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#58 MUDAM  SE OS TEMPOS #1  – A ideia moderna de Portugal com Rui Pereira
categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-07-02 (34)

#58 MUDAM SE OS TEMPOS #1 – A ideia moderna de Portugal com Rui Pereira

Durante o mês de julho vamos repor no Tempo Contra o Tempo o podcast Mudam-se os Tempos: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’ – já cantou o velho bardo. O curso da história move-se como as águas de um rio. Por vezes deixamo-nos levar por momentos

Jornal Maio
PÁTRIA
categoria-um poema edicao-2026-07-02 (34)

PÁTRIA

Creio no arco-íris, na cal duma velha casa e na reconciliação das vozes dissonantes; creio na exaltação do ensejo do fogo dos amantes; creio na claridade da alma e espírito da chuva; creio na causa da lua sobre marés, na liberdade, nas palavras Creio nos peixes, nos segredos do

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A fantasia empobrecida
Amor Gerações Tecnologia categoria-crónica edicao-2026-07-02 (34)

A fantasia empobrecida

No quesito “pegação” virtual, entre a geração Z e os boomers, o desenvolvimento tecnológico propiciou mudanças significativas. Os mais jovens podem achar que a sua experiência atual é mais rica, porque os dispositivos usados lhes permitem imagens em tempo real. Mas quem usou o velho telefone...

Maria Augusta Tavares
Os números confessam: somos mais – e mais pobres
categoria-editorial edicao-2026-07-02 (34)

Os números confessam: somos mais – e mais pobres

O INE anunciou que a população portuguesa, calculada com base em dados administrativos, é afinal de 11,4 milhões de pessoas, e não 10,6 milhões, como até agora se presumia, com base na extrapolação do último censo. Também o PIB per capita português, em paridade dos poderes de compra, é de 77% da méd

Jornal Maio
A primeira revolução negra da história - Parte 2
Haiti Revolução negra Santo Domingo Toussaint Louverture categoria-história edicao-2026-07-02 (34)

A primeira revolução negra da história - Parte 2

Antonio Pinto Tortosa é historiador, professor na Universidade de Málaga. Estudou a revolução jacobina negra em Santo Domingo no século XVIII, a primeira revolução negra da história, bem como a história contemporânea de Espanha nos séculos XIX e XX e, ainda, temáticas da história da energia. Nesta s

Raquel Varela, Antonio Jesús Pinto Tortosa
Formação para o mercado de trabalho: a grande cilada
Remuneração Trabalho categoria-educação edicao-2026-07-02 (34)

Formação para o mercado de trabalho: a grande cilada

Quando se é adolescente/pré-adulto o valor que se recebe pelo tempo gasto em determinada atividade laboral pode significar muitos ingressos de cinema e lanches na lanchonete, porém, quando se torna adulto, constitui família, tem filhos...

Cílson César Fagiani
O dia em que a Bélgica invadiu a Alemanha
educação IA generativa política Verdade categoria-ciência edicao-2026-07-02 (34)

O dia em que a Bélgica invadiu a Alemanha

Os vencedores agora podem reescrever a história através da IA generativa. Mas qual o sentido de recorrer a uma tecnologia que falseia e deturpa?

Sylvia Debossan Moretzsohn
Defender os direitos dos enfermeiros é defender a saúde pública
Direitos Greve Saúde pública categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-07-02 (34)

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Foram recentemente denunciadas situações na ULS Braga, com especial incidência sobre enfermeiros do bloco operatório, e na Santa Casa da Misericórdia de Vila Verde, em que terão ocorrido pressões explícitas para condicionar a adesão à greve

Gorete Pimentel
Albânia: a mobilização popular sobe de tom
Albânia Manifestações Trump categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

Albânia: a mobilização popular sobe de tom

Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital.

Adriano Zilhão
“Nova Albânia”: o levantamento social dos Flamingos
internacional Albânia Corrupção Revolução categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

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Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido caracterís

Manolis Sera
Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial
Armamento Defesa Guerra categoria-política edicao-2026-07-02 (34)

Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial

O horror da guerra: vidas perdidas, casas destruídas; inválidos e mutilados; milhões de deslocados, logo, refugiados; espécies extintas, vastos danos ambientais; o planeta mortificado. Há, porém, quem não sofra por aí além com a guerra: o complexo militar-industrial de empresas das grandes economias

Michael Roberts
Albânia: a mobilização popular sobe de tom
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Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital.

