Poderemos, então, para além da poeira e da ondulação dos dias, litigar no vazio o mais singelo dos gestos?
Somos os Ginetes galgando a correnteza, viemos para acentuar as sílabas ao vento, o fio aprumo na equidade do Homem. Somos plurais e simultâneos!
No traço que circunscreve a duração perfeita, o corpo demuda-se na álgebra que se manifesta na própria finitude, e a nossa jornada é apenas um brevíssimo lapso de tempo, e a cada palavra proferida, ou antes inaudita, o asseverar de que renasceremos com as flores na próxima primavera.
Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) qualidade do que é redundante, abundância excessiva; 2) superabundância de palavras, prolixidade; 3) recurso estilístico que consiste em usar intencionalmente palavras e expressões repetitivas e redundantes.
EM NOVILÍNGUA:
Redundância passou a equivaler a despedimento, nomeadamente por alegada extinção do posto de trabalho. Além desse significado novilinguístico, nota-se cada vez mais a utilização de redundâncias no discurso de políticos, empresários, jornalistas, comentadores e, por contágio, na população em geral, na proporção direta do empobrecimento da língua. O discurso encheu-se de expressões como “dizer que”, “aquilo que é”, etc., palavreado oco que ocupa o vazio deixado pela deserção do pensamento. A redução do vocabulário, simplificação gramatical e diminuição da complexidade na expressão oral e escrita têm vindo a ser associadas ao uso excessivo de redes sociais, algoritmos e falta de leitura, o que limita a capacidade de formular pensamentos complexos, entender matizes e a capacidade crítica. ASP
Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.
No morro que desce da Escola Politécnica até São Bento, a Calçada do João do Rio marca fronteira entre duas zonas distintas. De um lado São Mamede, freguesia de tom mais aristocrático; do outro, as Mercês e São Bento, com seus pátios proletários, alguns deles montados à volta da casa senhorial que serviam.
Na década de 1950, porém, os poderes instituídos começaram a favorecer nessa fronteira a construção de novos edifícios, forçando o casamento de casas modestas – como aquela onde nasceu e viveu a actriz Maria Matos – com as novas habitações, mais propícias à classe média e funcionários públicos, assim preparando a progressiva expulsão de operários, peixeiras e lúmpens nas décadas seguintes.
Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.
As peixeiras do bairro, fossem elas de canastra ou de triciclo, passavam a vida a fugir à guarda, por não terem como pagar licenças; de modo que muitas optavam por casar com um polícia, assim pondo termo a fugas e desatinos e resolvendo a vida de uma vez por todas.
Ao topo da calçada, mal se virava a esquina, apitavam logo as narinas – aqui há galego! E de facto, poucos metros andados, lá estava a tasca. Como boa tasca galega, ali se vendiam “copos de três” (tostões) de um horroroso vinho (razão tiveram as narinas, “aí não entres!”) e pazadas de carvão, tudo servido sem transição pelas mesmas mãos. Quase em frente ficava a mercearia, donde saíam marçanos impúberes a entregar recados calçada abaixo. Chegavam à porta da rua da cliente em questão, tocavam à campainha nos casos raros em que tal havia, senão berravam como bezerros, até que a cliente – e com ela toda a vizinhança – viesse à janela. E então, da janela do segundo ou terceiro andar, lá baixava a cestinha na ponta da guita, a recolher os ovos, a couve, o nabo … Ficávamos todas sabendo o que seria a janta nesse dia.
Por toda a parte alguém semeara mercearias, drogarias, padarias, latoeiros, funileiros, ferros-velhos, pasteleiros, caldeireiros com sua orquestra de maços tinindo o bronze, cerzideiras, enfim, uma miríade de negócios e lojinhas que viviam do comércio local. Eram todos da família, ou pouco menos que isso: “bom dia, Dona Augusta”, “como vão essas cruzes?”, “então que se conta de novo?”, “entre lá vizinho, sente-se aí um instante”.
Na época própria passava o burro da mulher dos figos e todos os dias, com pontualidade de torre sineira, a cesta do pão e o pote do leite batiam à porta. Uma vez por semana passava a flauta de pã do amolador, uma vez por mês a corneta da recolha do papel a peso, alternada com a do ferro-velho. Quem se lixava eram os muares, que aquelas calçadas não são brincadeira.
Poucos carros havia nessa época, de modo que as ruas eram ocupadas pela miudagem a jogar à bola, a saltar ao eixo ou a fazer corridas de caricas nos lancis de passeio, com turnos de mães assomando de vez em quando à vigia. Tudo por junto, entre flautas de pã, gritinhos gaiatos, metalúrgicos, latoeiros, caldeireiros e pregoeiros, formava-se uma sinfonia concreta da qual infelizmente não temos grandes registos sonoros. Se os tivéssemos, só por si contariam eles todo um romance urbano, sem necessidade de mais explicações. A essa banda sonora concreta vinham juntar-se as melodias dos pianos das casas endinheiradas e as cançonetas constantes das criadas e das donas-de-casa.
Nas casas mais humildes nem divisões de tijolo havia -- separavam-se as filhas dos adultos por finos tabiques de madeira, quando não simples cortinas. No meio de toda esta humildade, como já vos disse foram-se erguendo a partir da década de 1950 uns edifícios de cimento armado, sempre muito respeitadores da cota tradicional, é certo, mas ainda assim conspícuos. Dois havia frente a frente, em esquinas opostas a meio da João do Rio, que embora distintos pareciam traçados no mesmo estirador, pois ambos se revoltavam contra quinas: tinham a fachada redonda, de um convexo largo, achatado como arco abatido, só que deitado; nada que se parecesse com uma esquina simplesmente burilada, como se encontra noutros lugares. A quem por ali passasse sem nunca ter entrado num desses edifícios abaulados, não podia a imaginação deixar de cogitar como fariam os inquilinos para adaptar a tais curvas a quadratura do mobiliário.
Num desses prédios desquinados aventurou-se o senhor Salgueiro a afundar as suas poupanças, abrindo um serviço que naquela rua não havia ainda: o Big Ben, um pequeno café onde não cabiam mais que uma mesinha, duas cadeiras minorcas e três ou quatro clientes de pé, se não fossem esquisitos e se apertassem bem. À primeira vista não viria dali grande negócio, a não ser que os três ou quatro clientes que lá cabiam dessem todos por gorjeta uma nota de cem. O truque do negócio, porém, estava na cave. Nitidamente pensada pelo arquitecto para ser armazém, trocou-lhe as voltas o senhor Salgueiro: montou um salão com grande cópia de mesas e uns murais figurando Londres e o Big Ben que a população de estudantes da Faculdade de Ciências, do British Institute e de outras escolas circunvizinhas imediatamente adoptou como local de marmelada e estudo. O estudo era mais difícil, porque a cave não tinha janelas nem abundância de lâmpadas. Mas outra utilização do espaço associado ao café era ainda possível que nem à cabeça do Salgueiro assomara: o passeio.
Os passeios da calçada eram estreitos como os meus ombros, ou pouco mais, como é de regra nas calçadas lisboetas. Outra regra ainda, absolutamente sagrada, é a de bordejar a esquina do passeio com uma pedra de lancil levemente arredondada – todas as esquinas de Lisboa são buriladas, sem excepção. Mas naquele cruzamento a fachada abaulada do edifício não acompanhava a quina do passeio. Esta violação dos paralelismos abria assim, entre a fachada e a esquina, um espaço largo, uma espécie de esplanada que desde a inauguração do Big Ben a rapaziada do bairro elegeu como sede de tertúlia adolescente. Ali ficava o bando à galhofa até ao soar das doze badaladas nocturnas, ou quando os gritos de protesto dos honestos trabalhadores das redondezas, mortos de sono, vinham à janela pôr ordem na algazarra. Anos mais tarde correria a boca de que o edifício perdera a quina e se tornara convexo devido à fricção constante dos tertulianos contra a fachada – “vou ali polir a esquina”, diziam os rapazes aos pais quando queriam ir ter com os amigos.
Esta tertúlia tinha uma função formativa obrigatória e imperativa. Quem não a frequentasse tornava-se pária. Era aí que os mais velhos industriavam os mais novos na filosofia do macho ibérico e do bairrismo.
Tudo rapazes, porque as raparigas, ou por instinto ou por cautela das mães, tinham o cuidado de atravessar a rua e passar ao largo. Ainda assim, as jovens moradoras do bairro eram razoavelmente respeitadas, ou simplesmente ignoradas, por vezes saudadas com um aceno cortês de cabeça, certamente em nome da boa vizinhança; pelo menos até serem apanhadas na escuridão de uma escada deserta. As outras, as que não eram vizinhas nem conhecidas, sofriam de passagem a mordacidade dos dichotes, alguns hilariantes, ainda que bárbaros. À parte os assobios e a laboriosa prática da arte de mandar bocas às gajas (era um concurso de imaginação, umas vezes obscena, outras vezes non-sense), a tertúlia dos púberes podia ficar horas a lucubrar sobre os mais disparatados mitos urbanos, sobre o significado de as mulheres caminharem com os pés paralelos ou, pelo contrário, circunflexos, e outras meditações de carácter pouco menos que religioso-ó-esotérico. Outro tema que podia alimentar horas das mais abstrusas perorações, eram os carros e as motas – embora ninguém no núcleo duro da tertúlia tivesse nem uns nem outras.
Nas manhãs de sábado, um magazine atento ao presente, mas também às memórias, observando tanto Portugal como o mundo, percorrendo caminhos que podem ir do quotidiano à política, à sociedade, à cultura. Nos programas mais recentes, disponíveis na RTP play, podemos revisitar conversas com Jacinto Lucas Pires, José Carlos Vasconcelos ou Adolfo Mesquita Nunes.
Aurélio Gomes pensou ser psicólogo, mas, entretanto, apaixonou-se perdidamente pela rádio. Uma longa relação de mais de vinte anos, onde aprendeu o poder da palavra, das histórias, da voz. Na televisão, é moderador do programa “Eixo do Mal”, da SIC Notícias.
O Museu do Aljube, resultado de um forte movimento social de resgate da memória, surgido em cima da crise do capitalismo mundial de 2008, correspondeu em Portugal à emergência do primeiro grande movimento social de descontentamento com os resultados da democracia instaurada em 1975-1976: não era democracia social, como anunciavam os novos detentores do poder, quanto mais fase primeva de um país rumo ao socialismo, como apregoava a Constituição.
A memória social sobre a resistência à ditadura “fascista” – cá está um termo que não agrada a todos – e a história recente da “libertação” – um processo que só poucos admitem ter ocorrido – do país de um regime totalitário é hoje disputada por novas utopias reacionárias e fascizantes. De memória “fraca”, tornou-se uma memória conflitual, onde a reescrita da história (também da memória social e até da memória pública) e a negação dos factos toma peso e lugar.
Esta reação não é de hoje. Quando tomei conta do museu como seu primeiro diretor (em 25 de Abril de 2015) fui recebendo, logo nas primeiras semanas, ameaças vindas de várias origens. Lembro, pelo cómico e ridículo da situação, as “recomendações” que me foram chegando, derivadas (segundo os ocultos autores) de um Comité Anti-Antifascista”. Tudo isto se passava no recato de grupos que eu sempre considerei minúsculos: a luta antifascista tinha sido, durante a ditadura, uma luta de minorias ativas e esclarecidas, porque a esmagadora maioria do povo, insofrido e amedrontado, sempre se sujeitou ao falso “consenso” imposto pelos ditadores e pelas suas máquinas de controle: as polícias políticas e outras forças paramilitares, o Exército e a Igreja tradicional, para além de todo o aparelho político-administrativo do Estado. Esse “consenso” imposto transformou-se no pós-25 de Abril num silenciamento público generalizado, tão conveniente à consciência social do “bom povo português” como das elites democráticas que conduziram o país no período pós-revolucionário. A palavra-chave era a reconciliação de todos os portugueses, tida como necessária por militares e por sociais-democratas. O Povo Livre, órgão do recém-nascido PPD/PSD, que sempre tinha apregoado a existência no (primeiro ano da sua publicação) de um país fascista durante o salazarismo/caetanismo, logo apagou completamente o termo da cartilha e até o Partido Socialista foi anulando essa “existência” do fascismo. Seria um fascismo orgânico, endémico, segundo Eduardo Lourenço. O fascismo português era, pois, um “não fascismo” e os antifascistas (comunistas, democratas, radicais, mesmo liberais) uma espécie rara e dada a invencionices. Se o fascismo não existira, muito menos se justificava a existência de antifascistas, logo de comunistas, socialistas radicais, democratas antifascistas, etc. A memória antifascista passou a ser de poucos – a criação da URAP é de 1975/76, mas até esta organização, de forte pendor comunista, deixou de ter voz forte durante anos. O país apagara as conquistas da revolução democrática e antifascista e alistava-se alegremente no clube dos ricos da Europa, onde a democracia social era coisa garantida.
O Museu do Aljube, resultado de um forte movimento social de resgate da memória, surgido em cima da crise do capitalismo mundial de 2008, correspondeu em Portugal à emergência do primeiro grande movimento social de descontentamento com os resultados da democracia instaurada em 1975-1976: não era democracia social, como anunciavam os novos detentores do poder, quanto mais fase primeva de um país rumo ao socialismo, como apregoava a Constituição. Essa frustração levou no bojo as classes médias – com voz – e arrastou consigo as camadas populares. Afinal, o país não tinha superado o severo “atraso” histórico que o fascismo impusera durante meio século. Veremos Mário Soares a encabeçar a lista da petição que, em 2008, reivindicava, à Assembleia da República, a instalação de um Museu de Memória da Resistência ao fascismo na antiga prisão do Aljube de Lisboa. A unanimidade que a dita petição recolheu nem o CDS deixou de fora. Com o aprofundamento da crise, em 2011, à direita revanchista instalada no poder, sucedeu a reação da esquerda sob a forma de uma frente unida, que já não podia ser revolucionária; mas antes uma frente de esquerda unida para suster os avanços impetuosos da direita reacionária. É neste contexto que surge, em 2015, o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, sob a gestão administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, também ela governada pela mesma frente de esquerda.
Hoje, a substituição [da direção do museu] sem concurso público ou apresentação prévia de qualquer projeto museológico pela nova direção, causa desconfiança
Esta foi uma grande vitória, mas também o princípio do movimento revanchista que agora aparece à luz do dia, porque a consistência de um museu municipal é frágil; mesmo que a sua instalação já pareça consolidada, está fortemente dependente da força política instalada na autarquia, a qual, através de uma empresa municipal, se mostra capaz de, através da nomeação da direção do Museu, introduzir alterações à sua linha estratégica e missão. Um Museu de Memória da Resistência conta, em primeiro lugar, a história das oposições à ditadura, embora não possa ignorar a natureza da própria ditadura e até das forças políticas que agora procuram banalizar a violência política ditatorial e, desse modo, reescrever a história. Para estas forças, o salazarismo foi uma ditadura paternal, o fascismo uma invencionice das esquerdas unidas e a Revolução de Abril um ato pernicioso, responsável pelo atraso económico do país democrático. O mesmo se diga da descolonização, que se considera ter sido conduzida por traidores, a soldo de poderes ocultos.
Nos primeiros cinco anos de abertura ao público, o Museu do Aljube procurou consolidar uma instituição de carácter nacional, porque a libertação do povo português e o seu caminho em direção à democracia social, com o contributo inquestionável das oposições é, sem qualquer dúvida, uma vitória de todos os portugueses. Por isso, tanto como prestar uma reparação moral e promover o público reconhecimento das vítimas da violência fascista, importava dar a conhecer a sua luta e integrá-la na construção e renovação da democracia que, como cidadãos, temos obrigação de preservar e desenvolver.
Há seis anos, a renovação da direção foi acompanhada de grande contestação pública, apesar de o cargo ter sido entregue a alguém que se sujeitou a uma seleção de júri entre mais de seis dezenas de candidatos e de o seu projeto ter merecido o melhor apreço. Hoje, a sua substituição sem concurso público ou apresentação prévia de qualquer projeto museológico pela nova direção, causa desconfiança e algum descrédito inicial. Oxalá não seja ainda uma consequência da tal contestação que ocorreu há seis anos, uma espécie de reposição da “justiça” vilipendiada. Se assim for, pode ter sido em vão que se procurou instalar um Museu de Memória firmado na história contemporânea consolidada, na memória social confrontada com os seus mitos e obscuridades e no trabalho sério e honrado que faz do estudo, do debate e da divulgação criteriosa o melhor caminho para afirmação da verdade.
Não é fácil o amor Melhor seria arrancar um braço Fazê-lo voar Dar a volta ao mundo Abraçar todo o mundo Fazer da alegria o pão nosso de cada dia Não copiar os males do amor Matar a melancolia que há no amor Querer a vontade fria Ser cego, surdo, mudo Não sujeitar o amor ao destino de cada um Não ter destino nenhum Ser a própria imagem do amor
Não é fácil o amor Melhor seria arrancar um braço Fazê-lo voar Dar a volta ao mundo Abraçar todo o mundo Fazer da alegria o pão nosso de cada dia Não copiar os males do amor Matar a melancolia que há no amor Querer a vontade fria Ser cego, surdo, mudo Não sujeitar o amor ao destino de cada um Não ter destino nenhum Ser a própria imagem do amor
Pôr o coração ao largo Não sofrer os males do amor Não vacilar, ter a coragem De enfrentar a razão de ser da própria dor Porque o amor é triste Não é fácil o amor
No quadragésimo aniversário da morte do matemático e revolucionário Jean van Heijenoort, publicamos um artigo do historiador Pierre Broué em sua homenagem.
Jean van Heijenoort (à direita), ao lado de Trotsky e Frida Kahlo.
Van morreu com três tiros na cabeça, disparados à queima-roupa na noite de 28 para 29 de Março de 1986. Aquele que, durante sete anos, de Prinkipo1 a Coyoacán2, fora o precioso colaborador de Leon Trotsky ficou a repousar não muito longe deste, no cemitério francês da Cidade do México.
Chamou-se, ao nascer, no dia 23 de Julho de 1912, em Creil, Jean van Heijenoort, filho de um trabalhador holandês emigrante, operário nas fábricas Fichet. Aos dois anos, na primeira semana da guerra, morreu-lhe o pai, de uma úlcera no estômago de que não se conseguiu estancar a hemorragia; os médicos tinham todos partido. A mãe e a avó arranjaram emprego como criadas, vivendo ele, com elas, nas casas burguesas que as tinham empregado. Já o caracterizava o vigor excepcional das suas aptidões intelectuais. Da guerra, mesmo do tempo em que apenas tinha dois ou três anos, conservou memórias de extraordinária precisão. Conheceu a pobreza, mas não a miséria, pois aquelas mulheres trabalhavam e viviam para ele e para a sua irmã, e não lhe faltou amor. Mas teve de aguentar o ódio boçal, o racismo. Nunca se esqueceu de ter sido agredido na escola, tratado de “boche3 de merda” por causa do nome “estrangeiro” e da aparência física – com o seu fácies de loiro de olhos azuis – e também porque Guilherme II, “le Kaiser”, como se dizia, se refugiara na Holanda em 1918.
Não obstante, a escola municipal abrir-lhe-ia as portas do saber. Classificado em primeiro lugar no concurso para “bolsas” do departamento, no final da escola primária, foi admitido como interno no colégio de Clermont d’Oise, onde foi aluno brilhante. Ainda muito jovem, soube fazer-se respeitar, mantendo à distância praxes e perseguidores. O aluno excelente era um rapaz que não vergava. A política entrou muito cedo na sua vida, porque ele assim o quis. Odiava a guerra, abominava os discursos nacionalistas e os sermões, amava a vida e aspirava à justiça e à liberdade, já. A sua experiência de criança do Norte criada durante a guerra, com os canhões como ruído de fundo, numa sociedade de classes que exibia todos os estigmas da injustiça, começou por atraí-lo para um comunismo “utópico e rousseauniano”; depois, para a leitura de L'Humanité com o grupo de estudantes do ensino secundário que tinha reunido com o seu amigo Jean Beaussier. A sua inteligência muito rapidamente fez dele um jovem comunista simpatizante das ideias de Trotsky, de quem ainda nada tinha lido, mas cujo alcance pressentia e que, fosse como fosse, se recusava a condenar sem ter lido.
Finalista brilhante do secundário, obteve a bolsa que lhe permitiu ingressar no curso de matemática avançada no Liceu Saint-Louis, em Paris, no início do ano lectivo de Outubro de 1930. Algumas semanas depois, aconteceu o que tinha de acontecer: conheceu um grupo de jovens militantes da Oposição de Esquerda, dirigidos por Yvan Craipeau. Tinham ido apupar uma peça anticomunista no teatro de Charles Dullin, que obrigaram a discutir com eles e que acabou por lhes dar razão. De passagem, ganharam Van. Era um militante magnífico. Sem abandonar a matemática, foi aperfeiçoando os conhecimentos de russo e participando em todas as iniciativas do pequeno e dinâmico grupo a que acabara de aderir. Foi, assim, com naturalidade que, no início do ano lectivo de 1932, Raymond Molinier4, que andava à procura de um secretário e guarda-costas para Trotsky, lhe propôs que partisse para Prinkipo. Van não hesitou um segundo: nem lhe passaria pela cabeça. Partiu, transportado pelo entusiasmo, para se pôr ao serviço directo do homem que admirava, cujos escritos, publicados em várias línguas, agora conhecia, o companheiro de Lenine, chefe do Exército Vermelho, depois animador da Oposição de Esquerda, o homem do destino da revolução mundial. O comboio que levava Van era o da história, cujas asas cavalgava já...
Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky.
Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky. Que acrescentar ao seu próprio relato? Primeiro, a crise que o abalou com a cisão de La Commune: tal como os jovens militantes da sua geração, Van tinha sido atraído pela personalidade de Raymond Molinier, pela sua intrepidez, combatividade e dinamismo. A condenação de Molinier por Trotsky, o apelo a excluí-lo, surpreenderam-no: ao princípio, os argumentos do Velho não o convenceram. No entanto, ao fim de várias semanas de luta e debate, abandonou o grupo La Commune, um dos pilares do qual era a sua companheira, Gaby, e escreveu a Trotsky, reconhecendo que se tinha enganado. Podemos acreditar nele: convencera-se. Gravara no coração a fórmula “faz o que tens a fazer, aconteça o que acontecer!” Não obstante, o dilaceramento pessoal pesou muito, dele me falou muito e muitas vezes.
Acompanhou Trotsky na viagem e primeiros dias de estada na Noruega, em Junho de 1935, voltou lá na altura do processo de Moscovo, em Agosto de 1936, e das primeiras medidas repressivas do governo de Oslo. Foi nessa época que L'Humanité o tratou de agente fascista, criminoso, assassino, em artigos de que era ele, juntamente com Erwin Wolf, o alvo, os dois corajosos que tentavam quebrar o isolamento de Trotsky exigido por Moscovo. Falou-me das ameaças do órgão do PCF contra Wolf – efectivamente assassinado em Espanha, em 1937 –, mas só quando consultei L'Humanité descobri que as ameaças o visavam também a ele, o que não me dissera.
Durante o período em que Trotsky esteve em França, Van acompanhou-o em grande parte da sua errância entre Barbizon e Domène, nomeadamente em Lyon e Grenoble. E foi também ele o agente de ligação entre Paris e Domène e o seu tradutor cada vez mais solicitado: foi ele quem traduziu a série de artigos mais tarde publicados com o título Où va la France? Em 1936, foi também ele quem traduziu a obra de Leon Sedov5Livre rouge sur le procès de Moscou. Animador, em 1935, do secretariado internacional da juventude, organizador, em 1936, da greve na France mutualiste, foi pai de “Jeannot”, nascido durante uma das suas estadas em Domène.
Logo que chegou ao México, em 1937, mergulhou no trabalho de arquivo necessário à defesa dos acusados nos processos de Moscovo e ao funcionamento do contra-inquérito da comissão Dewey6. Nos primeiros meses, ao lado de Jan Frankel, realizou um trabalho titânico com os documentos de Trotsky, que tinha feito o seu melhor para guardar e classificar durante os anos passados na Turquia e que conhecia melhor do que ninguém. Era preciso encontrar rapidamente este ou aquele documento indispensável, analisá-lo, reproduzi-lo, ou mesmo traduzi-lo, comentá-lo, transmiti-lo. Em grande parte, foi nos seus ombros que a defesa de Trotsky face à comissão Dewey materialmente assentou. Foi nesta batalha obscura que conquistou a estima de todos os intelectuais americanos ganhos para a defesa de Trotsky.
Após a partida de Frankel, no Verão de 1938, Van já não era apenas o faz-tudo, mas o homem de confiança, o único recurso, o Van-que-resolve-tudo, de quem André Breton deu uma descrição tão acertada quanto comovente no seu discurso de 11 de Novembro de 1938 (“Visita a Trotsky”, Cahiers Léon Trotsky, n.º 12, Dezembro de 1982). Ele, que, à chegada, não falava uma palavra de espanhol, conseguiu, em poucos meses, construir uma sólida rede de relações – sem a qual nada é possível no México – na imprensa e no aparelho do Estado, no mundo político e no universo cardenista7. Tal não o impediu de continuar a intervir como militante trotskista, de escrever artigos teóricos – assinados como Jean Rebel – na revista Clave, que Trotsky inspirou, com a cobertura dos seus amigos intelectuais mexicanos. Era, ao mesmo tempo, amigo de Breton e confidente de Frida Kahlo.
Gostaria, a propósito dos silêncios de Van, de evocar aqui uma anedota relacionada com o texto de Breton que acabei de mencionar e a homenagem que o poeta presta a Van, “revolucionário da cabeça aos pés”, a quem Breton chama “o homem tal como eu o entendo, o amigo em toda a acepção da palavra”. Num dia de Julho de 1982, encontrei em Harvard uma cópia do protesto por ele enviado a Breton, datado de 6 de Dezembro de 1938:
“P.S. – Recebi cartas de vários lados sobre um discurso seu em que se falava de mim. É muito chato.”
É o Van chapado, neste protesto. Com vontade de o picar, copiei a frase e levei-lha à casa onde ocupávamos quartos frente a frente. Ele ainda não tinha chegado; afixei-lhe a cópia à porta e, enquanto esperava por ele, fui trabalhando em casa. Ele veio ter comigo uma hora mais tarde, mas, desta feita, sem vontade nenhuma de sorrir, como eu esperava, mas verdadeira e profundamente aflito por descobrir a que ponto chegava a minha estupidez: como é que eu não tinha percebido como Breton tinha sido imprudente ao dizer que Van trabalhava pelo menos doze horas por dia, que não era pago, apenas alojado e alimentado e que estava longe de Gaby e de Jeannot? Não iria Trotsky pensar que Van se tinha queixado? Confesso que garanti a Van que compreendia perfeitamente e que tinha cometido, de facto, um erro estúpido ao achar piada ao protesto dele a Breton.
Trotsky tinha, de facto, sentimentos de culpa para com jovens como Van ou Jan Frankel, que lhe dedicavam anos de vida — não, evidentemente, por causa dos estudos que perdiam, embora isso também fosse importante aos seus olhos, nem por causa de uma “carreira”, mas simplesmente porque a situação deles ao seu lado, por muito enriquecedora que fosse em certos aspectos, os isolava da vida, do movimento real das massas, alimentando no seu pensamento uma certa abstracção, inevitável no contexto em que se estavam a formar, mas lamentável. Assim, apesar do desagrado por se separar pessoalmente de gente insubstituível – como eram Jan e Van –, ele ficou feliz quando os viu voar finalmente pelas suas próprias asas e viver a sua própria experiência política. A de Frankel terminou com a cisão de 1940. A de Van durou mais tempo; passou-se também nas fileiras do Socialist Workers Party – ele foi “Gerland” na discussão de 1939-1940 –, mas, em última análise, também não foi positiva. Chegou o momento, creio eu, para o historiador dizer serenamente, numa revista científica e sem polémica, o que Van não quis escrever, primeiro porque não o podia fazer sem paixão e, mais tarde, talvez por já não lhe parecer essencial. Falou-me do assunto muitas vezes e longamente, de preferência nos nossos passeios dominicais, mas também à noite, nas belas e frescas noites da Califórnia. Secretário da Internacional, responsável pelo S.I.8 em Nova Iorque a partir de 1940, Van considerava – e considerou até ao fim – que não lhe foram aí proporcionadas condições elementares para o funcionamento de um organismo internacional e que este foi deliberadamente sufocado e paralisado na sua acção, que ele julgava capital, pela má vontade e pela passividade da direcção do SWP. A sua voz – coisa rara – velava-se de indignação quando se referia ao “controlo burocrático” do membro americano do S.I., Bert Cochran (E. R. Frank, ver Cahiers Léon Trotsky, n.º 20), às sessões em que este último embirrava com vírgulas na correspondência, a atrasava sistematicamente, comprometendo-a por vezes, à sua oposição sistemática a qualquer proposta e iniciativa. Van – que era então Daniel Logan, Marc Loris, Ann Vincent – teve desentendimentos ainda mais graves. Ficava seriamente indignado ao falar das audiências que na altura lhe concedeu James P. Cannon, o dirigente do partido americano, o SWP, sobre os problemas teóricos e práticos da IV Internacional, sobre a questão nacional na Europa, o problema das palavras de ordem democráticas, a necessidade de ajuda aos militantes da Europa oprimida. Consciente da enorme responsabilidade que sobre si recaía desde a morte de Trotsky, Van pensava em regressar clandestinamente a França. Assegurou-me amiúde que todas as suas urgentes perguntas nunca tiveram outra resposta, ao fim de horas de apaixonada defesa da Internacional, senão uma série de grunhidos inarticulados e garantias de que “se ia ver”. Nesse período, Van trabalhava para viver e exerceu, de facto, todos os ofícios. Isso, como ele me disse, não impediu Cannon de o acusar de ter “exigências de pequeno-burguês” por causa das horas de reunião com os militantes profissionais do SWP, que não tinham as restrições horárias às quais ele estava sujeito. Sempre lhe ouvi manifestar, acerca desse período, amargura e, por vezes, um certo rancor.
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Era, em contrapartida, mais discreto a respeito dos últimos anos da sua actividade militante na IV Internacional, prometendo-me apenas que “um dia” me falaria da sua participação na tendência Goldman-Morrow, uma promessa que não conseguiu cumprir. A partir de 1943, de facto, aliou-se a Felix Morrow e Albert Goldman e, juntos, eles opuseram-se a Cannon, em particular nas questões europeias. Era absurdo, aos seus olhos, imaginar, em 1943 que a revolução socialista iria ocorrer sem transição e vencer logo que o nazismo caísse; achar que, no momento em que o fascismo caía na Itália, era hora de guardar na prateleira das recordações as palavras de ordem democráticas; considerava um erro enorme, a roçar a renegação, ver no avanço do Exército Vermelho, por aplicação mecânica dos textos de EmDefesa do Marxismo, um passo em frente automático da revolução, erro ainda mais grave do que negar pura e simplesmente o papel contra-revolucionário do Kremlin à escala mundial. Não admira, portanto, que só tenha concordado uma única vez com Cannon, que foi quanto à dissolução do S.I. de Nova Iorque no final da guerra e à transferência dos seus poderes para o órgão constituído durante a guerra por Michel Pablo, o secretariado europeu. A questão era, de facto, garantir a independência do órgão supremo da IV Internacional em relação ao SWP, objectivo, aos seus olhos, prioritário. Mas Van não podia continuar a trabalhar com o S.I.: com o serviço militar suspenso, mobilizado de facto ao serviço de Trotsky e depois da Internacional, encontrava-se em situação irregular perante o Exército francês, e o caso, embora não tivesse gravidade, só pôde ser resolvido anos mais tarde.
