30 de Outubro baseia-se na “Declaração de Istambul”, aprovada por todos os signatários. A par das reivindicações contra a guerra, os trabalhadores vincam a exigência de que “os acordos coletivos garantam aumentos salariais reais, emprego seguro, redução do horário de trabalho e disposições justas em matéria de pensões”. E não querem que a mecanização ou a inteligência artificial “eliminem postos de trabalho ou prejudiquem os direitos dos trabalhadores”.
Os sindicatos dizem-se “prontos para se reunirem com grupos organizados de estivadores de quaisquer outros portos interessados em integrar esta luta comum”.
*Sarah Lazare, publicado em In These Times (31 de Julho de 2026).
Tradução de Adriano Zilhão.
Guifões apareceu ainda há poucas semanas nas notícias com abundância de palavreado e políticos a posar para as fotografias: lá iria nascer a futura fábrica de comboios. Acabado o foguetório, chega a primeira medida prática: retirar o comboio que leva os ferroviários ao trabalho.

Há poucas semanas, Guifões voltava às notícias. Discursos, anúncios, fotografias e palavras grandes sobre o futuro. Falava-se do início de uma nova etapa para a indústria ferroviária portuguesa e da futura fábrica de comboios que deverá nascer em Guifões.
O futuro parecia promissor.
Durou pouco.
Passadas poucas semanas, os trabalhadores que já hoje dão vida a Guifões recebem uma mensagem bastante diferente: o comboio operário acabou.
É difícil imaginar melhor retrato da distância que tantas vezes existe entre os grandes anúncios e a realidade de quem trabalha.
Para o País anunciam-se comboios novos. Para os trabalhadores retira-se o comboio que os leva ao trabalho.
O comboio operário assegurava a ligação entre Ermesinde e as Oficinas de Guifões, nos dois sentidos. A sua supressão afeta cerca de 80 trabalhadores, aproximadamente 30% do efetivo da oficina, incluindo trabalhadores provenientes dos distritos do Porto, Braga e Aveiro.
Não estamos, portanto, perante uma pequena comodidade concedida a meia dúzia de pessoas.
Estamos perante uma condição concreta da vida de dezenas de trabalhadores.
O seu desaparecimento significa alternativas de transporte menos compatíveis com os horários das oficinas, deslocações mais penosas, menos descanso e menos tempo para a vida pessoal e familiar. Tudo isto imposto a trabalhadores que exercem funções tecnicamente exigentes, onde concentração, responsabilidade e segurança fazem parte do trabalho diário.
Talvez numa folha de cálculo tudo isto seja difícil de contabilizar.
O tempo que um trabalhador deixa de passar com os filhos não aparece nas contas.
O despertador que toca mais cedo também não.
O tempo adicional perdido no regresso a casa não aparece.
O cansaço acumulado não tem uma coluna própria no Excel.
Mas existe.
Não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.
E é aqui que esta decisão deixa de ser apenas incompreensível para se tornar profundamente desrespeitosa para com os trabalhadores da CP.
Porque não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.
Não se pode querer a fotografia do futuro e desprezar quem garante o presente.
Mais: fala-se constantemente da dificuldade em contratar trabalhadores especializados para a ferrovia. Em Guifões, esse desafio será ainda maior se a anunciada fábrica de comboios se concretizar.
Então expliquem-nos a estratégia.
Queremos trazer mais trabalhadores para Guifões, mas começamos por dificultar a vida aos que já lá estão?
Queremos tornar Guifões num grande polo ferroviário, mas acabamos com uma ligação ferroviária utilizada pelos próprios ferroviários?
Queremos construir comboios em Guifões, mas não conseguimos manter o comboio que leva os trabalhadores a Guifões?
Há ironias que se escrevem sozinhas.
E há ainda uma parte desta história que torna tudo isto mais difícil de aceitar.
Guifões tem memória.
Em 2011, o processo que culminou no encerramento da oficina foi também acompanhado pelo desaparecimento do comboio operário e pela sua substituição por transporte rodoviário. Muitos dos trabalhadores que hoje assistem a esta decisão viveram esse período.
Não afirmamos que Guifões vai voltar a fechar.
Mas recusamo-nos a ter memória curta.
O comboio operário desapareceu uma vez.
Depois desapareceu Guifões.
Custou anos, luta e investimento recuperar aquilo que se perdeu.
Por isso, quando vemos novamente desaparecer o primeiro, temos todo o direito de perguntar para onde nos querem levar desta vez.
E talvez seja isto que mais revolta: enquanto se fazem anúncios sobre aquilo que Guifões poderá ser amanhã, parece existir cada vez menos consideração por aqueles que fazem Guifões funcionar hoje.
Os direitos e as condições de trabalho raramente desaparecem todos de uma vez.
Primeiro perde-se um transporte. Depois altera-se um horário. Depois desaparece outra condição.
Cada decisão é apresentada isoladamente como pequena, racional ou inevitável. Até ao dia em que olhamos para trás e percebemos tudo aquilo que ficou pelo caminho.
A Comissão de Trabalhadores, o STMEFE e o SNTSF exigiram à Administração da CP a reposição do comboio operário.
Não estamos a pedir um privilégio. Estamos a exigir respeito. Respeito por cerca de 80 trabalhadores. Respeito por quem manteve Guifões vivo quando era muito mais fácil desistir dele. Respeito por quem todos os dias garante que há material circulante em condições de prestar serviço. E respeito pela própria história ferroviária de Guifões.
Podem anunciar milhões. Podem lançar primeiras pedras. Podem fazer discursos sobre o futuro da indústria ferroviária portuguesa. Mas nenhuma fábrica, oficina ou ferrovia existe sem trabalhadores.
E antes de prometerem o futuro de Guifões, talvez fosse boa ideia começarem por respeitar aqueles que já lá estão.

Foi notícia, no mês de Agosto, a inauguração do primeiro centro de saúde para utentes do SNS gerido por privados, no concelho de Torres Vedras (Expresso, 7/8).

O plano do Governo era começar com a privatização dos centros de saúde há dois anos. No entanto, o interesse dos privados foi discreto. Mas o primeiro-ministro mantém-se firme: abrirá, diz, 20 unidades geridas por privados (metade da meta inicial).
Até ao fim do ano, unidades como esta deverão abrir em Óbidos, Bombarral, Caldas da Rainha, Silves. Mais tarde, Lagos, Albufeira, Loulé, Portimão.
O objectivo declarado da operação de privatização é dar médico de família a quem não o tem (segundo o Expresso, a equipa de saúde contratada já admitiu que isso não irá acontecer).
Em todo o caso, merece estudo a “lógica profunda” desta operação de privatização. Ela é muito instrutiva sobre o modelo de pilhagem de fundos públicos pela “economia privada” que actualmente rege o país.
Até ao fim do ano, unidades como esta deverão abrir em Óbidos, Bombarral, Caldas da Rainha, Silves. Mais tarde, Lagos, Albufeira, Loulé, Portimão.”
A gestão da nova unidade de saúde familiar do modelo C (USF-C) foi atribuída à empresa de serviços clínicos KnokHealth Portugal, com sede em Matosinhos. A Knok receberá do SNS 2,4 milhões de euros durante cinco anos.
A firma é controlada por uma holding, chamada Seems Possible, Lda. Esta Seems Possible é propriedade de dois homens. Um é médico, o outro, ex-executivo da Sonae. Em 2025, o volume de negócios da empresa terá sido de 10,1 milhões de euros. O lucro atingiu 1,4 milhões, o que dá uma taxa de lucro de 14%.
A Knok não se define como empresa de prestação de serviços de medicina ou de cuidados médicos. É uma “empresa de tecnologia na área da medicina”. A sua especialidade é a “teleconsulta e a medicina via digital”. O “modelo operacional” da empresa é “digital-first” (o digital primeiro).
O SNS assenta noutro “modelo operacional”, conhecido como medicina. O princípio da medicina é diametralmente oposto ao da Knok: é o da administração pessoal de cuidados aos doentes por profissionais de saúde qualificados (médicos e enfermeiros) em instalações criadas, organizadas e equipadas expressamente para o efeito: hospitais, centros de saúde, etc. Os prestadores de cuidados médicos servem-se, “primeiro”, dos seus próprios órgãos dos sentidos — visão, audição, tacto e olfacto, treinados para o efeito — para avaliar o estado de saúde do doente.
Talvez se pudesse chamar ao “modelo operacional” do SNS “a pessoa primeiro” — ou, no português mais moderno da Knok, “patient-first”.
O SNS é inteiramente financiado pelo Orçamento do Estado e pela segurança social, portanto, pelos impostos e pelos salários dos trabalhadores (as contribuições para a segurança social são parte do salário). As suas prestações são gratuitas para os utentes. Por definição, o SNS não pode “dar lucro”.
Como podem então geri-lo privados de modo a dele extrair lucro?
Do lado das receitas, já se viu que a Knok receberá 2,4 milhões de euros do SNS.
E do lado dos custos, os operacionais, com pessoal e financeiros?
A primeira pergunta que mais exactamente pede resposta é esta: como se financia e quem financia a empresa privada que irá gerir a USF de São Pedro da Cadeira?
Vejamos.
Edificações e equipamentos são uma componente importante da infra-estrutura de uma operação “realmente existente” e, portanto, do seu custo. O edifício da USF pertence “à Câmara Municipal de Torres Vedras, que cedeu a utilização à empresa e os direitos de renovação (…), o cofundador e CEO da Knok garante que o espaço ‘é novo e está numa condição excelente, portanto não faz sentido mudar o que está bem’” (Eco, 3 de Agosto). As instalações foram inauguradas em Maio de 2025 “na sequência de um processo de modernização cofinanciado pelo PRR – Plano de Recuperação e Resiliência em cerca de 600 mil euros”. Olha que sorte: é um custo financeiro que os investidores privados não têm de suportar (ao contrário do SNS). Pagaram-no… fundos públicos!
O financiamento operacional da empresa Knok tem três pilares-chave:
a) Financiamento conseguido pela via do Fundo Social Europeu (um fundo público, europeu), que permitiu a aquisição de uma participação de capital no valor de €1,43 milhões de euros (https://www.fi-compass.eu/stories/fresh-air-portugals-healthcare), detida pelo Fundo de Inovação Social português (fundo público, português), gerido pelo Banco Português de Fomento (banco público, português).
b) Capital de risco privado e co-investidores
Outros 1,7 milhões vieram de um intermediário financeiro de capital de risco, a Mustard Seed MAZE (MSM), uma parceria entre o fundo de impacto MAZE, que é por sua vez uma parceria com a Fundação Gulbenkian, e o fundo de capital de risco inglês Mustard Seed, fundado por ex-investidores no gigantesco banco de investimento americano Goldman Sachs, na gigantesca gestora de fundos americana BlackRock, no gigantesco fundo soberano do Abu Dhabi e na gigantesca gestora de fundos americana KKR.
A MSM espera dos seus investimentos “retornos financeiros competitivos”.
Uma ronda de financiamento suplementar da Knok, no valor de 4,4 milhões, foi co-dirigida pela empresa portuguesa privada de capital de risco Armilar Venture Partners. Fundada no ano 2000, a Armilar tinha, até 2014, o nome Espírito Santo Ventures: parte integrante do saudoso BES…
Os fundos que a Armilar gere e investe não são, porém, seus: têm origem em “apoios institucionais de primeira grandeza”: o Fundo Europeu de Investimento (EIF, dependente do Banco Europeu de Investimento, banco público, europeu), o SETT, uma instituição financeira e de investimento tecnológico (instituição pública, espanhola), e… outra vez, o Banco Português de Fomento (banco público).
Também a gestora de activos britânica Triple Point & Ryse Asset Management participou, mais modestamente, no financiamento da “expansão internacional” da Knok.
Por fim, o fundo NOS 5G, gerido pela empresa de telecomunicações NOS, controlada pela Sonae, injectou 4,4 milhões de euros — em troca, nomeadamente, de a Knok usar as redes da NOS.
É de presumir (e de esperar) que o pessoal que trabalhará na USF gerida pelos privados tenha recebido a sua educação e formação em escolas e universidades. Em Portugal, são públicas as faculdades de Medicina em que se formaram os médicos actuais do País. Elas funcionam, no essencial, com financiamento público, do Orçamento do Estado e de fundos públicos nacionais e europeus.
Adicionalmente, só pode trabalhar numa USF privada quem estiver “desvinculado” do SNS há mais de três anos. Isto implica afastar do centro de saúde actual o pessoal que não cumpra tal requisito.
Na “actividade” de um centro de saúde, tenha ele o nome ou a letra que tiver, verificam-se, portanto, os seguintes factos:
Nestas condições, é legítimo perguntar: como e de onde pode uma empresa que faça “exactamente o mesmo” que o SNS (como diz a propaganda oficial) extrair lucro para os seus investidores — e à belíssima taxa a que a Knok está habituada?
A resposta está no próprio lema da Knok: o digital primeiro, o doente depois.
Na palavra “teleconsulta”, a especialidade que a Knok vende, tele vem do grego; quer dizer à distância (como em televisão, telefone, etc.).
Entregue-se uma montanha de fundos públicos a dinâmicos gestores privados capazes de produzir power points vistosos com muitas palavras que parecem inglesas; os gestores põem uns médicos a receber telefonemas das pessoas com problemas de saúde; o médico manda umas receitas para a app.
A isto se resume o modelo de negócio lucrativo das novas USFs privadas.
Dinheiro do Estado, para perto; o doente, para longe; o médico, para o telefone e o ecrã.
Ou dá um belo lucro ou ficam a arder fundos públicos, e o SNS que recolha os cacos.
O mercado trata-nos da saúde.
Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de ju
Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho.

A Venezuela vive uma tragédia histórica. Enquanto o Campeonato do Mundo de Futebol desviava a atenção da grande comunicação social internacional da situação colonial que os Estados Unidos impuseram à Venezuela desde 3 de janeiro, uma parte significativa da esquerda continental e mundial recebia com alívio esse afastamento mediático, já que deixara de encontrar argumentos para justificar a rendição que a Junta de Administração Colonial do país faz aos desígnios da administração Trump. Esta Junta de Administração Colonial é liderada pelos irmãos Rodríguez (Delcy e Jorge) e por Diosdado Cabello2.
O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora. O salário mínimo base permaneceu ancorado em menos de 0,4 dólares mensais, e a bonificação dos rendimentos, via bónus e subsídios sem incidência salarial, não chegou a 200 dólares por mês, nem alcançou toda a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, o dólar voltou a disparar (atualmente acima de 745 bolívares), o que tem impulsionado a inflação num país onde cada produto do cabaz básico pode chegar a custar duas ou três vezes mais do que a média regional3.
Pelas mãos de Marco Rubio, a Venezuela regressou ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, e embora o “Delcinato” tente justificá-lo como a única possibilidade de recuperar os 5 mil milhões de dólares retidos pelo FMI e que pertencem à Venezuela, a realidade é que isso implica um novo ajuste estrutural da economia. O antecedente mais recente de um pacote de medidas económicas e políticas contra a classe trabalhadora, que nada ficou a dever às receitas neoliberais, foi aplicado por Nicolás Maduro, entre 2018 e 2025. O mais grave é que os irmãos Rodríguez e Diosdado Cabello mantêm silêncio absoluto quanto à continuidade das sanções e ao bloqueio das contas internacionais da Venezuela, impostos pelos Estados Unidos desde o primeiro governo daquele que agora definem como parceiro, Donald Trump.
O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora.
A 13 de maio deste ano, o Governo venezuelano anunciou o início da reestruturação da dívida do país em diálogo com o FMI. Uma dívida estimada, à data, em 170 mil milhões de dólares, valor que contrasta com os 82 mil milhões de dólares em receitas que o país terá, segundo estimativas da própria organização multilateral, em 2026. Dias mais tarde, a 26 de maio, Delcy Rodríguez anunciou ainda a criação da Comissão Presidencial para a Reestruturação e Reengenharia do Governo, com o objetivo de torná-lo mais eficaz, ou seja, anunciou uma reforma do Estado no estilo das recomendações do FMI, focada em encolher o Estado sob o pretexto de tornar os gastos públicos mais eficientes.
Um mês depois, a 24 de junho, horas antes de se desencadear a tragédia sísmica, o Financial Times noticiava que o Governo venezuelano iria divulgar o valor da dívida externa do país, reestimada em cerca de 240 mil milhões de dólares, um montante que se compara ao que provocou a crise da dívida na Grécia, o país mais endividado da zona euro em percentagem do PIB. Este valor explica a urgência da Junta de Administração Colonial em reestruturar o Governo e faz prever despedimentos, o encerramento de instituições públicas e a intensificação do corralito sobre os salários da classe trabalhadora local4.
Na Venezuela, a relação entre trabalho e salário atingiu um ponto que alguns especialistas classificam como uma nova escravidão, marcada pelo desaparecimento do salário real e pela sua substituição por rendimentos baseados em bonificações, inseridos na estrutura económica salarial local. Tal tem invariavelmente conduzido à perda dos direitos laborais adquiridos, à precariedade dos valores pagos por férias e ao subsídio de Natal (décimo terceiro mês) ou na impossibilidade de obter uma pensão de reforma que permita a compra de pelo menos um medicamento nas farmácias do país5.
Com a aprovação da nova Lei dos Hidrocarbonetos, aprovada de modo acelerado pelo parlamento colonial dos irmãos Rodríguez e companhia, reduziram-se as receitas do petróleo venezuelano por barril de 10 para 1,7 dólares, o que nos faz recordar a legislação setorial aprovada pela social-democracia nos anos 40 do século XX. Tudo parece indicar que, no curto prazo, o caminho será o do trágico aprofundamento do já conhecido colapso de todos os serviços públicos. Em apenas uma década (2014-2024), a Venezuela perdeu os elementos mais palpáveis da modernidade institucional burguesa, entrando numa fase de retorno à pré-modernidade, de tal modo que a campanha eleitoral de 2024 focou-se no acesso à água potável, à eletricidade, ao transporte público, à segurança policial e ao funcionamento mínimo das escolas e universidades.
Apesar de tudo, e embora possa parecer incrível, a diáspora migratória, estimada em cerca de seis milhões de venezuelanos e venezuelanas, conseguiu, através das suas remessas, ajudar a atenuar a crise de rendimentos. Contudo, não há dinheiro que possa manter o poder de compra face ao avanço desenfreado da inflação.
Um elemento significativo, apenas explicável como parte da derrota histórica da revolução bolivariana, foi a simpatia que a captura, o sequestro e a prisão nos Estados Unidos do casal presidencial Maduro-Flores suscitaram na maioria da população. Ao contrário de 2002, quando a população foi massivamente às ruas e derrotou o golpe de estado contra Hugo Chávez, desta vez viram-se apenas reduzidas concentrações, organizadas pela cada vez mais pequena base social do madurismo, e cuja liderança rapidamente transitou para um “Delcinato colonial”.
As simpatias pela operação militar gringa estavam assim relacionadas com a situação material da classe trabalhadora e o silogismo interpretativo que muitos fizeram: “se o desaparecimento dos salários e a precariedade das condições materiais da vida, como efeito das sanções dos EUA, têm origem na rivalidade entre Maduro e Trump, então, se Maduro não estiver no poder, a situação vai melhorar”. Em boa verdade, a generalidade da população acreditou que as sanções seriam suspensas, que a Venezuela poderia vender petróleo livremente e que as receitas melhorariam a sua situação económica. Mas o que aconteceu foi a manutenção dessa precariedade e até mesmo o seu agravamento, o que está a transformar as simpatias em desilusão e irritação com os gringos, ainda que tal não se tenha, ainda, traduzido num movimento anti-imperialista com expressão de massas.
O panorama é, no mínimo, sombrio.
Quando se pensava que as coisas não poderiam piorar, a realidade acabou por demonstrar o contrário. Dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho, num evento sísmico que os especialistas descrevem como um “dupleto”6. Dezenas de prédios colapsaram; outros ficaram inabitáveis ou severamente danificados, sendo La Guaira, localizada em frente ao mar, a área mais afetada. Milhares de mortes e um número ainda não estimado de pessoas desaparecidas revelam a magnitude da catástrofe.
Como num filme de terror, as primeiras horas não contaram nem com a presença nem com o auxílio do Exército ou dos altos funcionários. Apenas bombeiros locais, a proteção civil e um número crescente de cidadãos voluntários assumiram, por iniciativa própria, o cuidado e o socorro às vítimas. Enterrava-se assim, junto com as infraestruturas colapsadas no terramoto, o discurso da aliança cívico-militar como motor de mudança na Venezuela.
Mas em política não há vazio que se sustente: por isso, um mar de mãos e corpos solidários construiu uma cadeia humana de ajuda mútua, fazendo chegar, de todos os cantos do país, remédios, comida, roupas, pertences e ferramentas para ajudar a resgatar as pessoas presas nos escombros. Os equipamentos pesados de salvamento e resgate demoraram mais de 36 horas para chegar, tendo sido as brigadas internacionais de ajuda o motor da ação humanitária tecnicamente qualificada e os que testemunharam o que ali se passava.
Quase todo o litoral de La Guaira foi reduzido a escombros, ruindo tanto urbanizações construídas pelo Governo como pelo setor privado. As denúncias de pessoas afetadas, que habitavam apartamentos e casas de interesse social entregues pelo Governo nacional, mostram imagens de erros estruturais de construção que exigem uma investigação pública para determinar a veracidade das denúncias e apurar futuras responsabilidades.
Perante o abandono contínuo do Governo nas horas e dias que se seguiram à tragédia, a resposta do povo foi contundente. Imediatamente após a tragédia, e em contraste com a ineficácia governamental, gerou-se uma onda de solidariedade cidadã, que se recusava a entregar alimentos e remédios a representantes do Governo, por desconfiar que estes não chegariam às vítimas. Caravanas sucessivas de voluntários e voluntárias, auto-organizados, formaram uma ponte permanente de auxílio.
A resposta oficial, além de tardia, foi também desajeitada, ao tentar travar a onda de solidariedade. Porém, os postos de controle e os piquetes policiais-militares de contenção foram transpostos, ultrapassados e ignorados pela população. Esta situação de rebeldia popular expressa a profunda desconfiança em todas as formas institucionais e até mesmo em organizações políticas, confiando apenas nos que faziam e entregavam diretamente às mãos dos afetados. A palavra de ordem “apenas o povo salva o povo” passou a ser repetida por pessoas de diferentes inclinações ideológicas.
Pouquíssimos políticos ousaram estar diretamente no local do desastre, talvez desencorajados pela rejeição captada em vídeos nas redes sociais, como aconteceu com a visita de Jorge Arreaza (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e membro da liderança do PSUV) e de Nicolás Maduro Guerra (filho de Nicolás Maduro), que foram vaiados e confrontados pela população devido à ineficácia do Governo e aos problemas nas habitações sociais, que colapsaram com os terramotos.
Por fim, o Governo estabeleceu abrigos para as pessoas afetadas, distribuídos em diferentes partes de Caracas, com a promessa de realocá-las para novos lares nos próximos meses. Ainda assim, centenas de famílias procuram, por conta própria, os seus entes queridos soterrados nos escombros, contando apenas com a ajuda de voluntários, vizinhos e movimentos sociais. A colonização não apenas viola a soberania territorial e democrática, como também está a diluir os remanescentes de um processo revolucionário que prometia romper com a lógica neoliberal e colocar as instituições ao serviço do povo.
A burguesia é inimiga do socialismo, independentemente do discurso ideológico que adote para acumular riqueza. Por essa razão, à medida que a nova burguesia bolivariana (2002-2017), sob a liderança de Maduro, se consolida, busca recuperar a relação com os Estados Unidos e reconciliar-se com a antiga burguesia existente antes do processo bolivariano, com quem os laços haviam sido rompidos desde o golpe de estado de 2002. Entre 2018 e 2023, Maduro foi o arquiteto dessa dupla reaproximação, e os seus operadores políticos foram Delcy Rodríguez (diálogo e reconciliação com a associação patronal FEDECAMARAS) e Jorge Rodríguez (negociações com a oposição, com uma agenda permanentemente guiada pelos EUA, o que evidencia as limitações do setor de María Corina Machado). Diosdado Cabello atuou e continua a atuar como garantia de controle interno, por meio da intervenção nos instrumentos políticos e da repressão contra as organizações da classe trabalhadora.
Foi aí que começou o processo de colonização; na claudicação do madurismo, na derrota histórica do movimento contraditório chamado revolução bolivariana. Maduro abriu o caminho para o que parece ser uma traição destinada a facilitar a colonização aberta a partir de 3 de janeiro. Até mesmo os autores pós-coloniais, como Ramón Grosfoguel e seus colegas, que anteriormente tinham cerrado fileiras na defesa do madurismo, romperam hoje abertamente com a liderança colonial (Delcy-Jorge Rodríguez e Diosdado) devido à rendição rude e repugnante que está a ser feita do país aos gringos e ao sionismo. O dia 3 de janeiro e os eventos subsequentes são o resultado da traição à revolução bolivariana iniciada por Maduro.
Os eventos em cascata que moldaram a situação colonial são:



