Alentejo: trabalho forçado e destruição ecológica
Dezenas ou centenas de milhares de trabalhadores, na esmagadora maioria imigrantes, trabalham de sol a sol nos campos portugueses, em condições indignas do século XIX, quanto mais do século XXI.
Há um anjo que não fala é o anjo do silêncio observa os homens e sabe como a sua memória se aloja na devastação no pulsar do sangue nas pedras da cidade agora destruída. O anjo do silêncio espera talvez um sinal mas o céu permanece fechado e os homens
Há um anjo que não fala
é o anjo do silêncio
observa os homens
e sabe como a sua memória
se aloja na devastação
no pulsar do sangue
nas pedras da cidade
agora destruída.
O anjo do silêncio
espera talvez um sinal
mas o céu permanece fechado
e os homens caminham
ziguezagueando
entre as ruínas
salvando as crianças e os velhos
perante o longo silêncio do anjo
que os olha de través..
Maria Cantinho
Segundo o dicionário da Porto Editora, corresponde a: 1) forma de liderança que se baseia no mérito pessoal, em vez de se basear em riqueza ou estatuto social; 2) sistema social que se baseia nessa forma de liderança. EM NOVILÍNGUA: Segundo artigo de Sergio C. Fanjul no El País: “Soa
Segundo o dicionário da Porto Editora, corresponde a: 1) forma de liderança que se baseia no mérito pessoal, em vez de se basear em riqueza ou estatuto social; 2) sistema social que se baseia nessa forma de liderança.
EM NOVILÍNGUA:
Segundo artigo de Sergio C. Fanjul no El País: “Soa bem, e dizem-nos muitas vezes que vivemos numa meritocracia”. “Mas vários especialistas consultados alertam: a meritocracia não existe nas nossas sociedades e não está claro que a sua existência nos traga virtude. Nas últimas décadas o fosso entre vencedores e perdedores aumentou, gerando sociedades mais polarizadas e desiguais em rendimentos e riqueza.” A conceptualização do sucesso também mudou: “Os que chegaram ao topo acreditam que o seu sucesso é obra sua, evidência do seu mérito superior, e que os que ficam para trás merecem o seu destino”, diz o filósofo da Universidade de Harvard Michael Sandel, autor do livro A Tirania do Mérito (Presença, 2022). ASP
Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado
Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado a meio da Quaresma e ser altura da Pinha, sei lá. A malta ia a todos, testosterona nos limites, embora a atração fosse maior se o conjunto, como então se dizia, tivesse fama de tocar rock imitado – não se falava, ainda, em covers. “Nights in white satin” era sempre, e por evidentes razões de roçanço, um tema desejado, mas um gajo também podia dar nas vistas e ser admirado pelos seus movimentos arriscados, ao dançar em grupo o “Smoke on the water”.
Seja como for. Certo é que a maior parte das vezes, estando embora a menina dos nossos olhos na sala, a gente não tinha dinheiro para o bilhete. E lá ficávamos, então, pelo bar, esperando a hora de podermos entrar à borla. E se, entretanto, ocorria o momento das meninas ao bufete – alguém se lembra disto? – ali continuávamos, esperando vê-la, mesmo que trazida pela simpatia mais endinheirada de um rival qualquer. Cervejola abaixo, charrito às escondidas acima, o baile acabaria por ser nosso.
Os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada.
Na sala, então. Um vazio enorme entre cada dança. Era preciso atravessá-lo, gigantesco vazio sob os olhares de todos, e ir pedir, se conhecida e desejada fosse, “Danças comigo?” ou, em casos de apuro, arriscando “A menina dança, tem par ou descansa?” O resultado desse momento dependia da verdadeira intenção: ou se ia por desejo sincero, ou arriscava-se por desafio do resto da malta. E era um desatino, em qualquer dos casos, quando se levava com uma tampa – alguém se lembra deste outro isto? Bolas! Encolher as orelhas e voltar a atravessar o tal vazio titã para, lá no fundo, ser recebido pelas gargalhadas de troça do pessoal. Uma nega não tinha piada nenhuma. Nunca teve, sobretudo quando o conjunto se preparava para tocar “Angie”, dos Rolling Stones.
No resto, tirando as valsas ou os tangos, mais estes, que infelizmente nunca soube dançar, os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada, e até no depois, quando livre de paus-de-cabeleira e amigos éramos só nós, eu e ela.
Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela
Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela uma égua, acho que não. Era um cavalheiro. Tinha idade para ser pai dela. Ela, por sua vez, filha sem pai, supria naquela relação a carência paterna. Certo mesmo é que ele, como tantos outros homens, novos e velhos, a desejava e era o mais fiel dos seus admiradores. Vivia a cercá-la de atenções, não perdia oportunidade de demonstrar o quanto podia ser útil, o companheiro agradável, resolutivo e apaixonado que ela podia ter. Ela sabia do seu poder e diversas vezes esfregou na cara dele um parceiro mais novo, bem mais novo, viril, um garanhão, representação incontestável da testosterona que ele já não exibia. Mas bastava ela estalar dois dedos, lá estava ele aos seus pés. Se ela o mandasse matar alguém, ele iria correndo cumprir a ordem. Só depois perguntaria porquê.
Eu não conseguia afastá-la do meu convívio, embora fosse justo que o fizesse. Mas a minha porção civilizada e orgulhosa, com esforço me conduzia a tratá-la com simpatia. Falsa, com certeza. Aquela cabra dizia ser minha amiga, eu respirava fundo e sorria, quando minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço. Imaginava o seu cortejo fúnebre, os garanhões com a sua virilidade encolhida e recolhida, enquanto carregavam o peso do seu caixão. Que defunta mais pesada! “Precisava ser tão grande?”, interrogar-se-iam eles. O corpo tão cobiçado, objeto das fantasias masculinas – talvez não só –, era, finalmente, colocado no lugar que eu queria, do jeito que me apetecia. Era só um peso. Morto. Era bom imaginá-la com o pescoço roxo, algodão nas narinas, olhos fechados, corpo inerte, evacuada do imaginário erótico e das camas redondas dos motéis cheios de luzes e espelhos, que povoaram o imaginário dos que desejaram estar em companhia da loira, para tê-la posta num estreito caixão, que a instalaria numa longa noite escura sem direito a volta. Em pouco tempo, relegada ao esquecimento. Talvez assim ele, o objeto da minha paixão, conseguisse ver que eu tinha um corpo, que queria afeto físico, que não era só inteligente, séria, honesta, atributos que ele reconhecia e declarava, talvez para me compensar pelo sentimento não correspondido. Ele gostava de mim. Não estava sendo falso quando dizia que me queria como amiga por toda a sua vida. Quem não? Sou uma ótima amiga. Ele só não queria protagonizar a minha história, no papel que lhe destinei. Idiota!
Uns trinta anos se passaram. Nos distanciamos os três sem nunca perder o contacto. Às vezes, eu e ele conversávamos por telefone. Nunca falamos abertamente sobre esses sentimentos desencontrados, mas eu sempre recolho das entrelinhas um quê de arrependimento. Pode ser só imaginação minha, talvez ele continue alimentando aquele sonho não realizado. Ela casou com outro. Os dois, ele e a ex-potranca loira, também continuaram se falando. Estamos, ela, ele e eu, em diferentes estados, mas as redes sociais, que cumprem a função de aproximar as pessoas, até as mortas, também nos mantêm “amigos”. Inclusive eu e ela. Embora nos falemos muito raramente, também, graças ao mesmo veículo, somos “amigas”. Confesso que é a única pessoa assumidamente bolsonarista que eu mantenho na minha lista de amigos. Porquè? Para exercitar a minha maldade. Ignorasse eu a sua existência, não ia poder testemunhar que o tempo jogara contra ela: além de ter-se tornado uma branquela gorda, a sua escolha política era reveladora do seu mau gosto e burrice.
Minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço.
Um leitor altruísta – se é que tenho leitores – pode estar boquiaberto com essa revelação de sentimentos tão mesquinhos. Acredito que todos os temos, mas não costumamos assumi-los. Às vezes, nem para nós mesmas. A hipocrisia é muito mais aceita socialmente que a franqueza.
Bem, há modos mais sutis do que os meus assassinatos. Os católicos livram-se da sua dimensão mesquinha no confessionário. Aproveitam-se do sigilo sacramental para vomitarem o “eu pequei”; cumprem uma penitência para demonstrar arrependimento, recebem a hóstia, símbolo do corpo de Cristo, e estão curados, prontos para novas maldades. Os que creem mais na ciência que em Deus procuram um profissional, geralmente um psicólogo, que, diferentemente do confessor, não lhes promete cura e cobra caro. Sessões e mais sessões, anos patinando na lama da própria mesquinhez, a querer que o psicólogo lhe indique o caminho do livramento. Muitos acabam por desistir da análise ou da terapia, culpando o profissional por algo que só o próprio pode mudar. O profissional, por anos a fio, em tom solene e grave, esteve a devolver as declarações chorosas em forma de pergunta, não sendo sua responsabilidade se o sujeito não consegue se reconciliar consigo mesmo.
Acaba de me ocorrer um outro tipo de prática destinada ao perdão da alma. Bem, é uma lembrança da minha infância. O mundo mudou tanto nos últimos anos, que eu me sinto pré-histórica. Para muitas pessoas deve parecer inacreditável o que vou registrar. Refiro-me ao pedido de perdão de pessoas que estão prestes a morrer. Na minha infância, testemunhei uma cena dessas, protagonizada pela minha bisavó paterna. Já começo a perceber que não enveredei por um bom caminho: sem querer, vou revelar raízes pouco admiráveis. A família – católica, apostólica, romana – desejava que a velha ranzinza fosse para o céu. Era de bom tom que ela tivesse o tal descanso eterno e que seus parentes descansassem dela certos de que o céu a acolhera. Um seu inimigo foi convocado para ajudá-la a fazer essa passagem. Diante dela, aquele homem magro, alto, de cara fechada, esperava em silêncio, até que, exasperado, perguntou para o que havia sido chamado. Pois bem, não faltou energia à quase morta para dizer que fora ele a ofendê-la e que, portanto, era quem devia pedir desculpas, perdão ou coisa que o valha. Sem titubear, ela foi mandada diretamente para o inferno, pois como disse ele, era ela que estava a morrer e ele pouco se importava com o destino da sua alma. Como se pode ver, essa também não é uma tática aconselhável.
Não me pergunte onde eu me enquadro. Não me vejo pedindo perdão a Deus, nem esperando a morte para buscar compaixão de quem eu fiz questão de não me reconciliar. Posso apenas dizer que sou uma mulher analisada. Às vezes boa, outras má. Já vivi a maior parte da minha vida, mas ainda não estou me despedindo dela. Que ninguém pense que isso é um “mea culpa”. Não me sinto em pecado pelos meus sentimentos pouco nobres. Se sentimentos fossem materializados eu já teria transformado o mundo num lugar menos desigual. Esse propósito é o conteúdo da minha utopia. Portanto, não preciso estar à beira da morte para assumir pensamentos mesquinhos, tampouco preciso guardá-los a sete chaves. Para ser honesta, ao ver a última foto daquela minha adversária a quem eu matei tantas vezes, fiz uma descoberta fantástica: eu nunca quis que ela morresse, eu precisava tão somente esperar por essa determinação natural que é o envelhecer. Simplesmente, a beleza da potranca não resistiu ao tempo.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) autoriza o Governo a aprovar um regime jurídico que regula determinados aspectos da organização do tempo de trabalho dos trabalhadores móveis em actividades de transporte rodoviário e a transpor para a ordem jurídica interna várias directivas.
Votaram a favor PSD, Chega, PS, CDS-PP e JPP. Votaram contra PCP, BE e Livre.
O que é que isto significa e em que se traduz, afinal, na vida dos motoristas?
O órgão legislativo competente para legislar sobre estas matérias seria o Parlamento, só podendo estar cometida ao Governo se for, como foi, aprovada a lei de autorização legislativa a que nos referimos supra, o que, desde logo, permite a aprovação num lapso de tempo muito mais curto e sem ser objecto de discussão entre as mais diversas forças políticas.
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho
Por outro lado ainda, ao se aprovar esta lei de autorização legislativa, o que se está a conceder ao Governo é a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, no sentido de um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas, como, aliás, sucedeu.
Entre as medidas constantes do decreto-lei proposto constam as seguintes regras:
a) Artigo 20.º
Tempo de disponibilidade
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho. Refere-se a períodos não correspondentes a períodos de pausa ou de repouso, durante os quais o trabalhador móvel não é obrigado a permanecer no seu posto de trabalho, mantendo-se, no entanto, disponível para responder a eventuais solicitações no sentido de iniciar ou retomar a condução ou de efetuar outros trabalhos relacionados com a atividade de transporte rodoviário. São ainda considerados tempos de disponibilidade, nomeadamente, os períodos durante os quais o trabalhador móvel acompanha um veículo embarcado num ferry-boat ou transportado de comboio, bem como os períodos de espera nas fronteiras ou devido a restrições à circulação. Para os trabalhadores móveis que conduzem em equipa, o tempo passado ao lado do condutor ou num beliche durante a marcha;
b) Artigo 21º
A duração do trabalho semanal dos trabalhadores móveis, incluindo trabalho suplementar, não pode exceder 60 horas, nem 48 horas em média num período de quatro meses. Por instrumento de regulamentação coletiva de trabalho, o período de referência previsto no número anterior pode ser aumentado até seis meses.
c) Artigo 22º
Não é considerado trabalho nocturno o tempo de disponibilidade.
Ou seja, e dito de outra forma, os partidos que aprovaram a lei de autorização legislativa aprovaram também o conteúdo do decreto-lei que lhe estava anexo e do qual constam, entre outras medidas gravosas, as que aqui são referidas.
*A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.
Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.
O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.
No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).
O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.
Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.
Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.
É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.
É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.
Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.
Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.
O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.
O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.
Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.
Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.
Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.
Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.
A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.
Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.
Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).
Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.
Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.
É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.
Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.
Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.
A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.
Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.
A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.
The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.
E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.
Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”
Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.
“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.
“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!
O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.
Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.
É impossível não recordar 2012 e a troika.
Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”
Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).
O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.
Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.
Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.
Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!
Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.
Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho. Do que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
Há duas formas, relativamente simples, de se perceber a importância da greve geral. A primeira é, obviamente, assistir ao raro acordo entre a UGT e a CGTP. Quando até os sindicatos afectos ao PSD (TSD) se juntam à luta, é porque o ataque é grande. A outra, que também não exige um olho propriamente treinado, é ver as voltas do cata-vento Ventura que passou, em poucas semanas, de opositor a promissor sindicalista. Ainda o Frazão, lá de cima da janela da Assembleia da República, insultava os manifestantes e já o Ventura, percebendo a onda que cativava a opinião pública, se juntava nas críticas ao governo. Às vezes, muito secretamente, desejo que o Andrezito chegue a presidente deste nosso rectângulo. Seria a sentença de morte daquele partido unipessoal que carrega todas as ambições de um homem profundamente frustrado. Para não lhe chamar outra coisa, já que este é um jornal de respeito.
Leitão Amaro foi, para mim, a estrela do dia no papel de Goebbels de Tondela. Excelente na propaganda e na tentativa de despejar uma narrativa para os jornais do dia. Disse ele que o "país escolheu trabalhar" e que a adesão à greve era praticamente residual. Entretanto, as imagens de ruas e avenidas do país, atafulhadas de gente, saltavam de mural em mural. Há uma fotografia exposta no "bunker de Berlim", um museu imperdível, onde se mostra uma montagem de Goebbels transformando uma parada de uns poucos numa manifestação de milhares. Brilhante trabalho de manipulação gráfica, que convenceu uns quantos milhões, feito uns bons 50 anos antes da invenção do Paint pela Microsoft. Leitão Amaro teve apenas o azar de estarmos em 2025, na era dos telefones que fazem tudo.
Antes já tinha dito, para quem o quisesse ouvir, que o novo pacote laboral não teria impacto na função pública, uma vez que estes trabalhadores estão protegidos pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. O regime geral do código do trabalho, segundo o ministro da Presidência, é que sofreria o impacto. Esta conversa tinha dois objectivos. Desde logo, desmotivar a função pública no seu protesto. Como se as lutas laborais não se fizessem de solidariedade entre mais e menos afectados. Como se o colectivo não fosse sempre mais forte quanto maior a sua expressão. E depois, a parte menos conhecida da opinião pública, como nos explicou Rita Garcia Pereira (notícia CNN), advogada especialista em direito do trabalho, já existem muitos trabalhadores na dependência do Estado que têm contratos individuais de trabalho e, portanto, de natureza privada, directamente afectados pelo novo pacote laboral.
Um dos grandes problemas dos nossos governantes é a bolha em que vivem e a distância entre as suas vidas e a realidade dos Portugueses. A crise da habitação por exemplo, que afecta boa parte da população e resulta em despejos diários, está a ser enfrentada por um primeiro-ministro que tem 55 imóveis, uma ministra do Trabalho, professora universitária, com um património superior a 5 milhões de euros e um ministro da Presidência, o nosso Goebbels de Tondela, que investiu 1,34 milhões de euros numa casa em Lisboa e que, por acaso, recebeu uns benefícios no IMI (notícia CM). Como é que esta gente enriquece com os salários declarados? E pior: como é que podem perceber as dificuldades do trânsito se circulam em via privada e sempre livre?
Com o pacote laboral o problema é essencialmente o mesmo. Discute-se a flexibilização como uma arma para o aumento da produtividade. Defende-se o fim dos sindicatos para ter menos entraves ao progresso. Apresenta-se o trabalho temporário como um benefício da rotatividade laboral. E no fim, para que ninguém duvide, explicam-nos que este é o caminho para sermos a próxima Alemanha, Suécia, Dinamarca ou Bélgica. É a aposta total na desinformação, na tentativa de meter trabalhadores contra trabalhadores, pobres contra pobres. Na Suécia, por exemplo, onde trabalhei durante 20 anos, a taxa de sindicalização anda perto dos 70% e praticamente 1/3 da força laboral está no sector público. A carga fiscal é elevadíssima e o lucro é fortemente taxado. Que o diga o já falecido fundador do IKEA, que se mudou para a Suíça, esse bastião de produtividade com o trabalho alheio e sempre protetor das fortunas.
Em Portugal as reformas laborais são sempre, mas sempre, feitas pelo lado do trabalhador. É preciso produzir mais, oferecer horas ao patronato, aceitar o despedimento sem justa causa, adiar a vida à espera de um contrato sem termo. O que não é preciso, em momento algum, é exigir que a riqueza criada pelos trabalhadores vá menos para os accionistas e mais para os bolsos de quem trabalha. Ou que a carga fiscal absurda que afecta os Portugueses se converta em creches públicas, atendimento decente na saúde ou transportes públicos que funcionem. No fundo, tenta o Governo e toda a direita em geral convencer uma legião de pobres de que o problema são eles, que trabalham pouco e que os 40% que estão no limiar da miséria antes das transferências sociais devem trabalhar ainda mais porque há uma elite política e empresarial que precisa de mais lucro. Até porque, aqui e ali, há um BES bem sólido que não se paga sozinho ou uns arranjos entre governantes e construtoras que não se fazem sem um saco azul profundo.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes, gente com formação que fala inglês se não se importarem de receber amendoins a troco de trabalho. A novidade é que o "investimento externo" já está em Portugal. Não faltam multinacionais que descobriram o filão português e do quão longe conseguem chegar com 1000 euros para oferecer. Na minha área, neste preciso momento, Portugal é visto como uma opção a considerar se comparado com o investimento no Vietname. No Vietname, meus amigos! Foi aqui que chegámos ao fim de 40 anos na União Europeia.