Em 1948, após a exclusão dos seus camaradas de tendência do SWP, Van rompeu com a IV Internacional e com o marxismo. Nunca me quis falar dessa ruptura e nunca me disse mais do que o que escreveu nas suas memórias, na página 211, muito menos, pois, do que escrevera na Partisan Review de Março de 1948, com a assinatura de Jean Vannier, sobre o balanço do século decorrido desde a redacção do Manifesto do Partido Comunista.
Van só regressou à Europa em 1957, a pedido da Universidade de Harvard, em busca dos documentos dos arquivos Sedov, vendidos, mas não entregues, por Trotsky a Harvard, e que Natalia9 se tinha comprometido a recuperar. Conheci-o pela primeira vez no final dos anos 60 no Select Hôtel, na Place de la Sorbonne, num quarto onde mal cabiam duas pessoas sentadas, que era o seu pouso durante as suas breves estadas da época. Voltámos a ver-nos várias vezes depois disso, em Cambridge (Ma), onde ele me guiou, inicialmente para a “parte aberta”, mas também em Domène, em Paris, em Follonica, no México e, finalmente, em Stanford – para terminar em Grenoble, no passado dia 26 de Fevereiro, por ocasião da defesa da tese de Olivia Gall, onde, apesar do cansaço extremo, soube cativar com o seu charme uma centena de pessoas, jovens e velhos.
Quando eu não o estava a interrogar como a testemunha-actor de que precisava, ele soltava-se por vezes, evocava os terríveis anos 30, o dever sagrado de escrever uma história dos bolcheviques-leninistas russos, a tendência política mais perspicaz e heróica da história, a necessidade de fazer compreender às gerações mais jovens o pesadelo desses anos de 1936 a 1940, dos combatentes encurralados entre os assassinos de Estaline e os de Hitler, o desespero, o medo dos homens perseguidos, os assassinatos que se sucediam e os assassinos à espreita na sombra ante uma opinião pública indiferente. Bastava uma breve informação, um elemento político, por ténue que fosse, para reactivar nas engrenagens múltiplas do seu cérebro a máquina da política e ouvi-lo manifestar uma paixão que estava apenas enterrada: a Polónia foi uma dessas ocasiões, a partir da greve de Gdansk. Devorou, explicou, interrogou, acabando por perguntar em voz alta a si mesmo se, contrariamente a tudo o que tristemente pensara há tantos anos, este movimento operário ressurgente na Polónia não seria a andorinha que anunciava a Primavera, a morte do estalinismo sob os golpes dos trabalhadores.
No entanto, já não queria “falar de política”. Razões de simples moralidade o levaram, dizia, a aceitar testemunhar no processo instaurado por causa das odiosas calúnias a Joseph Hansen, assim contribuindo para a condenação dos caluniadores pelo tribunal de Los Angeles.
Do mesmo modo, interviera, nas décadas anteriores, nos Estados Unidos, após a prisão como agentes da GPU dos irmãos Sobolevicius – Roman Weil e Adolf Senine, no movimento – e de Mark Zborowski, o famoso “Étienne”, infiltrado pelos serviços de Estaline junto de Sedov, esforçando-se por conseguir que fossem interrogados sobre a preparação do assassinato de Trotsky e a execução dos de Reiss10 e Sedov. Os seus esforços neste ponto não foram coroados de êxito, o que o afligia. O mais importante contributo que, como não militante, deu para a história do movimento que ajudara a construir foi o enorme trabalho que consagrou, durante anos, às dezenas de milhares de documentos desses “Trotsky Papers”, os arquivos de Trotsky depositados em Harvard, que identificou um a um com o meticuloso cuidado de arquivista que já mostrava na altura em que, em Prinkipo e Coyoacán, assegurara a sua conservação e datação. Sem ele, sem esse trabalho imenso, parte significativa dos documentos hoje identificados, classificados, muitos deles traduzidos, publicados e comentados, não passaria de um amontoado de papéis velhos e incompreensíveis. A sua tarefa nesse sentido foi felizmente mais fácil em Stanford, nos arquivos da Hoover e nos papéis de Sedov. Nunca esquecerei a emoção, a alegria, que fazia a sua voz cantar, quando me anunciou ao telefone que tinha acabado de rever as famosas cartas do Velho a Liova11, com os seus longos P.S. manuscritos nos originais dactilografados, que ele dera por perdidos para sempre, mas ressurgiam no fundo Nikolaievsky.
A princípio reservado, sempre cauteloso, Van depositou confiança em mim, creio, quando leu o meu primeiro livro. A minha existência e a minha capacidade de trabalho davam-lhe o ensejo de pousar um fardo que começava a ficar pesado. Embora se tivesse sempre recusado a que o seu nome aparecesse, era ele, como eu lhe dizia em tom de brincadeira, “a eminência parda” ou “a alma danada” do Instituto Leon Trotsky, o inspirador exigente e, em simultâneo, conselheiro insubstituível das Œuvres e dos Cahiers Léon Trotsky. O trabalho do Instituto, os meus trabalhos pessoais, têm uma enorme dívida para com ele, que ele, infelizmente, já não nos pode impedir de assinalar. Gostaria, neste aspecto, de trazer à colação um facto curioso. Ano após ano, creio ter notado que ele já não se lembrava de episódios importantes que me tinha contado pessoalmente. Cedo me tive de render à evidência e, apesar do espanto inicial, admitir que ele se esquecia precisamente do que me tinha contado. Depois de ver e rever, disse-lho com cautela. Surpreendeu-me pela sua sorridente auto-satisfação: disse ser uma máquina muito bem afinada, que, ao envelhecer, resolvia assim o problema da sua sobrecarga, só se desfazendo daquilo que tinha a certeza de saber preservado. O mais surpreendente é que era verdade. Van era uma das mais belas máquinas intelectuais que me coube conhecer e admirar.
O Van que conheci já não era o Van que os polícias de uma pequena cidade do Midwest tinham detido por alguns dias porque a sua aparência de estrangeiro lhes parecera suspeita. Já não era o homem que tinha vivido de mil e um ofícios, do ensino de francês na Berlitz ao fabrico de prateleiras para arrumar os livros dos camaradas e a reparações de canalizações. Já não era o homem que construía ele próprio a sua cabana de férias e conhecia cem maneiras de preparar uma lagosta que não fora paga. Era o pai de Laure, filha da sua companheira norte-americana, Bunny, que conhecera em Coyoacán. Era um professor universitário de nomeada. Na década de 1950, ingressara no Departamento de Matemática da Universidade de Columbia, em Nova Iorque e, de 1965 a 1979, fora professor de Filosofia e História da Lógica na Universidade de Brandeis, em Waltham (Massachusetts). Em 1967, publicara uma obra de lógica matemática (From Frege to Gödel. A Sourcebook in Mathematical Logic) que lhe valeu uma real notoriedade entre os especialistas. Houve outros que, aliás, disseram quem foi Van, o matemático, e, sobretudo, Van, o lógico – talvez um dia seja possível reunir as homenagens num testemunho comum de homenagem à inteligência em todas as suas formas. Foi ele um dos especialistas que empreenderam a publicação póstuma dos artigos do grande lógico Gödel e, no ano passado, ele integrou a equipa do CNRS que retomou o seu projecto de publicação integral dos trabalhos do matemático francês Herbrand, falecido acidentalmente muito jovem. Não creio que exista congresso mundial de especialidade científica alguma em que Van não se sentisse no seu lugar e à vontade. Desconhecido do grande público, mesmo no México, onde viveu durante anos e onde a imprensa falou da morte de um “rico (!) homem de negócios de origem holandesa”, Van era apreciado em todo o mundo por muita gente competente e por amigos certos. Não havia cidade importante nem continente onde ele não pudesse ter pouso ou convite.
Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse
Aconteceu-me fazer piadas com o Van por ele transportar de um continente para o outro malas enormes e pesadas. Mas ninguém sabe que este homem, que ia, assim, de um dos seus filhos para o outro, de uma das suas pesquisas, de um dos seus escritórios para o outro, carregava nos braços metade dos seus bens. Durante os anos que antecederam e se seguiram ao seu 70.º aniversário, viveu em dois quartos de estudante, em Cambridge e depois em Menlo Park, com uma mesinha, duas cadeiras, um despertador, um rádio, o computador que ele próprio – sua última paixão – tinha montado, a sua velha máquina convertida em “impressora” e o seu caderno de endereços – um Gotha da inteligência – com o dossiê “especial”. O seu luxo – de que não pouco se orgulhava – era ter dois gabinetes em duas universidades diferentes, um em Pusey, em Harvard, e outro no Departamento de Matemática de Stanford, com algumas dezenas de livros, pastas, a sua correspondência e uma cama de campanha para a sesta. Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse.
Que o leitor me perdoe por apenas indirectamente ter tratado do “amigo”: mas como outra coisa seria possível, quando escrevo estas linhas poucos dias depois de tomar conhecimento desta perda irreparável e quando ela é Van? O “belo sorriso claro” de que falava André Breton em 1938 foi apagado para sempre. Subsistirá apenas, por mais alguns anos, na memória de quem o amou. Van gostava de dizer que, entre as centenas de milhões que somos, as diferenças individuais não passam de gradações infinitesimais. Incontestavelmente, tinha razão. Rendamo-nos, porém, a esta evidência: ele é insubstituível.
Em nome da equipa do Instituto Leon Trotsky, da qual sou aqui o porta-voz, em nome de todos aqueles que não conheço, mas que, tenho a certeza, me dão procuração para o fazer, saúdo-te, meu amigo Van, e agradeço-te pelo que foste e pelo que continuarás a ser para nós, quando a insuportável dor se tiver atenuado: como Breton sabia, foste o homem que nos consolou de tantos outros.
1“Ilha do Príncipe”. no mar de Marmara, perto de Istambul, primeiro local de exílio de Trotsky depois da sua expulsão da URSS em 1929.
2 Bairro na Cidade do México onde Trotsky viveu o seu último exílio, antes de ser assassinado por um agente da GPU de Estaline.
3 Boche: designação depreciativa dos Alemães em França.
4 Raymond Molinier, militante comunista francês, um dos fundadores da Oposição de Esquerda em França.
5 Leon Sedov: filho de Leon Trotsky e de Natalia Sedova, membro da Oposição de Esquerda, tornou-se, com o exílio do pai, no seu mais estreito colaborador. Morreu em 1938 em Paris, na sequência de uma operação à apendicite, envenenado pela polícia secreta de Estaline, a GPU (mais tarde o KGB).
6 A Comissão Dewey, presidida pelo filósofo norte-americano John Dewey, foi uma comissão de inquérito independente às acusações feitas a Leon Trotsky nos processos de Moscovo, formada em 1937. As suas conclusões foram publicadas num livro com o título Not Guilty!
7 Lázaro Cárdenas foi presidente do México de 1934 a 1940 e grande impulsionador da reforma agrária no país. Foi durante a sua presidência que Leon Trotsky encontrou no México o seu último refúgio, depois de expulso de vários países europeus, nomeadamente por pressões do Kremlin.
8 SI: O Secretariado Internacional da IV Internacional.
9 Natalia Sedova, militante bolchevique russa, mulher de Trotsky, mãe de Leon Sedov.
10 Ignace Reiss, militante comunista polaco-ucraniano, tornou-se membro dos serviços de informação da União Soviética. Em 1937, face à liquidação geral do partido bolchevique pela clique estalinista, Reiss, então em Paris, enviou uma carta a Estaline e ao CC do PCUS em que, devolvendo as suas condecorações, denunciava as purgas e declarava juntar-se a Trotsky e à IV Internacional. Foi assassinado por agentes da GPU na Suíça, onde se escondera, poucos meses depois.
11 Liova é o diminutivo russo de Lev’ (“Leão”), nome de Trotsky e do filho, Sedov.
Tradução e notas de Adriano Zilhão. O artigo de Pierre Broué é de 14 de Maio de 1986.
Um comboio de tempestades atlânticas varreu Portugal, em especial a região Centro, em menos de duas semanas. Deixou um rasto de calamidade do qual já não havia memória.
A nossa memória tende a ser seletiva, e, se fenómenos extremos sempre existiram, é hoje sabido que a sua intensidade e a frequência se irão agravar devido às alterações climáticas. Talvez estes episódios já sejam parte dessa transformação. Só séries temporais longas o confirmarão.
O que os dados científicos já nos dizem há bastante tempo, no entanto, é algo essencial: o risco não resulta apenas da intensidade dos eventos. Resulta das escolhas que fizemos e continuamos a fazer sobre como ocupar, gerir e transformar a paisagem. E, sobre isso, há pouco debate público e ainda menos literacia.
Portugal foi pioneiro, ainda na década de 1980, ao criar a Reserva Ecológica Nacional, impulsionada pela visão de arquitetos paisagistas como Gonçalo Ribeiro Telles, António Viana Barreto e Ilídio de Araújo. A par da Reserva Agrícola Nacional, esta estrutura permitiu, em muito, salvaguardar sistemas dunares, linhas de água, zonas húmidas, encostas com risco de erosão e deslizamento e os melhores solos agrícolas, ou seja, a base biofísica que sustenta o território e minimiza os riscos para pessoas e bens. Era, antes do tempo, aquilo a que hoje chamamos uma solução baseada na natureza.
Ainda assim, várias destas áreas têm vindo a ser destinadas a fins que contrariam a sua aptidão ecológica. As imagens recentes de habitações e infraestruturas destruídas em leitos de cheia ou em encostas instáveis mostram, de forma brutal, o custo dessas decisões. Veja-se ainda o caso da Costa Azul, entre Troia e Melides, progressivamente transformada de bem público comum em ativo (quase) privado, apesar da sua reconhecida vulnerabilidade ecológica e climática. Num cenário de subida do nível médio do mar e de maior frequência de eventos extremos, é provável que o Estado venha a ser chamado a proteger o que antes foi autorizado a construir, a custos que provavelmente não foram ponderados.
Se o pensamento sobre o ordenamento e a gestão da paisagem marcou, de forma diferenciadora, parte da legislação do pós-25 de Abril, a adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, trouxe novas agendas e prioridades. Fomos progressivamente substituindo visões integradas do território e da paisagem por abordagens mais setoriais, muitas vezes orientadas por financiamentos específicos. A palavra “paisagem” manteve-se nos diplomas, nas estratégias e nos planos. O conteúdo e a forma holística de olhar para o território nem sempre. E não deixa de ser irónico que, em 2005, Portugal tenha ratificado a Convenção Europeia da Paisagem, reafirmando o compromisso com a necessidade de termos uma visão integrada do território e da paisagem. Vinte anos depois, o sentido dessa ratificação continua por cumprir.
O problema não está na falta de planos. Está na aplicação desigual, na ausência de avaliação sistemática, antes e depois da implementação, e na dificuldade em corrigir o que falha.
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Mas há algo ainda mais básico que os planos não resolvem: a falta de gestão da paisagem. Aquilo que determina, dia após dia, se uma linha de água se mantém limpa, se uma encosta está estabilizada, se uma floresta é menos suscetível ao fogo. Essa gestão exige continuidade, recursos e uma visão que ultrapasse os limites administrativos dos territórios, as fronteiras de política entre ministérios e os ciclos eleitorais.
A nossa governação organiza-se por limites administrativos e lógicas setoriais. A paisagem não reconhece nem obedece a nenhum deles. A paisagem não é apenas o suporte biofísico do território, nem apenas o resultado visível da ação humana. É a interação contínua entre ambos e depende sempre de quem a lê, de como a habita e de como a gere diariamente.
Ler a paisagem como um sistema socio-ecológico permite identificar vulnerabilidades construídas ao longo do tempo, antecipar efeitos cumulativos e perceber como soluções num lugar podem agravar a vulnerabilidade noutro. Sem essa leitura integrada, a adaptação torna-se fragmentada, reativa e, muitas vezes, ineficaz. A paisagem não é o cenário onde os impactos ocorrem; é o sistema que determina a sua magnitude. É também, e por isso mesmo, o nível em que as políticas precisam de se encontrar (ambiente, agricultura, florestas, energia, ordenamento do território), porque é na paisagem que as suas consequências se tornam indissociáveis.
A Política Nacional de Arquitetura e Paisagem (PNAP), aprovada em 2015, reconhecia isso mesmo: a necessidade de abordagens holísticas e de integração da paisagem nas políticas sectoriais. Uma década depois, a PNAP permanece um documento de intenções, sem os instrumentos nem a autoridade necessários para vincular os sectores que, na prática, mais determinam a transformação da paisagem.
O diagnóstico não é novo. Adaptarmo-nos às alterações climáticas não significa apenas reforçar infraestruturas ou responder de forma reativa a emergências. Significa compreender como funcionam os sistemas que regulam a água, estabilizam os solos, moderam as temperaturas e sustentam as atividades económicas e sociais. A paisagem é o nível em que essas interações se tornam visíveis. É nela que se cruzam processos ecológicos e culturais, decisões políticas e os usos que fazemos do território para viver e produzir.
Sabemos o que falhou. A questão é o que fazemos com isso.
Temos agora a oportunidade e a obrigação de nos perguntarmos: que tipo de país queremos ser num contexto de mudança climática acelerada? Essa escolha não se faz apenas através de legislação avulsa ou de respostas de emergência. Faz-se também por meio da construção de uma visão partilhada da paisagem e do território, que procure alinhar políticas públicas, o conhecimento científico e a ação regional e local numa mesma direção.
Essa visão tem de ser supramunicipal. Tem de ser construída à escala dos sistemas naturais e sustentada por mecanismos de governação que assegurem continuidade para além dos ciclos políticos. A paisagem não se transforma ao ritmo de um mandato. E a adaptação climática também não.
A construção coletiva de uma estratégia para a paisagem portuguesa não pode continuar a fazer-se município a município, projeto a projeto, tempestade a tempestade, incêndio a incêndio. Exige coordenação, compromisso político sustentado e responsabilidade intergeracional. Porque a adaptação climática é também uma questão de justiça ambiental: os custos das decisões acumulam-se, mas raramente recaem sobre quem as tomou.
A última tempestade passou. A próxima já se forma algures no Atlântico. O que decidirmos enquanto o céu está limpo determinará o que resistirá quando ela chegar. Mas para decidir bem, primeiro é preciso saber ler a paisagem.
Carla Gonçalves é arquiteta paisagista. Diretora-executiva do Centro do Clima da Póvoa de Varzim. Investigadora do CITTA — Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente, Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto. As opiniões aqui expressas são de carácter pessoal e não refletem a posição institucional do Centro do Clima da Póvoa de Varzim, dos seus sócios fundadores e efetivos, nem do CITTA/FEUP.
Portugal tem uma política externa? Ou é apenas um repetidor de sinal da NATO/EUA e da UE?
Drones de combate MQ-9 Reaper da Força Aérea dos EUA, batizados de “drones assassinos” por poderem transportar até oito mísseis de precisão, continuam a circular pela Base das Lajes, nos Açores, juntando-se a muitas outras aeronaves norte-americanas destinadas ao Médio Oriente ou a abastecimento destas, enquanto o inefável ministro Rangel assegura, dia sim, dia não, que “o uso da Base das Lajes pelos EUA cumpre critérios do Direito internacional”. A utilização da base só pode ser feita “em resposta a um ataque sofrido, necessário e proporcional e que não vise alvos civis”. “Se essas garantias nos forem dadas e puderem ser observadas, estamos tranquilos. Até agora foi isso que aconteceu”, afirmou. Como se sabe, Iranianos, Palestinianos e Libaneses têm vindo a atacar-se e imolar-se a si próprios, talvez devido ao período pascal, apesar dos esforços dos “nossos aliados” Israel e Estados Unidos para evitá-lo.
A Constituição da República Portuguesa, cujo 50.º aniversário se celebra por estes dias, determina que “o Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre ele exerce” (art.º 5.º, 3), que Portugal se rege pelo “respeito dos direitos do homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados” e “preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares” (art.º 7, 1 e 2). Apoiar ou manter silêncios cúmplices perante o genocídio dos Palestinianos e a agressão ao Irão é cuspir nos princípios da Constituição. Os “blocos político-militares” a que a CRP se refere são o Pacto de Varsóvia (dissolvido em 1991) e a NATO, que se manteve e alargou muito para além do “Atlântico Norte”, até às fronteiras da Rússia, promovendo a guerra entre as duas maiores repúblicas da ex-URSS, Rússia e Ucrânia, visando o seu enfraquecimento e desmembramento. E que Portugal, diz a Constituição, devia empenhar-se em “dissolver”. No entanto, o programa deste governo (e de outros que o antecederam, incluindo os do atual presidente do Conselho Europeu – “Ó glória de mandar, ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama!”) defende o reforço da NATO, o seu alargamento e o da UE para leste, à Ucrânia, à Moldávia e à Geórgia, e o Plano ReArm Europe/Readiness 2030, o tal que, por exigência de Trump, impõe que 5% do PIB seja destinado à “defesa”, ou seja, à NATO – organização dirigida pelos EUA, com os anões obedientes que dirigem a UE a confundirem o ocupante da Casa Branca com a Branca de Neve.
Nem sequer o facto de espanhóis e brasileiros, putativos vizinhos e aliados estratégicos, se demarcarem claramente das políticas de Trump e da UE, dizendo “não à guerra” (embora não se tenham, até agora, atrevido a enviar um só petroleiro para Cuba sitiada – o “próximo alvo”, diz Trump), demoveu o intrépido Rangel e o seu patrão Montenegro da sua canina submissão. Diria Camões, a voz pesada do Velho do Restelo um pouco alevantando: “Mísera sorte! Estranha condição!”
Nunca um poderoso movimento contra a guerra foi tão necessário no nosso país e no mundo!
Poderemos, então, para além da poeira e da ondulação dos dias, litigar no vazio o mais singelo dos gestos?
Somos os Ginetes galgando a correnteza, viemos para acentuar as sílabas ao vento, o fio aprumo na equidade do Homem. Somos plurais e simultâneos!
No traço que circunscreve a duração perfeita, o corpo demuda-se na álgebra que se manifesta na própria finitude, e a nossa jornada é apenas um brevíssimo lapso de tempo, e a cada palavra proferida, ou antes inaudita, o asseverar de que renasceremos com as flores na próxima primavera.
Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) qualidade do que é redundante, abundância excessiva; 2) superabundância de palavras, prolixidade; 3) recurso estilístico que consiste em usar intencionalmente palavras e expressões repetitivas e redundantes.
EM NOVILÍNGUA:
Redundância passou a equivaler a despedimento, nomeadamente por alegada extinção do posto de trabalho. Além desse significado novilinguístico, nota-se cada vez mais a utilização de redundâncias no discurso de políticos, empresários, jornalistas, comentadores e, por contágio, na população em geral, na proporção direta do empobrecimento da língua. O discurso encheu-se de expressões como “dizer que”, “aquilo que é”, etc., palavreado oco que ocupa o vazio deixado pela deserção do pensamento. A redução do vocabulário, simplificação gramatical e diminuição da complexidade na expressão oral e escrita têm vindo a ser associadas ao uso excessivo de redes sociais, algoritmos e falta de leitura, o que limita a capacidade de formular pensamentos complexos, entender matizes e a capacidade crítica. ASP
Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.
No morro que desce da Escola Politécnica até São Bento, a Calçada do João do Rio marca fronteira entre duas zonas distintas. De um lado São Mamede, freguesia de tom mais aristocrático; do outro, as Mercês e São Bento, com seus pátios proletários, alguns deles montados à volta da casa senhorial que serviam.
Na década de 1950, porém, os poderes instituídos começaram a favorecer nessa fronteira a construção de novos edifícios, forçando o casamento de casas modestas – como aquela onde nasceu e viveu a actriz Maria Matos – com as novas habitações, mais propícias à classe média e funcionários públicos, assim preparando a progressiva expulsão de operários, peixeiras e lúmpens nas décadas seguintes.
Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.
As peixeiras do bairro, fossem elas de canastra ou de triciclo, passavam a vida a fugir à guarda, por não terem como pagar licenças; de modo que muitas optavam por casar com um polícia, assim pondo termo a fugas e desatinos e resolvendo a vida de uma vez por todas.
Ao topo da calçada, mal se virava a esquina, apitavam logo as narinas – aqui há galego! E de facto, poucos metros andados, lá estava a tasca. Como boa tasca galega, ali se vendiam “copos de três” (tostões) de um horroroso vinho (razão tiveram as narinas, “aí não entres!”) e pazadas de carvão, tudo servido sem transição pelas mesmas mãos. Quase em frente ficava a mercearia, donde saíam marçanos impúberes a entregar recados calçada abaixo. Chegavam à porta da rua da cliente em questão, tocavam à campainha nos casos raros em que tal havia, senão berravam como bezerros, até que a cliente – e com ela toda a vizinhança – viesse à janela. E então, da janela do segundo ou terceiro andar, lá baixava a cestinha na ponta da guita, a recolher os ovos, a couve, o nabo … Ficávamos todas sabendo o que seria a janta nesse dia.
Por toda a parte alguém semeara mercearias, drogarias, padarias, latoeiros, funileiros, ferros-velhos, pasteleiros, caldeireiros com sua orquestra de maços tinindo o bronze, cerzideiras, enfim, uma miríade de negócios e lojinhas que viviam do comércio local. Eram todos da família, ou pouco menos que isso: “bom dia, Dona Augusta”, “como vão essas cruzes?”, “então que se conta de novo?”, “entre lá vizinho, sente-se aí um instante”.
Na época própria passava o burro da mulher dos figos e todos os dias, com pontualidade de torre sineira, a cesta do pão e o pote do leite batiam à porta. Uma vez por semana passava a flauta de pã do amolador, uma vez por mês a corneta da recolha do papel a peso, alternada com a do ferro-velho. Quem se lixava eram os muares, que aquelas calçadas não são brincadeira.
Poucos carros havia nessa época, de modo que as ruas eram ocupadas pela miudagem a jogar à bola, a saltar ao eixo ou a fazer corridas de caricas nos lancis de passeio, com turnos de mães assomando de vez em quando à vigia. Tudo por junto, entre flautas de pã, gritinhos gaiatos, metalúrgicos, latoeiros, caldeireiros e pregoeiros, formava-se uma sinfonia concreta da qual infelizmente não temos grandes registos sonoros. Se os tivéssemos, só por si contariam eles todo um romance urbano, sem necessidade de mais explicações. A essa banda sonora concreta vinham juntar-se as melodias dos pianos das casas endinheiradas e as cançonetas constantes das criadas e das donas-de-casa.
Nas casas mais humildes nem divisões de tijolo havia -- separavam-se as filhas dos adultos por finos tabiques de madeira, quando não simples cortinas. No meio de toda esta humildade, como já vos disse foram-se erguendo a partir da década de 1950 uns edifícios de cimento armado, sempre muito respeitadores da cota tradicional, é certo, mas ainda assim conspícuos. Dois havia frente a frente, em esquinas opostas a meio da João do Rio, que embora distintos pareciam traçados no mesmo estirador, pois ambos se revoltavam contra quinas: tinham a fachada redonda, de um convexo largo, achatado como arco abatido, só que deitado; nada que se parecesse com uma esquina simplesmente burilada, como se encontra noutros lugares. A quem por ali passasse sem nunca ter entrado num desses edifícios abaulados, não podia a imaginação deixar de cogitar como fariam os inquilinos para adaptar a tais curvas a quadratura do mobiliário.
Num desses prédios desquinados aventurou-se o senhor Salgueiro a afundar as suas poupanças, abrindo um serviço que naquela rua não havia ainda: o Big Ben, um pequeno café onde não cabiam mais que uma mesinha, duas cadeiras minorcas e três ou quatro clientes de pé, se não fossem esquisitos e se apertassem bem. À primeira vista não viria dali grande negócio, a não ser que os três ou quatro clientes que lá cabiam dessem todos por gorjeta uma nota de cem. O truque do negócio, porém, estava na cave. Nitidamente pensada pelo arquitecto para ser armazém, trocou-lhe as voltas o senhor Salgueiro: montou um salão com grande cópia de mesas e uns murais figurando Londres e o Big Ben que a população de estudantes da Faculdade de Ciências, do British Institute e de outras escolas circunvizinhas imediatamente adoptou como local de marmelada e estudo. O estudo era mais difícil, porque a cave não tinha janelas nem abundância de lâmpadas. Mas outra utilização do espaço associado ao café era ainda possível que nem à cabeça do Salgueiro assomara: o passeio.
Os passeios da calçada eram estreitos como os meus ombros, ou pouco mais, como é de regra nas calçadas lisboetas. Outra regra ainda, absolutamente sagrada, é a de bordejar a esquina do passeio com uma pedra de lancil levemente arredondada – todas as esquinas de Lisboa são buriladas, sem excepção. Mas naquele cruzamento a fachada abaulada do edifício não acompanhava a quina do passeio. Esta violação dos paralelismos abria assim, entre a fachada e a esquina, um espaço largo, uma espécie de esplanada que desde a inauguração do Big Ben a rapaziada do bairro elegeu como sede de tertúlia adolescente. Ali ficava o bando à galhofa até ao soar das doze badaladas nocturnas, ou quando os gritos de protesto dos honestos trabalhadores das redondezas, mortos de sono, vinham à janela pôr ordem na algazarra. Anos mais tarde correria a boca de que o edifício perdera a quina e se tornara convexo devido à fricção constante dos tertulianos contra a fachada – “vou ali polir a esquina”, diziam os rapazes aos pais quando queriam ir ter com os amigos.
Esta tertúlia tinha uma função formativa obrigatória e imperativa. Quem não a frequentasse tornava-se pária. Era aí que os mais velhos industriavam os mais novos na filosofia do macho ibérico e do bairrismo.
Tudo rapazes, porque as raparigas, ou por instinto ou por cautela das mães, tinham o cuidado de atravessar a rua e passar ao largo. Ainda assim, as jovens moradoras do bairro eram razoavelmente respeitadas, ou simplesmente ignoradas, por vezes saudadas com um aceno cortês de cabeça, certamente em nome da boa vizinhança; pelo menos até serem apanhadas na escuridão de uma escada deserta. As outras, as que não eram vizinhas nem conhecidas, sofriam de passagem a mordacidade dos dichotes, alguns hilariantes, ainda que bárbaros. À parte os assobios e a laboriosa prática da arte de mandar bocas às gajas (era um concurso de imaginação, umas vezes obscena, outras vezes non-sense), a tertúlia dos púberes podia ficar horas a lucubrar sobre os mais disparatados mitos urbanos, sobre o significado de as mulheres caminharem com os pés paralelos ou, pelo contrário, circunflexos, e outras meditações de carácter pouco menos que religioso-ó-esotérico. Outro tema que podia alimentar horas das mais abstrusas perorações, eram os carros e as motas – embora ninguém no núcleo duro da tertúlia tivesse nem uns nem outras.
Nas manhãs de sábado, um magazine atento ao presente, mas também às memórias, observando tanto Portugal como o mundo, percorrendo caminhos que podem ir do quotidiano à política, à sociedade, à cultura. Nos programas mais recentes, disponíveis na RTP play, podemos revisitar conversas com Jacinto Lucas Pires, José Carlos Vasconcelos ou Adolfo Mesquita Nunes.
