| |

Mas as crianças, senhores
categoria-opinião Neoliberalismo Esquerda Escola Crianças Creche edicao-2026-05-28 (29)

Mas as crianças, senhores

A baronesa Margaret Thatcher, que, segundo a sua biografia autorizada, “não sabia brincar com os filhos”, mas foi mãe do neoliberalismo, disse um dia: “A sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias.”

Raquel Varela
O Riso Precisa de Dentes
categoria-um poema edicao-2026-05-28 (29)

O Riso Precisa de Dentes

Boa noite. Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia, superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física. A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos.  Fontes hospitalares

Jornal Maio
#53 “Jamais daria Ritalina a uma criança ou jovem”
categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-05-28 (29)

#53 “Jamais daria Ritalina a uma criança ou jovem”

A pediatra e professora universitária Maria Aparecida Moysés afirma categoricamente: “Jamais daria Ritalina a uma criança.” A possibilidade de morte súbita não explicada em jovens que tomam Ritalina, Concerta ou outra droga dessas, que a médica e investigadora não reconhece como medicação, é 14 vezes maior. As crianças ficam obedientes,

Jornal Maio
O desafio do pacote laboral
categoria-editorial edicao-2026-05-28 (29)

O desafio do pacote laboral

O pacote laboral não nasceu das cabeças iluminadas de Montenegro e da ministra Palma Ramalho. Eles juntam-se ao coro global do patronato e ao “assalto concertado e sustentado das autoridades estatais e dos destruidores patronais da democracia aos direitos e condições de vida dos trabalhadores” de que fala o

Jornal Maio
Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos
Agricultura Colonos Israel Palestina Qassam Maadi categoria-internacional edicao-2026-05-28 (29)

Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos

Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam de terra

Qassam Maadi
Desafio(s)
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-05-28 (29)

Desafio(s)

Segundo o dicionário da Porto Editora, nome masculino que designa: 1) ato ou efeito de desafiar ou chamar alguém para combate; provocação; 2) incitação; estímulo; 3) despique entre dois cantadores; 4) duelo; luta; 5) (desporto) competição desportiva; jogo; 6) situação em que os cantadores respondem um ao outro, improvisando. EM

Jornal Maio
Os velhos
Futuro Passado Velhice categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

Os velhos

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta.

António Galopim de Carvalho
As redes da censura
Entretenimento Informação Redes Rui Pereira Televisão categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

As redes da censura

A vontade de censurar o digital deve-se não às falsidades que propaga, mas às verdades que só nele se revelam.

Rui Pereira
Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha
Chá Pobreza Vinho categoria-o cozinheiro vermelho edicao-2026-05-28 (29)

Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha

A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibili

Sofia Garrido
A bola e o tricô - 2ª parte
categoria-crónica Futebol Liceu edicao-2026-05-28 (29)

A bola e o tricô - 2ª parte

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-r

Rui Viana Pereira
Afinal, o que representou o golpe de 28 de maio de 1926?
Burguesia Ditadura militar Estado Novo Operariado categoria-história edicao-2026-05-28 (29)

Afinal, o que representou o golpe de 28 de maio de 1926?

A 28 de Maio de 1926 a burguesia portuguesa, a maioria dela republicana (só uma pequena parte resistiu) opta pela ditadura para se afirmar como Estado-nação moderno (dos mais tardios de toda a Europa, na nossa análise) e controlar as greves e lutas do movimento dos trabalhadores, anarquista e comuni

Raquel Varela, Roberto della Santa
Porque recusámos a guerra colonial - 1ª. parte
Deserção Guerra Liberdade categoria-história edicao-2026-05-28 (29)

Porque recusámos a guerra colonial - 1ª. parte

O conhecimento do que se estava a passar em Angola rapidamente me levou a pôr em causa não apenas a guerra, mas também o meu papel como elemento que havia aderido às forças armadas. Ao fim de algum tempo passei a sentir-me deslocado no seio deste Exército...

Fernando Cardeira
Bulgária: medo do euro dá a vitória a Radev
Bulgária Emigração Euro Pobreza categoria-internacional edicao-2026-05-28 (29)

Bulgária: medo do euro dá a vitória a Radev

Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma

Adriano Zilhão
Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas
categoria-ciência Inteligência Artificial Luditas Tecnofobia Tecnoterrorismo edicao-2026-05-28 (29)

Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas

De uma penada, aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado, rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando são rotulados de tecnofóbicos e olhados com sobranceira repugnância.

André Carmo
As trapalhadas dos políticos e as PPP
Braga PPP SNS ULS categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-05-28 (29)

As trapalhadas dos políticos e as PPP

A ULS Braga enfrenta problemas internos, instabilidade organizacional e uma pressão crescente para regresso a um modelo contestado pelos profissionais. Ora os dados científicos internacionais demonstram que os processos de privatização no setor da saúde raramente surgem em sistemas estáveis

Gorete Pimentel
O que querem os professores
Professores categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-05-28 (29)

O que querem os professores

Na tarde de 16 de maio, milhares de professores desfilaram entre o Cais do Sodré e os Restauradores, em Lisboa, para defenderem a sua profissão. O Maio esteve lá e ouviu sindicalistas, da FENPROF e do STOP, e professores que tinham uma palavra a dizer

Jornal Maio
Hino do 1º de Maio A luta, a greve e a ação cultural
Cultura Canto Operários categoria-cultura edicao-2026-05-28 (29)

Hino do 1º de Maio A luta, a greve e a ação cultural

A partir de 1890, o 1º de Maio passa a ser um dia de greves no mundo inteiro em defesa da redução da jornada de trabalho. Em Itália, o advogado anarquista Pietro Gori, preocupado com desenvolver alguma tática para convencer as famílias trabalhadoras a aderirem à greve, resolve escrever uma peça de t

Rafael Rosa Hagemeyer
O grande negócio do petróleo e da guerra
categoria-política Guerra Irão Petróleo Trump Economia edicao-2026-05-28 (29)

O grande negócio do petróleo e da guerra

No dia 23 de Março, 15 minutos antes de Trump anunciar que adiava os ataques à rede eléctrica iraniana, houve apostas de quase 600 milhões de dólares na queda dos preços do petróleo. No dia 17 de Abril, 20 minutos antes de o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, anunciar nas re

Adriano Zilhão
Mas as crianças, senhores
categoria-opinião Neoliberalismo Esquerda Escola Crianças Creche edicao-2026-05-28 (29)

Mas as crianças, senhores

A baronesa Margaret Thatcher, que, segundo a sua biografia autorizada, “não sabia brincar com os filhos”, mas foi mãe do neoliberalismo, disse um dia: “A sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias.”

Raquel Varela
O Riso Precisa de Dentes
categoria-um poema edicao-2026-05-28 (29)

O Riso Precisa de Dentes

Boa noite. Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia, superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física. A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos.  Fontes hospitalares

Jornal Maio
#53 “Jamais daria Ritalina a uma criança ou jovem”
categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-05-28 (29)

#53 “Jamais daria Ritalina a uma criança ou jovem”

A pediatra e professora universitária Maria Aparecida Moysés afirma categoricamente: “Jamais daria Ritalina a uma criança.” A possibilidade de morte súbita não explicada em jovens que tomam Ritalina, Concerta ou outra droga dessas, que a médica e investigadora não reconhece como medicação, é 14 vezes maior. As crianças ficam obedientes,

Jornal Maio
Desafio(s)
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-05-28 (29)

Desafio(s)

Segundo o dicionário da Porto Editora, nome masculino que designa: 1) ato ou efeito de desafiar ou chamar alguém para combate; provocação; 2) incitação; estímulo; 3) despique entre dois cantadores; 4) duelo; luta; 5) (desporto) competição desportiva; jogo; 6) situação em que os cantadores respondem um ao outro, improvisando. EM

Jornal Maio
O desafio do pacote laboral
categoria-editorial edicao-2026-05-28 (29)

O desafio do pacote laboral

O pacote laboral não nasceu das cabeças iluminadas de Montenegro e da ministra Palma Ramalho. Eles juntam-se ao coro global do patronato e ao “assalto concertado e sustentado das autoridades estatais e dos destruidores patronais da democracia aos direitos e condições de vida dos trabalhadores” de que fala o

Jornal Maio
Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos
Agricultura Colonos Israel Palestina Qassam Maadi categoria-internacional edicao-2026-05-28 (29)

Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos

Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam de terra

Qassam Maadi
O ataque global aos direitos laborais
Contrato coletivo Greve Sindicatos categoria-trabalho edicao-2026-05-28 (29)

O ataque global aos direitos laborais

Pacotes laborais, com este ou outro nome, não são um exclusivo do Governo Montenegro. Por todo o mundo, da Argentina a Portugal, dos Estados Unidos à Bielorrússia, os direitos civis, à liberdade de expressão e de reunião, à greve, ao registo legal dos sindicatos, à contratação coletiva e outros têm

António Simões do Paço
Os velhos
Futuro Passado Velhice categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

Os velhos

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta.