Temos mais auto-estradas, muitos hotéis de charme e tascas gourmet. Mas continuamos pobres, governados por gente que resume o CV a um cartão partidário, sem um dia de trabalho no mundo real e que enriquece enquanto nos convence de que o problema somos nós.
Talvez Leitão Amaro e Montenegro tenham razão quando dizem que o país não precisa de greves. Talvez não. Pelo aspecto da coisa, o que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Ricardo Penarróias, presidente do SNPVAC sobre a greve geral de 11 de Dezembro
O impacto da greve geral foi gigante, histórico. Portugal parou. O pacote laboral está completamente errado. O governo escondeu do seu próprio eleitorado esta reforma, que nem vinha no seu plano de acção. Apelo às centrais sindicais: qualquer mudança “cirúrgica” vai ser uma manta de retalhos, que nos vai prejudicar a todos. É preciso recomeçar do zero. Não queremos destruir o nosso presente e hipotecar o futuro dos nossos filhos. Muitas vezes não temos a noção da força que nós temos: o país pára!
A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade.
A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade.

As primeiras lutas operárias trouxeram consigo os primórdios da organização. A passagem do artesanato para a condição operária não criava uma situação absolutamente nova. A organização de uniões operárias (trade unions) era uma velha tendência, presente desde 1720 na Inglaterra, com a União dos Entalhadores de Londres, destinada a obter aumentos salariais através de petições ao Parlamento. As primeiras associações permanentes de assalariados precederam em meio século o sistema manufatureiro e localizaram-se em ofícios onde o trabalho manual-artesanal predominava. O fator determinante não é a transformação técnica, mas o divórcio entre o trabalho e a propriedade dos meios de produção. Onde esse divórcio se consuma nasce o sindicato. Foi mais para defender uma situação privilegiada do que para melhorar uma má situação que se formaram os primeiros sindicatos. Com o aguçamento da luta contra os patrões, a forma e o conteúdo dos sindicatos alteraram-se.
Em 1724, os operários chapeleiros de Paris declararam greve por causa da redução dos seus salários. Criaram, para financiar essa ação, uma “caixa de greve”. A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade. Entre 1753 e 1757 produziram-se greves espontâneas em diversas regiões de Inglaterra: pedreiros e carpinteiros em Manchester, marceneiros noutras cidades. Em 1765, 100 mil marinheiros e operários do carvão declararam greve em Londres. Durante o período mais radical da Revolução Francesa floresceram as greves. As revoltas precederam a organização dos sindicatos, que demoraram a aparecer e estabilizar-se como representação unificada da classe operária. Na Inglaterra, em 1721, foi proibida a organização dos alfaiates; e em 1726, a dos marceneiros. Em França, em 1791, a lei proposta pelo deputado Le Chapelier havia proibido as organizações operárias. No seu texto, afirmava-se, com base na ilusão liberal, mas também com um sentido de classe aguçado: “Já não há classes de corporação no Estado. Não existe mais do que o interesse particular de cada indivíduo e o interesse geral. Pertence aos convénios livres, de indivíduo para indivíduo, fixar o jornal para cada operário. É incumbência do operário manter o acordo feito com o empregador.” Os temíveis (mas burgueses) jacobinos permaneceram calados. O projeto de lei de Le Chapelier foi adotado por unanimidade pela Assembleia Nacional francesa.
A tradição e o programa igualitário da Revolução Francesa foram transmitidos diretamente ao nascente movimento operário por um sobrevivente da Conspiração dos Iguais, Felipe Buonarroti, descendente do escultor italiano Michelangelo Buonarroti, que escreveu a História da Conspiração dos Iguais: o livro de Buonarroti era muito conhecido entre os operários. Pertencia à literatura popular junto com os discursos de Robespierre e os artigos de Marat. Na Inglaterra, os primórdios do movimento político operário vincularam-se ao movimento democrático radical, por direitos políticos iguais para todos. Foram surgindo novas direções políticas, inicialmente originadas nas classes abastadas. Filho de um rico comerciante, John Wilkes (1725-1797) começou a sua carreira política atacando, a partir do seu jornal, o North Briton, o rei Jorge III, transformando-se no paladino das liberdades civis fundamentais. Tornou-se líder popular em Londres, com grande apoio para o seu movimento de reforma democrática. Foi perseguido e detido diversas vezes. A 10 de maio de 1768, uma multidão de operários londrinos reuniu-se numa manifestação para exigir a sua liberdade.
Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados.
A repressão da manifestação provocou seis mortos e muitos feridos. Houve uma comoção social em Londres e nos condados vizinhos: estivadores, trabalhadores portuários, marceneiros e alfaiates declararam greve. Wilkes organizou a sua campanha eleitoral de 1774 a partir de um programa que defendia um sufrágio mais equitativo e a defesa dos direitos populares na Inglaterra, na Irlanda e na América. O movimento político radical que dirigia obteve a eleição, pese o reduzido número de eleitores (devido ao voto censitário), de doze membros no parlamento. A influência política de Wilkes durou até 1780, mas a luta por reformas continuou: a maior parte dos candidatos a políticos ingleses apresentava-se como reformadora. John Cartwright (1740-1824) publicou em 1776 a brochura Take Your Choice (Escolha!) que esboçava o programa que inspirou o movimento popular durante os 75 anos seguintes, insistindo na reforma eleitoral e no parlamento anual. A agitação operária nas cidades inglesas e britânicas percorreu todo o século XVIII. As greves não se esgotaram em si mesmas: entre 1763 e 1768 diversas categorias unificaram-se para levar petições ao rei Jorge III. Por outro lado, ganhou corpo a ideia de atacar diretamente o capital. Em 1768, os tecelões de Spitalfields levantaram-se em massa e destruíram uma grande quantidade de teares de seda. Organizaram um fundo de greve, depositando de 2 a 5 xelins por tear. Os tecelões de Spitalfields criaram uma união para pleitear perante a justiça, lançando a semente dos futuros sindicatos.
Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados. A burguesia inglesa fugiu da revolução democrática pois, em vez de uma massa popular indiferenciada, viu desenhar-se por detrás dela a ação de uma classe com a sua própria política e métodos de organização. Em janeiro de 1792, oito operários ingleses criaram a London Corresponding Society, que se organizou em grupos de trinta membros, baseada numa contribuição financeira acessível aos operários. Em finais desse ano, a sociedade contava já com três mil membros. Os seus objetivos eram o sufrágio universal, a igualdade de representação, o parlamento honesto, o fim dos abusos contra os cidadãos humildes, o fim das pensões outorgadas pelo Parlamento aos membros das classes dirigentes, a redução da jornada de trabalho, a diminuição dos impostos e a entrega das terras comunais aos camponeses. Na mesma época, o livro de Tom Paine Os Direitos do Homem defendia a Revolução Francesa e a independência americana, atacando a monarquia inglesa em favor do republicanismo. Publicado em inglês, celta e gaélico, vendeu 200 mil exemplares na Grã-Bretanha. Em 1795, os dirigentes da London Corresponding Society foram presos e a sociedade começou a decair. Mas ela foi o antecedente da primeira grande organização política operária, o cartismo. Já prevenido pelo antecedente da sociedade operária e avisado pela experiência de França, o parlamento britânico proibiu as organizações operárias, condenando-as à clandestinidade ou a uma vida curta. O governo conseguiu também impedir as tentativas de se implantar um salário mínimo. Na década de 1790, a nova condição social dos trabalhadores, unida à influência da Revolução Francesa, deu um novo estatuto à repressão dos protestos sociais e suscitou novas formas de organização operária.
Desastres provocados pela incúria e subfinanciamento de infraestruturas públicas levaram a grandes mobilizações em alguns países da Europa do Sul, como Grécia, Sérvia e Macedónia do Norte – embora não em Portugal no seguimento do colapso dos cabos de tração do Elevador da Glória.
Desastres provocados pela incúria e subfinanciamento de infraestruturas públicas levaram a grandes mobilizações em alguns países da Europa do Sul, como Grécia, Sérvia e Macedónia do Norte – embora não em Portugal no seguimento do colapso dos cabos de tração do Elevador da Glória.

Revoltas na Grécia em fevereiro (no segundo aniversário do acidente ferroviário de Tempe) e em dezembro (protesto dos trabalhadores agrícolas). Greve geral no mesmo país em outubro, contra a legislação laboral do governo de Kyriakos Mitsotakis. Protestos na Macedónia do Norte em março, após desastre numa discoteca em Kocani. Manifestações na Sérvia, de março a agosto, desencadeadas por desabamento mortal da cobertura da estação ferroviária de Novi Sad. Três greves gerais e várias manifestações em Itália, quer contra a cumplicidade do governo com o genocídio do povo palestiniano, quer contra o “orçamento de guerra” de Giorgia Meloni. Em Espanha, uma greve geral em outubro e várias manifestações contra o envio de armas para o Estado genocida de Israel e a crise de habitação. Greve geral em Portugal em dezembro contra o “pacote laboral” do governo de Luís Montenegro.
2025 foi um ano de intensa mobilização popular no Sul europeu. Apesar de motivada por causas heterogéneas, alguns eixos comuns conectam, e em parte explicam, esta vaga de protestos.
Há uma ligação trágica entre as manifestações gregas, sérvias e macedónias. As três surgem como revoltas contra a ausência de responsabilização política por três desastres ocorridos nestes países: o acidente ferroviário de Tempe (Grécia) de fevereiro de 2023, que vitimou 57 pessoas; o desabamento de uma cobertura de betão na estação ferroviária de Novi Sad (Sérvia) em novembro de 2024, vitimando 15 pessoas, e o incêndio no interior de uma discoteca em Kocani (Macedónia do Norte), que vitimou 59.
As duas primeiras revelam os efeitos da administração da “coisa pública” numa lógica mercantilista, nomeadamente com a privatização e subfinanciamento público de infraestruturas essenciais, descurando a manutenção e segurança em nome do lucro.
Segundo o professor e jornalista grego Panagiotis Sotiris,
“a tragédia ferroviária de Tempe, em 28 de fevereiro de 2023, não foi apenas mais um acidente de grande dimensão. Aos olhos da sociedade grega, representou a condensação de tudo o que está errado tanto no modelo económico neoliberal dominante de privatização das infraestruturas, como no cinismo de um sistema político incapaz de oferecer garantias básicas, incluindo a segurança nos transportes. Isto gerou um ciclo contínuo de fortes mobilizações populares e aprofundou a crise de legitimidade do governo, mas também do sistema político em geral. Esta crise de legitimidade foi intensificada pelo facto de o governo da Nova Democracia, liderado por Kyriakos Mitsotakis, ter recusado assumir verdadeiramente a responsabilidade pela tragédia, apesar de ter sido a sua falha em concluir atempadamente infraestruturas importantes de segurança nos transportes que levou ao desastre. Além disso, em muitos aspetos, procuraram minar a investigação do acidente precisamente para encobrir a sua responsabilidade. Com base nesta situação, assistimos a algumas das maiores manifestações da história moderna da Grécia e a várias formas de mobilização que continuam até hoje, porque a exigência de verdade e justiça sobre o acidente continua a ser dominante na sociedade grega.”
Também na Sérvia, a tragédia criou ondas de choque que atingiram a classe política. Segundo Rodrigo Vieira, licenciado em Relações Internacionais, “a recusa, por parte da empresa responsável pelas obras na estação ferroviária, de partilhar documentos relativos a estas mesmas obras e apelos por parte de vários políticos para que a população “confiasse nas autoridades” colidiram com sentimentos já presentes de desilusão para com o sistema. Esta noção de que o governo é impune e negligente, de que ninguém se encontra seguro devido à fragilidade das instituições presentes nesse país, levou a que o slogan “Estamos todos sob a cobertura” marcasse o que viria a ser a onda de protestos que ainda hoje se vive na Sérvia. As manifestações, pacíficas e lideradas por estudantes, começaram com bloqueios de estradas e ajuntamentos em frente de edifícios governamentais. Contudo, em finais de novembro, estudantes da Universidade de Novi Sad foram agredidos violentamente por um grupo de indivíduos que, segundo os media, contava com alguns membros do partido que governa a Sérvia. Isto resultou no bloqueio de faculdades por todo o país, que durou até setembro 2025, durante o qual nenhuma atividade letiva teve lugar. Os estudantes articularam quatro reivindicações principais: a publicação de toda a documentação relacionada com a reconstrução da estação ferroviária, a identificação de todos os indivíduos que agrediram fisicamente os estudantes, o arquivamento de todos os processos contra os estudantes e um aumento de 20% no financiamento estatal para as universidades públicas. A partir desse momento, os protestos foram crescendo em dimensão, com grandes concentrações de pessoas a 22 de dezembro (100.000 em Belgrado, mais do que durante as demonstrações que derrubaram o regime de Milosevic em 2000).
Há uma ligação trágica entre as manifestações gregas, sérvias e macedónias. As três surgem como revoltas contra a ausência de responsabilização política por três desastres ocorridos nestes países.
É impossível não associar a natureza destas tragédias ao desastre no Elevador da Glória, em Lisboa. Tendo origem num problema com os cabos de tração do equipamento, o descarrilamento vitimou 16 pessoas. A manutenção do elevador está entregue a um privado, em mais um caso de privatização das responsabilidades de manutenção da segurança dos nossos equipamentos públicos. Ao contrário dos casos anteriores, não assistimos ainda a uma mobilização popular contra a degradação da segurança das infraestruturas essenciais e a ausência de responsabilização política da tragédia. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, foi inclusive reeleito pouco mais de um mês depois da tragédia, reforçando a sua votação em quase 30.000 votos face a 2021, apesar de responsável por ter cortado o financiamento da Carris (empresa municipal de transportes responsável, entre outros, pelos históricos elevadores da cidade) em quatro milhões de euros em 2024.
O consenso liberal impediu a “politização” de uma tragédia com causas… políticas. Tratada como um infortúnio, não gerou um movimento orgânico de revolta capaz de questionar o modelo de gestão neoliberal, nem inclusive uma greve convocada pelos sindicatos do setor (recordando que o colapso provocou a morte do guarda-freio de serviço) motivada pela desconsideração dada às sucessivas queixas dos trabalhadores da Carris quanto à falta de segurança dos equipamentos. O tempo dirá se ainda assistiremos a uma mobilização na cidade e no país motivada pela degradação dos serviços públicos – também na Grécia e na Sérvia os protestos explodiram dois anos ou cinco meses depois dos desastres, respetivamente.
No caso macedónio, apesar de falarmos de uma tragédia ocorrida num estabelecimento privado, o ocorrido teve um impacto político, após se descobrir que a discoteca operava com licenças irregulares e ausência de fiscalização. O caso inclusive levou já à detenção de 13 pessoas, entre eles ex-ministros. É a promiscuidade entre classe política e elite económica no sistema capitalista que é aqui exposta, com consequências dramáticas. É necessário assinalar que a corrupção, o tráfico de influências e o contorno das obrigações legais e fiscais por parte da burguesia não é uma anomalia do sistema, é a sua marca.
Mas o ano de intensa agitação social na região não se esgota com as reações a diferentes tragédias. Desinvestimento no Estado Social, aumento do orçamento para o setor bélico após exigência da NATO, desmantelamento das proteções laborais, degradação do custo de vida, atrasos nos pagamentos de subsídios agrícolas ou mesmo cumplicidade com o genocídio do povo palestiniano perpetrado por Israel. São vários os outros motivos que exigiram a mobilização dos Europeus a sul. Todos podem ser resumidos ao carácter dependente, atrasado e exploratório das economias semiperiféricas do sistema-mundo capitalista.
Num sistema cada vez mais feudal e oligárquico, as classes dominantes destes países empurram-nos para projetos imperialistas e bélicos comandados a partir de Washington e Bruxelas. A dependência destas burguesias nacionais, verdadeiras “classes dominantes dominadas” condena as economias semiperiféricas aos baixos salários, à exploração laboral, à dependência produtiva dos grandes centros económicos e de subsídios europeus (com efeitos perniciosos, como vimos nos intensos protestos dos agricultores gregos neste final de ano, vítimas do atraso no pagamento destes subsídios). Acantonadas no rentismo (nomeadamente no negócio da especulação imobiliária, cujos efeitos humanitariamente dramáticos são bem sentidos em Portugal), as burguesias da semiperiferia europeia são incapazes de apresentar um projeto produtivo para os seus respetivos países que almeje mais do que manter a classe trabalhadora no limiar da pobreza e dependente de transferências sociais para sobreviver – apoios hoje ameaçados pela exigência, imposta de cima, de aumentar a despesa militar, interesses impossíveis de conciliar nestes países.
Este é o grande projeto das burguesias do Sul da Europa: manter uma população pauperizada enquanto serve os interesses do capitalismo global. Por isso retira verbas ao orçamento do Estado Social e aumenta-as para o setor da guerra e para os objetivos militares da NATO, incompreendidos e rejeitados pelas classes populares. Por isso retira proteções legais aos trabalhadores, na expectativa de atrair investimento estrangeiro predatório e de aumentar as taxas de lucro da insípida burguesia nacional. Por isso não apresenta critérios e exigências morais, não tendo outra hipótese senão apoiar o genocídio levado a cabo por Israel, escoltado pelo capitalismo global, seu suserano.
As mobilizações populares deste ano provam o esboroamento da legitimidade política dos Estados liberais. Seja porque a classe dominante é incapaz de garantir a segurança dos cidadãos num transporte público ou num espaço de diversão, porque enterra ainda mais fundo o pacto social entre capital e trabalho, governando para o primeiro e esmagando o segundo, ou porque atira quem trabalha para uma vida precária e pauperizada enquanto injeta milhares de milhões na indústria militar. Na teorização do filósofo alemão Jürgen Habermas, encontramo-nos perante uma “crise de legitimidade” quando o Estado é incapaz de dar resposta aos anseios da população, atraindo a sua rejeição, descontentamento e descrença. O Estado não consegue justificar assim o monopólio da violência que exerce, a coerção que impõe, os impostos que cobra a quem trabalha. O que retira é mais do que aquilo que dá em troca. Este é um efeito do período a que Habermas chama “capitalismo tardio”, fase atual do sistema capitalista, marcada pela financeirização da economia e pela gestão neoliberal como regra. Exige-se ao Estado que resolva o problema da habitação, a perda de poder de compra, a debilidade do tecido produtivo, a degradação dos serviços públicos, mas ele é já incapaz de o fazer após décadas de privatização da economia, das infraestruturas e até das próprias decisões políticas.