Aurélio Gomes pensou ser psicólogo, mas, entretanto, apaixonou-se perdidamente pela rádio. Uma longa relação de mais de vinte anos, onde aprendeu o poder da palavra, das histórias, da voz. Na televisão, é moderador do programa “Eixo do Mal”, da SIC Notícias.
O Museu do Aljube, resultado de um forte movimento social de resgate da memória, surgido em cima da crise do capitalismo mundial de 2008, correspondeu em Portugal à emergência do primeiro grande movimento social de descontentamento com os resultados da democracia instaurada em 1975-1976: não era democracia social, como anunciavam os novos detentores do poder, quanto mais fase primeva de um país rumo ao socialismo, como apregoava a Constituição.
A memória social sobre a resistência à ditadura “fascista” – cá está um termo que não agrada a todos – e a história recente da “libertação” – um processo que só poucos admitem ter ocorrido – do país de um regime totalitário é hoje disputada por novas utopias reacionárias e fascizantes. De memória “fraca”, tornou-se uma memória conflitual, onde a reescrita da história (também da memória social e até da memória pública) e a negação dos factos toma peso e lugar.
Esta reação não é de hoje. Quando tomei conta do museu como seu primeiro diretor (em 25 de Abril de 2015) fui recebendo, logo nas primeiras semanas, ameaças vindas de várias origens. Lembro, pelo cómico e ridículo da situação, as “recomendações” que me foram chegando, derivadas (segundo os ocultos autores) de um Comité Anti-Antifascista”. Tudo isto se passava no recato de grupos que eu sempre considerei minúsculos: a luta antifascista tinha sido, durante a ditadura, uma luta de minorias ativas e esclarecidas, porque a esmagadora maioria do povo, insofrido e amedrontado, sempre se sujeitou ao falso “consenso” imposto pelos ditadores e pelas suas máquinas de controle: as polícias políticas e outras forças paramilitares, o Exército e a Igreja tradicional, para além de todo o aparelho político-administrativo do Estado. Esse “consenso” imposto transformou-se no pós-25 de Abril num silenciamento público generalizado, tão conveniente à consciência social do “bom povo português” como das elites democráticas que conduziram o país no período pós-revolucionário. A palavra-chave era a reconciliação de todos os portugueses, tida como necessária por militares e por sociais-democratas. O Povo Livre, órgão do recém-nascido PPD/PSD, que sempre tinha apregoado a existência no (primeiro ano da sua publicação) de um país fascista durante o salazarismo/caetanismo, logo apagou completamente o termo da cartilha e até o Partido Socialista foi anulando essa “existência” do fascismo. Seria um fascismo orgânico, endémico, segundo Eduardo Lourenço. O fascismo português era, pois, um “não fascismo” e os antifascistas (comunistas, democratas, radicais, mesmo liberais) uma espécie rara e dada a invencionices. Se o fascismo não existira, muito menos se justificava a existência de antifascistas, logo de comunistas, socialistas radicais, democratas antifascistas, etc. A memória antifascista passou a ser de poucos – a criação da URAP é de 1975/76, mas até esta organização, de forte pendor comunista, deixou de ter voz forte durante anos. O país apagara as conquistas da revolução democrática e antifascista e alistava-se alegremente no clube dos ricos da Europa, onde a democracia social era coisa garantida.
O Museu do Aljube, resultado de um forte movimento social de resgate da memória, surgido em cima da crise do capitalismo mundial de 2008, correspondeu em Portugal à emergência do primeiro grande movimento social de descontentamento com os resultados da democracia instaurada em 1975-1976: não era democracia social, como anunciavam os novos detentores do poder, quanto mais fase primeva de um país rumo ao socialismo, como apregoava a Constituição. Essa frustração levou no bojo as classes médias – com voz – e arrastou consigo as camadas populares. Afinal, o país não tinha superado o severo “atraso” histórico que o fascismo impusera durante meio século. Veremos Mário Soares a encabeçar a lista da petição que, em 2008, reivindicava, à Assembleia da República, a instalação de um Museu de Memória da Resistência ao fascismo na antiga prisão do Aljube de Lisboa. A unanimidade que a dita petição recolheu nem o CDS deixou de fora. Com o aprofundamento da crise, em 2011, à direita revanchista instalada no poder, sucedeu a reação da esquerda sob a forma de uma frente unida, que já não podia ser revolucionária; mas antes uma frente de esquerda unida para suster os avanços impetuosos da direita reacionária. É neste contexto que surge, em 2015, o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, sob a gestão administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, também ela governada pela mesma frente de esquerda.
Hoje, a substituição [da direção do museu] sem concurso público ou apresentação prévia de qualquer projeto museológico pela nova direção, causa desconfiança
Esta foi uma grande vitória, mas também o princípio do movimento revanchista que agora aparece à luz do dia, porque a consistência de um museu municipal é frágil; mesmo que a sua instalação já pareça consolidada, está fortemente dependente da força política instalada na autarquia, a qual, através de uma empresa municipal, se mostra capaz de, através da nomeação da direção do Museu, introduzir alterações à sua linha estratégica e missão. Um Museu de Memória da Resistência conta, em primeiro lugar, a história das oposições à ditadura, embora não possa ignorar a natureza da própria ditadura e até das forças políticas que agora procuram banalizar a violência política ditatorial e, desse modo, reescrever a história. Para estas forças, o salazarismo foi uma ditadura paternal, o fascismo uma invencionice das esquerdas unidas e a Revolução de Abril um ato pernicioso, responsável pelo atraso económico do país democrático. O mesmo se diga da descolonização, que se considera ter sido conduzida por traidores, a soldo de poderes ocultos.
Nos primeiros cinco anos de abertura ao público, o Museu do Aljube procurou consolidar uma instituição de carácter nacional, porque a libertação do povo português e o seu caminho em direção à democracia social, com o contributo inquestionável das oposições é, sem qualquer dúvida, uma vitória de todos os portugueses. Por isso, tanto como prestar uma reparação moral e promover o público reconhecimento das vítimas da violência fascista, importava dar a conhecer a sua luta e integrá-la na construção e renovação da democracia que, como cidadãos, temos obrigação de preservar e desenvolver.
Há seis anos, a renovação da direção foi acompanhada de grande contestação pública, apesar de o cargo ter sido entregue a alguém que se sujeitou a uma seleção de júri entre mais de seis dezenas de candidatos e de o seu projeto ter merecido o melhor apreço. Hoje, a sua substituição sem concurso público ou apresentação prévia de qualquer projeto museológico pela nova direção, causa desconfiança e algum descrédito inicial. Oxalá não seja ainda uma consequência da tal contestação que ocorreu há seis anos, uma espécie de reposição da “justiça” vilipendiada. Se assim for, pode ter sido em vão que se procurou instalar um Museu de Memória firmado na história contemporânea consolidada, na memória social confrontada com os seus mitos e obscuridades e no trabalho sério e honrado que faz do estudo, do debate e da divulgação criteriosa o melhor caminho para afirmação da verdade.
Não é fácil o amor Melhor seria arrancar um braço Fazê-lo voar Dar a volta ao mundo Abraçar todo o mundo Fazer da alegria o pão nosso de cada dia Não copiar os males do amor Matar a melancolia que há no amor Querer a vontade fria Ser cego, surdo, mudo Não sujeitar o amor ao destino de cada um Não ter destino nenhum Ser a própria imagem do amor
Não é fácil o amor Melhor seria arrancar um braço Fazê-lo voar Dar a volta ao mundo Abraçar todo o mundo Fazer da alegria o pão nosso de cada dia Não copiar os males do amor Matar a melancolia que há no amor Querer a vontade fria Ser cego, surdo, mudo Não sujeitar o amor ao destino de cada um Não ter destino nenhum Ser a própria imagem do amor
Pôr o coração ao largo Não sofrer os males do amor Não vacilar, ter a coragem De enfrentar a razão de ser da própria dor Porque o amor é triste Não é fácil o amor
No quadragésimo aniversário da morte do matemático e revolucionário Jean van Heijenoort, publicamos um artigo do historiador Pierre Broué em sua homenagem.
Jean van Heijenoort (à direita), ao lado de Trotsky e Frida Kahlo.
Van morreu com três tiros na cabeça, disparados à queima-roupa na noite de 28 para 29 de Março de 1986. Aquele que, durante sete anos, de Prinkipo1 a Coyoacán2, fora o precioso colaborador de Leon Trotsky ficou a repousar não muito longe deste, no cemitério francês da Cidade do México.
Chamou-se, ao nascer, no dia 23 de Julho de 1912, em Creil, Jean van Heijenoort, filho de um trabalhador holandês emigrante, operário nas fábricas Fichet. Aos dois anos, na primeira semana da guerra, morreu-lhe o pai, de uma úlcera no estômago de que não se conseguiu estancar a hemorragia; os médicos tinham todos partido. A mãe e a avó arranjaram emprego como criadas, vivendo ele, com elas, nas casas burguesas que as tinham empregado. Já o caracterizava o vigor excepcional das suas aptidões intelectuais. Da guerra, mesmo do tempo em que apenas tinha dois ou três anos, conservou memórias de extraordinária precisão. Conheceu a pobreza, mas não a miséria, pois aquelas mulheres trabalhavam e viviam para ele e para a sua irmã, e não lhe faltou amor. Mas teve de aguentar o ódio boçal, o racismo. Nunca se esqueceu de ter sido agredido na escola, tratado de “boche3 de merda” por causa do nome “estrangeiro” e da aparência física – com o seu fácies de loiro de olhos azuis – e também porque Guilherme II, “le Kaiser”, como se dizia, se refugiara na Holanda em 1918.
Não obstante, a escola municipal abrir-lhe-ia as portas do saber. Classificado em primeiro lugar no concurso para “bolsas” do departamento, no final da escola primária, foi admitido como interno no colégio de Clermont d’Oise, onde foi aluno brilhante. Ainda muito jovem, soube fazer-se respeitar, mantendo à distância praxes e perseguidores. O aluno excelente era um rapaz que não vergava. A política entrou muito cedo na sua vida, porque ele assim o quis. Odiava a guerra, abominava os discursos nacionalistas e os sermões, amava a vida e aspirava à justiça e à liberdade, já. A sua experiência de criança do Norte criada durante a guerra, com os canhões como ruído de fundo, numa sociedade de classes que exibia todos os estigmas da injustiça, começou por atraí-lo para um comunismo “utópico e rousseauniano”; depois, para a leitura de L'Humanité com o grupo de estudantes do ensino secundário que tinha reunido com o seu amigo Jean Beaussier. A sua inteligência muito rapidamente fez dele um jovem comunista simpatizante das ideias de Trotsky, de quem ainda nada tinha lido, mas cujo alcance pressentia e que, fosse como fosse, se recusava a condenar sem ter lido.
Finalista brilhante do secundário, obteve a bolsa que lhe permitiu ingressar no curso de matemática avançada no Liceu Saint-Louis, em Paris, no início do ano lectivo de Outubro de 1930. Algumas semanas depois, aconteceu o que tinha de acontecer: conheceu um grupo de jovens militantes da Oposição de Esquerda, dirigidos por Yvan Craipeau. Tinham ido apupar uma peça anticomunista no teatro de Charles Dullin, que obrigaram a discutir com eles e que acabou por lhes dar razão. De passagem, ganharam Van. Era um militante magnífico. Sem abandonar a matemática, foi aperfeiçoando os conhecimentos de russo e participando em todas as iniciativas do pequeno e dinâmico grupo a que acabara de aderir. Foi, assim, com naturalidade que, no início do ano lectivo de 1932, Raymond Molinier4, que andava à procura de um secretário e guarda-costas para Trotsky, lhe propôs que partisse para Prinkipo. Van não hesitou um segundo: nem lhe passaria pela cabeça. Partiu, transportado pelo entusiasmo, para se pôr ao serviço directo do homem que admirava, cujos escritos, publicados em várias línguas, agora conhecia, o companheiro de Lenine, chefe do Exército Vermelho, depois animador da Oposição de Esquerda, o homem do destino da revolução mundial. O comboio que levava Van era o da história, cujas asas cavalgava já...
Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky.
Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky. Que acrescentar ao seu próprio relato? Primeiro, a crise que o abalou com a cisão de La Commune: tal como os jovens militantes da sua geração, Van tinha sido atraído pela personalidade de Raymond Molinier, pela sua intrepidez, combatividade e dinamismo. A condenação de Molinier por Trotsky, o apelo a excluí-lo, surpreenderam-no: ao princípio, os argumentos do Velho não o convenceram. No entanto, ao fim de várias semanas de luta e debate, abandonou o grupo La Commune, um dos pilares do qual era a sua companheira, Gaby, e escreveu a Trotsky, reconhecendo que se tinha enganado. Podemos acreditar nele: convencera-se. Gravara no coração a fórmula “faz o que tens a fazer, aconteça o que acontecer!” Não obstante, o dilaceramento pessoal pesou muito, dele me falou muito e muitas vezes.
Acompanhou Trotsky na viagem e primeiros dias de estada na Noruega, em Junho de 1935, voltou lá na altura do processo de Moscovo, em Agosto de 1936, e das primeiras medidas repressivas do governo de Oslo. Foi nessa época que L'Humanité o tratou de agente fascista, criminoso, assassino, em artigos de que era ele, juntamente com Erwin Wolf, o alvo, os dois corajosos que tentavam quebrar o isolamento de Trotsky exigido por Moscovo. Falou-me das ameaças do órgão do PCF contra Wolf – efectivamente assassinado em Espanha, em 1937 –, mas só quando consultei L'Humanité descobri que as ameaças o visavam também a ele, o que não me dissera.
Durante o período em que Trotsky esteve em França, Van acompanhou-o em grande parte da sua errância entre Barbizon e Domène, nomeadamente em Lyon e Grenoble. E foi também ele o agente de ligação entre Paris e Domène e o seu tradutor cada vez mais solicitado: foi ele quem traduziu a série de artigos mais tarde publicados com o título Où va la France? Em 1936, foi também ele quem traduziu a obra de Leon Sedov5Livre rouge sur le procès de Moscou. Animador, em 1935, do secretariado internacional da juventude, organizador, em 1936, da greve na France mutualiste, foi pai de “Jeannot”, nascido durante uma das suas estadas em Domène.
Logo que chegou ao México, em 1937, mergulhou no trabalho de arquivo necessário à defesa dos acusados nos processos de Moscovo e ao funcionamento do contra-inquérito da comissão Dewey6. Nos primeiros meses, ao lado de Jan Frankel, realizou um trabalho titânico com os documentos de Trotsky, que tinha feito o seu melhor para guardar e classificar durante os anos passados na Turquia e que conhecia melhor do que ninguém. Era preciso encontrar rapidamente este ou aquele documento indispensável, analisá-lo, reproduzi-lo, ou mesmo traduzi-lo, comentá-lo, transmiti-lo. Em grande parte, foi nos seus ombros que a defesa de Trotsky face à comissão Dewey materialmente assentou. Foi nesta batalha obscura que conquistou a estima de todos os intelectuais americanos ganhos para a defesa de Trotsky.
Após a partida de Frankel, no Verão de 1938, Van já não era apenas o faz-tudo, mas o homem de confiança, o único recurso, o Van-que-resolve-tudo, de quem André Breton deu uma descrição tão acertada quanto comovente no seu discurso de 11 de Novembro de 1938 (“Visita a Trotsky”, Cahiers Léon Trotsky, n.º 12, Dezembro de 1982). Ele, que, à chegada, não falava uma palavra de espanhol, conseguiu, em poucos meses, construir uma sólida rede de relações – sem a qual nada é possível no México – na imprensa e no aparelho do Estado, no mundo político e no universo cardenista7. Tal não o impediu de continuar a intervir como militante trotskista, de escrever artigos teóricos – assinados como Jean Rebel – na revista Clave, que Trotsky inspirou, com a cobertura dos seus amigos intelectuais mexicanos. Era, ao mesmo tempo, amigo de Breton e confidente de Frida Kahlo.
Gostaria, a propósito dos silêncios de Van, de evocar aqui uma anedota relacionada com o texto de Breton que acabei de mencionar e a homenagem que o poeta presta a Van, “revolucionário da cabeça aos pés”, a quem Breton chama “o homem tal como eu o entendo, o amigo em toda a acepção da palavra”. Num dia de Julho de 1982, encontrei em Harvard uma cópia do protesto por ele enviado a Breton, datado de 6 de Dezembro de 1938:
“P.S. – Recebi cartas de vários lados sobre um discurso seu em que se falava de mim. É muito chato.”
É o Van chapado, neste protesto. Com vontade de o picar, copiei a frase e levei-lha à casa onde ocupávamos quartos frente a frente. Ele ainda não tinha chegado; afixei-lhe a cópia à porta e, enquanto esperava por ele, fui trabalhando em casa. Ele veio ter comigo uma hora mais tarde, mas, desta feita, sem vontade nenhuma de sorrir, como eu esperava, mas verdadeira e profundamente aflito por descobrir a que ponto chegava a minha estupidez: como é que eu não tinha percebido como Breton tinha sido imprudente ao dizer que Van trabalhava pelo menos doze horas por dia, que não era pago, apenas alojado e alimentado e que estava longe de Gaby e de Jeannot? Não iria Trotsky pensar que Van se tinha queixado? Confesso que garanti a Van que compreendia perfeitamente e que tinha cometido, de facto, um erro estúpido ao achar piada ao protesto dele a Breton.
Trotsky tinha, de facto, sentimentos de culpa para com jovens como Van ou Jan Frankel, que lhe dedicavam anos de vida — não, evidentemente, por causa dos estudos que perdiam, embora isso também fosse importante aos seus olhos, nem por causa de uma “carreira”, mas simplesmente porque a situação deles ao seu lado, por muito enriquecedora que fosse em certos aspectos, os isolava da vida, do movimento real das massas, alimentando no seu pensamento uma certa abstracção, inevitável no contexto em que se estavam a formar, mas lamentável. Assim, apesar do desagrado por se separar pessoalmente de gente insubstituível – como eram Jan e Van –, ele ficou feliz quando os viu voar finalmente pelas suas próprias asas e viver a sua própria experiência política. A de Frankel terminou com a cisão de 1940. A de Van durou mais tempo; passou-se também nas fileiras do Socialist Workers Party – ele foi “Gerland” na discussão de 1939-1940 –, mas, em última análise, também não foi positiva. Chegou o momento, creio eu, para o historiador dizer serenamente, numa revista científica e sem polémica, o que Van não quis escrever, primeiro porque não o podia fazer sem paixão e, mais tarde, talvez por já não lhe parecer essencial. Falou-me do assunto muitas vezes e longamente, de preferência nos nossos passeios dominicais, mas também à noite, nas belas e frescas noites da Califórnia. Secretário da Internacional, responsável pelo S.I.8 em Nova Iorque a partir de 1940, Van considerava – e considerou até ao fim – que não lhe foram aí proporcionadas condições elementares para o funcionamento de um organismo internacional e que este foi deliberadamente sufocado e paralisado na sua acção, que ele julgava capital, pela má vontade e pela passividade da direcção do SWP. A sua voz – coisa rara – velava-se de indignação quando se referia ao “controlo burocrático” do membro americano do S.I., Bert Cochran (E. R. Frank, ver Cahiers Léon Trotsky, n.º 20), às sessões em que este último embirrava com vírgulas na correspondência, a atrasava sistematicamente, comprometendo-a por vezes, à sua oposição sistemática a qualquer proposta e iniciativa. Van – que era então Daniel Logan, Marc Loris, Ann Vincent – teve desentendimentos ainda mais graves. Ficava seriamente indignado ao falar das audiências que na altura lhe concedeu James P. Cannon, o dirigente do partido americano, o SWP, sobre os problemas teóricos e práticos da IV Internacional, sobre a questão nacional na Europa, o problema das palavras de ordem democráticas, a necessidade de ajuda aos militantes da Europa oprimida. Consciente da enorme responsabilidade que sobre si recaía desde a morte de Trotsky, Van pensava em regressar clandestinamente a França. Assegurou-me amiúde que todas as suas urgentes perguntas nunca tiveram outra resposta, ao fim de horas de apaixonada defesa da Internacional, senão uma série de grunhidos inarticulados e garantias de que “se ia ver”. Nesse período, Van trabalhava para viver e exerceu, de facto, todos os ofícios. Isso, como ele me disse, não impediu Cannon de o acusar de ter “exigências de pequeno-burguês” por causa das horas de reunião com os militantes profissionais do SWP, que não tinham as restrições horárias às quais ele estava sujeito. Sempre lhe ouvi manifestar, acerca desse período, amargura e, por vezes, um certo rancor.
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Era, em contrapartida, mais discreto a respeito dos últimos anos da sua actividade militante na IV Internacional, prometendo-me apenas que “um dia” me falaria da sua participação na tendência Goldman-Morrow, uma promessa que não conseguiu cumprir. A partir de 1943, de facto, aliou-se a Felix Morrow e Albert Goldman e, juntos, eles opuseram-se a Cannon, em particular nas questões europeias. Era absurdo, aos seus olhos, imaginar, em 1943 que a revolução socialista iria ocorrer sem transição e vencer logo que o nazismo caísse; achar que, no momento em que o fascismo caía na Itália, era hora de guardar na prateleira das recordações as palavras de ordem democráticas; considerava um erro enorme, a roçar a renegação, ver no avanço do Exército Vermelho, por aplicação mecânica dos textos de EmDefesa do Marxismo, um passo em frente automático da revolução, erro ainda mais grave do que negar pura e simplesmente o papel contra-revolucionário do Kremlin à escala mundial. Não admira, portanto, que só tenha concordado uma única vez com Cannon, que foi quanto à dissolução do S.I. de Nova Iorque no final da guerra e à transferência dos seus poderes para o órgão constituído durante a guerra por Michel Pablo, o secretariado europeu. A questão era, de facto, garantir a independência do órgão supremo da IV Internacional em relação ao SWP, objectivo, aos seus olhos, prioritário. Mas Van não podia continuar a trabalhar com o S.I.: com o serviço militar suspenso, mobilizado de facto ao serviço de Trotsky e depois da Internacional, encontrava-se em situação irregular perante o Exército francês, e o caso, embora não tivesse gravidade, só pôde ser resolvido anos mais tarde.
Em 1948, após a exclusão dos seus camaradas de tendência do SWP, Van rompeu com a IV Internacional e com o marxismo. Nunca me quis falar dessa ruptura e nunca me disse mais do que o que escreveu nas suas memórias, na página 211, muito menos, pois, do que escrevera na Partisan Review de Março de 1948, com a assinatura de Jean Vannier, sobre o balanço do século decorrido desde a redacção do Manifesto do Partido Comunista.
Van só regressou à Europa em 1957, a pedido da Universidade de Harvard, em busca dos documentos dos arquivos Sedov, vendidos, mas não entregues, por Trotsky a Harvard, e que Natalia9 se tinha comprometido a recuperar. Conheci-o pela primeira vez no final dos anos 60 no Select Hôtel, na Place de la Sorbonne, num quarto onde mal cabiam duas pessoas sentadas, que era o seu pouso durante as suas breves estadas da época. Voltámos a ver-nos várias vezes depois disso, em Cambridge (Ma), onde ele me guiou, inicialmente para a “parte aberta”, mas também em Domène, em Paris, em Follonica, no México e, finalmente, em Stanford – para terminar em Grenoble, no passado dia 26 de Fevereiro, por ocasião da defesa da tese de Olivia Gall, onde, apesar do cansaço extremo, soube cativar com o seu charme uma centena de pessoas, jovens e velhos.
Quando eu não o estava a interrogar como a testemunha-actor de que precisava, ele soltava-se por vezes, evocava os terríveis anos 30, o dever sagrado de escrever uma história dos bolcheviques-leninistas russos, a tendência política mais perspicaz e heróica da história, a necessidade de fazer compreender às gerações mais jovens o pesadelo desses anos de 1936 a 1940, dos combatentes encurralados entre os assassinos de Estaline e os de Hitler, o desespero, o medo dos homens perseguidos, os assassinatos que se sucediam e os assassinos à espreita na sombra ante uma opinião pública indiferente. Bastava uma breve informação, um elemento político, por ténue que fosse, para reactivar nas engrenagens múltiplas do seu cérebro a máquina da política e ouvi-lo manifestar uma paixão que estava apenas enterrada: a Polónia foi uma dessas ocasiões, a partir da greve de Gdansk. Devorou, explicou, interrogou, acabando por perguntar em voz alta a si mesmo se, contrariamente a tudo o que tristemente pensara há tantos anos, este movimento operário ressurgente na Polónia não seria a andorinha que anunciava a Primavera, a morte do estalinismo sob os golpes dos trabalhadores.
No entanto, já não queria “falar de política”. Razões de simples moralidade o levaram, dizia, a aceitar testemunhar no processo instaurado por causa das odiosas calúnias a Joseph Hansen, assim contribuindo para a condenação dos caluniadores pelo tribunal de Los Angeles.
Do mesmo modo, interviera, nas décadas anteriores, nos Estados Unidos, após a prisão como agentes da GPU dos irmãos Sobolevicius – Roman Weil e Adolf Senine, no movimento – e de Mark Zborowski, o famoso “Étienne”, infiltrado pelos serviços de Estaline junto de Sedov, esforçando-se por conseguir que fossem interrogados sobre a preparação do assassinato de Trotsky e a execução dos de Reiss10 e Sedov. Os seus esforços neste ponto não foram coroados de êxito, o que o afligia. O mais importante contributo que, como não militante, deu para a história do movimento que ajudara a construir foi o enorme trabalho que consagrou, durante anos, às dezenas de milhares de documentos desses “Trotsky Papers”, os arquivos de Trotsky depositados em Harvard, que identificou um a um com o meticuloso cuidado de arquivista que já mostrava na altura em que, em Prinkipo e Coyoacán, assegurara a sua conservação e datação. Sem ele, sem esse trabalho imenso, parte significativa dos documentos hoje identificados, classificados, muitos deles traduzidos, publicados e comentados, não passaria de um amontoado de papéis velhos e incompreensíveis. A sua tarefa nesse sentido foi felizmente mais fácil em Stanford, nos arquivos da Hoover e nos papéis de Sedov. Nunca esquecerei a emoção, a alegria, que fazia a sua voz cantar, quando me anunciou ao telefone que tinha acabado de rever as famosas cartas do Velho a Liova11, com os seus longos P.S. manuscritos nos originais dactilografados, que ele dera por perdidos para sempre, mas ressurgiam no fundo Nikolaievsky.
A princípio reservado, sempre cauteloso, Van depositou confiança em mim, creio, quando leu o meu primeiro livro. A minha existência e a minha capacidade de trabalho davam-lhe o ensejo de pousar um fardo que começava a ficar pesado. Embora se tivesse sempre recusado a que o seu nome aparecesse, era ele, como eu lhe dizia em tom de brincadeira, “a eminência parda” ou “a alma danada” do Instituto Leon Trotsky, o inspirador exigente e, em simultâneo, conselheiro insubstituível das Œuvres e dos Cahiers Léon Trotsky. O trabalho do Instituto, os meus trabalhos pessoais, têm uma enorme dívida para com ele, que ele, infelizmente, já não nos pode impedir de assinalar. Gostaria, neste aspecto, de trazer à colação um facto curioso. Ano após ano, creio ter notado que ele já não se lembrava de episódios importantes que me tinha contado pessoalmente. Cedo me tive de render à evidência e, apesar do espanto inicial, admitir que ele se esquecia precisamente do que me tinha contado. Depois de ver e rever, disse-lho com cautela. Surpreendeu-me pela sua sorridente auto-satisfação: disse ser uma máquina muito bem afinada, que, ao envelhecer, resolvia assim o problema da sua sobrecarga, só se desfazendo daquilo que tinha a certeza de saber preservado. O mais surpreendente é que era verdade. Van era uma das mais belas máquinas intelectuais que me coube conhecer e admirar.
O Van que conheci já não era o Van que os polícias de uma pequena cidade do Midwest tinham detido por alguns dias porque a sua aparência de estrangeiro lhes parecera suspeita. Já não era o homem que tinha vivido de mil e um ofícios, do ensino de francês na Berlitz ao fabrico de prateleiras para arrumar os livros dos camaradas e a reparações de canalizações. Já não era o homem que construía ele próprio a sua cabana de férias e conhecia cem maneiras de preparar uma lagosta que não fora paga. Era o pai de Laure, filha da sua companheira norte-americana, Bunny, que conhecera em Coyoacán. Era um professor universitário de nomeada. Na década de 1950, ingressara no Departamento de Matemática da Universidade de Columbia, em Nova Iorque e, de 1965 a 1979, fora professor de Filosofia e História da Lógica na Universidade de Brandeis, em Waltham (Massachusetts). Em 1967, publicara uma obra de lógica matemática (From Frege to Gödel. A Sourcebook in Mathematical Logic) que lhe valeu uma real notoriedade entre os especialistas. Houve outros que, aliás, disseram quem foi Van, o matemático, e, sobretudo, Van, o lógico – talvez um dia seja possível reunir as homenagens num testemunho comum de homenagem à inteligência em todas as suas formas. Foi ele um dos especialistas que empreenderam a publicação póstuma dos artigos do grande lógico Gödel e, no ano passado, ele integrou a equipa do CNRS que retomou o seu projecto de publicação integral dos trabalhos do matemático francês Herbrand, falecido acidentalmente muito jovem. Não creio que exista congresso mundial de especialidade científica alguma em que Van não se sentisse no seu lugar e à vontade. Desconhecido do grande público, mesmo no México, onde viveu durante anos e onde a imprensa falou da morte de um “rico (!) homem de negócios de origem holandesa”, Van era apreciado em todo o mundo por muita gente competente e por amigos certos. Não havia cidade importante nem continente onde ele não pudesse ter pouso ou convite.
Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse
Aconteceu-me fazer piadas com o Van por ele transportar de um continente para o outro malas enormes e pesadas. Mas ninguém sabe que este homem, que ia, assim, de um dos seus filhos para o outro, de uma das suas pesquisas, de um dos seus escritórios para o outro, carregava nos braços metade dos seus bens. Durante os anos que antecederam e se seguiram ao seu 70.º aniversário, viveu em dois quartos de estudante, em Cambridge e depois em Menlo Park, com uma mesinha, duas cadeiras, um despertador, um rádio, o computador que ele próprio – sua última paixão – tinha montado, a sua velha máquina convertida em “impressora” e o seu caderno de endereços – um Gotha da inteligência – com o dossiê “especial”. O seu luxo – de que não pouco se orgulhava – era ter dois gabinetes em duas universidades diferentes, um em Pusey, em Harvard, e outro no Departamento de Matemática de Stanford, com algumas dezenas de livros, pastas, a sua correspondência e uma cama de campanha para a sesta. Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse.
Que o leitor me perdoe por apenas indirectamente ter tratado do “amigo”: mas como outra coisa seria possível, quando escrevo estas linhas poucos dias depois de tomar conhecimento desta perda irreparável e quando ela é Van? O “belo sorriso claro” de que falava André Breton em 1938 foi apagado para sempre. Subsistirá apenas, por mais alguns anos, na memória de quem o amou. Van gostava de dizer que, entre as centenas de milhões que somos, as diferenças individuais não passam de gradações infinitesimais. Incontestavelmente, tinha razão. Rendamo-nos, porém, a esta evidência: ele é insubstituível.