António Galopim de Carvalho
As redes da censura
Entretenimento Informação Redes Rui Pereira Televisão categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

As redes da censura

A vontade de censurar o digital deve-se não às falsidades que propaga, mas às verdades que só nele se revelam.

Rui Pereira
Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha
Chá Pobreza Vinho categoria-o cozinheiro vermelho edicao-2026-05-28 (29)

Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha

A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibili

Sofia Garrido
A bola e o tricô - 2ª parte
categoria-crónica Futebol Liceu edicao-2026-05-28 (29)

A bola e o tricô - 2ª parte

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-r

Rui Viana Pereira
categoria-opinião Neoliberalismo Esquerda Escola Crianças Creche edicao-2026-05-28 (29)

Mas as crianças, senhores

A baronesa Margaret Thatcher, que, segundo a sua biografia autorizada, “não sabia brincar com os filhos”, mas foi mãe do neoliberalismo, disse um dia: “A sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias.” Esta ideia reacionária fez escola, e diz que as crianças têm de estar mais tempo com os pais. A ideia socialista que defendo diz outra coisa: que para além da família há comunidade, tem de haver comunidade.

Como sabem, na guerra e na luta de classes, somos avisados de que os nossos inimigos nunca nos dão facadas, porque não se conseguem aproximar tão perto. É dos nossos amigos que chega o ataque pelas costas, daqueles de que não nos apercebemos que nos vão atacar.

Calma, é apenas uma metáfora, tenho grandes amigos, com quem já comi um quilo de sal – o tempo necessário para provarmos a confiança mútua. Dos meus amigos só recebo verdade e abraços. Mas na política, olhem as costas. Dizem que Churchill, um dos facínoras do império inglês, elevado a homem decente pelo papel que teve a tentar salvar a burguesia inglesa de si própria na II Guerra Mundial, mas grande escritor e com um extraordinário sentido de humor, respondeu um dia que os inimigos dele estavam no seu partido. Os adversários estavam na oposição.

Este mês, três exemplos. A esquerda “progressista” indignou-se com o tempo que as crianças passam na creche em Portugal, num agenda setting (como os media ditam o que pensamos) da Fundação Francisco Manuel dos Santos, do grupo Pingo Doce. Logo a seguir temos o Público, do grupo Sonae, que dá destaque à alegada professora racista da escola da Parede. No Maio, entrevistei uma pediatra, com um longo historial de resistência de esquerda, catedrática de uma das melhores universidades do mundo, que fundou no Brasil um movimento contra a medicalização das crianças com Ritalina e afins. A resposta de alguma dessa esquerda “progressista” foi que a cientista estava a espalhar “desinformação”.
Os três exemplos merecem-me uma reflexão, chegam pelas costas, com a voz mansa do progresso.

Primeiro. As crianças não passam muito tempo na escola. Passam muito tempo num armazém que ficou com o nome de “escola”. E muito pouco tempo a brincar entre elas. Estão demasiado tempo com os pais. E isso faz mal: aos pais, às crianças e aos jovens.

Há uns anos fui convidada a ir a Coimbra a uma sessão com psiquiatras falar sobre as crianças e o tempo de trabalho dos pais nas nossas sociedades, um fórum que incluía Coimbra de Matos, de quem fiquei amiga para sempre desde esse dia, e Carlos Amaral Dias. Quando expus as minhas ideias, sobre as quais tenho alguns anos de estudo, pensei que ia ouvir os vulgares contra-argumentos: “a professora é historiadora, não é médica.” Pelo contrário, descobri ali um grupo de psis que lutavam por mudar a sociedade, em vez de medicar pessoas. A minha palestra foi sobre isto: Gramsci dizia que no capitalismo há o governo dos “especialistas”. Ora, as doenças e os comportamentos das crianças e jovens não são uma questão sobretudo para médicos e medicamentos, são um assunto social.

Expliquei que as crianças que estão fechadas 8 a 10 horas em escolas, com intervalos de 5 minutos, sem espaços verdes amplos (porque a especulação imobiliária fez que os espaços de creche encolhessem, e as creches descobriram subitamente uma paixão por “desenvolver a motricidade fina” – a desculpa para estarem sentados a cortar papel e desenhar), ficam insuportáveis. E se a isto juntarmos horas de televisão e telemóvel, dormir mal e comer mal, podem tornar-se um inferno.
Há 30 anos o corpo era das crianças e dos jovens – dançar, correr, brincar – e isso ocupava oito ou mais horas da vida diária de uma criança. Hoje estão reduzidos a 3 horas semanais de “educação física”. Não dançam, não passeiam nem brincam o suficiente. Já há creches com televisões, para poupar nos salários. Creches e escolas são lugares onde se despejam crianças e jovens.

A baronesa Margaret Thatcher, que, segundo a sua biografia autorizada, “não sabia brincar com os filhos”, mas foi mãe do neoliberalismo, disse um dia: “A sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias.” Esta ideia reacionária fez escola, e diz que as crianças têm de estar mais tempo com os pais. A ideia socialista que defendo diz outra coisa: que para além da família há comunidade, tem de haver comunidade.

Se a creche for um local maravilhoso, se tiver professores de teatro e jogos de madeira, árvores para subir, se em cada bairro houver um centro comunitário para jovens, os pais podem sair às quatro da tarde do trabalho para ir namorar, não para cuidar dos filhos. A ideia de que só os pais tomam conta das crianças é o bolor neoliberal e fascista, a família nuclear como centro da reprodução –

muitas vezes também envergando vestes “progressistas” e “de esquerda”.

Nunca até hoje na história tivemos uma sociedade onde quem cuida de crianças são tão poucos: pai, mãe e – apenas nas horas de trabalho destes – a creche, a escola. 

Nunca até hoje na história tivemos uma sociedade onde quem cuida de crianças são tão poucos: pai, mãe e – apenas nas horas de trabalho destes – a creche, a escola. No Pingo Doce, às 8 da noite e ao fim de semana há mães, pais e avós a repor Sonasol nas prateleiras, em vez de terem saído do trabalho às 4 da tarde. A ideia de que as crianças ora estão na escola ora estão com os pais é reacionária, mas foi acarinhada pela esquerda e deu crianças com francos problemas relacionais, adoecidas, e pais chatos, que passam o tempo a falar dos filhos ansiosos.

De facto, os pais estão exaustos com horários de trabalho que os fazem adoecer, e os bebés vão para as creches muito cedo, cedo demais porque um bebé precisa de litros de abraços por dia para criar vínculos.
Mas a ideia de haver um cuidado comunitário das crianças – conquista do 25 de Abril – é fantástica.

Na Holanda, as minhas colegas saíam do trabalho às 2 da tarde para ir cuidar dos filhos e olhavam para mim de lado quando dizia que os meus estava até às 7 da tarde numa creche cheia de árvores, onde – junto com os pais – demos e ganhámos uma batalha para a televisão ser proibida. Uma educadora tentou convencer alguns pais, à minha frente, a dar Ritalina às crianças e entregava as avaliações dos comportamentos das crianças com 5 anos (pura bruxaria métrica!), numa pasta plástica da Novartis… Um dia perdi a paciência, devolvi a pasta e disse-lhe que ela ou lutava por horários de trabalho decentes, ou tomava Xanax, em vez querer dá-lo às crianças. Nunca nos amámos, foi um alívio para ambas a despedida, até sempre sua bruxa, pensei. Era tão incompetente que um dia vi um puto bater noutro, sem que o segundo nada tivesse feito, e ela pôs os dois de castigo. Terá sido dela a ideia de que comunismo e nazismo são o mesmo?

Recentemente partilhei a entrevista que fiz a uma das mais destacadas pediatras e professora (catedrática) do Brasil, Dra. Maria Aparecida Moysés, com uma longa tradição de militância de esquerda, desde a ditadura militar, e que é contra a medicação de crianças. Tanto que criou um movimento contra a patologização.

Não falou de autismo ou doenças graves – como alguns quiserem comentar, sem a ouvir –, mas falou de como é fácil hoje dizer que as crianças têm doenças do “espectro” disto, “transtorno” daquilo, para facilitar as notas e as avaliações, e que são os professores e os pais a pedir esses “diagnósticos”. No Brasil há um fórum da sociedade civil que questiona também a medicalização da sociedade. A investigadora cita um estudo de uma universidade canadiana de medicina baseada em provas, que afirma que a maioria dos papers que sustentam os benefícios desse tipo de substâncias, como a Ritalina, não têm revisão científica. O que responderam algumas pessoas “de esquerda”: vamos ouvir contra-argumentos, debater, ler, conhecer, ouvir outras opiniões? Não, responderam que era “desinformação”. Ou seja, pediram a censura da médica. Foi um cala-te. Cancela-se. Rui Pereira, professor de jornalismo, recordou num artigo no Maio como a acusação de “desinformação” está a ser usada pelas empresas e o Estado para introduzirem a censura nas redes sociais.