A tendência vigente nos Estados capitalistas é atirarem o poder de decisão sobre o nosso destino coletivo para o poder económico, nas mãos da burguesia. É nessa fase que os povos se revoltam e exigem mais e melhor, fatigados de serem calcados. As diversas mobilizações que aqui referi são diferentes traduções nacionais de um sentimento comum de indignação que vai borbulhando nas mentes e corações de parte das classes populares.
Os Estados capitalistas, deslegitimados e falhados, sem projeto nem direção, podem ser reclamados coletivamente pelas massas populares, com um projeto novo, orientador e renovado, que confira sentido ao trabalho do dia-a-dia, garanta dignidade, segurança e proteção e torne comum o que é hoje reservado a um punhado. Tal é possível se canalizarmos a revolta espasmódica em organização, disputa pela hegemonia e construção de um programa alternativo e vencedor que conquiste as massas.
Há uma relação estreita entre a Operação Safra Justa, no Alentejo, a greve geral de 11 de dezembro e as eleições presidenciais de janeiro próximo. Este número do Maio inclui um dossiê sobre “trabalho forçado e destruição ecológica no Alentejo” que ilustra bem esta relação.
Há uma relação estreita entre a Operação Safra Justa, no Alentejo, a greve geral de 11 de dezembro e as eleições presidenciais de janeiro próximo.
Este número do Maio inclui um dossiê sobre “trabalho forçado e destruição ecológica no Alentejo” que ilustra bem esta relação.
A “Safra Justa” revelou, ou melhor, relembrou que existem no país duas repúblicas.
Uma, “secreta”, tem sido progressivamente instaurada nos campos e no interior, particularmente no Alentejo.
Esta república é governada por máfias capitalistas que se escondem atrás de sociedades unipessoais e “empresas” de trabalho temporário, ao serviço de fundos de investimento “anónimos” com sede na América ou no país vizinho. Têm ao seu serviço chefias da polícia e procuradores, que dispõem de milícias, em cujas fileiras também se contam polícias ou militares da GNR, que patrulham herdades e guardam campos de concentração de trabalho escravo. Intimidam ou compram autarquias e autoridades menores, parasitam fundos do Estado e da UE, extraem lucros astronómicos do trabalho escravo e do saque da terra, da água, agora, até, do sol.
A outra república é, claro, a República oficial. Esta reduz-se, porém, cada vez mais a uma fina camada de verniz, muito estalado, que se move entre São Bento, as demais instituições oficiais e os grandes escritórios de advogados, entre Espinho, Porto, Lisboa e Bruxelas, de empresa para instituição pública para empresa para cargo do Estado, organizando os fluxos de fundos nacionais e europeus por canais que vai lubrificando, muitos dos quais conduzem ao mundo da “república secreta”.
Muitas das personagens que se movem no pântano de corrupção e superexploração da república secreta são próximas do Chega. Financiam-no e promovem-no. O seu candidato a presidente da República oficial, e também a primeiro-ministro, chefe da polícia e de tudo o mais, já é, no fundo, o presidente da “república secreta”. O programa de Ventura é arrancar o verniz que ainda sobra na República oficial e subordiná-la à ordem totalitária da sua república secreta. Rodeado de aldrabões de feira e lumpens corruptos, faltam-lhe lugares-tenentes à altura. Tem de se ir servindo dos idiotas úteis que povoam os corredores do poder oficial.
E é aqui que entra o pacote laboral. Ele serviria para aproximar as “duas repúblicas”, nivelando os trabalhadores de todo o país pelo que já existe no Alentejo: um país de gente sem onde habitar, sem onde se tratar, sem maneira de ter filhos nem dar-lhes educação, reduzida a trabalhar a pataco.
Esse país é talvez o da imagem que The Economist dá da “melhor economia da OCDE”: um país de lucros e bolsa esfuziantes; de estrangeiros e portugueses ricos que mal pagam impostos; de portugueses e estrangeiros pobres que trabalham sem horário nem praticamente salário, vigiados por polícias e milícias.
Eles querer, querem. Mas a greve geral mostrou outra luz, a luz que guia a grande maioria do país, que trabalha e estuda, que resiste ao projecto da barbárie capitalista e aspira à República de quem trabalha, uma república livre da exploração e da corrupção, oficial ou secreta, dos que servem o lucro dos grandes e as guerras de Trump e de Bruxelas.
Há um anjo que não fala é o anjo do silêncio observa os homens e sabe como a sua memória se aloja na devastação no pulsar do sangue nas pedras da cidade agora destruída. O anjo do silêncio espera talvez um sinal mas o céu permanece fechado e os homens
Há um anjo que não fala
é o anjo do silêncio
observa os homens
e sabe como a sua memória
se aloja na devastação
no pulsar do sangue
nas pedras da cidade
agora destruída.
O anjo do silêncio
espera talvez um sinal
mas o céu permanece fechado
e os homens caminham
ziguezagueando
entre as ruínas
salvando as crianças e os velhos
perante o longo silêncio do anjo
que os olha de través..
Maria Cantinho
Segundo o dicionário da Porto Editora, corresponde a: 1) forma de liderança que se baseia no mérito pessoal, em vez de se basear em riqueza ou estatuto social; 2) sistema social que se baseia nessa forma de liderança. EM NOVILÍNGUA: Segundo artigo de Sergio C. Fanjul no El País: “Soa
Segundo o dicionário da Porto Editora, corresponde a: 1) forma de liderança que se baseia no mérito pessoal, em vez de se basear em riqueza ou estatuto social; 2) sistema social que se baseia nessa forma de liderança.
EM NOVILÍNGUA:
Segundo artigo de Sergio C. Fanjul no El País: “Soa bem, e dizem-nos muitas vezes que vivemos numa meritocracia”. “Mas vários especialistas consultados alertam: a meritocracia não existe nas nossas sociedades e não está claro que a sua existência nos traga virtude. Nas últimas décadas o fosso entre vencedores e perdedores aumentou, gerando sociedades mais polarizadas e desiguais em rendimentos e riqueza.” A conceptualização do sucesso também mudou: “Os que chegaram ao topo acreditam que o seu sucesso é obra sua, evidência do seu mérito superior, e que os que ficam para trás merecem o seu destino”, diz o filósofo da Universidade de Harvard Michael Sandel, autor do livro A Tirania do Mérito (Presença, 2022). ASP
Dezenas ou centenas de milhares de trabalhadores, na esmagadora maioria imigrantes, trabalham de sol a sol nos campos portugueses, em condições indignas do século XIX, quanto mais do século XXI.
Já não os empregam tanto os velhos latifundiários de antes da revolução. Com a União Europeia e o comércio livre, entrou no país, principalmente nos campos do Alentejo, uma nova espécie invasora: os grandes investidores e fundos especializados em extorquir o máximo de fundos, o máximo de trabalho e o máximo de azeite e de frutos da terra do mínimo de investimento, de terra e de trabalhadores.
Alguns comandam e servem máfias que organizam um tráfico de seres humanos digno dos tempos da escravatura. Sugam a água e os recursos naturais, esgotam e destroem os solos, expulsam as populações e a cultura popular e escravizam quem os traficantes lhes trazem.
Jornal MaioCristina Morais
Jornal MaioMaria Carolina Varela
Jornal MaioCristina Morais
Jornal MaioAna Barbosa
Jornal MaioJorge Sanches da Cruz
Jornal MaioAntónio Garcia Pereira
Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado
Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado a meio da Quaresma e ser altura da Pinha, sei lá. A malta ia a todos, testosterona nos limites, embora a atração fosse maior se o conjunto, como então se dizia, tivesse fama de tocar rock imitado – não se falava, ainda, em covers. “Nights in white satin” era sempre, e por evidentes razões de roçanço, um tema desejado, mas um gajo também podia dar nas vistas e ser admirado pelos seus movimentos arriscados, ao dançar em grupo o “Smoke on the water”.
Seja como for. Certo é que a maior parte das vezes, estando embora a menina dos nossos olhos na sala, a gente não tinha dinheiro para o bilhete. E lá ficávamos, então, pelo bar, esperando a hora de podermos entrar à borla. E se, entretanto, ocorria o momento das meninas ao bufete – alguém se lembra disto? – ali continuávamos, esperando vê-la, mesmo que trazida pela simpatia mais endinheirada de um rival qualquer. Cervejola abaixo, charrito às escondidas acima, o baile acabaria por ser nosso.
Os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada.
Na sala, então. Um vazio enorme entre cada dança. Era preciso atravessá-lo, gigantesco vazio sob os olhares de todos, e ir pedir, se conhecida e desejada fosse, “Danças comigo?” ou, em casos de apuro, arriscando “A menina dança, tem par ou descansa?” O resultado desse momento dependia da verdadeira intenção: ou se ia por desejo sincero, ou arriscava-se por desafio do resto da malta. E era um desatino, em qualquer dos casos, quando se levava com uma tampa – alguém se lembra deste outro isto? Bolas! Encolher as orelhas e voltar a atravessar o tal vazio titã para, lá no fundo, ser recebido pelas gargalhadas de troça do pessoal. Uma nega não tinha piada nenhuma. Nunca teve, sobretudo quando o conjunto se preparava para tocar “Angie”, dos Rolling Stones.
No resto, tirando as valsas ou os tangos, mais estes, que infelizmente nunca soube dançar, os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada, e até no depois, quando livre de paus-de-cabeleira e amigos éramos só nós, eu e ela.
Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela
Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela uma égua, acho que não. Era um cavalheiro. Tinha idade para ser pai dela. Ela, por sua vez, filha sem pai, supria naquela relação a carência paterna. Certo mesmo é que ele, como tantos outros homens, novos e velhos, a desejava e era o mais fiel dos seus admiradores. Vivia a cercá-la de atenções, não perdia oportunidade de demonstrar o quanto podia ser útil, o companheiro agradável, resolutivo e apaixonado que ela podia ter. Ela sabia do seu poder e diversas vezes esfregou na cara dele um parceiro mais novo, bem mais novo, viril, um garanhão, representação incontestável da testosterona que ele já não exibia. Mas bastava ela estalar dois dedos, lá estava ele aos seus pés. Se ela o mandasse matar alguém, ele iria correndo cumprir a ordem. Só depois perguntaria porquê.
Eu não conseguia afastá-la do meu convívio, embora fosse justo que o fizesse. Mas a minha porção civilizada e orgulhosa, com esforço me conduzia a tratá-la com simpatia. Falsa, com certeza. Aquela cabra dizia ser minha amiga, eu respirava fundo e sorria, quando minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço. Imaginava o seu cortejo fúnebre, os garanhões com a sua virilidade encolhida e recolhida, enquanto carregavam o peso do seu caixão. Que defunta mais pesada! “Precisava ser tão grande?”, interrogar-se-iam eles. O corpo tão cobiçado, objeto das fantasias masculinas – talvez não só –, era, finalmente, colocado no lugar que eu queria, do jeito que me apetecia. Era só um peso. Morto. Era bom imaginá-la com o pescoço roxo, algodão nas narinas, olhos fechados, corpo inerte, evacuada do imaginário erótico e das camas redondas dos motéis cheios de luzes e espelhos, que povoaram o imaginário dos que desejaram estar em companhia da loira, para tê-la posta num estreito caixão, que a instalaria numa longa noite escura sem direito a volta. Em pouco tempo, relegada ao esquecimento. Talvez assim ele, o objeto da minha paixão, conseguisse ver que eu tinha um corpo, que queria afeto físico, que não era só inteligente, séria, honesta, atributos que ele reconhecia e declarava, talvez para me compensar pelo sentimento não correspondido. Ele gostava de mim. Não estava sendo falso quando dizia que me queria como amiga por toda a sua vida. Quem não? Sou uma ótima amiga. Ele só não queria protagonizar a minha história, no papel que lhe destinei. Idiota!
Uns trinta anos se passaram. Nos distanciamos os três sem nunca perder o contacto. Às vezes, eu e ele conversávamos por telefone. Nunca falamos abertamente sobre esses sentimentos desencontrados, mas eu sempre recolho das entrelinhas um quê de arrependimento. Pode ser só imaginação minha, talvez ele continue alimentando aquele sonho não realizado. Ela casou com outro. Os dois, ele e a ex-potranca loira, também continuaram se falando. Estamos, ela, ele e eu, em diferentes estados, mas as redes sociais, que cumprem a função de aproximar as pessoas, até as mortas, também nos mantêm “amigos”. Inclusive eu e ela. Embora nos falemos muito raramente, também, graças ao mesmo veículo, somos “amigas”. Confesso que é a única pessoa assumidamente bolsonarista que eu mantenho na minha lista de amigos. Porquè? Para exercitar a minha maldade. Ignorasse eu a sua existência, não ia poder testemunhar que o tempo jogara contra ela: além de ter-se tornado uma branquela gorda, a sua escolha política era reveladora do seu mau gosto e burrice.
Minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço.
Um leitor altruísta – se é que tenho leitores – pode estar boquiaberto com essa revelação de sentimentos tão mesquinhos. Acredito que todos os temos, mas não costumamos assumi-los. Às vezes, nem para nós mesmas. A hipocrisia é muito mais aceita socialmente que a franqueza.
Bem, há modos mais sutis do que os meus assassinatos. Os católicos livram-se da sua dimensão mesquinha no confessionário. Aproveitam-se do sigilo sacramental para vomitarem o “eu pequei”; cumprem uma penitência para demonstrar arrependimento, recebem a hóstia, símbolo do corpo de Cristo, e estão curados, prontos para novas maldades. Os que creem mais na ciência que em Deus procuram um profissional, geralmente um psicólogo, que, diferentemente do confessor, não lhes promete cura e cobra caro. Sessões e mais sessões, anos patinando na lama da própria mesquinhez, a querer que o psicólogo lhe indique o caminho do livramento. Muitos acabam por desistir da análise ou da terapia, culpando o profissional por algo que só o próprio pode mudar. O profissional, por anos a fio, em tom solene e grave, esteve a devolver as declarações chorosas em forma de pergunta, não sendo sua responsabilidade se o sujeito não consegue se reconciliar consigo mesmo.
Acaba de me ocorrer um outro tipo de prática destinada ao perdão da alma. Bem, é uma lembrança da minha infância. O mundo mudou tanto nos últimos anos, que eu me sinto pré-histórica. Para muitas pessoas deve parecer inacreditável o que vou registrar. Refiro-me ao pedido de perdão de pessoas que estão prestes a morrer. Na minha infância, testemunhei uma cena dessas, protagonizada pela minha bisavó paterna. Já começo a perceber que não enveredei por um bom caminho: sem querer, vou revelar raízes pouco admiráveis. A família – católica, apostólica, romana – desejava que a velha ranzinza fosse para o céu. Era de bom tom que ela tivesse o tal descanso eterno e que seus parentes descansassem dela certos de que o céu a acolhera. Um seu inimigo foi convocado para ajudá-la a fazer essa passagem. Diante dela, aquele homem magro, alto, de cara fechada, esperava em silêncio, até que, exasperado, perguntou para o que havia sido chamado. Pois bem, não faltou energia à quase morta para dizer que fora ele a ofendê-la e que, portanto, era quem devia pedir desculpas, perdão ou coisa que o valha. Sem titubear, ela foi mandada diretamente para o inferno, pois como disse ele, era ela que estava a morrer e ele pouco se importava com o destino da sua alma. Como se pode ver, essa também não é uma tática aconselhável.
Não me pergunte onde eu me enquadro. Não me vejo pedindo perdão a Deus, nem esperando a morte para buscar compaixão de quem eu fiz questão de não me reconciliar. Posso apenas dizer que sou uma mulher analisada. Às vezes boa, outras má. Já vivi a maior parte da minha vida, mas ainda não estou me despedindo dela. Que ninguém pense que isso é um “mea culpa”. Não me sinto em pecado pelos meus sentimentos pouco nobres. Se sentimentos fossem materializados eu já teria transformado o mundo num lugar menos desigual. Esse propósito é o conteúdo da minha utopia. Portanto, não preciso estar à beira da morte para assumir pensamentos mesquinhos, tampouco preciso guardá-los a sete chaves. Para ser honesta, ao ver a última foto daquela minha adversária a quem eu matei tantas vezes, fiz uma descoberta fantástica: eu nunca quis que ela morresse, eu precisava tão somente esperar por essa determinação natural que é o envelhecer. Simplesmente, a beleza da potranca não resistiu ao tempo.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) autoriza o Governo a aprovar um regime jurídico que regula determinados aspectos da organização do tempo de trabalho dos trabalhadores móveis em actividades de transporte rodoviário e a transpor para a ordem jurídica interna várias directivas.
Votaram a favor PSD, Chega, PS, CDS-PP e JPP. Votaram contra PCP, BE e Livre.
O que é que isto significa e em que se traduz, afinal, na vida dos motoristas?
O órgão legislativo competente para legislar sobre estas matérias seria o Parlamento, só podendo estar cometida ao Governo se for, como foi, aprovada a lei de autorização legislativa a que nos referimos supra, o que, desde logo, permite a aprovação num lapso de tempo muito mais curto e sem ser objecto de discussão entre as mais diversas forças políticas.
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho
Por outro lado ainda, ao se aprovar esta lei de autorização legislativa, o que se está a conceder ao Governo é a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, no sentido de um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas, como, aliás, sucedeu.
Entre as medidas constantes do decreto-lei proposto constam as seguintes regras:
a) Artigo 20.º
Tempo de disponibilidade
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho. Refere-se a períodos não correspondentes a períodos de pausa ou de repouso, durante os quais o trabalhador móvel não é obrigado a permanecer no seu posto de trabalho, mantendo-se, no entanto, disponível para responder a eventuais solicitações no sentido de iniciar ou retomar a condução ou de efetuar outros trabalhos relacionados com a atividade de transporte rodoviário. São ainda considerados tempos de disponibilidade, nomeadamente, os períodos durante os quais o trabalhador móvel acompanha um veículo embarcado num ferry-boat ou transportado de comboio, bem como os períodos de espera nas fronteiras ou devido a restrições à circulação. Para os trabalhadores móveis que conduzem em equipa, o tempo passado ao lado do condutor ou num beliche durante a marcha;
b) Artigo 21º
A duração do trabalho semanal dos trabalhadores móveis, incluindo trabalho suplementar, não pode exceder 60 horas, nem 48 horas em média num período de quatro meses. Por instrumento de regulamentação coletiva de trabalho, o período de referência previsto no número anterior pode ser aumentado até seis meses.
c) Artigo 22º
Não é considerado trabalho nocturno o tempo de disponibilidade.
Ou seja, e dito de outra forma, os partidos que aprovaram a lei de autorização legislativa aprovaram também o conteúdo do decreto-lei que lhe estava anexo e do qual constam, entre outras medidas gravosas, as que aqui são referidas.
*A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.
Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.
O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.
No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).
O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.
Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.
Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.
É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.
É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.
Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.
Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.
O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.
O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.
Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.
Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.
Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.
Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.
A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.
Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.
Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).
Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.
Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.
É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.
Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.
Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.
A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.
Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.
A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.
The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.
E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.
Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”
Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.
“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.
“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!
O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.
Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.
É impossível não recordar 2012 e a troika.
Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”
Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).
O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.
Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.
Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.
Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!
Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.
Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho. Do que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
Há duas formas, relativamente simples, de se perceber a importância da greve geral. A primeira é, obviamente, assistir ao raro acordo entre a UGT e a CGTP. Quando até os sindicatos afectos ao PSD (TSD) se juntam à luta, é porque o ataque é grande. A outra, que também não exige um olho propriamente treinado, é ver as voltas do cata-vento Ventura que passou, em poucas semanas, de opositor a promissor sindicalista. Ainda o Frazão, lá de cima da janela da Assembleia da República, insultava os manifestantes e já o Ventura, percebendo a onda que cativava a opinião pública, se juntava nas críticas ao governo. Às vezes, muito secretamente, desejo que o Andrezito chegue a presidente deste nosso rectângulo. Seria a sentença de morte daquele partido unipessoal que carrega todas as ambições de um homem profundamente frustrado. Para não lhe chamar outra coisa, já que este é um jornal de respeito.
Leitão Amaro foi, para mim, a estrela do dia no papel de Goebbels de Tondela. Excelente na propaganda e na tentativa de despejar uma narrativa para os jornais do dia. Disse ele que o "país escolheu trabalhar" e que a adesão à greve era praticamente residual. Entretanto, as imagens de ruas e avenidas do país, atafulhadas de gente, saltavam de mural em mural. Há uma fotografia exposta no "bunker de Berlim", um museu imperdível, onde se mostra uma montagem de Goebbels transformando uma parada de uns poucos numa manifestação de milhares. Brilhante trabalho de manipulação gráfica, que convenceu uns quantos milhões, feito uns bons 50 anos antes da invenção do Paint pela Microsoft. Leitão Amaro teve apenas o azar de estarmos em 2025, na era dos telefones que fazem tudo.
Antes já tinha dito, para quem o quisesse ouvir, que o novo pacote laboral não teria impacto na função pública, uma vez que estes trabalhadores estão protegidos pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. O regime geral do código do trabalho, segundo o ministro da Presidência, é que sofreria o impacto. Esta conversa tinha dois objectivos. Desde logo, desmotivar a função pública no seu protesto. Como se as lutas laborais não se fizessem de solidariedade entre mais e menos afectados. Como se o colectivo não fosse sempre mais forte quanto maior a sua expressão. E depois, a parte menos conhecida da opinião pública, como nos explicou Rita Garcia Pereira (notícia CNN), advogada especialista em direito do trabalho, já existem muitos trabalhadores na dependência do Estado que têm contratos individuais de trabalho e, portanto, de natureza privada, directamente afectados pelo novo pacote laboral.
Um dos grandes problemas dos nossos governantes é a bolha em que vivem e a distância entre as suas vidas e a realidade dos Portugueses. A crise da habitação por exemplo, que afecta boa parte da população e resulta em despejos diários, está a ser enfrentada por um primeiro-ministro que tem 55 imóveis, uma ministra do Trabalho, professora universitária, com um património superior a 5 milhões de euros e um ministro da Presidência, o nosso Goebbels de Tondela, que investiu 1,34 milhões de euros numa casa em Lisboa e que, por acaso, recebeu uns benefícios no IMI (notícia CM). Como é que esta gente enriquece com os salários declarados? E pior: como é que podem perceber as dificuldades do trânsito se circulam em via privada e sempre livre?
Com o pacote laboral o problema é essencialmente o mesmo. Discute-se a flexibilização como uma arma para o aumento da produtividade. Defende-se o fim dos sindicatos para ter menos entraves ao progresso. Apresenta-se o trabalho temporário como um benefício da rotatividade laboral. E no fim, para que ninguém duvide, explicam-nos que este é o caminho para sermos a próxima Alemanha, Suécia, Dinamarca ou Bélgica. É a aposta total na desinformação, na tentativa de meter trabalhadores contra trabalhadores, pobres contra pobres. Na Suécia, por exemplo, onde trabalhei durante 20 anos, a taxa de sindicalização anda perto dos 70% e praticamente 1/3 da força laboral está no sector público. A carga fiscal é elevadíssima e o lucro é fortemente taxado. Que o diga o já falecido fundador do IKEA, que se mudou para a Suíça, esse bastião de produtividade com o trabalho alheio e sempre protetor das fortunas.
Em Portugal as reformas laborais são sempre, mas sempre, feitas pelo lado do trabalhador. É preciso produzir mais, oferecer horas ao patronato, aceitar o despedimento sem justa causa, adiar a vida à espera de um contrato sem termo. O que não é preciso, em momento algum, é exigir que a riqueza criada pelos trabalhadores vá menos para os accionistas e mais para os bolsos de quem trabalha. Ou que a carga fiscal absurda que afecta os Portugueses se converta em creches públicas, atendimento decente na saúde ou transportes públicos que funcionem. No fundo, tenta o Governo e toda a direita em geral convencer uma legião de pobres de que o problema são eles, que trabalham pouco e que os 40% que estão no limiar da miséria antes das transferências sociais devem trabalhar ainda mais porque há uma elite política e empresarial que precisa de mais lucro. Até porque, aqui e ali, há um BES bem sólido que não se paga sozinho ou uns arranjos entre governantes e construtoras que não se fazem sem um saco azul profundo.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes, gente com formação que fala inglês se não se importarem de receber amendoins a troco de trabalho. A novidade é que o "investimento externo" já está em Portugal. Não faltam multinacionais que descobriram o filão português e do quão longe conseguem chegar com 1000 euros para oferecer. Na minha área, neste preciso momento, Portugal é visto como uma opção a considerar se comparado com o investimento no Vietname. No Vietname, meus amigos! Foi aqui que chegámos ao fim de 40 anos na União Europeia.
Temos mais auto-estradas, muitos hotéis de charme e tascas gourmet. Mas continuamos pobres, governados por gente que resume o CV a um cartão partidário, sem um dia de trabalho no mundo real e que enriquece enquanto nos convence de que o problema somos nós.
Talvez Leitão Amaro e Montenegro tenham razão quando dizem que o país não precisa de greves. Talvez não. Pelo aspecto da coisa, o que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Ricardo Penarróias, presidente do SNPVAC sobre a greve geral de 11 de Dezembro
O impacto da greve geral foi gigante, histórico. Portugal parou. O pacote laboral está completamente errado. O governo escondeu do seu próprio eleitorado esta reforma, que nem vinha no seu plano de acção. Apelo às centrais sindicais: qualquer mudança “cirúrgica” vai ser uma manta de retalhos, que nos vai prejudicar a todos. É preciso recomeçar do zero. Não queremos destruir o nosso presente e hipotecar o futuro dos nossos filhos. Muitas vezes não temos a noção da força que nós temos: o país pára!
A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade.
A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade.

As primeiras lutas operárias trouxeram consigo os primórdios da organização. A passagem do artesanato para a condição operária não criava uma situação absolutamente nova. A organização de uniões operárias (trade unions) era uma velha tendência, presente desde 1720 na Inglaterra, com a União dos Entalhadores de Londres, destinada a obter aumentos salariais através de petições ao Parlamento. As primeiras associações permanentes de assalariados precederam em meio século o sistema manufatureiro e localizaram-se em ofícios onde o trabalho manual-artesanal predominava. O fator determinante não é a transformação técnica, mas o divórcio entre o trabalho e a propriedade dos meios de produção. Onde esse divórcio se consuma nasce o sindicato. Foi mais para defender uma situação privilegiada do que para melhorar uma má situação que se formaram os primeiros sindicatos. Com o aguçamento da luta contra os patrões, a forma e o conteúdo dos sindicatos alteraram-se.
Em 1724, os operários chapeleiros de Paris declararam greve por causa da redução dos seus salários. Criaram, para financiar essa ação, uma “caixa de greve”. A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade. Entre 1753 e 1757 produziram-se greves espontâneas em diversas regiões de Inglaterra: pedreiros e carpinteiros em Manchester, marceneiros noutras cidades. Em 1765, 100 mil marinheiros e operários do carvão declararam greve em Londres. Durante o período mais radical da Revolução Francesa floresceram as greves. As revoltas precederam a organização dos sindicatos, que demoraram a aparecer e estabilizar-se como representação unificada da classe operária. Na Inglaterra, em 1721, foi proibida a organização dos alfaiates; e em 1726, a dos marceneiros. Em França, em 1791, a lei proposta pelo deputado Le Chapelier havia proibido as organizações operárias. No seu texto, afirmava-se, com base na ilusão liberal, mas também com um sentido de classe aguçado: “Já não há classes de corporação no Estado. Não existe mais do que o interesse particular de cada indivíduo e o interesse geral. Pertence aos convénios livres, de indivíduo para indivíduo, fixar o jornal para cada operário. É incumbência do operário manter o acordo feito com o empregador.” Os temíveis (mas burgueses) jacobinos permaneceram calados. O projeto de lei de Le Chapelier foi adotado por unanimidade pela Assembleia Nacional francesa.
A tradição e o programa igualitário da Revolução Francesa foram transmitidos diretamente ao nascente movimento operário por um sobrevivente da Conspiração dos Iguais, Felipe Buonarroti, descendente do escultor italiano Michelangelo Buonarroti, que escreveu a História da Conspiração dos Iguais: o livro de Buonarroti era muito conhecido entre os operários. Pertencia à literatura popular junto com os discursos de Robespierre e os artigos de Marat. Na Inglaterra, os primórdios do movimento político operário vincularam-se ao movimento democrático radical, por direitos políticos iguais para todos. Foram surgindo novas direções políticas, inicialmente originadas nas classes abastadas. Filho de um rico comerciante, John Wilkes (1725-1797) começou a sua carreira política atacando, a partir do seu jornal, o North Briton, o rei Jorge III, transformando-se no paladino das liberdades civis fundamentais. Tornou-se líder popular em Londres, com grande apoio para o seu movimento de reforma democrática. Foi perseguido e detido diversas vezes. A 10 de maio de 1768, uma multidão de operários londrinos reuniu-se numa manifestação para exigir a sua liberdade.
Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados.
A repressão da manifestação provocou seis mortos e muitos feridos. Houve uma comoção social em Londres e nos condados vizinhos: estivadores, trabalhadores portuários, marceneiros e alfaiates declararam greve. Wilkes organizou a sua campanha eleitoral de 1774 a partir de um programa que defendia um sufrágio mais equitativo e a defesa dos direitos populares na Inglaterra, na Irlanda e na América. O movimento político radical que dirigia obteve a eleição, pese o reduzido número de eleitores (devido ao voto censitário), de doze membros no parlamento. A influência política de Wilkes durou até 1780, mas a luta por reformas continuou: a maior parte dos candidatos a políticos ingleses apresentava-se como reformadora. John Cartwright (1740-1824) publicou em 1776 a brochura Take Your Choice (Escolha!) que esboçava o programa que inspirou o movimento popular durante os 75 anos seguintes, insistindo na reforma eleitoral e no parlamento anual. A agitação operária nas cidades inglesas e britânicas percorreu todo o século XVIII. As greves não se esgotaram em si mesmas: entre 1763 e 1768 diversas categorias unificaram-se para levar petições ao rei Jorge III. Por outro lado, ganhou corpo a ideia de atacar diretamente o capital. Em 1768, os tecelões de Spitalfields levantaram-se em massa e destruíram uma grande quantidade de teares de seda. Organizaram um fundo de greve, depositando de 2 a 5 xelins por tear. Os tecelões de Spitalfields criaram uma união para pleitear perante a justiça, lançando a semente dos futuros sindicatos.
Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados. A burguesia inglesa fugiu da revolução democrática pois, em vez de uma massa popular indiferenciada, viu desenhar-se por detrás dela a ação de uma classe com a sua própria política e métodos de organização. Em janeiro de 1792, oito operários ingleses criaram a London Corresponding Society, que se organizou em grupos de trinta membros, baseada numa contribuição financeira acessível aos operários. Em finais desse ano, a sociedade contava já com três mil membros. Os seus objetivos eram o sufrágio universal, a igualdade de representação, o parlamento honesto, o fim dos abusos contra os cidadãos humildes, o fim das pensões outorgadas pelo Parlamento aos membros das classes dirigentes, a redução da jornada de trabalho, a diminuição dos impostos e a entrega das terras comunais aos camponeses. Na mesma época, o livro de Tom Paine Os Direitos do Homem defendia a Revolução Francesa e a independência americana, atacando a monarquia inglesa em favor do republicanismo. Publicado em inglês, celta e gaélico, vendeu 200 mil exemplares na Grã-Bretanha. Em 1795, os dirigentes da London Corresponding Society foram presos e a sociedade começou a decair. Mas ela foi o antecedente da primeira grande organização política operária, o cartismo. Já prevenido pelo antecedente da sociedade operária e avisado pela experiência de França, o parlamento britânico proibiu as organizações operárias, condenando-as à clandestinidade ou a uma vida curta. O governo conseguiu também impedir as tentativas de se implantar um salário mínimo. Na década de 1790, a nova condição social dos trabalhadores, unida à influência da Revolução Francesa, deu um novo estatuto à repressão dos protestos sociais e suscitou novas formas de organização operária.
Há um anjo que não fala
é o anjo do silêncio
observa os homens
e sabe como a sua memória
se aloja na devastação
no pulsar do sangue
nas pedras da cidade
agora destruída.
O anjo do silêncio
espera talvez um sinal
mas o céu permanece fechado
e os homens caminham
ziguezagueando
entre as ruínas
salvando as crianças e os velhos
perante o longo silêncio do anjo
que os olha de través..
Maria Cantinho
Segundo o dicionário da Porto Editora, corresponde a: 1) forma de liderança que se baseia no mérito pessoal, em vez de se basear em riqueza ou estatuto social; 2) sistema social que se baseia nessa forma de liderança.
EM NOVILÍNGUA:
Segundo artigo de Sergio C. Fanjul no El País: “Soa bem, e dizem-nos muitas vezes que vivemos numa meritocracia”. “Mas vários especialistas consultados alertam: a meritocracia não existe nas nossas sociedades e não está claro que a sua existência nos traga virtude. Nas últimas décadas o fosso entre vencedores e perdedores aumentou, gerando sociedades mais polarizadas e desiguais em rendimentos e riqueza.” A conceptualização do sucesso também mudou: “Os que chegaram ao topo acreditam que o seu sucesso é obra sua, evidência do seu mérito superior, e que os que ficam para trás merecem o seu destino”, diz o filósofo da Universidade de Harvard Michael Sandel, autor do livro A Tirania do Mérito (Presença, 2022). ASP
Já não os empregam tanto os velhos latifundiários de antes da revolução. Com a União Europeia e o comércio livre, entrou no país, principalmente nos campos do Alentejo, uma nova espécie invasora: os grandes investidores e fundos especializados em extorquir o máximo de fundos, o máximo de trabalho e o máximo de azeite e de frutos da terra do mínimo de investimento, de terra e de trabalhadores.
Alguns comandam e servem máfias que organizam um tráfico de seres humanos digno dos tempos da escravatura. Sugam a água e os recursos naturais, esgotam e destroem os solos, expulsam as populações e a cultura popular e escravizam quem os traficantes lhes trazem.
Jornal MaioCristina Morais
Jornal MaioMaria Carolina Varela
Jornal MaioCristina Morais
Jornal MaioAna Barbosa
Jornal MaioJorge Sanches da Cruz
Jornal MaioAntónio Garcia Pereira
Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado a meio da Quaresma e ser altura da Pinha, sei lá. A malta ia a todos, testosterona nos limites, embora a atração fosse maior se o conjunto, como então se dizia, tivesse fama de tocar rock imitado – não se falava, ainda, em covers. “Nights in white satin” era sempre, e por evidentes razões de roçanço, um tema desejado, mas um gajo também podia dar nas vistas e ser admirado pelos seus movimentos arriscados, ao dançar em grupo o “Smoke on the water”.
Seja como for. Certo é que a maior parte das vezes, estando embora a menina dos nossos olhos na sala, a gente não tinha dinheiro para o bilhete. E lá ficávamos, então, pelo bar, esperando a hora de podermos entrar à borla. E se, entretanto, ocorria o momento das meninas ao bufete – alguém se lembra disto? – ali continuávamos, esperando vê-la, mesmo que trazida pela simpatia mais endinheirada de um rival qualquer. Cervejola abaixo, charrito às escondidas acima, o baile acabaria por ser nosso.
Os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada.
Na sala, então. Um vazio enorme entre cada dança. Era preciso atravessá-lo, gigantesco vazio sob os olhares de todos, e ir pedir, se conhecida e desejada fosse, “Danças comigo?” ou, em casos de apuro, arriscando “A menina dança, tem par ou descansa?” O resultado desse momento dependia da verdadeira intenção: ou se ia por desejo sincero, ou arriscava-se por desafio do resto da malta. E era um desatino, em qualquer dos casos, quando se levava com uma tampa – alguém se lembra deste outro isto? Bolas! Encolher as orelhas e voltar a atravessar o tal vazio titã para, lá no fundo, ser recebido pelas gargalhadas de troça do pessoal. Uma nega não tinha piada nenhuma. Nunca teve, sobretudo quando o conjunto se preparava para tocar “Angie”, dos Rolling Stones.
No resto, tirando as valsas ou os tangos, mais estes, que infelizmente nunca soube dançar, os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada, e até no depois, quando livre de paus-de-cabeleira e amigos éramos só nós, eu e ela.
Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela uma égua, acho que não. Era um cavalheiro. Tinha idade para ser pai dela. Ela, por sua vez, filha sem pai, supria naquela relação a carência paterna. Certo mesmo é que ele, como tantos outros homens, novos e velhos, a desejava e era o mais fiel dos seus admiradores. Vivia a cercá-la de atenções, não perdia oportunidade de demonstrar o quanto podia ser útil, o companheiro agradável, resolutivo e apaixonado que ela podia ter. Ela sabia do seu poder e diversas vezes esfregou na cara dele um parceiro mais novo, bem mais novo, viril, um garanhão, representação incontestável da testosterona que ele já não exibia. Mas bastava ela estalar dois dedos, lá estava ele aos seus pés. Se ela o mandasse matar alguém, ele iria correndo cumprir a ordem. Só depois perguntaria porquê.
