CANÇÕES DE LUTA
Odisseia (Homero, 900 a.C.)
Foi na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos.
Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
O leitor pode estar a perguntar-se: “Será mesmo que a Odisseia é uma canção de luta?”
Antes de se tornar um livro ou um filme, tanto a Ilíada quanto a Odisseia de Homero eram cantos. Versos cantados, e é por essa denominação que continuam dividindo cada parte da narrativa desses heróis míticos – Aquiles e Ulisses (Odisseu). Não são “capítulos”, como na literatura, mas “cantos”.
Os poemas homéricos são bastante longos e, sendo cantados e memorizados, teriam sido propagados de geração em geração até ganhar a forma escrita alfabética dos Gregos. Posteriormente foram traduzidos para latim pelos Romanos e assim chegaram até nós seus versos, sem que saibamos ao certo como era a melodia original da música que os acompanhava.
Mas, considerando a Odisseia como canção, pode ser considerada “de luta”?
A tradição de contar em versos as façanhas dos guerreiros em sua memória remonta a esses aedos, como eram chamados na antiga Grécia os bardos que cantavam as glórias dos heróis do passado.
Na Ilíada se conta, na guerra de Troia, a razão da “fúria de Aquiles”, o modo como se enfrentou com Heitor após a morte de seu amigo Pátroclo, vestido com sua armadura. Na Odisseia, contudo, o que se narra é a história de Ulisses/Odisseu e suas peripécias (e também truques e mentiras) na tentativa de voltar e retomar o lar e o trono de rei na ilha de Ítaca.
É certo que a Ilíada trata da luta: a honra, a virtude, a destreza e a força dos guerreiros aqueus, em especial de Aquiles. Contudo, Odisseu luta não contra homens apenas, mas contra seres fantásticos, dotados de superpoderes, e até mesmo contra o deus dos mares Poseidon, cujo nome foi traduzido para o latim pelos romanos como Neptuno.
Considerando que a Odisseia é uma canção de luta, poderia perguntar-se: “Afinal, de que tipo de luta?” Não seria esta coluna dedicada especificamente à luta de classes?
As canções de luta de classes são, antes de mais nada, canções de luta, que conclamam à tomada de consciência, à mudança de atitude, ao rompimento com a passividade e o conformismo, e louvam aqueles que tiveram coragem para explicar, mobilizar e conduzir a luta da classe operária em diferentes sentidos e contextos.
Esse não é o sentido da Odisseia, onde o herói é um aristocrata, líder militar e proprietário de escravos que se manterão fieis ao seu amo para ajudá-lo a retomar o poder e ter restituídos seu lar, sua família e seus bens patrimoniais. Não se trata de tomada de consciência de classe, mas daquilo que Marx chamaria de uma disputa interclassista.
Na Odisseia, não há qualquer ruptura revolucionária com o modo de produção escravista antigo que, naquele contexto, estava se constituindo na Grécia e posteriormente em Roma, em oposição ao modo de produção asiático predominante nos impérios do Egito, da Mesopotâmia, da Pérsia, da Índia e da China antigas.
Então, qual é a importância desta canção de luta para o Ocidente e para a luta da classe trabalhadora? Ora, como diria o dramaturgo Bertolt Brecht, toda forma de linguagem reflete a ideologia de sua época, mas as formas estéticas que a elaboram servem como moldura narrativa de outras lutas a serem narradas. Cada povo e cada classe elabora seus próprios códigos de luta, mas sempre a partir de uma matriz referencial.
A Odisseia é um modelo que serviu a diversas historias na literatura, no cinema e nas artes plásticas relacionadas com o “retorno do herói”. Esse retorno pode também ser lido de forma alegórica, com a superação de desafios que a princípio o impediam de cumprir seus objetivos. Um jogo de estratégia em que a cada novo patamar de alcance surgem novas dificuldades imprevistas que envolvem o uso inteligente da força, da astúcia, das armas e em alguma instância da sorte, manifesta nessa história pela “ajuda dos deuses”.