*/Banner Maio*/

Durante o Covid, esta “esquerda progressista” não teve um comportamento muito distinto: face a médicos de saúde pública e sociólogos, muitos de esquerda, que questionaram o confinamento e muitas outras medidas, responderam: “São negacionistas.” O que abriu um espaço enorme à extrema-direita irracionalista. Se tivermos uma esquerda obscurantista e censória, que impede o debate e o conhecimento, por que não apoiar um bando de malucos de extrema-direita?

O tom dos comentários da “professora racista” no Público já nos diz ao que vem esta “esquerda progressista”. Há que despedir a professora racista, foram feitas denúncias (na caixa de denúncias a que a União Europeia obriga!).

Qual a gravidade disto?
Primeiro, ser racista não é crime, crime é cometer atos racistas ou incentivá-los. Ser estúpido não é crime. Nenhum discurso pode ou deve ser censurado porque é um discurso. Aliás, o “discurso de ódio”, crime que o neoliberalismo e a UE instituíram, ao lado de frases de um rigor delirante como “comunismo é igual a fascismo”, é contra a Constituição. A Constituição tem uma herança iluminista, não há “discurso de ódio”. Nenhum discurso é crime, crime é organização em torno desse discurso. Veja-se que os bots do Chega nas redes dizem-se vítimas de discurso de ódio, e a palavra de que Israel mais gosta é “negacionista”. O que tem levado militantes pela Palestina nos EUA, no Reino Unido e na Alemanha a serem perseguidos e presos, porque negam o Estado de Israel, ou seja, lutam contra o genocídio dos Palestinianos.

Ser fascista não é crime em Portugal. As pessoas podem ser e pensar as maiores barbaridades, chama-se liberdade. O que não podem é organizar-se como fascistas ou como racistas, por isso o Chega deve ser ilegal. Um ser humano dizer imbecilidades racistas, mesmo na rua em voz alta, não é crime. Colar cartazes e dar entrevistas racistas estando organizado ou sendo líder de um partido racista, isso, sim, é crime.

Se a professora ofende algum aluno há uma moldura penal, sempre houve, para isso. Se acha que o colonialismo português foi bom, como tantos professores acham, eu, como professora, discordo dela, mas ela tem direito a pensar assim e isso necessariamente é uma marca das suas aulas, como seria se fosse neoliberal, ou marxista. Não há professores neutros.
Não posso permitir que seja cientificamente errada, mas isso é passível de avaliação científica feita entre pares (não é um julgamento feito por um jornal). E acho ótimo que o ensino público tenha professores de todas as cores e credos.

Elon Musk não acha – anunciou um modelo de linguagem massivo (IA, como é charmosamente chamado) de “ensino digital objetivo contra o woke”. Não há marxistas, nem defensores dos homossexuais ou contra a violência sobre as mulheres, nem história dos genocídios. É um modelo de ensino “objetivo”. Estão a ver onde vamos parar com esta “esquerda progressista”? Musk promete, com as suas plataformas digitais: não haverá professores racistas, nem marxistas… Em rigor, não haverá professores. E com as suas subjetividades e falhas também. Há apenas as ideias de Musk numa plataforma digital. Os alunos e pais não se confrontarão mais com nenhuma ideia de que discordem, só com algoritmos imparciais.

Desinformação, discurso de ódio, canal de denúncias, objetividade, o Estado e Elon Musk tratam de nós, tudo para o nosso bem. É o progresso que a “esquerda progressista” sempre adorou.

Ainda bem que sou uma marxista clássica, até diria mesmo, um pouco conservadora. Não sei se daqui a uns tempos não há uma queixa dos pais (pais queixinhas é outra herança da Thatcher) contra os professores “marxistas clássicos conservadores”, acusados de “desinformação”, “discurso de ódio” e “negacionismo”. Tudo pelo Progresso, nada contra a Nação.

categoria-um poema edicao-2026-05-28 (29)

O Riso Precisa de Dentes

Boa noite.

Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia,
superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física.
A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo
a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos. 

Fontes hospitalares confirmam que alguns clínicos já aprenderam a operar enquanto sonham,
a consultar pacientes em simultâneo através de doze dimensões,
e a prescrever ansiolíticos a si próprios por telepatia. 

Em Coimbra, um cardiologista foi avistado a ressuscitar o seu próprio relógio de pulso.
Em Lisboa, uma cirurgiã realizou um transplante de consciência para poder descansar sem interromper a cirurgia. 

O Governo garante que o novo Plano de Saúde Interplanetário
vai incluir camas com gravidade variável,
salas de espera com loops temporais,
e um subsídio de café directamente injetado na veia jugular. 

Entretanto, os médicos que continuam a trabalhar cinquenta horas por dia,
dormem três minutos por século,
e diagnosticam a realidade como estando em estado terminal.

Fátima Vale
(Oshakati, Namíbia, 1975)
“O RISO PRECISA DE DENTES” integra P.E.L.E.
— Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026).

categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-05-28 (29)

#53 “Jamais daria Ritalina a uma criança ou jovem”

A pediatra e professora universitária Maria Aparecida Moysés afirma categoricamente: “Jamais daria Ritalina a uma criança.” A possibilidade de morte súbita não explicada em jovens que tomam Ritalina, Concerta ou outra droga dessas, que a médica e investigadora não reconhece como medicação, é 14 vezes maior. As crianças ficam obedientes, mas não aprendem mais. Não é medicamento, são substâncias psicoativas, usadas para drogar crianças. Quem toma estas drogas perde a capacidade de resistir, mas não de sentir, recorda a médica: “muitos jovens fingem tomar porque se sentem muito mal.” A conversa entre Raquel Varela e Maria Aparecida prolongou-se para o tema do sobrediagnóstico de doenças ditas mentais – para a médica há muitos jovens doentes sem apoio, porque os apoios se dividem por uma quantidade enorme de aumento de diagnósticos, como o do “espectro” do autismo; sobre a pressão da indústria farmacêutica, e sobre a falta de rigor de muitos estudos científicos. Uma conversa sobre o mundo de hoje e o papel da escola, professores, médicos e pais.

categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-05-28 (29)

Desafio(s)

Segundo o dicionário da Porto Editora, nome masculino que designa: 1) ato ou efeito de desafiar ou chamar alguém para combate; provocação; 2) incitação; estímulo; 3) despique entre dois cantadores; 4) duelo; luta; 5) (desporto) competição desportiva; jogo; 6) situação em que os cantadores respondem um ao outro, improvisando.

EM NOVILÍNGUA:

Desafio começou a ser a tradução da palavra inglesa challenge (“algo que exige grande esforço mental ou físico para ser realizado com sucesso e, por isso, testa a capacidade de uma pessoa”, segundo o Dicionário Cambridge.  Palavras como “dificuldade” ou “adversidade” foram substituídas por termos mais suaves e motivacionais (por exemplo, desafio, oportunidade). Há uma pressão social para manter uma imagem de sucesso constante. Falar abertamente sobre dificuldades é muitas vezes evitado ou rotulado como “vitimização” ou “energia negativa”. Isto acontece tanto no trabalho, nas empresas, como no linguajar de políticos e economistas e, talvez o pior de tudo, na educação. Aprender exige esforço e enfrentar dificuldades. Negar isso e criar uma narrativa de resiliência e superação perpétua só pode dar mau resultado. ASP

categoria-editorial edicao-2026-05-28 (29)

O desafio do pacote laboral

O pacote laboral não nasceu das cabeças iluminadas de Montenegro e da ministra Palma Ramalho. Eles juntam-se ao coro global do patronato e ao “assalto concertado e sustentado das autoridades estatais e dos destruidores patronais da democracia aos direitos e condições de vida dos trabalhadores” de que fala o Índice Global dos Direitos da Confederação Sindical Internacional que analisamos no artigo de capa desta edição. A resistência dos trabalhadores também se quer concertada, sustentada – e unida.

A capa deste número do Maio destaca o “Índice Global de Direitos” publicado pela Confederação Sindical Internacional (CSI), que estuda e regista anualmente as violações dos direitos e liberdades dos trabalhadores em todo o mundo.

Para o ano de 2025, o Índice nota “uma flagrante crise global” e “em agravamento”, para os “trabalhadores e sindicatos”. Na Europa e Américas, verifica-se o pior registo de sempre. “Escalada rápida de violações de direitos fundamentais, incluindo o de acesso à justiça, da liberdade de expressão e associação e do direito à negociação coletiva.” Níveis recorde de “violações do direito à greve e à sindicalização”. O Índice conclui estarmos perante um “golpe contra a democracia: um assalto concertado e sustentado das autoridades estatais e dos destruidores patronais da democracia aos direitos e condições de vida dos trabalhadores.”

Nota a familiaridade? É porque ela existe. A informação do Índice ajuda-nos a enquadrar as razões e as raízes do pacote laboral Montenegro-Ramalho-Ventura.

A ministra reivindica a legitimidade do pacote, vem-lhe, diz, da maioria de dois terços no Parlamento: PSD, Chega, IL (portanto, como quem não quer a coisa, afinal, “o não é sim”).