Eu não conseguia afastá-la do meu convívio, embora fosse justo que o fizesse. Mas a minha porção civilizada e orgulhosa, com esforço me conduzia a tratá-la com simpatia. Falsa, com certeza. Aquela cabra dizia ser minha amiga, eu respirava fundo e sorria, quando minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço. Imaginava o seu cortejo fúnebre, os garanhões com a sua virilidade encolhida e recolhida, enquanto carregavam o peso do seu caixão. Que defunta mais pesada! “Precisava ser tão grande?”, interrogar-se-iam eles. O corpo tão cobiçado, objeto das fantasias masculinas – talvez não só –, era, finalmente, colocado no lugar que eu queria, do jeito que me apetecia. Era só um peso. Morto. Era bom imaginá-la com o pescoço roxo, algodão nas narinas, olhos fechados, corpo inerte, evacuada do imaginário erótico e das camas redondas dos motéis cheios de luzes e espelhos, que povoaram o imaginário dos que desejaram estar em companhia da loira, para tê-la posta num estreito caixão, que a instalaria numa longa noite escura sem direito a volta. Em pouco tempo, relegada ao esquecimento. Talvez assim ele, o objeto da minha paixão, conseguisse ver que eu tinha um corpo, que queria afeto físico, que não era só inteligente, séria, honesta, atributos que ele reconhecia e declarava, talvez para me compensar pelo sentimento não correspondido. Ele gostava de mim. Não estava sendo falso quando dizia que me queria como amiga por toda a sua vida. Quem não? Sou uma ótima amiga. Ele só não queria protagonizar a minha história, no papel que lhe destinei. Idiota!
Uns trinta anos se passaram. Nos distanciamos os três sem nunca perder o contacto. Às vezes, eu e ele conversávamos por telefone. Nunca falamos abertamente sobre esses sentimentos desencontrados, mas eu sempre recolho das entrelinhas um quê de arrependimento. Pode ser só imaginação minha, talvez ele continue alimentando aquele sonho não realizado. Ela casou com outro. Os dois, ele e a ex-potranca loira, também continuaram se falando. Estamos, ela, ele e eu, em diferentes estados, mas as redes sociais, que cumprem a função de aproximar as pessoas, até as mortas, também nos mantêm “amigos”. Inclusive eu e ela. Embora nos falemos muito raramente, também, graças ao mesmo veículo, somos “amigas”. Confesso que é a única pessoa assumidamente bolsonarista que eu mantenho na minha lista de amigos. Porquè? Para exercitar a minha maldade. Ignorasse eu a sua existência, não ia poder testemunhar que o tempo jogara contra ela: além de ter-se tornado uma branquela gorda, a sua escolha política era reveladora do seu mau gosto e burrice.
Minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço.
Um leitor altruísta – se é que tenho leitores – pode estar boquiaberto com essa revelação de sentimentos tão mesquinhos. Acredito que todos os temos, mas não costumamos assumi-los. Às vezes, nem para nós mesmas. A hipocrisia é muito mais aceita socialmente que a franqueza.
Bem, há modos mais sutis do que os meus assassinatos. Os católicos livram-se da sua dimensão mesquinha no confessionário. Aproveitam-se do sigilo sacramental para vomitarem o “eu pequei”; cumprem uma penitência para demonstrar arrependimento, recebem a hóstia, símbolo do corpo de Cristo, e estão curados, prontos para novas maldades. Os que creem mais na ciência que em Deus procuram um profissional, geralmente um psicólogo, que, diferentemente do confessor, não lhes promete cura e cobra caro. Sessões e mais sessões, anos patinando na lama da própria mesquinhez, a querer que o psicólogo lhe indique o caminho do livramento. Muitos acabam por desistir da análise ou da terapia, culpando o profissional por algo que só o próprio pode mudar. O profissional, por anos a fio, em tom solene e grave, esteve a devolver as declarações chorosas em forma de pergunta, não sendo sua responsabilidade se o sujeito não consegue se reconciliar consigo mesmo.
Acaba de me ocorrer um outro tipo de prática destinada ao perdão da alma. Bem, é uma lembrança da minha infância. O mundo mudou tanto nos últimos anos, que eu me sinto pré-histórica. Para muitas pessoas deve parecer inacreditável o que vou registrar. Refiro-me ao pedido de perdão de pessoas que estão prestes a morrer. Na minha infância, testemunhei uma cena dessas, protagonizada pela minha bisavó paterna. Já começo a perceber que não enveredei por um bom caminho: sem querer, vou revelar raízes pouco admiráveis. A família – católica, apostólica, romana – desejava que a velha ranzinza fosse para o céu. Era de bom tom que ela tivesse o tal descanso eterno e que seus parentes descansassem dela certos de que o céu a acolhera. Um seu inimigo foi convocado para ajudá-la a fazer essa passagem. Diante dela, aquele homem magro, alto, de cara fechada, esperava em silêncio, até que, exasperado, perguntou para o que havia sido chamado. Pois bem, não faltou energia à quase morta para dizer que fora ele a ofendê-la e que, portanto, era quem devia pedir desculpas, perdão ou coisa que o valha. Sem titubear, ela foi mandada diretamente para o inferno, pois como disse ele, era ela que estava a morrer e ele pouco se importava com o destino da sua alma. Como se pode ver, essa também não é uma tática aconselhável.
Não me pergunte onde eu me enquadro. Não me vejo pedindo perdão a Deus, nem esperando a morte para buscar compaixão de quem eu fiz questão de não me reconciliar. Posso apenas dizer que sou uma mulher analisada. Às vezes boa, outras má. Já vivi a maior parte da minha vida, mas ainda não estou me despedindo dela. Que ninguém pense que isso é um “mea culpa”. Não me sinto em pecado pelos meus sentimentos pouco nobres. Se sentimentos fossem materializados eu já teria transformado o mundo num lugar menos desigual. Esse propósito é o conteúdo da minha utopia. Portanto, não preciso estar à beira da morte para assumir pensamentos mesquinhos, tampouco preciso guardá-los a sete chaves. Para ser honesta, ao ver a última foto daquela minha adversária a quem eu matei tantas vezes, fiz uma descoberta fantástica: eu nunca quis que ela morresse, eu precisava tão somente esperar por essa determinação natural que é o envelhecer. Simplesmente, a beleza da potranca não resistiu ao tempo.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) autoriza o Governo a aprovar um regime jurídico que regula determinados aspectos da organização do tempo de trabalho dos trabalhadores móveis em actividades de transporte rodoviário e a transpor para a ordem jurídica interna várias directivas.
Votaram a favor PSD, Chega, PS, CDS-PP e JPP. Votaram contra PCP, BE e Livre.
O que é que isto significa e em que se traduz, afinal, na vida dos motoristas?
O órgão legislativo competente para legislar sobre estas matérias seria o Parlamento, só podendo estar cometida ao Governo se for, como foi, aprovada a lei de autorização legislativa a que nos referimos supra, o que, desde logo, permite a aprovação num lapso de tempo muito mais curto e sem ser objecto de discussão entre as mais diversas forças políticas.
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho
Por outro lado ainda, ao se aprovar esta lei de autorização legislativa, o que se está a conceder ao Governo é a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, no sentido de um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas, como, aliás, sucedeu.
Entre as medidas constantes do decreto-lei proposto constam as seguintes regras:
a) Artigo 20.º
Tempo de disponibilidade
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho. Refere-se a períodos não correspondentes a períodos de pausa ou de repouso, durante os quais o trabalhador móvel não é obrigado a permanecer no seu posto de trabalho, mantendo-se, no entanto, disponível para responder a eventuais solicitações no sentido de iniciar ou retomar a condução ou de efetuar outros trabalhos relacionados com a atividade de transporte rodoviário. São ainda considerados tempos de disponibilidade, nomeadamente, os períodos durante os quais o trabalhador móvel acompanha um veículo embarcado num ferry-boat ou transportado de comboio, bem como os períodos de espera nas fronteiras ou devido a restrições à circulação. Para os trabalhadores móveis que conduzem em equipa, o tempo passado ao lado do condutor ou num beliche durante a marcha;
b) Artigo 21º
A duração do trabalho semanal dos trabalhadores móveis, incluindo trabalho suplementar, não pode exceder 60 horas, nem 48 horas em média num período de quatro meses. Por instrumento de regulamentação coletiva de trabalho, o período de referência previsto no número anterior pode ser aumentado até seis meses.
c) Artigo 22º
Não é considerado trabalho nocturno o tempo de disponibilidade.
Ou seja, e dito de outra forma, os partidos que aprovaram a lei de autorização legislativa aprovaram também o conteúdo do decreto-lei que lhe estava anexo e do qual constam, entre outras medidas gravosas, as que aqui são referidas.
*A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.
Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.
O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.
No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).
O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.
Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.
Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.
É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.
É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.
Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.
Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.
O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.
O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.
Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.
Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.
Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.
Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.
A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.
Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.
Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).
Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.
Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.
É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.
Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.
Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.
A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.
Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.
A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.
The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.
E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.
Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”
Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.
“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.
“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!
O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.
Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.
É impossível não recordar 2012 e a troika.
Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”
Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).
O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.
Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.
Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.
Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!
Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.
Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho. Do que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
Há duas formas, relativamente simples, de se perceber a importância da greve geral. A primeira é, obviamente, assistir ao raro acordo entre a UGT e a CGTP. Quando até os sindicatos afectos ao PSD (TSD) se juntam à luta, é porque o ataque é grande. A outra, que também não exige um olho propriamente treinado, é ver as voltas do cata-vento Ventura que passou, em poucas semanas, de opositor a promissor sindicalista. Ainda o Frazão, lá de cima da janela da Assembleia da República, insultava os manifestantes e já o Ventura, percebendo a onda que cativava a opinião pública, se juntava nas críticas ao governo. Às vezes, muito secretamente, desejo que o Andrezito chegue a presidente deste nosso rectângulo. Seria a sentença de morte daquele partido unipessoal que carrega todas as ambições de um homem profundamente frustrado. Para não lhe chamar outra coisa, já que este é um jornal de respeito.
Leitão Amaro foi, para mim, a estrela do dia no papel de Goebbels de Tondela. Excelente na propaganda e na tentativa de despejar uma narrativa para os jornais do dia. Disse ele que o "país escolheu trabalhar" e que a adesão à greve era praticamente residual. Entretanto, as imagens de ruas e avenidas do país, atafulhadas de gente, saltavam de mural em mural. Há uma fotografia exposta no "bunker de Berlim", um museu imperdível, onde se mostra uma montagem de Goebbels transformando uma parada de uns poucos numa manifestação de milhares. Brilhante trabalho de manipulação gráfica, que convenceu uns quantos milhões, feito uns bons 50 anos antes da invenção do Paint pela Microsoft. Leitão Amaro teve apenas o azar de estarmos em 2025, na era dos telefones que fazem tudo.
Antes já tinha dito, para quem o quisesse ouvir, que o novo pacote laboral não teria impacto na função pública, uma vez que estes trabalhadores estão protegidos pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. O regime geral do código do trabalho, segundo o ministro da Presidência, é que sofreria o impacto. Esta conversa tinha dois objectivos. Desde logo, desmotivar a função pública no seu protesto. Como se as lutas laborais não se fizessem de solidariedade entre mais e menos afectados. Como se o colectivo não fosse sempre mais forte quanto maior a sua expressão. E depois, a parte menos conhecida da opinião pública, como nos explicou Rita Garcia Pereira (notícia CNN), advogada especialista em direito do trabalho, já existem muitos trabalhadores na dependência do Estado que têm contratos individuais de trabalho e, portanto, de natureza privada, directamente afectados pelo novo pacote laboral.
Um dos grandes problemas dos nossos governantes é a bolha em que vivem e a distância entre as suas vidas e a realidade dos Portugueses. A crise da habitação por exemplo, que afecta boa parte da população e resulta em despejos diários, está a ser enfrentada por um primeiro-ministro que tem 55 imóveis, uma ministra do Trabalho, professora universitária, com um património superior a 5 milhões de euros e um ministro da Presidência, o nosso Goebbels de Tondela, que investiu 1,34 milhões de euros numa casa em Lisboa e que, por acaso, recebeu uns benefícios no IMI (notícia CM). Como é que esta gente enriquece com os salários declarados? E pior: como é que podem perceber as dificuldades do trânsito se circulam em via privada e sempre livre?
Com o pacote laboral o problema é essencialmente o mesmo. Discute-se a flexibilização como uma arma para o aumento da produtividade. Defende-se o fim dos sindicatos para ter menos entraves ao progresso. Apresenta-se o trabalho temporário como um benefício da rotatividade laboral. E no fim, para que ninguém duvide, explicam-nos que este é o caminho para sermos a próxima Alemanha, Suécia, Dinamarca ou Bélgica. É a aposta total na desinformação, na tentativa de meter trabalhadores contra trabalhadores, pobres contra pobres. Na Suécia, por exemplo, onde trabalhei durante 20 anos, a taxa de sindicalização anda perto dos 70% e praticamente 1/3 da força laboral está no sector público. A carga fiscal é elevadíssima e o lucro é fortemente taxado. Que o diga o já falecido fundador do IKEA, que se mudou para a Suíça, esse bastião de produtividade com o trabalho alheio e sempre protetor das fortunas.
Em Portugal as reformas laborais são sempre, mas sempre, feitas pelo lado do trabalhador. É preciso produzir mais, oferecer horas ao patronato, aceitar o despedimento sem justa causa, adiar a vida à espera de um contrato sem termo. O que não é preciso, em momento algum, é exigir que a riqueza criada pelos trabalhadores vá menos para os accionistas e mais para os bolsos de quem trabalha. Ou que a carga fiscal absurda que afecta os Portugueses se converta em creches públicas, atendimento decente na saúde ou transportes públicos que funcionem. No fundo, tenta o Governo e toda a direita em geral convencer uma legião de pobres de que o problema são eles, que trabalham pouco e que os 40% que estão no limiar da miséria antes das transferências sociais devem trabalhar ainda mais porque há uma elite política e empresarial que precisa de mais lucro. Até porque, aqui e ali, há um BES bem sólido que não se paga sozinho ou uns arranjos entre governantes e construtoras que não se fazem sem um saco azul profundo.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes, gente com formação que fala inglês se não se importarem de receber amendoins a troco de trabalho. A novidade é que o "investimento externo" já está em Portugal. Não faltam multinacionais que descobriram o filão português e do quão longe conseguem chegar com 1000 euros para oferecer. Na minha área, neste preciso momento, Portugal é visto como uma opção a considerar se comparado com o investimento no Vietname. No Vietname, meus amigos! Foi aqui que chegámos ao fim de 40 anos na União Europeia.
Temos mais auto-estradas, muitos hotéis de charme e tascas gourmet. Mas continuamos pobres, governados por gente que resume o CV a um cartão partidário, sem um dia de trabalho no mundo real e que enriquece enquanto nos convence de que o problema somos nós.
Talvez Leitão Amaro e Montenegro tenham razão quando dizem que o país não precisa de greves. Talvez não. Pelo aspecto da coisa, o que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
O impacto da greve geral foi gigante, histórico. Portugal parou. O pacote laboral está completamente errado. O governo escondeu do seu próprio eleitorado esta reforma, que nem vinha no seu plano de acção. Apelo às centrais sindicais: qualquer mudança “cirúrgica” vai ser uma manta de retalhos, que nos vai prejudicar a todos. É preciso recomeçar do zero. Não queremos destruir o nosso presente e hipotecar o futuro dos nossos filhos. Muitas vezes não temos a noção da força que nós temos: o país pára!
A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade.

As primeiras lutas operárias trouxeram consigo os primórdios da organização. A passagem do artesanato para a condição operária não criava uma situação absolutamente nova. A organização de uniões operárias (trade unions) era uma velha tendência, presente desde 1720 na Inglaterra, com a União dos Entalhadores de Londres, destinada a obter aumentos salariais através de petições ao Parlamento. As primeiras associações permanentes de assalariados precederam em meio século o sistema manufatureiro e localizaram-se em ofícios onde o trabalho manual-artesanal predominava. O fator determinante não é a transformação técnica, mas o divórcio entre o trabalho e a propriedade dos meios de produção. Onde esse divórcio se consuma nasce o sindicato. Foi mais para defender uma situação privilegiada do que para melhorar uma má situação que se formaram os primeiros sindicatos. Com o aguçamento da luta contra os patrões, a forma e o conteúdo dos sindicatos alteraram-se.
Em 1724, os operários chapeleiros de Paris declararam greve por causa da redução dos seus salários. Criaram, para financiar essa ação, uma “caixa de greve”. A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade. Entre 1753 e 1757 produziram-se greves espontâneas em diversas regiões de Inglaterra: pedreiros e carpinteiros em Manchester, marceneiros noutras cidades. Em 1765, 100 mil marinheiros e operários do carvão declararam greve em Londres. Durante o período mais radical da Revolução Francesa floresceram as greves. As revoltas precederam a organização dos sindicatos, que demoraram a aparecer e estabilizar-se como representação unificada da classe operária. Na Inglaterra, em 1721, foi proibida a organização dos alfaiates; e em 1726, a dos marceneiros. Em França, em 1791, a lei proposta pelo deputado Le Chapelier havia proibido as organizações operárias. No seu texto, afirmava-se, com base na ilusão liberal, mas também com um sentido de classe aguçado: “Já não há classes de corporação no Estado. Não existe mais do que o interesse particular de cada indivíduo e o interesse geral. Pertence aos convénios livres, de indivíduo para indivíduo, fixar o jornal para cada operário. É incumbência do operário manter o acordo feito com o empregador.” Os temíveis (mas burgueses) jacobinos permaneceram calados. O projeto de lei de Le Chapelier foi adotado por unanimidade pela Assembleia Nacional francesa.
A tradição e o programa igualitário da Revolução Francesa foram transmitidos diretamente ao nascente movimento operário por um sobrevivente da Conspiração dos Iguais, Felipe Buonarroti, descendente do escultor italiano Michelangelo Buonarroti, que escreveu a História da Conspiração dos Iguais: o livro de Buonarroti era muito conhecido entre os operários. Pertencia à literatura popular junto com os discursos de Robespierre e os artigos de Marat. Na Inglaterra, os primórdios do movimento político operário vincularam-se ao movimento democrático radical, por direitos políticos iguais para todos. Foram surgindo novas direções políticas, inicialmente originadas nas classes abastadas. Filho de um rico comerciante, John Wilkes (1725-1797) começou a sua carreira política atacando, a partir do seu jornal, o North Briton, o rei Jorge III, transformando-se no paladino das liberdades civis fundamentais. Tornou-se líder popular em Londres, com grande apoio para o seu movimento de reforma democrática. Foi perseguido e detido diversas vezes. A 10 de maio de 1768, uma multidão de operários londrinos reuniu-se numa manifestação para exigir a sua liberdade.
Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados.
A repressão da manifestação provocou seis mortos e muitos feridos. Houve uma comoção social em Londres e nos condados vizinhos: estivadores, trabalhadores portuários, marceneiros e alfaiates declararam greve. Wilkes organizou a sua campanha eleitoral de 1774 a partir de um programa que defendia um sufrágio mais equitativo e a defesa dos direitos populares na Inglaterra, na Irlanda e na América. O movimento político radical que dirigia obteve a eleição, pese o reduzido número de eleitores (devido ao voto censitário), de doze membros no parlamento. A influência política de Wilkes durou até 1780, mas a luta por reformas continuou: a maior parte dos candidatos a políticos ingleses apresentava-se como reformadora. John Cartwright (1740-1824) publicou em 1776 a brochura Take Your Choice (Escolha!) que esboçava o programa que inspirou o movimento popular durante os 75 anos seguintes, insistindo na reforma eleitoral e no parlamento anual. A agitação operária nas cidades inglesas e britânicas percorreu todo o século XVIII. As greves não se esgotaram em si mesmas: entre 1763 e 1768 diversas categorias unificaram-se para levar petições ao rei Jorge III. Por outro lado, ganhou corpo a ideia de atacar diretamente o capital. Em 1768, os tecelões de Spitalfields levantaram-se em massa e destruíram uma grande quantidade de teares de seda. Organizaram um fundo de greve, depositando de 2 a 5 xelins por tear. Os tecelões de Spitalfields criaram uma união para pleitear perante a justiça, lançando a semente dos futuros sindicatos.
Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados. A burguesia inglesa fugiu da revolução democrática pois, em vez de uma massa popular indiferenciada, viu desenhar-se por detrás dela a ação de uma classe com a sua própria política e métodos de organização. Em janeiro de 1792, oito operários ingleses criaram a London Corresponding Society, que se organizou em grupos de trinta membros, baseada numa contribuição financeira acessível aos operários. Em finais desse ano, a sociedade contava já com três mil membros. Os seus objetivos eram o sufrágio universal, a igualdade de representação, o parlamento honesto, o fim dos abusos contra os cidadãos humildes, o fim das pensões outorgadas pelo Parlamento aos membros das classes dirigentes, a redução da jornada de trabalho, a diminuição dos impostos e a entrega das terras comunais aos camponeses. Na mesma época, o livro de Tom Paine Os Direitos do Homem defendia a Revolução Francesa e a independência americana, atacando a monarquia inglesa em favor do republicanismo. Publicado em inglês, celta e gaélico, vendeu 200 mil exemplares na Grã-Bretanha. Em 1795, os dirigentes da London Corresponding Society foram presos e a sociedade começou a decair. Mas ela foi o antecedente da primeira grande organização política operária, o cartismo. Já prevenido pelo antecedente da sociedade operária e avisado pela experiência de França, o parlamento britânico proibiu as organizações operárias, condenando-as à clandestinidade ou a uma vida curta. O governo conseguiu também impedir as tentativas de se implantar um salário mínimo. Na década de 1790, a nova condição social dos trabalhadores, unida à influência da Revolução Francesa, deu um novo estatuto à repressão dos protestos sociais e suscitou novas formas de organização operária.
Há um anjo que não fala
é o anjo do silêncio
observa os homens
e sabe como a sua memória
se aloja na devastação
no pulsar do sangue
nas pedras da cidade
agora destruída.
O anjo do silêncio
espera talvez um sinal
mas o céu permanece fechado
e os homens caminham
ziguezagueando
entre as ruínas
salvando as crianças e os velhos
perante o longo silêncio do anjo
que os olha de través..
Maria Cantinho
Segundo o dicionário da Porto Editora, corresponde a: 1) forma de liderança que se baseia no mérito pessoal, em vez de se basear em riqueza ou estatuto social; 2) sistema social que se baseia nessa forma de liderança.
EM NOVILÍNGUA:
Segundo artigo de Sergio C. Fanjul no El País: “Soa bem, e dizem-nos muitas vezes que vivemos numa meritocracia”. “Mas vários especialistas consultados alertam: a meritocracia não existe nas nossas sociedades e não está claro que a sua existência nos traga virtude. Nas últimas décadas o fosso entre vencedores e perdedores aumentou, gerando sociedades mais polarizadas e desiguais em rendimentos e riqueza.” A conceptualização do sucesso também mudou: “Os que chegaram ao topo acreditam que o seu sucesso é obra sua, evidência do seu mérito superior, e que os que ficam para trás merecem o seu destino”, diz o filósofo da Universidade de Harvard Michael Sandel, autor do livro A Tirania do Mérito (Presença, 2022). ASP
Já não os empregam tanto os velhos latifundiários de antes da revolução. Com a União Europeia e o comércio livre, entrou no país, principalmente nos campos do Alentejo, uma nova espécie invasora: os grandes investidores e fundos especializados em extorquir o máximo de fundos, o máximo de trabalho e o máximo de azeite e de frutos da terra do mínimo de investimento, de terra e de trabalhadores.
Alguns comandam e servem máfias que organizam um tráfico de seres humanos digno dos tempos da escravatura. Sugam a água e os recursos naturais, esgotam e destroem os solos, expulsam as populações e a cultura popular e escravizam quem os traficantes lhes trazem.
Jornal MaioCristina Morais
Jornal MaioMaria Carolina Varela
Jornal MaioCristina Morais
Jornal MaioAna Barbosa
Jornal MaioJorge Sanches da Cruz
Jornal MaioAntónio Garcia Pereira
Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado a meio da Quaresma e ser altura da Pinha, sei lá. A malta ia a todos, testosterona nos limites, embora a atração fosse maior se o conjunto, como então se dizia, tivesse fama de tocar rock imitado – não se falava, ainda, em covers. “Nights in white satin” era sempre, e por evidentes razões de roçanço, um tema desejado, mas um gajo também podia dar nas vistas e ser admirado pelos seus movimentos arriscados, ao dançar em grupo o “Smoke on the water”.
Seja como for. Certo é que a maior parte das vezes, estando embora a menina dos nossos olhos na sala, a gente não tinha dinheiro para o bilhete. E lá ficávamos, então, pelo bar, esperando a hora de podermos entrar à borla. E se, entretanto, ocorria o momento das meninas ao bufete – alguém se lembra disto? – ali continuávamos, esperando vê-la, mesmo que trazida pela simpatia mais endinheirada de um rival qualquer. Cervejola abaixo, charrito às escondidas acima, o baile acabaria por ser nosso.
Os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada.
Na sala, então. Um vazio enorme entre cada dança. Era preciso atravessá-lo, gigantesco vazio sob os olhares de todos, e ir pedir, se conhecida e desejada fosse, “Danças comigo?” ou, em casos de apuro, arriscando “A menina dança, tem par ou descansa?” O resultado desse momento dependia da verdadeira intenção: ou se ia por desejo sincero, ou arriscava-se por desafio do resto da malta. E era um desatino, em qualquer dos casos, quando se levava com uma tampa – alguém se lembra deste outro isto? Bolas! Encolher as orelhas e voltar a atravessar o tal vazio titã para, lá no fundo, ser recebido pelas gargalhadas de troça do pessoal. Uma nega não tinha piada nenhuma. Nunca teve, sobretudo quando o conjunto se preparava para tocar “Angie”, dos Rolling Stones.
No resto, tirando as valsas ou os tangos, mais estes, que infelizmente nunca soube dançar, os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada, e até no depois, quando livre de paus-de-cabeleira e amigos éramos só nós, eu e ela.
Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela uma égua, acho que não. Era um cavalheiro. Tinha idade para ser pai dela. Ela, por sua vez, filha sem pai, supria naquela relação a carência paterna. Certo mesmo é que ele, como tantos outros homens, novos e velhos, a desejava e era o mais fiel dos seus admiradores. Vivia a cercá-la de atenções, não perdia oportunidade de demonstrar o quanto podia ser útil, o companheiro agradável, resolutivo e apaixonado que ela podia ter. Ela sabia do seu poder e diversas vezes esfregou na cara dele um parceiro mais novo, bem mais novo, viril, um garanhão, representação incontestável da testosterona que ele já não exibia. Mas bastava ela estalar dois dedos, lá estava ele aos seus pés. Se ela o mandasse matar alguém, ele iria correndo cumprir a ordem. Só depois perguntaria porquê.
Eu não conseguia afastá-la do meu convívio, embora fosse justo que o fizesse. Mas a minha porção civilizada e orgulhosa, com esforço me conduzia a tratá-la com simpatia. Falsa, com certeza. Aquela cabra dizia ser minha amiga, eu respirava fundo e sorria, quando minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço. Imaginava o seu cortejo fúnebre, os garanhões com a sua virilidade encolhida e recolhida, enquanto carregavam o peso do seu caixão. Que defunta mais pesada! “Precisava ser tão grande?”, interrogar-se-iam eles. O corpo tão cobiçado, objeto das fantasias masculinas – talvez não só –, era, finalmente, colocado no lugar que eu queria, do jeito que me apetecia. Era só um peso. Morto. Era bom imaginá-la com o pescoço roxo, algodão nas narinas, olhos fechados, corpo inerte, evacuada do imaginário erótico e das camas redondas dos motéis cheios de luzes e espelhos, que povoaram o imaginário dos que desejaram estar em companhia da loira, para tê-la posta num estreito caixão, que a instalaria numa longa noite escura sem direito a volta. Em pouco tempo, relegada ao esquecimento. Talvez assim ele, o objeto da minha paixão, conseguisse ver que eu tinha um corpo, que queria afeto físico, que não era só inteligente, séria, honesta, atributos que ele reconhecia e declarava, talvez para me compensar pelo sentimento não correspondido. Ele gostava de mim. Não estava sendo falso quando dizia que me queria como amiga por toda a sua vida. Quem não? Sou uma ótima amiga. Ele só não queria protagonizar a minha história, no papel que lhe destinei. Idiota!
Uns trinta anos se passaram. Nos distanciamos os três sem nunca perder o contacto. Às vezes, eu e ele conversávamos por telefone. Nunca falamos abertamente sobre esses sentimentos desencontrados, mas eu sempre recolho das entrelinhas um quê de arrependimento. Pode ser só imaginação minha, talvez ele continue alimentando aquele sonho não realizado. Ela casou com outro. Os dois, ele e a ex-potranca loira, também continuaram se falando. Estamos, ela, ele e eu, em diferentes estados, mas as redes sociais, que cumprem a função de aproximar as pessoas, até as mortas, também nos mantêm “amigos”. Inclusive eu e ela. Embora nos falemos muito raramente, também, graças ao mesmo veículo, somos “amigas”. Confesso que é a única pessoa assumidamente bolsonarista que eu mantenho na minha lista de amigos. Porquè? Para exercitar a minha maldade. Ignorasse eu a sua existência, não ia poder testemunhar que o tempo jogara contra ela: além de ter-se tornado uma branquela gorda, a sua escolha política era reveladora do seu mau gosto e burrice.
Minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço.
Um leitor altruísta – se é que tenho leitores – pode estar boquiaberto com essa revelação de sentimentos tão mesquinhos. Acredito que todos os temos, mas não costumamos assumi-los. Às vezes, nem para nós mesmas. A hipocrisia é muito mais aceita socialmente que a franqueza.
Bem, há modos mais sutis do que os meus assassinatos. Os católicos livram-se da sua dimensão mesquinha no confessionário. Aproveitam-se do sigilo sacramental para vomitarem o “eu pequei”; cumprem uma penitência para demonstrar arrependimento, recebem a hóstia, símbolo do corpo de Cristo, e estão curados, prontos para novas maldades. Os que creem mais na ciência que em Deus procuram um profissional, geralmente um psicólogo, que, diferentemente do confessor, não lhes promete cura e cobra caro. Sessões e mais sessões, anos patinando na lama da própria mesquinhez, a querer que o psicólogo lhe indique o caminho do livramento. Muitos acabam por desistir da análise ou da terapia, culpando o profissional por algo que só o próprio pode mudar. O profissional, por anos a fio, em tom solene e grave, esteve a devolver as declarações chorosas em forma de pergunta, não sendo sua responsabilidade se o sujeito não consegue se reconciliar consigo mesmo.
Acaba de me ocorrer um outro tipo de prática destinada ao perdão da alma. Bem, é uma lembrança da minha infância. O mundo mudou tanto nos últimos anos, que eu me sinto pré-histórica. Para muitas pessoas deve parecer inacreditável o que vou registrar. Refiro-me ao pedido de perdão de pessoas que estão prestes a morrer. Na minha infância, testemunhei uma cena dessas, protagonizada pela minha bisavó paterna. Já começo a perceber que não enveredei por um bom caminho: sem querer, vou revelar raízes pouco admiráveis. A família – católica, apostólica, romana – desejava que a velha ranzinza fosse para o céu. Era de bom tom que ela tivesse o tal descanso eterno e que seus parentes descansassem dela certos de que o céu a acolhera. Um seu inimigo foi convocado para ajudá-la a fazer essa passagem. Diante dela, aquele homem magro, alto, de cara fechada, esperava em silêncio, até que, exasperado, perguntou para o que havia sido chamado. Pois bem, não faltou energia à quase morta para dizer que fora ele a ofendê-la e que, portanto, era quem devia pedir desculpas, perdão ou coisa que o valha. Sem titubear, ela foi mandada diretamente para o inferno, pois como disse ele, era ela que estava a morrer e ele pouco se importava com o destino da sua alma. Como se pode ver, essa também não é uma tática aconselhável.
Não me pergunte onde eu me enquadro. Não me vejo pedindo perdão a Deus, nem esperando a morte para buscar compaixão de quem eu fiz questão de não me reconciliar. Posso apenas dizer que sou uma mulher analisada. Às vezes boa, outras má. Já vivi a maior parte da minha vida, mas ainda não estou me despedindo dela. Que ninguém pense que isso é um “mea culpa”. Não me sinto em pecado pelos meus sentimentos pouco nobres. Se sentimentos fossem materializados eu já teria transformado o mundo num lugar menos desigual. Esse propósito é o conteúdo da minha utopia. Portanto, não preciso estar à beira da morte para assumir pensamentos mesquinhos, tampouco preciso guardá-los a sete chaves. Para ser honesta, ao ver a última foto daquela minha adversária a quem eu matei tantas vezes, fiz uma descoberta fantástica: eu nunca quis que ela morresse, eu precisava tão somente esperar por essa determinação natural que é o envelhecer. Simplesmente, a beleza da potranca não resistiu ao tempo.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) autoriza o Governo a aprovar um regime jurídico que regula determinados aspectos da organização do tempo de trabalho dos trabalhadores móveis em actividades de transporte rodoviário e a transpor para a ordem jurídica interna várias directivas.
Votaram a favor PSD, Chega, PS, CDS-PP e JPP. Votaram contra PCP, BE e Livre.
O que é que isto significa e em que se traduz, afinal, na vida dos motoristas?
O órgão legislativo competente para legislar sobre estas matérias seria o Parlamento, só podendo estar cometida ao Governo se for, como foi, aprovada a lei de autorização legislativa a que nos referimos supra, o que, desde logo, permite a aprovação num lapso de tempo muito mais curto e sem ser objecto de discussão entre as mais diversas forças políticas.
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho
Por outro lado ainda, ao se aprovar esta lei de autorização legislativa, o que se está a conceder ao Governo é a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, no sentido de um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas, como, aliás, sucedeu.
Entre as medidas constantes do decreto-lei proposto constam as seguintes regras:
a) Artigo 20.º
Tempo de disponibilidade
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho. Refere-se a períodos não correspondentes a períodos de pausa ou de repouso, durante os quais o trabalhador móvel não é obrigado a permanecer no seu posto de trabalho, mantendo-se, no entanto, disponível para responder a eventuais solicitações no sentido de iniciar ou retomar a condução ou de efetuar outros trabalhos relacionados com a atividade de transporte rodoviário. São ainda considerados tempos de disponibilidade, nomeadamente, os períodos durante os quais o trabalhador móvel acompanha um veículo embarcado num ferry-boat ou transportado de comboio, bem como os períodos de espera nas fronteiras ou devido a restrições à circulação. Para os trabalhadores móveis que conduzem em equipa, o tempo passado ao lado do condutor ou num beliche durante a marcha;
b) Artigo 21º
A duração do trabalho semanal dos trabalhadores móveis, incluindo trabalho suplementar, não pode exceder 60 horas, nem 48 horas em média num período de quatro meses. Por instrumento de regulamentação coletiva de trabalho, o período de referência previsto no número anterior pode ser aumentado até seis meses.
c) Artigo 22º
Não é considerado trabalho nocturno o tempo de disponibilidade.
Ou seja, e dito de outra forma, os partidos que aprovaram a lei de autorização legislativa aprovaram também o conteúdo do decreto-lei que lhe estava anexo e do qual constam, entre outras medidas gravosas, as que aqui são referidas.
*A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.
Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.
O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.
No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).
O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.
Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.
Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.
É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.
É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.
Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.
Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.
O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.
O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.
Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.
Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.
Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.
Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.
A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.
Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.
Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).
Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.
Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.
É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.
Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.
Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.
A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.
Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.
A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.
The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.
E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.
Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”
Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.
“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.
“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!
O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.
Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.
É impossível não recordar 2012 e a troika.
Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”
Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).
O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.
Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.
Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.
Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!
Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.
Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho. Do que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
Há duas formas, relativamente simples, de se perceber a importância da greve geral. A primeira é, obviamente, assistir ao raro acordo entre a UGT e a CGTP. Quando até os sindicatos afectos ao PSD (TSD) se juntam à luta, é porque o ataque é grande. A outra, que também não exige um olho propriamente treinado, é ver as voltas do cata-vento Ventura que passou, em poucas semanas, de opositor a promissor sindicalista. Ainda o Frazão, lá de cima da janela da Assembleia da República, insultava os manifestantes e já o Ventura, percebendo a onda que cativava a opinião pública, se juntava nas críticas ao governo. Às vezes, muito secretamente, desejo que o Andrezito chegue a presidente deste nosso rectângulo. Seria a sentença de morte daquele partido unipessoal que carrega todas as ambições de um homem profundamente frustrado. Para não lhe chamar outra coisa, já que este é um jornal de respeito.
Leitão Amaro foi, para mim, a estrela do dia no papel de Goebbels de Tondela. Excelente na propaganda e na tentativa de despejar uma narrativa para os jornais do dia. Disse ele que o "país escolheu trabalhar" e que a adesão à greve era praticamente residual. Entretanto, as imagens de ruas e avenidas do país, atafulhadas de gente, saltavam de mural em mural. Há uma fotografia exposta no "bunker de Berlim", um museu imperdível, onde se mostra uma montagem de Goebbels transformando uma parada de uns poucos numa manifestação de milhares. Brilhante trabalho de manipulação gráfica, que convenceu uns quantos milhões, feito uns bons 50 anos antes da invenção do Paint pela Microsoft. Leitão Amaro teve apenas o azar de estarmos em 2025, na era dos telefones que fazem tudo.
Antes já tinha dito, para quem o quisesse ouvir, que o novo pacote laboral não teria impacto na função pública, uma vez que estes trabalhadores estão protegidos pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. O regime geral do código do trabalho, segundo o ministro da Presidência, é que sofreria o impacto. Esta conversa tinha dois objectivos. Desde logo, desmotivar a função pública no seu protesto. Como se as lutas laborais não se fizessem de solidariedade entre mais e menos afectados. Como se o colectivo não fosse sempre mais forte quanto maior a sua expressão. E depois, a parte menos conhecida da opinião pública, como nos explicou Rita Garcia Pereira (notícia CNN), advogada especialista em direito do trabalho, já existem muitos trabalhadores na dependência do Estado que têm contratos individuais de trabalho e, portanto, de natureza privada, directamente afectados pelo novo pacote laboral.