(continua)
O PRR é um êxito: milhões de borla para o capital. Já saúde, habitação, ensino, transportes, fica para a próxima.
O PRR é um êxito: milhões de borla para o capital. Já saúde, habitação, ensino, transportes, fica para a próxima.
Segundo o Observador de 28/8, Castro Almeida, ministro da Economia, declarou ter “uma boa notícia para vos comunicar. O PRR está totalmente concluído. Portugal cumprirá todos os marcos e metas”. 100% das subvenções iriam, disse, ser executadas; para os empréstimos (revistos, ressalvou) também se esperava esse nível de execução. Salvo “imprevistos de última hora”. Salvo isso, claro.
Na realidade, pagos foram, para já, dois terços dos montantes previstos — mas o que é isso face a “marcos e metas” cumpridos?
O chefe da “estrutura de missão” do PRR, Pedro Dominguinhos, modulou (jornal ECO, 30 de agosto) as palavras do chefe: o “grande êxito” foi graças às reprogramações que foram sendo feitas e à “flexibilidade” demonstrada por Bruxelas.
Alertou, também, que, “do ponto de vista de resultados e impactos, não é exatamente o mesmo efeito”.
Pois não.
Dois dos grandes “investimentos transformadores” previstos eram duas linhas de metro e três grandes empreendimentos de gestão hídrica.
Dos metros, “as obras não começaram”. Realizou-se zero. Pelo método da “reprogramação”, compraram-se em vez disso 700 autocarros elétricos ou a hidrogénio.
Dos três empreendimentos de gestão hídrica realizou-se zero.
Falharam, em suma, a “extensão das linhas vermelha e violeta do Metro de Lisboa, a barragem do Crato, a Tomada de Água do Pomarão, a dessalinizadora do Algarve ou o Hospital de Todos os Santos em Lisboa”.
Talvez, então, “investimentos sociais”, pergunta o leitor, esperançoso.
Nem por isso: “diminuíram a sua ambição (...) passaram de 42 mil para 28 mil respostas sociais”.
Consequência geral: “O Orçamento de Estado está pressionado para além daquilo que são as condições normais de investimento público.”
Que quer isto dizer em português? Sabe-se que, no último quarto de século, o investimento público da nação tem sido sistematicamente negativo: gastou-se menos do que o necessário para manter o existente, quanto mais fazer novo. Então, vai-se agora, com o Orçamento do Estado, realizar o que o PRR era para fazer, mas não fez? Claro que não vai.
É que, se se fizesse, subia a dívida. E se subisse a dívida, zangavam-se as empresas internacionais de notação da dívida soberana — e logo quando elas acabam de considerar, ó orgulho pátrio, que a dívida portuguesa já é mais fiável que a espanhola, soube-se estes dias!
Em velho português: as agências de notação do capital financeiro internacional sabem que, entre prestar serviços de saúde, ensino e habitação à população e deixar tudo cair em ruínas, os governos portugueses não hesitam: orgulhosos, optam pela segunda via. E pimba, lá subiram a notação da dívida para A+!
Dominguinhos, ao ECO (30 de agosto), refere mais especificamente o efeito das tais “reprogramações” do PRR: “a componente que mais saiu beneficiada com essa reprogramação acabou por ser a parte empresarial, quer com o reforço dos instrumentos de capitalização estratégica, quer com a criação do IFIC.” IFIC é um “Instrumento Financeiro para a Inovação e a Competitividade”. Essencialmente, oferece dinheiro grátis a empresas (micro, pequenas, médias e grandes) de IA e quejandas, esperando que elas com isso façam muito dinheiro e sejam felizes para sempre.
E parece que funcionou (a parte de receber, em todo o caso): “cerca de sete mil milhões de euros [um terço do total] e quase três mil milhões de incentivo” [incentivo é: toma lá, amigo, e não se fala mais no assunto] foram postos no sapatinho de “250 empresas apoiadas com tickets médios entre os cinco e os sete milhões de euros”. Sortudas, elas e os “tickets”.
As reprogramações de Montenegro reduziram o número de novos centros de saúde (aliás, a gerir, decerto, por privados tecnológicos; veja-se o artigo neste número sobre a nova USF de Torres Vedras); cortaram as vagas respostas sociais e de habitação; e adiaram ou eliminaram os investimentos nos transportes públicos.
Para que serviu então o PRR? O Público diz que serviu para fazer as reformas que Bruxelas queria. Além disso, “as despesas financiadas ao abrigo do PRR devem representar 3% do PIB em 2026 em Portugal” (ECO, 31 de agosto).
Em suma, além de para obedecer a Bruxelas, o PRR serviu para enfiar dinheiro aos milhões por alguma das, ou ambas, as extremidades dos nossos gloriosos empresários e para ajudar a fazer de conta que “Portugal cresce”.
Sob o manto diáfano do PRR, a nudez crua da mentira, da recessão económica e do desinvestimento maciço.
Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas? E por que não te hei-de eu falar? Walt Whitman «A Ti», in Folhas de Erva Tradução de Maria de Lourdes Guimarães Relógio D’Água Editores, 2010
Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas?
E por que não te hei-de eu falar?
Walt Whitman
«A Ti», in Folhas de Erva
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
Relógio D’Água Editores, 2010
Foi na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos.
O leitor pode estar a perguntar-se: “Será mesmo que a Odisseia é uma canção de luta?”
Antes de se tornar um livro ou um filme, tanto a Ilíada quanto a Odisseia de Homero eram cantos. Versos cantados, e é por essa denominação que continuam dividindo cada parte da narrativa desses heróis míticos – Aquiles e Ulisses (Odisseu). Não são “capítulos”, como na literatura, mas “cantos”.
Os poemas homéricos são bastante longos e, sendo cantados e memorizados, teriam sido propagados de geração em geração até ganhar a forma escrita alfabética dos Gregos. Posteriormente foram traduzidos para latim pelos Romanos e assim chegaram até nós seus versos, sem que saibamos ao certo como era a melodia original da música que os acompanhava.
Mas, considerando a Odisseia como canção, pode ser considerada “de luta”?
A tradição de contar em versos as façanhas dos guerreiros em sua memória remonta a esses aedos, como eram chamados na antiga Grécia os bardos que cantavam as glórias dos heróis do passado.
Na Ilíada se conta, na guerra de Troia, a razão da “fúria de Aquiles”, o modo como se enfrentou com Heitor após a morte de seu amigo Pátroclo, vestido com sua armadura. Na Odisseia, contudo, o que se narra é a história de Ulisses/Odisseu e suas peripécias (e também truques e mentiras) na tentativa de voltar e retomar o lar e o trono de rei na ilha de Ítaca.
É certo que a Ilíada trata da luta: a honra, a virtude, a destreza e a força dos guerreiros aqueus, em especial de Aquiles. Contudo, Odisseu luta não contra homens apenas, mas contra seres fantásticos, dotados de superpoderes, e até mesmo contra o deus dos mares Poseidon, cujo nome foi traduzido para o latim pelos romanos como Neptuno.
Considerando que a Odisseia é uma canção de luta, poderia perguntar-se: “Afinal, de que tipo de luta?” Não seria esta coluna dedicada especificamente à luta de classes?
As canções de luta de classes são, antes de mais nada, canções de luta, que conclamam à tomada de consciência, à mudança de atitude, ao rompimento com a passividade e o conformismo, e louvam aqueles que tiveram coragem para explicar, mobilizar e conduzir a luta da classe operária em diferentes sentidos e contextos.
Esse não é o sentido da Odisseia, onde o herói é um aristocrata, líder militar e proprietário de escravos que se manterão fieis ao seu amo para ajudá-lo a retomar o poder e ter restituídos seu lar, sua família e seus bens patrimoniais. Não se trata de tomada de consciência de classe, mas daquilo que Marx chamaria de uma disputa interclassista.
Na Odisseia, não há qualquer ruptura revolucionária com o modo de produção escravista antigo que, naquele contexto, estava se constituindo na Grécia e posteriormente em Roma, em oposição ao modo de produção asiático predominante nos impérios do Egito, da Mesopotâmia, da Pérsia, da Índia e da China antigas.
Então, qual é a importância desta canção de luta para o Ocidente e para a luta da classe trabalhadora? Ora, como diria o dramaturgo Bertolt Brecht, toda forma de linguagem reflete a ideologia de sua época, mas as formas estéticas que a elaboram servem como moldura narrativa de outras lutas a serem narradas. Cada povo e cada classe elabora seus próprios códigos de luta, mas sempre a partir de uma matriz referencial.
A Odisseia é um modelo que serviu a diversas historias na literatura, no cinema e nas artes plásticas relacionadas com o “retorno do herói”. Esse retorno pode também ser lido de forma alegórica, com a superação de desafios que a princípio o impediam de cumprir seus objetivos. Um jogo de estratégia em que a cada novo patamar de alcance surgem novas dificuldades imprevistas que envolvem o uso inteligente da força, da astúcia, das armas e em alguma instância da sorte, manifesta nessa história pela “ajuda dos deuses”.
A balada épica inspirou o cancioneiro dos trovadores de diversos contextos e épocas. Assim seria o Cantar del mio Cid ou a Chanson de Roland. Mais tarde, Os Lusíadas, de Camões, acabou sendo escrito diretamente inspirado na epopeia de Homero, em grande parte as viagens de Ulisses – a quem se atribuiu erroneamente a fundação de Lisboa, embora os Fenícios já andassem na costa de Portugal bem antes dos Gregos.
Até o início do século XX, o certo é que foi através de canções que foram propagadas as façanhas de heróis e anti-heróis populares. De malfeitores do “velho oeste” dos Estados Unidos, como Billy the Kid, personagens míticos como o gaúcho argentino Martín Fierro ou heróis populares de moral duvidosa como Lampião, o bandoleiro nordestino conhecido como o “rei do cangaço”, no Brasil. Essas narrativas épicas, cantadas em feiras itinerantes, eram vendidas em folhetos onde poderia se acompanhar a letra, gravuras da estória e às vezes até mesmo a partitura da melodia.
É precisamente na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos, com o bordão que sintetiza a trama da história: “Ulisses da guerra pra casa voltando/ enfrenta Neptuno na fúria do mar”. Este é um panorama da Odisseia, uma cantoria de quase 20 minutos, resumindo o que no cinema dura duas ou até três horas, como a recente produção do cineasta Christopher Nolan.
A versão também é mais curta que outros poemas e obras literárias que se inspiram ou parodiam a Odisseia de Homero, como os Cantos de Ezra Pound ou o Ulysses de James Joyce. Aliás, Joyce escreveu sua versão vanguardista da Odisseia em Zurique, na mesma época em que Lenine ali se encontrava exilado, em 1916, no contexto da Primeira Guerra Mundial. Sabe-se que Lenine morava na mesma rua do Cabaret Voltaire, a casa noturna criada por Hugo Ball para produzir happenings dadaístas que desafiavam a estética tradicional. E talvez Lenine e Joyce tenham até mesmo casualmente conversado algum dia sobre literatura, podendo o escritor irlandês ter comentado ao revolucionário russo sobre seu ambicioso projeto homérico moderno que começara a escrever ali em Zurique.
Tudo isso poderia ter acontecido, mas o facto é que em outubro de 1917, na Estação Finlândia, Lenine dava início à revolução que acabaria com a exploração dos trabalhadores pela burguesia ociosa – o início de uma grande odisseia da classe trabalhadora. Mas não se tratava de restaurar uma era gloriosa da monarquia anterior, senão de inaugurar um mundo inteiramente novo. Para isso mobilizou toda sua capacidade na elaboração de táticas e estratégias que permitissem construir um poder paralelo para confrontar o Estado, tomar o poder, acabar com a guerra e dividir as terras.
Em outras palavras, tratava-se de usar a força e a astúcia para acabar com o mundo que os senhores da guerra e da terra haviam criado. Homens como os que lutaram na guerra de Troia, que acabou vencida não apenas pela força, mas sobretudo pela estratégia de Ulisses, astúcia que Homero cantou em versos, propagando suas aventuras ao longo de séculos. Se Ulisses retomou o poder, isso não seria possível sem a ajuda de entidades divinas e humanas, como a do seu filho, a do rei dos Feácios, mas também da classe trabalhadora representada pelo porqueiro Eumeu e do vaqueiro que, armados a seu lado, enfrentam seus inimigos.
Aqui, deixo uma livre interpretação da “canção de luta” de Homero que deveria se propagar em canto acompanhada apenas do arpejo lírico. Usamos apenas gravuras de John Flaxman, um artista inglês romântico do final do século XVIII cuja obra foi publicada no contexto das guerras napoleónicas. Porque, afinal, toda adaptação de uma odisseia sempre reflete o presente sobre o passado clássico da humanidade, de onde surgem sempre novas interpretações.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”.
“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”
Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação.
Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.
Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.
Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.
É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.
Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”
É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.
Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.
Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade.
A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas.
Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.
Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa.
Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”
Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.
Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.
Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.
Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.
Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida.
Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.
Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.
Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.
Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.
Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.
Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.
Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.
O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia.
Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.
Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega.
Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.
O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.
Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.
A questão é se sobreviveremos ao processo.
Perante a ameaça de greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, o presidente do INEM recua nas medidas nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis
Perante a ameaça de greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, o presidente do INEM recua nas medidas nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.

Estava em marcha a maior redução de sempre do dispositivo do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) perderia, de uma só vez, 100 ambulâncias: 56 ambulâncias próprias do INEM seriam destinadas a transferências inter-hospitalares e outras 46 ambulâncias de suporte imediato de vida (SIV) seriam convertidas em veículos ligeiros (carros), perdendo a capacidade de transportar doentes.
Os riscos eram evidentes: menos ambulâncias iriam significar um aumento dos tempos de resposta, uma redução dos cuidados diferenciados e, em última instância, a perda de vidas.
Este colapso anunciado promoveria a criação de condições para a entrada de privados no SIEM.
Perante um caderno reivindicativo destinado exclusivamente a proteger e reforçar a resposta que o INEM presta aos cidadãos, o Governo não tinha como justificar a rejeição das propostas apresentadas.
O processo negocial, concluído em 17 dias, resultou num acordo que representa o recuo nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.
Ficou ainda definido que a transformação das ambulâncias SIV em veículos ligeiros, contestada pelo STEPH, sem vantagens apresentadas por Luís Cabral, e que ia reduzir a capacidade de transporte de doentes, avançará apenas através de um projeto-piloto, sendo que, em simultâneo, será criada, no mesmo local, uma nova ambulância, compensando esta perda da capacidade de transporte de doentes.
Este acordo permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica.
O acordo prevê também o reforço dos recursos humanos. O concurso anunciado para a contratação de 150 técnicos de emergência pré-hospitalar (TEPH) será aumentado para 200 vagas, distribuídas pelas quatro regiões do País. Está igualmente previsto o alargamento da formação de TEPH às ambulâncias dos parceiros do INEM, nomeadamente dos bombeiros e da Cruz Vermelha Portuguesa, possibilitando assim que estas entidades tenham também profissionais de saúde tão qualificados quanto o INEM.
Este acordo representa um recuo face às medidas anunciadas pelo presidente do INEM e permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica. Representa uma desautorização do Governo ao presidente Luís Cabral, que vê assim mais um conjunto de medidas e decisões suprimidas pela razão.
Foi um bom acordo para o INEM, mas, sobretudo, para o País e para os cidadãos.
Foi uma vitória dos técnicos de emergência pré-hospitalar, que se recusam a compactuar com o desmantelamento do INEM e da Emergência Médica.
É um dia histórico para o País, protagonizado pelos trabalhadores que salvam vidas diariamente e que agora assumiram também um papel decisivo na definição das políticas de emergência médica.
Iniciar-se-á a 25 deste mês de Setembro a apreciação parlamentar da lei orgânica do INEM, que representa também ameaças ao sistema. Existe um amplo consenso quanto a estas ameaças e a sua revogação apresenta-se cada vez mais como uma inevitabilidade.
Os trabalhadores do INEM permanecerão atentos e interventivos como sempre nas garantias de que as mudanças servirão o INEM, a emergência médica e os cidadãos. Não toleraremos destruição ou retrocessos e o País sabe que pode contar connosco.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, otimização é um nome feminino que designa 1) ato ou efeito de otimizar; 2) reestruturação efetuada com o objetivo de obter o maior rendimento possível; 3) determinação, no estudo de um problema, da solução que, de entre todas as soluções possíveis, conduza
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, otimização é um nome feminino que designa 1) ato ou efeito de otimizar; 2) reestruturação efetuada com o objetivo de obter o maior rendimento possível; 3) determinação, no estudo de um problema, da solução que, de entre todas as soluções possíveis, conduza aos resultados mais satisfatórios.
EM NOVILÍNGUA:
Se perguntarmos ao Google, este, usando a IA, diz-nos que a definição básica de otimização significa reestruturar ou ajustar variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível. Usando a nossa própria inteligência, numa simples ida ao supermercado, podemos ver como se “reestruturam ou ajustam variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível”: a variável “emprego” nas caixas foi “reestruturada” para obter o “maior rendimento ou o melhor resultado possível” (para os patrões): os clientes são agora “convidados” a fazer o trabalho dos e das operadoras de caixa que foram, entretanto, despedidos. Ou então fazem fila pacientemente por vezes na única caixa aberta operada por um empregado. ASP
Sai agosto, entra setembro. E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise, regressa a penates.
Agosto é um mês que me irrita, desde que não o passo no meio dos montes ou na cidade do Porto.
Eu adorava ficar na cidade em agosto, porque estavam os amigos que viviam fora, de férias e cheios de tempo.
O Porto serenava, tinha uma onda diferente do resto do ano.
Na Beira Alta não me apercebia da turba, a não ser numa festa ou outra.
Juntávamos o grupo de urbanitas que desciam ao povoado vindos como bandos de pardais.
Este ano a Costa Nova estava a rebentar pelas costuras, apesar da quebra no consumo. A lancheira ganhou aos bares e restaurantes, cujo preço é incomportável para uma família.
Começaram por cortar nas entradas e nas saídas, as sobremesas. Depois dividiam um prato, uma água e até um café.
Os restaurantes mais caros, a dita pancada alta, sempre cheios a baterem certo com o luxuoso parque automóvel.
Há qualquer coisa que não bate certo, porque nunca vi, a não ser no tempo dos yuppies, tanto carro de luxo. Ferrari para aqui, Aston Martin para ali, Maseratis lindos.
E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise.
Aqui em Aveiro diz-se que quem não rema, já remou, o que é certinho como o Big Ben.
Agosto descarna todas estas idiossincrasias que me fazem pele de galinha.
Uns cospem para o chão, outros ameaçam de pancadaria por um lugar de estacionamento, a tatuagem suada numa camisola de mangas cavas, o gelado a ser lambido por um piercing na ponta da língua...
E eu sempre a dizer a mim que não tinha fumado nada, que não tinha engolido nadinha, que tudo é real, que tenho de aguentar, o ai aguenta, aguenta do outro pedante, até setembro.
E aguentei.
Hoje vai tocar a corneta.
A partir de amanhã, como dizia a nossa Sophia de Mello Breyner, vai-se notar mais aristocracia de comportamento, que era o seu grande objetivo com o socialismo, um sentido de solidariedade, de igualdade, de fraternidade.
Os mais humildes são quase sempre os mais nobres.
Todos os anos, nas freguesias da ilha Terceira, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?”

Deve haver poucas coisas de que goste ou desgoste tanto como uma boa e uma má peça de teatro. Colam-se ao corpo o belo, o sublime, a criação, e o torpe, o bizarro e o constrangimento. No tempo de Shakespeare o teatro era popular, durava com frequência cinco horas, e as pessoas conversavam, comiam, pateavam, aplaudiam, bebiam e riam no meio da peça.
Leva-me a imaginação para cinco horas de uma peça, cinco horas sentados, sem respirar (tossir é ainda mais grave), conceptual, sem narrativa, com atores tão dramáticos que exageram o exagero e que o encenador acha que para ver as entranhas é preciso mostrá-las.
O que mudou de Shakespeare até hoje? Ouço tantos atores queixarem-se do público, creio que não sabem, ou já deixaram de saber, que só quando todos fizermos teatro haverá públicos para teatro. Foi mais ou menos isso que encontrei na ilha Terceira. E não me tomem por defensora dessa ideia de que só o que é lúdico e alegre é tolerável. Em rigor, uma boa peça de teatro, dramática, intensa, profunda, só pode ser boa quando amplas camadas da população fazem teatro, é esse o meu argumento, e que remete para uma ideia que não é minha, mas de um senhor barbudo, desconhecido por tantos, chamado Karl Marx: no capitalismo dá-se a separação entre produtores e consumidores; nem todos seremos grandes atores, mas todos iremos gostar de teatro se todos fizermos teatro ou, como disse Boal, o teatro é tão importante que até deve ser feito por atores.
Recordo de memória um testemunho do Zeca, já amado pelas massas, em que ele dizia que agora tinha muito público, mas do que ele gostava mesmo era de cantar com as pessoas e não para as pessoas.
Fui àquela que foi, com certeza, a festa mais deslumbrante onde alguma vez estive na vida – e olhem que conheço algumas festas populares nos Alpes e nos Pirenéus, refúgios de cultura que a orografia, a vida camponesa e os subsídios agrícolas preservaram. A festa foi o Carnaval da Ilha Terceira. Uma ilha em que todos fazem teatro. Uma ilha que mudou a relação entre produtores e consumidores, e o sentido do trabalho e, por isso, da cultura.
Não imaginava que pudesse estar sete horas a assistir a teatro sem debandar ou atirar tomates ao palco. Mas estive, e durante três dias, sete horas num dia, cinco no outro. Espero convencer-vos de que não exagero nas palavras. Tudo o que morreu em quase toda a parte do mundo ali mantém-se vivo, como semente de um futuro porvir. Na Terceira quem produz é quem consome, os que escutam música são músicos, os espectadores também fazem teatro, a cultura é de todos. Por razões que não estão totalmente claras – apesar de muitos terem estudado, e bem, o fenómeno –, o Carnaval como sempre foi, teatro popular (não teatro para o povo), ali mantém-se.
Todos os anos, nas freguesias da ilha, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?” Vão ter com poetas locais – alguns escritores maiores formados em anos desta façanha que é ser humano – e contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA, da falta de dinheiro e dos esquemas para o conseguir, das vaquinhas e das touradas, do amor, da morte, da vida. Nada de humano lhes é estranho. Reconhecimento e representação, duas palavras-chave para entender a subjetividade e a política. Depois, a eles juntam-se um dos mais de 30 grupos musicais das filarmónicas que, agora com o roubo da IA e dos direitos de autor pelas big techs e afins, voltaram a compor mais músicas originais. Pede-se às costureiras para fazerem os fatos, em geral pomposos e brilhantes, e por elas desenhados. Também aqui quem faz pensa. Ensaia-se durante os dias frios de janeiro, nas sedes das sociedades recreativas, casas do povo, dezenas destes lugares e, se necessário, garagens, com batata-doce e alfaias agrícolas ao lado de cervejas e alcatra fumegante. Há grupos de homens, mulheres, mistos, jovens e velhos, lavradores, cabeleireiras, biólogos, mecânicos, professores, polícias, enfermeiros, lavradores, cientistas, um encontro democrático, igualitário.
Contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA…
Geralmente cada peça dura entre 25 e 40 minutos. Quando chega o dia, cada grupo de bailinhos, em geral 20 a 30 pessoas, vai de freguesia em freguesia apresentar no palco da sociedade filarmónica, recreativa, casa do povo, dos lavradores, o seu bailinho. Não há dinheiro, ninguém paga para fazer, entrar, assistir e participar.
É muito difícil explicar a todos, mas sobretudo aos atores, que o problema do teatro não está no público. Nem o problema dos escritores ou dos músicos está nos leitores e nos ouvintes. O problema está nesta divisão entre produtores e consumidores, entrem quem pensa e quem faz.
O sociólogo Richard Sennett defende que a democracia não se encontra numa cidade em que cada um respeita a cultura do outro, essencializada (visão kantiana e multiculturalista), mas na existência de espaços – como não elogiar as sociedades filarmónicas, o sentar à mesma mesa e conviver, os bailes? – onde vivemos e convivemos com quem é diferente (universalismo concreto). Uma cidade sem muros nem ameias foi o que encontrei no Carnaval da Terceira.
A classificação eventual do Carnaval da Terceira como património imaterial da humanidade reconhece a importância desta cultura, desta gente, desta arte, mas paradoxalmente pode impor-lhe limites e uma arquitetura que põe em causa essa mesma espontaneidade, essa relação entre trabalho e cultura, essa autonomia, que faz este carnaval. Caberá aos que fazem teatro pensar sobre este desafio.
*Este artigo foi realizado no âmbito da residência da historiadora Raquel Varela na 1ª edição do Monte Brasil – Festival Internacional de Literatura e História de Angra do Heroísmo. Associação Dois Caminhos/Lar Doce Livro.
Sindicatos representativos de operários de quarenta portos da Europa e do Mediterrâneo apelam a jornada de luta internacional contra a guerra e o genocídio no dia 30 de Outubro.

Sindicatos de estivadores de França, Grécia, País Basco, Turquia, Marrocos e Itália convocam para 30 de Outubro uma jornada internacional de luta “contra a guerra e a militarização”. Exigem o fim do “genocídio do povo palestiniano” e das “guerras de agressão dos EUA e de Israel no Médio Oriente e contra o Irão”.
“Cada sindicato decidirá a forma de mobilização mais adequada consoante as circunstâncias nacionais, a partir de acções de greve e de um compromisso comum de impedir carregamentos de morte e destruição”, lê-se numa declaração conjunta dos sindicatos enviada às publicações Workday Magazine e In These Times no dia 31 de Julho.
Em conjunto, estes sindicatos representam, como referem na sua declaração, operários de 40 portos da Europa e do Mediterrâneo. O apelo a escalar a luta saiu de uma reunião de sindicatos de trabalhadores portuários realizada em Istambul em Maio passado. No anúncio que fizeram, manifestam, ainda, “solidariedade plena com os povos de Cuba, da Venezuela e do Sudão” e defendem que “os portos não podem ser usados para transportar armas, munições, equipamento militar ou tropas destinados a zonas de guerra”.
“Não à economia de guerra, aos planos de rearmamento dos Estados e ao projecto de militarização dos portos e infra-estruturas estratégicas da UE”, defendem os sindicatos no comunicado. “Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar guerras”. Entre os signatários contam-se a CGT FNPD de França, o ENEDEP da Grécia, o LAB do País Basco, o LIMAN-IS da Turquia, a ODT de Marrocos e a ORSA Porti e a USB de Itália.
Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar a guerra.
Tem havido, desde Outubro de 2023, repetidos apelos de sindicalistas palestinianos aos sindicalistas de todo o mundo para que entrem em greve e se recusem a operar carregamentos de armas destinados a Israel, protestem contra a campanha militar de Israel em Gaza, denunciada como genocídio por grupos de direitos humanos de primeira linha e académicos (os Estados Unidos têm prestado decisivo apoio político e financeiro a Israel). Em 5 de Abril de 2025, a Federação Geral dos Sindicatos de Gaza apelou a que os sindicalistas “fizessem pressão a sério para acabar com esta guerra suja”. Os estivadores têm-se empenhado activamente em corresponder a este apelo.
Da Bélgica à Suécia e à Itália, estivadores têm-se recusado a manusear componentes de armas com destino a Gaza. No dia 6 de Fevereiro, paralisaram 21 portos em todo o Mediterrâneo, incluindo Bilbau e Tânger, em protesto contra o uso de infra-estruturas portuárias civis para fins militares e a integração dos seus postos de trabalho numa economia de guerra.
A declaração surge na sequência das duas greves gerais realizadas em Itália no Outono de 2025 em solidariedade com os Palestinianos. Há dez meses, cerca de 60 estivadores reuniram-se no edifício da Autoridade Portuária de Civitavecchia, uma pequena cidade costeira italiana a noroeste de Roma. Era o dia 22 de Setembro de 2025. Tinham abandonado os postos de trabalho ao começar o dia, paralisando o porto, como parte de uma greve geral para protestar contra o facto de o Governo italiano ser o terceiro maior fornecedor de armas a Israel. Viram-se rodeados por cerca de 600 pessoas a aplaudi-los — estudantes, professores, trabalhadores ferroviários, funcionários públicos —, uma multidão significativa para uma cidade tão pequena.
“Que bela imagem, os estivadores rodeados pela sua cidade”, recorda Riccardo Petrarolo, um membro da coordenadora nacional da USB (Unione Sindacale di Base) nos portos italianos.
Os estivadores começaram a receber mensagens WhatsApp de colegas de cidades maiores, como Livorno e Génova, a informá-los de que também os operários dessas cidades tinham paralisado os portos. E dos meios de comunicação social iam aparecendo notícias de greves e encerramentos. “Diziam que exactamente a mesma coisa estava a acontecer nos outros portos”, refere Petrarolo. De cada vez que estivadores anunciavam um novo encerramento pelo sistema de som, conta-me Petrarolo, a multidão soltava “um grito de aplauso, como num estádio”.
Estas acções são fruto de décadas de relações com os Palestinianos construídas pelos operários e de anos de mobilização contra a participação no transporte de armas. A 30 de Agosto de 2025, 40 mil pessoas reuniram-se em Génova para despedir a Flotilha Global Sumud, que partia para levar alimentos e ajuda a Gaza. A luta da flotilha para chegar a Gaza calou fundo entre os trabalhadores do mar — os que trabalham nas docas, os que carregam e descarregam navios, os que reparam e movimentam equipamento e transportam mercadorias para outros portos; e os ataques às embarcações causaram profunda indignação.
Riccardo Rudino, um estivador filiado no Colectivo Autónomo dos Trabalhadores Portuários (CALP), um sindicato independente de Génova, prometeu à multidão que se despedia dos navios que “se perdermos o contacto com os nossos camaradas da flotilha, nem que seja por 20 minutos, bloquearemos toda a Europa a partir das docas de Génova. Nem um prego daqui sai. Será uma greve global”.
Os estivadores de Génova acabaram por convocar rapidamente uma greve geral, para 22 de Setembro, em protesto contra a cumplicidade da Itália no ataque a Gaza. A USB, que conta cerca de 100 mil membros nos sectores privado e público, apoiou a acção. Cerca de meio milhão de pessoas abandonaram os postos de trabalho nesse dia. Um milhão participou em protestos pelas vilas e cidades de toda a Itália. Auto-estradas, ruas e metros ficaram paralisados, ao passo que, em todo o país, a população fazia sua a palavra de ordem “Blocchiamo tutto”: “Bloqueemos tudo!”
José Nivoi, um estivador e porta-voz do CALP que embarcou na Flotilha Global Sumud, concedeu uma entrevista, de bordo, no dia 23 de Setembro, em que apoiava a greve. Disse ele que “as mobilizações que temos estado a fazer são em apoio total à Palestina, e nós nunca recuámos”.
Nos dias 1 e 2 de Outubro de 2025, Israel interceptou os navios da flotilha e deteve as centenas de pessoas a bordo. Chegava a hora de dar corpo à ameaça de “nem um prego”. Os militantes italianos responderam com uma greve geral ainda maior, a 3 de Outubro. Desta vez, a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL), a maior federação sindical de Itália, convocou a greve, tal como a USB. Estima-se em 2 milhões os participantes nos protestos, em mais de oitenta cidades. Portos e auto-estradas bloqueados e encerrados, linhas ferroviárias interrompidas, escolas e universidades fechadas.
“As coisas organizaram-se muito rapidamente e fora do quadro legal de Itália. Tal como antes, envolveram cidades grandes e pequenas e muita gente que saiu à rua em solidariedade”, relata Petrarolo, da USB. “Claro que isso provocou uma reacção do Estado italiano, com multas aos sindicatos e acções policiais e judiciais contra os organizadores. Mas isso não impediu a organização, e o resultado concreto foi que, no dia seguinte, 1 milhão de pessoas saíram à rua em Roma.”
Os estivadores esperam aproveitar o balanço. O anúncio da jornada de luta de 30 de Outubro baseia-se na “Declaração de Istambul”, aprovada por todos os signatários. A par das reivindicações contra a guerra, os trabalhadores vincam a exigência de que “os acordos coletivos garantam aumentos salariais reais, emprego seguro, redução do horário de trabalho e disposições justas em matéria de pensões”. E não querem que a mecanização ou a inteligência artificial “eliminem postos de trabalho ou prejudiquem os direitos dos trabalhadores”.
Os sindicatos dizem-se “prontos para se reunirem com grupos organizados de estivadores de quaisquer outros portos interessados em integrar esta luta comum”.
*Sarah Lazare, publicado em In These Times (31 de Julho de 2026).
Tradução de Adriano Zilhão.
Guifões apareceu ainda há poucas semanas nas notícias com abundância de palavreado e políticos a posar para as fotografias: lá iria nascer a futura fábrica de comboios. Acabado o foguetório, chega a primeira medida prática: retirar o comboio que leva os ferroviários ao trabalho.

