Com o apoio do Pedro Manda-Chuva, conseguiram que umas herdades de sequeiro passassem a ter água para regar e que outras que já regavam ilegalmente fossem abençoadas pela boa vontade do Estado, que fez de tudo para que o Zé do Paquete passasse a Zé da Amêndoa e El Pedrito Azeiteiro, homem dos azeite
Com o apoio do Pedro Manda-Chuva, conseguiram que umas herdades de sequeiro passassem a ter água para regar e que outras que já regavam ilegalmente fossem abençoadas pela boa vontade do Estado, que fez de tudo para que o Zé do Paquete passasse a Zé da Amêndoa e El Pedrito Azeiteiro, homem dos azeites espanhóis, entrasse também na aventura da amêndoa alentejana com patente americana. Quem diria que, volvidos 2000 anos do nascimento de Jesus, estaríamos a assistir às práticas esclavagistas romanas, agora em versão 2.0?
A cultura da amêndoa existe há muito em Portugal, nas terras onde a amendoeira, que é uma árvore exigente, gosta de estar: por exemplo, no Algarve. Encontra por lá o solo calcário de que precisa, a água que fica armazenada nas terras vermelhas e o sol, o sol algarvio que atrai tantos turistas ao Sul do país. O clima é amigo da amendoeira, e a proximidade do mar garante a humidade suficiente para que não existam grandes amplitudes térmicas que a prejudiquem.
Outras regiões do mundo já tiveram estas características. Por exemplo, a Califórnia. Porém, a economia extrativista americana deixou os terrenos sem água, secou os aquíferos e impermeabilizou os solos. A produção de amêndoa americana caiu a pique. Foi por esta altura, quando a seca mais fustigou os amendoais americanos, que os empreendedores Zé do Paquete e Pedrito Azeiteiro se juntaram e foram de excursão com outros agronegociantes até à Califórnia aprender a fazer amêndoa doce. Cá não havia know-how, diziam eles. E como é preciso água, muita água, para regar as amendoeiras no Alentejo, a eles se juntou o Pedro Manda-Chuva, que não tinha nenhum contrato de concessão com o São Pedro lá de cima, mas tinha o poder de conseguir regar terras onde fosse preciso, no Alentejo. Era só pedir-lhe.
A visita de estudo, como todas as visitas de estudo, foi um enorme sucesso. Trouxeram a receita americana e, quando regressaram, deitaram mãos à obra.
Primeiro, tinham de arranjar terreno para as suas amendoeiras americanas. Falaram com quatro ou cinco donos de terras, entre eles o Manoel d’Évora, bem casado com uma grande proprietária e com a Fundação dos Anjinhos, que cuidava de vasto património fundiário com muito amor e carinho, pois era sua obrigação ajudar os mais desfavorecidos.
Foram bem-sucedidos. Com o apoio do Pedro Manda-Chuva, conseguiram que umas herdades de sequeiro passassem a ter água para regar e que outras que já regavam ilegalmente fossem abençoadas pela boa vontade do Estado, que fez de tudo para que o Zé do Paquete passasse a Zé da Amêndoa e El Pedrito Azeiteiro, homem dos azeites espanhóis, entrasse também na aventura da amêndoa alentejana com patente americana. O negócio da terra deu-se com vantagens para todos. O Manoel arrendou uns milhares de hectares que, sem água, valiam 100 euros cada, mas, com a água do grande lago que circula pelas canalizações, passaram a valer 1000 euros. A Fundação dos Anjinhos fez o mesmo: com o encaixe dos arrendamentos podia ajudar muitos mais pobrezinhos. Isto foi um negócio win-win para os nossos empreendedores; o dinheiro é americano, não é deles, a receita para as amêndoas também não; os donos da terra viram-se de repente com uma pipa de massa no bolso sem saber ler nem escrever, nem gastar um cêntimo, porque o dinheiro foi todo investido pelo Estado, que gasta milhões a dotar com água terrenos de privados por este Alentejo fora.
Depois veio o trabalho duro. Era preciso arranjar quem o fizesse, de preferência sem gastar muito dinheiro, porque é preciso poupar na mão-de-obra, para que o lucro cresça ainda mais. Compraram-se carrinhas e mais carrinhas 4x4, muito icónicas, brancas com faixa roxa e marca a remeter para a páscoa eterna, tal a doçura. Contrataram-se capatazes e feitores, uns com caparro anabolizado, outros na linha dos agrobetos, sapato de vela, camisa azul ou branca e depilados no peito.
Os solos, outrora terra fértil, foram destruídos com cal viva (as amendoeiras não gostam de solos ácidos). A flora existente desapareceu por completo, e aplicaram-se doses inimagináveis de herbicidas e pesticidas. Tudo vale para produzir amêndoas doces, docinhas, com casca mole e tudo. Amendoais regados com água a rodos do grande lago.
As icónicas carrinhas passaram a circular por todo o lado, num vaivém desenfreado. Ai de quem pare na berma da estrada a fotografar um pardal! É ameaçado e posto a andar, que aquilo ali não se pode fotografar. Mas porquê, se é um bocadinho do sonho americano à moda alentejana?