Um dos grandes problemas dos nossos governantes é a bolha em que vivem e a distância entre as suas vidas e a realidade dos Portugueses. A crise da habitação por exemplo, que afecta boa parte da população e resulta em despejos diários, está a ser enfrentada por um primeiro-ministro que tem 55 imóveis, uma ministra do Trabalho, professora universitária, com um património superior a 5 milhões de euros e um ministro da Presidência, o nosso Goebbels de Tondela, que investiu 1,34 milhões de euros numa casa em Lisboa e que, por acaso, recebeu uns benefícios no IMI (notícia CM). Como é que esta gente enriquece com os salários declarados? E pior: como é que podem perceber as dificuldades do trânsito se circulam em via privada e sempre livre?
Com o pacote laboral o problema é essencialmente o mesmo. Discute-se a flexibilização como uma arma para o aumento da produtividade. Defende-se o fim dos sindicatos para ter menos entraves ao progresso. Apresenta-se o trabalho temporário como um benefício da rotatividade laboral. E no fim, para que ninguém duvide, explicam-nos que este é o caminho para sermos a próxima Alemanha, Suécia, Dinamarca ou Bélgica. É a aposta total na desinformação, na tentativa de meter trabalhadores contra trabalhadores, pobres contra pobres. Na Suécia, por exemplo, onde trabalhei durante 20 anos, a taxa de sindicalização anda perto dos 70% e praticamente 1/3 da força laboral está no sector público. A carga fiscal é elevadíssima e o lucro é fortemente taxado. Que o diga o já falecido fundador do IKEA, que se mudou para a Suíça, esse bastião de produtividade com o trabalho alheio e sempre protetor das fortunas.
Em Portugal as reformas laborais são sempre, mas sempre, feitas pelo lado do trabalhador. É preciso produzir mais, oferecer horas ao patronato, aceitar o despedimento sem justa causa, adiar a vida à espera de um contrato sem termo. O que não é preciso, em momento algum, é exigir que a riqueza criada pelos trabalhadores vá menos para os accionistas e mais para os bolsos de quem trabalha. Ou que a carga fiscal absurda que afecta os Portugueses se converta em creches públicas, atendimento decente na saúde ou transportes públicos que funcionem. No fundo, tenta o Governo e toda a direita em geral convencer uma legião de pobres de que o problema são eles, que trabalham pouco e que os 40% que estão no limiar da miséria antes das transferências sociais devem trabalhar ainda mais porque há uma elite política e empresarial que precisa de mais lucro. Até porque, aqui e ali, há um BES bem sólido que não se paga sozinho ou uns arranjos entre governantes e construtoras que não se fazem sem um saco azul profundo.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes, gente com formação que fala inglês se não se importarem de receber amendoins a troco de trabalho. A novidade é que o "investimento externo" já está em Portugal. Não faltam multinacionais que descobriram o filão português e do quão longe conseguem chegar com 1000 euros para oferecer. Na minha área, neste preciso momento, Portugal é visto como uma opção a considerar se comparado com o investimento no Vietname. No Vietname, meus amigos! Foi aqui que chegámos ao fim de 40 anos na União Europeia.
Temos mais auto-estradas, muitos hotéis de charme e tascas gourmet. Mas continuamos pobres, governados por gente que resume o CV a um cartão partidário, sem um dia de trabalho no mundo real e que enriquece enquanto nos convence de que o problema somos nós.
Talvez Leitão Amaro e Montenegro tenham razão quando dizem que o país não precisa de greves. Talvez não. Pelo aspecto da coisa, o que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
O impacto da greve geral foi gigante, histórico. Portugal parou. O pacote laboral está completamente errado. O governo escondeu do seu próprio eleitorado esta reforma, que nem vinha no seu plano de acção. Apelo às centrais sindicais: qualquer mudança “cirúrgica” vai ser uma manta de retalhos, que nos vai prejudicar a todos. É preciso recomeçar do zero. Não queremos destruir o nosso presente e hipotecar o futuro dos nossos filhos. Muitas vezes não temos a noção da força que nós temos: o país pára!
A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade.

As primeiras lutas operárias trouxeram consigo os primórdios da organização. A passagem do artesanato para a condição operária não criava uma situação absolutamente nova. A organização de uniões operárias (trade unions) era uma velha tendência, presente desde 1720 na Inglaterra, com a União dos Entalhadores de Londres, destinada a obter aumentos salariais através de petições ao Parlamento. As primeiras associações permanentes de assalariados precederam em meio século o sistema manufatureiro e localizaram-se em ofícios onde o trabalho manual-artesanal predominava. O fator determinante não é a transformação técnica, mas o divórcio entre o trabalho e a propriedade dos meios de produção. Onde esse divórcio se consuma nasce o sindicato. Foi mais para defender uma situação privilegiada do que para melhorar uma má situação que se formaram os primeiros sindicatos. Com o aguçamento da luta contra os patrões, a forma e o conteúdo dos sindicatos alteraram-se.
Em 1724, os operários chapeleiros de Paris declararam greve por causa da redução dos seus salários. Criaram, para financiar essa ação, uma “caixa de greve”. A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade. Entre 1753 e 1757 produziram-se greves espontâneas em diversas regiões de Inglaterra: pedreiros e carpinteiros em Manchester, marceneiros noutras cidades. Em 1765, 100 mil marinheiros e operários do carvão declararam greve em Londres. Durante o período mais radical da Revolução Francesa floresceram as greves. As revoltas precederam a organização dos sindicatos, que demoraram a aparecer e estabilizar-se como representação unificada da classe operária. Na Inglaterra, em 1721, foi proibida a organização dos alfaiates; e em 1726, a dos marceneiros. Em França, em 1791, a lei proposta pelo deputado Le Chapelier havia proibido as organizações operárias. No seu texto, afirmava-se, com base na ilusão liberal, mas também com um sentido de classe aguçado: “Já não há classes de corporação no Estado. Não existe mais do que o interesse particular de cada indivíduo e o interesse geral. Pertence aos convénios livres, de indivíduo para indivíduo, fixar o jornal para cada operário. É incumbência do operário manter o acordo feito com o empregador.” Os temíveis (mas burgueses) jacobinos permaneceram calados. O projeto de lei de Le Chapelier foi adotado por unanimidade pela Assembleia Nacional francesa.
A tradição e o programa igualitário da Revolução Francesa foram transmitidos diretamente ao nascente movimento operário por um sobrevivente da Conspiração dos Iguais, Felipe Buonarroti, descendente do escultor italiano Michelangelo Buonarroti, que escreveu a História da Conspiração dos Iguais: o livro de Buonarroti era muito conhecido entre os operários. Pertencia à literatura popular junto com os discursos de Robespierre e os artigos de Marat. Na Inglaterra, os primórdios do movimento político operário vincularam-se ao movimento democrático radical, por direitos políticos iguais para todos. Foram surgindo novas direções políticas, inicialmente originadas nas classes abastadas. Filho de um rico comerciante, John Wilkes (1725-1797) começou a sua carreira política atacando, a partir do seu jornal, o North Briton, o rei Jorge III, transformando-se no paladino das liberdades civis fundamentais. Tornou-se líder popular em Londres, com grande apoio para o seu movimento de reforma democrática. Foi perseguido e detido diversas vezes. A 10 de maio de 1768, uma multidão de operários londrinos reuniu-se numa manifestação para exigir a sua liberdade.
Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados.
A repressão da manifestação provocou seis mortos e muitos feridos. Houve uma comoção social em Londres e nos condados vizinhos: estivadores, trabalhadores portuários, marceneiros e alfaiates declararam greve. Wilkes organizou a sua campanha eleitoral de 1774 a partir de um programa que defendia um sufrágio mais equitativo e a defesa dos direitos populares na Inglaterra, na Irlanda e na América. O movimento político radical que dirigia obteve a eleição, pese o reduzido número de eleitores (devido ao voto censitário), de doze membros no parlamento. A influência política de Wilkes durou até 1780, mas a luta por reformas continuou: a maior parte dos candidatos a políticos ingleses apresentava-se como reformadora. John Cartwright (1740-1824) publicou em 1776 a brochura Take Your Choice (Escolha!) que esboçava o programa que inspirou o movimento popular durante os 75 anos seguintes, insistindo na reforma eleitoral e no parlamento anual. A agitação operária nas cidades inglesas e britânicas percorreu todo o século XVIII. As greves não se esgotaram em si mesmas: entre 1763 e 1768 diversas categorias unificaram-se para levar petições ao rei Jorge III. Por outro lado, ganhou corpo a ideia de atacar diretamente o capital. Em 1768, os tecelões de Spitalfields levantaram-se em massa e destruíram uma grande quantidade de teares de seda. Organizaram um fundo de greve, depositando de 2 a 5 xelins por tear. Os tecelões de Spitalfields criaram uma união para pleitear perante a justiça, lançando a semente dos futuros sindicatos.
Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados. A burguesia inglesa fugiu da revolução democrática pois, em vez de uma massa popular indiferenciada, viu desenhar-se por detrás dela a ação de uma classe com a sua própria política e métodos de organização. Em janeiro de 1792, oito operários ingleses criaram a London Corresponding Society, que se organizou em grupos de trinta membros, baseada numa contribuição financeira acessível aos operários. Em finais desse ano, a sociedade contava já com três mil membros. Os seus objetivos eram o sufrágio universal, a igualdade de representação, o parlamento honesto, o fim dos abusos contra os cidadãos humildes, o fim das pensões outorgadas pelo Parlamento aos membros das classes dirigentes, a redução da jornada de trabalho, a diminuição dos impostos e a entrega das terras comunais aos camponeses. Na mesma época, o livro de Tom Paine Os Direitos do Homem defendia a Revolução Francesa e a independência americana, atacando a monarquia inglesa em favor do republicanismo. Publicado em inglês, celta e gaélico, vendeu 200 mil exemplares na Grã-Bretanha. Em 1795, os dirigentes da London Corresponding Society foram presos e a sociedade começou a decair. Mas ela foi o antecedente da primeira grande organização política operária, o cartismo. Já prevenido pelo antecedente da sociedade operária e avisado pela experiência de França, o parlamento britânico proibiu as organizações operárias, condenando-as à clandestinidade ou a uma vida curta. O governo conseguiu também impedir as tentativas de se implantar um salário mínimo. Na década de 1790, a nova condição social dos trabalhadores, unida à influência da Revolução Francesa, deu um novo estatuto à repressão dos protestos sociais e suscitou novas formas de organização operária.
Há um anjo que não fala é o anjo do silêncio observa os homens e sabe como a sua memória se aloja na devastação no pulsar do sangue nas pedras da cidade agora destruída. O anjo do silêncio espera talvez um sinal mas o céu permanece fechado e os homens
Há um anjo que não fala
é o anjo do silêncio
observa os homens
e sabe como a sua memória
se aloja na devastação
no pulsar do sangue
nas pedras da cidade
agora destruída.
O anjo do silêncio
espera talvez um sinal
mas o céu permanece fechado
e os homens caminham
ziguezagueando
entre as ruínas
salvando as crianças e os velhos
perante o longo silêncio do anjo
que os olha de través..
Maria Cantinho
Segundo o dicionário da Porto Editora, corresponde a: 1) forma de liderança que se baseia no mérito pessoal, em vez de se basear em riqueza ou estatuto social; 2) sistema social que se baseia nessa forma de liderança. EM NOVILÍNGUA: Segundo artigo de Sergio C. Fanjul no El País: “Soa
Segundo o dicionário da Porto Editora, corresponde a: 1) forma de liderança que se baseia no mérito pessoal, em vez de se basear em riqueza ou estatuto social; 2) sistema social que se baseia nessa forma de liderança.
EM NOVILÍNGUA:
Segundo artigo de Sergio C. Fanjul no El País: “Soa bem, e dizem-nos muitas vezes que vivemos numa meritocracia”. “Mas vários especialistas consultados alertam: a meritocracia não existe nas nossas sociedades e não está claro que a sua existência nos traga virtude. Nas últimas décadas o fosso entre vencedores e perdedores aumentou, gerando sociedades mais polarizadas e desiguais em rendimentos e riqueza.” A conceptualização do sucesso também mudou: “Os que chegaram ao topo acreditam que o seu sucesso é obra sua, evidência do seu mérito superior, e que os que ficam para trás merecem o seu destino”, diz o filósofo da Universidade de Harvard Michael Sandel, autor do livro A Tirania do Mérito (Presença, 2022). ASP
Dezenas ou centenas de milhares de trabalhadores, na esmagadora maioria imigrantes, trabalham de sol a sol nos campos portugueses, em condições indignas do século XIX, quanto mais do século XXI.
Já não os empregam tanto os velhos latifundiários de antes da revolução. Com a União Europeia e o comércio livre, entrou no país, principalmente nos campos do Alentejo, uma nova espécie invasora: os grandes investidores e fundos especializados em extorquir o máximo de fundos, o máximo de trabalho e o máximo de azeite e de frutos da terra do mínimo de investimento, de terra e de trabalhadores.
Alguns comandam e servem máfias que organizam um tráfico de seres humanos digno dos tempos da escravatura. Sugam a água e os recursos naturais, esgotam e destroem os solos, expulsam as populações e a cultura popular e escravizam quem os traficantes lhes trazem.
Jornal MaioCristina Morais
Jornal MaioMaria Carolina Varela
Jornal MaioCristina Morais
Jornal MaioAna Barbosa
Jornal MaioJorge Sanches da Cruz
Jornal MaioAntónio Garcia Pereira
Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado
Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado a meio da Quaresma e ser altura da Pinha, sei lá. A malta ia a todos, testosterona nos limites, embora a atração fosse maior se o conjunto, como então se dizia, tivesse fama de tocar rock imitado – não se falava, ainda, em covers. “Nights in white satin” era sempre, e por evidentes razões de roçanço, um tema desejado, mas um gajo também podia dar nas vistas e ser admirado pelos seus movimentos arriscados, ao dançar em grupo o “Smoke on the water”.
Seja como for. Certo é que a maior parte das vezes, estando embora a menina dos nossos olhos na sala, a gente não tinha dinheiro para o bilhete. E lá ficávamos, então, pelo bar, esperando a hora de podermos entrar à borla. E se, entretanto, ocorria o momento das meninas ao bufete – alguém se lembra disto? – ali continuávamos, esperando vê-la, mesmo que trazida pela simpatia mais endinheirada de um rival qualquer. Cervejola abaixo, charrito às escondidas acima, o baile acabaria por ser nosso.
Os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada.
Na sala, então. Um vazio enorme entre cada dança. Era preciso atravessá-lo, gigantesco vazio sob os olhares de todos, e ir pedir, se conhecida e desejada fosse, “Danças comigo?” ou, em casos de apuro, arriscando “A menina dança, tem par ou descansa?” O resultado desse momento dependia da verdadeira intenção: ou se ia por desejo sincero, ou arriscava-se por desafio do resto da malta. E era um desatino, em qualquer dos casos, quando se levava com uma tampa – alguém se lembra deste outro isto? Bolas! Encolher as orelhas e voltar a atravessar o tal vazio titã para, lá no fundo, ser recebido pelas gargalhadas de troça do pessoal. Uma nega não tinha piada nenhuma. Nunca teve, sobretudo quando o conjunto se preparava para tocar “Angie”, dos Rolling Stones.
No resto, tirando as valsas ou os tangos, mais estes, que infelizmente nunca soube dançar, os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada, e até no depois, quando livre de paus-de-cabeleira e amigos éramos só nós, eu e ela.
Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela
Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela uma égua, acho que não. Era um cavalheiro. Tinha idade para ser pai dela. Ela, por sua vez, filha sem pai, supria naquela relação a carência paterna. Certo mesmo é que ele, como tantos outros homens, novos e velhos, a desejava e era o mais fiel dos seus admiradores. Vivia a cercá-la de atenções, não perdia oportunidade de demonstrar o quanto podia ser útil, o companheiro agradável, resolutivo e apaixonado que ela podia ter. Ela sabia do seu poder e diversas vezes esfregou na cara dele um parceiro mais novo, bem mais novo, viril, um garanhão, representação incontestável da testosterona que ele já não exibia. Mas bastava ela estalar dois dedos, lá estava ele aos seus pés. Se ela o mandasse matar alguém, ele iria correndo cumprir a ordem. Só depois perguntaria porquê.
Eu não conseguia afastá-la do meu convívio, embora fosse justo que o fizesse. Mas a minha porção civilizada e orgulhosa, com esforço me conduzia a tratá-la com simpatia. Falsa, com certeza. Aquela cabra dizia ser minha amiga, eu respirava fundo e sorria, quando minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço. Imaginava o seu cortejo fúnebre, os garanhões com a sua virilidade encolhida e recolhida, enquanto carregavam o peso do seu caixão. Que defunta mais pesada! “Precisava ser tão grande?”, interrogar-se-iam eles. O corpo tão cobiçado, objeto das fantasias masculinas – talvez não só –, era, finalmente, colocado no lugar que eu queria, do jeito que me apetecia. Era só um peso. Morto. Era bom imaginá-la com o pescoço roxo, algodão nas narinas, olhos fechados, corpo inerte, evacuada do imaginário erótico e das camas redondas dos motéis cheios de luzes e espelhos, que povoaram o imaginário dos que desejaram estar em companhia da loira, para tê-la posta num estreito caixão, que a instalaria numa longa noite escura sem direito a volta. Em pouco tempo, relegada ao esquecimento. Talvez assim ele, o objeto da minha paixão, conseguisse ver que eu tinha um corpo, que queria afeto físico, que não era só inteligente, séria, honesta, atributos que ele reconhecia e declarava, talvez para me compensar pelo sentimento não correspondido. Ele gostava de mim. Não estava sendo falso quando dizia que me queria como amiga por toda a sua vida. Quem não? Sou uma ótima amiga. Ele só não queria protagonizar a minha história, no papel que lhe destinei. Idiota!
Uns trinta anos se passaram. Nos distanciamos os três sem nunca perder o contacto. Às vezes, eu e ele conversávamos por telefone. Nunca falamos abertamente sobre esses sentimentos desencontrados, mas eu sempre recolho das entrelinhas um quê de arrependimento. Pode ser só imaginação minha, talvez ele continue alimentando aquele sonho não realizado. Ela casou com outro. Os dois, ele e a ex-potranca loira, também continuaram se falando. Estamos, ela, ele e eu, em diferentes estados, mas as redes sociais, que cumprem a função de aproximar as pessoas, até as mortas, também nos mantêm “amigos”. Inclusive eu e ela. Embora nos falemos muito raramente, também, graças ao mesmo veículo, somos “amigas”. Confesso que é a única pessoa assumidamente bolsonarista que eu mantenho na minha lista de amigos. Porquè? Para exercitar a minha maldade. Ignorasse eu a sua existência, não ia poder testemunhar que o tempo jogara contra ela: além de ter-se tornado uma branquela gorda, a sua escolha política era reveladora do seu mau gosto e burrice.
Minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço.
Um leitor altruísta – se é que tenho leitores – pode estar boquiaberto com essa revelação de sentimentos tão mesquinhos. Acredito que todos os temos, mas não costumamos assumi-los. Às vezes, nem para nós mesmas. A hipocrisia é muito mais aceita socialmente que a franqueza.