Em nome da equipa do Instituto Leon Trotsky, da qual sou aqui o porta-voz, em nome de todos aqueles que não conheço, mas que, tenho a certeza, me dão procuração para o fazer, saúdo-te, meu amigo Van, e agradeço-te pelo que foste e pelo que continuarás a ser para nós, quando a insuportável dor se tiver atenuado: como Breton sabia, foste o homem que nos consolou de tantos outros.
1“Ilha do Príncipe”. no mar de Marmara, perto de Istambul, primeiro local de exílio de Trotsky depois da sua expulsão da URSS em 1929.
2 Bairro na Cidade do México onde Trotsky viveu o seu último exílio, antes de ser assassinado por um agente da GPU de Estaline.
3 Boche: designação depreciativa dos Alemães em França.
4 Raymond Molinier, militante comunista francês, um dos fundadores da Oposição de Esquerda em França.
5 Leon Sedov: filho de Leon Trotsky e de Natalia Sedova, membro da Oposição de Esquerda, tornou-se, com o exílio do pai, no seu mais estreito colaborador. Morreu em 1938 em Paris, na sequência de uma operação à apendicite, envenenado pela polícia secreta de Estaline, a GPU (mais tarde o KGB).
6 A Comissão Dewey, presidida pelo filósofo norte-americano John Dewey, foi uma comissão de inquérito independente às acusações feitas a Leon Trotsky nos processos de Moscovo, formada em 1937. As suas conclusões foram publicadas num livro com o título Not Guilty!
7 Lázaro Cárdenas foi presidente do México de 1934 a 1940 e grande impulsionador da reforma agrária no país. Foi durante a sua presidência que Leon Trotsky encontrou no México o seu último refúgio, depois de expulso de vários países europeus, nomeadamente por pressões do Kremlin.
8 SI: O Secretariado Internacional da IV Internacional.
9 Natalia Sedova, militante bolchevique russa, mulher de Trotsky, mãe de Leon Sedov.
10 Ignace Reiss, militante comunista polaco-ucraniano, tornou-se membro dos serviços de informação da União Soviética. Em 1937, face à liquidação geral do partido bolchevique pela clique estalinista, Reiss, então em Paris, enviou uma carta a Estaline e ao CC do PCUS em que, devolvendo as suas condecorações, denunciava as purgas e declarava juntar-se a Trotsky e à IV Internacional. Foi assassinado por agentes da GPU na Suíça, onde se escondera, poucos meses depois.
11 Liova é o diminutivo russo de Lev’ (“Leão”), nome de Trotsky e do filho, Sedov.
Tradução e notas de Adriano Zilhão. O artigo de Pierre Broué é de 14 de Maio de 1986.
Um comboio de tempestades atlânticas varreu Portugal, em especial a região Centro, em menos de duas semanas. Deixou um rasto de calamidade do qual já não havia memória.
A nossa memória tende a ser seletiva, e, se fenómenos extremos sempre existiram, é hoje sabido que a sua intensidade e a frequência se irão agravar devido às alterações climáticas. Talvez estes episódios já sejam parte dessa transformação. Só séries temporais longas o confirmarão.
O que os dados científicos já nos dizem há bastante tempo, no entanto, é algo essencial: o risco não resulta apenas da intensidade dos eventos. Resulta das escolhas que fizemos e continuamos a fazer sobre como ocupar, gerir e transformar a paisagem. E, sobre isso, há pouco debate público e ainda menos literacia.
Portugal foi pioneiro, ainda na década de 1980, ao criar a Reserva Ecológica Nacional, impulsionada pela visão de arquitetos paisagistas como Gonçalo Ribeiro Telles, António Viana Barreto e Ilídio de Araújo. A par da Reserva Agrícola Nacional, esta estrutura permitiu, em muito, salvaguardar sistemas dunares, linhas de água, zonas húmidas, encostas com risco de erosão e deslizamento e os melhores solos agrícolas, ou seja, a base biofísica que sustenta o território e minimiza os riscos para pessoas e bens. Era, antes do tempo, aquilo a que hoje chamamos uma solução baseada na natureza.
Ainda assim, várias destas áreas têm vindo a ser destinadas a fins que contrariam a sua aptidão ecológica. As imagens recentes de habitações e infraestruturas destruídas em leitos de cheia ou em encostas instáveis mostram, de forma brutal, o custo dessas decisões. Veja-se ainda o caso da Costa Azul, entre Troia e Melides, progressivamente transformada de bem público comum em ativo (quase) privado, apesar da sua reconhecida vulnerabilidade ecológica e climática. Num cenário de subida do nível médio do mar e de maior frequência de eventos extremos, é provável que o Estado venha a ser chamado a proteger o que antes foi autorizado a construir, a custos que provavelmente não foram ponderados.
Se o pensamento sobre o ordenamento e a gestão da paisagem marcou, de forma diferenciadora, parte da legislação do pós-25 de Abril, a adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, trouxe novas agendas e prioridades. Fomos progressivamente substituindo visões integradas do território e da paisagem por abordagens mais setoriais, muitas vezes orientadas por financiamentos específicos. A palavra “paisagem” manteve-se nos diplomas, nas estratégias e nos planos. O conteúdo e a forma holística de olhar para o território nem sempre. E não deixa de ser irónico que, em 2005, Portugal tenha ratificado a Convenção Europeia da Paisagem, reafirmando o compromisso com a necessidade de termos uma visão integrada do território e da paisagem. Vinte anos depois, o sentido dessa ratificação continua por cumprir.
O problema não está na falta de planos. Está na aplicação desigual, na ausência de avaliação sistemática, antes e depois da implementação, e na dificuldade em corrigir o que falha.
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Mas há algo ainda mais básico que os planos não resolvem: a falta de gestão da paisagem. Aquilo que determina, dia após dia, se uma linha de água se mantém limpa, se uma encosta está estabilizada, se uma floresta é menos suscetível ao fogo. Essa gestão exige continuidade, recursos e uma visão que ultrapasse os limites administrativos dos territórios, as fronteiras de política entre ministérios e os ciclos eleitorais.
A nossa governação organiza-se por limites administrativos e lógicas setoriais. A paisagem não reconhece nem obedece a nenhum deles. A paisagem não é apenas o suporte biofísico do território, nem apenas o resultado visível da ação humana. É a interação contínua entre ambos e depende sempre de quem a lê, de como a habita e de como a gere diariamente.
Ler a paisagem como um sistema socio-ecológico permite identificar vulnerabilidades construídas ao longo do tempo, antecipar efeitos cumulativos e perceber como soluções num lugar podem agravar a vulnerabilidade noutro. Sem essa leitura integrada, a adaptação torna-se fragmentada, reativa e, muitas vezes, ineficaz. A paisagem não é o cenário onde os impactos ocorrem; é o sistema que determina a sua magnitude. É também, e por isso mesmo, o nível em que as políticas precisam de se encontrar (ambiente, agricultura, florestas, energia, ordenamento do território), porque é na paisagem que as suas consequências se tornam indissociáveis.
A Política Nacional de Arquitetura e Paisagem (PNAP), aprovada em 2015, reconhecia isso mesmo: a necessidade de abordagens holísticas e de integração da paisagem nas políticas sectoriais. Uma década depois, a PNAP permanece um documento de intenções, sem os instrumentos nem a autoridade necessários para vincular os sectores que, na prática, mais determinam a transformação da paisagem.
O diagnóstico não é novo. Adaptarmo-nos às alterações climáticas não significa apenas reforçar infraestruturas ou responder de forma reativa a emergências. Significa compreender como funcionam os sistemas que regulam a água, estabilizam os solos, moderam as temperaturas e sustentam as atividades económicas e sociais. A paisagem é o nível em que essas interações se tornam visíveis. É nela que se cruzam processos ecológicos e culturais, decisões políticas e os usos que fazemos do território para viver e produzir.
Sabemos o que falhou. A questão é o que fazemos com isso.
Temos agora a oportunidade e a obrigação de nos perguntarmos: que tipo de país queremos ser num contexto de mudança climática acelerada? Essa escolha não se faz apenas através de legislação avulsa ou de respostas de emergência. Faz-se também por meio da construção de uma visão partilhada da paisagem e do território, que procure alinhar políticas públicas, o conhecimento científico e a ação regional e local numa mesma direção.
Essa visão tem de ser supramunicipal. Tem de ser construída à escala dos sistemas naturais e sustentada por mecanismos de governação que assegurem continuidade para além dos ciclos políticos. A paisagem não se transforma ao ritmo de um mandato. E a adaptação climática também não.
A construção coletiva de uma estratégia para a paisagem portuguesa não pode continuar a fazer-se município a município, projeto a projeto, tempestade a tempestade, incêndio a incêndio. Exige coordenação, compromisso político sustentado e responsabilidade intergeracional. Porque a adaptação climática é também uma questão de justiça ambiental: os custos das decisões acumulam-se, mas raramente recaem sobre quem as tomou.
A última tempestade passou. A próxima já se forma algures no Atlântico. O que decidirmos enquanto o céu está limpo determinará o que resistirá quando ela chegar. Mas para decidir bem, primeiro é preciso saber ler a paisagem.
Carla Gonçalves é arquiteta paisagista. Diretora-executiva do Centro do Clima da Póvoa de Varzim. Investigadora do CITTA — Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente, Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto. As opiniões aqui expressas são de carácter pessoal e não refletem a posição institucional do Centro do Clima da Póvoa de Varzim, dos seus sócios fundadores e efetivos, nem do CITTA/FEUP.
Como podemos compreender a servidão voluntária num sistema não ditatorial? Em empresas e locais de trabalho comuns? Aqui, o problema central é perceber como um comportamento habitualmente reprovado pela maioria pode tornar-se progressivamente aceitável, ou mesmo banal.
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ilustração: Ricardo ferreira
1. O problema do consentimento das massas
Na origem do meu interesse pela psicodinâmica do trabalho está uma questão que apelidarei provisoriamente de questão da reprodução social. Por reprodução social entendo aqui o fenómeno da permanência das relações sociais existentes e da continuidade ao longo do tempo de uma ordem social que, porém, gera desigualdade e injustiça. Em síntese, como pode perdurar um sistema político que gera sofrimento, desigualdades crescentes e injustiça, chegando mesmo a obter a adesão daqueles que se tornam suas vítimas? Esta é uma questão central no domínio das ciências sociais, que foi colocada e abordada por vários autores, seja na sociologia, na filosofia, na teoria política, etc.
A questão do conformismo das massas, da sua submissão à autoridade de um líder, surgiu sob o duplo efeito das revoltas populares e dos movimentos sociais que agitaram o final do século XIX e o início do século XX, e do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa (Moscovici, 1985). Os primeiros tratados sobre a questão, como o célebre ensaio de Gustave Le Bon, são na realidade manuais de manipulação de massas. Foram escritos numa perspetiva autoritária e a sua função era fornecer aos líderes políticos instrumentos de controlo das massas, para assim evitar revoltas sociais (Le Bon procurava evitar, na realidade, que os eventos da Comuna de Paris se reproduzissem). Daí o seu sucesso junto de dirigentes políticos fascistas, como Mussolini.
Numa perspetiva mais emancipatória, esta questão tornou-se uma preocupação tanto para os investigadores que tentaram explicar a adesão de setores importantes da classe trabalhadora aos movimentos fascistas (Reich, 1997), quanto, mais tarde, para aqueles que quiseram entender os assassínios em massa cometidos durante o holocausto (Browning, 1998).
Esse problema esteve, por exemplo, no centro dos trabalhos dos autores da Escola de Frankfurt, que usaram a psicanálise para tentar compreender a irracionalidade social, ou seja, a adesão dos indivíduos a uma ordem social contrária aos seus interesses (essa preocupação dará origem, nomeadamente, ao estudo de Adorno e seus colaboradores sobre a personalidade autoritária) (Adorno et al., 2019). A questão do consentimento também permeia a investigação de Hannah Arendt sobre o caso Eichmann, que culminou na formulação da famosa tese da banalidade do mal (Arendt, 1966). Foi ainda para encontrar respostas a este espinhoso problema – o da participação de indivíduos comuns em atos desumanos – que Stanley Milgram desenvolveu a sua famosa experiência sobre a obediência à autoridade (Milgram, 2009). As conclusões de Milgram tiveram um impacto considerável, entre outros, nos trabalhos do historiador Christopher Browning, que estudou a participação de “homens comuns” do 101.º batalhão de reserva da polícia no holocausto (Browning, 1998). Como é que homens comuns, bons pais de família, que tinham a liberdade de recusar as missões que lhes eram propostas, se tornaram assassinos em massa? Browning recorreu aos estudos de Milgram e destacou a importância do conformismo, das pressões exercidas pelos pares e da submissão à autoridade para explicar os comportamentos bárbaros destes indivíduos.
Trata-se de compreender como logra o sistema neoliberal produzir a colaboração em massa sem recorrer à violência.
Esses trabalhos constituem uma referência importante para a psicodinâmica do trabalho. Juntamente com o Discurso da servidão voluntária de La Boétie (La Boétie, 1574), desempenharam um papel importante na construção da problemática da servidão voluntária. Mas a maioria deles diz respeito a regimes totalitários, ou seja, regimes políticos em que o uso da violência (tortura, assassínios, prisões, etc.) faz parte dos métodos empregados pelo poder para garantir o controlo social. Ao contrário desses trabalhos, em Souffrance en France, Christophe Dejours (Dejours, 1998) interessa-se pelo sistema neoliberal, ou seja, um sistema político que se baseia em métodos de dominação distintos daqueles utilizados nos regimes totalitários. O objetivo de Souffrance en France não é comparar a mecânica do sistema totalitário com a do sistema neoliberal, considerando-os equivalentes. A problemática de Souffrance en France é, na verdade, exatamente oposta: trata-se de compreender como logra o sistema neoliberal produzir a colaboração em massa sem recorrer à violência, como nos sistemas totalitários. Dejours parte da hipótese de que, embora os dois sistemas, totalitarismo e neoliberalismo, sejam distintos, o processo que leva os indivíduos a colaborar com o poder é semelhante. A originalidade da abordagem da psicodinâmica do trabalho consiste em atribuir ao trabalho um papel central nesse processo.
2. O processo de banalização da injustiça social
Como podemos compreender a servidão voluntária num sistema não ditatorial? Em empresas e locais de trabalho comuns? Aqui, o problema central é perceber como um comportamento habitualmente reprovado pela maioria pode tornar-se progressivamente aceitável, ou mesmo banal.
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Para analisar o que apelidamos em psicodinâmica do trabalho de processo de banalização da injustiça social, Christophe Dejours baseia-se numa clínica específica. É importante indicar isto, pois, embora os trabalhos teóricos sobre o consentimento em massa constituam uma importante fonte de inspiração, é fundamentalmente uma constatação clínica que está na origem da reflexão sobre a servidão voluntária em psicodinâmica do trabalho. Qual é, então, a clínica que fundamenta este questionamento?
A análise das formas de sofrimento no trabalho e das defesas contra o sofrimento está no centro da teoria psicodinâmica da servidão voluntária. Em Souffrance en France, Dejours destaca o sofrimento relacionado com o medo no trabalho. O medo relacionado com acidentes em profissões de risco (construção civil, indústria química ou nuclear, etc.), ou o medo relacionado com a ameaça de demissão e desemprego é uma fonte fundamental de sofrimento no trabalho. Funciona como uma alavanca da submissão. É preciso defender-se desse medo, se quisermos evitar cair na doença mental. É por isso que os trabalhadores implementam estratégias individuais e coletivas de defesa, que lhes permitem ocultar os riscos e negar o medo. No exemplo hoje em dia bem conhecido das estratégias coletivas de defesa dos trabalhadores da construção civil, expostas em Travail, usure mentale (Dejours, 1980), é através da negação do risco que os trabalhadores conseguem combater o medo. Estas defesas permitem enfrentar os riscos do trabalho, mas, em contrapartida, amputam parcialmente a capacidade de pensar dos indivíduos. Para sofrer menos, os trabalhadores desvalorizam, ou até banalizam, o sofrimento alheio. Ao negarem o que causa sofrimento, as defesas aumentam a insensibilidade ao sofrimento e, por isso, levam a uma maior tolerância à injustiça. Consequentemente, a articulação entre sofrimento e defesas está no centro do processo de banalização do mal. Em suma, é essencialmente para não sofrer que os indivíduos consentem em servir. O seu comportamento é orientado pelo desejo de não sofrer, e não pelo desejo de servir.
Todavia, a clínica do trabalho leva também a outras conclusões, mais problemáticas. Em primeiro lugar, as pesquisas em psicodinâmica do trabalho levam à conclusão de que nenhuma empresa, administração ou serviço pode funcionar sem a mobilização da inteligência dos seus trabalhadores. Devido à diferença sempre existente entre o trabalho prescrito e o trabalho real, nenhuma organização pode prescindir da contribuição subjetiva dos trabalhadores para manter o seu bom funcionamento. Se admitirmos que, para colmatar esta diferença, é inevitável recorrer a uma contribuição viva e subjetiva, então temos de concluir, em primeiro lugar, que nenhuma organização pode funcionar sem o esforço constante dos seus membros para a fazer funcionar e, em segundo lugar, que os trabalhadores não são passivos no processo de produção.
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Mas para além da importância atribuída ao medo na génese do processo de banalização da injustiça, em Souffrance en France Dejours considera uma fonte adicional de sofrimento no trabalho, o sofrimento ético. A noção de sofrimento ético designa “o sofrimento que resulta não de um mal sofrido pelo sujeito, mas aquele que ele pode sentir ao cometer, devido ao seu trabalho, atos que reprova moralmente” (Dejours, 1998, p. 44). Este sofrimento não é um efeito daquilo que é imposto ao trabalhador, mas do que ele faz em nome do seu trabalho. Christophe Dejours argumenta, portanto, que a colaboração com o “trabalho sujo” dá origem a uma forma específica de sofrimento que decorre da “consciência dolorosa da própria cumplicidade” (Dejours, 1998, p. 23) e que pode ser assimilada tanto a um medo da responsabilidade como a uma consciência de culpa. Chamo a vossa atenção para um aspeto central desta nova forma de sofrimento: o sofrimento ético instala-se quando os trabalhadores aceitam, apesar de tudo, colaborar. Na verdade, o sofrimento ético é uma confissão de colaboração. Daí o aparecimento da culpa. O sujeito sente-se culpado por algo que fez (ou que se absteve de fazer, mas que poderia ter feito). Esse sofrimento dá origem a um conflito consigo mesmo, também chamado de conflito intrapsíquico. Distinto do sofrimento relacionado com o medo ou a falta de reconhecimento, o sofrimento ético remete para o medo de perder a própria dignidade e de trair os seus ideais e valores.
3. A recepção de Souffrance en France e a questão da dominação
3.1. A servidão voluntária: uma negação da dominação?
A problemática da servidão voluntária, introduzida em psicodinâmica do trabalho com as teses desenvolvidas em Souffrance en France, foi alvo de críticas acerbas. Grande parte dessas críticas gira em torno da acusação de “psicologismo”. Para muitos autores, a análise de Christophe Dejours seria marcada pelo “psicologismo”, aqui entendido como um desconhecimento, ou mesmo como uma negação da dominação. O psicologismo consistiria em não levar em conta o peso das estruturas e das relações sociais sobre a ação individual. Assim, num debate publicado por ocasião do lançamento de Souffrance en France na revista Sociologie du Travail, o sociólogo Jean-Pierre Durand dirá, por exemplo:
De facto, este absolutismo da mente impede o autor de pensar no papel das estruturas sociais, na função da acumulação de capital (com as suas crises) na produção das relações de produção e do sofrimento (ou do prazer), nem, é claro, de pensar a combinação dialética entre o indivíduo e o social. A posição de Dejours de que os fenómenos sociais são produto da agregação de comportamentos individuais impede-o de perceber a natureza da política (campo intrinsecamente ligado à economia e às contradições que a impulsionam) ou faz que conceba o campo político como um apêndice social de submissões individuais nascidas das mentiras de líderes perversos ou psicóticos (Durand, Baszanger & Dejours, 2000, p. 318).2
Se retomo aqui as objeções de Durand, é porque elas me parecem representativas de um conjunto mais geral de críticas que acusam a psicodinâmica do trabalho de uma tendência para “psicologizar o social”. A maioria desses autores postula, com razão, que as relações de dominação funcionam como uma restrição. Têm um efeito coercivo que impede os indivíduos de agir como gostariam. Seria, afinal, uma ilusão imaginar que os trabalhadores são livres para agir como bem entenderem. A sua servidão não é, portanto, voluntária, mas involuntária, uma vez que é obtida por efeito da coação. Por outras palavras, os dominantes forçariam, através do seu poder, a servidão dos dominados. Essa teoria da dominação acompanha-se, nalguns autores, de uma teoria da mistificação, na qual as relações sociais não apenas exercem controle sobre a ação dos indivíduos, mas produzem também efeitos de desconhecimento ou uma falsa consciência que impedem os indivíduos de perceber corretamente a natureza da dominação da qual são vítimas.
3.2. Burawoy: “A dominação é assim tão profunda?”
Essa concepção de dominação levanta, no entanto, dificuldades importantes, especialmente quando se tenta pensar na possibilidade de emancipação dos trabalhadores. Se a sua ação é totalmente condicionada pelas estruturas sociais, por que meios podem eles transformar essas estruturas? Como podem libertar-se da dominação, se esta é concebida como uma restrição absoluta? Foi provavelmente o sociólogo britânico Michael Burawoy quem melhor percebeu e formulou essa dificuldade. Eis como ele expressa isso no último capítulo de sua obra Conversations avec Bourdieu:
A questão a que esta investigação procura responder — quão profundamente enraizada está a dominação? — tem três componentes. Se, por um lado, o habitus da sujeição é profundo e universal, como pode a dominação ser posta em causa? Se, por outro lado, a mistificação é histórica e contingente, quando é que a dominação se torna transparente? Finalmente, em que condições, se é que existem, a verdade objetiva do sociólogo converge com a verdade subjetiva do trabalhador? (Burawoy, 2019, p. 237).3
Burawoy identifica com precisão os problemas colocados pela teoria sociológica da dominação (Burawoy refere-se, em particular, à teoria da dominação de Pierre Bourdieu) (Burawoy, 2011). Se as estruturas de perceção do mundo social são adquiridas de forma universal ao longo do processo de socialização e o habitus se cristaliza sob a forma de disposições inconscientes, portanto não percebidas pelos indivíduos, como podem esses indivíduos, que pensam com as estruturas de pensamento da dominação, tomar consciência de que são dominados? E se conseguirem romper o véu da ignorância e tomar consciência da sua dominação, como podem revertê-la? Uma teoria da dominação que faz da dominação um fenómeno total conduz a um impasse do ponto de vista da ação. Ou, nas palavras dos autores do Coletivo La Boétie:
Para a maioria destes autores, de facto, o contributo ativo dos trabalhadores é sempre o resultado de uma restrição sistémica ou de um arsenal ideológico capaz de “produzir adesão voluntária”. (...) Não há, nesta descrição, qualquer elemento de contribuição voluntária da submissão, que está sempre ligada ao fenómeno da servidão voluntária. Utilizada desta forma, a categoria perde o seu significado. Além disso, não pode ser utilizada numa perspetiva emancipatória: se os trabalhadores são forçados ou obrigados a aderir, não se podem libertar apenas com a vontade de o fazer (Emmenegger et al., 2019).4
É em parte para superar as dificuldades da teoria sociológica da dominação que Burawoy atribui um lugar central ao consentimento na sua própria teoria das relações sociais de trabalho. Por outras palavras, ele pressupõe um espaço de liberdade no trabalho. Esse é o paradoxo para que gostaria de chamar a vossa atenção: uma teoria crítica da dominação deve dar espaço à liberdade. Ela não pode postular uma dominação total, sob pena de chegar a uma teoria da sociedade que não deixa espaço para a mudança social e, portanto, para a emancipação.
No entanto, é importante considerar outro binómio, que não deixa margem para a liberdade. Ao lado do binómio dominação/servidão, parece-me necessário introduzir o binómio domínio/submissão. Nas relações de domínio, a dominação é, desta vez, total. Não deixa margem para a liberdade e conduz à submissão. Tal como indica Christophe Dejours,
O termo submissão deve ser aqui entendido no seu sentido mais forte. A submissão é mais do que obediência, pois não há obediência que não deixe espaço para a desobediência. A submissão é algo mais: começa quando toda a resistência é abolida (Prefácio de Mentir au Travail, Rolo, 2015).5
Existem situações de trabalho que se enquadram mais na categoria do domínio do que de dominação. No entanto, é preciso ter cuidado para não usar essas categorias como chaves de leitura a priori. É melhor considerá-las como questões que só podem ser respondidas por meio de inquérito empírico.
Nas manhãs de sábado, um magazine atento ao presente, mas também às memórias, observando tanto Portugal como o mundo, percorrendo caminhos que podem ir do quotidiano à política, à sociedade, à cultura. Nos programas mais recentes, disponíveis na RTP play, podemos revisitar conversas com Jacinto Lucas Pires, José Carlos Vasconcelos ou Adolfo Mesquita Nunes.
Aurélio Gomes pensou ser psicólogo, mas, entretanto, apaixonou-se perdidamente pela rádio. Uma longa relação de mais de vinte anos, onde aprendeu o poder da palavra, das histórias, da voz. Na televisão, é moderador do programa “Eixo do Mal”, da SIC Notícias.
Poderemos, então, para além da poeira e da ondulação dos dias, litigar no vazio o mais singelo dos gestos?
Somos os Ginetes galgando a correnteza, viemos para acentuar as sílabas ao vento, o fio aprumo na equidade do Homem. Somos plurais e simultâneos!
No traço que circunscreve a duração perfeita, o corpo demuda-se na álgebra que se manifesta na própria finitude, e a nossa jornada é apenas um brevíssimo lapso de tempo, e a cada palavra proferida, ou antes inaudita, o asseverar de que renasceremos com as flores na próxima primavera.
António de Névada
Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) qualidade do que é redundante, abundância excessiva; 2) superabundância de palavras, prolixidade; 3) recurso estilístico que consiste em usar intencionalmente palavras e expressões repetitivas e redundantes.
EM NOVILÍNGUA:
Redundância passou a equivaler a despedimento, nomeadamente por alegada extinção do posto de trabalho. Além desse significado novilinguístico, nota-se cada vez mais a utilização de redundâncias no discurso de políticos, empresários, jornalistas, comentadores e, por contágio, na população em geral, na proporção direta do empobrecimento da língua. O discurso encheu-se de expressões como “dizer que”, “aquilo que é”, etc., palavreado oco que ocupa o vazio deixado pela deserção do pensamento. A redução do vocabulário, simplificação gramatical e diminuição da complexidade na expressão oral e escrita têm vindo a ser associadas ao uso excessivo de redes sociais, algoritmos e falta de leitura, o que limita a capacidade de formular pensamentos complexos, entender matizes e a capacidade crítica. ASP
1.ª parte: O Big Ben em Lisboa
Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.
No morro que desce da Escola Politécnica até São Bento, a Calçada do João do Rio marca fronteira entre duas zonas distintas. De um lado São Mamede, freguesia de tom mais aristocrático; do outro, as Mercês e São Bento, com seus pátios proletários, alguns deles montados à volta da casa senhorial que serviam.
Na década de 1950, porém, os poderes instituídos começaram a favorecer nessa fronteira a construção de novos edifícios, forçando o casamento de casas modestas – como aquela onde nasceu e viveu a actriz Maria Matos – com as novas habitações, mais propícias à classe média e funcionários públicos, assim preparando a progressiva expulsão de operários, peixeiras e lúmpens nas décadas seguintes.
Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.
As peixeiras do bairro, fossem elas de canastra ou de triciclo, passavam a vida a fugir à guarda, por não terem como pagar licenças; de modo que muitas optavam por casar com um polícia, assim pondo termo a fugas e desatinos e resolvendo a vida de uma vez por todas.
Ao topo da calçada, mal se virava a esquina, apitavam logo as narinas – aqui há galego! E de facto, poucos metros andados, lá estava a tasca. Como boa tasca galega, ali se vendiam “copos de três” (tostões) de um horroroso vinho (razão tiveram as narinas, “aí não entres!”) e pazadas de carvão, tudo servido sem transição pelas mesmas mãos. Quase em frente ficava a mercearia, donde saíam marçanos impúberes a entregar recados calçada abaixo. Chegavam à porta da rua da cliente em questão, tocavam à campainha nos casos raros em que tal havia, senão berravam como bezerros, até que a cliente – e com ela toda a vizinhança – viesse à janela. E então, da janela do segundo ou terceiro andar, lá baixava a cestinha na ponta da guita, a recolher os ovos, a couve, o nabo … Ficávamos todas sabendo o que seria a janta nesse dia.
Por toda a parte alguém semeara mercearias, drogarias, padarias, latoeiros, funileiros, ferros-velhos, pasteleiros, caldeireiros com sua orquestra de maços tinindo o bronze, cerzideiras, enfim, uma miríade de negócios e lojinhas que viviam do comércio local. Eram todos da família, ou pouco menos que isso: “bom dia, Dona Augusta”, “como vão essas cruzes?”, “então que se conta de novo?”, “entre lá vizinho, sente-se aí um instante”.
Na época própria passava o burro da mulher dos figos e todos os dias, com pontualidade de torre sineira, a cesta do pão e o pote do leite batiam à porta. Uma vez por semana passava a flauta de pã do amolador, uma vez por mês a corneta da recolha do papel a peso, alternada com a do ferro-velho. Quem se lixava eram os muares, que aquelas calçadas não são brincadeira.
Poucos carros havia nessa época, de modo que as ruas eram ocupadas pela miudagem a jogar à bola, a saltar ao eixo ou a fazer corridas de caricas nos lancis de passeio, com turnos de mães assomando de vez em quando à vigia. Tudo por junto, entre flautas de pã, gritinhos gaiatos, metalúrgicos, latoeiros, caldeireiros e pregoeiros, formava-se uma sinfonia concreta da qual infelizmente não temos grandes registos sonoros. Se os tivéssemos, só por si contariam eles todo um romance urbano, sem necessidade de mais explicações. A essa banda sonora concreta vinham juntar-se as melodias dos pianos das casas endinheiradas e as cançonetas constantes das criadas e das donas-de-casa.
Nas casas mais humildes nem divisões de tijolo havia -- separavam-se as filhas dos adultos por finos tabiques de madeira, quando não simples cortinas. No meio de toda esta humildade, como já vos disse foram-se erguendo a partir da década de 1950 uns edifícios de cimento armado, sempre muito respeitadores da cota tradicional, é certo, mas ainda assim conspícuos. Dois havia frente a frente, em esquinas opostas a meio da João do Rio, que embora distintos pareciam traçados no mesmo estirador, pois ambos se revoltavam contra quinas: tinham a fachada redonda, de um convexo largo, achatado como arco abatido, só que deitado; nada que se parecesse com uma esquina simplesmente burilada, como se encontra noutros lugares. A quem por ali passasse sem nunca ter entrado num desses edifícios abaulados, não podia a imaginação deixar de cogitar como fariam os inquilinos para adaptar a tais curvas a quadratura do mobiliário.