A ministra não reivindica, contudo, a legitimidade da campanha eleitoral desses partidos pelas medidas constantes do pacote — porque eles não a fizeram. Também não reivindica a legitimidade dos 40% do eleitorado(1) que votaram nos três partidos somados. Nem reivindica a legitimidade das sondagens recentes, que dão mais de 70% da população a rejeitar o pacote.

A legitimidade real da ministra e do seu chefe vem-lhes de se saberem amparados pelos patrões e pela UE, que orquestra pacotes destes por toda a Europa. Vem-lhes do “assalto concertado e sustentado das autoridades estatais e dos destruidores patronais da democracia aos direitos e condições de vida dos trabalhadores” de que fala o Índice da CSI. O pacote laboral faz parte desse “golpe contra a democracia”.

O golpe e o assalto não são moda nova. Nenhum direito, liberdade ou garantia que os trabalhadores ainda têm, o direito ao voto, o direito de reunião, o direito de associação, nenhum foi dádiva do Estado ou da burguesia, nem sequer de quando esta, no passado, fez as suas revoluções contra o antigo regime, apoiada pelo povo.

Todos e cada um foram conquistados pelos trabalhadores organizados, que por eles lutaram e derramaram sangue.

Em Portugal, o direito de reunião foi conquistado, particularmente, pelos trabalhadores arsenalistas massacrados no Rossio na revolução de 1836/38 (ver história no Maio). O direito de associação sindical, no final do século XIX, saiu de lutas operárias e das revoluções de 1868/73 na Península Ibérica, quando, em França, corria a Comuna de Paris.

Depois da primeira greve da história do país, em 1849, contra o trabalho noturno, a greve foi proibida e posta sob a alçada do código penal em 1852.

Mesmo a República, mesmo os governos provisórios pós-1974 restringiram o direito de greve e permitiram o lockout patronal.

O livre direito à greve foi ganho pelos trabalhadores, na luta, violando a lei existente.

Que o pacote laboral queira voltar a proibir, para todos os efeitos práticos, a greve e impedir a actividade sindical, a par de explorar sem limites imigrantes “ilegalizados” e ameaçados de prisão em campos, não é mais do que a forma actual da velha luta de classes da burguesia contra os trabalhadores. O desafio é o de sempre: quanto mais meios de luta por melhores salários e condições tirar aos trabalhadores, mais pode subir a parte dos lucros.

Democracia, quando tudo lhes corre bem; ditadura, sempre que for preciso: eis o princípio de governo da burguesia — use ou não o epíteto “liberal”.

A única linguagem que, no ponto em que estamos, Montenegros, Ramalhos, Ventura e Cia ilimitada perceberão é a da greve geral unida dos trabalhadores, na sequência da poderosa jornada de 11 de dezembro de 2025.

É, por isso, de mau agouro a divisão: quer no ter a CGTP convocado o 3 de Junho unilateralmente, quer no ter a UGT recusado aderir, uma vez a greve convocada.

Ninguém duvide: a greve geral na unidade de todas as organizações de trabalhadores pela e até à retirada do pacote fá-lo-á cair.

É necessário que todos os responsáveis assumam as suas responsabilidades. É o mínimo que a classe trabalhadora tem o direito de lhes exigir.

Nota
(1) 62% dos votantes em território nacional.

Agricultura Colonos Israel Palestina Qassam Maadi categoria-internacional edicao-2026-05-28 (29)

Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos

Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam1 de terra custa hoje cerca de 100 shekels, quanto irá custar um bidão de azeite? Quem o comprará?”, exclama.

ilustração: Mantraste

Eyad Yousef é um agricultor palestiniano da aldeia de Taybeh, a leste de Ramallah. Também é mecânico de automóveis e pai de três filhos. Todos os anos, na Primavera, com os irmãos, planta ervilhas, lentilhas, pepinos, cebolas e outras culturas sazonais. Mas este ano é diferente.

Eyad já não trabalha a sua própria terra, inacessível devido à ameaça dos colonos israelitas, que patrulham constantemente a planície a leste da aldeia. Já nenhum proprietário de terras em Taybeh consegue aceder à sua propriedade.

“Este ano arrendei a terra de outra pessoa, mas não é que seja um contrato escrito, é só um acordo verbal”, explica Eyad. “Se, a qualquer momento, o proprietário decidir vender a terra, perco o que investi.”

Apesar disso, Eyad continua com a sua lavoura sazonal. “É o meu oxigénio.”

Desde Outubro de 2023, aumentaram exponencialmente, em número como em violência, os ataques de grupos de colonos israelitas a agricultores palestinianos na Cisjordânia.

Para muitos agricultores, é um duríssimo golpe à sua subsistência e modo de vida. Mas o impacto não se limita aos agricultores; está-se a desfigurar e dizimar parte substancial da economia palestiniana e um pilar das famílias rurais. Numa época em que os pogroms dos colonos nos campos aterrorizam os palestinianos, os agricultores têm estado na linha da frente da violência crescente.

Segundo o Centro de Informação Palestiniano, grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. O Gabinete de Coordenação Humanitária das Nações Unidas (OCHA) indica que, só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia. Mesmo quem não foi directamente afectado sente o efeito cumulativo da ofensiva, que se reflecte directamente no aumento dos preços dos produtos agrícolas.

Grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. Só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia.

Nem sempre foi assim. Os agricultores constituíam outrora a espinha dorsal da economia palestiniana. Sociedade historicamente agrária, a Palestina foi descrita, em 1887, pelo viajante britânico Lawrence Oliphant como “um lago verde de trigo ondulante”. Hoje a maior parte do trigo usado para fazer o pão consumido pelos palestinianos é importado. Uma transformação que é fruto de um historial de cada vez maiores pressões exercidas pelo colonialismo israelita sobre sucessivas gerações de agricultores palestinianos.

“Fui agricultor toda a vida”, diz Eyad. “Comecei a trabalhar na terra do meu pai, perto da colónia de Rimunim, a sudeste da aldeia; plantávamos trigo e cevada, de que a minha mãe fazia o nosso pão caseiro. Os meus irmãos e eu crescemos com o pão da terra.”

“Do ano 2000 em diante, esta terra ficou-nos inacessível”, recorda, “quando os colonos israelitas começaram a patrulhar no campo, que fica mesmo ao lado da colónia.” Ergue os olhos, como se estivesse a lembrar-se de algo. “Para dizer a verdade, lembro-me da construção da própria colónia, quando era miúdo, em 1979”, continua. “Lembro-me de que a nossa família perdeu uns 20 dunams, entre terras tomadas pela colónia e as que nos foram ficando progressivamente inacessíveis.”

À medida que o acesso às terras agrícolas se ia fechando, os agricultores palestinianos e os beduínos começaram a partilhar a terra disponível, entreajudando-se para tentarem manter a presença. Há oito anos, Eyad começou a ceder a parte da sua terra situada ao lado do assentamento a uma família beduína, que ali vivia e apascentava o seu rebanho, apesar do assédio crescente dos colonos israelitas.

“Sempre que podia ir à minha terra e trabalhá-la, também trabalhava a terra do meu vizinho”, explica Eyad, descrevendo a antiga prática rural palestiniana de entreajuda, o ‘auneh’. “Quando o meu vizinho ia à terra dele, também cuidava da minha. Se eu lavrava a terra deles, eles vinham ajudar-me na colheita; entretanto, os beduínos tiravam proveito de parte da terra e vigiavam o resto”, continua.

Chegou, entretanto, Outubro de 2023, e até as famílias beduínas foram expulsas. Na altura, Eyad não pensou que se viria a ver na mesma situação que os beduínos que tinham usado a sua terra.

“No ano passado, os colonos israelitas começaram a aproximar-se cada vez mais da zona urbana de Taybeh, e as nossas terras agrícolas mais próximas ficaram mais perigosas de frequentar e trabalhar”, diz Eyad. Quando lhe pergunto o que aconteceu da última vez que tentou ir a essa sua terra, ele faz uma pausa. “A última vez que lá fui foi há seis meses. Três colonos israelitas chegaram de carro, um deles armado, disse-me que me fosse embora. Disse que aquela terra já não fazia parte de Taybeh.”

Eyad Yousef no seu campo de ervilhasAzeitonas no mercado de Ramallah, 2022Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah

Quando chegou a Primavera, Eyad e os irmãos tiveram de encontrar uma solução para a temporada agrícola. Decidiram arrendar a mesma terra onde a família beduína se instalara depois de os colonos os terem expulsado da terra de Eyad, dois anos antes. “Primeiro falámos com os beduínos, depois com o proprietário, e dividimos a terra: os beduínos plantaram cevada para o gado em metade da parcela, e nós usámos a outra metade.”

Em cerca de dois dunams de terra, duas famílias palestinianas praticam agora agricultura sazonal e criação de gado. Toda a vida agrícola da região ficou confinada a um pequeno espaço, de onde se avistam os postos avançadas dos colonos, implantados nas colinas vizinhas — as colinas onde Eyad outrora lavrava a sua terra, lado a lado com os beduínos, que ali apascentavam os rebanhos.

