Sangue, suor e lágrimas do trabalho escravo: eis do que é feita a agricultura intensiva das azeitonas, das nozes e das amêndoas
Quem são, afinal, os donos das herdades que exploram o trabalho escravo nos campos do Alentejo? Neste artigo de António Garcia Pereira são designados com nome e apelido.
Quem são, afinal, os reais beneficiários do trabalho escravo nos campos do Alentejo? Quem são e a que título os donos das herdades? Quem contrata, quem vigia e quem explora os trabalhadores imigrantes? Leiam aqui o artigo de Antonio Garcia Pereira.
Fomos há dias confrontados com a notícia da detenção, para além de um certo número de civis, de dez guardas da GNR e de um chefe da PSP, por, em troca de 200 euros durante a semana e de 400 ao fim-de-semana, inclusive nas horas de serviço e quando estavam fardados e em viaturas policiais, vigiarem, ameaçarem, insultarem, até agredirem, trabalhadores imigrantes, sobretudo timorenses, indianos e do Bangladesh, escravizados em explorações agrícolas intensivas da zona de Beja (designadamente em Cabeça Gorda) e a receber, depois de os seus “patrões” lhes ficarem com o resto a título de habitação e transporte, cerca de 80 euros ou menos por mês.
Conforme foi igualmente noticiado, este grupo de guardas seria chefiado por um tenente da GNR, comandante do Destacamento de Intervenção (a “tropa de choque”) da GNR e por um chefe da PSP, de baixa há 10 meses. Contava ainda com a participação dum sargento da GNR, que vive com uma procuradora da República, que foi até há pouco tempo comandante de um posto no Alentejo, entretanto transferido para o Norte do país, tendo as suas casas, em Castro Verde e em Gondomar, sido objecto de buscas. Como mais de quarenta outros locais (designadamente em Baleizão, Beringel, Santa Clara de Loredo e Penedo Gordo), entre os quais o Café Sol Nascente, em Cabeça Gorda, e também um antigo lar, ambos usados para “depósito”, em condições absolutamente infra-humanas, de dezenas e dezenas de imigrantes, pagando cada um exorbitâncias como a de 100 euros mensais por cada miserável cama.
Logo depois, surgiu a espantosa notícia de que todos aqueles onze agentes policiais tinham sido afinal mandados em liberdade pela juíza de instrução porque o Ministério Público “não sabia” ou se tinha “esquecido” — acredite quem quiser — de que as escutas só podem constituir validamente meio de prova se acompanhadas das respectivas transcrições, as quais não haviam sido realizadas ou, pelo menos, não haviam sido juntas aos autos. E, como nem as corporações respectivas — PSP e GNR — nem a Inspecção Geral da Administração Interna (IGAI) promoveram a respectiva suspensão preventiva, os ditos onze guardas puderam tranquilamente retomar funções e circular livremente pelos mesmos espaços das respectivas vítimas!?
Ora a primeira pergunta, incontornável, mas a que, obviamente e como é já habitual, nem o Ministério Público nem o procurador-geral da República respondem ou querem responder, é esta: como foi possível uma tal actuação do Ministério Público e que medidas foram, afinal, tomadas relativamente ao responsável por ela? Tudo isto, para mais, quando também se sabe que, como já referido, o chefe da PSP vive com uma procuradora da República e que um dos líderes da organização mafiosa se gabava de ter o mesmo o Ministério Público na mão.
Mas há outras perguntas relativamente às quais todos nós, cidadãos, não podemos deixar de exigir, e com toda a firmeza, todas as respostas e o apuramento integral de todas as responsabilidades.
Assim, e desde logo, alguém pode acreditar que, naquela zona, como noutras (designadamente na área de Évora), não se soubesse o que estava a acontecer e que, designadamente, os escravos imigrantes eram maltratados por polícias, inclusive fardados, nas respectivas horas de serviço? Porque é que ninguém denunciou então a situação? Desde quando durava, e impunemente, este escândalo esclavagista? E é ou não verdade que — após a operação da Polícia Judiciária e, tal como se referiu, por exemplo, numa reportagem da SIC — tudo estará na mesma, com os imigrantes a trabalharem nas mesmíssimas condições de sobre-exploração ou a ficarem abandonados pelas ruas de vilas e cidades e a viverem dez em cada quarto, em condições miseráveis, e a pagarem os tais 100 euros de renda?