Num desses prédios desquinados aventurou-se o senhor Salgueiro a afundar as suas poupanças, abrindo um serviço que naquela rua não havia ainda: o Big Ben, um pequeno café onde não cabiam mais que uma mesinha, duas cadeiras minorcas e três ou quatro clientes de pé, se não fossem esquisitos e se apertassem bem. À primeira vista não viria dali grande negócio, a não ser que os três ou quatro clientes que lá cabiam dessem todos por gorjeta uma nota de cem. O truque do negócio, porém, estava na cave. Nitidamente pensada pelo arquitecto para ser armazém, trocou-lhe as voltas o senhor Salgueiro: montou um salão com grande cópia de mesas e uns murais figurando Londres e o Big Ben que a população de estudantes da Faculdade de Ciências, do British Institute e de outras escolas circunvizinhas imediatamente adoptou como local de marmelada e estudo. O estudo era mais difícil, porque a cave não tinha janelas nem abundância de lâmpadas. Mas outra utilização do espaço associado ao café era ainda possível que nem à cabeça do Salgueiro assomara: o passeio.
Os passeios da calçada eram estreitos como os meus ombros, ou pouco mais, como é de regra nas calçadas lisboetas. Outra regra ainda, absolutamente sagrada, é a de bordejar a esquina do passeio com uma pedra de lancil levemente arredondada – todas as esquinas de Lisboa são buriladas, sem excepção. Mas naquele cruzamento a fachada abaulada do edifício não acompanhava a quina do passeio. Esta violação dos paralelismos abria assim, entre a fachada e a esquina, um espaço largo, uma espécie de esplanada que desde a inauguração do Big Ben a rapaziada do bairro elegeu como sede de tertúlia adolescente. Ali ficava o bando à galhofa até ao soar das doze badaladas nocturnas, ou quando os gritos de protesto dos honestos trabalhadores das redondezas, mortos de sono, vinham à janela pôr ordem na algazarra. Anos mais tarde correria a boca de que o edifício perdera a quina e se tornara convexo devido à fricção constante dos tertulianos contra a fachada – “vou ali polir a esquina”, diziam os rapazes aos pais quando queriam ir ter com os amigos.
Esta tertúlia tinha uma função formativa obrigatória e imperativa. Quem não a frequentasse tornava-se pária. Era aí que os mais velhos industriavam os mais novos na filosofia do macho ibérico e do bairrismo.
Tudo rapazes, porque as raparigas, ou por instinto ou por cautela das mães, tinham o cuidado de atravessar a rua e passar ao largo. Ainda assim, as jovens moradoras do bairro eram razoavelmente respeitadas, ou simplesmente ignoradas, por vezes saudadas com um aceno cortês de cabeça, certamente em nome da boa vizinhança; pelo menos até serem apanhadas na escuridão de uma escada deserta. As outras, as que não eram vizinhas nem conhecidas, sofriam de passagem a mordacidade dos dichotes, alguns hilariantes, ainda que bárbaros. À parte os assobios e a laboriosa prática da arte de mandar bocas às gajas (era um concurso de imaginação, umas vezes obscena, outras vezes non-sense), a tertúlia dos púberes podia ficar horas a lucubrar sobre os mais disparatados mitos urbanos, sobre o significado de as mulheres caminharem com os pés paralelos ou, pelo contrário, circunflexos, e outras meditações de carácter pouco menos que religioso-ó-esotérico. Outro tema que podia alimentar horas das mais abstrusas perorações, eram os carros e as motas – embora ninguém no núcleo duro da tertúlia tivesse nem uns nem outras.
(continua)
Destacavel-imagem
Destacável, de Aurélio Gomes, com produção de Pedro Miguel Ribeiro
Nas manhãs de sábado, um magazine atento ao presente, mas também às memórias, observando tanto Portugal como o mundo, percorrendo caminhos que podem ir do quotidiano à política, à sociedade, à cultura. Nos programas mais recentes, disponíveis na RTP play, podemos revisitar conversas com Jacinto Lucas Pires, José Carlos Vasconcelos ou Adolfo Mesquita Nunes.
Aurélio Gomes pensou ser psicólogo, mas, entretanto, apaixonou-se perdidamente pela rádio. Uma longa relação de mais de vinte anos, onde aprendeu o poder da palavra, das histórias, da voz. Na televisão, é moderador do programa “Eixo do Mal”, da SIC Notícias.
O Museu do Aljube, resultado de um forte movimento social de resgate da memória, surgido em cima da crise do capitalismo mundial de 2008, correspondeu em Portugal à emergência do primeiro grande movimento social de descontentamento com os resultados da democracia instaurada em 1975-1976: não era democracia social, como anunciavam os novos detentores do poder, quanto mais fase primeva de um país rumo ao socialismo, como apregoava a Constituição.
A memória social sobre a resistência à ditadura “fascista” – cá está um termo que não agrada a todos – e a história recente da “libertação” – um processo que só poucos admitem ter ocorrido – do país de um regime totalitário é hoje disputada por novas utopias reacionárias e fascizantes. De memória “fraca”, tornou-se uma memória conflitual, onde a reescrita da história (também da memória social e até da memória pública) e a negação dos factos toma peso e lugar.
Esta reação não é de hoje. Quando tomei conta do museu como seu primeiro diretor (em 25 de Abril de 2015) fui recebendo, logo nas primeiras semanas, ameaças vindas de várias origens. Lembro, pelo cómico e ridículo da situação, as “recomendações” que me foram chegando, derivadas (segundo os ocultos autores) de um Comité Anti-Antifascista”. Tudo isto se passava no recato de grupos que eu sempre considerei minúsculos: a luta antifascista tinha sido, durante a ditadura, uma luta de minorias ativas e esclarecidas, porque a esmagadora maioria do povo, insofrido e amedrontado, sempre se sujeitou ao falso “consenso” imposto pelos ditadores e pelas suas máquinas de controle: as polícias políticas e outras forças paramilitares, o Exército e a Igreja tradicional, para além de todo o aparelho político-administrativo do Estado. Esse “consenso” imposto transformou-se no pós-25 de Abril num silenciamento público generalizado, tão conveniente à consciência social do “bom povo português” como das elites democráticas que conduziram o país no período pós-revolucionário. A palavra-chave era a reconciliação de todos os portugueses, tida como necessária por militares e por sociais-democratas. O Povo Livre, órgão do recém-nascido PPD/PSD, que sempre tinha apregoado a existência no (primeiro ano da sua publicação) de um país fascista durante o salazarismo/caetanismo, logo apagou completamente o termo da cartilha e até o Partido Socialista foi anulando essa “existência” do fascismo. Seria um fascismo orgânico, endémico, segundo Eduardo Lourenço. O fascismo português era, pois, um “não fascismo” e os antifascistas (comunistas, democratas, radicais, mesmo liberais) uma espécie rara e dada a invencionices. Se o fascismo não existira, muito menos se justificava a existência de antifascistas, logo de comunistas, socialistas radicais, democratas antifascistas, etc. A memória antifascista passou a ser de poucos – a criação da URAP é de 1975/76, mas até esta organização, de forte pendor comunista, deixou de ter voz forte durante anos. O país apagara as conquistas da revolução democrática e antifascista e alistava-se alegremente no clube dos ricos da Europa, onde a democracia social era coisa garantida.
O Museu do Aljube, resultado de um forte movimento social de resgate da memória, surgido em cima da crise do capitalismo mundial de 2008, correspondeu em Portugal à emergência do primeiro grande movimento social de descontentamento com os resultados da democracia instaurada em 1975-1976: não era democracia social, como anunciavam os novos detentores do poder, quanto mais fase primeva de um país rumo ao socialismo, como apregoava a Constituição. Essa frustração levou no bojo as classes médias – com voz – e arrastou consigo as camadas populares. Afinal, o país não tinha superado o severo “atraso” histórico que o fascismo impusera durante meio século. Veremos Mário Soares a encabeçar a lista da petição que, em 2008, reivindicava, à Assembleia da República, a instalação de um Museu de Memória da Resistência ao fascismo na antiga prisão do Aljube de Lisboa. A unanimidade que a dita petição recolheu nem o CDS deixou de fora. Com o aprofundamento da crise, em 2011, à direita revanchista instalada no poder, sucedeu a reação da esquerda sob a forma de uma frente unida, que já não podia ser revolucionária; mas antes uma frente de esquerda unida para suster os avanços impetuosos da direita reacionária. É neste contexto que surge, em 2015, o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, sob a gestão administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, também ela governada pela mesma frente de esquerda.
Hoje, a substituição [da direção do museu] sem concurso público ou apresentação prévia de qualquer projeto museológico pela nova direção, causa desconfiança
Esta foi uma grande vitória, mas também o princípio do movimento revanchista que agora aparece à luz do dia, porque a consistência de um museu municipal é frágil; mesmo que a sua instalação já pareça consolidada, está fortemente dependente da força política instalada na autarquia, a qual, através de uma empresa municipal, se mostra capaz de, através da nomeação da direção do Museu, introduzir alterações à sua linha estratégica e missão. Um Museu de Memória da Resistência conta, em primeiro lugar, a história das oposições à ditadura, embora não possa ignorar a natureza da própria ditadura e até das forças políticas que agora procuram banalizar a violência política ditatorial e, desse modo, reescrever a história. Para estas forças, o salazarismo foi uma ditadura paternal, o fascismo uma invencionice das esquerdas unidas e a Revolução de Abril um ato pernicioso, responsável pelo atraso económico do país democrático. O mesmo se diga da descolonização, que se considera ter sido conduzida por traidores, a soldo de poderes ocultos.
Nos primeiros cinco anos de abertura ao público, o Museu do Aljube procurou consolidar uma instituição de carácter nacional, porque a libertação do povo português e o seu caminho em direção à democracia social, com o contributo inquestionável das oposições é, sem qualquer dúvida, uma vitória de todos os portugueses. Por isso, tanto como prestar uma reparação moral e promover o público reconhecimento das vítimas da violência fascista, importava dar a conhecer a sua luta e integrá-la na construção e renovação da democracia que, como cidadãos, temos obrigação de preservar e desenvolver.
Há seis anos, a renovação da direção foi acompanhada de grande contestação pública, apesar de o cargo ter sido entregue a alguém que se sujeitou a uma seleção de júri entre mais de seis dezenas de candidatos e de o seu projeto ter merecido o melhor apreço. Hoje, a sua substituição sem concurso público ou apresentação prévia de qualquer projeto museológico pela nova direção, causa desconfiança e algum descrédito inicial. Oxalá não seja ainda uma consequência da tal contestação que ocorreu há seis anos, uma espécie de reposição da “justiça” vilipendiada. Se assim for, pode ter sido em vão que se procurou instalar um Museu de Memória firmado na história contemporânea consolidada, na memória social confrontada com os seus mitos e obscuridades e no trabalho sério e honrado que faz do estudo, do debate e da divulgação criteriosa o melhor caminho para afirmação da verdade.
capa do álbum A Cantar ao Sol, do Janita
Álbum A Cantar ao Sol, 1995
Não é fácil o amor Melhor seria arrancar um braço Fazê-lo voar Dar a volta ao mundo Abraçar todo o mundo Fazer da alegria o pão nosso de cada dia Não copiar os males do amor Matar a melancolia que há no amor Querer a vontade fria Ser cego, surdo, mudo Não sujeitar o amor ao destino de cada um Não ter destino nenhum Ser a própria imagem do amor
Não é fácil o amor Melhor seria arrancar um braço Fazê-lo voar Dar a volta ao mundo Abraçar todo o mundo Fazer da alegria o pão nosso de cada dia Não copiar os males do amor Matar a melancolia que há no amor Querer a vontade fria Ser cego, surdo, mudo Não sujeitar o amor ao destino de cada um Não ter destino nenhum Ser a própria imagem do amor
Pôr o coração ao largo Não sofrer os males do amor Não vacilar, ter a coragem De enfrentar a razão de ser da própria dor Porque o amor é triste Não é fácil o amor
No quadragésimo aniversário da morte do matemático e revolucionário Jean van Heijenoort, publicamos um artigo do historiador Pierre Broué em sua homenagem.
Jean van Heijenoort (à direita), ao lado de Trotsky e Frida Kahlo.
Van morreu com três tiros na cabeça, disparados à queima-roupa na noite de 28 para 29 de Março de 1986. Aquele que, durante sete anos, de Prinkipo1 a Coyoacán2, fora o precioso colaborador de Leon Trotsky ficou a repousar não muito longe deste, no cemitério francês da Cidade do México.
Chamou-se, ao nascer, no dia 23 de Julho de 1912, em Creil, Jean van Heijenoort, filho de um trabalhador holandês emigrante, operário nas fábricas Fichet. Aos dois anos, na primeira semana da guerra, morreu-lhe o pai, de uma úlcera no estômago de que não se conseguiu estancar a hemorragia; os médicos tinham todos partido. A mãe e a avó arranjaram emprego como criadas, vivendo ele, com elas, nas casas burguesas que as tinham empregado. Já o caracterizava o vigor excepcional das suas aptidões intelectuais. Da guerra, mesmo do tempo em que apenas tinha dois ou três anos, conservou memórias de extraordinária precisão. Conheceu a pobreza, mas não a miséria, pois aquelas mulheres trabalhavam e viviam para ele e para a sua irmã, e não lhe faltou amor. Mas teve de aguentar o ódio boçal, o racismo. Nunca se esqueceu de ter sido agredido na escola, tratado de “boche3 de merda” por causa do nome “estrangeiro” e da aparência física – com o seu fácies de loiro de olhos azuis – e também porque Guilherme II, “le Kaiser”, como se dizia, se refugiara na Holanda em 1918.
Não obstante, a escola municipal abrir-lhe-ia as portas do saber. Classificado em primeiro lugar no concurso para “bolsas” do departamento, no final da escola primária, foi admitido como interno no colégio de Clermont d’Oise, onde foi aluno brilhante. Ainda muito jovem, soube fazer-se respeitar, mantendo à distância praxes e perseguidores. O aluno excelente era um rapaz que não vergava. A política entrou muito cedo na sua vida, porque ele assim o quis. Odiava a guerra, abominava os discursos nacionalistas e os sermões, amava a vida e aspirava à justiça e à liberdade, já. A sua experiência de criança do Norte criada durante a guerra, com os canhões como ruído de fundo, numa sociedade de classes que exibia todos os estigmas da injustiça, começou por atraí-lo para um comunismo “utópico e rousseauniano”; depois, para a leitura de L'Humanité com o grupo de estudantes do ensino secundário que tinha reunido com o seu amigo Jean Beaussier. A sua inteligência muito rapidamente fez dele um jovem comunista simpatizante das ideias de Trotsky, de quem ainda nada tinha lido, mas cujo alcance pressentia e que, fosse como fosse, se recusava a condenar sem ter lido.
Finalista brilhante do secundário, obteve a bolsa que lhe permitiu ingressar no curso de matemática avançada no Liceu Saint-Louis, em Paris, no início do ano lectivo de Outubro de 1930. Algumas semanas depois, aconteceu o que tinha de acontecer: conheceu um grupo de jovens militantes da Oposição de Esquerda, dirigidos por Yvan Craipeau. Tinham ido apupar uma peça anticomunista no teatro de Charles Dullin, que obrigaram a discutir com eles e que acabou por lhes dar razão. De passagem, ganharam Van. Era um militante magnífico. Sem abandonar a matemática, foi aperfeiçoando os conhecimentos de russo e participando em todas as iniciativas do pequeno e dinâmico grupo a que acabara de aderir. Foi, assim, com naturalidade que, no início do ano lectivo de 1932, Raymond Molinier4, que andava à procura de um secretário e guarda-costas para Trotsky, lhe propôs que partisse para Prinkipo. Van não hesitou um segundo: nem lhe passaria pela cabeça. Partiu, transportado pelo entusiasmo, para se pôr ao serviço directo do homem que admirava, cujos escritos, publicados em várias línguas, agora conhecia, o companheiro de Lenine, chefe do Exército Vermelho, depois animador da Oposição de Esquerda, o homem do destino da revolução mundial. O comboio que levava Van era o da história, cujas asas cavalgava já...
Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky.
Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky. Que acrescentar ao seu próprio relato? Primeiro, a crise que o abalou com a cisão de La Commune: tal como os jovens militantes da sua geração, Van tinha sido atraído pela personalidade de Raymond Molinier, pela sua intrepidez, combatividade e dinamismo. A condenação de Molinier por Trotsky, o apelo a excluí-lo, surpreenderam-no: ao princípio, os argumentos do Velho não o convenceram. No entanto, ao fim de várias semanas de luta e debate, abandonou o grupo La Commune, um dos pilares do qual era a sua companheira, Gaby, e escreveu a Trotsky, reconhecendo que se tinha enganado. Podemos acreditar nele: convencera-se. Gravara no coração a fórmula “faz o que tens a fazer, aconteça o que acontecer!” Não obstante, o dilaceramento pessoal pesou muito, dele me falou muito e muitas vezes.
Acompanhou Trotsky na viagem e primeiros dias de estada na Noruega, em Junho de 1935, voltou lá na altura do processo de Moscovo, em Agosto de 1936, e das primeiras medidas repressivas do governo de Oslo. Foi nessa época que L'Humanité o tratou de agente fascista, criminoso, assassino, em artigos de que era ele, juntamente com Erwin Wolf, o alvo, os dois corajosos que tentavam quebrar o isolamento de Trotsky exigido por Moscovo. Falou-me das ameaças do órgão do PCF contra Wolf – efectivamente assassinado em Espanha, em 1937 –, mas só quando consultei L'Humanité descobri que as ameaças o visavam também a ele, o que não me dissera.
Durante o período em que Trotsky esteve em França, Van acompanhou-o em grande parte da sua errância entre Barbizon e Domène, nomeadamente em Lyon e Grenoble. E foi também ele o agente de ligação entre Paris e Domène e o seu tradutor cada vez mais solicitado: foi ele quem traduziu a série de artigos mais tarde publicados com o título Où va la France? Em 1936, foi também ele quem traduziu a obra de Leon Sedov5Livre rouge sur le procès de Moscou. Animador, em 1935, do secretariado internacional da juventude, organizador, em 1936, da greve na France mutualiste, foi pai de “Jeannot”, nascido durante uma das suas estadas em Domène.
Logo que chegou ao México, em 1937, mergulhou no trabalho de arquivo necessário à defesa dos acusados nos processos de Moscovo e ao funcionamento do contra-inquérito da comissão Dewey6. Nos primeiros meses, ao lado de Jan Frankel, realizou um trabalho titânico com os documentos de Trotsky, que tinha feito o seu melhor para guardar e classificar durante os anos passados na Turquia e que conhecia melhor do que ninguém. Era preciso encontrar rapidamente este ou aquele documento indispensável, analisá-lo, reproduzi-lo, ou mesmo traduzi-lo, comentá-lo, transmiti-lo. Em grande parte, foi nos seus ombros que a defesa de Trotsky face à comissão Dewey materialmente assentou. Foi nesta batalha obscura que conquistou a estima de todos os intelectuais americanos ganhos para a defesa de Trotsky.
Após a partida de Frankel, no Verão de 1938, Van já não era apenas o faz-tudo, mas o homem de confiança, o único recurso, o Van-que-resolve-tudo, de quem André Breton deu uma descrição tão acertada quanto comovente no seu discurso de 11 de Novembro de 1938 (“Visita a Trotsky”, Cahiers Léon Trotsky, n.º 12, Dezembro de 1982). Ele, que, à chegada, não falava uma palavra de espanhol, conseguiu, em poucos meses, construir uma sólida rede de relações – sem a qual nada é possível no México – na imprensa e no aparelho do Estado, no mundo político e no universo cardenista7. Tal não o impediu de continuar a intervir como militante trotskista, de escrever artigos teóricos – assinados como Jean Rebel – na revista Clave, que Trotsky inspirou, com a cobertura dos seus amigos intelectuais mexicanos. Era, ao mesmo tempo, amigo de Breton e confidente de Frida Kahlo.
Gostaria, a propósito dos silêncios de Van, de evocar aqui uma anedota relacionada com o texto de Breton que acabei de mencionar e a homenagem que o poeta presta a Van, “revolucionário da cabeça aos pés”, a quem Breton chama “o homem tal como eu o entendo, o amigo em toda a acepção da palavra”. Num dia de Julho de 1982, encontrei em Harvard uma cópia do protesto por ele enviado a Breton, datado de 6 de Dezembro de 1938:
“P.S. – Recebi cartas de vários lados sobre um discurso seu em que se falava de mim. É muito chato.”
É o Van chapado, neste protesto. Com vontade de o picar, copiei a frase e levei-lha à casa onde ocupávamos quartos frente a frente. Ele ainda não tinha chegado; afixei-lhe a cópia à porta e, enquanto esperava por ele, fui trabalhando em casa. Ele veio ter comigo uma hora mais tarde, mas, desta feita, sem vontade nenhuma de sorrir, como eu esperava, mas verdadeira e profundamente aflito por descobrir a que ponto chegava a minha estupidez: como é que eu não tinha percebido como Breton tinha sido imprudente ao dizer que Van trabalhava pelo menos doze horas por dia, que não era pago, apenas alojado e alimentado e que estava longe de Gaby e de Jeannot? Não iria Trotsky pensar que Van se tinha queixado? Confesso que garanti a Van que compreendia perfeitamente e que tinha cometido, de facto, um erro estúpido ao achar piada ao protesto dele a Breton.
Trotsky tinha, de facto, sentimentos de culpa para com jovens como Van ou Jan Frankel, que lhe dedicavam anos de vida — não, evidentemente, por causa dos estudos que perdiam, embora isso também fosse importante aos seus olhos, nem por causa de uma “carreira”, mas simplesmente porque a situação deles ao seu lado, por muito enriquecedora que fosse em certos aspectos, os isolava da vida, do movimento real das massas, alimentando no seu pensamento uma certa abstracção, inevitável no contexto em que se estavam a formar, mas lamentável. Assim, apesar do desagrado por se separar pessoalmente de gente insubstituível – como eram Jan e Van –, ele ficou feliz quando os viu voar finalmente pelas suas próprias asas e viver a sua própria experiência política. A de Frankel terminou com a cisão de 1940. A de Van durou mais tempo; passou-se também nas fileiras do Socialist Workers Party – ele foi “Gerland” na discussão de 1939-1940 –, mas, em última análise, também não foi positiva. Chegou o momento, creio eu, para o historiador dizer serenamente, numa revista científica e sem polémica, o que Van não quis escrever, primeiro porque não o podia fazer sem paixão e, mais tarde, talvez por já não lhe parecer essencial. Falou-me do assunto muitas vezes e longamente, de preferência nos nossos passeios dominicais, mas também à noite, nas belas e frescas noites da Califórnia. Secretário da Internacional, responsável pelo S.I.8 em Nova Iorque a partir de 1940, Van considerava – e considerou até ao fim – que não lhe foram aí proporcionadas condições elementares para o funcionamento de um organismo internacional e que este foi deliberadamente sufocado e paralisado na sua acção, que ele julgava capital, pela má vontade e pela passividade da direcção do SWP. A sua voz – coisa rara – velava-se de indignação quando se referia ao “controlo burocrático” do membro americano do S.I., Bert Cochran (E. R. Frank, ver Cahiers Léon Trotsky, n.º 20), às sessões em que este último embirrava com vírgulas na correspondência, a atrasava sistematicamente, comprometendo-a por vezes, à sua oposição sistemática a qualquer proposta e iniciativa. Van – que era então Daniel Logan, Marc Loris, Ann Vincent – teve desentendimentos ainda mais graves. Ficava seriamente indignado ao falar das audiências que na altura lhe concedeu James P. Cannon, o dirigente do partido americano, o SWP, sobre os problemas teóricos e práticos da IV Internacional, sobre a questão nacional na Europa, o problema das palavras de ordem democráticas, a necessidade de ajuda aos militantes da Europa oprimida. Consciente da enorme responsabilidade que sobre si recaía desde a morte de Trotsky, Van pensava em regressar clandestinamente a França. Assegurou-me amiúde que todas as suas urgentes perguntas nunca tiveram outra resposta, ao fim de horas de apaixonada defesa da Internacional, senão uma série de grunhidos inarticulados e garantias de que “se ia ver”. Nesse período, Van trabalhava para viver e exerceu, de facto, todos os ofícios. Isso, como ele me disse, não impediu Cannon de o acusar de ter “exigências de pequeno-burguês” por causa das horas de reunião com os militantes profissionais do SWP, que não tinham as restrições horárias às quais ele estava sujeito. Sempre lhe ouvi manifestar, acerca desse período, amargura e, por vezes, um certo rancor.
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Era, em contrapartida, mais discreto a respeito dos últimos anos da sua actividade militante na IV Internacional, prometendo-me apenas que “um dia” me falaria da sua participação na tendência Goldman-Morrow, uma promessa que não conseguiu cumprir. A partir de 1943, de facto, aliou-se a Felix Morrow e Albert Goldman e, juntos, eles opuseram-se a Cannon, em particular nas questões europeias. Era absurdo, aos seus olhos, imaginar, em 1943 que a revolução socialista iria ocorrer sem transição e vencer logo que o nazismo caísse; achar que, no momento em que o fascismo caía na Itália, era hora de guardar na prateleira das recordações as palavras de ordem democráticas; considerava um erro enorme, a roçar a renegação, ver no avanço do Exército Vermelho, por aplicação mecânica dos textos de EmDefesa do Marxismo, um passo em frente automático da revolução, erro ainda mais grave do que negar pura e simplesmente o papel contra-revolucionário do Kremlin à escala mundial. Não admira, portanto, que só tenha concordado uma única vez com Cannon, que foi quanto à dissolução do S.I. de Nova Iorque no final da guerra e à transferência dos seus poderes para o órgão constituído durante a guerra por Michel Pablo, o secretariado europeu. A questão era, de facto, garantir a independência do órgão supremo da IV Internacional em relação ao SWP, objectivo, aos seus olhos, prioritário. Mas Van não podia continuar a trabalhar com o S.I.: com o serviço militar suspenso, mobilizado de facto ao serviço de Trotsky e depois da Internacional, encontrava-se em situação irregular perante o Exército francês, e o caso, embora não tivesse gravidade, só pôde ser resolvido anos mais tarde.
Em 1948, após a exclusão dos seus camaradas de tendência do SWP, Van rompeu com a IV Internacional e com o marxismo. Nunca me quis falar dessa ruptura e nunca me disse mais do que o que escreveu nas suas memórias, na página 211, muito menos, pois, do que escrevera na Partisan Review de Março de 1948, com a assinatura de Jean Vannier, sobre o balanço do século decorrido desde a redacção do Manifesto do Partido Comunista.
Van só regressou à Europa em 1957, a pedido da Universidade de Harvard, em busca dos documentos dos arquivos Sedov, vendidos, mas não entregues, por Trotsky a Harvard, e que Natalia9 se tinha comprometido a recuperar. Conheci-o pela primeira vez no final dos anos 60 no Select Hôtel, na Place de la Sorbonne, num quarto onde mal cabiam duas pessoas sentadas, que era o seu pouso durante as suas breves estadas da época. Voltámos a ver-nos várias vezes depois disso, em Cambridge (Ma), onde ele me guiou, inicialmente para a “parte aberta”, mas também em Domène, em Paris, em Follonica, no México e, finalmente, em Stanford – para terminar em Grenoble, no passado dia 26 de Fevereiro, por ocasião da defesa da tese de Olivia Gall, onde, apesar do cansaço extremo, soube cativar com o seu charme uma centena de pessoas, jovens e velhos.
Quando eu não o estava a interrogar como a testemunha-actor de que precisava, ele soltava-se por vezes, evocava os terríveis anos 30, o dever sagrado de escrever uma história dos bolcheviques-leninistas russos, a tendência política mais perspicaz e heróica da história, a necessidade de fazer compreender às gerações mais jovens o pesadelo desses anos de 1936 a 1940, dos combatentes encurralados entre os assassinos de Estaline e os de Hitler, o desespero, o medo dos homens perseguidos, os assassinatos que se sucediam e os assassinos à espreita na sombra ante uma opinião pública indiferente. Bastava uma breve informação, um elemento político, por ténue que fosse, para reactivar nas engrenagens múltiplas do seu cérebro a máquina da política e ouvi-lo manifestar uma paixão que estava apenas enterrada: a Polónia foi uma dessas ocasiões, a partir da greve de Gdansk. Devorou, explicou, interrogou, acabando por perguntar em voz alta a si mesmo se, contrariamente a tudo o que tristemente pensara há tantos anos, este movimento operário ressurgente na Polónia não seria a andorinha que anunciava a Primavera, a morte do estalinismo sob os golpes dos trabalhadores.
No entanto, já não queria “falar de política”. Razões de simples moralidade o levaram, dizia, a aceitar testemunhar no processo instaurado por causa das odiosas calúnias a Joseph Hansen, assim contribuindo para a condenação dos caluniadores pelo tribunal de Los Angeles.
Do mesmo modo, interviera, nas décadas anteriores, nos Estados Unidos, após a prisão como agentes da GPU dos irmãos Sobolevicius – Roman Weil e Adolf Senine, no movimento – e de Mark Zborowski, o famoso “Étienne”, infiltrado pelos serviços de Estaline junto de Sedov, esforçando-se por conseguir que fossem interrogados sobre a preparação do assassinato de Trotsky e a execução dos de Reiss10 e Sedov. Os seus esforços neste ponto não foram coroados de êxito, o que o afligia. O mais importante contributo que, como não militante, deu para a história do movimento que ajudara a construir foi o enorme trabalho que consagrou, durante anos, às dezenas de milhares de documentos desses “Trotsky Papers”, os arquivos de Trotsky depositados em Harvard, que identificou um a um com o meticuloso cuidado de arquivista que já mostrava na altura em que, em Prinkipo e Coyoacán, assegurara a sua conservação e datação. Sem ele, sem esse trabalho imenso, parte significativa dos documentos hoje identificados, classificados, muitos deles traduzidos, publicados e comentados, não passaria de um amontoado de papéis velhos e incompreensíveis. A sua tarefa nesse sentido foi felizmente mais fácil em Stanford, nos arquivos da Hoover e nos papéis de Sedov. Nunca esquecerei a emoção, a alegria, que fazia a sua voz cantar, quando me anunciou ao telefone que tinha acabado de rever as famosas cartas do Velho a Liova11, com os seus longos P.S. manuscritos nos originais dactilografados, que ele dera por perdidos para sempre, mas ressurgiam no fundo Nikolaievsky.
A princípio reservado, sempre cauteloso, Van depositou confiança em mim, creio, quando leu o meu primeiro livro. A minha existência e a minha capacidade de trabalho davam-lhe o ensejo de pousar um fardo que começava a ficar pesado. Embora se tivesse sempre recusado a que o seu nome aparecesse, era ele, como eu lhe dizia em tom de brincadeira, “a eminência parda” ou “a alma danada” do Instituto Leon Trotsky, o inspirador exigente e, em simultâneo, conselheiro insubstituível das Œuvres e dos Cahiers Léon Trotsky. O trabalho do Instituto, os meus trabalhos pessoais, têm uma enorme dívida para com ele, que ele, infelizmente, já não nos pode impedir de assinalar. Gostaria, neste aspecto, de trazer à colação um facto curioso. Ano após ano, creio ter notado que ele já não se lembrava de episódios importantes que me tinha contado pessoalmente. Cedo me tive de render à evidência e, apesar do espanto inicial, admitir que ele se esquecia precisamente do que me tinha contado. Depois de ver e rever, disse-lho com cautela. Surpreendeu-me pela sua sorridente auto-satisfação: disse ser uma máquina muito bem afinada, que, ao envelhecer, resolvia assim o problema da sua sobrecarga, só se desfazendo daquilo que tinha a certeza de saber preservado. O mais surpreendente é que era verdade. Van era uma das mais belas máquinas intelectuais que me coube conhecer e admirar.
