Um ano do Chega em Albufeira. Já chega?
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”.
“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”
Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação.
Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.
Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.
Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.
É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.
Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”
É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.
Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.
Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade.
A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas.
Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.
Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”
Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.
Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.
Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.
Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.
Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida.
Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.
Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.
Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.
Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.
Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.
Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.
Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.
O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia.
Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.
Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega.
Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.
O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.
Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.
A questão é se sobreviveremos ao processo.