Sendo certo que, desde há muitos anos, até organizações religiosas como a Cáritas, mas também, e sobretudo, associações como a Solidariedade Imigrante, vêm denunciando as condições desumanas em que sobrevivem e são sobre-explorados os trabalhadores imigrantes daquelas zonas, e mesmo após a pública denúncia, há uns anos atrás, do escândalo da escravização na zona de Odemira, que medidas foram adoptadas relativamente a esta criminosa escravização por todas e cada uma das entidades públicas, do Governo às câmaras municipais e juntas de freguesia, passando, por exemplo, pela Autoridade para as Condições de Trabalho?
Mas, sobretudo, quais são e a quem efectivamente pertencem as empresas de trabalho temporário que servem para aparecer formalmente como os patrões e amos daqueles escravos? E, mais ainda, de quem são e como funcionam estas duas propriedades, e todas as outras, seja no litoral, seja no interior alentejano, onde se verificava, e verifica, este trabalho escravo? Estas, ou algumas delas, são, ou eram, de grandes latifundiários, ligados à CAP, e também apoiantes e financiadores do Chega, e que, alguns até depois de as terem falido, as venderam ou arrendaram a grandes potentados económicos, designadamente estrangeiros? E que tipo de empresas, verdadeiramente, as exploram, e quem são, afinal, os seus reais beneficiários? E ainda, e já agora, de onde vêm, como conseguem e a que preço — ou será que gratuitamente? — dispor das enormes quantidades de água da barragem do Alqueva que tais explorações agrícolas necessariamente exigem?
Mais ainda, aquilo que se vem passando com a entidade gestora do Alqueva, a EDIA, desde a nomeação da sua administração, em 2012, pela ministra Assunção Cristas — e cujo presidente, José Pedro Salema, vem até aos dias de hoje — é ou não um autêntico escândalo? É que aquilo que é referenciado, ainda que a medo e quase em segredo, é que, após a primeira fase dos regadios, em que a distribuição da água da barragem do Alqueva foi feita nos perímetros definidos e autorizados de acordo com as normas, designadamente ambientais, e com os respectivos estudos de impacto ambiental (EIA), foi-se generalizando, sem sequer esses mesmos estudos e sob a capa dos chamados “fornecimentos precários” (legalmente previstos somente para curtos períodos e para pequenos proprietários), o abastecimento, mesmo fora dos respectivos requisitos legais, a grandes e mesmos gigantes propriedades da ordem dos 200 e 300 hectares.
Deste modo, apesar de estarem marcados a vermelho nos próprios mapas da EDIA – o que significa não terem direito a regadio –, é amplamente conhecido que tais enormes propriedades continuam a ser indevidamente abastecidas com a água do Alqueva, para mais induzindo assim uma elevação dos respectivos preços de mercado na ordem dos 1.000%. Deste modo, um terreno que valia, por exemplo, x, uma vez assegurado o respectivo regadio, terá passado a valer “10x”!
De par com esta nunca devidamente investigada utilização de recursos públicos (da EDIA) para fins e lucros privados, mesmo uma instituição com alegados fins sociais como a Fundação Eugénio de Almeida passou a participar neste mundo de negócios, arrendando a empresas de exploração agrícola diversas das grandes propriedades de que é dona no Alentejo.
Significativo é também o que se vem passando com a família Ortigão Costa, de que um dos filhos, Jorge, é um dos maiores financiadores e apoiantes do Chega, e outro, João, acumula um património de 325 milhões de euros e é dono da Sugal, um gigante (o 3º maior do mundo!) da produção e transformação do tomate e que factura cerca de 500 milhões de euros anualmente.
São, ou eram, de grandes latifundiários, da CAP, e também apoiantes e financiadores do Chega, que, alguns até depois de as terem falido, as venderam ou arrendaram a grandes potentados económicos, designadamente estrangeiros.