O Van que conheci já não era o Van que os polícias de uma pequena cidade do Midwest tinham detido por alguns dias porque a sua aparência de estrangeiro lhes parecera suspeita. Já não era o homem que tinha vivido de mil e um ofícios, do ensino de francês na Berlitz ao fabrico de prateleiras para arrumar os livros dos camaradas e a reparações de canalizações. Já não era o homem que construía ele próprio a sua cabana de férias e conhecia cem maneiras de preparar uma lagosta que não fora paga. Era o pai de Laure, filha da sua companheira norte-americana, Bunny, que conhecera em Coyoacán. Era um professor universitário de nomeada. Na década de 1950, ingressara no Departamento de Matemática da Universidade de Columbia, em Nova Iorque e, de 1965 a 1979, fora professor de Filosofia e História da Lógica na Universidade de Brandeis, em Waltham (Massachusetts). Em 1967, publicara uma obra de lógica matemática (From Frege to Gödel. A Sourcebook in Mathematical Logic) que lhe valeu uma real notoriedade entre os especialistas. Houve outros que, aliás, disseram quem foi Van, o matemático, e, sobretudo, Van, o lógico – talvez um dia seja possível reunir as homenagens num testemunho comum de homenagem à inteligência em todas as suas formas. Foi ele um dos especialistas que empreenderam a publicação póstuma dos artigos do grande lógico Gödel e, no ano passado, ele integrou a equipa do CNRS que retomou o seu projecto de publicação integral dos trabalhos do matemático francês Herbrand, falecido acidentalmente muito jovem. Não creio que exista congresso mundial de especialidade científica alguma em que Van não se sentisse no seu lugar e à vontade. Desconhecido do grande público, mesmo no México, onde viveu durante anos e onde a imprensa falou da morte de um “rico (!) homem de negócios de origem holandesa”, Van era apreciado em todo o mundo por muita gente competente e por amigos certos. Não havia cidade importante nem continente onde ele não pudesse ter pouso ou convite.
Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse
Aconteceu-me fazer piadas com o Van por ele transportar de um continente para o outro malas enormes e pesadas. Mas ninguém sabe que este homem, que ia, assim, de um dos seus filhos para o outro, de uma das suas pesquisas, de um dos seus escritórios para o outro, carregava nos braços metade dos seus bens. Durante os anos que antecederam e se seguiram ao seu 70.º aniversário, viveu em dois quartos de estudante, em Cambridge e depois em Menlo Park, com uma mesinha, duas cadeiras, um despertador, um rádio, o computador que ele próprio – sua última paixão – tinha montado, a sua velha máquina convertida em “impressora” e o seu caderno de endereços – um Gotha da inteligência – com o dossiê “especial”. O seu luxo – de que não pouco se orgulhava – era ter dois gabinetes em duas universidades diferentes, um em Pusey, em Harvard, e outro no Departamento de Matemática de Stanford, com algumas dezenas de livros, pastas, a sua correspondência e uma cama de campanha para a sesta. Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse.
Que o leitor me perdoe por apenas indirectamente ter tratado do “amigo”: mas como outra coisa seria possível, quando escrevo estas linhas poucos dias depois de tomar conhecimento desta perda irreparável e quando ela é Van? O “belo sorriso claro” de que falava André Breton em 1938 foi apagado para sempre. Subsistirá apenas, por mais alguns anos, na memória de quem o amou. Van gostava de dizer que, entre as centenas de milhões que somos, as diferenças individuais não passam de gradações infinitesimais. Incontestavelmente, tinha razão. Rendamo-nos, porém, a esta evidência: ele é insubstituível.
Em nome da equipa do Instituto Leon Trotsky, da qual sou aqui o porta-voz, em nome de todos aqueles que não conheço, mas que, tenho a certeza, me dão procuração para o fazer, saúdo-te, meu amigo Van, e agradeço-te pelo que foste e pelo que continuarás a ser para nós, quando a insuportável dor se tiver atenuado: como Breton sabia, foste o homem que nos consolou de tantos outros.
1“Ilha do Príncipe”. no mar de Marmara, perto de Istambul, primeiro local de exílio de Trotsky depois da sua expulsão da URSS em 1929.
2 Bairro na Cidade do México onde Trotsky viveu o seu último exílio, antes de ser assassinado por um agente da GPU de Estaline.
3 Boche: designação depreciativa dos Alemães em França.
4 Raymond Molinier, militante comunista francês, um dos fundadores da Oposição de Esquerda em França.
5 Leon Sedov: filho de Leon Trotsky e de Natalia Sedova, membro da Oposição de Esquerda, tornou-se, com o exílio do pai, no seu mais estreito colaborador. Morreu em 1938 em Paris, na sequência de uma operação à apendicite, envenenado pela polícia secreta de Estaline, a GPU (mais tarde o KGB).
6 A Comissão Dewey, presidida pelo filósofo norte-americano John Dewey, foi uma comissão de inquérito independente às acusações feitas a Leon Trotsky nos processos de Moscovo, formada em 1937. As suas conclusões foram publicadas num livro com o título Not Guilty!
7 Lázaro Cárdenas foi presidente do México de 1934 a 1940 e grande impulsionador da reforma agrária no país. Foi durante a sua presidência que Leon Trotsky encontrou no México o seu último refúgio, depois de expulso de vários países europeus, nomeadamente por pressões do Kremlin.
8 SI: O Secretariado Internacional da IV Internacional.
9 Natalia Sedova, militante bolchevique russa, mulher de Trotsky, mãe de Leon Sedov.
10 Ignace Reiss, militante comunista polaco-ucraniano, tornou-se membro dos serviços de informação da União Soviética. Em 1937, face à liquidação geral do partido bolchevique pela clique estalinista, Reiss, então em Paris, enviou uma carta a Estaline e ao CC do PCUS em que, devolvendo as suas condecorações, denunciava as purgas e declarava juntar-se a Trotsky e à IV Internacional. Foi assassinado por agentes da GPU na Suíça, onde se escondera, poucos meses depois.
11 Liova é o diminutivo russo de Lev’ (“Leão”), nome de Trotsky e do filho, Sedov.
Tradução e notas de Adriano Zilhão. O artigo de Pierre Broué é de 14 de Maio de 1986.
Foto: Gonçalo Rocha
Um comboio de tempestades atlânticas varreu Portugal, em especial a região Centro, em menos de duas semanas. Deixou um rasto de calamidade do qual já não havia memória.
A nossa memória tende a ser seletiva, e, se fenómenos extremos sempre existiram, é hoje sabido que a sua intensidade e a frequência se irão agravar devido às alterações climáticas. Talvez estes episódios já sejam parte dessa transformação. Só séries temporais longas o confirmarão.
O que os dados científicos já nos dizem há bastante tempo, no entanto, é algo essencial: o risco não resulta apenas da intensidade dos eventos. Resulta das escolhas que fizemos e continuamos a fazer sobre como ocupar, gerir e transformar a paisagem. E, sobre isso, há pouco debate público e ainda menos literacia.
Portugal foi pioneiro, ainda na década de 1980, ao criar a Reserva Ecológica Nacional, impulsionada pela visão de arquitetos paisagistas como Gonçalo Ribeiro Telles, António Viana Barreto e Ilídio de Araújo. A par da Reserva Agrícola Nacional, esta estrutura permitiu, em muito, salvaguardar sistemas dunares, linhas de água, zonas húmidas, encostas com risco de erosão e deslizamento e os melhores solos agrícolas, ou seja, a base biofísica que sustenta o território e minimiza os riscos para pessoas e bens. Era, antes do tempo, aquilo a que hoje chamamos uma solução baseada na natureza.
Ainda assim, várias destas áreas têm vindo a ser destinadas a fins que contrariam a sua aptidão ecológica. As imagens recentes de habitações e infraestruturas destruídas em leitos de cheia ou em encostas instáveis mostram, de forma brutal, o custo dessas decisões. Veja-se ainda o caso da Costa Azul, entre Troia e Melides, progressivamente transformada de bem público comum em ativo (quase) privado, apesar da sua reconhecida vulnerabilidade ecológica e climática. Num cenário de subida do nível médio do mar e de maior frequência de eventos extremos, é provável que o Estado venha a ser chamado a proteger o que antes foi autorizado a construir, a custos que provavelmente não foram ponderados.
Se o pensamento sobre o ordenamento e a gestão da paisagem marcou, de forma diferenciadora, parte da legislação do pós-25 de Abril, a adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, trouxe novas agendas e prioridades. Fomos progressivamente substituindo visões integradas do território e da paisagem por abordagens mais setoriais, muitas vezes orientadas por financiamentos específicos. A palavra “paisagem” manteve-se nos diplomas, nas estratégias e nos planos. O conteúdo e a forma holística de olhar para o território nem sempre. E não deixa de ser irónico que, em 2005, Portugal tenha ratificado a Convenção Europeia da Paisagem, reafirmando o compromisso com a necessidade de termos uma visão integrada do território e da paisagem. Vinte anos depois, o sentido dessa ratificação continua por cumprir.
O problema não está na falta de planos. Está na aplicação desigual, na ausência de avaliação sistemática, antes e depois da implementação, e na dificuldade em corrigir o que falha.
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Mas há algo ainda mais básico que os planos não resolvem: a falta de gestão da paisagem. Aquilo que determina, dia após dia, se uma linha de água se mantém limpa, se uma encosta está estabilizada, se uma floresta é menos suscetível ao fogo. Essa gestão exige continuidade, recursos e uma visão que ultrapasse os limites administrativos dos territórios, as fronteiras de política entre ministérios e os ciclos eleitorais.
A nossa governação organiza-se por limites administrativos e lógicas setoriais. A paisagem não reconhece nem obedece a nenhum deles. A paisagem não é apenas o suporte biofísico do território, nem apenas o resultado visível da ação humana. É a interação contínua entre ambos e depende sempre de quem a lê, de como a habita e de como a gere diariamente.
Ler a paisagem como um sistema socio-ecológico permite identificar vulnerabilidades construídas ao longo do tempo, antecipar efeitos cumulativos e perceber como soluções num lugar podem agravar a vulnerabilidade noutro. Sem essa leitura integrada, a adaptação torna-se fragmentada, reativa e, muitas vezes, ineficaz. A paisagem não é o cenário onde os impactos ocorrem; é o sistema que determina a sua magnitude. É também, e por isso mesmo, o nível em que as políticas precisam de se encontrar (ambiente, agricultura, florestas, energia, ordenamento do território), porque é na paisagem que as suas consequências se tornam indissociáveis.
A Política Nacional de Arquitetura e Paisagem (PNAP), aprovada em 2015, reconhecia isso mesmo: a necessidade de abordagens holísticas e de integração da paisagem nas políticas sectoriais. Uma década depois, a PNAP permanece um documento de intenções, sem os instrumentos nem a autoridade necessários para vincular os sectores que, na prática, mais determinam a transformação da paisagem.
O diagnóstico não é novo. Adaptarmo-nos às alterações climáticas não significa apenas reforçar infraestruturas ou responder de forma reativa a emergências. Significa compreender como funcionam os sistemas que regulam a água, estabilizam os solos, moderam as temperaturas e sustentam as atividades económicas e sociais. A paisagem é o nível em que essas interações se tornam visíveis. É nela que se cruzam processos ecológicos e culturais, decisões políticas e os usos que fazemos do território para viver e produzir.
Sabemos o que falhou. A questão é o que fazemos com isso.
Temos agora a oportunidade e a obrigação de nos perguntarmos: que tipo de país queremos ser num contexto de mudança climática acelerada? Essa escolha não se faz apenas através de legislação avulsa ou de respostas de emergência. Faz-se também por meio da construção de uma visão partilhada da paisagem e do território, que procure alinhar políticas públicas, o conhecimento científico e a ação regional e local numa mesma direção.
Essa visão tem de ser supramunicipal. Tem de ser construída à escala dos sistemas naturais e sustentada por mecanismos de governação que assegurem continuidade para além dos ciclos políticos. A paisagem não se transforma ao ritmo de um mandato. E a adaptação climática também não.
A construção coletiva de uma estratégia para a paisagem portuguesa não pode continuar a fazer-se município a município, projeto a projeto, tempestade a tempestade, incêndio a incêndio. Exige coordenação, compromisso político sustentado e responsabilidade intergeracional. Porque a adaptação climática é também uma questão de justiça ambiental: os custos das decisões acumulam-se, mas raramente recaem sobre quem as tomou.
A última tempestade passou. A próxima já se forma algures no Atlântico. O que decidirmos enquanto o céu está limpo determinará o que resistirá quando ela chegar. Mas para decidir bem, primeiro é preciso saber ler a paisagem.
Carla Gonçalves é arquiteta paisagista. Diretora-executiva do Centro do Clima da Póvoa de Varzim. Investigadora do CITTA — Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente, Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto. As opiniões aqui expressas são de carácter pessoal e não refletem a posição institucional do Centro do Clima da Póvoa de Varzim, dos seus sócios fundadores e efetivos, nem do CITTA/FEUP.
Como podemos compreender a servidão voluntária num sistema não ditatorial? Em empresas e locais de trabalho comuns? Aqui, o problema central é perceber como um comportamento habitualmente reprovado pela maioria pode tornar-se progressivamente aceitável, ou mesmo banal.
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ilustração: Ricardo ferreira
1. O problema do consentimento das massas
Na origem do meu interesse pela psicodinâmica do trabalho está uma questão que apelidarei provisoriamente de questão da reprodução social. Por reprodução social entendo aqui o fenómeno da permanência das relações sociais existentes e da continuidade ao longo do tempo de uma ordem social que, porém, gera desigualdade e injustiça. Em síntese, como pode perdurar um sistema político que gera sofrimento, desigualdades crescentes e injustiça, chegando mesmo a obter a adesão daqueles que se tornam suas vítimas? Esta é uma questão central no domínio das ciências sociais, que foi colocada e abordada por vários autores, seja na sociologia, na filosofia, na teoria política, etc.
A questão do conformismo das massas, da sua submissão à autoridade de um líder, surgiu sob o duplo efeito das revoltas populares e dos movimentos sociais que agitaram o final do século XIX e o início do século XX, e do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa (Moscovici, 1985). Os primeiros tratados sobre a questão, como o célebre ensaio de Gustave Le Bon, são na realidade manuais de manipulação de massas. Foram escritos numa perspetiva autoritária e a sua função era fornecer aos líderes políticos instrumentos de controlo das massas, para assim evitar revoltas sociais (Le Bon procurava evitar, na realidade, que os eventos da Comuna de Paris se reproduzissem). Daí o seu sucesso junto de dirigentes políticos fascistas, como Mussolini.
Numa perspetiva mais emancipatória, esta questão tornou-se uma preocupação tanto para os investigadores que tentaram explicar a adesão de setores importantes da classe trabalhadora aos movimentos fascistas (Reich, 1997), quanto, mais tarde, para aqueles que quiseram entender os assassínios em massa cometidos durante o holocausto (Browning, 1998).
Esse problema esteve, por exemplo, no centro dos trabalhos dos autores da Escola de Frankfurt, que usaram a psicanálise para tentar compreender a irracionalidade social, ou seja, a adesão dos indivíduos a uma ordem social contrária aos seus interesses (essa preocupação dará origem, nomeadamente, ao estudo de Adorno e seus colaboradores sobre a personalidade autoritária) (Adorno et al., 2019). A questão do consentimento também permeia a investigação de Hannah Arendt sobre o caso Eichmann, que culminou na formulação da famosa tese da banalidade do mal (Arendt, 1966). Foi ainda para encontrar respostas a este espinhoso problema – o da participação de indivíduos comuns em atos desumanos – que Stanley Milgram desenvolveu a sua famosa experiência sobre a obediência à autoridade (Milgram, 2009). As conclusões de Milgram tiveram um impacto considerável, entre outros, nos trabalhos do historiador Christopher Browning, que estudou a participação de “homens comuns” do 101.º batalhão de reserva da polícia no holocausto (Browning, 1998). Como é que homens comuns, bons pais de família, que tinham a liberdade de recusar as missões que lhes eram propostas, se tornaram assassinos em massa? Browning recorreu aos estudos de Milgram e destacou a importância do conformismo, das pressões exercidas pelos pares e da submissão à autoridade para explicar os comportamentos bárbaros destes indivíduos.
Trata-se de compreender como logra o sistema neoliberal produzir a colaboração em massa sem recorrer à violência.
Esses trabalhos constituem uma referência importante para a psicodinâmica do trabalho. Juntamente com o Discurso da servidão voluntária de La Boétie (La Boétie, 1574), desempenharam um papel importante na construção da problemática da servidão voluntária. Mas a maioria deles diz respeito a regimes totalitários, ou seja, regimes políticos em que o uso da violência (tortura, assassínios, prisões, etc.) faz parte dos métodos empregados pelo poder para garantir o controlo social. Ao contrário desses trabalhos, em Souffrance en France, Christophe Dejours (Dejours, 1998) interessa-se pelo sistema neoliberal, ou seja, um sistema político que se baseia em métodos de dominação distintos daqueles utilizados nos regimes totalitários. O objetivo de Souffrance en France não é comparar a mecânica do sistema totalitário com a do sistema neoliberal, considerando-os equivalentes. A problemática de Souffrance en France é, na verdade, exatamente oposta: trata-se de compreender como logra o sistema neoliberal produzir a colaboração em massa sem recorrer à violência, como nos sistemas totalitários. Dejours parte da hipótese de que, embora os dois sistemas, totalitarismo e neoliberalismo, sejam distintos, o processo que leva os indivíduos a colaborar com o poder é semelhante. A originalidade da abordagem da psicodinâmica do trabalho consiste em atribuir ao trabalho um papel central nesse processo.
2. O processo de banalização da injustiça social
Como podemos compreender a servidão voluntária num sistema não ditatorial? Em empresas e locais de trabalho comuns? Aqui, o problema central é perceber como um comportamento habitualmente reprovado pela maioria pode tornar-se progressivamente aceitável, ou mesmo banal.
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Para analisar o que apelidamos em psicodinâmica do trabalho de processo de banalização da injustiça social, Christophe Dejours baseia-se numa clínica específica. É importante indicar isto, pois, embora os trabalhos teóricos sobre o consentimento em massa constituam uma importante fonte de inspiração, é fundamentalmente uma constatação clínica que está na origem da reflexão sobre a servidão voluntária em psicodinâmica do trabalho. Qual é, então, a clínica que fundamenta este questionamento?
A análise das formas de sofrimento no trabalho e das defesas contra o sofrimento está no centro da teoria psicodinâmica da servidão voluntária. Em Souffrance en France, Dejours destaca o sofrimento relacionado com o medo no trabalho. O medo relacionado com acidentes em profissões de risco (construção civil, indústria química ou nuclear, etc.), ou o medo relacionado com a ameaça de demissão e desemprego é uma fonte fundamental de sofrimento no trabalho. Funciona como uma alavanca da submissão. É preciso defender-se desse medo, se quisermos evitar cair na doença mental. É por isso que os trabalhadores implementam estratégias individuais e coletivas de defesa, que lhes permitem ocultar os riscos e negar o medo. No exemplo hoje em dia bem conhecido das estratégias coletivas de defesa dos trabalhadores da construção civil, expostas em Travail, usure mentale (Dejours, 1980), é através da negação do risco que os trabalhadores conseguem combater o medo. Estas defesas permitem enfrentar os riscos do trabalho, mas, em contrapartida, amputam parcialmente a capacidade de pensar dos indivíduos. Para sofrer menos, os trabalhadores desvalorizam, ou até banalizam, o sofrimento alheio. Ao negarem o que causa sofrimento, as defesas aumentam a insensibilidade ao sofrimento e, por isso, levam a uma maior tolerância à injustiça. Consequentemente, a articulação entre sofrimento e defesas está no centro do processo de banalização do mal. Em suma, é essencialmente para não sofrer que os indivíduos consentem em servir. O seu comportamento é orientado pelo desejo de não sofrer, e não pelo desejo de servir.
Todavia, a clínica do trabalho leva também a outras conclusões, mais problemáticas. Em primeiro lugar, as pesquisas em psicodinâmica do trabalho levam à conclusão de que nenhuma empresa, administração ou serviço pode funcionar sem a mobilização da inteligência dos seus trabalhadores. Devido à diferença sempre existente entre o trabalho prescrito e o trabalho real, nenhuma organização pode prescindir da contribuição subjetiva dos trabalhadores para manter o seu bom funcionamento. Se admitirmos que, para colmatar esta diferença, é inevitável recorrer a uma contribuição viva e subjetiva, então temos de concluir, em primeiro lugar, que nenhuma organização pode funcionar sem o esforço constante dos seus membros para a fazer funcionar e, em segundo lugar, que os trabalhadores não são passivos no processo de produção.
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Mas para além da importância atribuída ao medo na génese do processo de banalização da injustiça, em Souffrance en France Dejours considera uma fonte adicional de sofrimento no trabalho, o sofrimento ético. A noção de sofrimento ético designa “o sofrimento que resulta não de um mal sofrido pelo sujeito, mas aquele que ele pode sentir ao cometer, devido ao seu trabalho, atos que reprova moralmente” (Dejours, 1998, p. 44). Este sofrimento não é um efeito daquilo que é imposto ao trabalhador, mas do que ele faz em nome do seu trabalho. Christophe Dejours argumenta, portanto, que a colaboração com o “trabalho sujo” dá origem a uma forma específica de sofrimento que decorre da “consciência dolorosa da própria cumplicidade” (Dejours, 1998, p. 23) e que pode ser assimilada tanto a um medo da responsabilidade como a uma consciência de culpa. Chamo a vossa atenção para um aspeto central desta nova forma de sofrimento: o sofrimento ético instala-se quando os trabalhadores aceitam, apesar de tudo, colaborar. Na verdade, o sofrimento ético é uma confissão de colaboração. Daí o aparecimento da culpa. O sujeito sente-se culpado por algo que fez (ou que se absteve de fazer, mas que poderia ter feito). Esse sofrimento dá origem a um conflito consigo mesmo, também chamado de conflito intrapsíquico. Distinto do sofrimento relacionado com o medo ou a falta de reconhecimento, o sofrimento ético remete para o medo de perder a própria dignidade e de trair os seus ideais e valores.
3. A recepção de Souffrance en France e a questão da dominação
3.1. A servidão voluntária: uma negação da dominação?
A problemática da servidão voluntária, introduzida em psicodinâmica do trabalho com as teses desenvolvidas em Souffrance en France, foi alvo de críticas acerbas. Grande parte dessas críticas gira em torno da acusação de “psicologismo”. Para muitos autores, a análise de Christophe Dejours seria marcada pelo “psicologismo”, aqui entendido como um desconhecimento, ou mesmo como uma negação da dominação. O psicologismo consistiria em não levar em conta o peso das estruturas e das relações sociais sobre a ação individual. Assim, num debate publicado por ocasião do lançamento de Souffrance en France na revista Sociologie du Travail, o sociólogo Jean-Pierre Durand dirá, por exemplo:
De facto, este absolutismo da mente impede o autor de pensar no papel das estruturas sociais, na função da acumulação de capital (com as suas crises) na produção das relações de produção e do sofrimento (ou do prazer), nem, é claro, de pensar a combinação dialética entre o indivíduo e o social. A posição de Dejours de que os fenómenos sociais são produto da agregação de comportamentos individuais impede-o de perceber a natureza da política (campo intrinsecamente ligado à economia e às contradições que a impulsionam) ou faz que conceba o campo político como um apêndice social de submissões individuais nascidas das mentiras de líderes perversos ou psicóticos (Durand, Baszanger & Dejours, 2000, p. 318).2
Se retomo aqui as objeções de Durand, é porque elas me parecem representativas de um conjunto mais geral de críticas que acusam a psicodinâmica do trabalho de uma tendência para “psicologizar o social”. A maioria desses autores postula, com razão, que as relações de dominação funcionam como uma restrição. Têm um efeito coercivo que impede os indivíduos de agir como gostariam. Seria, afinal, uma ilusão imaginar que os trabalhadores são livres para agir como bem entenderem. A sua servidão não é, portanto, voluntária, mas involuntária, uma vez que é obtida por efeito da coação. Por outras palavras, os dominantes forçariam, através do seu poder, a servidão dos dominados. Essa teoria da dominação acompanha-se, nalguns autores, de uma teoria da mistificação, na qual as relações sociais não apenas exercem controle sobre a ação dos indivíduos, mas produzem também efeitos de desconhecimento ou uma falsa consciência que impedem os indivíduos de perceber corretamente a natureza da dominação da qual são vítimas.
3.2. Burawoy: “A dominação é assim tão profunda?”
Essa concepção de dominação levanta, no entanto, dificuldades importantes, especialmente quando se tenta pensar na possibilidade de emancipação dos trabalhadores. Se a sua ação é totalmente condicionada pelas estruturas sociais, por que meios podem eles transformar essas estruturas? Como podem libertar-se da dominação, se esta é concebida como uma restrição absoluta? Foi provavelmente o sociólogo britânico Michael Burawoy quem melhor percebeu e formulou essa dificuldade. Eis como ele expressa isso no último capítulo de sua obra Conversations avec Bourdieu:
A questão a que esta investigação procura responder — quão profundamente enraizada está a dominação? — tem três componentes. Se, por um lado, o habitus da sujeição é profundo e universal, como pode a dominação ser posta em causa? Se, por outro lado, a mistificação é histórica e contingente, quando é que a dominação se torna transparente? Finalmente, em que condições, se é que existem, a verdade objetiva do sociólogo converge com a verdade subjetiva do trabalhador? (Burawoy, 2019, p. 237).3
Burawoy identifica com precisão os problemas colocados pela teoria sociológica da dominação (Burawoy refere-se, em particular, à teoria da dominação de Pierre Bourdieu) (Burawoy, 2011). Se as estruturas de perceção do mundo social são adquiridas de forma universal ao longo do processo de socialização e o habitus se cristaliza sob a forma de disposições inconscientes, portanto não percebidas pelos indivíduos, como podem esses indivíduos, que pensam com as estruturas de pensamento da dominação, tomar consciência de que são dominados? E se conseguirem romper o véu da ignorância e tomar consciência da sua dominação, como podem revertê-la? Uma teoria da dominação que faz da dominação um fenómeno total conduz a um impasse do ponto de vista da ação. Ou, nas palavras dos autores do Coletivo La Boétie:
Para a maioria destes autores, de facto, o contributo ativo dos trabalhadores é sempre o resultado de uma restrição sistémica ou de um arsenal ideológico capaz de “produzir adesão voluntária”. (...) Não há, nesta descrição, qualquer elemento de contribuição voluntária da submissão, que está sempre ligada ao fenómeno da servidão voluntária. Utilizada desta forma, a categoria perde o seu significado. Além disso, não pode ser utilizada numa perspetiva emancipatória: se os trabalhadores são forçados ou obrigados a aderir, não se podem libertar apenas com a vontade de o fazer (Emmenegger et al., 2019).4
É em parte para superar as dificuldades da teoria sociológica da dominação que Burawoy atribui um lugar central ao consentimento na sua própria teoria das relações sociais de trabalho. Por outras palavras, ele pressupõe um espaço de liberdade no trabalho. Esse é o paradoxo para que gostaria de chamar a vossa atenção: uma teoria crítica da dominação deve dar espaço à liberdade. Ela não pode postular uma dominação total, sob pena de chegar a uma teoria da sociedade que não deixa espaço para a mudança social e, portanto, para a emancipação.
No entanto, é importante considerar outro binómio, que não deixa margem para a liberdade. Ao lado do binómio dominação/servidão, parece-me necessário introduzir o binómio domínio/submissão. Nas relações de domínio, a dominação é, desta vez, total. Não deixa margem para a liberdade e conduz à submissão. Tal como indica Christophe Dejours,
O termo submissão deve ser aqui entendido no seu sentido mais forte. A submissão é mais do que obediência, pois não há obediência que não deixe espaço para a desobediência. A submissão é algo mais: começa quando toda a resistência é abolida (Prefácio de Mentir au Travail, Rolo, 2015).5
Existem situações de trabalho que se enquadram mais na categoria do domínio do que de dominação. No entanto, é preciso ter cuidado para não usar essas categorias como chaves de leitura a priori. É melhor considerá-las como questões que só podem ser respondidas por meio de inquérito empírico.
Poderemos, então, para além da poeira e da ondulação dos dias, litigar no vazio o mais singelo dos gestos?
Somos os Ginetes galgando a correnteza, viemos para acentuar as sílabas ao vento, o fio aprumo na equidade do Homem. Somos plurais e simultâneos!
No traço que circunscreve a duração perfeita, o corpo demuda-se na álgebra que se manifesta na própria finitude, e a nossa jornada é apenas um brevíssimo lapso de tempo, e a cada palavra proferida, ou antes inaudita, o asseverar de que renasceremos com as flores na próxima primavera.
Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) qualidade do que é redundante, abundância excessiva; 2) superabundância de palavras, prolixidade; 3) recurso estilístico que consiste em usar intencionalmente palavras e expressões repetitivas e redundantes.
EM NOVILÍNGUA:
Redundância passou a equivaler a despedimento, nomeadamente por alegada extinção do posto de trabalho. Além desse significado novilinguístico, nota-se cada vez mais a utilização de redundâncias no discurso de políticos, empresários, jornalistas, comentadores e, por contágio, na população em geral, na proporção direta do empobrecimento da língua. O discurso encheu-se de expressões como “dizer que”, “aquilo que é”, etc., palavreado oco que ocupa o vazio deixado pela deserção do pensamento. A redução do vocabulário, simplificação gramatical e diminuição da complexidade na expressão oral e escrita têm vindo a ser associadas ao uso excessivo de redes sociais, algoritmos e falta de leitura, o que limita a capacidade de formular pensamentos complexos, entender matizes e a capacidade crítica. ASP
Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.
No morro que desce da Escola Politécnica até São Bento, a Calçada do João do Rio marca fronteira entre duas zonas distintas. De um lado São Mamede, freguesia de tom mais aristocrático; do outro, as Mercês e São Bento, com seus pátios proletários, alguns deles montados à volta da casa senhorial que serviam.
Na década de 1950, porém, os poderes instituídos começaram a favorecer nessa fronteira a construção de novos edifícios, forçando o casamento de casas modestas – como aquela onde nasceu e viveu a actriz Maria Matos – com as novas habitações, mais propícias à classe média e funcionários públicos, assim preparando a progressiva expulsão de operários, peixeiras e lúmpens nas décadas seguintes.
Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.
As peixeiras do bairro, fossem elas de canastra ou de triciclo, passavam a vida a fugir à guarda, por não terem como pagar licenças; de modo que muitas optavam por casar com um polícia, assim pondo termo a fugas e desatinos e resolvendo a vida de uma vez por todas.