Em certo sentido, partilham a perda. Entretanto, continuam a apoiar-se mutuamente na defesa do seu modo de vida e da sua relação com a terra. Os agricultores e os beduínos, os habitantes do campo palestiniano desfigurado, são, uns para os outros, os únicos apoios que têm ante um projecto colonial dotado de recursos infinitos e da impunidade que a maior parte do mundo ocidental lhe concede.

Além de Taybeh, a dinâmica repete-se em toda a Cisjordânia. Jamal Jumaa, responsável pela campanha popular Stop The Wall, diz à Hara 36 que “a dinâmica da expansão dos colonatos israelitas desde Outubro de 2023 é a mesma em todo o lado e obedece a um modelo claro.”

O modelo, como explica Jumaa, consiste em “conseguir fazer na Cisjordânia o mesmo que se fez em Gaza na década de 90.” Nos anos que se seguiram aos Acordos de Oslo, o Exército israelita transformou a maior parte das terras agrícolas de Gaza, situadas na periferia da Faixa, em zonas militares. Os palestinianos de Gaza acabaram confinados às zonas urbanas. Após a retirada israelita em 2005, Gaza ficou isolada, transformada em prisão a céu aberto, sem meios de subsistência.

“Na Cisjordânia, a primeira vítima desta violenta expansão colonial foi a pecuária”, explica Jumaa. “As famílias beduínas e os aldeões que criam gado já perderam as pastagens ou estão a perdê-las.”

Já se sente o efeito nos mercados locais, acrescenta Jumaa, o preço da carne fresca duplicou desde 2023. “A próxima coisa a ser arruinada é a produção de azeitonas”, continua.

*/Banner Maio*/

A produção de azeitonas e azeite é o sector agrícola mais importante da Palestina, sustentando a subsistência de cerca de cem mil famílias. A colheita anterior a 7 de Outubro permitiu produzir 23 mil toneladas de azeite, em 2022, número que caiu drasticamente para 10 mil toneladas em Outubro de 2023, coincidindo com a época da colheita. No ano passado, este valor diminuiu ainda mais, atingindo 8 mil toneladas. A ONU entende que a forte queda se pode atribuir ao efeito combinado de confiscações sistemáticas de terras, violência dos colonos, restrições militares israelitas e factores climáticos.

“Por isso a manutenção dos olivais se tornou tão dispendiosa”, explica Eyad. “Arar um olival enquanto os colonos rondam passou a ser um trabalho de risco.”

As actividades dos colonos são concertadas com o Exército israelita, que utiliza o arranque de oliveiras como ferramenta de “dissuasão” e punição colectiva em resposta a ataques contra colonos e soldados. Em Agosto de 2025, divulgadas informações de que um colono israelita fora atacado por um palestiniano perto da aldeia de al-Mughayyir, o Exército israelita arrasou mais de 10 mil oliveiras na aldeia, como represália e acção de “dissuasão” contra os habitantes.

Eyad continua a colher ervilhas. Deita as últimas vagens para o balde. Cala-se, visivelmente afectado pelo seu próprio depoimento. “Se as coisas continuarem assim, vamos acabar por importar azeite de Espanha”, acrescenta, pegando num punhado de ervilhas e levantando-as com um suspiro. “Só as sementes para produzir estas ervilhas custam 250 shekels. Para os recuperar, tenho de vender 25 quilos.”

Vai-se afastando da parcela. A jornada de trabalho terminou. Quando chega ao confim, vira-se. Reflecte no que acaba de fazer.

“Sabes o que ganho com esta safra de ervilhas? Umas trinta a quarenta refeições para a família. Poupava mais não comprando ervilhas do que a vendê-las”, atira, com sarcasmo.

Está o sol do meio-dia no zénite, Eyad regressa à oficina de reparação automóvel — a versão de Eyad do “segundo emprego” de cada agricultor palestiniano. Agradeço-lhe por ter falado comigo e embarco num mini-autocarro em direcção a Ramallah, centro comercial da Cisjordânia, onde se presume invisível o cheiro do campo palestiniano mortificado pelos colonos.

Chegado ao centro da cidade, saio da estação de transportes públicos e avisto um casal de idosos à beira do passeio. Sentados em cadeirinhas, têm à frente vários baldes de plástico cheios de favas verdes acabadas de colher, ainda na vagem. Aproximo-me e pergunto-lhes de onde vem o produto.

“Somos de Sinjil, a aldeia que o Exército israelita cercou completamente de arame farpado”, responde o homem. A mulher intervém: “As ervilhas estão a 10 shekels o quilo, um pouco mais caras do que no ano passado.” Ela parece quase desculpar-se, mas não o suficiente para esconder a exasperação. “Só que este ano, vamos ter de pagar renda pela terra.”

Vira-se para o marido como se se lembrasse de alguma coisa e comenta: “Sabes quanto vai custar um galão de azeite este ano? E alguém o quererá comprar?”


1 O dunam é a unidade de medida de superfície otomana, na Palestina equivalente a 1 km².

Traduzido de Hara 36 (5 de maio de 2026).
https://hara36.substack.com/p/jusqua-la-derniere-racine-la-resilience-7da


Tradução de Adriano Zilhão.

Contrato coletivo Greve Sindicatos categoria-trabalho edicao-2026-05-28 (29)

O ataque global aos direitos laborais

Pacotes laborais, com este ou outro nome, não são um exclusivo do Governo Montenegro. Por todo o mundo, da Argentina a Portugal, dos Estados Unidos à Bielorrússia, os direitos civis, à liberdade de expressão e de reunião, à greve, ao registo legal dos sindicatos, à contratação coletiva e outros têm vindo a ser cada vez mais atacados.

O objetivo do pacote laboral é, também, o de destruir ou inutilizar a contratação coletiva e o direito à greve, mas sempre declarando demagogicamente respeitá-lo. Como já escrevemos no Maio, “por um lado, alarga-se o universo das empresas e serviços dedicados à chamada ‘satisfação de necessidades impreteríveis’ e, por outro, impõe-se a necessidade da existência, sempre, de serviços mínimos em caso de greve em tais empresas ou serviços, independentemente das circunstâncias concretas de cada situação e possibilitando, para não dizer impondo, que os tribunais arbitrais (no caso das empresas do sector empresarial do Estado) ou os ministros do Trabalho e da tutela (em todos os restantes casos) estabeleçam sempre serviços mínimos, que podem ser, e tenderão deste modo a ser, serviços máximos” (António Garcia Pereira, “A greve, o direito fundamental dos trabalhadores que o Governo quer aniquilar”, Maio, 12-10-2025).

Este não é um exclusivo do Governo Montenegro. Por todo o mundo, da Argentina a Portugal, dos Estados Unidos à Bielorrússia, os direitos civis, à liberdade de expressão e de reunião, à greve, ao registo legal dos sindicatos, à contratação coletiva e outros têm vindo a ser cada vez mais atacados, como nos diz o importante Índice Global de Direitos da CSI (Confederação Sindical Internacional) de 2025:

O direito à greve foi violado em 87% dos países – a mesma percentagem registada em 2024, quando o índice atingiu o pico de 131 países. O direito ao registo legal dos sindicatos foi impedido em 74% dos países, a mesma percentagem de 2024 e o pior nível desde o início do Índice. O direito à negociação coletiva foi restringido em 80% dos países (121), um aumento face aos 79% registados em 2024. Ataques aos direitos à liberdade de expressão e de reunião foram relatados em 45% dos países – um recorde para o Índice e um aumento em relação aos 43% de 2024. Em 72% dos países, os trabalhadores não tiveram acesso à justiça ou tiveram acesso limitado, um aumento acentuado em relação aos 65% registados em 2024 – o nível mais elevado alguma vez registado no Índice. E nalguns países, como Camarões, Colômbia, Guatemala, Peru e África do Sul, sindicalistas foram mortos por defenderem os direitos dos trabalhadores.

O direito à greve foi violado em 87% dos países. O direito ao registo legal dos sindicatos foi impedido em 74% dos países (131). O direito à negociação coletiva foi restringido em 80% dos países.

Os maus exemplos chegam de todo o lado

Em França, quase quatro em cada dez acordos coletivos foram impostos unilateralmente pelos empregadores, sem representação sindical. Na Suécia, a Tesla, de Elon Musk, ignorou por completo as negociações, substituindo os trabalhadores em greve por fura-greves, em vez de participar numa negociação coletiva. Nos Camarões, um trabalhador sazonal foi morto pela polícia durante uma manifestação de trabalhadores da indústria açucareira da SOSUCAM por melhores salários e condições de trabalho mais seguras. No Iraque, a polícia atacou e feriu trabalhadores do sector petrolífero em greve durante um protesto contra a situação dos seus direitos. No Paquistão, um tribunal declarou 62 sindicatos ilegais, infringindo os direitos de milhões de trabalhadores do sector público. Na Malásia, a empresa global de embalagens Amcor despediu injustamente um secretário sindical no âmbito da sua campanha antissindical. A Amazon, de Jeff Bezos, respondeu à criação da sua primeira força de trabalho sindicalizada no Canadá, fechando os seus armazéns no Quebeque, resultando na perda de 2000 postos de trabalho (dados do Índice Global de Direitos da CSI, 2025)1.