Ora o grupo agroindustrial da mesma família, a sociedade gestora de participações sociais SOGEPOC, criou, em 20/9/2018 e com um capital social de 3,5 milhões de euros, a NOGAM-Unipessoal, Lda, a qual detém gigantescas explorações situadas nos perímetros de rega do Alqueva. Desde logo na Herdade das Atafonas, com entrada, vedada e guardada, ao quilómetro 5 do Caminho Municipal 1184, na Torre das Coelheiras, Évora, e que, como consta de tabuletas ali colocadas, será propriedade da referida Fundação Eugénio de Almeida — são 615 hectares de nogueiras e 170 de amendoeiras, num total de 785 hectares! E, em 18/6/21, a mesma SOGEPOC inaugurou em Évora, com direito a presença e elogiosos discursos do presidente da Câmara e dos ministros da Economia e da Agricultura, uma grande fábrica de processamento de nozes, com uma previsão de facturação da ordem dos 25 milhões de euros.
Outra grande propriedade deste tipo é a igualmente gigantesca Herdade das Amêndoas Doces, formalmente de José Leal da Costa (o proprietário da Amieira Marina, a primeira marina do Alqueva), mas constando que intensamente apoiada e financiada por fundos americanos, situada em propriedade arrendada à Fundação Eugénio de Almeida, na Ervideira, em zona onde oficialmente não há regadio, mas todas as evidências apontam para a existência de água em abundância, e onde até um lagar foi construído. No enorme pomar de amendoeiras da herdade são utilizados trabalhadores imigrantes recolhidos na região de Évora e que todos os dias são levados e trazidos por inúmeras carrinhas (brancas com uma risca azul) que toda a região conhece e sabe a que se destinam. Por seu turno, as populações que residem nas proximidades têm-se queixado frequentemente de práticas perniciosas para a saúde pública, como a aplicação de óxido de cálcio (cal viva) nos solos e a pulverização das árvores com um produto meloso que atrai toda a espécie de insectos.
Outras propriedades do mesmo tipo (com regadio) são a Herdade da Torre de São Brissos e a Herdade do Peral – esta última por arrendamento à Fundação Eugénio de Almeida e aos herdeiros de Américo Amorim – , ambas da titularidade do grupo espanhol De Prado, outro potentado que entrou em Portugal, dedicando-se inicialmente às oliveiras de utilização intensiva (que produzem, no máximo, durante uns 7 a 10 anos) e que passou depois para o ainda mais rentável negócio da produção intensiva de amêndoas.
Este grupo espanhol actua, naquelas e noutras herdades, que em conjunto representam milhares e milhares de hectares, através de diversas (e aparentemente de pequena dimensão) sociedades unipessoais ou por quotas. Uma dessas empresas é a Olieca - Sociedade Agrícola Lda, que opera, com a mesma lógica das restantes, na herdade Monte dos Frades, situada no Baleizão (outra das localidades onde, como já referido, foram efectuadas buscas policiais no âmbito da Operação Safra Justa).
Outra característica desta forma de sobre-exploração de trabalhadores imigrantes é a de que estes normalmente não são angariados ou contratados directamente pelos donos das explorações onde trabalham – precisamente porque desta forma tais donos se descartam de quaisquer responsabilidades no campo laboral –, mas sim por empresas de fornecimento de mão de obra ou de trabalho temporário (ETTs), muitas delas nem sequer devidamente registadas e antes totalmente ilegais, e que assim conseguem esmagar por completo os custos salariais.
Com as dificuldades e crises das explorações destes produtos, em particular das nozes e das amêndoas, noutras regiões do mundo, como a Califórnia e a África do Sul, o interior alentejano tornou-se uma área mais que privilegiada para investimentos estrangeiros (em particular, americanos e espanhóis), quase sempre constituindo ou utilizando pequenas empresas criadas para o efeito, assegurando, por compra ou, mais correntemente, por arrendamento, a exploração de propriedades formalmente distintas, mas que, no seu conjunto, representam extensões enormes e com acesso, muitas vezes à margem da lei, a grandes quantidades de água. E que utilizam, contratada por empresas “negreiras” de vão de escada, mão de obra imigrante, frequente e propositadamente mantida ilegal e, por isso mesmo, sem direitos, com salários baixíssimos e vivendo e trabalhando em condições absolutamente desumanas, sujeita às mais bárbaras arbitrariedades.