Há poucas semanas, Guifões voltava às notícias. Discursos, anúncios, fotografias e palavras grandes sobre o futuro. Falava-se do início de uma nova etapa para a indústria ferroviária portuguesa e da futura fábrica de comboios que deverá nascer em Guifões.
O futuro parecia promissor.
Durou pouco.
Passadas poucas semanas, os trabalhadores que já hoje dão vida a Guifões recebem uma mensagem bastante diferente: o comboio operário acabou.
É difícil imaginar melhor retrato da distância que tantas vezes existe entre os grandes anúncios e a realidade de quem trabalha.
Para o País anunciam-se comboios novos. Para os trabalhadores retira-se o comboio que os leva ao trabalho.
O comboio operário assegurava a ligação entre Ermesinde e as Oficinas de Guifões, nos dois sentidos. A sua supressão afeta cerca de 80 trabalhadores, aproximadamente 30% do efetivo da oficina, incluindo trabalhadores provenientes dos distritos do Porto, Braga e Aveiro.
Não estamos, portanto, perante uma pequena comodidade concedida a meia dúzia de pessoas.
Estamos perante uma condição concreta da vida de dezenas de trabalhadores.
O seu desaparecimento significa alternativas de transporte menos compatíveis com os horários das oficinas, deslocações mais penosas, menos descanso e menos tempo para a vida pessoal e familiar. Tudo isto imposto a trabalhadores que exercem funções tecnicamente exigentes, onde concentração, responsabilidade e segurança fazem parte do trabalho diário.
Talvez numa folha de cálculo tudo isto seja difícil de contabilizar.
O tempo que um trabalhador deixa de passar com os filhos não aparece nas contas.
O despertador que toca mais cedo também não.
O tempo adicional perdido no regresso a casa não aparece.
O cansaço acumulado não tem uma coluna própria no Excel.
Mas existe.
Não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.
E é aqui que esta decisão deixa de ser apenas incompreensível para se tornar profundamente desrespeitosa para com os trabalhadores da CP.
Porque não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.
Não se pode querer a fotografia do futuro e desprezar quem garante o presente.
Mais: fala-se constantemente da dificuldade em contratar trabalhadores especializados para a ferrovia. Em Guifões, esse desafio será ainda maior se a anunciada fábrica de comboios se concretizar.
Então expliquem-nos a estratégia.
Queremos trazer mais trabalhadores para Guifões, mas começamos por dificultar a vida aos que já lá estão?
Queremos tornar Guifões num grande polo ferroviário, mas acabamos com uma ligação ferroviária utilizada pelos próprios ferroviários?
Queremos construir comboios em Guifões, mas não conseguimos manter o comboio que leva os trabalhadores a Guifões?
Há ironias que se escrevem sozinhas.
E há ainda uma parte desta história que torna tudo isto mais difícil de aceitar.
Guifões tem memória.
Em 2011, o processo que culminou no encerramento da oficina foi também acompanhado pelo desaparecimento do comboio operário e pela sua substituição por transporte rodoviário. Muitos dos trabalhadores que hoje assistem a esta decisão viveram esse período.
Não afirmamos que Guifões vai voltar a fechar.
Mas recusamo-nos a ter memória curta.
O comboio operário desapareceu uma vez.
Depois desapareceu Guifões.
Custou anos, luta e investimento recuperar aquilo que se perdeu.
Por isso, quando vemos novamente desaparecer o primeiro, temos todo o direito de perguntar para onde nos querem levar desta vez.
E talvez seja isto que mais revolta: enquanto se fazem anúncios sobre aquilo que Guifões poderá ser amanhã, parece existir cada vez menos consideração por aqueles que fazem Guifões funcionar hoje.
Os direitos e as condições de trabalho raramente desaparecem todos de uma vez.
Primeiro perde-se um transporte. Depois altera-se um horário. Depois desaparece outra condição.
Cada decisão é apresentada isoladamente como pequena, racional ou inevitável. Até ao dia em que olhamos para trás e percebemos tudo aquilo que ficou pelo caminho.
A Comissão de Trabalhadores, o STMEFE e o SNTSF exigiram à Administração da CP a reposição do comboio operário.
Não estamos a pedir um privilégio. Estamos a exigir respeito. Respeito por cerca de 80 trabalhadores. Respeito por quem manteve Guifões vivo quando era muito mais fácil desistir dele. Respeito por quem todos os dias garante que há material circulante em condições de prestar serviço. E respeito pela própria história ferroviária de Guifões.
Podem anunciar milhões. Podem lançar primeiras pedras. Podem fazer discursos sobre o futuro da indústria ferroviária portuguesa. Mas nenhuma fábrica, oficina ou ferrovia existe sem trabalhadores.
E antes de prometerem o futuro de Guifões, talvez fosse boa ideia começarem por respeitar aqueles que já lá estão.

Foi notícia, no mês de Agosto, a inauguração do primeiro centro de saúde para utentes do SNS gerido por privados, no concelho de Torres Vedras (Expresso, 7/8).

O plano do Governo era começar com a privatização dos centros de saúde há dois anos. No entanto, o interesse dos privados foi discreto. Mas o primeiro-ministro mantém-se firme: abrirá, diz, 20 unidades geridas por privados (metade da meta inicial).
Até ao fim do ano, unidades como esta deverão abrir em Óbidos, Bombarral, Caldas da Rainha, Silves. Mais tarde, Lagos, Albufeira, Loulé, Portimão.
O objectivo declarado da operação de privatização é dar médico de família a quem não o tem (segundo o Expresso, a equipa de saúde contratada já admitiu que isso não irá acontecer).
Em todo o caso, merece estudo a “lógica profunda” desta operação de privatização. Ela é muito instrutiva sobre o modelo de pilhagem de fundos públicos pela “economia privada” que actualmente rege o país.
Até ao fim do ano, unidades como esta deverão abrir em Óbidos, Bombarral, Caldas da Rainha, Silves. Mais tarde, Lagos, Albufeira, Loulé, Portimão.”
A gestão da nova unidade de saúde familiar do modelo C (USF-C) foi atribuída à empresa de serviços clínicos KnokHealth Portugal, com sede em Matosinhos. A Knok receberá do SNS 2,4 milhões de euros durante cinco anos.
A firma é controlada por uma holding, chamada Seems Possible, Lda. Esta Seems Possible é propriedade de dois homens. Um é médico, o outro, ex-executivo da Sonae. Em 2025, o volume de negócios da empresa terá sido de 10,1 milhões de euros. O lucro atingiu 1,4 milhões, o que dá uma taxa de lucro de 14%.
A Knok não se define como empresa de prestação de serviços de medicina ou de cuidados médicos. É uma “empresa de tecnologia na área da medicina”. A sua especialidade é a “teleconsulta e a medicina via digital”. O “modelo operacional” da empresa é “digital-first” (o digital primeiro).
O SNS assenta noutro “modelo operacional”, conhecido como medicina. O princípio da medicina é diametralmente oposto ao da Knok: é o da administração pessoal de cuidados aos doentes por profissionais de saúde qualificados (médicos e enfermeiros) em instalações criadas, organizadas e equipadas expressamente para o efeito: hospitais, centros de saúde, etc. Os prestadores de cuidados médicos servem-se, “primeiro”, dos seus próprios órgãos dos sentidos — visão, audição, tacto e olfacto, treinados para o efeito — para avaliar o estado de saúde do doente.
Talvez se pudesse chamar ao “modelo operacional” do SNS “a pessoa primeiro” — ou, no português mais moderno da Knok, “patient-first”.
O SNS é inteiramente financiado pelo Orçamento do Estado e pela segurança social, portanto, pelos impostos e pelos salários dos trabalhadores (as contribuições para a segurança social são parte do salário). As suas prestações são gratuitas para os utentes. Por definição, o SNS não pode “dar lucro”.
Como podem então geri-lo privados de modo a dele extrair lucro?
Do lado das receitas, já se viu que a Knok receberá 2,4 milhões de euros do SNS.
E do lado dos custos, os operacionais, com pessoal e financeiros?
A primeira pergunta que mais exactamente pede resposta é esta: como se financia e quem financia a empresa privada que irá gerir a USF de São Pedro da Cadeira?
Vejamos.
Edificações e equipamentos são uma componente importante da infra-estrutura de uma operação “realmente existente” e, portanto, do seu custo. O edifício da USF pertence “à Câmara Municipal de Torres Vedras, que cedeu a utilização à empresa e os direitos de renovação (…), o cofundador e CEO da Knok garante que o espaço ‘é novo e está numa condição excelente, portanto não faz sentido mudar o que está bem’” (Eco, 3 de Agosto). As instalações foram inauguradas em Maio de 2025 “na sequência de um processo de modernização cofinanciado pelo PRR – Plano de Recuperação e Resiliência em cerca de 600 mil euros”. Olha que sorte: é um custo financeiro que os investidores privados não têm de suportar (ao contrário do SNS). Pagaram-no… fundos públicos!
O financiamento operacional da empresa Knok tem três pilares-chave:
a) Financiamento conseguido pela via do Fundo Social Europeu (um fundo público, europeu), que permitiu a aquisição de uma participação de capital no valor de €1,43 milhões de euros (https://www.fi-compass.eu/stories/fresh-air-portugals-healthcare), detida pelo Fundo de Inovação Social português (fundo público, português), gerido pelo Banco Português de Fomento (banco público, português).
b) Capital de risco privado e co-investidores
Outros 1,7 milhões vieram de um intermediário financeiro de capital de risco, a Mustard Seed MAZE (MSM), uma parceria entre o fundo de impacto MAZE, que é por sua vez uma parceria com a Fundação Gulbenkian, e o fundo de capital de risco inglês Mustard Seed, fundado por ex-investidores no gigantesco banco de investimento americano Goldman Sachs, na gigantesca gestora de fundos americana BlackRock, no gigantesco fundo soberano do Abu Dhabi e na gigantesca gestora de fundos americana KKR.
A MSM espera dos seus investimentos “retornos financeiros competitivos”.
Uma ronda de financiamento suplementar da Knok, no valor de 4,4 milhões, foi co-dirigida pela empresa portuguesa privada de capital de risco Armilar Venture Partners. Fundada no ano 2000, a Armilar tinha, até 2014, o nome Espírito Santo Ventures: parte integrante do saudoso BES…
Os fundos que a Armilar gere e investe não são, porém, seus: têm origem em “apoios institucionais de primeira grandeza”: o Fundo Europeu de Investimento (EIF, dependente do Banco Europeu de Investimento, banco público, europeu), o SETT, uma instituição financeira e de investimento tecnológico (instituição pública, espanhola), e… outra vez, o Banco Português de Fomento (banco público).
Também a gestora de activos britânica Triple Point & Ryse Asset Management participou, mais modestamente, no financiamento da “expansão internacional” da Knok.
Por fim, o fundo NOS 5G, gerido pela empresa de telecomunicações NOS, controlada pela Sonae, injectou 4,4 milhões de euros — em troca, nomeadamente, de a Knok usar as redes da NOS.
É de presumir (e de esperar) que o pessoal que trabalhará na USF gerida pelos privados tenha recebido a sua educação e formação em escolas e universidades. Em Portugal, são públicas as faculdades de Medicina em que se formaram os médicos actuais do País. Elas funcionam, no essencial, com financiamento público, do Orçamento do Estado e de fundos públicos nacionais e europeus.
Adicionalmente, só pode trabalhar numa USF privada quem estiver “desvinculado” do SNS há mais de três anos. Isto implica afastar do centro de saúde actual o pessoal que não cumpra tal requisito.
Na “actividade” de um centro de saúde, tenha ele o nome ou a letra que tiver, verificam-se, portanto, os seguintes factos:
Nestas condições, é legítimo perguntar: como e de onde pode uma empresa que faça “exactamente o mesmo” que o SNS (como diz a propaganda oficial) extrair lucro para os seus investidores — e à belíssima taxa a que a Knok está habituada?
A resposta está no próprio lema da Knok: o digital primeiro, o doente depois.
Na palavra “teleconsulta”, a especialidade que a Knok vende, tele vem do grego; quer dizer à distância (como em televisão, telefone, etc.).
Entregue-se uma montanha de fundos públicos a dinâmicos gestores privados capazes de produzir power points vistosos com muitas palavras que parecem inglesas; os gestores põem uns médicos a receber telefonemas das pessoas com problemas de saúde; o médico manda umas receitas para a app.
A isto se resume o modelo de negócio lucrativo das novas USFs privadas.
Dinheiro do Estado, para perto; o doente, para longe; o médico, para o telefone e o ecrã.
Ou dá um belo lucro ou ficam a arder fundos públicos, e o SNS que recolha os cacos.
O mercado trata-nos da saúde.
Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de ju
Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho.

A Venezuela vive uma tragédia histórica. Enquanto o Campeonato do Mundo de Futebol desviava a atenção da grande comunicação social internacional da situação colonial que os Estados Unidos impuseram à Venezuela desde 3 de janeiro, uma parte significativa da esquerda continental e mundial recebia com alívio esse afastamento mediático, já que deixara de encontrar argumentos para justificar a rendição que a Junta de Administração Colonial do país faz aos desígnios da administração Trump. Esta Junta de Administração Colonial é liderada pelos irmãos Rodríguez (Delcy e Jorge) e por Diosdado Cabello2.
O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora. O salário mínimo base permaneceu ancorado em menos de 0,4 dólares mensais, e a bonificação dos rendimentos, via bónus e subsídios sem incidência salarial, não chegou a 200 dólares por mês, nem alcançou toda a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, o dólar voltou a disparar (atualmente acima de 745 bolívares), o que tem impulsionado a inflação num país onde cada produto do cabaz básico pode chegar a custar duas ou três vezes mais do que a média regional3.
Pelas mãos de Marco Rubio, a Venezuela regressou ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, e embora o “Delcinato” tente justificá-lo como a única possibilidade de recuperar os 5 mil milhões de dólares retidos pelo FMI e que pertencem à Venezuela, a realidade é que isso implica um novo ajuste estrutural da economia. O antecedente mais recente de um pacote de medidas económicas e políticas contra a classe trabalhadora, que nada ficou a dever às receitas neoliberais, foi aplicado por Nicolás Maduro, entre 2018 e 2025. O mais grave é que os irmãos Rodríguez e Diosdado Cabello mantêm silêncio absoluto quanto à continuidade das sanções e ao bloqueio das contas internacionais da Venezuela, impostos pelos Estados Unidos desde o primeiro governo daquele que agora definem como parceiro, Donald Trump.
O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora.
A 13 de maio deste ano, o Governo venezuelano anunciou o início da reestruturação da dívida do país em diálogo com o FMI. Uma dívida estimada, à data, em 170 mil milhões de dólares, valor que contrasta com os 82 mil milhões de dólares em receitas que o país terá, segundo estimativas da própria organização multilateral, em 2026. Dias mais tarde, a 26 de maio, Delcy Rodríguez anunciou ainda a criação da Comissão Presidencial para a Reestruturação e Reengenharia do Governo, com o objetivo de torná-lo mais eficaz, ou seja, anunciou uma reforma do Estado no estilo das recomendações do FMI, focada em encolher o Estado sob o pretexto de tornar os gastos públicos mais eficientes.
Um mês depois, a 24 de junho, horas antes de se desencadear a tragédia sísmica, o Financial Times noticiava que o Governo venezuelano iria divulgar o valor da dívida externa do país, reestimada em cerca de 240 mil milhões de dólares, um montante que se compara ao que provocou a crise da dívida na Grécia, o país mais endividado da zona euro em percentagem do PIB. Este valor explica a urgência da Junta de Administração Colonial em reestruturar o Governo e faz prever despedimentos, o encerramento de instituições públicas e a intensificação do corralito sobre os salários da classe trabalhadora local4.
Na Venezuela, a relação entre trabalho e salário atingiu um ponto que alguns especialistas classificam como uma nova escravidão, marcada pelo desaparecimento do salário real e pela sua substituição por rendimentos baseados em bonificações, inseridos na estrutura económica salarial local. Tal tem invariavelmente conduzido à perda dos direitos laborais adquiridos, à precariedade dos valores pagos por férias e ao subsídio de Natal (décimo terceiro mês) ou na impossibilidade de obter uma pensão de reforma que permita a compra de pelo menos um medicamento nas farmácias do país5.
Com a aprovação da nova Lei dos Hidrocarbonetos, aprovada de modo acelerado pelo parlamento colonial dos irmãos Rodríguez e companhia, reduziram-se as receitas do petróleo venezuelano por barril de 10 para 1,7 dólares, o que nos faz recordar a legislação setorial aprovada pela social-democracia nos anos 40 do século XX. Tudo parece indicar que, no curto prazo, o caminho será o do trágico aprofundamento do já conhecido colapso de todos os serviços públicos. Em apenas uma década (2014-2024), a Venezuela perdeu os elementos mais palpáveis da modernidade institucional burguesa, entrando numa fase de retorno à pré-modernidade, de tal modo que a campanha eleitoral de 2024 focou-se no acesso à água potável, à eletricidade, ao transporte público, à segurança policial e ao funcionamento mínimo das escolas e universidades.
Apesar de tudo, e embora possa parecer incrível, a diáspora migratória, estimada em cerca de seis milhões de venezuelanos e venezuelanas, conseguiu, através das suas remessas, ajudar a atenuar a crise de rendimentos. Contudo, não há dinheiro que possa manter o poder de compra face ao avanço desenfreado da inflação.
Um elemento significativo, apenas explicável como parte da derrota histórica da revolução bolivariana, foi a simpatia que a captura, o sequestro e a prisão nos Estados Unidos do casal presidencial Maduro-Flores suscitaram na maioria da população. Ao contrário de 2002, quando a população foi massivamente às ruas e derrotou o golpe de estado contra Hugo Chávez, desta vez viram-se apenas reduzidas concentrações, organizadas pela cada vez mais pequena base social do madurismo, e cuja liderança rapidamente transitou para um “Delcinato colonial”.
As simpatias pela operação militar gringa estavam assim relacionadas com a situação material da classe trabalhadora e o silogismo interpretativo que muitos fizeram: “se o desaparecimento dos salários e a precariedade das condições materiais da vida, como efeito das sanções dos EUA, têm origem na rivalidade entre Maduro e Trump, então, se Maduro não estiver no poder, a situação vai melhorar”. Em boa verdade, a generalidade da população acreditou que as sanções seriam suspensas, que a Venezuela poderia vender petróleo livremente e que as receitas melhorariam a sua situação económica. Mas o que aconteceu foi a manutenção dessa precariedade e até mesmo o seu agravamento, o que está a transformar as simpatias em desilusão e irritação com os gringos, ainda que tal não se tenha, ainda, traduzido num movimento anti-imperialista com expressão de massas.
O panorama é, no mínimo, sombrio.
Quando se pensava que as coisas não poderiam piorar, a realidade acabou por demonstrar o contrário. Dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho, num evento sísmico que os especialistas descrevem como um “dupleto”6. Dezenas de prédios colapsaram; outros ficaram inabitáveis ou severamente danificados, sendo La Guaira, localizada em frente ao mar, a área mais afetada. Milhares de mortes e um número ainda não estimado de pessoas desaparecidas revelam a magnitude da catástrofe.
Como num filme de terror, as primeiras horas não contaram nem com a presença nem com o auxílio do Exército ou dos altos funcionários. Apenas bombeiros locais, a proteção civil e um número crescente de cidadãos voluntários assumiram, por iniciativa própria, o cuidado e o socorro às vítimas. Enterrava-se assim, junto com as infraestruturas colapsadas no terramoto, o discurso da aliança cívico-militar como motor de mudança na Venezuela.
Mas em política não há vazio que se sustente: por isso, um mar de mãos e corpos solidários construiu uma cadeia humana de ajuda mútua, fazendo chegar, de todos os cantos do país, remédios, comida, roupas, pertences e ferramentas para ajudar a resgatar as pessoas presas nos escombros. Os equipamentos pesados de salvamento e resgate demoraram mais de 36 horas para chegar, tendo sido as brigadas internacionais de ajuda o motor da ação humanitária tecnicamente qualificada e os que testemunharam o que ali se passava.
Quase todo o litoral de La Guaira foi reduzido a escombros, ruindo tanto urbanizações construídas pelo Governo como pelo setor privado. As denúncias de pessoas afetadas, que habitavam apartamentos e casas de interesse social entregues pelo Governo nacional, mostram imagens de erros estruturais de construção que exigem uma investigação pública para determinar a veracidade das denúncias e apurar futuras responsabilidades.
Perante o abandono contínuo do Governo nas horas e dias que se seguiram à tragédia, a resposta do povo foi contundente. Imediatamente após a tragédia, e em contraste com a ineficácia governamental, gerou-se uma onda de solidariedade cidadã, que se recusava a entregar alimentos e remédios a representantes do Governo, por desconfiar que estes não chegariam às vítimas. Caravanas sucessivas de voluntários e voluntárias, auto-organizados, formaram uma ponte permanente de auxílio.
A resposta oficial, além de tardia, foi também desajeitada, ao tentar travar a onda de solidariedade. Porém, os postos de controle e os piquetes policiais-militares de contenção foram transpostos, ultrapassados e ignorados pela população. Esta situação de rebeldia popular expressa a profunda desconfiança em todas as formas institucionais e até mesmo em organizações políticas, confiando apenas nos que faziam e entregavam diretamente às mãos dos afetados. A palavra de ordem “apenas o povo salva o povo” passou a ser repetida por pessoas de diferentes inclinações ideológicas.
Pouquíssimos políticos ousaram estar diretamente no local do desastre, talvez desencorajados pela rejeição captada em vídeos nas redes sociais, como aconteceu com a visita de Jorge Arreaza (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e membro da liderança do PSUV) e de Nicolás Maduro Guerra (filho de Nicolás Maduro), que foram vaiados e confrontados pela população devido à ineficácia do Governo e aos problemas nas habitações sociais, que colapsaram com os terramotos.
Por fim, o Governo estabeleceu abrigos para as pessoas afetadas, distribuídos em diferentes partes de Caracas, com a promessa de realocá-las para novos lares nos próximos meses. Ainda assim, centenas de famílias procuram, por conta própria, os seus entes queridos soterrados nos escombros, contando apenas com a ajuda de voluntários, vizinhos e movimentos sociais. A colonização não apenas viola a soberania territorial e democrática, como também está a diluir os remanescentes de um processo revolucionário que prometia romper com a lógica neoliberal e colocar as instituições ao serviço do povo.
A burguesia é inimiga do socialismo, independentemente do discurso ideológico que adote para acumular riqueza. Por essa razão, à medida que a nova burguesia bolivariana (2002-2017), sob a liderança de Maduro, se consolida, busca recuperar a relação com os Estados Unidos e reconciliar-se com a antiga burguesia existente antes do processo bolivariano, com quem os laços haviam sido rompidos desde o golpe de estado de 2002. Entre 2018 e 2023, Maduro foi o arquiteto dessa dupla reaproximação, e os seus operadores políticos foram Delcy Rodríguez (diálogo e reconciliação com a associação patronal FEDECAMARAS) e Jorge Rodríguez (negociações com a oposição, com uma agenda permanentemente guiada pelos EUA, o que evidencia as limitações do setor de María Corina Machado). Diosdado Cabello atuou e continua a atuar como garantia de controle interno, por meio da intervenção nos instrumentos políticos e da repressão contra as organizações da classe trabalhadora.
Foi aí que começou o processo de colonização; na claudicação do madurismo, na derrota histórica do movimento contraditório chamado revolução bolivariana. Maduro abriu o caminho para o que parece ser uma traição destinada a facilitar a colonização aberta a partir de 3 de janeiro. Até mesmo os autores pós-coloniais, como Ramón Grosfoguel e seus colegas, que anteriormente tinham cerrado fileiras na defesa do madurismo, romperam hoje abertamente com a liderança colonial (Delcy-Jorge Rodríguez e Diosdado) devido à rendição rude e repugnante que está a ser feita do país aos gringos e ao sionismo. O dia 3 de janeiro e os eventos subsequentes são o resultado da traição à revolução bolivariana iniciada por Maduro.
Os eventos em cascata que moldaram a situação colonial são:



(continua)
Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas?
E por que não te hei-de eu falar?
Walt Whitman
«A Ti», in Folhas de Erva
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
Relógio D’Água Editores, 2010
O leitor pode estar a perguntar-se: “Será mesmo que a Odisseia é uma canção de luta?”
Antes de se tornar um livro ou um filme, tanto a Ilíada quanto a Odisseia de Homero eram cantos. Versos cantados, e é por essa denominação que continuam dividindo cada parte da narrativa desses heróis míticos – Aquiles e Ulisses (Odisseu). Não são “capítulos”, como na literatura, mas “cantos”.
Os poemas homéricos são bastante longos e, sendo cantados e memorizados, teriam sido propagados de geração em geração até ganhar a forma escrita alfabética dos Gregos. Posteriormente foram traduzidos para latim pelos Romanos e assim chegaram até nós seus versos, sem que saibamos ao certo como era a melodia original da música que os acompanhava.
Mas, considerando a Odisseia como canção, pode ser considerada “de luta”?
A tradição de contar em versos as façanhas dos guerreiros em sua memória remonta a esses aedos, como eram chamados na antiga Grécia os bardos que cantavam as glórias dos heróis do passado.
Na Ilíada se conta, na guerra de Troia, a razão da “fúria de Aquiles”, o modo como se enfrentou com Heitor após a morte de seu amigo Pátroclo, vestido com sua armadura. Na Odisseia, contudo, o que se narra é a história de Ulisses/Odisseu e suas peripécias (e também truques e mentiras) na tentativa de voltar e retomar o lar e o trono de rei na ilha de Ítaca.
É certo que a Ilíada trata da luta: a honra, a virtude, a destreza e a força dos guerreiros aqueus, em especial de Aquiles. Contudo, Odisseu luta não contra homens apenas, mas contra seres fantásticos, dotados de superpoderes, e até mesmo contra o deus dos mares Poseidon, cujo nome foi traduzido para o latim pelos romanos como Neptuno.
Considerando que a Odisseia é uma canção de luta, poderia perguntar-se: “Afinal, de que tipo de luta?” Não seria esta coluna dedicada especificamente à luta de classes?
As canções de luta de classes são, antes de mais nada, canções de luta, que conclamam à tomada de consciência, à mudança de atitude, ao rompimento com a passividade e o conformismo, e louvam aqueles que tiveram coragem para explicar, mobilizar e conduzir a luta da classe operária em diferentes sentidos e contextos.
Esse não é o sentido da Odisseia, onde o herói é um aristocrata, líder militar e proprietário de escravos que se manterão fieis ao seu amo para ajudá-lo a retomar o poder e ter restituídos seu lar, sua família e seus bens patrimoniais. Não se trata de tomada de consciência de classe, mas daquilo que Marx chamaria de uma disputa interclassista.
Na Odisseia, não há qualquer ruptura revolucionária com o modo de produção escravista antigo que, naquele contexto, estava se constituindo na Grécia e posteriormente em Roma, em oposição ao modo de produção asiático predominante nos impérios do Egito, da Mesopotâmia, da Pérsia, da Índia e da China antigas.
Então, qual é a importância desta canção de luta para o Ocidente e para a luta da classe trabalhadora? Ora, como diria o dramaturgo Bertolt Brecht, toda forma de linguagem reflete a ideologia de sua época, mas as formas estéticas que a elaboram servem como moldura narrativa de outras lutas a serem narradas. Cada povo e cada classe elabora seus próprios códigos de luta, mas sempre a partir de uma matriz referencial.
A Odisseia é um modelo que serviu a diversas historias na literatura, no cinema e nas artes plásticas relacionadas com o “retorno do herói”. Esse retorno pode também ser lido de forma alegórica, com a superação de desafios que a princípio o impediam de cumprir seus objetivos. Um jogo de estratégia em que a cada novo patamar de alcance surgem novas dificuldades imprevistas que envolvem o uso inteligente da força, da astúcia, das armas e em alguma instância da sorte, manifesta nessa história pela “ajuda dos deuses”.
A balada épica inspirou o cancioneiro dos trovadores de diversos contextos e épocas. Assim seria o Cantar del mio Cid ou a Chanson de Roland. Mais tarde, Os Lusíadas, de Camões, acabou sendo escrito diretamente inspirado na epopeia de Homero, em grande parte as viagens de Ulisses – a quem se atribuiu erroneamente a fundação de Lisboa, embora os Fenícios já andassem na costa de Portugal bem antes dos Gregos.
Até o início do século XX, o certo é que foi através de canções que foram propagadas as façanhas de heróis e anti-heróis populares. De malfeitores do “velho oeste” dos Estados Unidos, como Billy the Kid, personagens míticos como o gaúcho argentino Martín Fierro ou heróis populares de moral duvidosa como Lampião, o bandoleiro nordestino conhecido como o “rei do cangaço”, no Brasil. Essas narrativas épicas, cantadas em feiras itinerantes, eram vendidas em folhetos onde poderia se acompanhar a letra, gravuras da estória e às vezes até mesmo a partitura da melodia.
É precisamente na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos, com o bordão que sintetiza a trama da história: “Ulisses da guerra pra casa voltando/ enfrenta Neptuno na fúria do mar”. Este é um panorama da Odisseia, uma cantoria de quase 20 minutos, resumindo o que no cinema dura duas ou até três horas, como a recente produção do cineasta Christopher Nolan.
A versão também é mais curta que outros poemas e obras literárias que se inspiram ou parodiam a Odisseia de Homero, como os Cantos de Ezra Pound ou o Ulysses de James Joyce. Aliás, Joyce escreveu sua versão vanguardista da Odisseia em Zurique, na mesma época em que Lenine ali se encontrava exilado, em 1916, no contexto da Primeira Guerra Mundial. Sabe-se que Lenine morava na mesma rua do Cabaret Voltaire, a casa noturna criada por Hugo Ball para produzir happenings dadaístas que desafiavam a estética tradicional. E talvez Lenine e Joyce tenham até mesmo casualmente conversado algum dia sobre literatura, podendo o escritor irlandês ter comentado ao revolucionário russo sobre seu ambicioso projeto homérico moderno que começara a escrever ali em Zurique.
Tudo isso poderia ter acontecido, mas o facto é que em outubro de 1917, na Estação Finlândia, Lenine dava início à revolução que acabaria com a exploração dos trabalhadores pela burguesia ociosa – o início de uma grande odisseia da classe trabalhadora. Mas não se tratava de restaurar uma era gloriosa da monarquia anterior, senão de inaugurar um mundo inteiramente novo. Para isso mobilizou toda sua capacidade na elaboração de táticas e estratégias que permitissem construir um poder paralelo para confrontar o Estado, tomar o poder, acabar com a guerra e dividir as terras.
Em outras palavras, tratava-se de usar a força e a astúcia para acabar com o mundo que os senhores da guerra e da terra haviam criado. Homens como os que lutaram na guerra de Troia, que acabou vencida não apenas pela força, mas sobretudo pela estratégia de Ulisses, astúcia que Homero cantou em versos, propagando suas aventuras ao longo de séculos. Se Ulisses retomou o poder, isso não seria possível sem a ajuda de entidades divinas e humanas, como a do seu filho, a do rei dos Feácios, mas também da classe trabalhadora representada pelo porqueiro Eumeu e do vaqueiro que, armados a seu lado, enfrentam seus inimigos.
Aqui, deixo uma livre interpretação da “canção de luta” de Homero que deveria se propagar em canto acompanhada apenas do arpejo lírico. Usamos apenas gravuras de John Flaxman, um artista inglês romântico do final do século XVIII cuja obra foi publicada no contexto das guerras napoleónicas. Porque, afinal, toda adaptação de uma odisseia sempre reflete o presente sobre o passado clássico da humanidade, de onde surgem sempre novas interpretações.
“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”
Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação.
Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.
Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.
Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.
É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.
Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”
É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.
Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.
Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade.
A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas.
Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.
Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa.
Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”
Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.
Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.
Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.
Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.
Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida.
Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.
Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.
Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.
Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.
Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.
Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.
Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.
O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia.
Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.
Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega.
Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.
O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.
Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.
A questão é se sobreviveremos ao processo.
Perante a ameaça de greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, o presidente do INEM recua nas medidas nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.

