categoria-opinião

O poder em partículas Alfredo Soares-Ferreira
categoria-opinião Física de Partículas Poder

O poder em partículas

Imaginar uma sociedade onde o poder não reside no trono dos reinos, nas presidências vazias ou nas secretarias cheias de burocratas pode ser uma tarefa interessante, caso seja acompanhada da necessária visão crítica.

Alfredo Soares-Ferreira
Da distopia à utopia João Areosa
categoria-opinião Distopia Utopia edicao-2025-11-27 (06)

Da distopia à utopia

A distopia pode ser uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. Porém, pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica de tudo aquilo que não queremos viver.

João Areosa
“Abuso de hospitalidade”? Michael Roberts
categoria-opinião Exploração Imigração edicao-2025-11-27 (06)

“Abuso de hospitalidade”?

O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?

Michael Roberts
Cristina Vieira, a esfinge do Chega Manuel da Silva Ramos
categoria-opinião edicao-2025-11-20 (05)

Cristina Vieira, a esfinge do Chega

Estou a retrabalhar toda a obra do Fernando Pessoa e a dar-lhe um cunho pessoal.

Manuel da Silva Ramos
Uma legião de zumbis Sylvia Debossan Moretzsohn
categoria-opinião IA IA Degenerativa edicao-2025-11-13 (04)

Uma legião de zumbis

Controlar a “inteligência artificial degenerativa” é fundamental para conter o mais radical processo de alienação da humanidade

Sylvia Debossan Moretzsohn
O estado da saúde Jaime Mendes
categoria-opinião OE2026 Saúde edicao-2025-11-13 (04)

O estado da saúde

A destruição das carreiras médicas (…) levou ao abandono de muitos médicos do SNS e ao recurso a tarefeiros.

Jaime Mendes
Para que serve  um gestor? Adriano Zilhão
categoria-opinião Gestor Mercados edicao-2025-11-06 (03)

Para que serve um gestor?

Nas últimas décadas, nas grandes empresas do capitalismo moderno, a figura do gestor agigantou-se. A paga dessa figura, então, como se agigantou!

Adriano Zilhão
Canhões ou manteiga? Michael Roberts
categoria-opinião Guerra NATO Portugal Rearmarmento

Canhões ou manteiga?

“Por que não dedicar a capacidade [do sector automóvel] à produção militar?”, questionou Monteiro.

Michael Roberts
As palavras pesam: aura & educação António Carlos Cortez
categoria-opinião Professores edicao-2025-10-23 (02) Educação

As palavras pesam: aura & educação

É triste quando um ministro não compreende que, como escreveu Carlos de Oliveira poeta e ficcionista “as palavras pesam, mais do que as lajes ou a vida”.

António Carlos Cortez
A reserva salazarista do PSD Tiago Franco
categoria-opinião Montenegro(político) Passos Coelho PSD Salazar edicao-2025-10-23 (02)

A reserva salazarista do PSD

Na “ânsia de ultrapassar o discurso de ódio de Ventura, a direita deixou-se enredar numa teia de saudosistas de Salazar”

Tiago Franco
Os complexos comportamentais dos Portugueses Miguel Real
categoria-opinião Portugal Viriato edicao-2025-10-16 (01)

Os complexos comportamentais dos Portugueses

segundo Camões, a Lusitânia, donde os Portugueses derivariam por continuidade histórica, evidencia-se como a diferença específica entre a "Espanha" e Portugal;...

Miguel Real
O ressurgimento de uma doença de outros tempos: o escorbuto ou a peste do mar​ Cristina Semblano
categoria-opinião Doenças da miséria Inflação Reaparecimento de doenças

O ressurgimento de uma doença de outros tempos: o escorbuto ou a peste do mar​

O ressurgimento de doenças como o escorbuto, a tuberculose e a sarna em países ricos revela a crescente desigualdade na repartição da riqueza gerada pelos trabalhadores.

Cristina Semblano
categoria-opinião Física de Partículas Poder

O poder em partículas

O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, conferindo ‘peso’ ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz.


“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever. Como começar pelo princípio, se estas coisas acontecem antes de acontecer?”