E, para procurar ocultar esta realidade, muitas destas propriedades estão fortemente vedadas e fechadas, e quem delas se aproxime é logo seguido e confrontado, de forma ameaçadora, por “guardas”, deslocando-se em carrinhas. E sobre os exactos contornos de toda esta lucrativa actividade recai, um pouco por toda a parte, um extenso manto de silêncio, feito de um misto tenebroso de cumplicidades e de receios.
A verdade nua e crua é, porém, que, com este negócio de sangue, suor e lágrimas – viabilizado e até incentivado pela inacção ou até a cumplicidade activa das entidades públicas (Governo, autarquias, autoridades policiais, Segurança Social, Finanças, EDIA, Autoridade para as Condições do Trabalho-ACT) — lucram os proprietários e gestores que arrendam as herdades e que, mediante o acesso — ainda que ilegal e à custa de recursos públicos — ao regadio, as hipervalorizam; lucram os senhorios sem escrúpulos que arrendam os “depósitos” de trabalhadores; lucram os donos das empresas de angariação de mão de obra, bem recompensados pelo baixíssimo custo desta. Mas, sobretudo e acima de tudo, lucram os empresários agrícolas “de sucesso” e os fundos e grandes interesses económicos que os financiam e sustentam, os quais, beneficiando de todas estas vantagens e, em particular, dos baixíssimos custos de produção do trabalho escravo e atribuindo aos seus intermediários e capatazes as tarefas mais sujas de todo este processo, acumulam astronómicos (e “limpos de imagem”) ganhos.
E é precisamente por isso que se tem procurado impor o tal perverso manto de silêncio sobre quem são afinal os principais beneficiários do lado mais negro e oculto de toda esta miserável história. Mas é também por isso que esse manto tem agora de ser decididamente rasgado e destruído, com a denúncia, investigação, responsabilização e sancionamento de todos, sem excepção, os reais beneficiários deste esclavagista negócio.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
O Movimento Cockroach (ou “Partido Popular das Baratas”) nasceu em maio de 2026 e tem vindo a animar as vagas de protestos contra o governo de Modi. Um juiz do Supremo tribunal batizou involuntariamente o movimento quando comparou os jovens desempregados e politicamente ativos a “baratas e parasitas”. O ativista Abhijeet Dipke lançou o desafio “Baratas, uni-vos!” e obteve mais de 20 milhões de seguidores nas redes sociais.
Faz alguns dias que não escrevo. Só a mim fez falta.
Se eu parar aqui, já é possível intuir o tamanho da intercorrência.
Parece-lhe estranho o uso da palavra intercorrência? Pedi emprestado ao léxico profissional da saúde. Não reconhece o sentido? Talvez nunca a tenha escutado num contexto semelhante. Explico. Todas as vezes que um médico se dirige à família do seu paciente para dar explicações acerca de um procedimento e usa a palavra intercorrência, ele está recorrendo a um eufemismo, para tratar de um imprevisto, de uma alteração que não é bem vinda. É um modo de suavizar a mensagem “deu merda”.
A falta, em alguma medida, todos nós já experimentamos. Qualquer coisa como penúria, ausência, carência, etc. a explica. Se, numa rede social, eu juntasse estas duas palavras, falta e intercorrência, numa frase, apareceriam algumas almas caridosas com uma mentira panegírica que eu me obrigaria a agradecer, embora não diminuísse em nada o que estou sentindo.
Com isso, estou tentando dizer que não tenho escrito porque, neste momento, eu sou o centro do mundo. Parece pretensioso, mas não é a intenção. Eu quero dizer que a gente sabe que tem cabeça, mas só lembra dela insistentemente quando lhe acomete uma dor. Então, eu sei que existo, mas a minha existência só ocupa a centralidade referida quando tudo parece ruim. Neste momento, para ser honesta, eu teria que escrever na primeira pessoa do singular, o que podia redundar em autocomiseração. Não, eu me recuso a esse papel. Mas, para usar de franqueza e não parecer que tenho uma doença terminal, declaro que a autoestima está com o cu no chão. Sabe quando a nossa cabeça é povoada por todas as experiências em que nos sentimos diminuídas? Sem que tenhamos controle para travar as lembranças, a gente se compara, se autoavalia, se vitimiza e, no meu caso, chego ao absurdo de pôr em dúvida o meu epitáfio: “morta por absoluta falta de opção”.
