Agosto
Sai agosto, entra setembro. E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise, regressa a penates.
Agosto é um mês que me irrita, desde que não o passo no meio dos montes ou na cidade do Porto.
Eu adorava ficar na cidade em agosto, porque estavam os amigos que viviam fora, de férias e cheios de tempo.
O Porto serenava, tinha uma onda diferente do resto do ano.
Na Beira Alta não me apercebia da turba, a não ser numa festa ou outra.
Juntávamos o grupo de urbanitas que desciam ao povoado vindos como bandos de pardais.
Este ano a Costa Nova estava a rebentar pelas costuras, apesar da quebra no consumo. A lancheira ganhou aos bares e restaurantes, cujo preço é incomportável para uma família.
Começaram por cortar nas entradas e nas saídas, as sobremesas. Depois dividiam um prato, uma água e até um café.
Os restaurantes mais caros, a dita pancada alta, sempre cheios a baterem certo com o luxuoso parque automóvel.
Há qualquer coisa que não bate certo, porque nunca vi, a não ser no tempo dos yuppies, tanto carro de luxo. Ferrari para aqui, Aston Martin para ali, Maseratis lindos.
E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise.
Aqui em Aveiro diz-se que quem não rema, já remou, o que é certinho como o Big Ben.
Agosto descarna todas estas idiossincrasias que me fazem pele de galinha.
Uns cospem para o chão, outros ameaçam de pancadaria por um lugar de estacionamento, a tatuagem suada numa camisola de mangas cavas, o gelado a ser lambido por um piercing na ponta da língua…
E eu sempre a dizer a mim que não tinha fumado nada, que não tinha engolido nadinha, que tudo é real, que tenho de aguentar, o ai aguenta, aguenta do outro pedante, até setembro.
E aguentei.
Hoje vai tocar a corneta.
A partir de amanhã, como dizia a nossa Sophia de Mello Breyner, vai-se notar mais aristocracia de comportamento, que era o seu grande objetivo com o socialismo, um sentido de solidariedade, de igualdade, de fraternidade.
Os mais humildes são quase sempre os mais nobres.