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“Nova Albânia”: o levantamento social dos Flamingos
internacional Albânia Corrupção Revolução categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

“Nova Albânia”: o levantamento social dos Flamingos

Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido caracterís

Manolis Sera
Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial
Armamento Defesa Guerra categoria-política edicao-2026-07-02 (34)

Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial

O horror da guerra: vidas perdidas, casas destruídas; inválidos e mutilados; milhões de deslocados, logo, refugiados; espécies extintas, vastos danos ambientais; o planeta mortificado. Há, porém, quem não sofra por aí além com a guerra: o complexo militar-industrial de empresas das grandes economias

Michael Roberts
Albânia Manifestações Trump categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

Albânia: a mobilização popular sobe de tom

Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital. A 11 de Junho, uma mobilização de dimensão histórica reuniu dezenas de milhares de pessoas nas ruas durante mais de cinco horas.

ilustração: Ricardo Ferreira

Intensifica-se a rejeição popular do projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares.

Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital. 

A 11 de Junho, uma mobilização de dimensão histórica reuniu dezenas de milhares de pessoas nas ruas durante mais de cinco horas.

O testa-de-ferro do projecto é o genro de Trump, Jared Kushner, um promotor imobiliário e político com conhecidas ligações financeiras a países do Golfo Pérsico e ao Estado de Israel.

A holding da empresa de Kushner, Affinity Global Development, gere activos da ordem de 5 mil milhões de dólares provenientes de fundos soberanos de países do Médio Oriente.

Para o negócio na Albânia, Kushner usou como corretor político Richard Grenell, ex-enviado especial de Trump para a Sérvia e o Kosovo, ex-chefe interino dos serviços de informações dos EUA e ex-embaixador de Trump na Alemanha. 

O negócio (estava também previsto um na Sérvia, entretanto congelado, de transformação do antigo Ministério da Defesa da Sérvia num hotel de luxo) incide na compra da ilha de Sazan, situada no estreito de Otranto, ponto de passagem fundamental entre o Adriático e o mar Mediterrâneo, com grande importância estratégica e militar ao longo da história. 

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Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália criou uma base militar para assegurar a sua hegemonia regional. Após a derrota de Mussolini, no final da Segunda Guerra Mundial, o regime estalinista de Enver Hoxha retomou o controlo da ilha, construindo uma rede de 15 km de túneis, milhares de bunkers anti-nucleares e uma base de submarinos. A ilha é controlada pelas forças armadas da Albânia.

A posição estratégica da ilha sugere que Trump, com a sua dolorosa recente experiência de estreitamento de estreitos estratégicos, quererá dela tirar partido para reforçar o domínio do imperialismo americano na Europa. Note-se que percorre o leito do estreito de Otranto um gasoduto de grande importância, que transporta gás natural do Azerbaijão para a Europa. O mar em torno da ilha goza de um estatuto de protecção especial da natureza.

O primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, alega que o projecto de Kushner, que teve o seu aval pessoal, permitirá ao país entrar na “Liga dos Campeões do Turismo Mundial”. Entretanto, os americanos beneficiarão de isenção de impostos durante a fase de construção, e o Estado albanês encarregar-se-á de toda a infra-estrutura, incluindo água, electricidade e esgotos.

 

Os jovens e os trabalhadores albaneses exigem a demissão do governo, cantando palavras de ordem sem apelo nem agravo: “Edi Rama, rua!”, “Rama para a prisão!”, “Revolução!”, “Nova Albânia!

 

A mobilização popular concentra toda a indignação que vai pelo país. O primeiro-ministro afunda-se, denunciando a “desinformação”, acusando “forças externas”, “bots” e até “narrativas anti-semitas”, segundo ele responsáveis por alimentar a contestação. Num país caracterizado pela carência de salários decentes e pelo desmantelamento dos serviços públicos, o governo tenta fazer valer a promessa de criação de empregos ligados ao turismo. 

Contudo, a juventude está na linha da frente das mobilizações. Os jovens e os trabalhadores albaneses não são parvos. Exigem a demissão do governo, cantando palavras de ordem sem apelo nem agravo: “Edi Rama, rua!”, “Rama para a prisão!”, “Revolução!”, “Nova Albânia!”.

E o movimento de contestação ultrapassa as fronteiras da Albânia. A diáspora albanesa junta-se-lhe em massa: tem havido concentrações de solidariedade em Atenas, Berlim, Viena, Roma e Washington, estando outras anunciadas para Paris e Bruxelas.