Sabe quando a nossa cabeça é povoada por todas as experiências em que nos sentimos diminuídas? Sem que tenhamos controle para travar as lembranças, a gente se compara, se autoavalia, se vitimiza e, no meu caso, chego ao absurdo de pôr em dúvida o meu epitáfio: “morta por absoluta falta de opção
Bem, isso deve explicar as dores musculares que tenho sentido. Travou tudo, fiquei de cama. Um motivo mais que justo para pedir socorro. Não era eu, eram as dores. Como se fossem externas a mim. De primeira achei que devia procurar um médico, mas logo lembrei que muitos já nem olham para o paciente – este nome é perfeito para a condição que nos é imposta –, melhor um profissional que me toque, concluí. Percebeu a sutileza? Quase um elefante na sala. Trocando em miúdos, estou a dizer que preciso de um abraço, de muitos. Ora, eu já sei que o toque também é uma mercadoria. Em letras luminosas eu poria na frente de certos estabelecimentos, das clínicas aos bordéis: Se não lhe tocam gratuitamente e pode pagar por esse luxo, compre-o.
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A saída estava ao lado: uma clínica de fisioterapia. Tudo muito prático, nada de perguntas, apenas me cobraram quarenta euros e me deram um recibo. No Brasil, entraria nas despesas dedutíveis do imposto de renda, aqui é só um papel para aumentar o lixo. Fui encaminhada a uma simpática profissional, que após ser informada sobre as tais dores, mencionou o valor do atendimento, para ter certeza de que eu já havia antecipado o pagamento. Esclarecida a relação compra/venda pensei que, enfim, fizera jus ao que necessitava. Mas, para minha surpresa, o toque durou pouco. Foi apenas o suficiente para justificar a utilização de um daqueles instrumentos que funcionam ligado à tomada. As mãos não bastavam, a máquina daria conta com mais eficiência, em menos tempo. Imagine a minha decepção: era como se eu tivesse pago por uma carta de amor dirigida exclusivamente a mim e me entregassem um texto produzido por IA, aplicável à dor de qualquer pessoa.
Reconheço que eu não estou aguentando nem a imagem que o espelho reproduz, tampouco estou em condições de recorrer à beleza interior que, como se pode deduzir, está em frangalhos. Devo estar sendo exagerada nas minhas declarações, mas, convenhamos, qual a graça de ler alguém neste grau de azedume?
Para não me estender – pode ser contagiante –, quero concluir dizendo que às dores acrescentou-se uma questão. Sob o risco de parecer atrasada ou resistente às mudanças, pergunto: tudo que a tecnologia for capaz, mesmo sob o risco da desumanização, será permitido? Seria demasiado vislumbrar limites ao uso da tecnologia? Desde que a divisão social do trabalho separou quem pensa de quem executa, a máquina invade cada dia mais o nosso quotidiano. E o faz de um modo tão avassalador que a função das mãos pode ser reduzida a um clique, a conectar um instrumento à tomada, às vezes, ao uso de um dedo. Parece-me incorreto e injusto.
Hoje escolho como tema a famigerada flauta de bisel.
A massificação deste instrumento no ensino da música limitou em grande parte outras oportunidades pedagógicas musicais. A flauta de bisel tem um som monocórdico com poucas possibilidades de afinação quando tocada, pois esta passa por várias técnicas de execução como, por exemplo: fluxo de ar, postura da embocadura e respetivos ajustes físicos. Quem teve a ideia de pôr todos os alunos do país a tocar flauta de bisel não teve a noção de quão prejudicial é em termos de educação auditiva musical. Quando se toca este instrumento, por mais que tecnicamente nos aproximemos de uma afinação real, nunca a afinação estará certa. Agora vamos imaginar num universo de vinte e oito alunos, por exemplo, a tocarem em uníssono um tema musical qualquer. Chego à conclusão de ter vinte e oito desafinações.
Com aquela ideia de que este instrumento é barato, de execução fácil (escala diatónica), mas quando se trata de escala cromática é mesmo para esquecer!
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Para fazer música em sala de aula deve-se priorizar o ritmo, utilizando instrumentos de percussão (xilofones, metalofones e outros instrumentos de percussão) para que as crianças desenvolvam o sentido rítmico em função do binário corporal, pois sem esta particularidade é muito mais difícil tocar um instrumento.