A Hora da Estrela, Clarisse Lispector (1977)

Imaginar uma sociedade onde o poder não reside no trono dos reinos, nas presidências vazias ou nas secretarias cheias de burocratas pode ser uma tarefa interessante, caso seja acompanhada da necessária visão crítica. Uma das alternativas, falando simplesmente do campo da imaginação criativa, seria um poder inspirado nos avanços mais recentes da física de partículas, que reside nas sombras infinitesimais do invisível, nos fragmentos quânticos que tecem os contornos da existência. Uma alegoria possível aos humildes constituintes da matéria e do espírito humano, onde cada colisão, cada excitação fraccionária, revela forças capazes de reescrever o destino colectivo.

O poder pode, na nossa imaginação, ser qualquer coisa como a “imaginação ao poder”. Recuemos a Maio 68, em que Paris veria dez milhões de grevistas nas ruas e se convocava a imaginação como força motriz da arte, da inovação e da utopia, um hino global, em que a tomada de poder iria varrer as estruturas rígidas, burocráticas e opressivas da sociedade, governos, capitalismos e hierarquias tradicionais. Ficou, no seu tempo, como um manifesto para que a “criatividade liberte e governe”, transformando o mundo num palco de possibilidades infinitas, em vez de uma prisão de regras. Que partículas desse poder ficariam no ar, mesmo na perspectiva surreal, quase seis décadas depois? Um poder em partículas, que poderia então emergir das profundezas do cidadão e guindá-lo à categoria superior das possibilidades, num vislumbre para além do véu da realidade podre, desenhada pelos atores pífios que conhecemos hoje, particularmente no hemisfério norte.

No universo da física quântica, teoria fundamental desenvolvida na década de 70 do século passado, descrevem-se as partículas elementares da matéria, onde existe um campo que é responsável pela massa dessas partículas. O campo de Higgs é invisível, embora funcione como agregador de todo o espaço, onde as partículas elementares ganham massa ao interagir com este campo e oferecem resistência ao movimento, ou seja, quanto maior a interacção de uma partícula com o campo, maior é a "resistência" ao seu movimento, ganhando mais massa, e onde as partículas que interagem menos têm menos massa. A aparente complexidade do conceito pode ser adaptada ao tecido social, uma espécie de campo de Higgs relacional onde nos movemos. Alguns indivíduos interagem com intensidade com esse campo, sabemos quem são e como se comportam, líderes, comunicadores, "influenciadores", que vão adquirindo “massa social” na sequência das suas interacções. Essa “massa” não é obviamente um atributo intrínseco, mas um fenómeno relacional, constituindo uma arquitetura da legitimidade, conferindo poder em estruturas duradouras, concedido aliás pelo campo social em que se está inserido. O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo, conferindo “peso” ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz. Sem a interacção com esse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, o poder seria apenas um potencial, uma partícula sem massa correndo à velocidade da luz, mas incapaz de formar estruturas duradouras. Portanto, o poder é concedido pelo campo social em que se está inserido.

As questões do poder e do direito foram exploradas ao longo dos tempos. Por exemplo, o “direito” que prevalece não é necessariamente o mais justo ou verdadeiro, mas aquele que é sustentado pela partícula de poder mais eficaz naquele contexto. Para o filósofo inglês do século XVII, Thomas Hobbes, o poder, original ou natural e instrumental, não é absoluto por depender do reconhecimento de outrem, mas sim uma “concorrência” entre inúmeras partículas de poder para impor a sua versão do "direito". Já para o escritor e cientista alemão do século XVIII, Johann von Goethe, a origem do direito está na tradição e na herança do poder institucionalizado. O autor de Fausto, diz, pela boca de Mefistófeles, que o direito não é uma questão de justiça inerente, mas sim das regras que o poder conseguiu impor e fazer passar por legítimas ao longo do tempo. Goethe afirma de forma clara que o "direito" é uma construção do poder e não um princípio moral universal. Para Marx e Engels, o poder de classe baseado na economia sempre esteve concentrado e a aparente dispersão na superfície política e mediática esconde uma concentração sem precedentes de poder económico e tecnológico. O que afirmaram e defenderam mantém, ainda hoje, uma coerência notável. Se os pudéssemos consultar, possivelmente nos diriam que a solução não é celebrar a fragmentação do poder em partículas, mas superá-la através da organização consciente da classe trabalhadora para conquistar o poder real e efectivo. É mais, pela lógica das suas teses, que a narrativa do empoderamento individual através da tecnologia, que poderia ser vista como uma nova forma de falsa consciência, onde a pessoa acredita que está conquistando poder, enquanto permanece estruturalmente subordinada ao capital, ou seja, uma perfeita ilusão da emancipação individual.

