No Alqueva, o rei vai nu, à vista de todos, à vista de ninguém
Hoje, são meia dúzia de grupos económicos, fundos financeiros americanos e espanhóis, essencialmente, que determinam o que se rega e onde, no Alqueva. Atuam como verdadeiras máfias, e a impunidade destas empresas mantém-se, inclusive no domínio ambiental, onde acontecem verdadeiros crimes. Com estas
Hoje, são meia dúzia de grupos económicos, fundos financeiros americanos e espanhóis, essencialmente, que determinam o que se rega e onde, no Alqueva. Atuam como verdadeiras máfias, e a impunidade destas empresas mantém-se, inclusive no domínio ambiental, onde acontecem verdadeiros crimes. Com estas empresas predadoras de recursos económicos e naturais vem também o tráfico humano e a indigência que é promovida por este tipo de “agricultura”.
Reza o conto de Hans Christian Andersen que dois vigaristas prometem ao rei um fato maravilhoso, invisível aos olhos dos tolos. Receando parecer ignorante, o rei e toda a corte fingem ver o tecido inexistente. O rumor cresce, os alfaiates fazem de conta que trabalham, e o monarca desfila com a “roupa nova” perante a cidade, enquanto todos, presos ao medo e à conivência, elogiam o traje que ninguém vê. No auge do cortejo, uma criança — sem medo do ridículo — exclama: “O rei vai nu!”
A evidência rompe o feitiço social: a multidão percebe a farsa, mas o rei, envergonhado, continua a caminhar.
O conto expõe o conformismo, a manipulação do poder e a autocensura coletiva, mostrando como uma verdade simples, vinda de quem nada tem a perder, é capaz de desfazer unanimidades de fachada.
No Alqueva, desde 2012, querem fazer-nos de tolos e parvos. Quem?
Está na altura de a criança gritar: “O rei vai nu!”
O Alentejo é conhecido por ser terra de grandes e vastas propriedades. É também conhecido por ser um território despovoado, pobre, pouco interessante politicamente.
O empreendimento do Alqueva foi planeado e construído para inverter o despovoamento e promover o desenvolvimento socioeconómico do território através de uma gestão sustentada do recurso “água”.
Os Censos 2021 comprovam que o principal objetivo do Alqueva falhou; a erosão demográfica continuou e os resultados económicos na região são quase nulos. Não, não é verdade que Alqueva já se pagou. Os estudos que são divulgados não passam de um tecido supostamente invisível para os tolos. Fazem-se as contas aos hectares regados, à produção estimada de cada cultura, ao preço do azeite e amêndoa, e Alqueva é um sucesso nacional. Nada mais falso.
Dada a gestão desgovernada do regadio, com objetivos muito pouco claros, os fins múltiplos de Alqueva estão em risco, o que terá consequências graves, porque não estão a ser cumpridos os grandes desígnios com os quais o Estado português se comprometeu com a União Europeia: constituir uma reserva estratégica de água e garantir o abastecimento público de água às populações, produzir energia hidroelétrica, desenvolver a agricultura e promover outras atividades, como o turismo.
Atualmente, Alqueva é um empreendimento agrícola; a tutela mantém-se há anos no Ministério da Agricultura. O regadio tornou-se hoje o seu único objetivo e os fins múltiplos do empreendimento desapareceram — ou talvez só tenham existido na “alfaiataria” dos tecidos mágicos, para captar financiamento comunitário.
Alqueva rega hoje mais de 200 mil hectares. A estes consumos de água acrescem os milhares de hectares regados em Espanha a partir de captações ilegais. A área regada que é conhecida oficialmente é manifestamente inferior à real; é por isso que hoje sabemos que a água de Alqueva já não chega para todas as necessidades. O Governo quer agora fazer um transvase, para que esta água vá regar os abacates no Algarve — sabemos, todos, de quem.
Foram-se os anéis e também os dedos. Alqueva, com a atual gestão da água que não faz, deixou de ser a reserva estratégica, entregou a exploração da central hidroelétrica à EDP a troco de uma renda e limita-se a construir regadio a pedido dos grandes grupos do proclamado agronegócio. A Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva, S.A. (EDIA) deixou de exercer o mandato do Estado, tendo perdido a capacidade de gestão dos bens públicos a ela consignados.
Hoje, são meia dúzia de grupos económicos, fundos financeiros americanos e espanhóis, essencialmente, que determinam o que se rega e onde no Alqueva. Atuam como verdadeiras máfias, e a impunidade destas empresas mantém-se, inclusive no domínio ambiental, onde acontecem verdadeiros crimes, que determinam milhares de hectares sem qualquer capacidade produtiva dos solos, a contaminação destes e da água, a destruição de ribeiras transformadas em valas de drenagem, a progressão de espécies invasoras e o abate criminoso de sobreiros e azinheiras com injeções de alumínio.