Estava em marcha a maior redução de sempre do dispositivo do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) perderia, de uma só vez, 100 ambulâncias: 56 ambulâncias próprias do INEM seriam destinadas a transferências inter-hospitalares e outras 46 ambulâncias de suporte imediato de vida (SIV) seriam convertidas em veículos ligeiros (carros), perdendo a capacidade de transportar doentes.
Os riscos eram evidentes: menos ambulâncias iriam significar um aumento dos tempos de resposta, uma redução dos cuidados diferenciados e, em última instância, a perda de vidas.
Este colapso anunciado promoveria a criação de condições para a entrada de privados no SIEM.
Perante um caderno reivindicativo destinado exclusivamente a proteger e reforçar a resposta que o INEM presta aos cidadãos, o Governo não tinha como justificar a rejeição das propostas apresentadas.
O processo negocial, concluído em 17 dias, resultou num acordo que representa o recuo nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.
Ficou ainda definido que a transformação das ambulâncias SIV em veículos ligeiros, contestada pelo STEPH, sem vantagens apresentadas por Luís Cabral, e que ia reduzir a capacidade de transporte de doentes, avançará apenas através de um projeto-piloto, sendo que, em simultâneo, será criada, no mesmo local, uma nova ambulância, compensando esta perda da capacidade de transporte de doentes.
Este acordo permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica.
O acordo prevê também o reforço dos recursos humanos. O concurso anunciado para a contratação de 150 técnicos de emergência pré-hospitalar (TEPH) será aumentado para 200 vagas, distribuídas pelas quatro regiões do País. Está igualmente previsto o alargamento da formação de TEPH às ambulâncias dos parceiros do INEM, nomeadamente dos bombeiros e da Cruz Vermelha Portuguesa, possibilitando assim que estas entidades tenham também profissionais de saúde tão qualificados quanto o INEM.
Este acordo representa um recuo face às medidas anunciadas pelo presidente do INEM e permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica. Representa uma desautorização do Governo ao presidente Luís Cabral, que vê assim mais um conjunto de medidas e decisões suprimidas pela razão.
Foi um bom acordo para o INEM, mas, sobretudo, para o País e para os cidadãos.
Foi uma vitória dos técnicos de emergência pré-hospitalar, que se recusam a compactuar com o desmantelamento do INEM e da Emergência Médica.
É um dia histórico para o País, protagonizado pelos trabalhadores que salvam vidas diariamente e que agora assumiram também um papel decisivo na definição das políticas de emergência médica.
Iniciar-se-á a 25 deste mês de Setembro a apreciação parlamentar da lei orgânica do INEM, que representa também ameaças ao sistema. Existe um amplo consenso quanto a estas ameaças e a sua revogação apresenta-se cada vez mais como uma inevitabilidade.
Os trabalhadores do INEM permanecerão atentos e interventivos como sempre nas garantias de que as mudanças servirão o INEM, a emergência médica e os cidadãos. Não toleraremos destruição ou retrocessos e o País sabe que pode contar connosco.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, otimização é um nome feminino que designa 1) ato ou efeito de otimizar; 2) reestruturação efetuada com o objetivo de obter o maior rendimento possível; 3) determinação, no estudo de um problema, da solução que, de entre todas as soluções possíveis, conduza aos resultados mais satisfatórios.
EM NOVILÍNGUA:
Se perguntarmos ao Google, este, usando a IA, diz-nos que a definição básica de otimização significa reestruturar ou ajustar variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível. Usando a nossa própria inteligência, numa simples ida ao supermercado, podemos ver como se “reestruturam ou ajustam variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível”: a variável “emprego” nas caixas foi “reestruturada” para obter o “maior rendimento ou o melhor resultado possível” (para os patrões): os clientes são agora “convidados” a fazer o trabalho dos e das operadoras de caixa que foram, entretanto, despedidos. Ou então fazem fila pacientemente por vezes na única caixa aberta operada por um empregado. ASP
Agosto é um mês que me irrita, desde que não o passo no meio dos montes ou na cidade do Porto.
Eu adorava ficar na cidade em agosto, porque estavam os amigos que viviam fora, de férias e cheios de tempo.
O Porto serenava, tinha uma onda diferente do resto do ano.
Na Beira Alta não me apercebia da turba, a não ser numa festa ou outra.
Juntávamos o grupo de urbanitas que desciam ao povoado vindos como bandos de pardais.
Este ano a Costa Nova estava a rebentar pelas costuras, apesar da quebra no consumo. A lancheira ganhou aos bares e restaurantes, cujo preço é incomportável para uma família.
Começaram por cortar nas entradas e nas saídas, as sobremesas. Depois dividiam um prato, uma água e até um café.
Os restaurantes mais caros, a dita pancada alta, sempre cheios a baterem certo com o luxuoso parque automóvel.
Há qualquer coisa que não bate certo, porque nunca vi, a não ser no tempo dos yuppies, tanto carro de luxo. Ferrari para aqui, Aston Martin para ali, Maseratis lindos.
E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise.
Aqui em Aveiro diz-se que quem não rema, já remou, o que é certinho como o Big Ben.
Agosto descarna todas estas idiossincrasias que me fazem pele de galinha.
Uns cospem para o chão, outros ameaçam de pancadaria por um lugar de estacionamento, a tatuagem suada numa camisola de mangas cavas, o gelado a ser lambido por um piercing na ponta da língua...
E eu sempre a dizer a mim que não tinha fumado nada, que não tinha engolido nadinha, que tudo é real, que tenho de aguentar, o ai aguenta, aguenta do outro pedante, até setembro.
E aguentei.
Hoje vai tocar a corneta.
A partir de amanhã, como dizia a nossa Sophia de Mello Breyner, vai-se notar mais aristocracia de comportamento, que era o seu grande objetivo com o socialismo, um sentido de solidariedade, de igualdade, de fraternidade.
Os mais humildes são quase sempre os mais nobres.

Deve haver poucas coisas de que goste ou desgoste tanto como uma boa e uma má peça de teatro. Colam-se ao corpo o belo, o sublime, a criação, e o torpe, o bizarro e o constrangimento. No tempo de Shakespeare o teatro era popular, durava com frequência cinco horas, e as pessoas conversavam, comiam, pateavam, aplaudiam, bebiam e riam no meio da peça.
Leva-me a imaginação para cinco horas de uma peça, cinco horas sentados, sem respirar (tossir é ainda mais grave), conceptual, sem narrativa, com atores tão dramáticos que exageram o exagero e que o encenador acha que para ver as entranhas é preciso mostrá-las.
O que mudou de Shakespeare até hoje? Ouço tantos atores queixarem-se do público, creio que não sabem, ou já deixaram de saber, que só quando todos fizermos teatro haverá públicos para teatro. Foi mais ou menos isso que encontrei na ilha Terceira. E não me tomem por defensora dessa ideia de que só o que é lúdico e alegre é tolerável. Em rigor, uma boa peça de teatro, dramática, intensa, profunda, só pode ser boa quando amplas camadas da população fazem teatro, é esse o meu argumento, e que remete para uma ideia que não é minha, mas de um senhor barbudo, desconhecido por tantos, chamado Karl Marx: no capitalismo dá-se a separação entre produtores e consumidores; nem todos seremos grandes atores, mas todos iremos gostar de teatro se todos fizermos teatro ou, como disse Boal, o teatro é tão importante que até deve ser feito por atores.
Recordo de memória um testemunho do Zeca, já amado pelas massas, em que ele dizia que agora tinha muito público, mas do que ele gostava mesmo era de cantar com as pessoas e não para as pessoas.
Fui àquela que foi, com certeza, a festa mais deslumbrante onde alguma vez estive na vida – e olhem que conheço algumas festas populares nos Alpes e nos Pirenéus, refúgios de cultura que a orografia, a vida camponesa e os subsídios agrícolas preservaram. A festa foi o Carnaval da Ilha Terceira. Uma ilha em que todos fazem teatro. Uma ilha que mudou a relação entre produtores e consumidores, e o sentido do trabalho e, por isso, da cultura.
Não imaginava que pudesse estar sete horas a assistir a teatro sem debandar ou atirar tomates ao palco. Mas estive, e durante três dias, sete horas num dia, cinco no outro. Espero convencer-vos de que não exagero nas palavras. Tudo o que morreu em quase toda a parte do mundo ali mantém-se vivo, como semente de um futuro porvir. Na Terceira quem produz é quem consome, os que escutam música são músicos, os espectadores também fazem teatro, a cultura é de todos. Por razões que não estão totalmente claras – apesar de muitos terem estudado, e bem, o fenómeno –, o Carnaval como sempre foi, teatro popular (não teatro para o povo), ali mantém-se.
Todos os anos, nas freguesias da ilha, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?” Vão ter com poetas locais – alguns escritores maiores formados em anos desta façanha que é ser humano – e contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA, da falta de dinheiro e dos esquemas para o conseguir, das vaquinhas e das touradas, do amor, da morte, da vida. Nada de humano lhes é estranho. Reconhecimento e representação, duas palavras-chave para entender a subjetividade e a política. Depois, a eles juntam-se um dos mais de 30 grupos musicais das filarmónicas que, agora com o roubo da IA e dos direitos de autor pelas big techs e afins, voltaram a compor mais músicas originais. Pede-se às costureiras para fazerem os fatos, em geral pomposos e brilhantes, e por elas desenhados. Também aqui quem faz pensa. Ensaia-se durante os dias frios de janeiro, nas sedes das sociedades recreativas, casas do povo, dezenas destes lugares e, se necessário, garagens, com batata-doce e alfaias agrícolas ao lado de cervejas e alcatra fumegante. Há grupos de homens, mulheres, mistos, jovens e velhos, lavradores, cabeleireiras, biólogos, mecânicos, professores, polícias, enfermeiros, lavradores, cientistas, um encontro democrático, igualitário.
Contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA…
Geralmente cada peça dura entre 25 e 40 minutos. Quando chega o dia, cada grupo de bailinhos, em geral 20 a 30 pessoas, vai de freguesia em freguesia apresentar no palco da sociedade filarmónica, recreativa, casa do povo, dos lavradores, o seu bailinho. Não há dinheiro, ninguém paga para fazer, entrar, assistir e participar.
É muito difícil explicar a todos, mas sobretudo aos atores, que o problema do teatro não está no público. Nem o problema dos escritores ou dos músicos está nos leitores e nos ouvintes. O problema está nesta divisão entre produtores e consumidores, entrem quem pensa e quem faz.
O sociólogo Richard Sennett defende que a democracia não se encontra numa cidade em que cada um respeita a cultura do outro, essencializada (visão kantiana e multiculturalista), mas na existência de espaços – como não elogiar as sociedades filarmónicas, o sentar à mesma mesa e conviver, os bailes? – onde vivemos e convivemos com quem é diferente (universalismo concreto). Uma cidade sem muros nem ameias foi o que encontrei no Carnaval da Terceira.
A classificação eventual do Carnaval da Terceira como património imaterial da humanidade reconhece a importância desta cultura, desta gente, desta arte, mas paradoxalmente pode impor-lhe limites e uma arquitetura que põe em causa essa mesma espontaneidade, essa relação entre trabalho e cultura, essa autonomia, que faz este carnaval. Caberá aos que fazem teatro pensar sobre este desafio.
*Este artigo foi realizado no âmbito da residência da historiadora Raquel Varela na 1ª edição do Monte Brasil – Festival Internacional de Literatura e História de Angra do Heroísmo. Associação Dois Caminhos/Lar Doce Livro.

Sindicatos de estivadores de França, Grécia, País Basco, Turquia, Marrocos e Itália convocam para 30 de Outubro uma jornada internacional de luta “contra a guerra e a militarização”. Exigem o fim do “genocídio do povo palestiniano” e das “guerras de agressão dos EUA e de Israel no Médio Oriente e contra o Irão”.
“Cada sindicato decidirá a forma de mobilização mais adequada consoante as circunstâncias nacionais, a partir de acções de greve e de um compromisso comum de impedir carregamentos de morte e destruição”, lê-se numa declaração conjunta dos sindicatos enviada às publicações Workday Magazine e In These Times no dia 31 de Julho.
Em conjunto, estes sindicatos representam, como referem na sua declaração, operários de 40 portos da Europa e do Mediterrâneo. O apelo a escalar a luta saiu de uma reunião de sindicatos de trabalhadores portuários realizada em Istambul em Maio passado. No anúncio que fizeram, manifestam, ainda, “solidariedade plena com os povos de Cuba, da Venezuela e do Sudão” e defendem que “os portos não podem ser usados para transportar armas, munições, equipamento militar ou tropas destinados a zonas de guerra”.
“Não à economia de guerra, aos planos de rearmamento dos Estados e ao projecto de militarização dos portos e infra-estruturas estratégicas da UE”, defendem os sindicatos no comunicado. “Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar guerras”. Entre os signatários contam-se a CGT FNPD de França, o ENEDEP da Grécia, o LAB do País Basco, o LIMAN-IS da Turquia, a ODT de Marrocos e a ORSA Porti e a USB de Itália.
Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar a guerra.
Tem havido, desde Outubro de 2023, repetidos apelos de sindicalistas palestinianos aos sindicalistas de todo o mundo para que entrem em greve e se recusem a operar carregamentos de armas destinados a Israel, protestem contra a campanha militar de Israel em Gaza, denunciada como genocídio por grupos de direitos humanos de primeira linha e académicos (os Estados Unidos têm prestado decisivo apoio político e financeiro a Israel). Em 5 de Abril de 2025, a Federação Geral dos Sindicatos de Gaza apelou a que os sindicalistas “fizessem pressão a sério para acabar com esta guerra suja”. Os estivadores têm-se empenhado activamente em corresponder a este apelo.
Da Bélgica à Suécia e à Itália, estivadores têm-se recusado a manusear componentes de armas com destino a Gaza. No dia 6 de Fevereiro, paralisaram 21 portos em todo o Mediterrâneo, incluindo Bilbau e Tânger, em protesto contra o uso de infra-estruturas portuárias civis para fins militares e a integração dos seus postos de trabalho numa economia de guerra.
A declaração surge na sequência das duas greves gerais realizadas em Itália no Outono de 2025 em solidariedade com os Palestinianos. Há dez meses, cerca de 60 estivadores reuniram-se no edifício da Autoridade Portuária de Civitavecchia, uma pequena cidade costeira italiana a noroeste de Roma. Era o dia 22 de Setembro de 2025. Tinham abandonado os postos de trabalho ao começar o dia, paralisando o porto, como parte de uma greve geral para protestar contra o facto de o Governo italiano ser o terceiro maior fornecedor de armas a Israel. Viram-se rodeados por cerca de 600 pessoas a aplaudi-los — estudantes, professores, trabalhadores ferroviários, funcionários públicos —, uma multidão significativa para uma cidade tão pequena.
“Que bela imagem, os estivadores rodeados pela sua cidade”, recorda Riccardo Petrarolo, um membro da coordenadora nacional da USB (Unione Sindacale di Base) nos portos italianos.
Os estivadores começaram a receber mensagens WhatsApp de colegas de cidades maiores, como Livorno e Génova, a informá-los de que também os operários dessas cidades tinham paralisado os portos. E dos meios de comunicação social iam aparecendo notícias de greves e encerramentos. “Diziam que exactamente a mesma coisa estava a acontecer nos outros portos”, refere Petrarolo. De cada vez que estivadores anunciavam um novo encerramento pelo sistema de som, conta-me Petrarolo, a multidão soltava “um grito de aplauso, como num estádio”.
Estas acções são fruto de décadas de relações com os Palestinianos construídas pelos operários e de anos de mobilização contra a participação no transporte de armas. A 30 de Agosto de 2025, 40 mil pessoas reuniram-se em Génova para despedir a Flotilha Global Sumud, que partia para levar alimentos e ajuda a Gaza. A luta da flotilha para chegar a Gaza calou fundo entre os trabalhadores do mar — os que trabalham nas docas, os que carregam e descarregam navios, os que reparam e movimentam equipamento e transportam mercadorias para outros portos; e os ataques às embarcações causaram profunda indignação.
Riccardo Rudino, um estivador filiado no Colectivo Autónomo dos Trabalhadores Portuários (CALP), um sindicato independente de Génova, prometeu à multidão que se despedia dos navios que “se perdermos o contacto com os nossos camaradas da flotilha, nem que seja por 20 minutos, bloquearemos toda a Europa a partir das docas de Génova. Nem um prego daqui sai. Será uma greve global”.
Os estivadores de Génova acabaram por convocar rapidamente uma greve geral, para 22 de Setembro, em protesto contra a cumplicidade da Itália no ataque a Gaza. A USB, que conta cerca de 100 mil membros nos sectores privado e público, apoiou a acção. Cerca de meio milhão de pessoas abandonaram os postos de trabalho nesse dia. Um milhão participou em protestos pelas vilas e cidades de toda a Itália. Auto-estradas, ruas e metros ficaram paralisados, ao passo que, em todo o país, a população fazia sua a palavra de ordem “Blocchiamo tutto”: “Bloqueemos tudo!”
José Nivoi, um estivador e porta-voz do CALP que embarcou na Flotilha Global Sumud, concedeu uma entrevista, de bordo, no dia 23 de Setembro, em que apoiava a greve. Disse ele que “as mobilizações que temos estado a fazer são em apoio total à Palestina, e nós nunca recuámos”.
Nos dias 1 e 2 de Outubro de 2025, Israel interceptou os navios da flotilha e deteve as centenas de pessoas a bordo. Chegava a hora de dar corpo à ameaça de “nem um prego”. Os militantes italianos responderam com uma greve geral ainda maior, a 3 de Outubro. Desta vez, a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL), a maior federação sindical de Itália, convocou a greve, tal como a USB. Estima-se em 2 milhões os participantes nos protestos, em mais de oitenta cidades. Portos e auto-estradas bloqueados e encerrados, linhas ferroviárias interrompidas, escolas e universidades fechadas.
“As coisas organizaram-se muito rapidamente e fora do quadro legal de Itália. Tal como antes, envolveram cidades grandes e pequenas e muita gente que saiu à rua em solidariedade”, relata Petrarolo, da USB. “Claro que isso provocou uma reacção do Estado italiano, com multas aos sindicatos e acções policiais e judiciais contra os organizadores. Mas isso não impediu a organização, e o resultado concreto foi que, no dia seguinte, 1 milhão de pessoas saíram à rua em Roma.”
Os estivadores esperam aproveitar o balanço. O anúncio da jornada de luta de 30 de Outubro baseia-se na “Declaração de Istambul”, aprovada por todos os signatários. A par das reivindicações contra a guerra, os trabalhadores vincam a exigência de que “os acordos coletivos garantam aumentos salariais reais, emprego seguro, redução do horário de trabalho e disposições justas em matéria de pensões”. E não querem que a mecanização ou a inteligência artificial “eliminem postos de trabalho ou prejudiquem os direitos dos trabalhadores”.
Os sindicatos dizem-se “prontos para se reunirem com grupos organizados de estivadores de quaisquer outros portos interessados em integrar esta luta comum”.
*Sarah Lazare, publicado em In These Times (31 de Julho de 2026).
Tradução de Adriano Zilhão.

Há poucas semanas, Guifões voltava às notícias. Discursos, anúncios, fotografias e palavras grandes sobre o futuro. Falava-se do início de uma nova etapa para a indústria ferroviária portuguesa e da futura fábrica de comboios que deverá nascer em Guifões.
O futuro parecia promissor.
Durou pouco.
Passadas poucas semanas, os trabalhadores que já hoje dão vida a Guifões recebem uma mensagem bastante diferente: o comboio operário acabou.
É difícil imaginar melhor retrato da distância que tantas vezes existe entre os grandes anúncios e a realidade de quem trabalha.
Para o País anunciam-se comboios novos. Para os trabalhadores retira-se o comboio que os leva ao trabalho.
O comboio operário assegurava a ligação entre Ermesinde e as Oficinas de Guifões, nos dois sentidos. A sua supressão afeta cerca de 80 trabalhadores, aproximadamente 30% do efetivo da oficina, incluindo trabalhadores provenientes dos distritos do Porto, Braga e Aveiro.
Não estamos, portanto, perante uma pequena comodidade concedida a meia dúzia de pessoas.
Estamos perante uma condição concreta da vida de dezenas de trabalhadores.
O seu desaparecimento significa alternativas de transporte menos compatíveis com os horários das oficinas, deslocações mais penosas, menos descanso e menos tempo para a vida pessoal e familiar. Tudo isto imposto a trabalhadores que exercem funções tecnicamente exigentes, onde concentração, responsabilidade e segurança fazem parte do trabalho diário.
Talvez numa folha de cálculo tudo isto seja difícil de contabilizar.
O tempo que um trabalhador deixa de passar com os filhos não aparece nas contas.
O despertador que toca mais cedo também não.
O tempo adicional perdido no regresso a casa não aparece.
O cansaço acumulado não tem uma coluna própria no Excel.
Mas existe.
Não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.
E é aqui que esta decisão deixa de ser apenas incompreensível para se tornar profundamente desrespeitosa para com os trabalhadores da CP.
Porque não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.
Não se pode querer a fotografia do futuro e desprezar quem garante o presente.
Mais: fala-se constantemente da dificuldade em contratar trabalhadores especializados para a ferrovia. Em Guifões, esse desafio será ainda maior se a anunciada fábrica de comboios se concretizar.
Então expliquem-nos a estratégia.
Queremos trazer mais trabalhadores para Guifões, mas começamos por dificultar a vida aos que já lá estão?
Queremos tornar Guifões num grande polo ferroviário, mas acabamos com uma ligação ferroviária utilizada pelos próprios ferroviários?
Queremos construir comboios em Guifões, mas não conseguimos manter o comboio que leva os trabalhadores a Guifões?
Há ironias que se escrevem sozinhas.
E há ainda uma parte desta história que torna tudo isto mais difícil de aceitar.
Guifões tem memória.
Em 2011, o processo que culminou no encerramento da oficina foi também acompanhado pelo desaparecimento do comboio operário e pela sua substituição por transporte rodoviário. Muitos dos trabalhadores que hoje assistem a esta decisão viveram esse período.
Não afirmamos que Guifões vai voltar a fechar.
Mas recusamo-nos a ter memória curta.
O comboio operário desapareceu uma vez.
Depois desapareceu Guifões.
Custou anos, luta e investimento recuperar aquilo que se perdeu.
Por isso, quando vemos novamente desaparecer o primeiro, temos todo o direito de perguntar para onde nos querem levar desta vez.
E talvez seja isto que mais revolta: enquanto se fazem anúncios sobre aquilo que Guifões poderá ser amanhã, parece existir cada vez menos consideração por aqueles que fazem Guifões funcionar hoje.
Os direitos e as condições de trabalho raramente desaparecem todos de uma vez.
Primeiro perde-se um transporte. Depois altera-se um horário. Depois desaparece outra condição.
Cada decisão é apresentada isoladamente como pequena, racional ou inevitável. Até ao dia em que olhamos para trás e percebemos tudo aquilo que ficou pelo caminho.
A Comissão de Trabalhadores, o STMEFE e o SNTSF exigiram à Administração da CP a reposição do comboio operário.
Não estamos a pedir um privilégio. Estamos a exigir respeito. Respeito por cerca de 80 trabalhadores. Respeito por quem manteve Guifões vivo quando era muito mais fácil desistir dele. Respeito por quem todos os dias garante que há material circulante em condições de prestar serviço. E respeito pela própria história ferroviária de Guifões.
Podem anunciar milhões. Podem lançar primeiras pedras. Podem fazer discursos sobre o futuro da indústria ferroviária portuguesa. Mas nenhuma fábrica, oficina ou ferrovia existe sem trabalhadores.
E antes de prometerem o futuro de Guifões, talvez fosse boa ideia começarem por respeitar aqueles que já lá estão.


O plano do Governo era começar com a privatização dos centros de saúde há dois anos. No entanto, o interesse dos privados foi discreto. Mas o primeiro-ministro mantém-se firme: abrirá, diz, 20 unidades geridas por privados (metade da meta inicial).
Até ao fim do ano, unidades como esta deverão abrir em Óbidos, Bombarral, Caldas da Rainha, Silves. Mais tarde, Lagos, Albufeira, Loulé, Portimão.
O objectivo declarado da operação de privatização é dar médico de família a quem não o tem (segundo o Expresso, a equipa de saúde contratada já admitiu que isso não irá acontecer).
Em todo o caso, merece estudo a “lógica profunda” desta operação de privatização. Ela é muito instrutiva sobre o modelo de pilhagem de fundos públicos pela “economia privada” que actualmente rege o país.
Até ao fim do ano, unidades como esta deverão abrir em Óbidos, Bombarral, Caldas da Rainha, Silves. Mais tarde, Lagos, Albufeira, Loulé, Portimão.”
A gestão da nova unidade de saúde familiar do modelo C (USF-C) foi atribuída à empresa de serviços clínicos KnokHealth Portugal, com sede em Matosinhos. A Knok receberá do SNS 2,4 milhões de euros durante cinco anos.
A firma é controlada por uma holding, chamada Seems Possible, Lda. Esta Seems Possible é propriedade de dois homens. Um é médico, o outro, ex-executivo da Sonae. Em 2025, o volume de negócios da empresa terá sido de 10,1 milhões de euros. O lucro atingiu 1,4 milhões, o que dá uma taxa de lucro de 14%.
A Knok não se define como empresa de prestação de serviços de medicina ou de cuidados médicos. É uma “empresa de tecnologia na área da medicina”. A sua especialidade é a “teleconsulta e a medicina via digital”. O “modelo operacional” da empresa é “digital-first” (o digital primeiro).
O SNS assenta noutro “modelo operacional”, conhecido como medicina. O princípio da medicina é diametralmente oposto ao da Knok: é o da administração pessoal de cuidados aos doentes por profissionais de saúde qualificados (médicos e enfermeiros) em instalações criadas, organizadas e equipadas expressamente para o efeito: hospitais, centros de saúde, etc. Os prestadores de cuidados médicos servem-se, “primeiro”, dos seus próprios órgãos dos sentidos — visão, audição, tacto e olfacto, treinados para o efeito — para avaliar o estado de saúde do doente.
Talvez se pudesse chamar ao “modelo operacional” do SNS “a pessoa primeiro” — ou, no português mais moderno da Knok, “patient-first”.
O SNS é inteiramente financiado pelo Orçamento do Estado e pela segurança social, portanto, pelos impostos e pelos salários dos trabalhadores (as contribuições para a segurança social são parte do salário). As suas prestações são gratuitas para os utentes. Por definição, o SNS não pode “dar lucro”.
Como podem então geri-lo privados de modo a dele extrair lucro?
Do lado das receitas, já se viu que a Knok receberá 2,4 milhões de euros do SNS.
E do lado dos custos, os operacionais, com pessoal e financeiros?
A primeira pergunta que mais exactamente pede resposta é esta: como se financia e quem financia a empresa privada que irá gerir a USF de São Pedro da Cadeira?
Vejamos.
Edificações e equipamentos são uma componente importante da infra-estrutura de uma operação “realmente existente” e, portanto, do seu custo. O edifício da USF pertence “à Câmara Municipal de Torres Vedras, que cedeu a utilização à empresa e os direitos de renovação (…), o cofundador e CEO da Knok garante que o espaço ‘é novo e está numa condição excelente, portanto não faz sentido mudar o que está bem’” (Eco, 3 de Agosto). As instalações foram inauguradas em Maio de 2025 “na sequência de um processo de modernização cofinanciado pelo PRR – Plano de Recuperação e Resiliência em cerca de 600 mil euros”. Olha que sorte: é um custo financeiro que os investidores privados não têm de suportar (ao contrário do SNS). Pagaram-no… fundos públicos!
O financiamento operacional da empresa Knok tem três pilares-chave:
a) Financiamento conseguido pela via do Fundo Social Europeu (um fundo público, europeu), que permitiu a aquisição de uma participação de capital no valor de €1,43 milhões de euros (https://www.fi-compass.eu/stories/fresh-air-portugals-healthcare), detida pelo Fundo de Inovação Social português (fundo público, português), gerido pelo Banco Português de Fomento (banco público, português).
b) Capital de risco privado e co-investidores
Outros 1,7 milhões vieram de um intermediário financeiro de capital de risco, a Mustard Seed MAZE (MSM), uma parceria entre o fundo de impacto MAZE, que é por sua vez uma parceria com a Fundação Gulbenkian, e o fundo de capital de risco inglês Mustard Seed, fundado por ex-investidores no gigantesco banco de investimento americano Goldman Sachs, na gigantesca gestora de fundos americana BlackRock, no gigantesco fundo soberano do Abu Dhabi e na gigantesca gestora de fundos americana KKR.
A MSM espera dos seus investimentos “retornos financeiros competitivos”.
Uma ronda de financiamento suplementar da Knok, no valor de 4,4 milhões, foi co-dirigida pela empresa portuguesa privada de capital de risco Armilar Venture Partners. Fundada no ano 2000, a Armilar tinha, até 2014, o nome Espírito Santo Ventures: parte integrante do saudoso BES…
Os fundos que a Armilar gere e investe não são, porém, seus: têm origem em “apoios institucionais de primeira grandeza”: o Fundo Europeu de Investimento (EIF, dependente do Banco Europeu de Investimento, banco público, europeu), o SETT, uma instituição financeira e de investimento tecnológico (instituição pública, espanhola), e… outra vez, o Banco Português de Fomento (banco público).
Também a gestora de activos britânica Triple Point & Ryse Asset Management participou, mais modestamente, no financiamento da “expansão internacional” da Knok.
Por fim, o fundo NOS 5G, gerido pela empresa de telecomunicações NOS, controlada pela Sonae, injectou 4,4 milhões de euros — em troca, nomeadamente, de a Knok usar as redes da NOS.
É de presumir (e de esperar) que o pessoal que trabalhará na USF gerida pelos privados tenha recebido a sua educação e formação em escolas e universidades. Em Portugal, são públicas as faculdades de Medicina em que se formaram os médicos actuais do País. Elas funcionam, no essencial, com financiamento público, do Orçamento do Estado e de fundos públicos nacionais e europeus.
Adicionalmente, só pode trabalhar numa USF privada quem estiver “desvinculado” do SNS há mais de três anos. Isto implica afastar do centro de saúde actual o pessoal que não cumpra tal requisito.
Na “actividade” de um centro de saúde, tenha ele o nome ou a letra que tiver, verificam-se, portanto, os seguintes factos:
Nestas condições, é legítimo perguntar: como e de onde pode uma empresa que faça “exactamente o mesmo” que o SNS (como diz a propaganda oficial) extrair lucro para os seus investidores — e à belíssima taxa a que a Knok está habituada?
A resposta está no próprio lema da Knok: o digital primeiro, o doente depois.
Na palavra “teleconsulta”, a especialidade que a Knok vende, tele vem do grego; quer dizer à distância (como em televisão, telefone, etc.).
Entregue-se uma montanha de fundos públicos a dinâmicos gestores privados capazes de produzir power points vistosos com muitas palavras que parecem inglesas; os gestores põem uns médicos a receber telefonemas das pessoas com problemas de saúde; o médico manda umas receitas para a app.
A isto se resume o modelo de negócio lucrativo das novas USFs privadas.
Dinheiro do Estado, para perto; o doente, para longe; o médico, para o telefone e o ecrã.
Ou dá um belo lucro ou ficam a arder fundos públicos, e o SNS que recolha os cacos.
O mercado trata-nos da saúde.
Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho.

