Formação para o mercado de trabalho: a grande cilada
Quando se é adolescente/pré-adulto o valor que se recebe pelo tempo gasto em determinada atividade laboral pode significar muitos ingressos de cinema e lanches na lanchonete, porém, quando se torna adulto, constitui família, tem filhos, o valor que vai receber pela qualificação limitada na adolescência não vai ser suficiente para sustentar a sua família. Por isso optar por uma formação profissional que momentaneamente insere o ou a jovem no mercado de trabalho limitando a sua escolaridade ou uma formação científica-humanística que o faz com condições melhores de empregabilidade e remuneração e mais duradoras nas suas vidas é decisivo na vida das pessoas.
ilustração: Ricardo Ferreira
Nos dias atuais vivemos sob condições socioeconómicas perversas e desumanas, onde o direito à vida com dignidade é relativizado e potenciado pela interação de diferentes fatores, tais como a aparência, local de nascimento, meio onde se vive e formação humana. Fatores que são decisivos no período de vida dos sujeitos sociais, período esse que é único e portanto de grande valor para os mesmos. Sim, quero dizer, quanto vale o tempo da sua vida? Qual o valor da sua vida? Essas perguntas podem ter diferentes respostas quando não respondidas pelos proprietários dos tempos e das vidas, ou seja, o tempo e a vida alheia podem valer menos que o meu tempo e a minha vida.
A decisão e o determinismo a respeito do tempo e da vida alheia existem e são expressados de maneira abrangente pelas políticas públicas dos governos que ocupam a administração dos países em seus períodos. Governo são pessoas com concepções, vontades e opções.
A avaliação dessas concepções, vontades e opções é fundamental para entender os objetivos que tal governo, quero dizer tais pessoas, tem para a vida alheia, ou seja, se todos têm o direito a viver ou a sobreviver na sociedade em que estão inseridos. Viver é diferente de sobreviver: este último implica situações de sujeição a qualquer coisa para obter o “pão de cada dia”. Esclarecendo, o dia tem 24 horas, dessas recomenda-se, para a boa saúde, o mínimo de 8 horas de sono, preferivelmente no período noturno, sobram 16 horas para se alimentar, para o lazer, para o estudo e para a família. Oops, estou me esquecendo da principal atividade, a atividade laboral, a atividade que nos dias de hoje é decisiva para as condições de viver ou sobreviver, e eu explico.
O tempo de vida gasto na atividade laboral e o pagamento por esse tempo é condicionado pelos tipos de qualificações obtidos na formação de cada sujeito social, formação essa que nos dias de hoje ocorre necessariamente na educação escolar, e o nível dessa escolaridade é decisivo para uma melhor ou pior qualificação e um maior ou menor pagamento pelo tempo despendido. Aqui, simplificadamente relaciono a melhor qualificação com o tempo de frequência na escola, ou seja, da escolaridade. E quanto maior esta escolaridade, melhor a qualificação, maior o valor do tempo despendido na atividade laboral, maior a possibilidade de diminuição desse tempo, ou seja, sobram mais horas dentro das 24 horas do dia para se alimentar, para o lazer, para o estudo e para a família.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Outra questão a ser elencada é a própria colocação no mercado de trabalho, esta também vinculada às qualificações obtidas pelos sujeitos sociais em sua vida, ocorridas nos tempos de vida adequados, também decisivas para o viver ou sobreviver. Dados do relatório da OCDE “Education at a Glance”, de 2025, divulgam um aumento da percentagem de forma gradativa das taxas de emprego entre pessoas de 25 a 64 anos com formação em qualificações avançadas, ou seja, “indivíduos com formação superior de ciclo curto têm uma taxa de emprego de 83%, em comparação com 86% para aqueles com bacharelato, 90% para aqueles com mestrado e 93% para aqueles com doutorado ou qualificação equivalente”. Ainda no relatório, o tempo de desemprego também está relacionado com o nível de escolaridade, ou seja, “entre adultos desempregados de 25 a 64 anos, o desemprego de longa duração é mais prevalecente entre aqueles com menor escolaridade: 36% daqueles com escolaridade abaixo do ensino médio estão desempregados há 12 meses ou mais, em comparação com 30% com ensino médio ou pós-secundário não superior e 25% com ensino superior”. Ainda no relatório também encontramos que a percentagem de jovens de 25 a 34 anos fora do mercado de trabalho, por nível de escolaridade (2024), se apresenta em ordem decrescente entre as pessoas com formação abaixo do ensino secundário, com ensino secundário ou pós-secundário não superior e ensino superior.