Nos Estados Unidos, o sindicato automóvel UAW acusou a Mercedes de tentar impedir os trabalhadores da sua fábrica de Tuscaloosa (Alabama), uma das maiores da Mercedes fora da Alemanha, de se sindicalizarem, ameaçando-os de a deslocalizar para o México. O Conselho Nacional de Relações Laborais dos EUA (NLRB) considerou a acusação fundamentada. A Mercedes terá gasto mais de 650 mil dólares com pelo menos cinco empresas de consultoria para influenciar os funcionários contra a sindicalização (Alexander Demling e Timo Schober, Der Spiegel, 19-05-26).

A tentativa de neutralizar o direito à greve a partir da OIT

A OIT – Organização Internacional do Trabalho funciona, tal como a Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS) portuguesa, numa base tripartida, com representantes dos Estados, dos patrões e dos trabalhadores. Ora, desde 2012 o chamado “Grupo dos Empregadores” começou a pôr em causa a Convenção n.º 87 da OIT, um tratado adotado em 1948 que protege o direito de patrões e trabalhadores se organizarem livremente, constituírem sindicatos e neles se filiarem, sem necessidade de autorização prévia e com independência face ao Estado, e também a Convenção n.º 98 da OIT (CO98), adotada em 1949, que protege os trabalhadores contra a discriminação antissindical e garante o direito à negociação coletiva livre de interferências do patronato, paralisando na prática o respeito pelas normas da OIT. Como diz Marcelo DiStefano, um dos grandes especialistas internacionais na matéria2, a aplicação das normas “exige um consenso; porém, quando uma das partes o bloqueia, é impossível chegar a acordo, porque o que está em causa é saber se a Convenção 87 reconhece ou não o direito à greve” (…) Na realidade, a sua intenção é desencadear um processo visando a restrição do direito à greve”3.

Regresso ao século XIX?

Neste século, temos visto aprofundar-se uma retórica sobre a greve “vista como um instrumento de perturbação inadmissível e que é absolutamente necessário enquadrar, limitar e restringir”, afirma o sociólogo e historiador francês Stéphane Sirot. Os projetos de lei têm-se multiplicado recentemente em França e na Itália de Meloni, por exemplo, onde já é proibido fazer greve em certos períodos e sectores, como o dos transportes, por altura do início das férias de verão ou do Natal. O mesmo vimos acontecer em Portugal, ainda durante os governos de António Costa, com as restrições ao direito à greve impostas a estivadores e camionistas, por exemplo.

Ora, se recuarmos a condições de trabalho próprias do século XIX, “a partir do momento em que a lei restringe de tal forma o direito à greve que quase o impede”, assistiremos a “greves selvagens”, em que os conflitos laborais explodem já sem qualquer vontade de se submeterem à legislação em vigor (Stéfane Sirot4).

É para aí que caminhamos?


  1. https://www.ituc-csi.org/global-rights-index
  2. Doutor em Direito do Trabalho, professor universitário na Argentina e membro do Comité Executivo da Confederação Sindical das Américas.
  3. In José Alvarez, “La remise en cause mondiale du droit de grève”, Les Utopiques, n. 31, Primavera de 2026, revista da União Sindical Solidaires, França.
  4. Idem
Futuro Passado Velhice categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

Os velhos

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta. Quanto ao futuro, esse foge-lhes por entre os dedos, como a areia. A diminuição progressiva das suas capacidades, rouba-lhes a ideia de futuro.

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta. Quanto ao futuro, esse foge-lhes por entre os dedos, como a areia. A diminuição progressiva das suas capacidades, rouba-lhes a ideia de futuro.

Eu não quero acreditar que sou velho, mas o espelho, todas as manhãs, diz-me que sim.

Quando dou uma aula, presencial ou “on-line”, ainda dou muitas, o entusiasmo e a energia que ponho na voz situam-me nos meus anos de docência, mas o facto de ter de a dar sentado, coisa que outrora nunca fiz, diz-me que esse tempo já passou há muito.

Quando olho para dentro de mim, tanto posso ser a criança ou adolescente, como o activo adulto que fui, mas, na rua, as irregularidades da calçada, ao fazerem-me procurar, na bengala, a segurança e o equilíbrio que perdi, dizem-me a mesma desconfortável verdade.

Comodamente instalado, aqui, frente ao monitor do computador, vivo a despreocupação e a alegria de uma crónica de tempos idos, volto a ser o que fui nos anos de maior pujança da minha vida, mas mal me levanto da cadeira, os joelhos e as pernas trazem-me ao presente.

Bem sentado no autocarro, tenho a idade daquele ou daquela que vai ao meu lado e, se acontece falarmos, irmano-me com ele ou com ela, na idade, e só me dou conta dos anos que carrego sobre os ombros, ao descer do dito, naquele degrau que nunca me pareceu tão alto.

Muitas outras realidades me dizem, todos os dias, que sou mais um entre os muitos velhos deste belo e, desde sempre malgovernado país. São os meus antigos alunos, agora de cabelos brancos, muitos deles pensionistas como eu. São os meus netos, já adultos e com barba, são as constantes consultas médicas, idas frequentes ao hospital e aos centros de saúde e o exagerado número de fármacos diários ao pequeno-almoço, almoço e jantar.

Face ao muito que ainda tenho em mente e gostaria de fazer, dou por mim sempre com pressa.

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta. Quanto ao futuro, esse foge-lhes por entre os dedos, como a areia. A diminuição progressiva das suas capacidades, rouba-lhes a ideia de futuro. Não lhes permite fazer planos. Vivem, como se ouve dizer, “um dia de cada vez”. Preparar uma palestra e proferi-la, fazer uma conversa, onde quer que seja, e escrever algo sobre o que me parecer dever fazer, cabem dentro deste horizonte de vida. Mas, fazer projectos a prazos mais dilatado, está fora de questão.

Os velhos, de facto, só têm presente e é nesta tranquila certeza que, nos meus 94 anos já vividos, organizo as 24 horas do dia, de todos os dias. É nesta tranquila certeza que me dou conta da exiguidade do meu horizonte de vida, face ao muito que ainda tenho em mente e gostaria de fazer. E é por isso que dou por mim, sempre com pressa. Muita pressa.

Entretenimento Informação Redes Rui Pereira Televisão categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

As redes da censura

A vontade de censurar o digital deve-se não às falsidades que propaga, mas às verdades que só nele se revelam.

A necessidade de “verificar” e “controlar os conteúdos” perniciosos difundidos pelas redes sociais e na esfera digital tem vindo a picar o ponto no discurso predominante das nossas oligarquias liberais com uma regularidade crescente. O argumento é o de que é através do digital que se produz a “desordem informacional” do nosso tempo.

Os media convencionais, prossegue o argumento, empenhados na verdade, só na verdade e em nada mais que a verdade, apesar de toda a sua boa-vontade e diligência, não conseguem repor a ordem no discurso público.

A pedido do Conselho da Europa, Claire Wardle e Hossein Derakhshan assinaram em 2023 um Relatório sobre o assunto (https://edoc.coe.int/en/media/11609-desordem-informacional-para-um-quadro-interdisciplinar-de-investigacao-e-elaboracao-de-politicas-publicas.html), onde se traçam, no plano político-académico, as grandes linhas de produção ideológica sobre a necessidade de ordenar o “caos” na rede, em nome de uma preocupação com a higienização política e intelectual do público.

Coisas como “bots”, “cyborgs”, “astroturfing digital” e muitas outras designações técnicas desenham um quadro real de circulação de lixo informacional considerável, capaz, de resto, de influenciar escolhas individuais e até coletivas de consumo comercial ou político. De passagem, na p. 20 da sua edição em português do Brasil, os autores do relatório referem-se, porém, a um problema menos considerado e objeto de bem menos investigação e relatórios: “Devemos também reconhecer, no entanto, o papel da televisão na disseminação da desinformação.” Mas é coisa de um parágrafo. Se o que se justifica por ser este relatório dedicado ao digital, o motivo enfraquece se pensarmos que a televisão ou os conteúdos televisivos integrados na esfera digital continuam a ser o principal meio de informação das diferentes gerações.

Precisamos de compreender por que motivos, sendo a televisão a principal fonte de informação nas nossas sociedades de oligarquia liberal, os olhos censórios se dirigem, primordial e quase exclusivamente, para o ‘digital’ e as ‘redes’.

Os novos Ministérios da Verdade

Precisamos de compreender por que motivos, sendo a televisão (por si só ou em integração com a esfera digital) a principal fonte de informação nas nossas sociedades de oligarquia liberal, autoproclamadas “democracias”, os olhos censórios se dirigem, primordial e quase exclusivamente, para o “digital” e as “redes”.