A Venezuela vive uma tragédia histórica. Enquanto o Campeonato do Mundo de Futebol desviava a atenção da grande comunicação social internacional da situação colonial que os Estados Unidos impuseram à Venezuela desde 3 de janeiro, uma parte significativa da esquerda continental e mundial recebia com alívio esse afastamento mediático, já que deixara de encontrar argumentos para justificar a rendição que a Junta de Administração Colonial do país faz aos desígnios da administração Trump. Esta Junta de Administração Colonial é liderada pelos irmãos Rodríguez (Delcy e Jorge) e por Diosdado Cabello2.
O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora. O salário mínimo base permaneceu ancorado em menos de 0,4 dólares mensais, e a bonificação dos rendimentos, via bónus e subsídios sem incidência salarial, não chegou a 200 dólares por mês, nem alcançou toda a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, o dólar voltou a disparar (atualmente acima de 745 bolívares), o que tem impulsionado a inflação num país onde cada produto do cabaz básico pode chegar a custar duas ou três vezes mais do que a média regional3.
Pelas mãos de Marco Rubio, a Venezuela regressou ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, e embora o “Delcinato” tente justificá-lo como a única possibilidade de recuperar os 5 mil milhões de dólares retidos pelo FMI e que pertencem à Venezuela, a realidade é que isso implica um novo ajuste estrutural da economia. O antecedente mais recente de um pacote de medidas económicas e políticas contra a classe trabalhadora, que nada ficou a dever às receitas neoliberais, foi aplicado por Nicolás Maduro, entre 2018 e 2025. O mais grave é que os irmãos Rodríguez e Diosdado Cabello mantêm silêncio absoluto quanto à continuidade das sanções e ao bloqueio das contas internacionais da Venezuela, impostos pelos Estados Unidos desde o primeiro governo daquele que agora definem como parceiro, Donald Trump.
O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora.
A 13 de maio deste ano, o Governo venezuelano anunciou o início da reestruturação da dívida do país em diálogo com o FMI. Uma dívida estimada, à data, em 170 mil milhões de dólares, valor que contrasta com os 82 mil milhões de dólares em receitas que o país terá, segundo estimativas da própria organização multilateral, em 2026. Dias mais tarde, a 26 de maio, Delcy Rodríguez anunciou ainda a criação da Comissão Presidencial para a Reestruturação e Reengenharia do Governo, com o objetivo de torná-lo mais eficaz, ou seja, anunciou uma reforma do Estado no estilo das recomendações do FMI, focada em encolher o Estado sob o pretexto de tornar os gastos públicos mais eficientes.
Um mês depois, a 24 de junho, horas antes de se desencadear a tragédia sísmica, o Financial Times noticiava que o Governo venezuelano iria divulgar o valor da dívida externa do país, reestimada em cerca de 240 mil milhões de dólares, um montante que se compara ao que provocou a crise da dívida na Grécia, o país mais endividado da zona euro em percentagem do PIB. Este valor explica a urgência da Junta de Administração Colonial em reestruturar o Governo e faz prever despedimentos, o encerramento de instituições públicas e a intensificação do corralito sobre os salários da classe trabalhadora local4.
Na Venezuela, a relação entre trabalho e salário atingiu um ponto que alguns especialistas classificam como uma nova escravidão, marcada pelo desaparecimento do salário real e pela sua substituição por rendimentos baseados em bonificações, inseridos na estrutura económica salarial local. Tal tem invariavelmente conduzido à perda dos direitos laborais adquiridos, à precariedade dos valores pagos por férias e ao subsídio de Natal (décimo terceiro mês) ou na impossibilidade de obter uma pensão de reforma que permita a compra de pelo menos um medicamento nas farmácias do país5.
Com a aprovação da nova Lei dos Hidrocarbonetos, aprovada de modo acelerado pelo parlamento colonial dos irmãos Rodríguez e companhia, reduziram-se as receitas do petróleo venezuelano por barril de 10 para 1,7 dólares, o que nos faz recordar a legislação setorial aprovada pela social-democracia nos anos 40 do século XX. Tudo parece indicar que, no curto prazo, o caminho será o do trágico aprofundamento do já conhecido colapso de todos os serviços públicos. Em apenas uma década (2014-2024), a Venezuela perdeu os elementos mais palpáveis da modernidade institucional burguesa, entrando numa fase de retorno à pré-modernidade, de tal modo que a campanha eleitoral de 2024 focou-se no acesso à água potável, à eletricidade, ao transporte público, à segurança policial e ao funcionamento mínimo das escolas e universidades.
Apesar de tudo, e embora possa parecer incrível, a diáspora migratória, estimada em cerca de seis milhões de venezuelanos e venezuelanas, conseguiu, através das suas remessas, ajudar a atenuar a crise de rendimentos. Contudo, não há dinheiro que possa manter o poder de compra face ao avanço desenfreado da inflação.
Um elemento significativo, apenas explicável como parte da derrota histórica da revolução bolivariana, foi a simpatia que a captura, o sequestro e a prisão nos Estados Unidos do casal presidencial Maduro-Flores suscitaram na maioria da população. Ao contrário de 2002, quando a população foi massivamente às ruas e derrotou o golpe de estado contra Hugo Chávez, desta vez viram-se apenas reduzidas concentrações, organizadas pela cada vez mais pequena base social do madurismo, e cuja liderança rapidamente transitou para um “Delcinato colonial”.
As simpatias pela operação militar gringa estavam assim relacionadas com a situação material da classe trabalhadora e o silogismo interpretativo que muitos fizeram: “se o desaparecimento dos salários e a precariedade das condições materiais da vida, como efeito das sanções dos EUA, têm origem na rivalidade entre Maduro e Trump, então, se Maduro não estiver no poder, a situação vai melhorar”. Em boa verdade, a generalidade da população acreditou que as sanções seriam suspensas, que a Venezuela poderia vender petróleo livremente e que as receitas melhorariam a sua situação económica. Mas o que aconteceu foi a manutenção dessa precariedade e até mesmo o seu agravamento, o que está a transformar as simpatias em desilusão e irritação com os gringos, ainda que tal não se tenha, ainda, traduzido num movimento anti-imperialista com expressão de massas.
O panorama é, no mínimo, sombrio.
Quando se pensava que as coisas não poderiam piorar, a realidade acabou por demonstrar o contrário. Dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho, num evento sísmico que os especialistas descrevem como um “dupleto”6. Dezenas de prédios colapsaram; outros ficaram inabitáveis ou severamente danificados, sendo La Guaira, localizada em frente ao mar, a área mais afetada. Milhares de mortes e um número ainda não estimado de pessoas desaparecidas revelam a magnitude da catástrofe.
Como num filme de terror, as primeiras horas não contaram nem com a presença nem com o auxílio do Exército ou dos altos funcionários. Apenas bombeiros locais, a proteção civil e um número crescente de cidadãos voluntários assumiram, por iniciativa própria, o cuidado e o socorro às vítimas. Enterrava-se assim, junto com as infraestruturas colapsadas no terramoto, o discurso da aliança cívico-militar como motor de mudança na Venezuela.
Mas em política não há vazio que se sustente: por isso, um mar de mãos e corpos solidários construiu uma cadeia humana de ajuda mútua, fazendo chegar, de todos os cantos do país, remédios, comida, roupas, pertences e ferramentas para ajudar a resgatar as pessoas presas nos escombros. Os equipamentos pesados de salvamento e resgate demoraram mais de 36 horas para chegar, tendo sido as brigadas internacionais de ajuda o motor da ação humanitária tecnicamente qualificada e os que testemunharam o que ali se passava.
Quase todo o litoral de La Guaira foi reduzido a escombros, ruindo tanto urbanizações construídas pelo Governo como pelo setor privado. As denúncias de pessoas afetadas, que habitavam apartamentos e casas de interesse social entregues pelo Governo nacional, mostram imagens de erros estruturais de construção que exigem uma investigação pública para determinar a veracidade das denúncias e apurar futuras responsabilidades.
Perante o abandono contínuo do Governo nas horas e dias que se seguiram à tragédia, a resposta do povo foi contundente. Imediatamente após a tragédia, e em contraste com a ineficácia governamental, gerou-se uma onda de solidariedade cidadã, que se recusava a entregar alimentos e remédios a representantes do Governo, por desconfiar que estes não chegariam às vítimas. Caravanas sucessivas de voluntários e voluntárias, auto-organizados, formaram uma ponte permanente de auxílio.
A resposta oficial, além de tardia, foi também desajeitada, ao tentar travar a onda de solidariedade. Porém, os postos de controle e os piquetes policiais-militares de contenção foram transpostos, ultrapassados e ignorados pela população. Esta situação de rebeldia popular expressa a profunda desconfiança em todas as formas institucionais e até mesmo em organizações políticas, confiando apenas nos que faziam e entregavam diretamente às mãos dos afetados. A palavra de ordem “apenas o povo salva o povo” passou a ser repetida por pessoas de diferentes inclinações ideológicas.
Pouquíssimos políticos ousaram estar diretamente no local do desastre, talvez desencorajados pela rejeição captada em vídeos nas redes sociais, como aconteceu com a visita de Jorge Arreaza (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e membro da liderança do PSUV) e de Nicolás Maduro Guerra (filho de Nicolás Maduro), que foram vaiados e confrontados pela população devido à ineficácia do Governo e aos problemas nas habitações sociais, que colapsaram com os terramotos.
Por fim, o Governo estabeleceu abrigos para as pessoas afetadas, distribuídos em diferentes partes de Caracas, com a promessa de realocá-las para novos lares nos próximos meses. Ainda assim, centenas de famílias procuram, por conta própria, os seus entes queridos soterrados nos escombros, contando apenas com a ajuda de voluntários, vizinhos e movimentos sociais. A colonização não apenas viola a soberania territorial e democrática, como também está a diluir os remanescentes de um processo revolucionário que prometia romper com a lógica neoliberal e colocar as instituições ao serviço do povo.
A burguesia é inimiga do socialismo, independentemente do discurso ideológico que adote para acumular riqueza. Por essa razão, à medida que a nova burguesia bolivariana (2002-2017), sob a liderança de Maduro, se consolida, busca recuperar a relação com os Estados Unidos e reconciliar-se com a antiga burguesia existente antes do processo bolivariano, com quem os laços haviam sido rompidos desde o golpe de estado de 2002. Entre 2018 e 2023, Maduro foi o arquiteto dessa dupla reaproximação, e os seus operadores políticos foram Delcy Rodríguez (diálogo e reconciliação com a associação patronal FEDECAMARAS) e Jorge Rodríguez (negociações com a oposição, com uma agenda permanentemente guiada pelos EUA, o que evidencia as limitações do setor de María Corina Machado). Diosdado Cabello atuou e continua a atuar como garantia de controle interno, por meio da intervenção nos instrumentos políticos e da repressão contra as organizações da classe trabalhadora.
Foi aí que começou o processo de colonização; na claudicação do madurismo, na derrota histórica do movimento contraditório chamado revolução bolivariana. Maduro abriu o caminho para o que parece ser uma traição destinada a facilitar a colonização aberta a partir de 3 de janeiro. Até mesmo os autores pós-coloniais, como Ramón Grosfoguel e seus colegas, que anteriormente tinham cerrado fileiras na defesa do madurismo, romperam hoje abertamente com a liderança colonial (Delcy-Jorge Rodríguez e Diosdado) devido à rendição rude e repugnante que está a ser feita do país aos gringos e ao sionismo. O dia 3 de janeiro e os eventos subsequentes são o resultado da traição à revolução bolivariana iniciada por Maduro.
Os eventos em cascata que moldaram a situação colonial são:



(continua)
Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas?
E por que não te hei-de eu falar?
Walt Whitman
«A Ti», in Folhas de Erva
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
Relógio D’Água Editores, 2010
O leitor pode estar a perguntar-se: “Será mesmo que a Odisseia é uma canção de luta?”
Antes de se tornar um livro ou um filme, tanto a Ilíada quanto a Odisseia de Homero eram cantos. Versos cantados, e é por essa denominação que continuam dividindo cada parte da narrativa desses heróis míticos – Aquiles e Ulisses (Odisseu). Não são “capítulos”, como na literatura, mas “cantos”.
Os poemas homéricos são bastante longos e, sendo cantados e memorizados, teriam sido propagados de geração em geração até ganhar a forma escrita alfabética dos Gregos. Posteriormente foram traduzidos para latim pelos Romanos e assim chegaram até nós seus versos, sem que saibamos ao certo como era a melodia original da música que os acompanhava.
Mas, considerando a Odisseia como canção, pode ser considerada “de luta”?
A tradição de contar em versos as façanhas dos guerreiros em sua memória remonta a esses aedos, como eram chamados na antiga Grécia os bardos que cantavam as glórias dos heróis do passado.
Na Ilíada se conta, na guerra de Troia, a razão da “fúria de Aquiles”, o modo como se enfrentou com Heitor após a morte de seu amigo Pátroclo, vestido com sua armadura. Na Odisseia, contudo, o que se narra é a história de Ulisses/Odisseu e suas peripécias (e também truques e mentiras) na tentativa de voltar e retomar o lar e o trono de rei na ilha de Ítaca.
É certo que a Ilíada trata da luta: a honra, a virtude, a destreza e a força dos guerreiros aqueus, em especial de Aquiles. Contudo, Odisseu luta não contra homens apenas, mas contra seres fantásticos, dotados de superpoderes, e até mesmo contra o deus dos mares Poseidon, cujo nome foi traduzido para o latim pelos romanos como Neptuno.
Considerando que a Odisseia é uma canção de luta, poderia perguntar-se: “Afinal, de que tipo de luta?” Não seria esta coluna dedicada especificamente à luta de classes?
As canções de luta de classes são, antes de mais nada, canções de luta, que conclamam à tomada de consciência, à mudança de atitude, ao rompimento com a passividade e o conformismo, e louvam aqueles que tiveram coragem para explicar, mobilizar e conduzir a luta da classe operária em diferentes sentidos e contextos.
Esse não é o sentido da Odisseia, onde o herói é um aristocrata, líder militar e proprietário de escravos que se manterão fieis ao seu amo para ajudá-lo a retomar o poder e ter restituídos seu lar, sua família e seus bens patrimoniais. Não se trata de tomada de consciência de classe, mas daquilo que Marx chamaria de uma disputa interclassista.
Na Odisseia, não há qualquer ruptura revolucionária com o modo de produção escravista antigo que, naquele contexto, estava se constituindo na Grécia e posteriormente em Roma, em oposição ao modo de produção asiático predominante nos impérios do Egito, da Mesopotâmia, da Pérsia, da Índia e da China antigas.
Então, qual é a importância desta canção de luta para o Ocidente e para a luta da classe trabalhadora? Ora, como diria o dramaturgo Bertolt Brecht, toda forma de linguagem reflete a ideologia de sua época, mas as formas estéticas que a elaboram servem como moldura narrativa de outras lutas a serem narradas. Cada povo e cada classe elabora seus próprios códigos de luta, mas sempre a partir de uma matriz referencial.
A Odisseia é um modelo que serviu a diversas historias na literatura, no cinema e nas artes plásticas relacionadas com o “retorno do herói”. Esse retorno pode também ser lido de forma alegórica, com a superação de desafios que a princípio o impediam de cumprir seus objetivos. Um jogo de estratégia em que a cada novo patamar de alcance surgem novas dificuldades imprevistas que envolvem o uso inteligente da força, da astúcia, das armas e em alguma instância da sorte, manifesta nessa história pela “ajuda dos deuses”.
A balada épica inspirou o cancioneiro dos trovadores de diversos contextos e épocas. Assim seria o Cantar del mio Cid ou a Chanson de Roland. Mais tarde, Os Lusíadas, de Camões, acabou sendo escrito diretamente inspirado na epopeia de Homero, em grande parte as viagens de Ulisses – a quem se atribuiu erroneamente a fundação de Lisboa, embora os Fenícios já andassem na costa de Portugal bem antes dos Gregos.
Até o início do século XX, o certo é que foi através de canções que foram propagadas as façanhas de heróis e anti-heróis populares. De malfeitores do “velho oeste” dos Estados Unidos, como Billy the Kid, personagens míticos como o gaúcho argentino Martín Fierro ou heróis populares de moral duvidosa como Lampião, o bandoleiro nordestino conhecido como o “rei do cangaço”, no Brasil. Essas narrativas épicas, cantadas em feiras itinerantes, eram vendidas em folhetos onde poderia se acompanhar a letra, gravuras da estória e às vezes até mesmo a partitura da melodia.
É precisamente na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos, com o bordão que sintetiza a trama da história: “Ulisses da guerra pra casa voltando/ enfrenta Neptuno na fúria do mar”. Este é um panorama da Odisseia, uma cantoria de quase 20 minutos, resumindo o que no cinema dura duas ou até três horas, como a recente produção do cineasta Christopher Nolan.
A versão também é mais curta que outros poemas e obras literárias que se inspiram ou parodiam a Odisseia de Homero, como os Cantos de Ezra Pound ou o Ulysses de James Joyce. Aliás, Joyce escreveu sua versão vanguardista da Odisseia em Zurique, na mesma época em que Lenine ali se encontrava exilado, em 1916, no contexto da Primeira Guerra Mundial. Sabe-se que Lenine morava na mesma rua do Cabaret Voltaire, a casa noturna criada por Hugo Ball para produzir happenings dadaístas que desafiavam a estética tradicional. E talvez Lenine e Joyce tenham até mesmo casualmente conversado algum dia sobre literatura, podendo o escritor irlandês ter comentado ao revolucionário russo sobre seu ambicioso projeto homérico moderno que começara a escrever ali em Zurique.
Tudo isso poderia ter acontecido, mas o facto é que em outubro de 1917, na Estação Finlândia, Lenine dava início à revolução que acabaria com a exploração dos trabalhadores pela burguesia ociosa – o início de uma grande odisseia da classe trabalhadora. Mas não se tratava de restaurar uma era gloriosa da monarquia anterior, senão de inaugurar um mundo inteiramente novo. Para isso mobilizou toda sua capacidade na elaboração de táticas e estratégias que permitissem construir um poder paralelo para confrontar o Estado, tomar o poder, acabar com a guerra e dividir as terras.
Em outras palavras, tratava-se de usar a força e a astúcia para acabar com o mundo que os senhores da guerra e da terra haviam criado. Homens como os que lutaram na guerra de Troia, que acabou vencida não apenas pela força, mas sobretudo pela estratégia de Ulisses, astúcia que Homero cantou em versos, propagando suas aventuras ao longo de séculos. Se Ulisses retomou o poder, isso não seria possível sem a ajuda de entidades divinas e humanas, como a do seu filho, a do rei dos Feácios, mas também da classe trabalhadora representada pelo porqueiro Eumeu e do vaqueiro que, armados a seu lado, enfrentam seus inimigos.
Aqui, deixo uma livre interpretação da “canção de luta” de Homero que deveria se propagar em canto acompanhada apenas do arpejo lírico. Usamos apenas gravuras de John Flaxman, um artista inglês romântico do final do século XVIII cuja obra foi publicada no contexto das guerras napoleónicas. Porque, afinal, toda adaptação de uma odisseia sempre reflete o presente sobre o passado clássico da humanidade, de onde surgem sempre novas interpretações.
“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”
Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação.
Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.
Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.
Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.
É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.
Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”
É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.
Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.
Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade.
A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas.
Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.
Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa.
Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”
Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.
Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.
Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.
Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.
Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida.
Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.
Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.
Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.
Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.
Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.
Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.
Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.
O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia.
Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.
Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega.
Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.
O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.
Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.
A questão é se sobreviveremos ao processo.
Perante a ameaça de greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, o presidente do INEM recua nas medidas nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.

Estava em marcha a maior redução de sempre do dispositivo do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) perderia, de uma só vez, 100 ambulâncias: 56 ambulâncias próprias do INEM seriam destinadas a transferências inter-hospitalares e outras 46 ambulâncias de suporte imediato de vida (SIV) seriam convertidas em veículos ligeiros (carros), perdendo a capacidade de transportar doentes.
Os riscos eram evidentes: menos ambulâncias iriam significar um aumento dos tempos de resposta, uma redução dos cuidados diferenciados e, em última instância, a perda de vidas.
Este colapso anunciado promoveria a criação de condições para a entrada de privados no SIEM.
Perante um caderno reivindicativo destinado exclusivamente a proteger e reforçar a resposta que o INEM presta aos cidadãos, o Governo não tinha como justificar a rejeição das propostas apresentadas.
O processo negocial, concluído em 17 dias, resultou num acordo que representa o recuo nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.
Ficou ainda definido que a transformação das ambulâncias SIV em veículos ligeiros, contestada pelo STEPH, sem vantagens apresentadas por Luís Cabral, e que ia reduzir a capacidade de transporte de doentes, avançará apenas através de um projeto-piloto, sendo que, em simultâneo, será criada, no mesmo local, uma nova ambulância, compensando esta perda da capacidade de transporte de doentes.
Este acordo permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica.
O acordo prevê também o reforço dos recursos humanos. O concurso anunciado para a contratação de 150 técnicos de emergência pré-hospitalar (TEPH) será aumentado para 200 vagas, distribuídas pelas quatro regiões do País. Está igualmente previsto o alargamento da formação de TEPH às ambulâncias dos parceiros do INEM, nomeadamente dos bombeiros e da Cruz Vermelha Portuguesa, possibilitando assim que estas entidades tenham também profissionais de saúde tão qualificados quanto o INEM.
Este acordo representa um recuo face às medidas anunciadas pelo presidente do INEM e permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica. Representa uma desautorização do Governo ao presidente Luís Cabral, que vê assim mais um conjunto de medidas e decisões suprimidas pela razão.
Foi um bom acordo para o INEM, mas, sobretudo, para o País e para os cidadãos.
Foi uma vitória dos técnicos de emergência pré-hospitalar, que se recusam a compactuar com o desmantelamento do INEM e da Emergência Médica.
É um dia histórico para o País, protagonizado pelos trabalhadores que salvam vidas diariamente e que agora assumiram também um papel decisivo na definição das políticas de emergência médica.
Iniciar-se-á a 25 deste mês de Setembro a apreciação parlamentar da lei orgânica do INEM, que representa também ameaças ao sistema. Existe um amplo consenso quanto a estas ameaças e a sua revogação apresenta-se cada vez mais como uma inevitabilidade.
Os trabalhadores do INEM permanecerão atentos e interventivos como sempre nas garantias de que as mudanças servirão o INEM, a emergência médica e os cidadãos. Não toleraremos destruição ou retrocessos e o País sabe que pode contar connosco.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, otimização é um nome feminino que designa 1) ato ou efeito de otimizar; 2) reestruturação efetuada com o objetivo de obter o maior rendimento possível; 3) determinação, no estudo de um problema, da solução que, de entre todas as soluções possíveis, conduza aos resultados mais satisfatórios.
EM NOVILÍNGUA:
Se perguntarmos ao Google, este, usando a IA, diz-nos que a definição básica de otimização significa reestruturar ou ajustar variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível. Usando a nossa própria inteligência, numa simples ida ao supermercado, podemos ver como se “reestruturam ou ajustam variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível”: a variável “emprego” nas caixas foi “reestruturada” para obter o “maior rendimento ou o melhor resultado possível” (para os patrões): os clientes são agora “convidados” a fazer o trabalho dos e das operadoras de caixa que foram, entretanto, despedidos. Ou então fazem fila pacientemente por vezes na única caixa aberta operada por um empregado. ASP
Agosto é um mês que me irrita, desde que não o passo no meio dos montes ou na cidade do Porto.
Eu adorava ficar na cidade em agosto, porque estavam os amigos que viviam fora, de férias e cheios de tempo.
O Porto serenava, tinha uma onda diferente do resto do ano.
Na Beira Alta não me apercebia da turba, a não ser numa festa ou outra.
Juntávamos o grupo de urbanitas que desciam ao povoado vindos como bandos de pardais.
Este ano a Costa Nova estava a rebentar pelas costuras, apesar da quebra no consumo. A lancheira ganhou aos bares e restaurantes, cujo preço é incomportável para uma família.
Começaram por cortar nas entradas e nas saídas, as sobremesas. Depois dividiam um prato, uma água e até um café.
Os restaurantes mais caros, a dita pancada alta, sempre cheios a baterem certo com o luxuoso parque automóvel.
Há qualquer coisa que não bate certo, porque nunca vi, a não ser no tempo dos yuppies, tanto carro de luxo. Ferrari para aqui, Aston Martin para ali, Maseratis lindos.
E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise.
Aqui em Aveiro diz-se que quem não rema, já remou, o que é certinho como o Big Ben.
Agosto descarna todas estas idiossincrasias que me fazem pele de galinha.
Uns cospem para o chão, outros ameaçam de pancadaria por um lugar de estacionamento, a tatuagem suada numa camisola de mangas cavas, o gelado a ser lambido por um piercing na ponta da língua...
E eu sempre a dizer a mim que não tinha fumado nada, que não tinha engolido nadinha, que tudo é real, que tenho de aguentar, o ai aguenta, aguenta do outro pedante, até setembro.
E aguentei.
Hoje vai tocar a corneta.
A partir de amanhã, como dizia a nossa Sophia de Mello Breyner, vai-se notar mais aristocracia de comportamento, que era o seu grande objetivo com o socialismo, um sentido de solidariedade, de igualdade, de fraternidade.
Os mais humildes são quase sempre os mais nobres.

