Os números confessam: somos mais – e mais pobres
O INE anunciou que a população portuguesa, calculada com base em dados administrativos, é afinal de 11,4 milhões de pessoas, e não 10,6 milhões, como até agora se presumia, com base na extrapolação do último censo. Também o PIB per capita português, em paridade dos poderes de compra, é de 77% da média da UE, em vez do número até agora oficial de 82%. Ou seja, somos mais – e mais pobres.
Que significa este “erro de cálculo”? Por exemplo, isto. O valor do rendimento nacional total, do PIB, etc., é conhecido. O valor do PIB por habitante é o valor do PIB dividido pela população. Usa-se para comparar o progresso do nível de vida, para comparar com outros países, para aferir o progresso económico ao longo do tempo.
Eis um exemplo concreto do que significam estes novos números: desde a união monetária, no início do século, tem-se dito que o PIB tem progredido, embora modestamente (em termos reais, por habitante, ou seja, corrigido da inflação). O valor dado pelas estatísticas oficiais para 2025 era de 28 390€ (Pordata), “o 18.º no ranking da UE”. Ora, se a população é de 11,4 milhões em vez de 10,6, o valor do PIB por habitante baixa mecanicamente de 28 390 para 26 400€.
No ano 2000, o PIB per capita era de 12 480€ da altura, que equivalem a 21 mil euros de hoje (corrigidos da inflação pelo simulador da Pordata).
Segue-se que o crescimento real do PIB por habitante desde a união monetária em Portugal foi, em média, de 0,9% por ano! Usando séries longas do Banco de Portugal e do INE, verifica-se que este é, de longe, o mais baixo crescimento médio de qualquer quarto de século da história de Portugal desde o ano 1900! Mesmo com o bastante forte crescimento ocorrido desde 2021, alimentado a turismo e especulação imobiliária.
Ao que parece, as artes mágicas da estatística vão fazer aumentar também o valor total do PIB, uma vez enfiados no algoritmo os novos números da população. O nosso repentino “empobrecimento estatístico” não vai ser tão grande como parece, dizem.
Nesta magia encerra-se, na verdade, algo de que pouco se fala: que todos estes “grandes valores” são muito baseados em estimativas. O INE acrescenta valores para a actividade económica “individual” não mercantil (sim, é um contra-senso), refazem-se estimativas da economia informal (aquela de que, por definição, nada se sabe realmente) e por aí fora.
A ironia: até as conclusões que derivariam destas hipoteticamente consoladoras correcções dão que pensar. Se o PIB, afinal, era maior do que se dizia, então a dívida pública e o défice público, cujos valores são bem conhecidos, eram afinal, em percentagem do PIB, menores do que se dizia… já sem falar de que a famosa regra dos 3% como limite do pecado (segundo o inefável Dijsselbloem das meninas e do vinho verde) foi tirada da cartola por Mitterrand numa noite de nevoeiro de negociações com o Banco Central Alemão. Sem nenhuma base real. Para fazer a união monetária.
Em contrapartida, há números concretos a que os trabalhadores em Portugal devem prestar muita atenção — porque são números reais:
- o salário mínimo é de 920€ brutos (líquido: cerca de 820€);
- o salário médio é de 1300€ brutos (à volta de 1.000€ líquidos);
- metade dos trabalhadores declarados em Portugal ganha menos de 980€ brutos (ou 860€ líquidos);
- metade dos pensionistas por velhice recebe um valor que ronda os 462€ mensais; a pensão média é de 645€ (Expresso, Dezembro de 2025)
- a renda de casa típica em Lisboa para um T2 é de 1.500€; no Porto, 1.400€ (liquidíssimos…); à compra, o preço médio é de meio milhão de euros, o que dá uma prestação da hipoteca a 30 anos que não anda longe de 2.000€/mês;
- o horário de trabalho é, teoricamente, de 8 horas; que podem ser em horários “normais”, mas também podem ser por turnos, ou nocturnos, com suplementos mínimos;
- o tempo de transporte total para e do trabalho é facilmente de 2 ou 3 horas por dia nas grandes cidades;
- o número de trabalhadores com mais de um emprego declarado atingiu, segundo o JN, um máximo de 267 mil em 2025;
- o tempo médio de espera para uma consulta “normal” de cardiologia em Lisboa/Vale do Tejo é actualmente de 223 dias (7 meses e meio; consultado no portal do SNS).
Estes números não dependem de “estimativas”. E, como acontece com muitas médias e medianas, os números reais, para muitos trabalhadores, ainda são muito piores do que estes.
É em alterar drástica e radicalmente estes números que devemos concentrar as nossas lutas.