Carl Orff (1895-1982) foi um importante compositor e pedagogo, que introduziu no ensino o método Orff, que privilegia essencialmente os instrumentos acima referidos. A flauta de bisel também faz parte do método, mas na minha opninião este instrumento não educa auditivamente os alunos. O ideal seria a flauta barroca, instrumento com possibilidades de afinação.
Devia-se implementar nas escolas, com a colaboração do Ministério da Educação, a aprendizagem de outros instrumentos musicais
Devia-se implementar nas escolas, com a colaboração do Ministério da Educação, a aprendizagem de outros instrumentos musicais como, por exemplo, vários cordofones, outros instrumentos de percussão (a bateria é fundamental) e criar grupos de música tradicional portuguesa, e não só: bandas rock, grupos corais. Existe uma diversidade enorme de possibilidades para que as aulas de Educação Musical sejam atrativas e pedagogicamente ricas.
Outro aspeto que quero salientar é o facto de as crianças terem Eduação Musical só nos 5º e 6º ano e não se lhes facultar a continuidade do ensino da música. As artes, infelizmente, continuam a ser o parente pobre.
Há que modificar os métodos arcaicos e desatualizados do ensino da música.
Sei que há colegas que tentam modificar a estrutura do ensino apesar do plano curricular. Não é fácil, mas vale a pena remar até bom porto.
Vivemos um dos períodos de maior ímpeto reformista das últimas décadas. A tentativa de reforma laboral foi talvez a expressão mais evidente dessa vontade de mexer profundamente nas relações de trabalho, fragilizando direitos e a contratação coletiva. Mas os trabalhadores, incluindo os médicos, disseram que não nas greves gerais de 11 de dezembro e 3 de junho, e a proposta acabou rejeitada na Assembleia da República. Seria ingénuo, porém, pensar que essa votação encerrou o assunto. Algumas das ideias que estavam naquela reforma continuam a surgir por outras vias, setor a setor, profissão a profissão. E é precisamente isso que está a acontecer na saúde.
Na saúde, nem precisamos de adivinhar intenções. Basta olhar para aquilo que o Ministério da Saúde (MS) de Ana Paula Martins já legislou e para o que tem levado à mesa de negociação com os médicos.
No SNS trabalham, lado a lado, médicos com contrato de trabalho em funções públicas e médicos com contrato individual de trabalho (CIT), sujeitos a regimes diferentes. A generalização dos CIT acentuou esta fragmentação. E quanto mais se individualizam as relações de trabalho, mais necessária se torna a contratação coletiva para garantir direitos comuns.
Talvez por isso seja tão revelador que até o direito a negociar teve de ser conquistado. Em 2025, perante o bloqueio do MS, a Federação Nacional dos Médicos (FNAM) recorreu aos mecanismos legais ao seu dispor. Foi necessário levar as propostas de revisão dos acordos coletivos de trabalho à Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT) e à Direção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP), neste último caso perante um juiz-árbitro.
Só depois, já em janeiro, o MS aceitou um protocolo negocial onde ficaram inscritas matérias essenciais para fixar médicos no Serviço Nacional de Saúde: revisão de salários, da jornada semanal, da avaliação e progressão, a reintegração do internato na carreira, a reposição de dias de férias, melhoria dos direitos da parentalidade e a possibilidade de um regime de dedicação exclusiva opcional e devidamente valorizado.
Negociar com os representantes dos trabalhadores não é uma concessão do Ministério. É uma obrigação. E negociar não é procurar o sindicato que diz mais facilmente que sim, enquanto se tenta afastar quem apresenta soluções para fixar e trazer mais médicos para o SNS. A negociação coletiva faz-se à mesa, com propostas, contrapropostas e transparência. Não se faz nos bastidores, escolhendo o interlocutor mais conveniente. Um sindicato existe para representar quem trabalha, sobretudo quando é preciso dizer aquilo que a ministra Ana Paula Martins não quer ouvir.