Deve haver poucas coisas de que goste ou desgoste tanto como uma boa e uma má peça de teatro. Colam-se ao corpo o belo, o sublime, a criação, e o torpe, o bizarro e o constrangimento. No tempo de Shakespeare o teatro era popular, durava com frequência cinco horas, e as pessoas conversavam, comiam, pateavam, aplaudiam, bebiam e riam no meio da peça.
Leva-me a imaginação para cinco horas de uma peça, cinco horas sentados, sem respirar (tossir é ainda mais grave), conceptual, sem narrativa, com atores tão dramáticos que exageram o exagero e que o encenador acha que para ver as entranhas é preciso mostrá-las.
O que mudou de Shakespeare até hoje? Ouço tantos atores queixarem-se do público, creio que não sabem, ou já deixaram de saber, que só quando todos fizermos teatro haverá públicos para teatro. Foi mais ou menos isso que encontrei na ilha Terceira. E não me tomem por defensora dessa ideia de que só o que é lúdico e alegre é tolerável. Em rigor, uma boa peça de teatro, dramática, intensa, profunda, só pode ser boa quando amplas camadas da população fazem teatro, é esse o meu argumento, e que remete para uma ideia que não é minha, mas de um senhor barbudo, desconhecido por tantos, chamado Karl Marx: no capitalismo dá-se a separação entre produtores e consumidores; nem todos seremos grandes atores, mas todos iremos gostar de teatro se todos fizermos teatro ou, como disse Boal, o teatro é tão importante que até deve ser feito por atores.
Recordo de memória um testemunho do Zeca, já amado pelas massas, em que ele dizia que agora tinha muito público, mas do que ele gostava mesmo era de cantar com as pessoas e não para as pessoas.
Fui àquela que foi, com certeza, a festa mais deslumbrante onde alguma vez estive na vida – e olhem que conheço algumas festas populares nos Alpes e nos Pirenéus, refúgios de cultura que a orografia, a vida camponesa e os subsídios agrícolas preservaram. A festa foi o Carnaval da Ilha Terceira. Uma ilha em que todos fazem teatro. Uma ilha que mudou a relação entre produtores e consumidores, e o sentido do trabalho e, por isso, da cultura.
Não imaginava que pudesse estar sete horas a assistir a teatro sem debandar ou atirar tomates ao palco. Mas estive, e durante três dias, sete horas num dia, cinco no outro. Espero convencer-vos de que não exagero nas palavras. Tudo o que morreu em quase toda a parte do mundo ali mantém-se vivo, como semente de um futuro porvir. Na Terceira quem produz é quem consome, os que escutam música são músicos, os espectadores também fazem teatro, a cultura é de todos. Por razões que não estão totalmente claras – apesar de muitos terem estudado, e bem, o fenómeno –, o Carnaval como sempre foi, teatro popular (não teatro para o povo), ali mantém-se.
Todos os anos, nas freguesias da ilha, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?” Vão ter com poetas locais – alguns escritores maiores formados em anos desta façanha que é ser humano – e contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA, da falta de dinheiro e dos esquemas para o conseguir, das vaquinhas e das touradas, do amor, da morte, da vida. Nada de humano lhes é estranho. Reconhecimento e representação, duas palavras-chave para entender a subjetividade e a política. Depois, a eles juntam-se um dos mais de 30 grupos musicais das filarmónicas que, agora com o roubo da IA e dos direitos de autor pelas big techs e afins, voltaram a compor mais músicas originais. Pede-se às costureiras para fazerem os fatos, em geral pomposos e brilhantes, e por elas desenhados. Também aqui quem faz pensa. Ensaia-se durante os dias frios de janeiro, nas sedes das sociedades recreativas, casas do povo, dezenas destes lugares e, se necessário, garagens, com batata-doce e alfaias agrícolas ao lado de cervejas e alcatra fumegante. Há grupos de homens, mulheres, mistos, jovens e velhos, lavradores, cabeleireiras, biólogos, mecânicos, professores, polícias, enfermeiros, lavradores, cientistas, um encontro democrático, igualitário.
Contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA…
Geralmente cada peça dura entre 25 e 40 minutos. Quando chega o dia, cada grupo de bailinhos, em geral 20 a 30 pessoas, vai de freguesia em freguesia apresentar no palco da sociedade filarmónica, recreativa, casa do povo, dos lavradores, o seu bailinho. Não há dinheiro, ninguém paga para fazer, entrar, assistir e participar.
É muito difícil explicar a todos, mas sobretudo aos atores, que o problema do teatro não está no público. Nem o problema dos escritores ou dos músicos está nos leitores e nos ouvintes. O problema está nesta divisão entre produtores e consumidores, entrem quem pensa e quem faz.
O sociólogo Richard Sennett defende que a democracia não se encontra numa cidade em que cada um respeita a cultura do outro, essencializada (visão kantiana e multiculturalista), mas na existência de espaços – como não elogiar as sociedades filarmónicas, o sentar à mesma mesa e conviver, os bailes? – onde vivemos e convivemos com quem é diferente (universalismo concreto). Uma cidade sem muros nem ameias foi o que encontrei no Carnaval da Terceira.
A classificação eventual do Carnaval da Terceira como património imaterial da humanidade reconhece a importância desta cultura, desta gente, desta arte, mas paradoxalmente pode impor-lhe limites e uma arquitetura que põe em causa essa mesma espontaneidade, essa relação entre trabalho e cultura, essa autonomia, que faz este carnaval. Caberá aos que fazem teatro pensar sobre este desafio.
*Este artigo foi realizado no âmbito da residência da historiadora Raquel Varela na 1ª edição do Monte Brasil – Festival Internacional de Literatura e História de Angra do Heroísmo. Associação Dois Caminhos/Lar Doce Livro.

Sindicatos de estivadores de França, Grécia, País Basco, Turquia, Marrocos e Itália convocam para 30 de Outubro uma jornada internacional de luta “contra a guerra e a militarização”. Exigem o fim do “genocídio do povo palestiniano” e das “guerras de agressão dos EUA e de Israel no Médio Oriente e contra o Irão”.
“Cada sindicato decidirá a forma de mobilização mais adequada consoante as circunstâncias nacionais, a partir de acções de greve e de um compromisso comum de impedir carregamentos de morte e destruição”, lê-se numa declaração conjunta dos sindicatos enviada às publicações Workday Magazine e In These Times no dia 31 de Julho.
Em conjunto, estes sindicatos representam, como referem na sua declaração, operários de 40 portos da Europa e do Mediterrâneo. O apelo a escalar a luta saiu de uma reunião de sindicatos de trabalhadores portuários realizada em Istambul em Maio passado. No anúncio que fizeram, manifestam, ainda, “solidariedade plena com os povos de Cuba, da Venezuela e do Sudão” e defendem que “os portos não podem ser usados para transportar armas, munições, equipamento militar ou tropas destinados a zonas de guerra”.
“Não à economia de guerra, aos planos de rearmamento dos Estados e ao projecto de militarização dos portos e infra-estruturas estratégicas da UE”, defendem os sindicatos no comunicado. “Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar guerras”. Entre os signatários contam-se a CGT FNPD de França, o ENEDEP da Grécia, o LAB do País Basco, o LIMAN-IS da Turquia, a ODT de Marrocos e a ORSA Porti e a USB de Itália.
Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar a guerra.
Tem havido, desde Outubro de 2023, repetidos apelos de sindicalistas palestinianos aos sindicalistas de todo o mundo para que entrem em greve e se recusem a operar carregamentos de armas destinados a Israel, protestem contra a campanha militar de Israel em Gaza, denunciada como genocídio por grupos de direitos humanos de primeira linha e académicos (os Estados Unidos têm prestado decisivo apoio político e financeiro a Israel). Em 5 de Abril de 2025, a Federação Geral dos Sindicatos de Gaza apelou a que os sindicalistas “fizessem pressão a sério para acabar com esta guerra suja”. Os estivadores têm-se empenhado activamente em corresponder a este apelo.
Da Bélgica à Suécia e à Itália, estivadores têm-se recusado a manusear componentes de armas com destino a Gaza. No dia 6 de Fevereiro, paralisaram 21 portos em todo o Mediterrâneo, incluindo Bilbau e Tânger, em protesto contra o uso de infra-estruturas portuárias civis para fins militares e a integração dos seus postos de trabalho numa economia de guerra.
A declaração surge na sequência das duas greves gerais realizadas em Itália no Outono de 2025 em solidariedade com os Palestinianos. Há dez meses, cerca de 60 estivadores reuniram-se no edifício da Autoridade Portuária de Civitavecchia, uma pequena cidade costeira italiana a noroeste de Roma. Era o dia 22 de Setembro de 2025. Tinham abandonado os postos de trabalho ao começar o dia, paralisando o porto, como parte de uma greve geral para protestar contra o facto de o Governo italiano ser o terceiro maior fornecedor de armas a Israel. Viram-se rodeados por cerca de 600 pessoas a aplaudi-los — estudantes, professores, trabalhadores ferroviários, funcionários públicos —, uma multidão significativa para uma cidade tão pequena.
“Que bela imagem, os estivadores rodeados pela sua cidade”, recorda Riccardo Petrarolo, um membro da coordenadora nacional da USB (Unione Sindacale di Base) nos portos italianos.
Os estivadores começaram a receber mensagens WhatsApp de colegas de cidades maiores, como Livorno e Génova, a informá-los de que também os operários dessas cidades tinham paralisado os portos. E dos meios de comunicação social iam aparecendo notícias de greves e encerramentos. “Diziam que exactamente a mesma coisa estava a acontecer nos outros portos”, refere Petrarolo. De cada vez que estivadores anunciavam um novo encerramento pelo sistema de som, conta-me Petrarolo, a multidão soltava “um grito de aplauso, como num estádio”.
Estas acções são fruto de décadas de relações com os Palestinianos construídas pelos operários e de anos de mobilização contra a participação no transporte de armas. A 30 de Agosto de 2025, 40 mil pessoas reuniram-se em Génova para despedir a Flotilha Global Sumud, que partia para levar alimentos e ajuda a Gaza. A luta da flotilha para chegar a Gaza calou fundo entre os trabalhadores do mar — os que trabalham nas docas, os que carregam e descarregam navios, os que reparam e movimentam equipamento e transportam mercadorias para outros portos; e os ataques às embarcações causaram profunda indignação.
Riccardo Rudino, um estivador filiado no Colectivo Autónomo dos Trabalhadores Portuários (CALP), um sindicato independente de Génova, prometeu à multidão que se despedia dos navios que “se perdermos o contacto com os nossos camaradas da flotilha, nem que seja por 20 minutos, bloquearemos toda a Europa a partir das docas de Génova. Nem um prego daqui sai. Será uma greve global”.
Os estivadores de Génova acabaram por convocar rapidamente uma greve geral, para 22 de Setembro, em protesto contra a cumplicidade da Itália no ataque a Gaza. A USB, que conta cerca de 100 mil membros nos sectores privado e público, apoiou a acção. Cerca de meio milhão de pessoas abandonaram os postos de trabalho nesse dia. Um milhão participou em protestos pelas vilas e cidades de toda a Itália. Auto-estradas, ruas e metros ficaram paralisados, ao passo que, em todo o país, a população fazia sua a palavra de ordem “Blocchiamo tutto”: “Bloqueemos tudo!”
José Nivoi, um estivador e porta-voz do CALP que embarcou na Flotilha Global Sumud, concedeu uma entrevista, de bordo, no dia 23 de Setembro, em que apoiava a greve. Disse ele que “as mobilizações que temos estado a fazer são em apoio total à Palestina, e nós nunca recuámos”.
Nos dias 1 e 2 de Outubro de 2025, Israel interceptou os navios da flotilha e deteve as centenas de pessoas a bordo. Chegava a hora de dar corpo à ameaça de “nem um prego”. Os militantes italianos responderam com uma greve geral ainda maior, a 3 de Outubro. Desta vez, a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL), a maior federação sindical de Itália, convocou a greve, tal como a USB. Estima-se em 2 milhões os participantes nos protestos, em mais de oitenta cidades. Portos e auto-estradas bloqueados e encerrados, linhas ferroviárias interrompidas, escolas e universidades fechadas.
“As coisas organizaram-se muito rapidamente e fora do quadro legal de Itália. Tal como antes, envolveram cidades grandes e pequenas e muita gente que saiu à rua em solidariedade”, relata Petrarolo, da USB. “Claro que isso provocou uma reacção do Estado italiano, com multas aos sindicatos e acções policiais e judiciais contra os organizadores. Mas isso não impediu a organização, e o resultado concreto foi que, no dia seguinte, 1 milhão de pessoas saíram à rua em Roma.”
Os estivadores esperam aproveitar o balanço. O anúncio da jornada de luta de 30 de Outubro baseia-se na “Declaração de Istambul”, aprovada por todos os signatários. A par das reivindicações contra a guerra, os trabalhadores vincam a exigência de que “os acordos coletivos garantam aumentos salariais reais, emprego seguro, redução do horário de trabalho e disposições justas em matéria de pensões”. E não querem que a mecanização ou a inteligência artificial “eliminem postos de trabalho ou prejudiquem os direitos dos trabalhadores”.
Os sindicatos dizem-se “prontos para se reunirem com grupos organizados de estivadores de quaisquer outros portos interessados em integrar esta luta comum”.
*Sarah Lazare, publicado em In These Times (31 de Julho de 2026).
Tradução de Adriano Zilhão.

Há poucas semanas, Guifões voltava às notícias. Discursos, anúncios, fotografias e palavras grandes sobre o futuro. Falava-se do início de uma nova etapa para a indústria ferroviária portuguesa e da futura fábrica de comboios que deverá nascer em Guifões.
O futuro parecia promissor.
Durou pouco.
Passadas poucas semanas, os trabalhadores que já hoje dão vida a Guifões recebem uma mensagem bastante diferente: o comboio operário acabou.
É difícil imaginar melhor retrato da distância que tantas vezes existe entre os grandes anúncios e a realidade de quem trabalha.
Para o País anunciam-se comboios novos. Para os trabalhadores retira-se o comboio que os leva ao trabalho.
O comboio operário assegurava a ligação entre Ermesinde e as Oficinas de Guifões, nos dois sentidos. A sua supressão afeta cerca de 80 trabalhadores, aproximadamente 30% do efetivo da oficina, incluindo trabalhadores provenientes dos distritos do Porto, Braga e Aveiro.
Não estamos, portanto, perante uma pequena comodidade concedida a meia dúzia de pessoas.
Estamos perante uma condição concreta da vida de dezenas de trabalhadores.
O seu desaparecimento significa alternativas de transporte menos compatíveis com os horários das oficinas, deslocações mais penosas, menos descanso e menos tempo para a vida pessoal e familiar. Tudo isto imposto a trabalhadores que exercem funções tecnicamente exigentes, onde concentração, responsabilidade e segurança fazem parte do trabalho diário.
Talvez numa folha de cálculo tudo isto seja difícil de contabilizar.
O tempo que um trabalhador deixa de passar com os filhos não aparece nas contas.
O despertador que toca mais cedo também não.
O tempo adicional perdido no regresso a casa não aparece.
O cansaço acumulado não tem uma coluna própria no Excel.
Mas existe.
Não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.
E é aqui que esta decisão deixa de ser apenas incompreensível para se tornar profundamente desrespeitosa para com os trabalhadores da CP.
Porque não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.
Não se pode querer a fotografia do futuro e desprezar quem garante o presente.
Mais: fala-se constantemente da dificuldade em contratar trabalhadores especializados para a ferrovia. Em Guifões, esse desafio será ainda maior se a anunciada fábrica de comboios se concretizar.
Então expliquem-nos a estratégia.
Queremos trazer mais trabalhadores para Guifões, mas começamos por dificultar a vida aos que já lá estão?
Queremos tornar Guifões num grande polo ferroviário, mas acabamos com uma ligação ferroviária utilizada pelos próprios ferroviários?
Queremos construir comboios em Guifões, mas não conseguimos manter o comboio que leva os trabalhadores a Guifões?
Há ironias que se escrevem sozinhas.
E há ainda uma parte desta história que torna tudo isto mais difícil de aceitar.
Guifões tem memória.
Em 2011, o processo que culminou no encerramento da oficina foi também acompanhado pelo desaparecimento do comboio operário e pela sua substituição por transporte rodoviário. Muitos dos trabalhadores que hoje assistem a esta decisão viveram esse período.
Não afirmamos que Guifões vai voltar a fechar.
Mas recusamo-nos a ter memória curta.
O comboio operário desapareceu uma vez.
Depois desapareceu Guifões.
Custou anos, luta e investimento recuperar aquilo que se perdeu.
Por isso, quando vemos novamente desaparecer o primeiro, temos todo o direito de perguntar para onde nos querem levar desta vez.
E talvez seja isto que mais revolta: enquanto se fazem anúncios sobre aquilo que Guifões poderá ser amanhã, parece existir cada vez menos consideração por aqueles que fazem Guifões funcionar hoje.
Os direitos e as condições de trabalho raramente desaparecem todos de uma vez.
Primeiro perde-se um transporte. Depois altera-se um horário. Depois desaparece outra condição.
Cada decisão é apresentada isoladamente como pequena, racional ou inevitável. Até ao dia em que olhamos para trás e percebemos tudo aquilo que ficou pelo caminho.
A Comissão de Trabalhadores, o STMEFE e o SNTSF exigiram à Administração da CP a reposição do comboio operário.
Não estamos a pedir um privilégio. Estamos a exigir respeito. Respeito por cerca de 80 trabalhadores. Respeito por quem manteve Guifões vivo quando era muito mais fácil desistir dele. Respeito por quem todos os dias garante que há material circulante em condições de prestar serviço. E respeito pela própria história ferroviária de Guifões.
Podem anunciar milhões. Podem lançar primeiras pedras. Podem fazer discursos sobre o futuro da indústria ferroviária portuguesa. Mas nenhuma fábrica, oficina ou ferrovia existe sem trabalhadores.
E antes de prometerem o futuro de Guifões, talvez fosse boa ideia começarem por respeitar aqueles que já lá estão.


O plano do Governo era começar com a privatização dos centros de saúde há dois anos. No entanto, o interesse dos privados foi discreto. Mas o primeiro-ministro mantém-se firme: abrirá, diz, 20 unidades geridas por privados (metade da meta inicial).
Até ao fim do ano, unidades como esta deverão abrir em Óbidos, Bombarral, Caldas da Rainha, Silves. Mais tarde, Lagos, Albufeira, Loulé, Portimão.
O objectivo declarado da operação de privatização é dar médico de família a quem não o tem (segundo o Expresso, a equipa de saúde contratada já admitiu que isso não irá acontecer).
Em todo o caso, merece estudo a “lógica profunda” desta operação de privatização. Ela é muito instrutiva sobre o modelo de pilhagem de fundos públicos pela “economia privada” que actualmente rege o país.
Até ao fim do ano, unidades como esta deverão abrir em Óbidos, Bombarral, Caldas da Rainha, Silves. Mais tarde, Lagos, Albufeira, Loulé, Portimão.”
A gestão da nova unidade de saúde familiar do modelo C (USF-C) foi atribuída à empresa de serviços clínicos KnokHealth Portugal, com sede em Matosinhos. A Knok receberá do SNS 2,4 milhões de euros durante cinco anos.
A firma é controlada por uma holding, chamada Seems Possible, Lda. Esta Seems Possible é propriedade de dois homens. Um é médico, o outro, ex-executivo da Sonae. Em 2025, o volume de negócios da empresa terá sido de 10,1 milhões de euros. O lucro atingiu 1,4 milhões, o que dá uma taxa de lucro de 14%.
A Knok não se define como empresa de prestação de serviços de medicina ou de cuidados médicos. É uma “empresa de tecnologia na área da medicina”. A sua especialidade é a “teleconsulta e a medicina via digital”. O “modelo operacional” da empresa é “digital-first” (o digital primeiro).
O SNS assenta noutro “modelo operacional”, conhecido como medicina. O princípio da medicina é diametralmente oposto ao da Knok: é o da administração pessoal de cuidados aos doentes por profissionais de saúde qualificados (médicos e enfermeiros) em instalações criadas, organizadas e equipadas expressamente para o efeito: hospitais, centros de saúde, etc. Os prestadores de cuidados médicos servem-se, “primeiro”, dos seus próprios órgãos dos sentidos — visão, audição, tacto e olfacto, treinados para o efeito — para avaliar o estado de saúde do doente.
Talvez se pudesse chamar ao “modelo operacional” do SNS “a pessoa primeiro” — ou, no português mais moderno da Knok, “patient-first”.
O SNS é inteiramente financiado pelo Orçamento do Estado e pela segurança social, portanto, pelos impostos e pelos salários dos trabalhadores (as contribuições para a segurança social são parte do salário). As suas prestações são gratuitas para os utentes. Por definição, o SNS não pode “dar lucro”.
Como podem então geri-lo privados de modo a dele extrair lucro?
Do lado das receitas, já se viu que a Knok receberá 2,4 milhões de euros do SNS.
E do lado dos custos, os operacionais, com pessoal e financeiros?
A primeira pergunta que mais exactamente pede resposta é esta: como se financia e quem financia a empresa privada que irá gerir a USF de São Pedro da Cadeira?
Vejamos.
Edificações e equipamentos são uma componente importante da infra-estrutura de uma operação “realmente existente” e, portanto, do seu custo. O edifício da USF pertence “à Câmara Municipal de Torres Vedras, que cedeu a utilização à empresa e os direitos de renovação (…), o cofundador e CEO da Knok garante que o espaço ‘é novo e está numa condição excelente, portanto não faz sentido mudar o que está bem’” (Eco, 3 de Agosto). As instalações foram inauguradas em Maio de 2025 “na sequência de um processo de modernização cofinanciado pelo PRR – Plano de Recuperação e Resiliência em cerca de 600 mil euros”. Olha que sorte: é um custo financeiro que os investidores privados não têm de suportar (ao contrário do SNS). Pagaram-no… fundos públicos!
O financiamento operacional da empresa Knok tem três pilares-chave:
a) Financiamento conseguido pela via do Fundo Social Europeu (um fundo público, europeu), que permitiu a aquisição de uma participação de capital no valor de €1,43 milhões de euros (https://www.fi-compass.eu/stories/fresh-air-portugals-healthcare), detida pelo Fundo de Inovação Social português (fundo público, português), gerido pelo Banco Português de Fomento (banco público, português).
b) Capital de risco privado e co-investidores
Outros 1,7 milhões vieram de um intermediário financeiro de capital de risco, a Mustard Seed MAZE (MSM), uma parceria entre o fundo de impacto MAZE, que é por sua vez uma parceria com a Fundação Gulbenkian, e o fundo de capital de risco inglês Mustard Seed, fundado por ex-investidores no gigantesco banco de investimento americano Goldman Sachs, na gigantesca gestora de fundos americana BlackRock, no gigantesco fundo soberano do Abu Dhabi e na gigantesca gestora de fundos americana KKR.
A MSM espera dos seus investimentos “retornos financeiros competitivos”.
Uma ronda de financiamento suplementar da Knok, no valor de 4,4 milhões, foi co-dirigida pela empresa portuguesa privada de capital de risco Armilar Venture Partners. Fundada no ano 2000, a Armilar tinha, até 2014, o nome Espírito Santo Ventures: parte integrante do saudoso BES…
Os fundos que a Armilar gere e investe não são, porém, seus: têm origem em “apoios institucionais de primeira grandeza”: o Fundo Europeu de Investimento (EIF, dependente do Banco Europeu de Investimento, banco público, europeu), o SETT, uma instituição financeira e de investimento tecnológico (instituição pública, espanhola), e… outra vez, o Banco Português de Fomento (banco público).
Também a gestora de activos britânica Triple Point & Ryse Asset Management participou, mais modestamente, no financiamento da “expansão internacional” da Knok.
Por fim, o fundo NOS 5G, gerido pela empresa de telecomunicações NOS, controlada pela Sonae, injectou 4,4 milhões de euros — em troca, nomeadamente, de a Knok usar as redes da NOS.
É de presumir (e de esperar) que o pessoal que trabalhará na USF gerida pelos privados tenha recebido a sua educação e formação em escolas e universidades. Em Portugal, são públicas as faculdades de Medicina em que se formaram os médicos actuais do País. Elas funcionam, no essencial, com financiamento público, do Orçamento do Estado e de fundos públicos nacionais e europeus.
Adicionalmente, só pode trabalhar numa USF privada quem estiver “desvinculado” do SNS há mais de três anos. Isto implica afastar do centro de saúde actual o pessoal que não cumpra tal requisito.
Na “actividade” de um centro de saúde, tenha ele o nome ou a letra que tiver, verificam-se, portanto, os seguintes factos:
Nestas condições, é legítimo perguntar: como e de onde pode uma empresa que faça “exactamente o mesmo” que o SNS (como diz a propaganda oficial) extrair lucro para os seus investidores — e à belíssima taxa a que a Knok está habituada?
A resposta está no próprio lema da Knok: o digital primeiro, o doente depois.
Na palavra “teleconsulta”, a especialidade que a Knok vende, tele vem do grego; quer dizer à distância (como em televisão, telefone, etc.).
Entregue-se uma montanha de fundos públicos a dinâmicos gestores privados capazes de produzir power points vistosos com muitas palavras que parecem inglesas; os gestores põem uns médicos a receber telefonemas das pessoas com problemas de saúde; o médico manda umas receitas para a app.
A isto se resume o modelo de negócio lucrativo das novas USFs privadas.
Dinheiro do Estado, para perto; o doente, para longe; o médico, para o telefone e o ecrã.
Ou dá um belo lucro ou ficam a arder fundos públicos, e o SNS que recolha os cacos.
O mercado trata-nos da saúde.
Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho.