A balada épica inspirou o cancioneiro dos trovadores de diversos contextos e épocas. Assim seria o Cantar del mio Cid ou a Chanson de Roland. Mais tarde, Os Lusíadas, de Camões, acabou sendo escrito diretamente inspirado na epopeia de Homero, em grande parte as viagens de Ulisses – a quem se atribuiu erroneamente a fundação de Lisboa, embora os Fenícios já andassem na costa de Portugal bem antes dos Gregos.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Até o início do século XX, o certo é que foi através de canções que foram propagadas as façanhas de heróis e anti-heróis populares. De malfeitores do “velho oeste” dos Estados Unidos, como Billy the Kid, personagens míticos como o gaúcho argentino Martín Fierro ou heróis populares de moral duvidosa como Lampião, o bandoleiro nordestino conhecido como o “rei do cangaço”, no Brasil. Essas narrativas épicas, cantadas em feiras itinerantes, eram vendidas em folhetos onde poderia se acompanhar a letra, gravuras da estória e às vezes até mesmo a partitura da melodia.
É precisamente na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos, com o bordão que sintetiza a trama da história: “Ulisses da guerra pra casa voltando/ enfrenta Neptuno na fúria do mar”. Este é um panorama da Odisseia, uma cantoria de quase 20 minutos, resumindo o que no cinema dura duas ou até três horas, como a recente produção do cineasta Christopher Nolan.
A versão também é mais curta que outros poemas e obras literárias que se inspiram ou parodiam a Odisseia de Homero, como os Cantos de Ezra Pound ou o Ulysses de James Joyce. Aliás, Joyce escreveu sua versão vanguardista da Odisseia em Zurique, na mesma época em que Lenine ali se encontrava exilado, em 1916, no contexto da Primeira Guerra Mundial. Sabe-se que Lenine morava na mesma rua do Cabaret Voltaire, a casa noturna criada por Hugo Ball para produzir happenings dadaístas que desafiavam a estética tradicional. E talvez Lenine e Joyce tenham até mesmo casualmente conversado algum dia sobre literatura, podendo o escritor irlandês ter comentado ao revolucionário russo sobre seu ambicioso projeto homérico moderno que começara a escrever ali em Zurique.
Tudo isso poderia ter acontecido, mas o facto é que em outubro de 1917, na Estação Finlândia, Lenine dava início à revolução que acabaria com a exploração dos trabalhadores pela burguesia ociosa – o início de uma grande odisseia da classe trabalhadora. Mas não se tratava de restaurar uma era gloriosa da monarquia anterior, senão de inaugurar um mundo inteiramente novo. Para isso mobilizou toda sua capacidade na elaboração de táticas e estratégias que permitissem construir um poder paralelo para confrontar o Estado, tomar o poder, acabar com a guerra e dividir as terras.
Em outras palavras, tratava-se de usar a força e a astúcia para acabar com o mundo que os senhores da guerra e da terra haviam criado. Homens como os que lutaram na guerra de Troia, que acabou vencida não apenas pela força, mas sobretudo pela estratégia de Ulisses, astúcia que Homero cantou em versos, propagando suas aventuras ao longo de séculos. Se Ulisses retomou o poder, isso não seria possível sem a ajuda de entidades divinas e humanas, como a do seu filho, a do rei dos Feácios, mas também da classe trabalhadora representada pelo porqueiro Eumeu e do vaqueiro que, armados a seu lado, enfrentam seus inimigos.
Aqui, deixo uma livre interpretação da “canção de luta” de Homero que deveria se propagar em canto acompanhada apenas do arpejo lírico. Usamos apenas gravuras de John Flaxman, um artista inglês romântico do final do século XVIII cuja obra foi publicada no contexto das guerras napoleónicas. Porque, afinal, toda adaptação de uma odisseia sempre reflete o presente sobre o passado clássico da humanidade, de onde surgem sempre novas interpretações.