Mas onde está a grande cilada? Na percepção dos valores pagos pela atividade laboral no determinado tempo de vida das pessoas, valores atrelados às suas necessidades de sobrevivência naquele tempo específico, que pode ser muito, ou suficiente para manter a vida, porém sem perceber que aquele tempo não é estático, ele passa, e quando se tem clareza sobre este movimento o tempo da formação adequada já passou e, o mais grave, não tem volta. Mais grave ainda é o contexto e as necessidades de vida que mudam para as pessoas durante os diferentes períodos de sua vida, ou seja, quando se é adolescente/pré-adulto o valor que se recebe pelo tempo gasto em determinada atividade laboral pode significar muitos ingressos de cinema e lanches na lanchonete, porém, quando se torna adulto, constitui uma família, tem filhos, o valor que vai receber pela qualificação limitada na adolescência não vai ser suficiente para sustentar sua família. Por isso optar por uma formação profissional que momentaneamente insere o/a jovem no mercado de trabalho limitando sua escolaridade ou uma formação científica-humanística que embora demore mais para inserir o/a jovem no mercado de trabalho pelo aumento da escolaridade, o faz com condições melhores de empregabilidade e remuneração e mais duradoras em suas vidas, é decisivo na vida das pessoas. Esse esclarecimento tem de ser feito.
Quem domina quer continuar dominando e por isso não tem interesse na formação que busca o entendimento da essência do funcionamento desta sociedade.
Por isso o/a jovem do ensino básico, desde o primeiro ciclo até ao secundário, deve receber uma formação com base nas práticas sociais que compreendem a sociedade vigente e mais especificamente o seu contexto dentro dessa sociedade, ou seja, como funciona a sociedade em que vivemos e a posição que ocupamos dentro dela e, o mais importante, que tudo isso não é obra devida, é determinação das pessoas que compõem essa sociedade. Tais pessoas têm interesses próprios que não colaboram para a transformação dessa sociedade e a movimentação dentro dela quanto à questão da vivência ou sobrevivência das pessoas que a compõem. Deixando bem claro que quem domina quer continuar dominando e por isso não tem interesse na formação que busca o entendimento da essência do funcionamento desta sociedade, mas apenas seu funcionamento na aparência e dessa forma procura organizar o trabalho nas instituições escolares.
É compreensível que a organização e sistematização do trabalho pedagógico seja pautada pelas relações de trabalho que, segundo Saviani (2011), se expressam em sua forma mais desenvolvida segundo a lógica capitalista. Assim, tem-se um trabalho pedagógico que reflete a organização social (capitalista) dentro da escola. Em suma, as relações que se desenvolvem entre o trabalho e o trabalho pedagógico não se desvinculam da organização estrutural da sociedade, que funcionam como estratégia de adaptação e renovação da ordem social vigente e das relações de produção hegemónicas (Saviani, 2011).
Por outro lado os educadores devem resistir o tempo todo para não reproduzir essa forma de dominação nas instituições escolares e a proposta é trabalhar com todos os conteúdos a serem ensinados, em todas as etapas do ensino, sempre partindo das diferentes práticas sociais vigentes na sociedade em que todos vivemos, educadores e educandos. Questionando, problematizando, compreendendo, propondo e agindo no sentido da transformação social, proporcionando outra prática social, só que agora muito mais qualificada que a prática social inicial. Essa forma de trabalhar pedagogicamente nas instituições escolares é teorizada por Dermeval Saviani e se chama pedagogia histórico-crítica.
Referências bibliográficas:
OECD (2025), Education at a Glance 2025: OECD Indicators, OECD Publishing, Paris, https://doi.org/10.1787/1c0d9c79-en
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico-crítica: primeiras aproximações. 11ª ed. Campinas: Autores Associados, 2011.
Quero saber mais sobre:
Cílson César Fagiani
Licenciado e bacharel em Ciências Biológicas e graduado em Pedagogia. Doutor em Educação.