Não é um sonho, é um pesadelo. Para lá de toda a espécie de crimes ambientais e financeiros, está gente que não é tida como gente, que, traficada pelos Zés desta vida, vive e trabalha em condições desumanas, não entra sequer nas estatísticas, porque, para todos, para o Estado, eles não existem: são mercadoria comercializada pela calada.
Quem diria que, volvidos 2000 anos do nascimento de Jesus, estaríamos a assistir às práticas esclavagistas romanas, agora em versão 2.0? A terra é a mesma, e nós somos cúmplices disto tudo.
A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os ferroviários espanhóis, que vivem momentos de profunda dor e angústia.
Perante esta tragédia, o SFRCI expressa a sua solidariedade para com os trabalhadores ferroviários espanhóis, reconhecendo o impacto humano e profissional de acontecimentos desta natureza numa classe que diariamente assume responsabilidades fundamentais na segurança e no transporte de passageiros.
As referências à eventual falha dos sistemas de segurança e à insuficiência de meios redundantes de protecção, capazes de assegurar a operação em condições de segurança quando os sistemas digitais falham, reforçam a necessidade de uma investigação rigorosa e independente, que permita apurar as causas do acidente e retirar todas as conclusões necessárias à prevenção de futuras tragédias.
A segurança ferroviária tem de ser uma prioridade absoluta e inegociável. A tecnologia é fundamental, mas não pode constituir a única barreira de protecção. É indispensável garantir sistemas de segurança fiáveis, mecanismos redundantes de recurso, manutenção adequada, investimento contínuo nas infraestruturas e condições de trabalho que permitam aos profissionais desempenhar as suas funções com segurança.
Nenhuma consideração económica ou operacional pode sobrepor-se à vida humana. Um sistema ferroviário verdadeiramente seguro exige prevenção, investimento, responsabilidade e respeito por todos os trabalhadores e passageiros.
Neste momento de dor, a Direcção do SFRCI associa-se ao luto dos ferroviários espanhóis e de todo o sector ferroviário, reiterando a sua solidariedade para com as famílias enlutadas e desejando uma rápida e plena recuperação a todos os feridos.
Às vítimas mortais, a nossa homenagem. Às famílias, as nossas sentidas condolências. Aos feridos, os votos de rápidas melhoras. Aos ferroviários espanhóis, a nossa solidariedade fraterna.
A tragédia ferroviária de 28 de outubro, em Urda, Toledo, exige respostas que não se compadecem com a simples alegação de erro humano. Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.
As primeiras notícias atiram imediatamente o foco para quem, alegadamente, tomou uma decisão errada. Mas identificar um eventual erro individual não explica a avaria inicial, a organização do trabalho, nem por que razão as restantes barreiras de segurança não impediram o desastre.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano. Quando ocorre uma avaria, essas exigências multiplicam-se precisamente quando cada decisão requer maior cuidado.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano.
Teria uma equipa reforçada, com funções claras de apoio e verificação, permitido detetar o perigo a tempo? A investigação deve responder. Não basta contar pessoas numa sala. Importa perceber que apoio estava disponível e como funcionou.
A redundância na segurança também se faz com trabalhadores.É necessário prever o erro e garantir meios para o detetar e corrigir, antes de provocar consequências irreversíveis.
José Luis Villa, antigo diretor-geral da Renfe, questionou no El Mundo a explicação centrada no indivíduo, apontando responsabilidades de gestão e problemas de coordenação. A sua avaliação não substitui a investigação, mas lembra que as decisões de quem organiza e dirige também devem ser escrutinadas.
Portugal precisa de ter esta discussão perante a perspetiva de mais empresas de passageiros na rede. Pergunto: mais operadores e circulações serão acompanhados por investimento na infraestrutura, manutenção, contratação e coordenação? Se aumentarem as exigências sem aumentarem os meios, não estaremos a criar condições para um risco acrescido?
Esta discussão também exige olhar para as prioridades do investimento. A modernização ferroviária deve melhorar as deslocações quotidianas, ligar populações e garantir alternativas de transporte. Os comboios suburbanos, regionais e serviços do interior precisam de investimento continuado, tal como as oficinas e os profissionais que asseguram o seu funcionamento. A alta velocidade não dispensa uma rede de proximidade fiável.
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O valor de um serviço público não se mede apenas pela receita dos bilhetes. Mede-se também pelas populações que serve, pela coesão territorial e pela segurança que oferece. E qualquer modelo de exploração deve ser avaliado por esses critérios.
Entretanto, os maquinistas espanhóis já tinham uma greve convocada para 29 de outubro. Exigiam melhorias de segurança, comunicações de emergência, contratação e cumprimento das pausas. Não sabemos se essas medidas teriam evitado esta tragédia. E se tivessem? Sabemos que os trabalhadores já reclamavam respostas e queriam ser ouvidos. E se tivessem sido?
Quando uma greve é apresentada apenas pelos transtornos que provoca, fica por explicar aquilo que os trabalhadores procuram proteger. Defender quem trabalha na ferrovia é também defender quem viaja. A segurança exige investimento, organização e trabalhadores em número suficiente para a garantir.
O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança públicas, mas a repressão contra quem luta por direitos. São um corpo dos empresários e do Estado, foi assim em 1838, na Maria da Fonte, na República e no Estado Novo, é assim hoje no Rossio e em Covas de Barroso.