Ao topo da calçada, mal se virava a esquina, apitavam logo as narinas – aqui há galego! E de facto, poucos metros andados, lá estava a tasca. Como boa tasca galega, ali se vendiam “copos de três” (tostões) de um horroroso vinho (razão tiveram as narinas, “aí não entres!”) e pazadas de carvão, tudo servido sem transição pelas mesmas mãos. Quase em frente ficava a mercearia, donde saíam marçanos impúberes a entregar recados calçada abaixo. Chegavam à porta da rua da cliente em questão, tocavam à campainha nos casos raros em que tal havia, senão berravam como bezerros, até que a cliente – e com ela toda a vizinhança – viesse à janela. E então, da janela do segundo ou terceiro andar, lá baixava a cestinha na ponta da guita, a recolher os ovos, a couve, o nabo … Ficávamos todas sabendo o que seria a janta nesse dia.
Por toda a parte alguém semeara mercearias, drogarias, padarias, latoeiros, funileiros, ferros-velhos, pasteleiros, caldeireiros com sua orquestra de maços tinindo o bronze, cerzideiras, enfim, uma miríade de negócios e lojinhas que viviam do comércio local. Eram todos da família, ou pouco menos que isso: “bom dia, Dona Augusta”, “como vão essas cruzes?”, “então que se conta de novo?”, “entre lá vizinho, sente-se aí um instante”.
Na época própria passava o burro da mulher dos figos e todos os dias, com pontualidade de torre sineira, a cesta do pão e o pote do leite batiam à porta. Uma vez por semana passava a flauta de pã do amolador, uma vez por mês a corneta da recolha do papel a peso, alternada com a do ferro-velho. Quem se lixava eram os muares, que aquelas calçadas não são brincadeira.
Poucos carros havia nessa época, de modo que as ruas eram ocupadas pela miudagem a jogar à bola, a saltar ao eixo ou a fazer corridas de caricas nos lancis de passeio, com turnos de mães assomando de vez em quando à vigia. Tudo por junto, entre flautas de pã, gritinhos gaiatos, metalúrgicos, latoeiros, caldeireiros e pregoeiros, formava-se uma sinfonia concreta da qual infelizmente não temos grandes registos sonoros. Se os tivéssemos, só por si contariam eles todo um romance urbano, sem necessidade de mais explicações. A essa banda sonora concreta vinham juntar-se as melodias dos pianos das casas endinheiradas e as cançonetas constantes das criadas e das donas-de-casa.
Nas casas mais humildes nem divisões de tijolo havia -- separavam-se as filhas dos adultos por finos tabiques de madeira, quando não simples cortinas. No meio de toda esta humildade, como já vos disse foram-se erguendo a partir da década de 1950 uns edifícios de cimento armado, sempre muito respeitadores da cota tradicional, é certo, mas ainda assim conspícuos. Dois havia frente a frente, em esquinas opostas a meio da João do Rio, que embora distintos pareciam traçados no mesmo estirador, pois ambos se revoltavam contra quinas: tinham a fachada redonda, de um convexo largo, achatado como arco abatido, só que deitado; nada que se parecesse com uma esquina simplesmente burilada, como se encontra noutros lugares. A quem por ali passasse sem nunca ter entrado num desses edifícios abaulados, não podia a imaginação deixar de cogitar como fariam os inquilinos para adaptar a tais curvas a quadratura do mobiliário.
Num desses prédios desquinados aventurou-se o senhor Salgueiro a afundar as suas poupanças, abrindo um serviço que naquela rua não havia ainda: o Big Ben, um pequeno café onde não cabiam mais que uma mesinha, duas cadeiras minorcas e três ou quatro clientes de pé, se não fossem esquisitos e se apertassem bem. À primeira vista não viria dali grande negócio, a não ser que os três ou quatro clientes que lá cabiam dessem todos por gorjeta uma nota de cem. O truque do negócio, porém, estava na cave. Nitidamente pensada pelo arquitecto para ser armazém, trocou-lhe as voltas o senhor Salgueiro: montou um salão com grande cópia de mesas e uns murais figurando Londres e o Big Ben que a população de estudantes da Faculdade de Ciências, do British Institute e de outras escolas circunvizinhas imediatamente adoptou como local de marmelada e estudo. O estudo era mais difícil, porque a cave não tinha janelas nem abundância de lâmpadas. Mas outra utilização do espaço associado ao café era ainda possível que nem à cabeça do Salgueiro assomara: o passeio.
Os passeios da calçada eram estreitos como os meus ombros, ou pouco mais, como é de regra nas calçadas lisboetas. Outra regra ainda, absolutamente sagrada, é a de bordejar a esquina do passeio com uma pedra de lancil levemente arredondada – todas as esquinas de Lisboa são buriladas, sem excepção. Mas naquele cruzamento a fachada abaulada do edifício não acompanhava a quina do passeio. Esta violação dos paralelismos abria assim, entre a fachada e a esquina, um espaço largo, uma espécie de esplanada que desde a inauguração do Big Ben a rapaziada do bairro elegeu como sede de tertúlia adolescente. Ali ficava o bando à galhofa até ao soar das doze badaladas nocturnas, ou quando os gritos de protesto dos honestos trabalhadores das redondezas, mortos de sono, vinham à janela pôr ordem na algazarra. Anos mais tarde correria a boca de que o edifício perdera a quina e se tornara convexo devido à fricção constante dos tertulianos contra a fachada – “vou ali polir a esquina”, diziam os rapazes aos pais quando queriam ir ter com os amigos.
Esta tertúlia tinha uma função formativa obrigatória e imperativa. Quem não a frequentasse tornava-se pária. Era aí que os mais velhos industriavam os mais novos na filosofia do macho ibérico e do bairrismo.
Tudo rapazes, porque as raparigas, ou por instinto ou por cautela das mães, tinham o cuidado de atravessar a rua e passar ao largo. Ainda assim, as jovens moradoras do bairro eram razoavelmente respeitadas, ou simplesmente ignoradas, por vezes saudadas com um aceno cortês de cabeça, certamente em nome da boa vizinhança; pelo menos até serem apanhadas na escuridão de uma escada deserta. As outras, as que não eram vizinhas nem conhecidas, sofriam de passagem a mordacidade dos dichotes, alguns hilariantes, ainda que bárbaros. À parte os assobios e a laboriosa prática da arte de mandar bocas às gajas (era um concurso de imaginação, umas vezes obscena, outras vezes non-sense), a tertúlia dos púberes podia ficar horas a lucubrar sobre os mais disparatados mitos urbanos, sobre o significado de as mulheres caminharem com os pés paralelos ou, pelo contrário, circunflexos, e outras meditações de carácter pouco menos que religioso-ó-esotérico. Outro tema que podia alimentar horas das mais abstrusas perorações, eram os carros e as motas – embora ninguém no núcleo duro da tertúlia tivesse nem uns nem outras.
Nas manhãs de sábado, um magazine atento ao presente, mas também às memórias, observando tanto Portugal como o mundo, percorrendo caminhos que podem ir do quotidiano à política, à sociedade, à cultura. Nos programas mais recentes, disponíveis na RTP play, podemos revisitar conversas com Jacinto Lucas Pires, José Carlos Vasconcelos ou Adolfo Mesquita Nunes.
Aurélio Gomes pensou ser psicólogo, mas, entretanto, apaixonou-se perdidamente pela rádio. Uma longa relação de mais de vinte anos, onde aprendeu o poder da palavra, das histórias, da voz. Na televisão, é moderador do programa “Eixo do Mal”, da SIC Notícias.
O Museu do Aljube, resultado de um forte movimento social de resgate da memória, surgido em cima da crise do capitalismo mundial de 2008, correspondeu em Portugal à emergência do primeiro grande movimento social de descontentamento com os resultados da democracia instaurada em 1975-1976: não era democracia social, como anunciavam os novos detentores do poder, quanto mais fase primeva de um país rumo ao socialismo, como apregoava a Constituição.
A memória social sobre a resistência à ditadura “fascista” – cá está um termo que não agrada a todos – e a história recente da “libertação” – um processo que só poucos admitem ter ocorrido – do país de um regime totalitário é hoje disputada por novas utopias reacionárias e fascizantes. De memória “fraca”, tornou-se uma memória conflitual, onde a reescrita da história (também da memória social e até da memória pública) e a negação dos factos toma peso e lugar.
Esta reação não é de hoje. Quando tomei conta do museu como seu primeiro diretor (em 25 de Abril de 2015) fui recebendo, logo nas primeiras semanas, ameaças vindas de várias origens. Lembro, pelo cómico e ridículo da situação, as “recomendações” que me foram chegando, derivadas (segundo os ocultos autores) de um Comité Anti-Antifascista”. Tudo isto se passava no recato de grupos que eu sempre considerei minúsculos: a luta antifascista tinha sido, durante a ditadura, uma luta de minorias ativas e esclarecidas, porque a esmagadora maioria do povo, insofrido e amedrontado, sempre se sujeitou ao falso “consenso” imposto pelos ditadores e pelas suas máquinas de controle: as polícias políticas e outras forças paramilitares, o Exército e a Igreja tradicional, para além de todo o aparelho político-administrativo do Estado. Esse “consenso” imposto transformou-se no pós-25 de Abril num silenciamento público generalizado, tão conveniente à consciência social do “bom povo português” como das elites democráticas que conduziram o país no período pós-revolucionário. A palavra-chave era a reconciliação de todos os portugueses, tida como necessária por militares e por sociais-democratas. O Povo Livre, órgão do recém-nascido PPD/PSD, que sempre tinha apregoado a existência no (primeiro ano da sua publicação) de um país fascista durante o salazarismo/caetanismo, logo apagou completamente o termo da cartilha e até o Partido Socialista foi anulando essa “existência” do fascismo. Seria um fascismo orgânico, endémico, segundo Eduardo Lourenço. O fascismo português era, pois, um “não fascismo” e os antifascistas (comunistas, democratas, radicais, mesmo liberais) uma espécie rara e dada a invencionices. Se o fascismo não existira, muito menos se justificava a existência de antifascistas, logo de comunistas, socialistas radicais, democratas antifascistas, etc. A memória antifascista passou a ser de poucos – a criação da URAP é de 1975/76, mas até esta organização, de forte pendor comunista, deixou de ter voz forte durante anos. O país apagara as conquistas da revolução democrática e antifascista e alistava-se alegremente no clube dos ricos da Europa, onde a democracia social era coisa garantida.
O Museu do Aljube, resultado de um forte movimento social de resgate da memória, surgido em cima da crise do capitalismo mundial de 2008, correspondeu em Portugal à emergência do primeiro grande movimento social de descontentamento com os resultados da democracia instaurada em 1975-1976: não era democracia social, como anunciavam os novos detentores do poder, quanto mais fase primeva de um país rumo ao socialismo, como apregoava a Constituição. Essa frustração levou no bojo as classes médias – com voz – e arrastou consigo as camadas populares. Afinal, o país não tinha superado o severo “atraso” histórico que o fascismo impusera durante meio século. Veremos Mário Soares a encabeçar a lista da petição que, em 2008, reivindicava, à Assembleia da República, a instalação de um Museu de Memória da Resistência ao fascismo na antiga prisão do Aljube de Lisboa. A unanimidade que a dita petição recolheu nem o CDS deixou de fora. Com o aprofundamento da crise, em 2011, à direita revanchista instalada no poder, sucedeu a reação da esquerda sob a forma de uma frente unida, que já não podia ser revolucionária; mas antes uma frente de esquerda unida para suster os avanços impetuosos da direita reacionária. É neste contexto que surge, em 2015, o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, sob a gestão administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, também ela governada pela mesma frente de esquerda.
Hoje, a substituição [da direção do museu] sem concurso público ou apresentação prévia de qualquer projeto museológico pela nova direção, causa desconfiança
Esta foi uma grande vitória, mas também o princípio do movimento revanchista que agora aparece à luz do dia, porque a consistência de um museu municipal é frágil; mesmo que a sua instalação já pareça consolidada, está fortemente dependente da força política instalada na autarquia, a qual, através de uma empresa municipal, se mostra capaz de, através da nomeação da direção do Museu, introduzir alterações à sua linha estratégica e missão. Um Museu de Memória da Resistência conta, em primeiro lugar, a história das oposições à ditadura, embora não possa ignorar a natureza da própria ditadura e até das forças políticas que agora procuram banalizar a violência política ditatorial e, desse modo, reescrever a história. Para estas forças, o salazarismo foi uma ditadura paternal, o fascismo uma invencionice das esquerdas unidas e a Revolução de Abril um ato pernicioso, responsável pelo atraso económico do país democrático. O mesmo se diga da descolonização, que se considera ter sido conduzida por traidores, a soldo de poderes ocultos.
Nos primeiros cinco anos de abertura ao público, o Museu do Aljube procurou consolidar uma instituição de carácter nacional, porque a libertação do povo português e o seu caminho em direção à democracia social, com o contributo inquestionável das oposições é, sem qualquer dúvida, uma vitória de todos os portugueses. Por isso, tanto como prestar uma reparação moral e promover o público reconhecimento das vítimas da violência fascista, importava dar a conhecer a sua luta e integrá-la na construção e renovação da democracia que, como cidadãos, temos obrigação de preservar e desenvolver.
Há seis anos, a renovação da direção foi acompanhada de grande contestação pública, apesar de o cargo ter sido entregue a alguém que se sujeitou a uma seleção de júri entre mais de seis dezenas de candidatos e de o seu projeto ter merecido o melhor apreço. Hoje, a sua substituição sem concurso público ou apresentação prévia de qualquer projeto museológico pela nova direção, causa desconfiança e algum descrédito inicial. Oxalá não seja ainda uma consequência da tal contestação que ocorreu há seis anos, uma espécie de reposição da “justiça” vilipendiada. Se assim for, pode ter sido em vão que se procurou instalar um Museu de Memória firmado na história contemporânea consolidada, na memória social confrontada com os seus mitos e obscuridades e no trabalho sério e honrado que faz do estudo, do debate e da divulgação criteriosa o melhor caminho para afirmação da verdade.
Não é fácil o amor Melhor seria arrancar um braço Fazê-lo voar Dar a volta ao mundo Abraçar todo o mundo Fazer da alegria o pão nosso de cada dia Não copiar os males do amor Matar a melancolia que há no amor Querer a vontade fria Ser cego, surdo, mudo Não sujeitar o amor ao destino de cada um Não ter destino nenhum Ser a própria imagem do amor
Não é fácil o amor Melhor seria arrancar um braço Fazê-lo voar Dar a volta ao mundo Abraçar todo o mundo Fazer da alegria o pão nosso de cada dia Não copiar os males do amor Matar a melancolia que há no amor Querer a vontade fria Ser cego, surdo, mudo Não sujeitar o amor ao destino de cada um Não ter destino nenhum Ser a própria imagem do amor
Pôr o coração ao largo Não sofrer os males do amor Não vacilar, ter a coragem De enfrentar a razão de ser da própria dor Porque o amor é triste Não é fácil o amor
No quadragésimo aniversário da morte do matemático e revolucionário Jean van Heijenoort, publicamos um artigo do historiador Pierre Broué em sua homenagem.
Jean van Heijenoort (à direita), ao lado de Trotsky e Frida Kahlo.
Van morreu com três tiros na cabeça, disparados à queima-roupa na noite de 28 para 29 de Março de 1986. Aquele que, durante sete anos, de Prinkipo1 a Coyoacán2, fora o precioso colaborador de Leon Trotsky ficou a repousar não muito longe deste, no cemitério francês da Cidade do México.
Chamou-se, ao nascer, no dia 23 de Julho de 1912, em Creil, Jean van Heijenoort, filho de um trabalhador holandês emigrante, operário nas fábricas Fichet. Aos dois anos, na primeira semana da guerra, morreu-lhe o pai, de uma úlcera no estômago de que não se conseguiu estancar a hemorragia; os médicos tinham todos partido. A mãe e a avó arranjaram emprego como criadas, vivendo ele, com elas, nas casas burguesas que as tinham empregado. Já o caracterizava o vigor excepcional das suas aptidões intelectuais. Da guerra, mesmo do tempo em que apenas tinha dois ou três anos, conservou memórias de extraordinária precisão. Conheceu a pobreza, mas não a miséria, pois aquelas mulheres trabalhavam e viviam para ele e para a sua irmã, e não lhe faltou amor. Mas teve de aguentar o ódio boçal, o racismo. Nunca se esqueceu de ter sido agredido na escola, tratado de “boche3 de merda” por causa do nome “estrangeiro” e da aparência física – com o seu fácies de loiro de olhos azuis – e também porque Guilherme II, “le Kaiser”, como se dizia, se refugiara na Holanda em 1918.
Não obstante, a escola municipal abrir-lhe-ia as portas do saber. Classificado em primeiro lugar no concurso para “bolsas” do departamento, no final da escola primária, foi admitido como interno no colégio de Clermont d’Oise, onde foi aluno brilhante. Ainda muito jovem, soube fazer-se respeitar, mantendo à distância praxes e perseguidores. O aluno excelente era um rapaz que não vergava. A política entrou muito cedo na sua vida, porque ele assim o quis. Odiava a guerra, abominava os discursos nacionalistas e os sermões, amava a vida e aspirava à justiça e à liberdade, já. A sua experiência de criança do Norte criada durante a guerra, com os canhões como ruído de fundo, numa sociedade de classes que exibia todos os estigmas da injustiça, começou por atraí-lo para um comunismo “utópico e rousseauniano”; depois, para a leitura de L'Humanité com o grupo de estudantes do ensino secundário que tinha reunido com o seu amigo Jean Beaussier. A sua inteligência muito rapidamente fez dele um jovem comunista simpatizante das ideias de Trotsky, de quem ainda nada tinha lido, mas cujo alcance pressentia e que, fosse como fosse, se recusava a condenar sem ter lido.
Finalista brilhante do secundário, obteve a bolsa que lhe permitiu ingressar no curso de matemática avançada no Liceu Saint-Louis, em Paris, no início do ano lectivo de Outubro de 1930. Algumas semanas depois, aconteceu o que tinha de acontecer: conheceu um grupo de jovens militantes da Oposição de Esquerda, dirigidos por Yvan Craipeau. Tinham ido apupar uma peça anticomunista no teatro de Charles Dullin, que obrigaram a discutir com eles e que acabou por lhes dar razão. De passagem, ganharam Van. Era um militante magnífico. Sem abandonar a matemática, foi aperfeiçoando os conhecimentos de russo e participando em todas as iniciativas do pequeno e dinâmico grupo a que acabara de aderir. Foi, assim, com naturalidade que, no início do ano lectivo de 1932, Raymond Molinier4, que andava à procura de um secretário e guarda-costas para Trotsky, lhe propôs que partisse para Prinkipo. Van não hesitou um segundo: nem lhe passaria pela cabeça. Partiu, transportado pelo entusiasmo, para se pôr ao serviço directo do homem que admirava, cujos escritos, publicados em várias línguas, agora conhecia, o companheiro de Lenine, chefe do Exército Vermelho, depois animador da Oposição de Esquerda, o homem do destino da revolução mundial. O comboio que levava Van era o da história, cujas asas cavalgava já...
Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky.
Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky. Que acrescentar ao seu próprio relato? Primeiro, a crise que o abalou com a cisão de La Commune: tal como os jovens militantes da sua geração, Van tinha sido atraído pela personalidade de Raymond Molinier, pela sua intrepidez, combatividade e dinamismo. A condenação de Molinier por Trotsky, o apelo a excluí-lo, surpreenderam-no: ao princípio, os argumentos do Velho não o convenceram. No entanto, ao fim de várias semanas de luta e debate, abandonou o grupo La Commune, um dos pilares do qual era a sua companheira, Gaby, e escreveu a Trotsky, reconhecendo que se tinha enganado. Podemos acreditar nele: convencera-se. Gravara no coração a fórmula “faz o que tens a fazer, aconteça o que acontecer!” Não obstante, o dilaceramento pessoal pesou muito, dele me falou muito e muitas vezes.
Acompanhou Trotsky na viagem e primeiros dias de estada na Noruega, em Junho de 1935, voltou lá na altura do processo de Moscovo, em Agosto de 1936, e das primeiras medidas repressivas do governo de Oslo. Foi nessa época que L'Humanité o tratou de agente fascista, criminoso, assassino, em artigos de que era ele, juntamente com Erwin Wolf, o alvo, os dois corajosos que tentavam quebrar o isolamento de Trotsky exigido por Moscovo. Falou-me das ameaças do órgão do PCF contra Wolf – efectivamente assassinado em Espanha, em 1937 –, mas só quando consultei L'Humanité descobri que as ameaças o visavam também a ele, o que não me dissera.
Durante o período em que Trotsky esteve em França, Van acompanhou-o em grande parte da sua errância entre Barbizon e Domène, nomeadamente em Lyon e Grenoble. E foi também ele o agente de ligação entre Paris e Domène e o seu tradutor cada vez mais solicitado: foi ele quem traduziu a série de artigos mais tarde publicados com o título Où va la France? Em 1936, foi também ele quem traduziu a obra de Leon Sedov5Livre rouge sur le procès de Moscou. Animador, em 1935, do secretariado internacional da juventude, organizador, em 1936, da greve na France mutualiste, foi pai de “Jeannot”, nascido durante uma das suas estadas em Domène.
Logo que chegou ao México, em 1937, mergulhou no trabalho de arquivo necessário à defesa dos acusados nos processos de Moscovo e ao funcionamento do contra-inquérito da comissão Dewey6. Nos primeiros meses, ao lado de Jan Frankel, realizou um trabalho titânico com os documentos de Trotsky, que tinha feito o seu melhor para guardar e classificar durante os anos passados na Turquia e que conhecia melhor do que ninguém. Era preciso encontrar rapidamente este ou aquele documento indispensável, analisá-lo, reproduzi-lo, ou mesmo traduzi-lo, comentá-lo, transmiti-lo. Em grande parte, foi nos seus ombros que a defesa de Trotsky face à comissão Dewey materialmente assentou. Foi nesta batalha obscura que conquistou a estima de todos os intelectuais americanos ganhos para a defesa de Trotsky.
Após a partida de Frankel, no Verão de 1938, Van já não era apenas o faz-tudo, mas o homem de confiança, o único recurso, o Van-que-resolve-tudo, de quem André Breton deu uma descrição tão acertada quanto comovente no seu discurso de 11 de Novembro de 1938 (“Visita a Trotsky”, Cahiers Léon Trotsky, n.º 12, Dezembro de 1982). Ele, que, à chegada, não falava uma palavra de espanhol, conseguiu, em poucos meses, construir uma sólida rede de relações – sem a qual nada é possível no México – na imprensa e no aparelho do Estado, no mundo político e no universo cardenista7. Tal não o impediu de continuar a intervir como militante trotskista, de escrever artigos teóricos – assinados como Jean Rebel – na revista Clave, que Trotsky inspirou, com a cobertura dos seus amigos intelectuais mexicanos. Era, ao mesmo tempo, amigo de Breton e confidente de Frida Kahlo.
Gostaria, a propósito dos silêncios de Van, de evocar aqui uma anedota relacionada com o texto de Breton que acabei de mencionar e a homenagem que o poeta presta a Van, “revolucionário da cabeça aos pés”, a quem Breton chama “o homem tal como eu o entendo, o amigo em toda a acepção da palavra”. Num dia de Julho de 1982, encontrei em Harvard uma cópia do protesto por ele enviado a Breton, datado de 6 de Dezembro de 1938:
“P.S. – Recebi cartas de vários lados sobre um discurso seu em que se falava de mim. É muito chato.”
É o Van chapado, neste protesto. Com vontade de o picar, copiei a frase e levei-lha à casa onde ocupávamos quartos frente a frente. Ele ainda não tinha chegado; afixei-lhe a cópia à porta e, enquanto esperava por ele, fui trabalhando em casa. Ele veio ter comigo uma hora mais tarde, mas, desta feita, sem vontade nenhuma de sorrir, como eu esperava, mas verdadeira e profundamente aflito por descobrir a que ponto chegava a minha estupidez: como é que eu não tinha percebido como Breton tinha sido imprudente ao dizer que Van trabalhava pelo menos doze horas por dia, que não era pago, apenas alojado e alimentado e que estava longe de Gaby e de Jeannot? Não iria Trotsky pensar que Van se tinha queixado? Confesso que garanti a Van que compreendia perfeitamente e que tinha cometido, de facto, um erro estúpido ao achar piada ao protesto dele a Breton.
Trotsky tinha, de facto, sentimentos de culpa para com jovens como Van ou Jan Frankel, que lhe dedicavam anos de vida — não, evidentemente, por causa dos estudos que perdiam, embora isso também fosse importante aos seus olhos, nem por causa de uma “carreira”, mas simplesmente porque a situação deles ao seu lado, por muito enriquecedora que fosse em certos aspectos, os isolava da vida, do movimento real das massas, alimentando no seu pensamento uma certa abstracção, inevitável no contexto em que se estavam a formar, mas lamentável. Assim, apesar do desagrado por se separar pessoalmente de gente insubstituível – como eram Jan e Van –, ele ficou feliz quando os viu voar finalmente pelas suas próprias asas e viver a sua própria experiência política. A de Frankel terminou com a cisão de 1940. A de Van durou mais tempo; passou-se também nas fileiras do Socialist Workers Party – ele foi “Gerland” na discussão de 1939-1940 –, mas, em última análise, também não foi positiva. Chegou o momento, creio eu, para o historiador dizer serenamente, numa revista científica e sem polémica, o que Van não quis escrever, primeiro porque não o podia fazer sem paixão e, mais tarde, talvez por já não lhe parecer essencial. Falou-me do assunto muitas vezes e longamente, de preferência nos nossos passeios dominicais, mas também à noite, nas belas e frescas noites da Califórnia. Secretário da Internacional, responsável pelo S.I.8 em Nova Iorque a partir de 1940, Van considerava – e considerou até ao fim – que não lhe foram aí proporcionadas condições elementares para o funcionamento de um organismo internacional e que este foi deliberadamente sufocado e paralisado na sua acção, que ele julgava capital, pela má vontade e pela passividade da direcção do SWP. A sua voz – coisa rara – velava-se de indignação quando se referia ao “controlo burocrático” do membro americano do S.I., Bert Cochran (E. R. Frank, ver Cahiers Léon Trotsky, n.º 20), às sessões em que este último embirrava com vírgulas na correspondência, a atrasava sistematicamente, comprometendo-a por vezes, à sua oposição sistemática a qualquer proposta e iniciativa. Van – que era então Daniel Logan, Marc Loris, Ann Vincent – teve desentendimentos ainda mais graves. Ficava seriamente indignado ao falar das audiências que na altura lhe concedeu James P. Cannon, o dirigente do partido americano, o SWP, sobre os problemas teóricos e práticos da IV Internacional, sobre a questão nacional na Europa, o problema das palavras de ordem democráticas, a necessidade de ajuda aos militantes da Europa oprimida. Consciente da enorme responsabilidade que sobre si recaía desde a morte de Trotsky, Van pensava em regressar clandestinamente a França. Assegurou-me amiúde que todas as suas urgentes perguntas nunca tiveram outra resposta, ao fim de horas de apaixonada defesa da Internacional, senão uma série de grunhidos inarticulados e garantias de que “se ia ver”. Nesse período, Van trabalhava para viver e exerceu, de facto, todos os ofícios. Isso, como ele me disse, não impediu Cannon de o acusar de ter “exigências de pequeno-burguês” por causa das horas de reunião com os militantes profissionais do SWP, que não tinham as restrições horárias às quais ele estava sujeito. Sempre lhe ouvi manifestar, acerca desse período, amargura e, por vezes, um certo rancor.
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Era, em contrapartida, mais discreto a respeito dos últimos anos da sua actividade militante na IV Internacional, prometendo-me apenas que “um dia” me falaria da sua participação na tendência Goldman-Morrow, uma promessa que não conseguiu cumprir. A partir de 1943, de facto, aliou-se a Felix Morrow e Albert Goldman e, juntos, eles opuseram-se a Cannon, em particular nas questões europeias. Era absurdo, aos seus olhos, imaginar, em 1943 que a revolução socialista iria ocorrer sem transição e vencer logo que o nazismo caísse; achar que, no momento em que o fascismo caía na Itália, era hora de guardar na prateleira das recordações as palavras de ordem democráticas; considerava um erro enorme, a roçar a renegação, ver no avanço do Exército Vermelho, por aplicação mecânica dos textos de EmDefesa do Marxismo, um passo em frente automático da revolução, erro ainda mais grave do que negar pura e simplesmente o papel contra-revolucionário do Kremlin à escala mundial. Não admira, portanto, que só tenha concordado uma única vez com Cannon, que foi quanto à dissolução do S.I. de Nova Iorque no final da guerra e à transferência dos seus poderes para o órgão constituído durante a guerra por Michel Pablo, o secretariado europeu. A questão era, de facto, garantir a independência do órgão supremo da IV Internacional em relação ao SWP, objectivo, aos seus olhos, prioritário. Mas Van não podia continuar a trabalhar com o S.I.: com o serviço militar suspenso, mobilizado de facto ao serviço de Trotsky e depois da Internacional, encontrava-se em situação irregular perante o Exército francês, e o caso, embora não tivesse gravidade, só pôde ser resolvido anos mais tarde.
Em 1948, após a exclusão dos seus camaradas de tendência do SWP, Van rompeu com a IV Internacional e com o marxismo. Nunca me quis falar dessa ruptura e nunca me disse mais do que o que escreveu nas suas memórias, na página 211, muito menos, pois, do que escrevera na Partisan Review de Março de 1948, com a assinatura de Jean Vannier, sobre o balanço do século decorrido desde a redacção do Manifesto do Partido Comunista.
Van só regressou à Europa em 1957, a pedido da Universidade de Harvard, em busca dos documentos dos arquivos Sedov, vendidos, mas não entregues, por Trotsky a Harvard, e que Natalia9 se tinha comprometido a recuperar. Conheci-o pela primeira vez no final dos anos 60 no Select Hôtel, na Place de la Sorbonne, num quarto onde mal cabiam duas pessoas sentadas, que era o seu pouso durante as suas breves estadas da época. Voltámos a ver-nos várias vezes depois disso, em Cambridge (Ma), onde ele me guiou, inicialmente para a “parte aberta”, mas também em Domène, em Paris, em Follonica, no México e, finalmente, em Stanford – para terminar em Grenoble, no passado dia 26 de Fevereiro, por ocasião da defesa da tese de Olivia Gall, onde, apesar do cansaço extremo, soube cativar com o seu charme uma centena de pessoas, jovens e velhos.
Quando eu não o estava a interrogar como a testemunha-actor de que precisava, ele soltava-se por vezes, evocava os terríveis anos 30, o dever sagrado de escrever uma história dos bolcheviques-leninistas russos, a tendência política mais perspicaz e heróica da história, a necessidade de fazer compreender às gerações mais jovens o pesadelo desses anos de 1936 a 1940, dos combatentes encurralados entre os assassinos de Estaline e os de Hitler, o desespero, o medo dos homens perseguidos, os assassinatos que se sucediam e os assassinos à espreita na sombra ante uma opinião pública indiferente. Bastava uma breve informação, um elemento político, por ténue que fosse, para reactivar nas engrenagens múltiplas do seu cérebro a máquina da política e ouvi-lo manifestar uma paixão que estava apenas enterrada: a Polónia foi uma dessas ocasiões, a partir da greve de Gdansk. Devorou, explicou, interrogou, acabando por perguntar em voz alta a si mesmo se, contrariamente a tudo o que tristemente pensara há tantos anos, este movimento operário ressurgente na Polónia não seria a andorinha que anunciava a Primavera, a morte do estalinismo sob os golpes dos trabalhadores.