Com estas empresas predadoras de recursos económicos e naturais vem também o tráfico humano e a indigência que é promovida por este tipo de “agricultura”. Alqueva aproxima-se a passos largos de ser a Almeria portuguesa; e nada acontece. Alguns dias após a operação “Safra Justa”, tudo continua na mesma. Devem ser muito poucas as pessoas que, na região, não sabem como os marginais atuam. Beja e Évora são cidades pequenas, as aldeias e vilas ainda mais, e todos conhecem o negócio, alguns lucram com as camas quentes, outros com a guardaria dos novos escravos, outros ainda com papéis falsos e supostas empresas de um euro de capital social, que fazem circular o dinheiro sujo. Mas esta lama nojenta não se fica pelos polícias, donos de cafés e casas nas aldeias e cidades, transportadores de escravos ou os outros todos. Quem os alimenta são os terratenentes e os rendeiros dos dízimos. Quando as investigações chegarem ao cimo do icebergue e a justiça atuar, aí já não será necessário a criança gritar “o rei vai nu!”
A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os ferroviários espanhóis, que vivem momentos de profunda dor e angústia.
Perante esta tragédia, o SFRCI expressa a sua solidariedade para com os trabalhadores ferroviários espanhóis, reconhecendo o impacto humano e profissional de acontecimentos desta natureza numa classe que diariamente assume responsabilidades fundamentais na segurança e no transporte de passageiros.
As referências à eventual falha dos sistemas de segurança e à insuficiência de meios redundantes de protecção, capazes de assegurar a operação em condições de segurança quando os sistemas digitais falham, reforçam a necessidade de uma investigação rigorosa e independente, que permita apurar as causas do acidente e retirar todas as conclusões necessárias à prevenção de futuras tragédias.
A segurança ferroviária tem de ser uma prioridade absoluta e inegociável. A tecnologia é fundamental, mas não pode constituir a única barreira de protecção. É indispensável garantir sistemas de segurança fiáveis, mecanismos redundantes de recurso, manutenção adequada, investimento contínuo nas infraestruturas e condições de trabalho que permitam aos profissionais desempenhar as suas funções com segurança.
Nenhuma consideração económica ou operacional pode sobrepor-se à vida humana. Um sistema ferroviário verdadeiramente seguro exige prevenção, investimento, responsabilidade e respeito por todos os trabalhadores e passageiros.
Neste momento de dor, a Direcção do SFRCI associa-se ao luto dos ferroviários espanhóis e de todo o sector ferroviário, reiterando a sua solidariedade para com as famílias enlutadas e desejando uma rápida e plena recuperação a todos os feridos.
Às vítimas mortais, a nossa homenagem. Às famílias, as nossas sentidas condolências. Aos feridos, os votos de rápidas melhoras. Aos ferroviários espanhóis, a nossa solidariedade fraterna.
A tragédia ferroviária de 28 de outubro, em Urda, Toledo, exige respostas que não se compadecem com a simples alegação de erro humano. Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.
As primeiras notícias atiram imediatamente o foco para quem, alegadamente, tomou uma decisão errada. Mas identificar um eventual erro individual não explica a avaria inicial, a organização do trabalho, nem por que razão as restantes barreiras de segurança não impediram o desastre.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano. Quando ocorre uma avaria, essas exigências multiplicam-se precisamente quando cada decisão requer maior cuidado.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano.
Teria uma equipa reforçada, com funções claras de apoio e verificação, permitido detetar o perigo a tempo? A investigação deve responder. Não basta contar pessoas numa sala. Importa perceber que apoio estava disponível e como funcionou.
A redundância na segurança também se faz com trabalhadores.É necessário prever o erro e garantir meios para o detetar e corrigir, antes de provocar consequências irreversíveis.
José Luis Villa, antigo diretor-geral da Renfe, questionou no El Mundo a explicação centrada no indivíduo, apontando responsabilidades de gestão e problemas de coordenação. A sua avaliação não substitui a investigação, mas lembra que as decisões de quem organiza e dirige também devem ser escrutinadas.
Portugal precisa de ter esta discussão perante a perspetiva de mais empresas de passageiros na rede. Pergunto: mais operadores e circulações serão acompanhados por investimento na infraestrutura, manutenção, contratação e coordenação? Se aumentarem as exigências sem aumentarem os meios, não estaremos a criar condições para um risco acrescido?
Esta discussão também exige olhar para as prioridades do investimento. A modernização ferroviária deve melhorar as deslocações quotidianas, ligar populações e garantir alternativas de transporte. Os comboios suburbanos, regionais e serviços do interior precisam de investimento continuado, tal como as oficinas e os profissionais que asseguram o seu funcionamento. A alta velocidade não dispensa uma rede de proximidade fiável.
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O valor de um serviço público não se mede apenas pela receita dos bilhetes. Mede-se também pelas populações que serve, pela coesão territorial e pela segurança que oferece. E qualquer modelo de exploração deve ser avaliado por esses critérios.
Entretanto, os maquinistas espanhóis já tinham uma greve convocada para 29 de outubro. Exigiam melhorias de segurança, comunicações de emergência, contratação e cumprimento das pausas. Não sabemos se essas medidas teriam evitado esta tragédia. E se tivessem? Sabemos que os trabalhadores já reclamavam respostas e queriam ser ouvidos. E se tivessem sido?
Quando uma greve é apresentada apenas pelos transtornos que provoca, fica por explicar aquilo que os trabalhadores procuram proteger. Defender quem trabalha na ferrovia é também defender quem viaja. A segurança exige investimento, organização e trabalhadores em número suficiente para a garantir.
O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança públicas, mas a repressão contra quem luta por direitos. São um corpo dos empresários e do Estado, foi assim em 1838, na Maria da Fonte, na República e no Estado Novo, é assim hoje no Rossio e em Covas de Barroso.