Parece evidente que está em jogo muito mais do que uma nova fonte de lucros chorudos para os oligarcas locais e os multibilionários americanos ligados a Trump. 

internacional Albânia Corrupção Revolução categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

“Nova Albânia”: o levantamento social dos Flamingos

Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.

ilustração: Pedro Páscoa

O protesto de massas pacífico na Albânia manda à arrogância ocidental a mensagem de que o povo albanês não é um “povo incivilizado dos Balcãs sub-desenvolvidos”. A mobilização em massa, que não desarma, articula um discurso político claro e independente, muito diferente de todos os protestos políticos desde 1992, dominados pelos partidos políticos ligados ao poder e caracterizados pela violência. É a primeira vez que assistimos a protestos do povo, para o povo.

Têm diariamente a palavra pessoas da diáspora albanesa na Alemanha, na Áustria, em vários países da UE, na Grã-Bretanha e nos EUA, assim como intelectuais, médicos e activistas locais, ao passo que se nega a tribuna aos partidos políticos, mesmo aos de oposição que apoiam os protestos.

Não é só a palavra de ordem central de “Rama para a prisão, Berisha para a prisão” — estes, os principais representantes da era pós-Hoxha, de quem se esperava que enfiassem a Albânia numa “arquitectura social de tipo ocidental” e a integrassem na União Europeia. Este ilusório “contrato social” entre o sistema político e a sociedade rompeu-se.

Emerge uma nova visão, de uma nova sociedade emancipada, de um país liberto da dependência imperialista e da classe dominante compradora e corrupta, manifestada em palavras de ordem como “A Albânia pertence aos Albaneses”, “Nova Albânia” e “traidores, todos para a prisão”. Seria errado equiparar estas palavras de ordem políticas a um nacionalismo albanês; o objectivo é, pelo contrário, a emancipação social, a erradicação da corrupção, a meritocracia e saúde e ensino públicos e gratuitos. Os emigrantes albaneses no Ocidente fazem as mesmas ou mesmo mais radicais reivindicações, mais dos que as que são hoje avançadas nos países capitalistas ocidentais: reivindicações de justiça social e de igualdade na distribuição da riqueza social.

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A perspectiva para esta “Nova Albânia” pode ainda não ser clara, mas muitas faixas que se fazem eco de faixas semelhantes das jovens gerações da Ásia e do Sul Global manifestam o carácter internacional da “Revolução dos Flamingos” albanesa e da sua luta pela emancipação universal, pela justiça e pela paz entre os povos. O povo albanês conseguiu, afinal, a coexistência pacífica entre pessoas de diferentes religiões. Nos protestos, vêem-se, no meio da massa, entre pessoas laicas, também raparigas muçulmanas com burcas, ao lado de freiras cristãs ortodoxas e católicas romanas.

Edi Rama traiu as expectativas populares de abertura ao mundo e de integração equitativa de que o povo estivera privado durante a era do isolacionismo estalinista. Em vez de Estado social e de “igualdade perante a lei”, o regime de Rama criou um sistema clientelista que, a cada nova vitória eleitoral, se foi tornando cada vez mais autoritário e centrado na personalidade do chefe. Criou uma elite económica à volta do seu partido, começando, através desta elite, a branquear dinheiro sujo proveniente da corrupção em concursos públicos e dos cartéis da droga. No topo da pirâmide, Edi Rama, feito corretor imobiliário albanês para o sistema financeiro internacional, para os oligarcas árabes, empresas israelitas e, recentemente, para J. Kushner, a esposa Ivanka e a família Trump. As políticas do governo visam dois objectivos: em primeiro lugar, para consumo interno e manipulação da opinião pública, fazer de conta que a Albânia se está a tornar numa “marca” internacional “em ascensão” e, por conseguinte, “a economia se está a desenvolver”; mas, principalmente, mostrar ao grande capital, à escala internacional, que ele é o único interlocutor estável para quem pretenda fazer lucros chorudos na Albânia, proporcionando todas as facilidades legais e fiscais para investimentos lucrativos de especuladores e bandidos estrangeiros.

 

Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.

 

A força do poder de Rama e de todo o sistema político chegou ao fim quando um manifestante foi arrastado pelo chão por uma empresa de segurança privada em Zvernec, aos olhos da polícia. A legitimidade que Rama constantemente invoca ruiu; o povo não vai voltar atrás. 

