Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial
O horror da guerra: vidas perdidas, casas destruídas; inválidos e mutilados; milhões de deslocados, logo, refugiados; espécies extintas, vastos danos ambientais; o planeta mortificado. Há, porém, quem não sofra por aí além com a guerra: o complexo militar-industrial de empresas das grandes economias, a indústria de combustíveis fósseis e os monopólios globais da alimentação — e a grande banca.
ilustração: Mantraste
No dia 17 de Janeiro de 1961, o então presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, alertou, no seu discurso de despedida, contra a formação de um complexo militar-industrial. “Fomos obrigados a criar uma indústria de armamento permanente de dimensão vasta… Mas devemos proteger-nos de que o complexo militar-industrial adquira influência indevida, procure-a ele ou não. Há e continuará a haver potencial para que aumente desastrosamente o descaminho de poder.” Desde o aviso de Eisenhower, o complexo militar-industrial tem crescido como um cogumelo nuclear, permitindo extrair lucros imensos de guerras intermináveis.
A administração Trump diz que a guerra contra o Irão custou, até agora, 25 mil milhões de dólares. O número, adiantado pelo Pentágono, reflecte uma conta selectiva dos custos que a Operação Epic Fury está a somar: o preço dos mais de 2 mil mísseis Tomahawk e Patriot já disparados, dos aviões de guerra que já voaram e, em alguns casos, se perderam e do restante do equipamento já triturado. Mas é uma vasta subestimação. O valor real andará mais pelos 3 biliões de dólares: 4 mil dólares por família americana nos próximos cinco anos.
Para onde vai este dinheiro todo? Para empresas que lucram com a economia de guerra: empreiteiros da defesa, fornecedores de armas, produtores de energia, empresas alimentares e investidores financeiros.
Desde que os EUA e Israel atacaram o Irão, no dia 28 de Fevereiro, as empresas de defesa norte-americanas, incluindo a Lockheed Martin, a Northrop Grumman e a RTX, viram o valor das suas acções subir entre 25 e 30 mil milhões de dólares num só dia. Em Israel, a Elbit Systems passou a ser a empresa cotada de maior valor do país, subindo as suas acções 45% desde Janeiro. Na Europa e no Reino Unido, as acções do sector da defesa dispararam. A guerra cria aos governos a necessidade de reabastecerem os arsenais, assim disparando a procura. A Lockheed Martin, a Boeing e a Northrop Grumman, três das maiores empresas de material de defesa do mundo, anunciaram, cada uma, ter carteiras de encomendas recorde no final do primeiro trimestre de 2026.
Criando os conflitos uma forte procura de equipamento militar, munições e sistemas de defesas, incham os livros de encomendas e a facturação dos fabricantes de armas. As vendas de armas têm sido uma fonte de receitas e lucros cada vez mais importante para os grandes fabricantes de armamento. Em 18 dos últimos 20 anos, foram os EUA o país que deteve a maior quota do mercado global de armamento. Os negócios mais lucrativos são os que dizem respeito a sistemas como os caças F-16 e F-35 (Lockheed Martin), os caças F-15 e os helicópteros de ataque Apache (Boeing), bombas de precisão e mísseis ar-terra (Raytheon) e sistemas de defesa antimísseis (Raytheon e Lockheed Martin).
Nos últimos anos, o maior e mais controverso mercado armamentista dos EUA tem sido o Médio Oriente, particularmente as vendas a países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que têm estado metidos numa guerra devastadora no Iémen e a alimentar conflitos noutros pontos da região. Além, claro, das vendas em grande escala a Israel para a ocupação militar de Gaza, do Líbano e da Síria. Para conseguirem pôr os governos a gastar em armamento, os fabricantes gastam milhares de milhões em acções de lóbi e na promoção de representantes seus para cargos governamentais. Por exemplo, dos últimos cinco secretários da Defesa dos EUA, quatro vieram da indústria de armamento.
