O Riso Precisa de Dentes

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Boa noite.

Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia,
superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física.
A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo
a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos. 

Fontes hospitalares confirmam que alguns clínicos já aprenderam a operar enquanto sonham,
a consultar pacientes em simultâneo através de doze dimensões,
e a prescrever ansiolíticos a si próprios por telepatia. 

Em Coimbra, um cardiologista foi avistado a ressuscitar o seu próprio relógio de pulso.
Em Lisboa, uma cirurgiã realizou um transplante de consciência para poder descansar sem interromper a cirurgia. 

O Governo garante que o novo Plano de Saúde Interplanetário
vai incluir camas com gravidade variável,
salas de espera com loops temporais,
e um subsídio de café directamente injetado na veia jugular. 

Entretanto, os médicos que continuam a trabalhar cinquenta horas por dia,
dormem três minutos por século,
e diagnosticam a realidade como estando em estado terminal.

Fátima Vale
(Oshakati, Namíbia, 1975)
“O RISO PRECISA DE DENTES” integra P.E.L.E.
— Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026).

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