A Venezuela vive uma tragédia histórica. Enquanto o Campeonato do Mundo de Futebol desviava a atenção da grande comunicação social internacional da situação colonial que os Estados Unidos impuseram à Venezuela desde 3 de janeiro, uma parte significativa da esquerda continental e mundial recebia com alívio esse afastamento mediático, já que deixara de encontrar argumentos para justificar a rendição que a Junta de Administração Colonial do país faz aos desígnios da administração Trump. Esta Junta de Administração Colonial é liderada pelos irmãos Rodríguez (Delcy e Jorge) e por Diosdado Cabello2.
O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora. O salário mínimo base permaneceu ancorado em menos de 0,4 dólares mensais, e a bonificação dos rendimentos, via bónus e subsídios sem incidência salarial, não chegou a 200 dólares por mês, nem alcançou toda a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, o dólar voltou a disparar (atualmente acima de 745 bolívares), o que tem impulsionado a inflação num país onde cada produto do cabaz básico pode chegar a custar duas ou três vezes mais do que a média regional3.
Pelas mãos de Marco Rubio, a Venezuela regressou ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, e embora o “Delcinato” tente justificá-lo como a única possibilidade de recuperar os 5 mil milhões de dólares retidos pelo FMI e que pertencem à Venezuela, a realidade é que isso implica um novo ajuste estrutural da economia. O antecedente mais recente de um pacote de medidas económicas e políticas contra a classe trabalhadora, que nada ficou a dever às receitas neoliberais, foi aplicado por Nicolás Maduro, entre 2018 e 2025. O mais grave é que os irmãos Rodríguez e Diosdado Cabello mantêm silêncio absoluto quanto à continuidade das sanções e ao bloqueio das contas internacionais da Venezuela, impostos pelos Estados Unidos desde o primeiro governo daquele que agora definem como parceiro, Donald Trump.
O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora.
A 13 de maio deste ano, o Governo venezuelano anunciou o início da reestruturação da dívida do país em diálogo com o FMI. Uma dívida estimada, à data, em 170 mil milhões de dólares, valor que contrasta com os 82 mil milhões de dólares em receitas que o país terá, segundo estimativas da própria organização multilateral, em 2026. Dias mais tarde, a 26 de maio, Delcy Rodríguez anunciou ainda a criação da Comissão Presidencial para a Reestruturação e Reengenharia do Governo, com o objetivo de torná-lo mais eficaz, ou seja, anunciou uma reforma do Estado no estilo das recomendações do FMI, focada em encolher o Estado sob o pretexto de tornar os gastos públicos mais eficientes.
Um mês depois, a 24 de junho, horas antes de se desencadear a tragédia sísmica, o Financial Times noticiava que o Governo venezuelano iria divulgar o valor da dívida externa do país, reestimada em cerca de 240 mil milhões de dólares, um montante que se compara ao que provocou a crise da dívida na Grécia, o país mais endividado da zona euro em percentagem do PIB. Este valor explica a urgência da Junta de Administração Colonial em reestruturar o Governo e faz prever despedimentos, o encerramento de instituições públicas e a intensificação do corralito sobre os salários da classe trabalhadora local4.
Na Venezuela, a relação entre trabalho e salário atingiu um ponto que alguns especialistas classificam como uma nova escravidão, marcada pelo desaparecimento do salário real e pela sua substituição por rendimentos baseados em bonificações, inseridos na estrutura económica salarial local. Tal tem invariavelmente conduzido à perda dos direitos laborais adquiridos, à precariedade dos valores pagos por férias e ao subsídio de Natal (décimo terceiro mês) ou na impossibilidade de obter uma pensão de reforma que permita a compra de pelo menos um medicamento nas farmácias do país5.
Com a aprovação da nova Lei dos Hidrocarbonetos, aprovada de modo acelerado pelo parlamento colonial dos irmãos Rodríguez e companhia, reduziram-se as receitas do petróleo venezuelano por barril de 10 para 1,7 dólares, o que nos faz recordar a legislação setorial aprovada pela social-democracia nos anos 40 do século XX. Tudo parece indicar que, no curto prazo, o caminho será o do trágico aprofundamento do já conhecido colapso de todos os serviços públicos. Em apenas uma década (2014-2024), a Venezuela perdeu os elementos mais palpáveis da modernidade institucional burguesa, entrando numa fase de retorno à pré-modernidade, de tal modo que a campanha eleitoral de 2024 focou-se no acesso à água potável, à eletricidade, ao transporte público, à segurança policial e ao funcionamento mínimo das escolas e universidades.
Apesar de tudo, e embora possa parecer incrível, a diáspora migratória, estimada em cerca de seis milhões de venezuelanos e venezuelanas, conseguiu, através das suas remessas, ajudar a atenuar a crise de rendimentos. Contudo, não há dinheiro que possa manter o poder de compra face ao avanço desenfreado da inflação.
Um elemento significativo, apenas explicável como parte da derrota histórica da revolução bolivariana, foi a simpatia que a captura, o sequestro e a prisão nos Estados Unidos do casal presidencial Maduro-Flores suscitaram na maioria da população. Ao contrário de 2002, quando a população foi massivamente às ruas e derrotou o golpe de estado contra Hugo Chávez, desta vez viram-se apenas reduzidas concentrações, organizadas pela cada vez mais pequena base social do madurismo, e cuja liderança rapidamente transitou para um “Delcinato colonial”.
As simpatias pela operação militar gringa estavam assim relacionadas com a situação material da classe trabalhadora e o silogismo interpretativo que muitos fizeram: “se o desaparecimento dos salários e a precariedade das condições materiais da vida, como efeito das sanções dos EUA, têm origem na rivalidade entre Maduro e Trump, então, se Maduro não estiver no poder, a situação vai melhorar”. Em boa verdade, a generalidade da população acreditou que as sanções seriam suspensas, que a Venezuela poderia vender petróleo livremente e que as receitas melhorariam a sua situação económica. Mas o que aconteceu foi a manutenção dessa precariedade e até mesmo o seu agravamento, o que está a transformar as simpatias em desilusão e irritação com os gringos, ainda que tal não se tenha, ainda, traduzido num movimento anti-imperialista com expressão de massas.
O panorama é, no mínimo, sombrio.
Quando se pensava que as coisas não poderiam piorar, a realidade acabou por demonstrar o contrário. Dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho, num evento sísmico que os especialistas descrevem como um “dupleto”6. Dezenas de prédios colapsaram; outros ficaram inabitáveis ou severamente danificados, sendo La Guaira, localizada em frente ao mar, a área mais afetada. Milhares de mortes e um número ainda não estimado de pessoas desaparecidas revelam a magnitude da catástrofe.
Como num filme de terror, as primeiras horas não contaram nem com a presença nem com o auxílio do Exército ou dos altos funcionários. Apenas bombeiros locais, a proteção civil e um número crescente de cidadãos voluntários assumiram, por iniciativa própria, o cuidado e o socorro às vítimas. Enterrava-se assim, junto com as infraestruturas colapsadas no terramoto, o discurso da aliança cívico-militar como motor de mudança na Venezuela.
Mas em política não há vazio que se sustente: por isso, um mar de mãos e corpos solidários construiu uma cadeia humana de ajuda mútua, fazendo chegar, de todos os cantos do país, remédios, comida, roupas, pertences e ferramentas para ajudar a resgatar as pessoas presas nos escombros. Os equipamentos pesados de salvamento e resgate demoraram mais de 36 horas para chegar, tendo sido as brigadas internacionais de ajuda o motor da ação humanitária tecnicamente qualificada e os que testemunharam o que ali se passava.
Quase todo o litoral de La Guaira foi reduzido a escombros, ruindo tanto urbanizações construídas pelo Governo como pelo setor privado. As denúncias de pessoas afetadas, que habitavam apartamentos e casas de interesse social entregues pelo Governo nacional, mostram imagens de erros estruturais de construção que exigem uma investigação pública para determinar a veracidade das denúncias e apurar futuras responsabilidades.
Perante o abandono contínuo do Governo nas horas e dias que se seguiram à tragédia, a resposta do povo foi contundente. Imediatamente após a tragédia, e em contraste com a ineficácia governamental, gerou-se uma onda de solidariedade cidadã, que se recusava a entregar alimentos e remédios a representantes do Governo, por desconfiar que estes não chegariam às vítimas. Caravanas sucessivas de voluntários e voluntárias, auto-organizados, formaram uma ponte permanente de auxílio.
A resposta oficial, além de tardia, foi também desajeitada, ao tentar travar a onda de solidariedade. Porém, os postos de controle e os piquetes policiais-militares de contenção foram transpostos, ultrapassados e ignorados pela população. Esta situação de rebeldia popular expressa a profunda desconfiança em todas as formas institucionais e até mesmo em organizações políticas, confiando apenas nos que faziam e entregavam diretamente às mãos dos afetados. A palavra de ordem “apenas o povo salva o povo” passou a ser repetida por pessoas de diferentes inclinações ideológicas.
Pouquíssimos políticos ousaram estar diretamente no local do desastre, talvez desencorajados pela rejeição captada em vídeos nas redes sociais, como aconteceu com a visita de Jorge Arreaza (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e membro da liderança do PSUV) e de Nicolás Maduro Guerra (filho de Nicolás Maduro), que foram vaiados e confrontados pela população devido à ineficácia do Governo e aos problemas nas habitações sociais, que colapsaram com os terramotos.
Por fim, o Governo estabeleceu abrigos para as pessoas afetadas, distribuídos em diferentes partes de Caracas, com a promessa de realocá-las para novos lares nos próximos meses. Ainda assim, centenas de famílias procuram, por conta própria, os seus entes queridos soterrados nos escombros, contando apenas com a ajuda de voluntários, vizinhos e movimentos sociais. A colonização não apenas viola a soberania territorial e democrática, como também está a diluir os remanescentes de um processo revolucionário que prometia romper com a lógica neoliberal e colocar as instituições ao serviço do povo.
A burguesia é inimiga do socialismo, independentemente do discurso ideológico que adote para acumular riqueza. Por essa razão, à medida que a nova burguesia bolivariana (2002-2017), sob a liderança de Maduro, se consolida, busca recuperar a relação com os Estados Unidos e reconciliar-se com a antiga burguesia existente antes do processo bolivariano, com quem os laços haviam sido rompidos desde o golpe de estado de 2002. Entre 2018 e 2023, Maduro foi o arquiteto dessa dupla reaproximação, e os seus operadores políticos foram Delcy Rodríguez (diálogo e reconciliação com a associação patronal FEDECAMARAS) e Jorge Rodríguez (negociações com a oposição, com uma agenda permanentemente guiada pelos EUA, o que evidencia as limitações do setor de María Corina Machado). Diosdado Cabello atuou e continua a atuar como garantia de controle interno, por meio da intervenção nos instrumentos políticos e da repressão contra as organizações da classe trabalhadora.
Foi aí que começou o processo de colonização; na claudicação do madurismo, na derrota histórica do movimento contraditório chamado revolução bolivariana. Maduro abriu o caminho para o que parece ser uma traição destinada a facilitar a colonização aberta a partir de 3 de janeiro. Até mesmo os autores pós-coloniais, como Ramón Grosfoguel e seus colegas, que anteriormente tinham cerrado fileiras na defesa do madurismo, romperam hoje abertamente com a liderança colonial (Delcy-Jorge Rodríguez e Diosdado) devido à rendição rude e repugnante que está a ser feita do país aos gringos e ao sionismo. O dia 3 de janeiro e os eventos subsequentes são o resultado da traição à revolução bolivariana iniciada por Maduro.
Os eventos em cascata que moldaram a situação colonial são:



(continua)
Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas? E por que não te hei-de eu falar? Walt Whitman «A Ti», in Folhas de Erva Tradução de Maria de Lourdes Guimarães Relógio D’Água Editores, 2010
Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas?
E por que não te hei-de eu falar?
Walt Whitman
«A Ti», in Folhas de Erva
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
Relógio D’Água Editores, 2010
Foi na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos.
O leitor pode estar a perguntar-se: “Será mesmo que a Odisseia é uma canção de luta?”
Antes de se tornar um livro ou um filme, tanto a Ilíada quanto a Odisseia de Homero eram cantos. Versos cantados, e é por essa denominação que continuam dividindo cada parte da narrativa desses heróis míticos – Aquiles e Ulisses (Odisseu). Não são “capítulos”, como na literatura, mas “cantos”.
Os poemas homéricos são bastante longos e, sendo cantados e memorizados, teriam sido propagados de geração em geração até ganhar a forma escrita alfabética dos Gregos. Posteriormente foram traduzidos para latim pelos Romanos e assim chegaram até nós seus versos, sem que saibamos ao certo como era a melodia original da música que os acompanhava.
Mas, considerando a Odisseia como canção, pode ser considerada “de luta”?
A tradição de contar em versos as façanhas dos guerreiros em sua memória remonta a esses aedos, como eram chamados na antiga Grécia os bardos que cantavam as glórias dos heróis do passado.
Na Ilíada se conta, na guerra de Troia, a razão da “fúria de Aquiles”, o modo como se enfrentou com Heitor após a morte de seu amigo Pátroclo, vestido com sua armadura. Na Odisseia, contudo, o que se narra é a história de Ulisses/Odisseu e suas peripécias (e também truques e mentiras) na tentativa de voltar e retomar o lar e o trono de rei na ilha de Ítaca.
É certo que a Ilíada trata da luta: a honra, a virtude, a destreza e a força dos guerreiros aqueus, em especial de Aquiles. Contudo, Odisseu luta não contra homens apenas, mas contra seres fantásticos, dotados de superpoderes, e até mesmo contra o deus dos mares Poseidon, cujo nome foi traduzido para o latim pelos romanos como Neptuno.
Considerando que a Odisseia é uma canção de luta, poderia perguntar-se: “Afinal, de que tipo de luta?” Não seria esta coluna dedicada especificamente à luta de classes?
As canções de luta de classes são, antes de mais nada, canções de luta, que conclamam à tomada de consciência, à mudança de atitude, ao rompimento com a passividade e o conformismo, e louvam aqueles que tiveram coragem para explicar, mobilizar e conduzir a luta da classe operária em diferentes sentidos e contextos.
Esse não é o sentido da Odisseia, onde o herói é um aristocrata, líder militar e proprietário de escravos que se manterão fieis ao seu amo para ajudá-lo a retomar o poder e ter restituídos seu lar, sua família e seus bens patrimoniais. Não se trata de tomada de consciência de classe, mas daquilo que Marx chamaria de uma disputa interclassista.
Na Odisseia, não há qualquer ruptura revolucionária com o modo de produção escravista antigo que, naquele contexto, estava se constituindo na Grécia e posteriormente em Roma, em oposição ao modo de produção asiático predominante nos impérios do Egito, da Mesopotâmia, da Pérsia, da Índia e da China antigas.
Então, qual é a importância desta canção de luta para o Ocidente e para a luta da classe trabalhadora? Ora, como diria o dramaturgo Bertolt Brecht, toda forma de linguagem reflete a ideologia de sua época, mas as formas estéticas que a elaboram servem como moldura narrativa de outras lutas a serem narradas. Cada povo e cada classe elabora seus próprios códigos de luta, mas sempre a partir de uma matriz referencial.
A Odisseia é um modelo que serviu a diversas historias na literatura, no cinema e nas artes plásticas relacionadas com o “retorno do herói”. Esse retorno pode também ser lido de forma alegórica, com a superação de desafios que a princípio o impediam de cumprir seus objetivos. Um jogo de estratégia em que a cada novo patamar de alcance surgem novas dificuldades imprevistas que envolvem o uso inteligente da força, da astúcia, das armas e em alguma instância da sorte, manifesta nessa história pela “ajuda dos deuses”.
A balada épica inspirou o cancioneiro dos trovadores de diversos contextos e épocas. Assim seria o Cantar del mio Cid ou a Chanson de Roland. Mais tarde, Os Lusíadas, de Camões, acabou sendo escrito diretamente inspirado na epopeia de Homero, em grande parte as viagens de Ulisses – a quem se atribuiu erroneamente a fundação de Lisboa, embora os Fenícios já andassem na costa de Portugal bem antes dos Gregos.
Até o início do século XX, o certo é que foi através de canções que foram propagadas as façanhas de heróis e anti-heróis populares. De malfeitores do “velho oeste” dos Estados Unidos, como Billy the Kid, personagens míticos como o gaúcho argentino Martín Fierro ou heróis populares de moral duvidosa como Lampião, o bandoleiro nordestino conhecido como o “rei do cangaço”, no Brasil. Essas narrativas épicas, cantadas em feiras itinerantes, eram vendidas em folhetos onde poderia se acompanhar a letra, gravuras da estória e às vezes até mesmo a partitura da melodia.
É precisamente na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos, com o bordão que sintetiza a trama da história: “Ulisses da guerra pra casa voltando/ enfrenta Neptuno na fúria do mar”. Este é um panorama da Odisseia, uma cantoria de quase 20 minutos, resumindo o que no cinema dura duas ou até três horas, como a recente produção do cineasta Christopher Nolan.
A versão também é mais curta que outros poemas e obras literárias que se inspiram ou parodiam a Odisseia de Homero, como os Cantos de Ezra Pound ou o Ulysses de James Joyce. Aliás, Joyce escreveu sua versão vanguardista da Odisseia em Zurique, na mesma época em que Lenine ali se encontrava exilado, em 1916, no contexto da Primeira Guerra Mundial. Sabe-se que Lenine morava na mesma rua do Cabaret Voltaire, a casa noturna criada por Hugo Ball para produzir happenings dadaístas que desafiavam a estética tradicional. E talvez Lenine e Joyce tenham até mesmo casualmente conversado algum dia sobre literatura, podendo o escritor irlandês ter comentado ao revolucionário russo sobre seu ambicioso projeto homérico moderno que começara a escrever ali em Zurique.
Tudo isso poderia ter acontecido, mas o facto é que em outubro de 1917, na Estação Finlândia, Lenine dava início à revolução que acabaria com a exploração dos trabalhadores pela burguesia ociosa – o início de uma grande odisseia da classe trabalhadora. Mas não se tratava de restaurar uma era gloriosa da monarquia anterior, senão de inaugurar um mundo inteiramente novo. Para isso mobilizou toda sua capacidade na elaboração de táticas e estratégias que permitissem construir um poder paralelo para confrontar o Estado, tomar o poder, acabar com a guerra e dividir as terras.
Em outras palavras, tratava-se de usar a força e a astúcia para acabar com o mundo que os senhores da guerra e da terra haviam criado. Homens como os que lutaram na guerra de Troia, que acabou vencida não apenas pela força, mas sobretudo pela estratégia de Ulisses, astúcia que Homero cantou em versos, propagando suas aventuras ao longo de séculos. Se Ulisses retomou o poder, isso não seria possível sem a ajuda de entidades divinas e humanas, como a do seu filho, a do rei dos Feácios, mas também da classe trabalhadora representada pelo porqueiro Eumeu e do vaqueiro que, armados a seu lado, enfrentam seus inimigos.
Aqui, deixo uma livre interpretação da “canção de luta” de Homero que deveria se propagar em canto acompanhada apenas do arpejo lírico. Usamos apenas gravuras de John Flaxman, um artista inglês romântico do final do século XVIII cuja obra foi publicada no contexto das guerras napoleónicas. Porque, afinal, toda adaptação de uma odisseia sempre reflete o presente sobre o passado clássico da humanidade, de onde surgem sempre novas interpretações.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”.
“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”
Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação.
Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.
Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.
Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.
É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.
Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”
É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.
Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.
Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade.
A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas.
Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.
Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa.
Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”
Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.
Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.
Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.
Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.
Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida.
Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.
Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.
Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.
Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.
Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.
Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.
Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.
O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia.
Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.
Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega.
Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.
O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.
Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.
A questão é se sobreviveremos ao processo.
Perante a ameaça de greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, o presidente do INEM recua nas medidas nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis
Perante a ameaça de greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, o presidente do INEM recua nas medidas nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.

Estava em marcha a maior redução de sempre do dispositivo do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) perderia, de uma só vez, 100 ambulâncias: 56 ambulâncias próprias do INEM seriam destinadas a transferências inter-hospitalares e outras 46 ambulâncias de suporte imediato de vida (SIV) seriam convertidas em veículos ligeiros (carros), perdendo a capacidade de transportar doentes.
Os riscos eram evidentes: menos ambulâncias iriam significar um aumento dos tempos de resposta, uma redução dos cuidados diferenciados e, em última instância, a perda de vidas.
Este colapso anunciado promoveria a criação de condições para a entrada de privados no SIEM.
Perante um caderno reivindicativo destinado exclusivamente a proteger e reforçar a resposta que o INEM presta aos cidadãos, o Governo não tinha como justificar a rejeição das propostas apresentadas.
O processo negocial, concluído em 17 dias, resultou num acordo que representa o recuo nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.
Ficou ainda definido que a transformação das ambulâncias SIV em veículos ligeiros, contestada pelo STEPH, sem vantagens apresentadas por Luís Cabral, e que ia reduzir a capacidade de transporte de doentes, avançará apenas através de um projeto-piloto, sendo que, em simultâneo, será criada, no mesmo local, uma nova ambulância, compensando esta perda da capacidade de transporte de doentes.
Este acordo permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica.
O acordo prevê também o reforço dos recursos humanos. O concurso anunciado para a contratação de 150 técnicos de emergência pré-hospitalar (TEPH) será aumentado para 200 vagas, distribuídas pelas quatro regiões do País. Está igualmente previsto o alargamento da formação de TEPH às ambulâncias dos parceiros do INEM, nomeadamente dos bombeiros e da Cruz Vermelha Portuguesa, possibilitando assim que estas entidades tenham também profissionais de saúde tão qualificados quanto o INEM.
Este acordo representa um recuo face às medidas anunciadas pelo presidente do INEM e permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica. Representa uma desautorização do Governo ao presidente Luís Cabral, que vê assim mais um conjunto de medidas e decisões suprimidas pela razão.
Foi um bom acordo para o INEM, mas, sobretudo, para o País e para os cidadãos.
Foi uma vitória dos técnicos de emergência pré-hospitalar, que se recusam a compactuar com o desmantelamento do INEM e da Emergência Médica.
É um dia histórico para o País, protagonizado pelos trabalhadores que salvam vidas diariamente e que agora assumiram também um papel decisivo na definição das políticas de emergência médica.
Iniciar-se-á a 25 deste mês de Setembro a apreciação parlamentar da lei orgânica do INEM, que representa também ameaças ao sistema. Existe um amplo consenso quanto a estas ameaças e a sua revogação apresenta-se cada vez mais como uma inevitabilidade.
Os trabalhadores do INEM permanecerão atentos e interventivos como sempre nas garantias de que as mudanças servirão o INEM, a emergência médica e os cidadãos. Não toleraremos destruição ou retrocessos e o País sabe que pode contar connosco.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, otimização é um nome feminino que designa 1) ato ou efeito de otimizar; 2) reestruturação efetuada com o objetivo de obter o maior rendimento possível; 3) determinação, no estudo de um problema, da solução que, de entre todas as soluções possíveis, conduza
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, otimização é um nome feminino que designa 1) ato ou efeito de otimizar; 2) reestruturação efetuada com o objetivo de obter o maior rendimento possível; 3) determinação, no estudo de um problema, da solução que, de entre todas as soluções possíveis, conduza aos resultados mais satisfatórios.
EM NOVILÍNGUA:
Se perguntarmos ao Google, este, usando a IA, diz-nos que a definição básica de otimização significa reestruturar ou ajustar variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível. Usando a nossa própria inteligência, numa simples ida ao supermercado, podemos ver como se “reestruturam ou ajustam variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível”: a variável “emprego” nas caixas foi “reestruturada” para obter o “maior rendimento ou o melhor resultado possível” (para os patrões): os clientes são agora “convidados” a fazer o trabalho dos e das operadoras de caixa que foram, entretanto, despedidos. Ou então fazem fila pacientemente por vezes na única caixa aberta operada por um empregado. ASP
Sai agosto, entra setembro. E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise, regressa a penates.
Agosto é um mês que me irrita, desde que não o passo no meio dos montes ou na cidade do Porto.
Eu adorava ficar na cidade em agosto, porque estavam os amigos que viviam fora, de férias e cheios de tempo.
O Porto serenava, tinha uma onda diferente do resto do ano.
Na Beira Alta não me apercebia da turba, a não ser numa festa ou outra.
Juntávamos o grupo de urbanitas que desciam ao povoado vindos como bandos de pardais.
Este ano a Costa Nova estava a rebentar pelas costuras, apesar da quebra no consumo. A lancheira ganhou aos bares e restaurantes, cujo preço é incomportável para uma família.
Começaram por cortar nas entradas e nas saídas, as sobremesas. Depois dividiam um prato, uma água e até um café.
Os restaurantes mais caros, a dita pancada alta, sempre cheios a baterem certo com o luxuoso parque automóvel.
Há qualquer coisa que não bate certo, porque nunca vi, a não ser no tempo dos yuppies, tanto carro de luxo. Ferrari para aqui, Aston Martin para ali, Maseratis lindos.
E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise.
Aqui em Aveiro diz-se que quem não rema, já remou, o que é certinho como o Big Ben.
Agosto descarna todas estas idiossincrasias que me fazem pele de galinha.
Uns cospem para o chão, outros ameaçam de pancadaria por um lugar de estacionamento, a tatuagem suada numa camisola de mangas cavas, o gelado a ser lambido por um piercing na ponta da língua...
E eu sempre a dizer a mim que não tinha fumado nada, que não tinha engolido nadinha, que tudo é real, que tenho de aguentar, o ai aguenta, aguenta do outro pedante, até setembro.
E aguentei.
Hoje vai tocar a corneta.
A partir de amanhã, como dizia a nossa Sophia de Mello Breyner, vai-se notar mais aristocracia de comportamento, que era o seu grande objetivo com o socialismo, um sentido de solidariedade, de igualdade, de fraternidade.
Os mais humildes são quase sempre os mais nobres.
Todos os anos, nas freguesias da ilha Terceira, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?”

Deve haver poucas coisas de que goste ou desgoste tanto como uma boa e uma má peça de teatro. Colam-se ao corpo o belo, o sublime, a criação, e o torpe, o bizarro e o constrangimento. No tempo de Shakespeare o teatro era popular, durava com frequência cinco horas, e as pessoas conversavam, comiam, pateavam, aplaudiam, bebiam e riam no meio da peça.
Leva-me a imaginação para cinco horas de uma peça, cinco horas sentados, sem respirar (tossir é ainda mais grave), conceptual, sem narrativa, com atores tão dramáticos que exageram o exagero e que o encenador acha que para ver as entranhas é preciso mostrá-las.
O que mudou de Shakespeare até hoje? Ouço tantos atores queixarem-se do público, creio que não sabem, ou já deixaram de saber, que só quando todos fizermos teatro haverá públicos para teatro. Foi mais ou menos isso que encontrei na ilha Terceira. E não me tomem por defensora dessa ideia de que só o que é lúdico e alegre é tolerável. Em rigor, uma boa peça de teatro, dramática, intensa, profunda, só pode ser boa quando amplas camadas da população fazem teatro, é esse o meu argumento, e que remete para uma ideia que não é minha, mas de um senhor barbudo, desconhecido por tantos, chamado Karl Marx: no capitalismo dá-se a separação entre produtores e consumidores; nem todos seremos grandes atores, mas todos iremos gostar de teatro se todos fizermos teatro ou, como disse Boal, o teatro é tão importante que até deve ser feito por atores.
Recordo de memória um testemunho do Zeca, já amado pelas massas, em que ele dizia que agora tinha muito público, mas do que ele gostava mesmo era de cantar com as pessoas e não para as pessoas.
Fui àquela que foi, com certeza, a festa mais deslumbrante onde alguma vez estive na vida – e olhem que conheço algumas festas populares nos Alpes e nos Pirenéus, refúgios de cultura que a orografia, a vida camponesa e os subsídios agrícolas preservaram. A festa foi o Carnaval da Ilha Terceira. Uma ilha em que todos fazem teatro. Uma ilha que mudou a relação entre produtores e consumidores, e o sentido do trabalho e, por isso, da cultura.
Não imaginava que pudesse estar sete horas a assistir a teatro sem debandar ou atirar tomates ao palco. Mas estive, e durante três dias, sete horas num dia, cinco no outro. Espero convencer-vos de que não exagero nas palavras. Tudo o que morreu em quase toda a parte do mundo ali mantém-se vivo, como semente de um futuro porvir. Na Terceira quem produz é quem consome, os que escutam música são músicos, os espectadores também fazem teatro, a cultura é de todos. Por razões que não estão totalmente claras – apesar de muitos terem estudado, e bem, o fenómeno –, o Carnaval como sempre foi, teatro popular (não teatro para o povo), ali mantém-se.
Todos os anos, nas freguesias da ilha, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?” Vão ter com poetas locais – alguns escritores maiores formados em anos desta façanha que é ser humano – e contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA, da falta de dinheiro e dos esquemas para o conseguir, das vaquinhas e das touradas, do amor, da morte, da vida. Nada de humano lhes é estranho. Reconhecimento e representação, duas palavras-chave para entender a subjetividade e a política. Depois, a eles juntam-se um dos mais de 30 grupos musicais das filarmónicas que, agora com o roubo da IA e dos direitos de autor pelas big techs e afins, voltaram a compor mais músicas originais. Pede-se às costureiras para fazerem os fatos, em geral pomposos e brilhantes, e por elas desenhados. Também aqui quem faz pensa. Ensaia-se durante os dias frios de janeiro, nas sedes das sociedades recreativas, casas do povo, dezenas destes lugares e, se necessário, garagens, com batata-doce e alfaias agrícolas ao lado de cervejas e alcatra fumegante. Há grupos de homens, mulheres, mistos, jovens e velhos, lavradores, cabeleireiras, biólogos, mecânicos, professores, polícias, enfermeiros, lavradores, cientistas, um encontro democrático, igualitário.
Contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA…
Geralmente cada peça dura entre 25 e 40 minutos. Quando chega o dia, cada grupo de bailinhos, em geral 20 a 30 pessoas, vai de freguesia em freguesia apresentar no palco da sociedade filarmónica, recreativa, casa do povo, dos lavradores, o seu bailinho. Não há dinheiro, ninguém paga para fazer, entrar, assistir e participar.
É muito difícil explicar a todos, mas sobretudo aos atores, que o problema do teatro não está no público. Nem o problema dos escritores ou dos músicos está nos leitores e nos ouvintes. O problema está nesta divisão entre produtores e consumidores, entrem quem pensa e quem faz.
O sociólogo Richard Sennett defende que a democracia não se encontra numa cidade em que cada um respeita a cultura do outro, essencializada (visão kantiana e multiculturalista), mas na existência de espaços – como não elogiar as sociedades filarmónicas, o sentar à mesma mesa e conviver, os bailes? – onde vivemos e convivemos com quem é diferente (universalismo concreto). Uma cidade sem muros nem ameias foi o que encontrei no Carnaval da Terceira.
A classificação eventual do Carnaval da Terceira como património imaterial da humanidade reconhece a importância desta cultura, desta gente, desta arte, mas paradoxalmente pode impor-lhe limites e uma arquitetura que põe em causa essa mesma espontaneidade, essa relação entre trabalho e cultura, essa autonomia, que faz este carnaval. Caberá aos que fazem teatro pensar sobre este desafio.
*Este artigo foi realizado no âmbito da residência da historiadora Raquel Varela na 1ª edição do Monte Brasil – Festival Internacional de Literatura e História de Angra do Heroísmo. Associação Dois Caminhos/Lar Doce Livro.
Sindicatos representativos de operários de quarenta portos da Europa e do Mediterrâneo apelam a jornada de luta internacional contra a guerra e o genocídio no dia 30 de Outubro.