É nesse papel que, na revisão dos acordos coletivos, os sindicatos da FNAM recusam retrocessos como o banco de horas, o aumento dos limites anuais de trabalho suplementar ou alterações à idade a partir da qual os médicos podem deixar de fazer trabalho noturno. Não são preciosismos jurídicos. São horas de trabalho, descanso, vida familiar e direitos conquistados. E não foi preciso aprovar uma reforma laboral para os tentar pôr em causa.
Aliás, enquanto algumas alterações foram discutidas à mesa, outras chegaram por decreto.
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Veja-se o novo regime para o trabalho médico nas urgências. Depois de atingirem os limites anuais de trabalho suplementar — 150 horas no regime geral e 250 na dedicação plena — os médicos podem continuar a trabalhar em sucessivos blocos de 48 horas, com incentivos que aumentam à medida que acumulam mais horas. A legislação saiu, de resto, com imprecisões jurídicas que obrigaram a corrigi-la pouco depois.
Mas o mais importante não é o número do decreto. É a escolha que está por detrás dele.
Perante a falta de médicos, o MS não aumenta estruturalmente o salário base, não melhora as jornadas de trabalho nem resolve a insuficiência das equipas. Cria um incentivo para que quem já fez centenas de horas extraordinárias trabalhe ainda mais.
É voluntário, claro. Mas escrever “voluntário” num diploma não torna o modelo saudável. Se o rendimento aumenta à medida que se acumulam mais e mais horas, estamos a transformar a exaustão numa forma de compensar salários insuficientes. E, pelo caminho, perde-se o direito ao descanso compensatório associado ao trabalho aos domingos e feriados.
Troca-se o salário por um “incentivo”. A contratação pelo sobretrabalho. O descanso pela disponibilidade. Não se resolve a falta de médicos pagando aos que ficam para trabalharem até à exaustão.
Não se resolve a falta de médicos pagando aos que ficam para trabalharem até à exaustão.
E chegamos assim à produção adicional. O Ministério voltou recentemente a mudar as regras e os pagamentos desta atividade (Portarias n.º 274/2026 e n.º 281/2026), provocando redução ou suspensão de atividade cirúrgica adicional em vários hospitais e alterações na composição e remuneração das equipas.
É legítimo contestar estas consequências. Mas há uma discussão mais funda que não devemos evitar: o SNS deve transformar-se num sistema de “pagamento à peça”?
Um doente não é uma cirurgia, uma endoscopia ou um cateterismo. Antes do procedimento alguém diagnosticou; depois dele alguém acompanha. Há quem trate complicações, quem reabilite e quem assegure a continuidade dos cuidados. A saúde faz-se em equipa e não numa linha de montagem.
Pagar atos isoladamente aumenta o risco de desagregar equipas e criar incentivos errados. Não faz sentido construir um sistema em que se pode ganhar tanto mais quanto mais doente estiver a população. Precisamos de salários base dignos, carreiras valorizadas, equipas estáveis, jornadas equilibradas e objetivos centrados na saúde e na qualidade dos cuidados.
É por isso que a discussão sobre a reforma laboral não terminou com a sua rejeição na Assembleia da República. Na saúde, já vimos o Ministério ter de ser levado pelos mecanismos legais a negociar com a estrutura sindical que mais médicos representa no SNS. Vimos retrocessos laborais chegarem à mesa negocial. E vemos a falta de profissionais ser respondida com mais horas, mais incentivos e mais exceções.
É assim que também se mudam as relações de trabalho: diploma a diploma, exceção a exceção, profissão a profissão.
Reformar pode, e deve, significar melhorias. Trabalhar mais, descansar menos e depender de incentivos para ter um salário melhor não é modernizar, é retroceder. E aquilo que não passou como reforma laboral não pode agora entrar pela porta lateral e transformar a disponibilidade ilimitada de quem trabalha num modelo para os serviços públicos.
Legislar muito não é o mesmo que reformar bem. O MS tem mudado regras, criado incentivos e multiplicado regimes de exceção, sem resolver aquilo que está na origem do problema: um SNS que não consegue reter os seus profissionais.
A reforma que verdadeiramente falta continua por fazer: salários e carreiras valorizados, condições de trabalho dignas e uma negociação coletiva séria, capaz de trazer e manter no SNS os médicos e os profissionais de saúde de que a população precisa. Porque nenhum SNS sobrevive muito tempo se quem lá trabalha procura todos os dias uma forma de sair.
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