Somam-se os trabalhos de logística e reconstrução em zonas de guerra. O caos da guerra, a falta de supervisão governamental e os volumes de fundos injectados no esforço de reconstrução revertem em lucros para muitas empresas. O mais conhecido empreiteiro contratado para a reconstrução e logística no Iraque e no Afeganistão foi a Halliburton. Quando ambas as guerras começaram, a Halliburton coordenou uma vasta gama de funções de apoio às tropas no terreno, desde a instalação de bases militares à manutenção de equipamentos e ao fornecimento de serviços de alimentação e lavandaria. A Halliburton multiplicou por mais de dez o valor dos seus contratos durante os quatro anos da ocupação militar dos EUA no Iraque e no Afeganistão.
Estando a vida a ser aniquilada em Gaza, e a Cisjordânia submetida a uma escalada de ataques, este relatório mostra por que razão o genocídio israelita continua: porque é lucrativo para muitos”, diz o relatório Albanese
A Halliburton lucrou também com a construção de refeitórios e o fornecimento de refeições em aproximadamente 60 bases em todo o Iraque. Uma comissão do governo dos EUA apurou que, do contrato de 1200 milhões de dólares, mais de 350 milhões de dólares foram pagos por serviço nenhum prestado (36% das refeições). O processo de reconstrução afegão também foi rico em casos de fraude, desperdício e abuso. Uma estrutura de missão económica que gastou 43 milhões de dólares numa estação de serviço que nunca foi usada, outros 150 milhões de dólares gastos em luxuosos alojamentos para conselheiros económicos dos EUA e 3 milhões de dólares em barcos de patrulha para a polícia afegã que também nunca foram usados. Parte significativa dos 2 mil milhões de dólares em contratos de transporte com empresas norte-americanas e afegãs acabaram como luvas a senhores da guerra, oficiais da polícia ou como pagamentos aos talibãs, chegando a 1500 dólares por camião, ou meio milhão de dólares por cada grande comboio de 300 camiões.
Um relatório de Francesca Albanese ao Conselho de Direitos Humanos da ONU aponta que empresas de todo o mundo têm participado a fundo no apoio a Israel nos 21 meses do assalto deste a Gaza. “Estando a vida a ser aniquilada em Gaza, e a Cisjordânia submetido a uma escalada de ataques, este relatório mostra por que razão o genocídio israelita continua: porque é lucrativo para muitos”, diz o relatório. O relatório Albanese critica fabricantes de equipamento pesado, como a Caterpillar e a Volvo, por alegadamente fornecerem maquinaria pesada utilizada em demolições em massa de casas, mesquitas e infra-estruturas em Gaza e na Cisjordânia. O relatório elenca empresas de gestão de activos, incluindo a Pimco (propriedade da empresa de serviços financeiros alemã Allianz) e a Vanguard como grandes compradoras de obrigações do Tesouro israelitas.
Após a destruição total de Gaza pelas forças armadas israelitas, financiada por ajuda norte-americana, o presidente dos EUA, Trump, criou um Conselho de Paz, em cujo âmbito sessenta governos acordaram em pôr à disposição verbas para a “reconstrução” de Gaza. Um mapa do “Plano Director” americano apresenta uma zona reservada a “turismo costeiro”, com 180 arranha-céus, bem como várias zonas reservadas a “áreas residenciais”, “complexo industrial, centros de dados, indústrias de ponta” e “parques, agricultura e instalações desportivas”. “Grande negócio imobiliário”, disse Trump.
No entanto, como a guerra com o Irão está a revelar, não é só lucros para empreiteiros da área da defesa e fabricantes de armas. O mais forte impacto económico da guerra com o Irão tem sido o disparar dos preços da energia. Cerca de um quinto do petróleo e gás do mundo é transportado através do estreito de Ormuz, mas esses carregamentos pararam, para todos os efeitos, no final de Fevereiro. O resultado tem sido uma montanha-russa de oscilações de preços nos mercados energéticos, para benefício de algumas das maiores empresas de petróleo e gás do mundo.