Assistimos à subida das massas ao palco da história, à ruptura do tal “contrato social” que tem sido propalado na Albânia nos últimos 34 anos. Por outras palavras, e palavras mais reais, o processo de restauração capitalista iniciado após a morte de Hoxha e o colapso do regime burocrático entrou num beco sem saída. A sociedade e a maioria da população sufocam debaixo da corrupção e do brutal autoritarismo de um regime burguês “comprador”, que vende o país a novos colonialistas e perde toda a legitimidade.

A palavra “revolução”, tal como escrita em albanês na maior parte das faixas, dominando as palavras de ordem cantadas nas manifestações, tem conteúdo material, concreto, para as massas populares. Significa o único meio possível para se livrar dos bandidos estrangeiros e locais e alcançar justiça social, emprego, saúde pública e gratuita, habitação, ensino, transportes, a protecção do ambiente natural e do património cultural, espaços verdes públicos e parques infantis nas cidades, desenvolvimento geral da cultura, emancipação da dominação colonial das elites imperialistas dos super-ricos, solidariedade internacional e unidade com os povos dos Balcãs, da Europa, da região e do mundo.

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Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial

O horror da guerra: vidas perdidas, casas destruídas; inválidos e mutilados; milhões de deslocados, logo, refugiados; espécies extintas, vastos danos ambientais; o planeta mortificado. Há, porém, quem não sofra por aí além com a guerra: o complexo militar-industrial de empresas das grandes economias, a indústria de combustíveis fósseis e os monopólios globais da alimentação — e a grande banca.

ilustração: Mantraste

No dia 17 de Janeiro de 1961, o então presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, alertou, no seu discurso de despedida, contra a formação de um complexo militar-industrial. “Fomos obrigados a criar uma indústria de armamento permanente de dimensão vasta... Mas devemos proteger-nos de que o complexo militar-industrial adquira influência indevida, procure-a ele ou não. Há e continuará a haver potencial para que aumente desastrosamente o descaminho de poder.” Desde o aviso de Eisenhower, o complexo militar-industrial tem crescido como um cogumelo nuclear, permitindo extrair lucros imensos de guerras intermináveis.

A administração Trump diz que a guerra contra o Irão custou, até agora, 25 mil milhões de dólares. O número, adiantado pelo Pentágono, reflecte uma conta selectiva dos custos que a Operação Epic Fury está a somar: o preço dos mais de 2 mil mísseis Tomahawk e Patriot já disparados, dos aviões de guerra que já voaram e, em alguns casos, se perderam e do restante do equipamento já triturado. Mas é uma vasta subestimação. O valor real andará mais pelos 3 biliões de dólares: 4 mil dólares por família americana nos próximos cinco anos.

Para onde vai este dinheiro todo? Para empresas que lucram com a economia de guerra: empreiteiros da defesa, fornecedores de armas, produtores de energia, empresas alimentares e investidores financeiros.

Desde que os EUA e Israel atacaram o Irão, no dia 28 de Fevereiro, as empresas de defesa norte-americanas, incluindo a Lockheed Martin, a Northrop Grumman e a RTX, viram o valor das suas acções subir entre 25 e 30 mil milhões de dólares num só dia. Em Israel, a Elbit Systems passou a ser a empresa cotada de maior valor do país, subindo as suas acções 45% desde Janeiro. Na Europa e no Reino Unido, as acções do sector da defesa dispararam. A guerra cria aos governos a necessidade de reabastecerem os arsenais, assim disparando a procura. A Lockheed Martin, a Boeing e a Northrop Grumman, três das maiores empresas de material de defesa do mundo, anunciaram, cada uma, ter carteiras de encomendas recorde no final do primeiro trimestre de 2026.

Criando os conflitos uma forte procura de equipamento militar, munições e sistemas de defesas, incham os livros de encomendas e a facturação dos fabricantes de armas. As vendas de armas têm sido uma fonte de receitas e lucros cada vez mais importante para os grandes fabricantes de armamento. Em 18 dos últimos 20 anos, foram os EUA o país que deteve a maior quota do mercado global de armamento. Os negócios mais lucrativos são os que dizem respeito a sistemas como os caças F-16 e F-35 (Lockheed Martin), os caças F-15 e os helicópteros de ataque Apache (Boeing), bombas de precisão e mísseis ar-terra (Raytheon) e sistemas de defesa antimísseis (Raytheon e Lockheed Martin). 