Bem, há modos mais sutis do que os meus assassinatos. Os católicos livram-se da sua dimensão mesquinha no confessionário. Aproveitam-se do sigilo sacramental para vomitarem o “eu pequei”; cumprem uma penitência para demonstrar arrependimento, recebem a hóstia, símbolo do corpo de Cristo, e estão curados, prontos para novas maldades. Os que creem mais na ciência que em Deus procuram um profissional, geralmente um psicólogo, que, diferentemente do confessor, não lhes promete cura e cobra caro. Sessões e mais sessões, anos patinando na lama da própria mesquinhez, a querer que o psicólogo lhe indique o caminho do livramento. Muitos acabam por desistir da análise ou da terapia, culpando o profissional por algo que só o próprio pode mudar. O profissional, por anos a fio, em tom solene e grave, esteve a devolver as declarações chorosas em forma de pergunta, não sendo sua responsabilidade se o sujeito não consegue se reconciliar consigo mesmo.
Acaba de me ocorrer um outro tipo de prática destinada ao perdão da alma. Bem, é uma lembrança da minha infância. O mundo mudou tanto nos últimos anos, que eu me sinto pré-histórica. Para muitas pessoas deve parecer inacreditável o que vou registrar. Refiro-me ao pedido de perdão de pessoas que estão prestes a morrer. Na minha infância, testemunhei uma cena dessas, protagonizada pela minha bisavó paterna. Já começo a perceber que não enveredei por um bom caminho: sem querer, vou revelar raízes pouco admiráveis. A família – católica, apostólica, romana – desejava que a velha ranzinza fosse para o céu. Era de bom tom que ela tivesse o tal descanso eterno e que seus parentes descansassem dela certos de que o céu a acolhera. Um seu inimigo foi convocado para ajudá-la a fazer essa passagem. Diante dela, aquele homem magro, alto, de cara fechada, esperava em silêncio, até que, exasperado, perguntou para o que havia sido chamado. Pois bem, não faltou energia à quase morta para dizer que fora ele a ofendê-la e que, portanto, era quem devia pedir desculpas, perdão ou coisa que o valha. Sem titubear, ela foi mandada diretamente para o inferno, pois como disse ele, era ela que estava a morrer e ele pouco se importava com o destino da sua alma. Como se pode ver, essa também não é uma tática aconselhável.
Não me pergunte onde eu me enquadro. Não me vejo pedindo perdão a Deus, nem esperando a morte para buscar compaixão de quem eu fiz questão de não me reconciliar. Posso apenas dizer que sou uma mulher analisada. Às vezes boa, outras má. Já vivi a maior parte da minha vida, mas ainda não estou me despedindo dela. Que ninguém pense que isso é um “mea culpa”. Não me sinto em pecado pelos meus sentimentos pouco nobres. Se sentimentos fossem materializados eu já teria transformado o mundo num lugar menos desigual. Esse propósito é o conteúdo da minha utopia. Portanto, não preciso estar à beira da morte para assumir pensamentos mesquinhos, tampouco preciso guardá-los a sete chaves. Para ser honesta, ao ver a última foto daquela minha adversária a quem eu matei tantas vezes, fiz uma descoberta fantástica: eu nunca quis que ela morresse, eu precisava tão somente esperar por essa determinação natural que é o envelhecer. Simplesmente, a beleza da potranca não resistiu ao tempo.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) autoriza o Governo a aprovar um regime jurídico que regula determinados aspectos da organização do tempo de trabalho dos trabalhadores móveis em actividades de transporte rodoviário e a transpor para a ordem jurídica interna várias directivas.
Votaram a favor PSD, Chega, PS, CDS-PP e JPP. Votaram contra PCP, BE e Livre.
O que é que isto significa e em que se traduz, afinal, na vida dos motoristas?
O órgão legislativo competente para legislar sobre estas matérias seria o Parlamento, só podendo estar cometida ao Governo se for, como foi, aprovada a lei de autorização legislativa a que nos referimos supra, o que, desde logo, permite a aprovação num lapso de tempo muito mais curto e sem ser objecto de discussão entre as mais diversas forças políticas.
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho
Por outro lado ainda, ao se aprovar esta lei de autorização legislativa, o que se está a conceder ao Governo é a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, no sentido de um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas, como, aliás, sucedeu.
Entre as medidas constantes do decreto-lei proposto constam as seguintes regras:
a) Artigo 20.º
Tempo de disponibilidade
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho. Refere-se a períodos não correspondentes a períodos de pausa ou de repouso, durante os quais o trabalhador móvel não é obrigado a permanecer no seu posto de trabalho, mantendo-se, no entanto, disponível para responder a eventuais solicitações no sentido de iniciar ou retomar a condução ou de efetuar outros trabalhos relacionados com a atividade de transporte rodoviário. São ainda considerados tempos de disponibilidade, nomeadamente, os períodos durante os quais o trabalhador móvel acompanha um veículo embarcado num ferry-boat ou transportado de comboio, bem como os períodos de espera nas fronteiras ou devido a restrições à circulação. Para os trabalhadores móveis que conduzem em equipa, o tempo passado ao lado do condutor ou num beliche durante a marcha;
b) Artigo 21º
A duração do trabalho semanal dos trabalhadores móveis, incluindo trabalho suplementar, não pode exceder 60 horas, nem 48 horas em média num período de quatro meses. Por instrumento de regulamentação coletiva de trabalho, o período de referência previsto no número anterior pode ser aumentado até seis meses.
c) Artigo 22º
Não é considerado trabalho nocturno o tempo de disponibilidade.
Ou seja, e dito de outra forma, os partidos que aprovaram a lei de autorização legislativa aprovaram também o conteúdo do decreto-lei que lhe estava anexo e do qual constam, entre outras medidas gravosas, as que aqui são referidas.
*A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.
Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.
O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.
No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).
O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.
Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.
Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.
É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.
É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.
Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.
Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.
O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.
O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.
Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.
Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.
Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.
Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.
A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.
Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.
Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).
Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.
Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.
É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.
Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.
Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.
A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.
Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.
A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.
The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.
E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.
Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”
Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.
“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.
“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!
O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.
Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.
É impossível não recordar 2012 e a troika.
Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”
Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).
O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.
Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.
Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.
Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!
Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.
Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho. Do que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
Há duas formas, relativamente simples, de se perceber a importância da greve geral. A primeira é, obviamente, assistir ao raro acordo entre a UGT e a CGTP. Quando até os sindicatos afectos ao PSD (TSD) se juntam à luta, é porque o ataque é grande. A outra, que também não exige um olho propriamente treinado, é ver as voltas do cata-vento Ventura que passou, em poucas semanas, de opositor a promissor sindicalista. Ainda o Frazão, lá de cima da janela da Assembleia da República, insultava os manifestantes e já o Ventura, percebendo a onda que cativava a opinião pública, se juntava nas críticas ao governo. Às vezes, muito secretamente, desejo que o Andrezito chegue a presidente deste nosso rectângulo. Seria a sentença de morte daquele partido unipessoal que carrega todas as ambições de um homem profundamente frustrado. Para não lhe chamar outra coisa, já que este é um jornal de respeito.
Leitão Amaro foi, para mim, a estrela do dia no papel de Goebbels de Tondela. Excelente na propaganda e na tentativa de despejar uma narrativa para os jornais do dia. Disse ele que o "país escolheu trabalhar" e que a adesão à greve era praticamente residual. Entretanto, as imagens de ruas e avenidas do país, atafulhadas de gente, saltavam de mural em mural. Há uma fotografia exposta no "bunker de Berlim", um museu imperdível, onde se mostra uma montagem de Goebbels transformando uma parada de uns poucos numa manifestação de milhares. Brilhante trabalho de manipulação gráfica, que convenceu uns quantos milhões, feito uns bons 50 anos antes da invenção do Paint pela Microsoft. Leitão Amaro teve apenas o azar de estarmos em 2025, na era dos telefones que fazem tudo.
Antes já tinha dito, para quem o quisesse ouvir, que o novo pacote laboral não teria impacto na função pública, uma vez que estes trabalhadores estão protegidos pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. O regime geral do código do trabalho, segundo o ministro da Presidência, é que sofreria o impacto. Esta conversa tinha dois objectivos. Desde logo, desmotivar a função pública no seu protesto. Como se as lutas laborais não se fizessem de solidariedade entre mais e menos afectados. Como se o colectivo não fosse sempre mais forte quanto maior a sua expressão. E depois, a parte menos conhecida da opinião pública, como nos explicou Rita Garcia Pereira (notícia CNN), advogada especialista em direito do trabalho, já existem muitos trabalhadores na dependência do Estado que têm contratos individuais de trabalho e, portanto, de natureza privada, directamente afectados pelo novo pacote laboral.
Um dos grandes problemas dos nossos governantes é a bolha em que vivem e a distância entre as suas vidas e a realidade dos Portugueses. A crise da habitação por exemplo, que afecta boa parte da população e resulta em despejos diários, está a ser enfrentada por um primeiro-ministro que tem 55 imóveis, uma ministra do Trabalho, professora universitária, com um património superior a 5 milhões de euros e um ministro da Presidência, o nosso Goebbels de Tondela, que investiu 1,34 milhões de euros numa casa em Lisboa e que, por acaso, recebeu uns benefícios no IMI (notícia CM). Como é que esta gente enriquece com os salários declarados? E pior: como é que podem perceber as dificuldades do trânsito se circulam em via privada e sempre livre?
Com o pacote laboral o problema é essencialmente o mesmo. Discute-se a flexibilização como uma arma para o aumento da produtividade. Defende-se o fim dos sindicatos para ter menos entraves ao progresso. Apresenta-se o trabalho temporário como um benefício da rotatividade laboral. E no fim, para que ninguém duvide, explicam-nos que este é o caminho para sermos a próxima Alemanha, Suécia, Dinamarca ou Bélgica. É a aposta total na desinformação, na tentativa de meter trabalhadores contra trabalhadores, pobres contra pobres. Na Suécia, por exemplo, onde trabalhei durante 20 anos, a taxa de sindicalização anda perto dos 70% e praticamente 1/3 da força laboral está no sector público. A carga fiscal é elevadíssima e o lucro é fortemente taxado. Que o diga o já falecido fundador do IKEA, que se mudou para a Suíça, esse bastião de produtividade com o trabalho alheio e sempre protetor das fortunas.
Em Portugal as reformas laborais são sempre, mas sempre, feitas pelo lado do trabalhador. É preciso produzir mais, oferecer horas ao patronato, aceitar o despedimento sem justa causa, adiar a vida à espera de um contrato sem termo. O que não é preciso, em momento algum, é exigir que a riqueza criada pelos trabalhadores vá menos para os accionistas e mais para os bolsos de quem trabalha. Ou que a carga fiscal absurda que afecta os Portugueses se converta em creches públicas, atendimento decente na saúde ou transportes públicos que funcionem. No fundo, tenta o Governo e toda a direita em geral convencer uma legião de pobres de que o problema são eles, que trabalham pouco e que os 40% que estão no limiar da miséria antes das transferências sociais devem trabalhar ainda mais porque há uma elite política e empresarial que precisa de mais lucro. Até porque, aqui e ali, há um BES bem sólido que não se paga sozinho ou uns arranjos entre governantes e construtoras que não se fazem sem um saco azul profundo.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes, gente com formação que fala inglês se não se importarem de receber amendoins a troco de trabalho. A novidade é que o "investimento externo" já está em Portugal. Não faltam multinacionais que descobriram o filão português e do quão longe conseguem chegar com 1000 euros para oferecer. Na minha área, neste preciso momento, Portugal é visto como uma opção a considerar se comparado com o investimento no Vietname. No Vietname, meus amigos! Foi aqui que chegámos ao fim de 40 anos na União Europeia.
Temos mais auto-estradas, muitos hotéis de charme e tascas gourmet. Mas continuamos pobres, governados por gente que resume o CV a um cartão partidário, sem um dia de trabalho no mundo real e que enriquece enquanto nos convence de que o problema somos nós.
Talvez Leitão Amaro e Montenegro tenham razão quando dizem que o país não precisa de greves. Talvez não. Pelo aspecto da coisa, o que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Ricardo Penarróias, presidente do SNPVAC sobre a greve geral de 11 de Dezembro
O impacto da greve geral foi gigante, histórico. Portugal parou. O pacote laboral está completamente errado. O governo escondeu do seu próprio eleitorado esta reforma, que nem vinha no seu plano de acção. Apelo às centrais sindicais: qualquer mudança “cirúrgica” vai ser uma manta de retalhos, que nos vai prejudicar a todos. É preciso recomeçar do zero. Não queremos destruir o nosso presente e hipotecar o futuro dos nossos filhos. Muitas vezes não temos a noção da força que nós temos: o país pára!
A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade.
A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade.

As primeiras lutas operárias trouxeram consigo os primórdios da organização. A passagem do artesanato para a condição operária não criava uma situação absolutamente nova. A organização de uniões operárias (trade unions) era uma velha tendência, presente desde 1720 na Inglaterra, com a União dos Entalhadores de Londres, destinada a obter aumentos salariais através de petições ao Parlamento. As primeiras associações permanentes de assalariados precederam em meio século o sistema manufatureiro e localizaram-se em ofícios onde o trabalho manual-artesanal predominava. O fator determinante não é a transformação técnica, mas o divórcio entre o trabalho e a propriedade dos meios de produção. Onde esse divórcio se consuma nasce o sindicato. Foi mais para defender uma situação privilegiada do que para melhorar uma má situação que se formaram os primeiros sindicatos. Com o aguçamento da luta contra os patrões, a forma e o conteúdo dos sindicatos alteraram-se.
Em 1724, os operários chapeleiros de Paris declararam greve por causa da redução dos seus salários. Criaram, para financiar essa ação, uma “caixa de greve”. A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade. Entre 1753 e 1757 produziram-se greves espontâneas em diversas regiões de Inglaterra: pedreiros e carpinteiros em Manchester, marceneiros noutras cidades. Em 1765, 100 mil marinheiros e operários do carvão declararam greve em Londres. Durante o período mais radical da Revolução Francesa floresceram as greves. As revoltas precederam a organização dos sindicatos, que demoraram a aparecer e estabilizar-se como representação unificada da classe operária. Na Inglaterra, em 1721, foi proibida a organização dos alfaiates; e em 1726, a dos marceneiros. Em França, em 1791, a lei proposta pelo deputado Le Chapelier havia proibido as organizações operárias. No seu texto, afirmava-se, com base na ilusão liberal, mas também com um sentido de classe aguçado: “Já não há classes de corporação no Estado. Não existe mais do que o interesse particular de cada indivíduo e o interesse geral. Pertence aos convénios livres, de indivíduo para indivíduo, fixar o jornal para cada operário. É incumbência do operário manter o acordo feito com o empregador.” Os temíveis (mas burgueses) jacobinos permaneceram calados. O projeto de lei de Le Chapelier foi adotado por unanimidade pela Assembleia Nacional francesa.
A tradição e o programa igualitário da Revolução Francesa foram transmitidos diretamente ao nascente movimento operário por um sobrevivente da Conspiração dos Iguais, Felipe Buonarroti, descendente do escultor italiano Michelangelo Buonarroti, que escreveu a História da Conspiração dos Iguais: o livro de Buonarroti era muito conhecido entre os operários. Pertencia à literatura popular junto com os discursos de Robespierre e os artigos de Marat. Na Inglaterra, os primórdios do movimento político operário vincularam-se ao movimento democrático radical, por direitos políticos iguais para todos. Foram surgindo novas direções políticas, inicialmente originadas nas classes abastadas. Filho de um rico comerciante, John Wilkes (1725-1797) começou a sua carreira política atacando, a partir do seu jornal, o North Briton, o rei Jorge III, transformando-se no paladino das liberdades civis fundamentais. Tornou-se líder popular em Londres, com grande apoio para o seu movimento de reforma democrática. Foi perseguido e detido diversas vezes. A 10 de maio de 1768, uma multidão de operários londrinos reuniu-se numa manifestação para exigir a sua liberdade.
Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados.
A repressão da manifestação provocou seis mortos e muitos feridos. Houve uma comoção social em Londres e nos condados vizinhos: estivadores, trabalhadores portuários, marceneiros e alfaiates declararam greve. Wilkes organizou a sua campanha eleitoral de 1774 a partir de um programa que defendia um sufrágio mais equitativo e a defesa dos direitos populares na Inglaterra, na Irlanda e na América. O movimento político radical que dirigia obteve a eleição, pese o reduzido número de eleitores (devido ao voto censitário), de doze membros no parlamento. A influência política de Wilkes durou até 1780, mas a luta por reformas continuou: a maior parte dos candidatos a políticos ingleses apresentava-se como reformadora. John Cartwright (1740-1824) publicou em 1776 a brochura Take Your Choice (Escolha!) que esboçava o programa que inspirou o movimento popular durante os 75 anos seguintes, insistindo na reforma eleitoral e no parlamento anual. A agitação operária nas cidades inglesas e britânicas percorreu todo o século XVIII. As greves não se esgotaram em si mesmas: entre 1763 e 1768 diversas categorias unificaram-se para levar petições ao rei Jorge III. Por outro lado, ganhou corpo a ideia de atacar diretamente o capital. Em 1768, os tecelões de Spitalfields levantaram-se em massa e destruíram uma grande quantidade de teares de seda. Organizaram um fundo de greve, depositando de 2 a 5 xelins por tear. Os tecelões de Spitalfields criaram uma união para pleitear perante a justiça, lançando a semente dos futuros sindicatos.
Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados. A burguesia inglesa fugiu da revolução democrática pois, em vez de uma massa popular indiferenciada, viu desenhar-se por detrás dela a ação de uma classe com a sua própria política e métodos de organização. Em janeiro de 1792, oito operários ingleses criaram a London Corresponding Society, que se organizou em grupos de trinta membros, baseada numa contribuição financeira acessível aos operários. Em finais desse ano, a sociedade contava já com três mil membros. Os seus objetivos eram o sufrágio universal, a igualdade de representação, o parlamento honesto, o fim dos abusos contra os cidadãos humildes, o fim das pensões outorgadas pelo Parlamento aos membros das classes dirigentes, a redução da jornada de trabalho, a diminuição dos impostos e a entrega das terras comunais aos camponeses. Na mesma época, o livro de Tom Paine Os Direitos do Homem defendia a Revolução Francesa e a independência americana, atacando a monarquia inglesa em favor do republicanismo. Publicado em inglês, celta e gaélico, vendeu 200 mil exemplares na Grã-Bretanha. Em 1795, os dirigentes da London Corresponding Society foram presos e a sociedade começou a decair. Mas ela foi o antecedente da primeira grande organização política operária, o cartismo. Já prevenido pelo antecedente da sociedade operária e avisado pela experiência de França, o parlamento britânico proibiu as organizações operárias, condenando-as à clandestinidade ou a uma vida curta. O governo conseguiu também impedir as tentativas de se implantar um salário mínimo. Na década de 1790, a nova condição social dos trabalhadores, unida à influência da Revolução Francesa, deu um novo estatuto à repressão dos protestos sociais e suscitou novas formas de organização operária.
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