A guerra entre a Rússia e a Ucrânia proporcionou às cinco maiores empresas mundiais de petróleo e gás lucros recorde de 192 mil milhões de euros (209 mil milhões de dólares) em 2022, tendo elas distribuído 102 mil milhões de dólares (93 mil milhões de euros) aos seus investidores na forma de dividendos e recompras de acções. Na guerra do Irão, os principais beneficiários têm sido as gigantes petrolíferas europeias e norte-americanas. Os lucros da BP mais do que duplicaram para 3200 milhões de dólares (2400 milhões de libras) nos primeiros três meses do ano, graças ao que a empresa descreveu como um desempenho “excepcional” da sua divisão comercial. A Shell também superou as expectativas dos analistas, ao anunciar um aumento dos lucros do primeiro trimestre para 6920 milhões de dólares. Outra gigante internacional, a TotalEnergies, viu os seus lucros darem um salto de quase um terço, para 5400 milhões de dólares no primeiro trimestre de 2026, puxados pela volatilidade nos mercados do petróleo e da energia. As gigantes norte-americanas ExxonMobil e Chevron viram os seus lucros cair em comparação com o período homólogo do ano passado por causa das perturbações do abastecimento proveniente do Médio Oriente, mas ambas esperam vê-los subir mais durante o ano, mantendo-se o preço do petróleo significativamente acima de quando a guerra começou.
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E há os bancos. Mercados voláteis com preços a subir e descer a pique potenciam os volumes negociados, produzindo lucrativas comissões para os grandes bancos de investimento e corretoras. Alguns dos maiores bancos norte-americanos viram os seus lucros acelerar durante a guerra no Irão. A divisão comercial do JP Morgan registou receitas recorde de 11 600 milhões de dólares nos primeiros três meses de 2026, contribuindo para que o banco, no seu todo, conseguisse o seu segundo maior lucro trimestral de sempre. Entre os restantes bancos do grupo dos “Seis Grandes” dos EUA — que incluem o Bank of America, o Morgan Stanley, o Citigroup, o Goldman Sachs e o Wells Fargo, além do JP Morgan — os lucros de todos eles aumentaram substancialmente no primeiro trimestre do ano. No total, os bancos registaram 47 700 milhões de dólares de lucros nos primeiros três meses de 2026.
Com o estreito de Ormuz, no Golfo, ainda bloqueado, não foram só o petróleo e o gás a registar aumentos acentuados de preços e escassez crescente; caiu também o abastecimento de produtos alimentares e agrícolas críticos, disparando os preços. O punhado de mega-empresas que controlam a grande maioria do nosso abastecimento alimentar global tem feito lucros à grande. Das sementes deitadas ao solo aos produtos postos nas prateleiras dos supermercados, estas empresas ditam preços, limitam as escolhas dos consumidores e espremem os agricultores e trabalhadores independentes.
Os preços dos fertilizantes à base de azoto, que já estavam elevados antes do início da guerra devido ao congestionamento da oferta, registaram agora aumentos espectaculares. Os preços da ureia subiram cerca de 36% nos EUA e 70% no Egipto, país de pobreza extrema. Os preços dos alimentos e dos fertilizantes disparam, para proveito destes grandes conglomerados agrícolas. A CF Industries Holdings Inc. e a Nutrien Ltd. registaram, ambas, aumentos de quase 20% nas vendas no último trimestre, beneficiando dos preços mais elevados dos fertilizantes nitrogenados, aplicados nos campos de milho e soja para sustentar a produtividade das safras. “O conflito com o Irão representa o terceiro grande choque sofrido pela oferta e procura no mercado global do azoto nos últimos seis anos, pondo a nu a fragilidade da cadeia global do abastecimento de azoto”, referiu Chris Bohn, o director executivo da CF Industries. “Num ambiente de perturbações geopolíticas frequentes, vemos o muito que valem a verdadeira estabilidade da nossa rede, que é difícil de replicar, e os nossos activos de superior qualidade” (por outras palavras, lucros enormes).
Marx disse uma vez que a história da humanidade é a história da luta de classes. É, também, uma história de guerras sem fim. O capitalismo moderno do século XX foi o mais sanguinário da história. Tem-se estimado em 187 milhões o número total de mortes causadas pelas suas guerras ou com elas conotadas, o equivalente a mais de 10% da população mundial em 1913. O século XXI tem dado continuidade a este pesadelo, mundo fora. Guerras intermináveis causam a morte e a destruição de milhões de pessoas, mas também lucros intermináveis para o complexo militar-industrial de conglomerados gigantes e seus proprietários super-ricos.
Tradução de Adriano Zilhão.
Michael Roberts
Economista