Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha
A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar.
A história do consumo das sopas de cavalo cansado em Portugal é mais complexa do que a caricatura a que frequentemente são reduzidas. Se, por um lado, tentam evocar um nostálgico universo rural de tradição, resistência e identidade popular, são sobretudo símbolo de pobreza extrema, de subalimentação e de práticas alimentares de recurso numa cultura nacionalista da alegre e modesta casinha, onde tudo o resto falha.
A origem da designação parece remontar ao século XIX, numa época anterior aos caminhos de ferro, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Ao longo do percurso, existiam pousadas onde viajantes e animais recuperavam forças. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar. Dessa prática teria surgido a expressão “sopas de cavalo cansado”.
Embora não existam fontes históricas definitivas que comprovem esta origem, a mesma interpretação aparece também na tradição galega, onde existem designações semelhantes, como sopas de cabalo cansado, sopas de burro cansado, sopas borrachas ou simplesmente sopas de viño. Em Portugal, além da expressão mais conhecida, registam-se igualmente variantes como “sopas de burro cansado” ou “sopas de vinho”, sobretudo em Trás-os-Montes e no Alto Douro.
Com o tempo, aquilo que terá começado como um alimento de recuperação para animais, transformou-se num pequeno-almoço comum entre as populações rurais pobres, sobretudo do Norte de Portugal. A dureza do trabalho agrícola, associada à escassez alimentar crónica, fazia do vinho não apenas uma bebida, mas também uma fonte de calorias e um elemento central da dieta quotidiana.
Existem outras sopas na cultura popular europeia que incluem vinho na sua composição, desde a sopa de cebola francesa, enriquecida com vinho branco ou xerez, as sopas alemãs e suíças de Riesling, passando pelas Weinsuppen do Norte de Itália, mas todas são bem mais sofisticadas e não refletem, como as nossas, uma utilização do vinho como ingrediente de reforço alimentar e energético.
A receita das sopas variava consoante a região e os recursos disponíveis. Na sua forma mais simples, consistia em pão duro demolhado em vinho tinto com açúcar. Noutras versões mais enriquecidas podiam juntar-se gema de ovo, mel, canela, broa de milho esfarelada ou vinho verde tinto. Servia-se numa malga ou tigela funda e era entendida como um alimento altamente energético, adequado ao desgaste físico do trabalho agrícola.
Estas práticas alimentares surgem num contexto histórico marcado por profundas carências económicas e sociais. Durante as décadas de 1930 e 1940 grande parte da população vivia em condições de miséria extrema, onde o salário do chamado “chefe de família” era insuficiente para assegurar sequer uma alimentação básica. Para sobreviver, era necessário o trabalho de todos os membros da família, incluindo crianças.
As sopas de cavalo cansado não eram, assim, apenas uma tradição gastronómica da ruralidade: eram uma resposta pragmática à fome, ao desgaste físico e à ausência de alternativas alimentares. O vinho, diluído no quotidiano rural, era encarado como um alimento fortalecedor, quase medicinal.
A vitivinicultura em Portugal, abençoado com o maior número de castas autóctones do mundo, umas notáveis 250, era um dos pilares da economia portuguesa. Nos anos 1940, a vinha ocupava 320 mil hectares repartidos por mais de 300 mil produtores, quase todos de pequena ou muito pequena dimensão, e era a que mobilizava mais mão de obra e durante mais tempo. O vinho representava uma das principais exportações nacionais, apenas ultrapassada pela da cortiça. Organismos como a Junta Nacional do Vinho, criada em 1937, ou o Grémio dos Armazenistas de Vinho controlavam preços, produção e propaganda, e promoviam intensamente a produção e o consumo de vinho como símbolo da identidade nacional, difundindo a ideia de que “beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses”.
O regime utilizava a iconografia rural e vínica como instrumento de propaganda nacionalista, apresentando um país harmonioso e tradicional que contrastava fortemente com a realidade de pobreza vivida por grande parte da população.
Em 1938, surgia um cartaz do Grémio dos Armazenistas de Vinho, conhecido como o Cartaz das Tabernas, que misturava com pouco rigor regras sanitárias e alegados argumentos científicos. O cartaz proclamava coisas extraordinárias como: “o alcoolismo é combatido pelo consumo de vinho”, frase atribuída a um misterioso Dr. Bertillon. Citava ainda, supostamente, Louis Pasteur com “o vinho é a mais sã e higiénica das bebidas”, demonizando as bebidas destiladas estrangeiras, onde se inclui a cerveja, essas sim, fontes de decadência social e moral. A propaganda chegava ao ponto de declarar que “um litro de vinho de 10º corresponde, como alimento, a 90 cl de leite, 370 g de pão, 585 g de carne ou cinco ovos”.
Contudo, a relação social com o álcool transformou-se profundamente ao longo do século XX e início do século XXI. Se durante décadas o consumo de vinho foi associado à força física, ao convívio, à celebração e até à saúde, hoje cresce uma visão muito mais crítica sobre o álcool e os seus impactos sociais e sanitários.
Depois do aumento do consumo durante o confinamento, houve um declínio geral no hábito de beber: as pessoas mais velhas continuam a ser as que mais bebem, enquanto os menos propensos ao consumo têm entre 16 e 24 anos, sendo que 26% dessa faixa etária é totalmente abstémia. São muitos jovens sóbrios. A cultura da grande bebedeira como evento olímpico regular que marcou os anos 1980 e 1990 perde prestígio social e o álcool deixa de ser um ritual obrigatório de integração juvenil e passa, para muitos, a representar algo antiquado, dispendioso e pouco desejável. Surgem agora as raves sem álcool, em cafés e padarias, apenas movidas a boas vibrações e o kombucha. Quantos Salazares seriam hoje precisos para devolver a alma genuinamente boémia ao dancefloor?
As razões para esta mudança são várias. Sair à noite tornou-se muito mais caro, mas sobretudo há alterações culturais profundas: maior preocupação com a saúde mental e física, novas formas de socialização, transformação das relações e menor pressão social para beber. Paralelamente, muitos espaços tradicionais de convívio noturno enfrentam dificuldades económicas e muitos encerram, pressionados pela gentrificação urbana, pelo aumento dos custos operacionais, mas, em grande parte, pela diminuição do consumo de álcool.
Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda
Ingredientes:
- 1 pera bem firme
- 2 copos generosos de vinho tinto
- 1 cálice de vinho do porto
- 1 cálice de aguardente velha
- 3 colheres de sopa de açúcar
- 3 colheres de sopa de flocos de aveia finos
- 1 estrela de anis
- 2 cravinhos
- 1 pau de canela
- Raspas de chocolate negro
Descasque a pera mantendo-a inteira e leve a lume moderado com todos os outros ingredientes, exceto a aveia e o chocolate. Deixe cozer a pera cerca de 10 minutos, retire-a e reserve.
Acrescente os flocos de aveia e deixe que cozinhem enquanto o molho reduz, mexendo sempre.
Sirva esta mistura numa taça, coloque por cima a pera e finalize com as raspas de chocolate.