No entanto, já não queria “falar de política”. Razões de simples moralidade o levaram, dizia, a aceitar testemunhar no processo instaurado por causa das odiosas calúnias a Joseph Hansen, assim contribuindo para a condenação dos caluniadores pelo tribunal de Los Angeles.
Do mesmo modo, interviera, nas décadas anteriores, nos Estados Unidos, após a prisão como agentes da GPU dos irmãos Sobolevicius – Roman Weil e Adolf Senine, no movimento – e de Mark Zborowski, o famoso “Étienne”, infiltrado pelos serviços de Estaline junto de Sedov, esforçando-se por conseguir que fossem interrogados sobre a preparação do assassinato de Trotsky e a execução dos de Reiss10 e Sedov. Os seus esforços neste ponto não foram coroados de êxito, o que o afligia. O mais importante contributo que, como não militante, deu para a história do movimento que ajudara a construir foi o enorme trabalho que consagrou, durante anos, às dezenas de milhares de documentos desses “Trotsky Papers”, os arquivos de Trotsky depositados em Harvard, que identificou um a um com o meticuloso cuidado de arquivista que já mostrava na altura em que, em Prinkipo e Coyoacán, assegurara a sua conservação e datação. Sem ele, sem esse trabalho imenso, parte significativa dos documentos hoje identificados, classificados, muitos deles traduzidos, publicados e comentados, não passaria de um amontoado de papéis velhos e incompreensíveis. A sua tarefa nesse sentido foi felizmente mais fácil em Stanford, nos arquivos da Hoover e nos papéis de Sedov. Nunca esquecerei a emoção, a alegria, que fazia a sua voz cantar, quando me anunciou ao telefone que tinha acabado de rever as famosas cartas do Velho a Liova11, com os seus longos P.S. manuscritos nos originais dactilografados, que ele dera por perdidos para sempre, mas ressurgiam no fundo Nikolaievsky.
A princípio reservado, sempre cauteloso, Van depositou confiança em mim, creio, quando leu o meu primeiro livro. A minha existência e a minha capacidade de trabalho davam-lhe o ensejo de pousar um fardo que começava a ficar pesado. Embora se tivesse sempre recusado a que o seu nome aparecesse, era ele, como eu lhe dizia em tom de brincadeira, “a eminência parda” ou “a alma danada” do Instituto Leon Trotsky, o inspirador exigente e, em simultâneo, conselheiro insubstituível das Œuvres e dos Cahiers Léon Trotsky. O trabalho do Instituto, os meus trabalhos pessoais, têm uma enorme dívida para com ele, que ele, infelizmente, já não nos pode impedir de assinalar. Gostaria, neste aspecto, de trazer à colação um facto curioso. Ano após ano, creio ter notado que ele já não se lembrava de episódios importantes que me tinha contado pessoalmente. Cedo me tive de render à evidência e, apesar do espanto inicial, admitir que ele se esquecia precisamente do que me tinha contado. Depois de ver e rever, disse-lho com cautela. Surpreendeu-me pela sua sorridente auto-satisfação: disse ser uma máquina muito bem afinada, que, ao envelhecer, resolvia assim o problema da sua sobrecarga, só se desfazendo daquilo que tinha a certeza de saber preservado. O mais surpreendente é que era verdade. Van era uma das mais belas máquinas intelectuais que me coube conhecer e admirar.
O Van que conheci já não era o Van que os polícias de uma pequena cidade do Midwest tinham detido por alguns dias porque a sua aparência de estrangeiro lhes parecera suspeita. Já não era o homem que tinha vivido de mil e um ofícios, do ensino de francês na Berlitz ao fabrico de prateleiras para arrumar os livros dos camaradas e a reparações de canalizações. Já não era o homem que construía ele próprio a sua cabana de férias e conhecia cem maneiras de preparar uma lagosta que não fora paga. Era o pai de Laure, filha da sua companheira norte-americana, Bunny, que conhecera em Coyoacán. Era um professor universitário de nomeada. Na década de 1950, ingressara no Departamento de Matemática da Universidade de Columbia, em Nova Iorque e, de 1965 a 1979, fora professor de Filosofia e História da Lógica na Universidade de Brandeis, em Waltham (Massachusetts). Em 1967, publicara uma obra de lógica matemática (From Frege to Gödel. A Sourcebook in Mathematical Logic) que lhe valeu uma real notoriedade entre os especialistas. Houve outros que, aliás, disseram quem foi Van, o matemático, e, sobretudo, Van, o lógico – talvez um dia seja possível reunir as homenagens num testemunho comum de homenagem à inteligência em todas as suas formas. Foi ele um dos especialistas que empreenderam a publicação póstuma dos artigos do grande lógico Gödel e, no ano passado, ele integrou a equipa do CNRS que retomou o seu projecto de publicação integral dos trabalhos do matemático francês Herbrand, falecido acidentalmente muito jovem. Não creio que exista congresso mundial de especialidade científica alguma em que Van não se sentisse no seu lugar e à vontade. Desconhecido do grande público, mesmo no México, onde viveu durante anos e onde a imprensa falou da morte de um “rico (!) homem de negócios de origem holandesa”, Van era apreciado em todo o mundo por muita gente competente e por amigos certos. Não havia cidade importante nem continente onde ele não pudesse ter pouso ou convite.
Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse
Aconteceu-me fazer piadas com o Van por ele transportar de um continente para o outro malas enormes e pesadas. Mas ninguém sabe que este homem, que ia, assim, de um dos seus filhos para o outro, de uma das suas pesquisas, de um dos seus escritórios para o outro, carregava nos braços metade dos seus bens. Durante os anos que antecederam e se seguiram ao seu 70.º aniversário, viveu em dois quartos de estudante, em Cambridge e depois em Menlo Park, com uma mesinha, duas cadeiras, um despertador, um rádio, o computador que ele próprio – sua última paixão – tinha montado, a sua velha máquina convertida em “impressora” e o seu caderno de endereços – um Gotha da inteligência – com o dossiê “especial”. O seu luxo – de que não pouco se orgulhava – era ter dois gabinetes em duas universidades diferentes, um em Pusey, em Harvard, e outro no Departamento de Matemática de Stanford, com algumas dezenas de livros, pastas, a sua correspondência e uma cama de campanha para a sesta. Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse.
Que o leitor me perdoe por apenas indirectamente ter tratado do “amigo”: mas como outra coisa seria possível, quando escrevo estas linhas poucos dias depois de tomar conhecimento desta perda irreparável e quando ela é Van? O “belo sorriso claro” de que falava André Breton em 1938 foi apagado para sempre. Subsistirá apenas, por mais alguns anos, na memória de quem o amou. Van gostava de dizer que, entre as centenas de milhões que somos, as diferenças individuais não passam de gradações infinitesimais. Incontestavelmente, tinha razão. Rendamo-nos, porém, a esta evidência: ele é insubstituível.
Em nome da equipa do Instituto Leon Trotsky, da qual sou aqui o porta-voz, em nome de todos aqueles que não conheço, mas que, tenho a certeza, me dão procuração para o fazer, saúdo-te, meu amigo Van, e agradeço-te pelo que foste e pelo que continuarás a ser para nós, quando a insuportável dor se tiver atenuado: como Breton sabia, foste o homem que nos consolou de tantos outros.
1“Ilha do Príncipe”. no mar de Marmara, perto de Istambul, primeiro local de exílio de Trotsky depois da sua expulsão da URSS em 1929.
2 Bairro na Cidade do México onde Trotsky viveu o seu último exílio, antes de ser assassinado por um agente da GPU de Estaline.
3 Boche: designação depreciativa dos Alemães em França.
4 Raymond Molinier, militante comunista francês, um dos fundadores da Oposição de Esquerda em França.
5 Leon Sedov: filho de Leon Trotsky e de Natalia Sedova, membro da Oposição de Esquerda, tornou-se, com o exílio do pai, no seu mais estreito colaborador. Morreu em 1938 em Paris, na sequência de uma operação à apendicite, envenenado pela polícia secreta de Estaline, a GPU (mais tarde o KGB).
6 A Comissão Dewey, presidida pelo filósofo norte-americano John Dewey, foi uma comissão de inquérito independente às acusações feitas a Leon Trotsky nos processos de Moscovo, formada em 1937. As suas conclusões foram publicadas num livro com o título Not Guilty!
7 Lázaro Cárdenas foi presidente do México de 1934 a 1940 e grande impulsionador da reforma agrária no país. Foi durante a sua presidência que Leon Trotsky encontrou no México o seu último refúgio, depois de expulso de vários países europeus, nomeadamente por pressões do Kremlin.
8 SI: O Secretariado Internacional da IV Internacional.
9 Natalia Sedova, militante bolchevique russa, mulher de Trotsky, mãe de Leon Sedov.
10 Ignace Reiss, militante comunista polaco-ucraniano, tornou-se membro dos serviços de informação da União Soviética. Em 1937, face à liquidação geral do partido bolchevique pela clique estalinista, Reiss, então em Paris, enviou uma carta a Estaline e ao CC do PCUS em que, devolvendo as suas condecorações, denunciava as purgas e declarava juntar-se a Trotsky e à IV Internacional. Foi assassinado por agentes da GPU na Suíça, onde se escondera, poucos meses depois.
11 Liova é o diminutivo russo de Lev’ (“Leão”), nome de Trotsky e do filho, Sedov.
Tradução e notas de Adriano Zilhão. O artigo de Pierre Broué é de 14 de Maio de 1986.
Um comboio de tempestades atlânticas varreu Portugal, em especial a região Centro, em menos de duas semanas. Deixou um rasto de calamidade do qual já não havia memória.
A nossa memória tende a ser seletiva, e, se fenómenos extremos sempre existiram, é hoje sabido que a sua intensidade e a frequência se irão agravar devido às alterações climáticas. Talvez estes episódios já sejam parte dessa transformação. Só séries temporais longas o confirmarão.
O que os dados científicos já nos dizem há bastante tempo, no entanto, é algo essencial: o risco não resulta apenas da intensidade dos eventos. Resulta das escolhas que fizemos e continuamos a fazer sobre como ocupar, gerir e transformar a paisagem. E, sobre isso, há pouco debate público e ainda menos literacia.
Portugal foi pioneiro, ainda na década de 1980, ao criar a Reserva Ecológica Nacional, impulsionada pela visão de arquitetos paisagistas como Gonçalo Ribeiro Telles, António Viana Barreto e Ilídio de Araújo. A par da Reserva Agrícola Nacional, esta estrutura permitiu, em muito, salvaguardar sistemas dunares, linhas de água, zonas húmidas, encostas com risco de erosão e deslizamento e os melhores solos agrícolas, ou seja, a base biofísica que sustenta o território e minimiza os riscos para pessoas e bens. Era, antes do tempo, aquilo a que hoje chamamos uma solução baseada na natureza.
Ainda assim, várias destas áreas têm vindo a ser destinadas a fins que contrariam a sua aptidão ecológica. As imagens recentes de habitações e infraestruturas destruídas em leitos de cheia ou em encostas instáveis mostram, de forma brutal, o custo dessas decisões. Veja-se ainda o caso da Costa Azul, entre Troia e Melides, progressivamente transformada de bem público comum em ativo (quase) privado, apesar da sua reconhecida vulnerabilidade ecológica e climática. Num cenário de subida do nível médio do mar e de maior frequência de eventos extremos, é provável que o Estado venha a ser chamado a proteger o que antes foi autorizado a construir, a custos que provavelmente não foram ponderados.
Se o pensamento sobre o ordenamento e a gestão da paisagem marcou, de forma diferenciadora, parte da legislação do pós-25 de Abril, a adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, trouxe novas agendas e prioridades. Fomos progressivamente substituindo visões integradas do território e da paisagem por abordagens mais setoriais, muitas vezes orientadas por financiamentos específicos. A palavra “paisagem” manteve-se nos diplomas, nas estratégias e nos planos. O conteúdo e a forma holística de olhar para o território nem sempre. E não deixa de ser irónico que, em 2005, Portugal tenha ratificado a Convenção Europeia da Paisagem, reafirmando o compromisso com a necessidade de termos uma visão integrada do território e da paisagem. Vinte anos depois, o sentido dessa ratificação continua por cumprir.
O problema não está na falta de planos. Está na aplicação desigual, na ausência de avaliação sistemática, antes e depois da implementação, e na dificuldade em corrigir o que falha.
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Mas há algo ainda mais básico que os planos não resolvem: a falta de gestão da paisagem. Aquilo que determina, dia após dia, se uma linha de água se mantém limpa, se uma encosta está estabilizada, se uma floresta é menos suscetível ao fogo. Essa gestão exige continuidade, recursos e uma visão que ultrapasse os limites administrativos dos territórios, as fronteiras de política entre ministérios e os ciclos eleitorais.
A nossa governação organiza-se por limites administrativos e lógicas setoriais. A paisagem não reconhece nem obedece a nenhum deles. A paisagem não é apenas o suporte biofísico do território, nem apenas o resultado visível da ação humana. É a interação contínua entre ambos e depende sempre de quem a lê, de como a habita e de como a gere diariamente.
Ler a paisagem como um sistema socio-ecológico permite identificar vulnerabilidades construídas ao longo do tempo, antecipar efeitos cumulativos e perceber como soluções num lugar podem agravar a vulnerabilidade noutro. Sem essa leitura integrada, a adaptação torna-se fragmentada, reativa e, muitas vezes, ineficaz. A paisagem não é o cenário onde os impactos ocorrem; é o sistema que determina a sua magnitude. É também, e por isso mesmo, o nível em que as políticas precisam de se encontrar (ambiente, agricultura, florestas, energia, ordenamento do território), porque é na paisagem que as suas consequências se tornam indissociáveis.
A Política Nacional de Arquitetura e Paisagem (PNAP), aprovada em 2015, reconhecia isso mesmo: a necessidade de abordagens holísticas e de integração da paisagem nas políticas sectoriais. Uma década depois, a PNAP permanece um documento de intenções, sem os instrumentos nem a autoridade necessários para vincular os sectores que, na prática, mais determinam a transformação da paisagem.
O diagnóstico não é novo. Adaptarmo-nos às alterações climáticas não significa apenas reforçar infraestruturas ou responder de forma reativa a emergências. Significa compreender como funcionam os sistemas que regulam a água, estabilizam os solos, moderam as temperaturas e sustentam as atividades económicas e sociais. A paisagem é o nível em que essas interações se tornam visíveis. É nela que se cruzam processos ecológicos e culturais, decisões políticas e os usos que fazemos do território para viver e produzir.
Sabemos o que falhou. A questão é o que fazemos com isso.
Temos agora a oportunidade e a obrigação de nos perguntarmos: que tipo de país queremos ser num contexto de mudança climática acelerada? Essa escolha não se faz apenas através de legislação avulsa ou de respostas de emergência. Faz-se também por meio da construção de uma visão partilhada da paisagem e do território, que procure alinhar políticas públicas, o conhecimento científico e a ação regional e local numa mesma direção.
Essa visão tem de ser supramunicipal. Tem de ser construída à escala dos sistemas naturais e sustentada por mecanismos de governação que assegurem continuidade para além dos ciclos políticos. A paisagem não se transforma ao ritmo de um mandato. E a adaptação climática também não.
A construção coletiva de uma estratégia para a paisagem portuguesa não pode continuar a fazer-se município a município, projeto a projeto, tempestade a tempestade, incêndio a incêndio. Exige coordenação, compromisso político sustentado e responsabilidade intergeracional. Porque a adaptação climática é também uma questão de justiça ambiental: os custos das decisões acumulam-se, mas raramente recaem sobre quem as tomou.
A última tempestade passou. A próxima já se forma algures no Atlântico. O que decidirmos enquanto o céu está limpo determinará o que resistirá quando ela chegar. Mas para decidir bem, primeiro é preciso saber ler a paisagem.
Carla Gonçalves é arquiteta paisagista. Diretora-executiva do Centro do Clima da Póvoa de Varzim. Investigadora do CITTA — Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente, Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto. As opiniões aqui expressas são de carácter pessoal e não refletem a posição institucional do Centro do Clima da Póvoa de Varzim, dos seus sócios fundadores e efetivos, nem do CITTA/FEUP.
Como podemos compreender a servidão voluntária num sistema não ditatorial? Em empresas e locais de trabalho comuns? Aqui, o problema central é perceber como um comportamento habitualmente reprovado pela maioria pode tornar-se progressivamente aceitável, ou mesmo banal.
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ilustração: Ricardo ferreira
1. O problema do consentimento das massas
Na origem do meu interesse pela psicodinâmica do trabalho está uma questão que apelidarei provisoriamente de questão da reprodução social. Por reprodução social entendo aqui o fenómeno da permanência das relações sociais existentes e da continuidade ao longo do tempo de uma ordem social que, porém, gera desigualdade e injustiça. Em síntese, como pode perdurar um sistema político que gera sofrimento, desigualdades crescentes e injustiça, chegando mesmo a obter a adesão daqueles que se tornam suas vítimas? Esta é uma questão central no domínio das ciências sociais, que foi colocada e abordada por vários autores, seja na sociologia, na filosofia, na teoria política, etc.
A questão do conformismo das massas, da sua submissão à autoridade de um líder, surgiu sob o duplo efeito das revoltas populares e dos movimentos sociais que agitaram o final do século XIX e o início do século XX, e do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa (Moscovici, 1985). Os primeiros tratados sobre a questão, como o célebre ensaio de Gustave Le Bon, são na realidade manuais de manipulação de massas. Foram escritos numa perspetiva autoritária e a sua função era fornecer aos líderes políticos instrumentos de controlo das massas, para assim evitar revoltas sociais (Le Bon procurava evitar, na realidade, que os eventos da Comuna de Paris se reproduzissem). Daí o seu sucesso junto de dirigentes políticos fascistas, como Mussolini.
Numa perspetiva mais emancipatória, esta questão tornou-se uma preocupação tanto para os investigadores que tentaram explicar a adesão de setores importantes da classe trabalhadora aos movimentos fascistas (Reich, 1997), quanto, mais tarde, para aqueles que quiseram entender os assassínios em massa cometidos durante o holocausto (Browning, 1998).
Esse problema esteve, por exemplo, no centro dos trabalhos dos autores da Escola de Frankfurt, que usaram a psicanálise para tentar compreender a irracionalidade social, ou seja, a adesão dos indivíduos a uma ordem social contrária aos seus interesses (essa preocupação dará origem, nomeadamente, ao estudo de Adorno e seus colaboradores sobre a personalidade autoritária) (Adorno et al., 2019). A questão do consentimento também permeia a investigação de Hannah Arendt sobre o caso Eichmann, que culminou na formulação da famosa tese da banalidade do mal (Arendt, 1966). Foi ainda para encontrar respostas a este espinhoso problema – o da participação de indivíduos comuns em atos desumanos – que Stanley Milgram desenvolveu a sua famosa experiência sobre a obediência à autoridade (Milgram, 2009). As conclusões de Milgram tiveram um impacto considerável, entre outros, nos trabalhos do historiador Christopher Browning, que estudou a participação de “homens comuns” do 101.º batalhão de reserva da polícia no holocausto (Browning, 1998). Como é que homens comuns, bons pais de família, que tinham a liberdade de recusar as missões que lhes eram propostas, se tornaram assassinos em massa? Browning recorreu aos estudos de Milgram e destacou a importância do conformismo, das pressões exercidas pelos pares e da submissão à autoridade para explicar os comportamentos bárbaros destes indivíduos.
Trata-se de compreender como logra o sistema neoliberal produzir a colaboração em massa sem recorrer à violência.
Esses trabalhos constituem uma referência importante para a psicodinâmica do trabalho. Juntamente com o Discurso da servidão voluntária de La Boétie (La Boétie, 1574), desempenharam um papel importante na construção da problemática da servidão voluntária. Mas a maioria deles diz respeito a regimes totalitários, ou seja, regimes políticos em que o uso da violência (tortura, assassínios, prisões, etc.) faz parte dos métodos empregados pelo poder para garantir o controlo social. Ao contrário desses trabalhos, em Souffrance en France, Christophe Dejours (Dejours, 1998) interessa-se pelo sistema neoliberal, ou seja, um sistema político que se baseia em métodos de dominação distintos daqueles utilizados nos regimes totalitários. O objetivo de Souffrance en France não é comparar a mecânica do sistema totalitário com a do sistema neoliberal, considerando-os equivalentes. A problemática de Souffrance en France é, na verdade, exatamente oposta: trata-se de compreender como logra o sistema neoliberal produzir a colaboração em massa sem recorrer à violência, como nos sistemas totalitários. Dejours parte da hipótese de que, embora os dois sistemas, totalitarismo e neoliberalismo, sejam distintos, o processo que leva os indivíduos a colaborar com o poder é semelhante. A originalidade da abordagem da psicodinâmica do trabalho consiste em atribuir ao trabalho um papel central nesse processo.
2. O processo de banalização da injustiça social
Como podemos compreender a servidão voluntária num sistema não ditatorial? Em empresas e locais de trabalho comuns? Aqui, o problema central é perceber como um comportamento habitualmente reprovado pela maioria pode tornar-se progressivamente aceitável, ou mesmo banal.
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Para analisar o que apelidamos em psicodinâmica do trabalho de processo de banalização da injustiça social, Christophe Dejours baseia-se numa clínica específica. É importante indicar isto, pois, embora os trabalhos teóricos sobre o consentimento em massa constituam uma importante fonte de inspiração, é fundamentalmente uma constatação clínica que está na origem da reflexão sobre a servidão voluntária em psicodinâmica do trabalho. Qual é, então, a clínica que fundamenta este questionamento?
A análise das formas de sofrimento no trabalho e das defesas contra o sofrimento está no centro da teoria psicodinâmica da servidão voluntária. Em Souffrance en France, Dejours destaca o sofrimento relacionado com o medo no trabalho. O medo relacionado com acidentes em profissões de risco (construção civil, indústria química ou nuclear, etc.), ou o medo relacionado com a ameaça de demissão e desemprego é uma fonte fundamental de sofrimento no trabalho. Funciona como uma alavanca da submissão. É preciso defender-se desse medo, se quisermos evitar cair na doença mental. É por isso que os trabalhadores implementam estratégias individuais e coletivas de defesa, que lhes permitem ocultar os riscos e negar o medo. No exemplo hoje em dia bem conhecido das estratégias coletivas de defesa dos trabalhadores da construção civil, expostas em Travail, usure mentale (Dejours, 1980), é através da negação do risco que os trabalhadores conseguem combater o medo. Estas defesas permitem enfrentar os riscos do trabalho, mas, em contrapartida, amputam parcialmente a capacidade de pensar dos indivíduos. Para sofrer menos, os trabalhadores desvalorizam, ou até banalizam, o sofrimento alheio. Ao negarem o que causa sofrimento, as defesas aumentam a insensibilidade ao sofrimento e, por isso, levam a uma maior tolerância à injustiça. Consequentemente, a articulação entre sofrimento e defesas está no centro do processo de banalização do mal. Em suma, é essencialmente para não sofrer que os indivíduos consentem em servir. O seu comportamento é orientado pelo desejo de não sofrer, e não pelo desejo de servir.
Todavia, a clínica do trabalho leva também a outras conclusões, mais problemáticas. Em primeiro lugar, as pesquisas em psicodinâmica do trabalho levam à conclusão de que nenhuma empresa, administração ou serviço pode funcionar sem a mobilização da inteligência dos seus trabalhadores. Devido à diferença sempre existente entre o trabalho prescrito e o trabalho real, nenhuma organização pode prescindir da contribuição subjetiva dos trabalhadores para manter o seu bom funcionamento. Se admitirmos que, para colmatar esta diferença, é inevitável recorrer a uma contribuição viva e subjetiva, então temos de concluir, em primeiro lugar, que nenhuma organização pode funcionar sem o esforço constante dos seus membros para a fazer funcionar e, em segundo lugar, que os trabalhadores não são passivos no processo de produção.
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Mas para além da importância atribuída ao medo na génese do processo de banalização da injustiça, em Souffrance en France Dejours considera uma fonte adicional de sofrimento no trabalho, o sofrimento ético. A noção de sofrimento ético designa “o sofrimento que resulta não de um mal sofrido pelo sujeito, mas aquele que ele pode sentir ao cometer, devido ao seu trabalho, atos que reprova moralmente” (Dejours, 1998, p. 44). Este sofrimento não é um efeito daquilo que é imposto ao trabalhador, mas do que ele faz em nome do seu trabalho. Christophe Dejours argumenta, portanto, que a colaboração com o “trabalho sujo” dá origem a uma forma específica de sofrimento que decorre da “consciência dolorosa da própria cumplicidade” (Dejours, 1998, p. 23) e que pode ser assimilada tanto a um medo da responsabilidade como a uma consciência de culpa. Chamo a vossa atenção para um aspeto central desta nova forma de sofrimento: o sofrimento ético instala-se quando os trabalhadores aceitam, apesar de tudo, colaborar. Na verdade, o sofrimento ético é uma confissão de colaboração. Daí o aparecimento da culpa. O sujeito sente-se culpado por algo que fez (ou que se absteve de fazer, mas que poderia ter feito). Esse sofrimento dá origem a um conflito consigo mesmo, também chamado de conflito intrapsíquico. Distinto do sofrimento relacionado com o medo ou a falta de reconhecimento, o sofrimento ético remete para o medo de perder a própria dignidade e de trair os seus ideais e valores.
3. A recepção de Souffrance en France e a questão da dominação
3.1. A servidão voluntária: uma negação da dominação?
A problemática da servidão voluntária, introduzida em psicodinâmica do trabalho com as teses desenvolvidas em Souffrance en France, foi alvo de críticas acerbas. Grande parte dessas críticas gira em torno da acusação de “psicologismo”. Para muitos autores, a análise de Christophe Dejours seria marcada pelo “psicologismo”, aqui entendido como um desconhecimento, ou mesmo como uma negação da dominação. O psicologismo consistiria em não levar em conta o peso das estruturas e das relações sociais sobre a ação individual. Assim, num debate publicado por ocasião do lançamento de Souffrance en France na revista Sociologie du Travail, o sociólogo Jean-Pierre Durand dirá, por exemplo:
De facto, este absolutismo da mente impede o autor de pensar no papel das estruturas sociais, na função da acumulação de capital (com as suas crises) na produção das relações de produção e do sofrimento (ou do prazer), nem, é claro, de pensar a combinação dialética entre o indivíduo e o social. A posição de Dejours de que os fenómenos sociais são produto da agregação de comportamentos individuais impede-o de perceber a natureza da política (campo intrinsecamente ligado à economia e às contradições que a impulsionam) ou faz que conceba o campo político como um apêndice social de submissões individuais nascidas das mentiras de líderes perversos ou psicóticos (Durand, Baszanger & Dejours, 2000, p. 318).2
Se retomo aqui as objeções de Durand, é porque elas me parecem representativas de um conjunto mais geral de críticas que acusam a psicodinâmica do trabalho de uma tendência para “psicologizar o social”. A maioria desses autores postula, com razão, que as relações de dominação funcionam como uma restrição. Têm um efeito coercivo que impede os indivíduos de agir como gostariam. Seria, afinal, uma ilusão imaginar que os trabalhadores são livres para agir como bem entenderem. A sua servidão não é, portanto, voluntária, mas involuntária, uma vez que é obtida por efeito da coação. Por outras palavras, os dominantes forçariam, através do seu poder, a servidão dos dominados. Essa teoria da dominação acompanha-se, nalguns autores, de uma teoria da mistificação, na qual as relações sociais não apenas exercem controle sobre a ação dos indivíduos, mas produzem também efeitos de desconhecimento ou uma falsa consciência que impedem os indivíduos de perceber corretamente a natureza da dominação da qual são vítimas.
3.2. Burawoy: “A dominação é assim tão profunda?”
Essa concepção de dominação levanta, no entanto, dificuldades importantes, especialmente quando se tenta pensar na possibilidade de emancipação dos trabalhadores. Se a sua ação é totalmente condicionada pelas estruturas sociais, por que meios podem eles transformar essas estruturas? Como podem libertar-se da dominação, se esta é concebida como uma restrição absoluta? Foi provavelmente o sociólogo britânico Michael Burawoy quem melhor percebeu e formulou essa dificuldade. Eis como ele expressa isso no último capítulo de sua obra Conversations avec Bourdieu:
A questão a que esta investigação procura responder — quão profundamente enraizada está a dominação? — tem três componentes. Se, por um lado, o habitus da sujeição é profundo e universal, como pode a dominação ser posta em causa? Se, por outro lado, a mistificação é histórica e contingente, quando é que a dominação se torna transparente? Finalmente, em que condições, se é que existem, a verdade objetiva do sociólogo converge com a verdade subjetiva do trabalhador? (Burawoy, 2019, p. 237).3
Burawoy identifica com precisão os problemas colocados pela teoria sociológica da dominação (Burawoy refere-se, em particular, à teoria da dominação de Pierre Bourdieu) (Burawoy, 2011). Se as estruturas de perceção do mundo social são adquiridas de forma universal ao longo do processo de socialização e o habitus se cristaliza sob a forma de disposições inconscientes, portanto não percebidas pelos indivíduos, como podem esses indivíduos, que pensam com as estruturas de pensamento da dominação, tomar consciência de que são dominados? E se conseguirem romper o véu da ignorância e tomar consciência da sua dominação, como podem revertê-la? Uma teoria da dominação que faz da dominação um fenómeno total conduz a um impasse do ponto de vista da ação. Ou, nas palavras dos autores do Coletivo La Boétie:
Para a maioria destes autores, de facto, o contributo ativo dos trabalhadores é sempre o resultado de uma restrição sistémica ou de um arsenal ideológico capaz de “produzir adesão voluntária”. (...) Não há, nesta descrição, qualquer elemento de contribuição voluntária da submissão, que está sempre ligada ao fenómeno da servidão voluntária. Utilizada desta forma, a categoria perde o seu significado. Além disso, não pode ser utilizada numa perspetiva emancipatória: se os trabalhadores são forçados ou obrigados a aderir, não se podem libertar apenas com a vontade de o fazer (Emmenegger et al., 2019).4
É em parte para superar as dificuldades da teoria sociológica da dominação que Burawoy atribui um lugar central ao consentimento na sua própria teoria das relações sociais de trabalho. Por outras palavras, ele pressupõe um espaço de liberdade no trabalho. Esse é o paradoxo para que gostaria de chamar a vossa atenção: uma teoria crítica da dominação deve dar espaço à liberdade. Ela não pode postular uma dominação total, sob pena de chegar a uma teoria da sociedade que não deixa espaço para a mudança social e, portanto, para a emancipação.
No entanto, é importante considerar outro binómio, que não deixa margem para a liberdade. Ao lado do binómio dominação/servidão, parece-me necessário introduzir o binómio domínio/submissão. Nas relações de domínio, a dominação é, desta vez, total. Não deixa margem para a liberdade e conduz à submissão. Tal como indica Christophe Dejours,
O termo submissão deve ser aqui entendido no seu sentido mais forte. A submissão é mais do que obediência, pois não há obediência que não deixe espaço para a desobediência. A submissão é algo mais: começa quando toda a resistência é abolida (Prefácio de Mentir au Travail, Rolo, 2015).5
Existem situações de trabalho que se enquadram mais na categoria do domínio do que de dominação. No entanto, é preciso ter cuidado para não usar essas categorias como chaves de leitura a priori. É melhor considerá-las como questões que só podem ser respondidas por meio de inquérito empírico.