Sindicatos de estivadores de França, Grécia, País Basco, Turquia, Marrocos e Itália convocam para 30 de Outubro uma jornada internacional de luta “contra a guerra e a militarização”. Exigem o fim do “genocídio do povo palestiniano” e das “guerras de agressão dos EUA e de Israel no Médio Oriente e contra o Irão”.
“Cada sindicato decidirá a forma de mobilização mais adequada consoante as circunstâncias nacionais, a partir de acções de greve e de um compromisso comum de impedir carregamentos de morte e destruição”, lê-se numa declaração conjunta dos sindicatos enviada às publicações Workday Magazine e In These Times no dia 31 de Julho.
Em conjunto, estes sindicatos representam, como referem na sua declaração, operários de 40 portos da Europa e do Mediterrâneo. O apelo a escalar a luta saiu de uma reunião de sindicatos de trabalhadores portuários realizada em Istambul em Maio passado. No anúncio que fizeram, manifestam, ainda, “solidariedade plena com os povos de Cuba, da Venezuela e do Sudão” e defendem que “os portos não podem ser usados para transportar armas, munições, equipamento militar ou tropas destinados a zonas de guerra”.
“Não à economia de guerra, aos planos de rearmamento dos Estados e ao projecto de militarização dos portos e infra-estruturas estratégicas da UE”, defendem os sindicatos no comunicado. “Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar guerras”. Entre os signatários contam-se a CGT FNPD de França, o ENEDEP da Grécia, o LAB do País Basco, o LIMAN-IS da Turquia, a ODT de Marrocos e a ORSA Porti e a USB de Itália.
Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar a guerra.
Tem havido, desde Outubro de 2023, repetidos apelos de sindicalistas palestinianos aos sindicalistas de todo o mundo para que entrem em greve e se recusem a operar carregamentos de armas destinados a Israel, protestem contra a campanha militar de Israel em Gaza, denunciada como genocídio por grupos de direitos humanos de primeira linha e académicos (os Estados Unidos têm prestado decisivo apoio político e financeiro a Israel). Em 5 de Abril de 2025, a Federação Geral dos Sindicatos de Gaza apelou a que os sindicalistas “fizessem pressão a sério para acabar com esta guerra suja”. Os estivadores têm-se empenhado activamente em corresponder a este apelo.
Da Bélgica à Suécia e à Itália, estivadores têm-se recusado a manusear componentes de armas com destino a Gaza. No dia 6 de Fevereiro, paralisaram 21 portos em todo o Mediterrâneo, incluindo Bilbau e Tânger, em protesto contra o uso de infra-estruturas portuárias civis para fins militares e a integração dos seus postos de trabalho numa economia de guerra.
A declaração surge na sequência das duas greves gerais realizadas em Itália no Outono de 2025 em solidariedade com os Palestinianos. Há dez meses, cerca de 60 estivadores reuniram-se no edifício da Autoridade Portuária de Civitavecchia, uma pequena cidade costeira italiana a noroeste de Roma. Era o dia 22 de Setembro de 2025. Tinham abandonado os postos de trabalho ao começar o dia, paralisando o porto, como parte de uma greve geral para protestar contra o facto de o Governo italiano ser o terceiro maior fornecedor de armas a Israel. Viram-se rodeados por cerca de 600 pessoas a aplaudi-los — estudantes, professores, trabalhadores ferroviários, funcionários públicos —, uma multidão significativa para uma cidade tão pequena.
“Que bela imagem, os estivadores rodeados pela sua cidade”, recorda Riccardo Petrarolo, um membro da coordenadora nacional da USB (Unione Sindacale di Base) nos portos italianos.
Os estivadores começaram a receber mensagens WhatsApp de colegas de cidades maiores, como Livorno e Génova, a informá-los de que também os operários dessas cidades tinham paralisado os portos. E dos meios de comunicação social iam aparecendo notícias de greves e encerramentos. “Diziam que exactamente a mesma coisa estava a acontecer nos outros portos”, refere Petrarolo. De cada vez que estivadores anunciavam um novo encerramento pelo sistema de som, conta-me Petrarolo, a multidão soltava “um grito de aplauso, como num estádio”.
Estas acções são fruto de décadas de relações com os Palestinianos construídas pelos operários e de anos de mobilização contra a participação no transporte de armas. A 30 de Agosto de 2025, 40 mil pessoas reuniram-se em Génova para despedir a Flotilha Global Sumud, que partia para levar alimentos e ajuda a Gaza. A luta da flotilha para chegar a Gaza calou fundo entre os trabalhadores do mar — os que trabalham nas docas, os que carregam e descarregam navios, os que reparam e movimentam equipamento e transportam mercadorias para outros portos; e os ataques às embarcações causaram profunda indignação.
Riccardo Rudino, um estivador filiado no Colectivo Autónomo dos Trabalhadores Portuários (CALP), um sindicato independente de Génova, prometeu à multidão que se despedia dos navios que “se perdermos o contacto com os nossos camaradas da flotilha, nem que seja por 20 minutos, bloquearemos toda a Europa a partir das docas de Génova. Nem um prego daqui sai. Será uma greve global”.
Os estivadores de Génova acabaram por convocar rapidamente uma greve geral, para 22 de Setembro, em protesto contra a cumplicidade da Itália no ataque a Gaza. A USB, que conta cerca de 100 mil membros nos sectores privado e público, apoiou a acção. Cerca de meio milhão de pessoas abandonaram os postos de trabalho nesse dia. Um milhão participou em protestos pelas vilas e cidades de toda a Itália. Auto-estradas, ruas e metros ficaram paralisados, ao passo que, em todo o país, a população fazia sua a palavra de ordem “Blocchiamo tutto”: “Bloqueemos tudo!”
José Nivoi, um estivador e porta-voz do CALP que embarcou na Flotilha Global Sumud, concedeu uma entrevista, de bordo, no dia 23 de Setembro, em que apoiava a greve. Disse ele que “as mobilizações que temos estado a fazer são em apoio total à Palestina, e nós nunca recuámos”.
Nos dias 1 e 2 de Outubro de 2025, Israel interceptou os navios da flotilha e deteve as centenas de pessoas a bordo. Chegava a hora de dar corpo à ameaça de “nem um prego”. Os militantes italianos responderam com uma greve geral ainda maior, a 3 de Outubro. Desta vez, a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL), a maior federação sindical de Itália, convocou a greve, tal como a USB. Estima-se em 2 milhões os participantes nos protestos, em mais de oitenta cidades. Portos e auto-estradas bloqueados e encerrados, linhas ferroviárias interrompidas, escolas e universidades fechadas.
“As coisas organizaram-se muito rapidamente e fora do quadro legal de Itália. Tal como antes, envolveram cidades grandes e pequenas e muita gente que saiu à rua em solidariedade”, relata Petrarolo, da USB. “Claro que isso provocou uma reacção do Estado italiano, com multas aos sindicatos e acções policiais e judiciais contra os organizadores. Mas isso não impediu a organização, e o resultado concreto foi que, no dia seguinte, 1 milhão de pessoas saíram à rua em Roma.”
Os estivadores esperam aproveitar o balanço. O anúncio da jornada de luta de 30 de Outubro baseia-se na “Declaração de Istambul”, aprovada por todos os signatários. A par das reivindicações contra a guerra, os trabalhadores vincam a exigência de que “os acordos coletivos garantam aumentos salariais reais, emprego seguro, redução do horário de trabalho e disposições justas em matéria de pensões”. E não querem que a mecanização ou a inteligência artificial “eliminem postos de trabalho ou prejudiquem os direitos dos trabalhadores”.
Os sindicatos dizem-se “prontos para se reunirem com grupos organizados de estivadores de quaisquer outros portos interessados em integrar esta luta comum”.
*Sarah Lazare, publicado em In These Times (31 de Julho de 2026).
Tradução de Adriano Zilhão.
Guifões apareceu ainda há poucas semanas nas notícias com abundância de palavreado e políticos a posar para as fotografias: lá iria nascer a futura fábrica de comboios. Acabado o foguetório, chega a primeira medida prática: retirar o comboio que leva os ferroviários ao trabalho.

Há poucas semanas, Guifões voltava às notícias. Discursos, anúncios, fotografias e palavras grandes sobre o futuro. Falava-se do início de uma nova etapa para a indústria ferroviária portuguesa e da futura fábrica de comboios que deverá nascer em Guifões.
O futuro parecia promissor.
Durou pouco.
Passadas poucas semanas, os trabalhadores que já hoje dão vida a Guifões recebem uma mensagem bastante diferente: o comboio operário acabou.
É difícil imaginar melhor retrato da distância que tantas vezes existe entre os grandes anúncios e a realidade de quem trabalha.
Para o País anunciam-se comboios novos. Para os trabalhadores retira-se o comboio que os leva ao trabalho.
O comboio operário assegurava a ligação entre Ermesinde e as Oficinas de Guifões, nos dois sentidos. A sua supressão afeta cerca de 80 trabalhadores, aproximadamente 30% do efetivo da oficina, incluindo trabalhadores provenientes dos distritos do Porto, Braga e Aveiro.
Não estamos, portanto, perante uma pequena comodidade concedida a meia dúzia de pessoas.
Estamos perante uma condição concreta da vida de dezenas de trabalhadores.
O seu desaparecimento significa alternativas de transporte menos compatíveis com os horários das oficinas, deslocações mais penosas, menos descanso e menos tempo para a vida pessoal e familiar. Tudo isto imposto a trabalhadores que exercem funções tecnicamente exigentes, onde concentração, responsabilidade e segurança fazem parte do trabalho diário.
Talvez numa folha de cálculo tudo isto seja difícil de contabilizar.
O tempo que um trabalhador deixa de passar com os filhos não aparece nas contas.
O despertador que toca mais cedo também não.
O tempo adicional perdido no regresso a casa não aparece.
O cansaço acumulado não tem uma coluna própria no Excel.
Mas existe.
Não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.
E é aqui que esta decisão deixa de ser apenas incompreensível para se tornar profundamente desrespeitosa para com os trabalhadores da CP.
Porque não se pode, numa semana, apresentar Guifões como símbolo do renascimento da indústria ferroviária portuguesa e, poucas semanas depois, retirar uma condição de transporte aos trabalhadores que já hoje mantêm Guifões vivo.
Não se pode querer a fotografia do futuro e desprezar quem garante o presente.
Mais: fala-se constantemente da dificuldade em contratar trabalhadores especializados para a ferrovia. Em Guifões, esse desafio será ainda maior se a anunciada fábrica de comboios se concretizar.
Então expliquem-nos a estratégia.
Queremos trazer mais trabalhadores para Guifões, mas começamos por dificultar a vida aos que já lá estão?
Queremos tornar Guifões num grande polo ferroviário, mas acabamos com uma ligação ferroviária utilizada pelos próprios ferroviários?
Queremos construir comboios em Guifões, mas não conseguimos manter o comboio que leva os trabalhadores a Guifões?
Há ironias que se escrevem sozinhas.
E há ainda uma parte desta história que torna tudo isto mais difícil de aceitar.
Guifões tem memória.
Em 2011, o processo que culminou no encerramento da oficina foi também acompanhado pelo desaparecimento do comboio operário e pela sua substituição por transporte rodoviário. Muitos dos trabalhadores que hoje assistem a esta decisão viveram esse período.
Não afirmamos que Guifões vai voltar a fechar.
Mas recusamo-nos a ter memória curta.
O comboio operário desapareceu uma vez.
Depois desapareceu Guifões.
Custou anos, luta e investimento recuperar aquilo que se perdeu.
Por isso, quando vemos novamente desaparecer o primeiro, temos todo o direito de perguntar para onde nos querem levar desta vez.
E talvez seja isto que mais revolta: enquanto se fazem anúncios sobre aquilo que Guifões poderá ser amanhã, parece existir cada vez menos consideração por aqueles que fazem Guifões funcionar hoje.
Os direitos e as condições de trabalho raramente desaparecem todos de uma vez.
Primeiro perde-se um transporte. Depois altera-se um horário. Depois desaparece outra condição.
Cada decisão é apresentada isoladamente como pequena, racional ou inevitável. Até ao dia em que olhamos para trás e percebemos tudo aquilo que ficou pelo caminho.
A Comissão de Trabalhadores, o STMEFE e o SNTSF exigiram à Administração da CP a reposição do comboio operário.
Não estamos a pedir um privilégio. Estamos a exigir respeito. Respeito por cerca de 80 trabalhadores. Respeito por quem manteve Guifões vivo quando era muito mais fácil desistir dele. Respeito por quem todos os dias garante que há material circulante em condições de prestar serviço. E respeito pela própria história ferroviária de Guifões.
Podem anunciar milhões. Podem lançar primeiras pedras. Podem fazer discursos sobre o futuro da indústria ferroviária portuguesa. Mas nenhuma fábrica, oficina ou ferrovia existe sem trabalhadores.
E antes de prometerem o futuro de Guifões, talvez fosse boa ideia começarem por respeitar aqueles que já lá estão.

Foi notícia, no mês de Agosto, a inauguração do primeiro centro de saúde para utentes do SNS gerido por privados, no concelho de Torres Vedras (Expresso, 7/8).

O plano do Governo era começar com a privatização dos centros de saúde há dois anos. No entanto, o interesse dos privados foi discreto. Mas o primeiro-ministro mantém-se firme: abrirá, diz, 20 unidades geridas por privados (metade da meta inicial).
Até ao fim do ano, unidades como esta deverão abrir em Óbidos, Bombarral, Caldas da Rainha, Silves. Mais tarde, Lagos, Albufeira, Loulé, Portimão.
O objectivo declarado da operação de privatização é dar médico de família a quem não o tem (segundo o Expresso, a equipa de saúde contratada já admitiu que isso não irá acontecer).
Em todo o caso, merece estudo a “lógica profunda” desta operação de privatização. Ela é muito instrutiva sobre o modelo de pilhagem de fundos públicos pela “economia privada” que actualmente rege o país.
Até ao fim do ano, unidades como esta deverão abrir em Óbidos, Bombarral, Caldas da Rainha, Silves. Mais tarde, Lagos, Albufeira, Loulé, Portimão.”
A gestão da nova unidade de saúde familiar do modelo C (USF-C) foi atribuída à empresa de serviços clínicos KnokHealth Portugal, com sede em Matosinhos. A Knok receberá do SNS 2,4 milhões de euros durante cinco anos.
A firma é controlada por uma holding, chamada Seems Possible, Lda. Esta Seems Possible é propriedade de dois homens. Um é médico, o outro, ex-executivo da Sonae. Em 2025, o volume de negócios da empresa terá sido de 10,1 milhões de euros. O lucro atingiu 1,4 milhões, o que dá uma taxa de lucro de 14%.
A Knok não se define como empresa de prestação de serviços de medicina ou de cuidados médicos. É uma “empresa de tecnologia na área da medicina”. A sua especialidade é a “teleconsulta e a medicina via digital”. O “modelo operacional” da empresa é “digital-first” (o digital primeiro).
O SNS assenta noutro “modelo operacional”, conhecido como medicina. O princípio da medicina é diametralmente oposto ao da Knok: é o da administração pessoal de cuidados aos doentes por profissionais de saúde qualificados (médicos e enfermeiros) em instalações criadas, organizadas e equipadas expressamente para o efeito: hospitais, centros de saúde, etc. Os prestadores de cuidados médicos servem-se, “primeiro”, dos seus próprios órgãos dos sentidos — visão, audição, tacto e olfacto, treinados para o efeito — para avaliar o estado de saúde do doente.
Talvez se pudesse chamar ao “modelo operacional” do SNS “a pessoa primeiro” — ou, no português mais moderno da Knok, “patient-first”.
O SNS é inteiramente financiado pelo Orçamento do Estado e pela segurança social, portanto, pelos impostos e pelos salários dos trabalhadores (as contribuições para a segurança social são parte do salário). As suas prestações são gratuitas para os utentes. Por definição, o SNS não pode “dar lucro”.
Como podem então geri-lo privados de modo a dele extrair lucro?
Do lado das receitas, já se viu que a Knok receberá 2,4 milhões de euros do SNS.
E do lado dos custos, os operacionais, com pessoal e financeiros?
A primeira pergunta que mais exactamente pede resposta é esta: como se financia e quem financia a empresa privada que irá gerir a USF de São Pedro da Cadeira?
Vejamos.
Edificações e equipamentos são uma componente importante da infra-estrutura de uma operação “realmente existente” e, portanto, do seu custo. O edifício da USF pertence “à Câmara Municipal de Torres Vedras, que cedeu a utilização à empresa e os direitos de renovação (…), o cofundador e CEO da Knok garante que o espaço ‘é novo e está numa condição excelente, portanto não faz sentido mudar o que está bem’” (Eco, 3 de Agosto). As instalações foram inauguradas em Maio de 2025 “na sequência de um processo de modernização cofinanciado pelo PRR – Plano de Recuperação e Resiliência em cerca de 600 mil euros”. Olha que sorte: é um custo financeiro que os investidores privados não têm de suportar (ao contrário do SNS). Pagaram-no… fundos públicos!
O financiamento operacional da empresa Knok tem três pilares-chave:
a) Financiamento conseguido pela via do Fundo Social Europeu (um fundo público, europeu), que permitiu a aquisição de uma participação de capital no valor de €1,43 milhões de euros (https://www.fi-compass.eu/stories/fresh-air-portugals-healthcare), detida pelo Fundo de Inovação Social português (fundo público, português), gerido pelo Banco Português de Fomento (banco público, português).
b) Capital de risco privado e co-investidores
Outros 1,7 milhões vieram de um intermediário financeiro de capital de risco, a Mustard Seed MAZE (MSM), uma parceria entre o fundo de impacto MAZE, que é por sua vez uma parceria com a Fundação Gulbenkian, e o fundo de capital de risco inglês Mustard Seed, fundado por ex-investidores no gigantesco banco de investimento americano Goldman Sachs, na gigantesca gestora de fundos americana BlackRock, no gigantesco fundo soberano do Abu Dhabi e na gigantesca gestora de fundos americana KKR.
A MSM espera dos seus investimentos “retornos financeiros competitivos”.
Uma ronda de financiamento suplementar da Knok, no valor de 4,4 milhões, foi co-dirigida pela empresa portuguesa privada de capital de risco Armilar Venture Partners. Fundada no ano 2000, a Armilar tinha, até 2014, o nome Espírito Santo Ventures: parte integrante do saudoso BES…
Os fundos que a Armilar gere e investe não são, porém, seus: têm origem em “apoios institucionais de primeira grandeza”: o Fundo Europeu de Investimento (EIF, dependente do Banco Europeu de Investimento, banco público, europeu), o SETT, uma instituição financeira e de investimento tecnológico (instituição pública, espanhola), e… outra vez, o Banco Português de Fomento (banco público).
Também a gestora de activos britânica Triple Point & Ryse Asset Management participou, mais modestamente, no financiamento da “expansão internacional” da Knok.
Por fim, o fundo NOS 5G, gerido pela empresa de telecomunicações NOS, controlada pela Sonae, injectou 4,4 milhões de euros — em troca, nomeadamente, de a Knok usar as redes da NOS.
É de presumir (e de esperar) que o pessoal que trabalhará na USF gerida pelos privados tenha recebido a sua educação e formação em escolas e universidades. Em Portugal, são públicas as faculdades de Medicina em que se formaram os médicos actuais do País. Elas funcionam, no essencial, com financiamento público, do Orçamento do Estado e de fundos públicos nacionais e europeus.
Adicionalmente, só pode trabalhar numa USF privada quem estiver “desvinculado” do SNS há mais de três anos. Isto implica afastar do centro de saúde actual o pessoal que não cumpra tal requisito.
Na “actividade” de um centro de saúde, tenha ele o nome ou a letra que tiver, verificam-se, portanto, os seguintes factos:
Nestas condições, é legítimo perguntar: como e de onde pode uma empresa que faça “exactamente o mesmo” que o SNS (como diz a propaganda oficial) extrair lucro para os seus investidores — e à belíssima taxa a que a Knok está habituada?
A resposta está no próprio lema da Knok: o digital primeiro, o doente depois.
Na palavra “teleconsulta”, a especialidade que a Knok vende, tele vem do grego; quer dizer à distância (como em televisão, telefone, etc.).
Entregue-se uma montanha de fundos públicos a dinâmicos gestores privados capazes de produzir power points vistosos com muitas palavras que parecem inglesas; os gestores põem uns médicos a receber telefonemas das pessoas com problemas de saúde; o médico manda umas receitas para a app.
A isto se resume o modelo de negócio lucrativo das novas USFs privadas.
Dinheiro do Estado, para perto; o doente, para longe; o médico, para o telefone e o ecrã.
Ou dá um belo lucro ou ficam a arder fundos públicos, e o SNS que recolha os cacos.
O mercado trata-nos da saúde.
Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de ju
Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho.

A Venezuela vive uma tragédia histórica. Enquanto o Campeonato do Mundo de Futebol desviava a atenção da grande comunicação social internacional da situação colonial que os Estados Unidos impuseram à Venezuela desde 3 de janeiro, uma parte significativa da esquerda continental e mundial recebia com alívio esse afastamento mediático, já que deixara de encontrar argumentos para justificar a rendição que a Junta de Administração Colonial do país faz aos desígnios da administração Trump. Esta Junta de Administração Colonial é liderada pelos irmãos Rodríguez (Delcy e Jorge) e por Diosdado Cabello2.
O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora. O salário mínimo base permaneceu ancorado em menos de 0,4 dólares mensais, e a bonificação dos rendimentos, via bónus e subsídios sem incidência salarial, não chegou a 200 dólares por mês, nem alcançou toda a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, o dólar voltou a disparar (atualmente acima de 745 bolívares), o que tem impulsionado a inflação num país onde cada produto do cabaz básico pode chegar a custar duas ou três vezes mais do que a média regional3.
Pelas mãos de Marco Rubio, a Venezuela regressou ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, e embora o “Delcinato” tente justificá-lo como a única possibilidade de recuperar os 5 mil milhões de dólares retidos pelo FMI e que pertencem à Venezuela, a realidade é que isso implica um novo ajuste estrutural da economia. O antecedente mais recente de um pacote de medidas económicas e políticas contra a classe trabalhadora, que nada ficou a dever às receitas neoliberais, foi aplicado por Nicolás Maduro, entre 2018 e 2025. O mais grave é que os irmãos Rodríguez e Diosdado Cabello mantêm silêncio absoluto quanto à continuidade das sanções e ao bloqueio das contas internacionais da Venezuela, impostos pelos Estados Unidos desde o primeiro governo daquele que agora definem como parceiro, Donald Trump.
O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora.
A 13 de maio deste ano, o Governo venezuelano anunciou o início da reestruturação da dívida do país em diálogo com o FMI. Uma dívida estimada, à data, em 170 mil milhões de dólares, valor que contrasta com os 82 mil milhões de dólares em receitas que o país terá, segundo estimativas da própria organização multilateral, em 2026. Dias mais tarde, a 26 de maio, Delcy Rodríguez anunciou ainda a criação da Comissão Presidencial para a Reestruturação e Reengenharia do Governo, com o objetivo de torná-lo mais eficaz, ou seja, anunciou uma reforma do Estado no estilo das recomendações do FMI, focada em encolher o Estado sob o pretexto de tornar os gastos públicos mais eficientes.
Um mês depois, a 24 de junho, horas antes de se desencadear a tragédia sísmica, o Financial Times noticiava que o Governo venezuelano iria divulgar o valor da dívida externa do país, reestimada em cerca de 240 mil milhões de dólares, um montante que se compara ao que provocou a crise da dívida na Grécia, o país mais endividado da zona euro em percentagem do PIB. Este valor explica a urgência da Junta de Administração Colonial em reestruturar o Governo e faz prever despedimentos, o encerramento de instituições públicas e a intensificação do corralito sobre os salários da classe trabalhadora local4.
Na Venezuela, a relação entre trabalho e salário atingiu um ponto que alguns especialistas classificam como uma nova escravidão, marcada pelo desaparecimento do salário real e pela sua substituição por rendimentos baseados em bonificações, inseridos na estrutura económica salarial local. Tal tem invariavelmente conduzido à perda dos direitos laborais adquiridos, à precariedade dos valores pagos por férias e ao subsídio de Natal (décimo terceiro mês) ou na impossibilidade de obter uma pensão de reforma que permita a compra de pelo menos um medicamento nas farmácias do país5.
Com a aprovação da nova Lei dos Hidrocarbonetos, aprovada de modo acelerado pelo parlamento colonial dos irmãos Rodríguez e companhia, reduziram-se as receitas do petróleo venezuelano por barril de 10 para 1,7 dólares, o que nos faz recordar a legislação setorial aprovada pela social-democracia nos anos 40 do século XX. Tudo parece indicar que, no curto prazo, o caminho será o do trágico aprofundamento do já conhecido colapso de todos os serviços públicos. Em apenas uma década (2014-2024), a Venezuela perdeu os elementos mais palpáveis da modernidade institucional burguesa, entrando numa fase de retorno à pré-modernidade, de tal modo que a campanha eleitoral de 2024 focou-se no acesso à água potável, à eletricidade, ao transporte público, à segurança policial e ao funcionamento mínimo das escolas e universidades.
Apesar de tudo, e embora possa parecer incrível, a diáspora migratória, estimada em cerca de seis milhões de venezuelanos e venezuelanas, conseguiu, através das suas remessas, ajudar a atenuar a crise de rendimentos. Contudo, não há dinheiro que possa manter o poder de compra face ao avanço desenfreado da inflação.
Um elemento significativo, apenas explicável como parte da derrota histórica da revolução bolivariana, foi a simpatia que a captura, o sequestro e a prisão nos Estados Unidos do casal presidencial Maduro-Flores suscitaram na maioria da população. Ao contrário de 2002, quando a população foi massivamente às ruas e derrotou o golpe de estado contra Hugo Chávez, desta vez viram-se apenas reduzidas concentrações, organizadas pela cada vez mais pequena base social do madurismo, e cuja liderança rapidamente transitou para um “Delcinato colonial”.
As simpatias pela operação militar gringa estavam assim relacionadas com a situação material da classe trabalhadora e o silogismo interpretativo que muitos fizeram: “se o desaparecimento dos salários e a precariedade das condições materiais da vida, como efeito das sanções dos EUA, têm origem na rivalidade entre Maduro e Trump, então, se Maduro não estiver no poder, a situação vai melhorar”. Em boa verdade, a generalidade da população acreditou que as sanções seriam suspensas, que a Venezuela poderia vender petróleo livremente e que as receitas melhorariam a sua situação económica. Mas o que aconteceu foi a manutenção dessa precariedade e até mesmo o seu agravamento, o que está a transformar as simpatias em desilusão e irritação com os gringos, ainda que tal não se tenha, ainda, traduzido num movimento anti-imperialista com expressão de massas.
O panorama é, no mínimo, sombrio.
Quando se pensava que as coisas não poderiam piorar, a realidade acabou por demonstrar o contrário. Dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho, num evento sísmico que os especialistas descrevem como um “dupleto”6. Dezenas de prédios colapsaram; outros ficaram inabitáveis ou severamente danificados, sendo La Guaira, localizada em frente ao mar, a área mais afetada. Milhares de mortes e um número ainda não estimado de pessoas desaparecidas revelam a magnitude da catástrofe.
Como num filme de terror, as primeiras horas não contaram nem com a presença nem com o auxílio do Exército ou dos altos funcionários. Apenas bombeiros locais, a proteção civil e um número crescente de cidadãos voluntários assumiram, por iniciativa própria, o cuidado e o socorro às vítimas. Enterrava-se assim, junto com as infraestruturas colapsadas no terramoto, o discurso da aliança cívico-militar como motor de mudança na Venezuela.
Mas em política não há vazio que se sustente: por isso, um mar de mãos e corpos solidários construiu uma cadeia humana de ajuda mútua, fazendo chegar, de todos os cantos do país, remédios, comida, roupas, pertences e ferramentas para ajudar a resgatar as pessoas presas nos escombros. Os equipamentos pesados de salvamento e resgate demoraram mais de 36 horas para chegar, tendo sido as brigadas internacionais de ajuda o motor da ação humanitária tecnicamente qualificada e os que testemunharam o que ali se passava.
Quase todo o litoral de La Guaira foi reduzido a escombros, ruindo tanto urbanizações construídas pelo Governo como pelo setor privado. As denúncias de pessoas afetadas, que habitavam apartamentos e casas de interesse social entregues pelo Governo nacional, mostram imagens de erros estruturais de construção que exigem uma investigação pública para determinar a veracidade das denúncias e apurar futuras responsabilidades.
Perante o abandono contínuo do Governo nas horas e dias que se seguiram à tragédia, a resposta do povo foi contundente. Imediatamente após a tragédia, e em contraste com a ineficácia governamental, gerou-se uma onda de solidariedade cidadã, que se recusava a entregar alimentos e remédios a representantes do Governo, por desconfiar que estes não chegariam às vítimas. Caravanas sucessivas de voluntários e voluntárias, auto-organizados, formaram uma ponte permanente de auxílio.
A resposta oficial, além de tardia, foi também desajeitada, ao tentar travar a onda de solidariedade. Porém, os postos de controle e os piquetes policiais-militares de contenção foram transpostos, ultrapassados e ignorados pela população. Esta situação de rebeldia popular expressa a profunda desconfiança em todas as formas institucionais e até mesmo em organizações políticas, confiando apenas nos que faziam e entregavam diretamente às mãos dos afetados. A palavra de ordem “apenas o povo salva o povo” passou a ser repetida por pessoas de diferentes inclinações ideológicas.
Pouquíssimos políticos ousaram estar diretamente no local do desastre, talvez desencorajados pela rejeição captada em vídeos nas redes sociais, como aconteceu com a visita de Jorge Arreaza (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e membro da liderança do PSUV) e de Nicolás Maduro Guerra (filho de Nicolás Maduro), que foram vaiados e confrontados pela população devido à ineficácia do Governo e aos problemas nas habitações sociais, que colapsaram com os terramotos.
Por fim, o Governo estabeleceu abrigos para as pessoas afetadas, distribuídos em diferentes partes de Caracas, com a promessa de realocá-las para novos lares nos próximos meses. Ainda assim, centenas de famílias procuram, por conta própria, os seus entes queridos soterrados nos escombros, contando apenas com a ajuda de voluntários, vizinhos e movimentos sociais. A colonização não apenas viola a soberania territorial e democrática, como também está a diluir os remanescentes de um processo revolucionário que prometia romper com a lógica neoliberal e colocar as instituições ao serviço do povo.
A burguesia é inimiga do socialismo, independentemente do discurso ideológico que adote para acumular riqueza. Por essa razão, à medida que a nova burguesia bolivariana (2002-2017), sob a liderança de Maduro, se consolida, busca recuperar a relação com os Estados Unidos e reconciliar-se com a antiga burguesia existente antes do processo bolivariano, com quem os laços haviam sido rompidos desde o golpe de estado de 2002. Entre 2018 e 2023, Maduro foi o arquiteto dessa dupla reaproximação, e os seus operadores políticos foram Delcy Rodríguez (diálogo e reconciliação com a associação patronal FEDECAMARAS) e Jorge Rodríguez (negociações com a oposição, com uma agenda permanentemente guiada pelos EUA, o que evidencia as limitações do setor de María Corina Machado). Diosdado Cabello atuou e continua a atuar como garantia de controle interno, por meio da intervenção nos instrumentos políticos e da repressão contra as organizações da classe trabalhadora.
Foi aí que começou o processo de colonização; na claudicação do madurismo, na derrota histórica do movimento contraditório chamado revolução bolivariana. Maduro abriu o caminho para o que parece ser uma traição destinada a facilitar a colonização aberta a partir de 3 de janeiro. Até mesmo os autores pós-coloniais, como Ramón Grosfoguel e seus colegas, que anteriormente tinham cerrado fileiras na defesa do madurismo, romperam hoje abertamente com a liderança colonial (Delcy-Jorge Rodríguez e Diosdado) devido à rendição rude e repugnante que está a ser feita do país aos gringos e ao sionismo. O dia 3 de janeiro e os eventos subsequentes são o resultado da traição à revolução bolivariana iniciada por Maduro.
Os eventos em cascata que moldaram a situação colonial são:



(continua)
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