Nos últimos anos, o maior e mais controverso mercado armamentista dos EUA tem sido o Médio Oriente, particularmente as vendas a países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que têm estado metidos numa guerra devastadora no Iémen e a alimentar conflitos noutros pontos da região. Além, claro, das vendas em grande escala a Israel para a ocupação militar de Gaza, do Líbano e da Síria. Para conseguirem pôr os governos a gastar em armamento, os fabricantes gastam milhares de milhões em acções de lóbi e na promoção de representantes seus para cargos governamentais. Por exemplo, dos últimos cinco secretários da Defesa dos EUA, quatro vieram da indústria de armamento.

Somam-se os trabalhos de logística e reconstrução em zonas de guerra. O caos da guerra, a falta de supervisão governamental e os volumes de fundos injectados no esforço de reconstrução revertem em lucros para muitas empresas. O mais conhecido empreiteiro contratado para a reconstrução e logística no Iraque e no Afeganistão foi a Halliburton. Quando ambas as guerras começaram, a Halliburton coordenou uma vasta gama de funções de apoio às tropas no terreno, desde a instalação de bases militares à manutenção de equipamentos e ao fornecimento de serviços de alimentação e lavandaria. A Halliburton multiplicou por mais de dez o valor dos seus contratos durante os quatro anos da ocupação militar dos EUA no Iraque e no Afeganistão.

 

Estando a vida a ser aniquilada em Gaza, e a Cisjordânia submetida a uma escalada de ataques, este relatório mostra por que razão o genocídio israelita continua: porque é lucrativo para muitos”, diz o relatório Albanese

 

A Halliburton lucrou também com a construção de refeitórios e o fornecimento de refeições em aproximadamente 60 bases em todo o Iraque. Uma comissão do governo dos EUA apurou que, do contrato de 1200 milhões de dólares, mais de 350 milhões de dólares foram pagos por serviço nenhum prestado (36% das refeições). O processo de reconstrução afegão também foi rico em casos de fraude, desperdício e abuso. Uma estrutura de missão económica que gastou 43 milhões de dólares numa estação de serviço que nunca foi usada, outros 150 milhões de dólares gastos em luxuosos alojamentos para conselheiros económicos dos EUA e 3 milhões de dólares em barcos de patrulha para a polícia afegã que também nunca foram usados. Parte significativa dos 2 mil milhões de dólares em contratos de transporte com empresas norte-americanas e afegãs acabaram como luvas a senhores da guerra, oficiais da polícia ou como pagamentos aos talibãs, chegando a 1500 dólares por camião, ou meio milhão de dólares por cada grande comboio de 300 camiões.

Um relatório de Francesca Albanese ao Conselho de Direitos Humanos da ONU aponta que empresas de todo o mundo têm participado a fundo no apoio a Israel nos 21 meses do assalto deste a Gaza. “Estando a vida a ser aniquilada em Gaza, e a Cisjordânia submetido a uma escalada de ataques, este relatório mostra por que razão o genocídio israelita continua: porque é lucrativo para muitos”, diz o relatório. O relatório Albanese critica fabricantes de equipamento pesado, como a Caterpillar e a Volvo, por alegadamente fornecerem maquinaria pesada utilizada em demolições em massa de casas, mesquitas e infra-estruturas em Gaza e na Cisjordânia. O relatório elenca empresas de gestão de activos, incluindo a Pimco (propriedade da empresa de serviços financeiros alemã Allianz) e a Vanguard como grandes compradoras de obrigações do Tesouro israelitas.

Após a destruição total de Gaza pelas forças armadas israelitas, financiada por ajuda norte-americana, o presidente dos EUA, Trump, criou um Conselho de Paz, em cujo âmbito sessenta governos acordaram em pôr à disposição verbas para a “reconstrução” de Gaza. Um mapa do “Plano Director” americano apresenta uma zona reservada a “turismo costeiro”, com 180 arranha-céus, bem como várias zonas reservadas a “áreas residenciais”, “complexo industrial, centros de dados, indústrias de ponta” e “parques, agricultura e instalações desportivas”. “Grande negócio imobiliário”, disse Trump.