Uma dupla razão pode ajudar a este entendimento: por um lado, o reforço do negócio de entretenimento informativo proporcionado pela televisão, que concentra ainda uma percentagem quase leonina do mercado publicitário e da produção hegemónica de discurso político-ideológico; e, por outro lado, uma política de hierarquização da credibilidade que arvora os media hegemónicos não numa parte do ecossistema comunicacional, mas sim em árbitros aléticos

sobre o que é verdadeiro e o que é falso, sobre o que é importante e o que não o é.

*/Banner Maio*/

Deste modo, “os verificadores de factos” saltam dos ecrãs televisivos e das páginas ou sítios da imprensa encartada para os olhos e as mentes dos seus consumidores como definidores da credibilidade. Fiscalizam o discurso dos atores políticos (que não os do capital, vulgo “agentes económicos”), fiscalizam as “redes”, dizem o que é e o que não é, marcando assim uma posição de superioridade arbitral, ao mesmo tempo que se eximem ao exame que sobre eles deveria ser feito. A construção do dono da verdade torna-se assim um episódio de um falso regime de verdade que tem nas grandes corporações mediáticas o seu zénite inalcançável.

Pouco importa a parcialidade com que intervêm, enquadram, tematizam, distorcem, publicitam, obscurecem, ignoram, deturpam as existências das sociedades cuja consciência de si mesmas moldam em regime de permanência. Pouco importa que, aquando da entrada das tropas russas na Ucrânia, em 2022, as televisões do reino “ocidental” tenham exibido nos seus telejornais imagens de um videojogo para ilustrar a “batalha aérea de Kiev” contra os caças russos. Ou que tenham mostrado imagens de outro jogo de vídeo para ilustrar os seus noticiários acerca dos boicotes pelos Hutis iemenitas à navegação comercial, em

solidariedade com Gaza exterminada por Israel. Nada importa, na verdade, para quem se arvora em dono da verdade única e verdadeira.

O argumento da proteção da sociedade por via da censura, como o fez a União Europeia relativamente à comunicação social russa, é um velho álibi para a transformação das oligarquias liberais em oligocracias iliberais, que constitui hoje em dia o principal vetor da refascização do chamado Ocidente. Para quem tiver dúvidas, fica este ilustrativo fragmento do que está em causa com as “redes”, não muito diferente do que estava em causa há umas décadas com os jornais: “Declaro não ter nunca percebido esta incoerência que ninguém ainda me explicou claramente: por que motivo se exige atenta fiscalização dos géneros deteriorados – o arroz, o bacalhau, a manteiga – e se descura completamente a higiene do espírito” (António de Oliveira Salazar, 1945).

Chá Pobreza Vinho categoria-o cozinheiro vermelho edicao-2026-05-28 (29)

Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha

Receita: Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda

A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar.

A história do consumo das sopas de cavalo cansado em Portugal é mais complexa do que a caricatura a que frequentemente são reduzidas. Se, por um lado, tentam evocar um nostálgico universo rural de tradição, resistência e identidade popular, são sobretudo símbolo de pobreza extrema, de subalimentação e de práticas alimentares de recurso numa cultura nacionalista da alegre e modesta casinha, onde tudo o resto falha.

A origem da designação parece remontar ao século XIX, numa época anterior aos caminhos de ferro, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Ao longo do percurso, existiam pousadas onde viajantes e animais recuperavam forças. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar. Dessa prática teria surgido a expressão “sopas de cavalo cansado”.

Embora não existam fontes históricas definitivas que comprovem esta origem, a mesma interpretação aparece também na tradição galega, onde existem designações semelhantes, como sopas de cabalo cansado, sopas de burro cansado, sopas borrachas ou simplesmente sopas de viño. Em Portugal, além da expressão mais conhecida, registam-se igualmente variantes como “sopas de burro cansado” ou “sopas de vinho”, sobretudo em Trás-os-Montes e no Alto Douro.

Com o tempo, aquilo que terá começado como um alimento de recuperação para animais, transformou-se num pequeno-almoço comum entre as populações rurais pobres, sobretudo do Norte de Portugal. A dureza do trabalho agrícola, associada à escassez alimentar crónica, fazia do vinho não apenas uma bebida, mas também uma fonte de calorias e um elemento central da dieta quotidiana.

Existem outras sopas na cultura popular europeia que incluem vinho na sua composição, desde a sopa de cebola francesa, enriquecida com vinho branco ou xerez, as sopas alemãs e suíças de Riesling, passando pelas Weinsuppen do Norte de Itália, mas todas são bem mais sofisticadas e não refletem, como as nossas, uma utilização do vinho como ingrediente de reforço alimentar e energético.

A receita das sopas variava consoante a região e os recursos disponíveis. Na sua forma mais simples, consistia em pão duro demolhado em vinho tinto com açúcar. Noutras versões mais enriquecidas podiam juntar-se gema de ovo, mel, canela, broa de milho esfarelada ou vinho verde tinto. Servia-se numa malga ou tigela funda e era entendida como um alimento altamente energético, adequado ao desgaste físico do trabalho agrícola.

Estas práticas alimentares surgem num contexto histórico marcado por profundas carências económicas e sociais. Durante as décadas de 1930 e 1940 grande parte da população vivia em condições de miséria extrema, onde o salário do chamado “chefe de família” era insuficiente para assegurar sequer uma alimentação básica. Para sobreviver, era necessário o trabalho de todos os membros da família, incluindo crianças.

As sopas de cavalo cansado não eram, assim, apenas uma tradição gastronómica da ruralidade: eram uma resposta pragmática à fome, ao desgaste físico e à ausência de alternativas alimentares. O vinho, diluído no quotidiano rural, era encarado como um alimento fortalecedor, quase medicinal.

A vitivinicultura em Portugal, abençoado com o maior número de castas autóctones do mundo, umas notáveis 250, era um dos pilares da economia portuguesa. Nos anos 1940, a vinha ocupava 320 mil hectares repartidos por mais de 300 mil produtores, quase todos de pequena ou muito pequena dimensão, e era a que mobilizava mais mão de obra e durante mais tempo. O vinho representava uma das principais exportações nacionais, apenas ultrapassada pela da cortiça. Organismos como a Junta Nacional do Vinho, criada em 1937, ou o Grémio dos Armazenistas de Vinho controlavam preços, produção e propaganda, e promoviam intensamente a produção e o consumo de vinho como símbolo da identidade nacional, difundindo a ideia de que “beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses”.

O regime utilizava a iconografia rural e vínica como instrumento de propaganda nacionalista, apresentando um país harmonioso e tradicional que contrastava fortemente com a realidade de pobreza vivida por grande parte da população.

Em 1938, surgia um cartaz do Grémio dos Armazenistas de Vinho, conhecido como o Cartaz das Tabernas, que misturava com pouco rigor regras sanitárias e alegados argumentos científicos. O cartaz proclamava coisas extraordinárias como: “o alcoolismo é combatido pelo consumo de vinho”, frase atribuída a um misterioso Dr. Bertillon. Citava ainda, supostamente, Louis Pasteur com “o vinho é a mais sã e higiénica das bebidas”, demonizando as bebidas destiladas estrangeiras, onde se inclui a cerveja, essas sim, fontes de decadência social e moral. A propaganda chegava ao ponto de declarar que “um litro de vinho de 10º corresponde, como alimento, a 90 cl de leite, 370 g de pão, 585 g de carne ou cinco ovos”.

Contudo, a relação social com o álcool transformou-se profundamente ao longo do século XX e início do século XXI. Se durante décadas o consumo de vinho foi associado à força física, ao convívio, à celebração e até à saúde, hoje cresce uma visão muito mais crítica sobre o álcool e os seus impactos sociais e sanitários.

Depois do aumento do consumo durante o confinamento, houve um declínio geral no hábito de beber: as pessoas mais velhas continuam a ser as que mais bebem, enquanto os menos propensos ao consumo têm entre 16 e 24 anos, sendo que 26% dessa faixa etária é totalmente abstémia. São muitos jovens sóbrios. A cultura da grande bebedeira como evento olímpico regular que marcou os anos 1980 e 1990 perde prestígio social e o álcool deixa de ser um ritual obrigatório de integração juvenil e passa, para muitos, a representar algo antiquado, dispendioso e pouco desejável. Surgem agora as raves sem álcool, em cafés e padarias, apenas movidas a boas vibrações e o kombucha. Quantos Salazares seriam hoje precisos para devolver a alma genuinamente boémia ao dancefloor?

As razões para esta mudança são várias. Sair à noite tornou-se muito mais caro, mas sobretudo há alterações culturais profundas: maior preocupação com a saúde mental e física, novas formas de socialização, transformação das relações e menor pressão social para beber. Paralelamente, muitos espaços tradicionais de convívio noturno enfrentam dificuldades económicas e muitos encerram, pressionados pela gentrificação urbana, pelo aumento dos custos operacionais, mas, em grande parte, pela diminuição do consumo de álcool.

Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda

Ingredientes:

  • 1 pera bem firme
  • 2 copos generosos de vinho tinto
  • 1 cálice de vinho do porto
  • 1 cálice de aguardente velha
  • 3 colheres de sopa de açúcar
  • 3 colheres de sopa de flocos de aveia finos
  • 1 estrela de anis
  • 2 cravinhos
  • 1 pau de canela
  • Raspas de chocolate negro

Descasque a pera mantendo-a inteira e leve a lume moderado com todos os outros ingredientes, exceto a aveia e o chocolate. Deixe cozer a pera cerca de 10 minutos, retire-a e reserve.

Acrescente os flocos de aveia e deixe que cozinhem enquanto o molho reduz, mexendo sempre.

Sirva esta mistura numa taça, coloque por cima a pera e finalize com as raspas de chocolate

categoria-crónica Futebol Liceu edicao-2026-05-28 (29)

A bola e o tricô - 2ª parte

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-reitor continuava irredutível e furibundo.

Ainda sobravam uns minutos do intervalo entre aulas. A suar, sentindo o peito a explodir, Ó correu escadas abaixo para jogar à bola com os amigos e esquecer aquilo tudo.

Eram oito lanços de escadas. O Texas estava instalado numa das escarpas da Lapa, de modo que na frontaria ostentava dois pisos acima da rua e nas traseiras, colina abaixo, revelava-se um edifício de quatro andares. O pátio de recreio ficava ao nível da sub-sub-cave e era aí que os rapazes saltavam ao eixo, jogavam à apanhada e davam uns chutos na bola.

Ao nível do rés-do-chão, mas com janela para as traseiras (e, portanto, sobranceira ao pátio de recreio), ficava a sala dos professores. Nessa sala ocorria todos os dias, por volta das 10.30, um ritual sagrado: o professor que estivesse desocupado durante o período de aulas antecedente preparava para os colegas um café aromático, feito numa máquina “de balão” – uma máquina de café que consistia em dois balões de vidro pirex, aquecidos por uma lamparina.

Por essa época surgiu uma nova moda de calçado: os sapatos de pala, sem atacadores. E assim, num belo dia primaveril, um dos colegas do Ó apareceu no recreio com uns sapatos de pala, os primeiros a pisarem o chão do liceu. Meteu-se o rapaz a jogar à bola e a certa altura disparou um tremendo chuto à baliza. O problema, porém, é que o sapato lhe saltou do pé, foi atrás da bola, girou pelos ares num arco caprichoso e foi bater na janela da sala dos professores; partiu a vidraça e, como se isso não bastasse, acertou em cheio na máquina do café, reduzindo-a a estilhaços. Aquilo foi uma heresia pior do que cuspir em todas as santinhas. Gerou-se uma enorme comoção no corpo docente, senão mesmo, nos primeiros instantes, uma raiva assassina; o eco da indignação subiu as escadarias e chegou ao gabinete do vice-reitor, que desceu seis lanços de escadas a galope e, horrorizado perante os estilhaços da máquina de café, emitiu logo ali um edital: a partir daquele momento seria proibido jogar à bola no pátio e andar em correrias. Os contínuos (chamam-se hoje auxiliares) foram enviados em todas as direcções, apreenderam bolas, caricas, berlindes e todos os demais objectos circulares ou projectáveis que lhes apareceram pela frente, atiraram berros à cara dos alunos e puseram-nos em sentido. O dia terminou envolto num inquietante nevoeiro de trituração e revolta que desfocava as letras nas ardósias e tornava os ouvidos moucos às palavras dos professores.

*/Banner Maio*/

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-reitor continuava irredutível e furibundo.

Ao segundo dia, o Ó, inspirado no confronto que tivera há dias com o professor de Religião e Moral, teve uma ideia. Em grande segredo, começou a passar palavra entre os alunos. Nesse dia os rapazes regressaram a casa numa grande excitação e cada um inventou uma desculpa qualquer (trabalhos manuais, ou coisa assim) para sacar alguns materiais às mães.

Era um espectáculo digno de ser filmado, com novelos de lã de todas as cores; toda a gente em silêncio, apenas se ouvia o tique-tique das agulhas.

Ao terceiro dia, todos os alunos presentes ao primeiro tempo de aulas chegaram com bom avanço antes do toque da campainha, a fim de prepararem o cenário combinado. Os contínuos acharam aquilo inusitado, mas não pensaram muito no assunto. Quando o vice-reitor atravessou os portões da escola, foi encontrar os 700 alunos estacionados em todos os lanços das escadarias, do primeiro ao último, sossegadamente sentados nos degraus a fazerem tricô. Era um espectáculo digno de ser filmado, com novelos de lã de todas as cores; toda a gente em silêncio, apenas se ouvia o tique-tique das agulhas. Siderado, sem dizer uma palavra, o vice-reitor subiu ao seu gabinete como pôde, pisando os degraus com dificuldade entre aquela massa de corpos e agulhas. Enfiou-se no gabinete e pouco depois tocou a campainha a chamar um contínuo.

Novamente foram enviados os contínuos pelos corredores do liceu, a colarem nas paredes novo edital: passava a ser novamente possível jogar à bola. Mas, claro está, o vice-reitor não dava o braço a torcer completamente: preservava a sua dignidade com algumas limitações e o aviso de que qualquer prejuízo adveniente de brincadeiras estouvadas seria cobrado aos alunos e respectivas famílias. O Ó acertara em cheio: não era suportável ver uma massa de rapazes dedicados a tarefas supostamente feminis. Felizmente, ao contrário da sede do Liceu Pedro Nunes, O Texas não era misto.

(fim)

Mas as crianças, senhores
Liderados pela Central Obrera Boliviana, protestos de trabalhadores e indigenas bloqueiam o pais.
#53 “Jamais daria Ritalina a uma criança ou jovem”
O desafio do pacote laboral
Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos
ilustração: Mantraste
O ataque global aos direitos laborais
Os velhos
As redes da censura
Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha
A bola e o tricô - 2ª parte
Mas as crianças, senhores
categoria-opinião Neoliberalismo Esquerda Escola Crianças Creche edicao-2026-05-28 (29)

Mas as crianças, senhores

A baronesa Margaret Thatcher, que, segundo a sua biografia autorizada, “não sabia brincar com os filhos”, mas foi mãe do neoliberalismo, disse um dia: “A sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias.”

Raquel Varela
O Riso Precisa de Dentes
categoria-um poema edicao-2026-05-28 (29)

O Riso Precisa de Dentes

Boa noite. Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia, superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física. A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos.  Fontes hospitalares

Jornal Maio
#53 “Jamais daria Ritalina a uma criança ou jovem”
categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-05-28 (29)

#53 “Jamais daria Ritalina a uma criança ou jovem”

A pediatra e professora universitária Maria Aparecida Moysés afirma categoricamente: “Jamais daria Ritalina a uma criança.” A possibilidade de morte súbita não explicada em jovens que tomam Ritalina, Concerta ou outra droga dessas, que a médica e investigadora não reconhece como medicação, é 14 vezes maior. As crianças ficam obedientes,

Jornal Maio
Desafio(s)
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-05-28 (29)

Desafio(s)

Segundo o dicionário da Porto Editora, nome masculino que designa: 1) ato ou efeito de desafiar ou chamar alguém para combate; provocação; 2) incitação; estímulo; 3) despique entre dois cantadores; 4) duelo; luta; 5) (desporto) competição desportiva; jogo; 6) situação em que os cantadores respondem um ao outro, improvisando. EM

Jornal Maio
O desafio do pacote laboral
categoria-editorial edicao-2026-05-28 (29)

O desafio do pacote laboral

O pacote laboral não nasceu das cabeças iluminadas de Montenegro e da ministra Palma Ramalho. Eles juntam-se ao coro global do patronato e ao “assalto concertado e sustentado das autoridades estatais e dos destruidores patronais da democracia aos direitos e condições de vida dos trabalhadores” de que fala o

Jornal Maio
Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos
Agricultura Colonos Israel Palestina Qassam Maadi categoria-internacional edicao-2026-05-28 (29)

Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos

Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam de terra

Qassam Maadi
O ataque global aos direitos laborais
Contrato coletivo Greve Sindicatos categoria-trabalho edicao-2026-05-28 (29)

O ataque global aos direitos laborais

Pacotes laborais, com este ou outro nome, não são um exclusivo do Governo Montenegro. Por todo o mundo, da Argentina a Portugal, dos Estados Unidos à Bielorrússia, os direitos civis, à liberdade de expressão e de reunião, à greve, ao registo legal dos sindicatos, à contratação coletiva e outros têm

António Simões do Paço
Os velhos
Futuro Passado Velhice categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

Os velhos

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta.

António Galopim de Carvalho
As redes da censura
Entretenimento Informação Redes Rui Pereira Televisão categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

As redes da censura

A vontade de censurar o digital deve-se não às falsidades que propaga, mas às verdades que só nele se revelam.

Rui Pereira
Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha
Chá Pobreza Vinho categoria-o cozinheiro vermelho edicao-2026-05-28 (29)

Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha

A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibili

Sofia Garrido
A bola e o tricô - 2ª parte
categoria-crónica Futebol Liceu edicao-2026-05-28 (29)

A bola e o tricô - 2ª parte

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-r

Rui Viana Pereira

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.