Jornal Maio

Porque recusámos a guerra colonial

O conhecimento do que se estava a passar em Angola rapidamente me levou a pôr em causa não apenas a guerra, mas também o meu papel como elemento que havia aderido às forças armadas. Ao fim de algum tempo passei a sentir-me deslocado no seio deste Exército, e o meu pensamento passou a concentrar-se em tentar descobrir qual a melhor maneira de sair dali.

O início da nossa história coincide com o começo da guerra colonial em África. Uma grande parte dos oficiais que prepararam e fizeram o 25 de Abril entraram para a Academia Militar (AM) entre 1960 e 1964. Quando entrei no quartel da Academia Militar na Amadora em Outubro de 1961, a guerra em Angola havia começado apenas oito meses antes, a 4 de Fevereiro de 1961. As portas da AM foram então abertas, como prémio, aos primeiros “heróis” das bárbaras campanhas de morticínio perpetradas em Angola nesses primeiros meses da guerra colonial. Foi assim que tive o “privilégio” de ouvir em primeira mão, e contadas pelos próprios “heróis”, as histórias dos assassínios e torturas cometidos em Angola.

O conhecimento do que se estava a passar em Angola rapidamente me levou a pôr em causa não apenas a guerra, mas também o meu papel como elemento que havia aderido às Forças Armadas. Ao fim de algum tempo passei a sentir-me deslocado no seio deste Exército, e o meu pensamento passou a concentrar-se em tentar descobrir qual a melhor maneira de sair dali. Após quatro anos de estudos de Engenharia na Academia Militar, promovidos a alferes, somos matriculados no Instituto Superior Técnico (IST) para completar os três anos de curso que faltavam. Chegados ao Técnico, deparamos com a informação e o debate político que, apesar de tudo, existia nas universidades portuguesas, sobretudo no IST em Lisboa. Neste ambiente, para além da grande actividade política de agitação, abre-se-me a porta da literatura revolucionária, proibida, mas de relativamente fácil aquisição. 

Com a transição para o Técnico em 1965 a nossa atitude começa a mudar de modo rápido e imparável. Não se trata apenas de uma evolução ideológica a nível pessoal, fruto já das muitas leituras e do acesso a filmes e debates políticos no seio da universidade, é antes uma evolução que acompanha a crescente radicalização dos movimentos de oposição à guerra colonial e à ditadura fascista. 

 

O impacto destas quatro semanas vividas no estrangeiro, com toda a liberdade para ver filmes que eram proibidos em Portugal, ler livros aqui censurados, assistir a manifestações de rua, foi enorme.

 

Apesar de um maior interesse pela actividade política do que pelos estudos, acabo por ser finalista do Curso de Engenharia Electrotécnica, em 1968. Isso permite-me a inscrição no grupo de alunos que organizará uma viagem que irá percorrer as principais capitais da Europa durante quase um mês, em Março e Abril de 1968. Esta viagem de finalistas do IST, com cerca de 40 elementos, inclui oito que são alunos da AM. A influência desta viagem é fundamental para o que se passará a seguir. Destes oito elementos acabarão por recusar a guerra colonial e desertar para a Suécia nada menos do que cinco. O impacto destas quatro semanas vividas no estrangeiro, com passagens por Paris, Londres, Bruxelas, Amsterdão, Copenhaga e Estocolmo, com toda a liberdade para ver filmes que eram proibidos em Portugal, ler livros aqui censurados, assistir a manifestações de rua, foi enorme. Ninguém voltou igual ao que era antes do início desta viagem. 

No regresso, uma primeira decisão crucial estava tomada: deixar a AM e acabar com a carreira das armas. Nesse momento, era já para nós, acima de tudo, uma questão de consciência. 

A contradição entre ser contra o regime e contra a guerra colonial e ao mesmo tempo servir as suas forças armadas tornou-se óbvia. É assim que nos últimos meses de 1968 umas dezenas de alunos da AM resolvem recorrer aos meios legais para deixar as fileiras da AM, pagando para tal uma pesada indemnização ao Estado. 

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Em Abril e Maio de 1969 somos enviados para o quartel da Escola Prática de Infantaria, em Mafra, a fim de cumprir quatro anos de Serviço Militar Obrigatório (SMO). Aqui nos vamos encontrar com mais de uma dezena de ex-alunos da AM e também com colegas de cursos de Engenharia do IST que ali cumpriam o SMO. Agora, livres de compromissos, perdido o medo de falar, a influência da nossa linguagem, das nossas ideias e das nossas atitudes passou a ter grande impacto junto dos quadros do Exército. 

Depois de cerca de seis meses passados em Mafra como instrutores do Curso de Oficiais Milicianos (COM), somos dispersos por diferentes quartéis do país, desta vez para desempenhar o papel de instrutores de soldados recrutas. Nada sabíamos sobre o nosso futuro, mas era certo que a mobilização para as colónias nos viria bater à porta. O que não esperávamos era que no início do ano de 1970 fôssemos reencontrar mais de uma vintena destes ex-alunos da AM no quartel do RI 5 das Caldas da Rainha. 

De imediato começamos a reunir-nos em conversas informais em que a pergunta era uma única: o que fazer? O sigilo das nossas reuniões passou a ser total desde o primeiro dia. Assim é que, em Fevereiro ou Março de 1970 já havíamos decidido o que fazer no caso de mobilização para a guerra colonial. Iniciamos então os primeiros contactos com gente da Oposição no sentido de obter documentos e ajuda para passar a fronteira. Rapidamente verificámos que o melhor era contar com os nossos próprios meios, pois a reacção dos elementos contactados foi tentar convencer-nos a não desertar dado que, diziam eles, a nossa experiência e a condição de ex-oficiais de carreira poderia ser de grande utilidade para a luta contra a guerra colonial no seio das FA. A nossa recusa de enveredar por esse caminho, que significava embarcar para as colónias, foi imediata e taxativa: DESERTÁMOS E DENUNCIÁMOS OS CRIMES DA GUERRA COLONIAL.

Esta deserção, resultado de uma iniciativa colectiva de 10 oficiais da Academia Militar, por isso mesmo teve um forte impacto no seio das forças armadas portuguesas: ao longo dos 14 anos da guerra colonial, foi a que maior impacto teve tanto no estrangeiro como em Portugal, aqui sobretudo pela grande divulgação que houve no interior dos quartéis, tanto na metrópole como no “ultramar”.

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