No entanto, como a guerra com o Irão está a revelar, não é só lucros para empreiteiros da área da defesa e fabricantes de armas. O mais forte impacto económico da guerra com o Irão tem sido o disparar dos preços da energia. Cerca de um quinto do petróleo e gás do mundo é transportado através do estreito de Ormuz, mas esses carregamentos pararam, para todos os efeitos, no final de Fevereiro. O resultado tem sido uma montanha-russa de oscilações de preços nos mercados energéticos, para benefício de algumas das maiores empresas de petróleo e gás do mundo.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia proporcionou às cinco maiores empresas mundiais de petróleo e gás lucros recorde de 192 mil milhões de euros (209 mil milhões de dólares) em 2022, tendo elas distribuído 102 mil milhões de dólares (93 mil milhões de euros) aos seus investidores na forma de dividendos e recompras de acções. Na guerra do Irão, os principais beneficiários têm sido as gigantes petrolíferas europeias e norte-americanas. Os lucros da BP mais do que duplicaram para 3200 milhões de dólares (2400 milhões de libras) nos primeiros três meses do ano, graças ao que a empresa descreveu como um desempenho “excepcional” da sua divisão comercial. A Shell também superou as expectativas dos analistas, ao anunciar um aumento dos lucros do primeiro trimestre para 6920 milhões de dólares. Outra gigante internacional, a TotalEnergies, viu os seus lucros darem um salto de quase um terço, para 5400 milhões de dólares no primeiro trimestre de 2026, puxados pela volatilidade nos mercados do petróleo e da energia. As gigantes norte-americanas ExxonMobil e Chevron viram os seus lucros cair em comparação com o período homólogo do ano passado por causa das perturbações do abastecimento proveniente do Médio Oriente, mas ambas esperam vê-los subir mais durante o ano, mantendo-se o preço do petróleo significativamente acima de quando a guerra começou.

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E há os bancos. Mercados voláteis com preços a subir e descer a pique potenciam os volumes negociados, produzindo lucrativas comissões para os grandes bancos de investimento e corretoras. Alguns dos maiores bancos norte-americanos viram os seus lucros acelerar durante a guerra no Irão. A divisão comercial do JP Morgan registou receitas recorde de 11 600 milhões de dólares nos primeiros três meses de 2026, contribuindo para que o banco, no seu todo, conseguisse o seu segundo maior lucro trimestral de sempre. Entre os restantes bancos do grupo dos “Seis Grandes” dos EUA — que incluem o Bank of America, o Morgan Stanley, o Citigroup, o Goldman Sachs e o Wells Fargo, além do JP Morgan — os lucros de todos eles aumentaram substancialmente no primeiro trimestre do ano. No total, os bancos registaram 47 700 milhões de dólares de lucros nos primeiros três meses de 2026.

Com o estreito de Ormuz, no Golfo, ainda bloqueado, não foram só o petróleo e o gás a registar aumentos acentuados de preços e escassez crescente; caiu também o abastecimento de produtos alimentares e agrícolas críticos, disparando os preços. O punhado de mega-empresas que controlam a grande maioria do nosso abastecimento alimentar global tem feito lucros à grande. Das sementes deitadas ao solo aos produtos postos nas prateleiras dos supermercados, estas empresas ditam preços, limitam as escolhas dos consumidores e espremem os agricultores e trabalhadores independentes. 

Os preços dos fertilizantes à base de azoto, que já estavam elevados antes do início da guerra devido ao congestionamento da oferta, registaram agora aumentos espectaculares. Os preços da ureia subiram cerca de 36% nos EUA e 70% no Egipto, país de pobreza extrema. Os preços dos alimentos e dos fertilizantes disparam, para proveito destes grandes conglomerados agrícolas. A CF Industries Holdings Inc. e a Nutrien Ltd. registaram, ambas, aumentos de quase 20% nas vendas no último trimestre, beneficiando dos preços mais elevados dos fertilizantes nitrogenados, aplicados nos campos de milho e soja para sustentar a produtividade das safras. “O conflito com o Irão representa o terceiro grande choque sofrido pela oferta e procura no mercado global do azoto nos últimos seis anos, pondo a nu a fragilidade da cadeia global do abastecimento de azoto”, referiu Chris Bohn, o director executivo da CF Industries. “Num ambiente de perturbações geopolíticas frequentes, vemos o muito que valem a verdadeira estabilidade da nossa rede, que é difícil de replicar, e os nossos activos de superior qualidade” (por outras palavras, lucros enormes).

Marx disse uma vez que a história da humanidade é a história da luta de classes. É, também, uma história de guerras sem fim. O capitalismo moderno do século XX foi o mais sanguinário da história. Tem-se estimado em 187 milhões o número total de mortes causadas pelas suas guerras ou com elas conotadas, o equivalente a mais de 10% da população mundial em 1913. O século XXI tem dado continuidade a este pesadelo, mundo fora. Guerras intermináveis causam a morte e a destruição de milhões de pessoas, mas também lucros intermináveis para o complexo militar-industrial de conglomerados gigantes e seus proprietários super-ricos.


Tradução de Adriano Zilhão.

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Michael Roberts

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