Sabemos hoje que a matéria visível, estrelas, planetas, todos nós, compõe apenas cinco por cento do universo. O resto é matéria e energia escura, que não emite luz, mas cuja gravidade e pressão regem as leis do universo. Pelo mesmo diapasão se rege a maior parte do poder real. Que é, na maior parte das situações, "obscuro" e reside em acordos não escritos, em inter-relacionamentos de bastidores, em enviesamentos culturais inconscientes, que são a matéria escura que estrutura um sistema onde parece existir uma energia submersa em narrativas hegemónicas, forças expansivas e invisíveis, como o algoritmo de uma rede social ou a corrente subterrânea da opinião pública, que determinam o que é pensável e o que é inquestionável, sem nunca se revelarem completamente.

Restará provavelmente nesta alegoria definir o indivíduo como uma partícula de poder. É o que fazem os novos doutrinadores burgueses, os burocratas que utilizam o poder como castrador de consciências, pretendendo suprimir (e mesmo eliminar) a crítica e o pensamento livre. São os partidários de uma “democracia” que nos diz que a nossa voz, o nosso voto, a nossa participação online podem, em conjunto com outras partículas, gerar um "direito" novo. São os mesmos que incentivam o consumo e o “encarceramento” das pessoas em “centros especiais”, como os comerciais, onde parecemos ser iguais, uma ilusão falsa e enganadora. Hoje, a luta pelo poder já não é apenas controlar um trono ou um reino. É, acima de tudo, controlar uma narrativa, um algoritmo, as normas sociais e a atenção das pessoas. Nesta nova frente de luta, o aforismo de que a força (militar, económica, social ou algorítmica) define a legitimidade permanece terrivelmente verdadeiro, actuando de uma forma infinitamente mais complexa e subtil. O poder em partículas é uma metáfora que não invalida o aforismo. Pelo contrário, amplifica-o e complexifica-o. Os pequenos poderes, pulverizados, distribuídos e atomizados em inúmeras "partículas", representam hoje obstáculos visíveis e influentes na “resistência” às mudanças sociais e devem ser combatidos, em favor dos processos libertadores e revolucionários, para a construção programada e organizada da sociedade sem amos.


*Alfredo Soares-Ferreira, escritor e cronista, é licenciado em Engenharia de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Atualmente aposentado, foi professor do ensino secundário, profissional e superior.

categoria-opinião Distopia Utopia edicao-2025-11-27 (06)

Da distopia à utopia

Apesar de sabermos que qualquer universo distópico se traduz num cenário imaginado de uma região, país ou sociedade, sabemos igualmente que ele representa o caos, a injustiça, a desigualdade, a opressão, o sofrimento, a tirania ou o totalitarismo. Nesse ambiente indesejável prevalecem o desamparo, a amargura, a angústia, o desespero, o autoritarismo, ou seja, é um sistema que restringe a liberdade, a autonomia e anula a subjetividade. A distopia pode funcionar como uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. As pessoas sentir-se-iam isoladas e sem capacidade para resistir, sem força para se opor. A distopia caracteriza-se, ainda, por possuir múltiplas formas de poder, dominação e controlo, as quais se manifestam, por vezes, de formas visíveis, outras vezes, por meios subtis. Em resumo, um universo distópico idealiza um mundo profundamente desigual, maléfico, doente, alienado e castrador. Porém, uma conjuntura distópica pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica para tudo aquilo que não queremos vivenciar ou experienciar.

Por oposição, a utopia representa o inverso, isto é, traduz-se naquilo que seria uma sociedade ideal, perfeita, harmoniosa, justa e desejável. É um lugar em que predomina o bem-estar, a igualdade, a ausência de pobreza ou de miséria social, e materializa-se num sistema de governo benevolente (ou até mesmo na ausência dele, embora mantendo o funcionamento da sociedade de forma organizada, equitativa e pacífica). As sociedades utópicas caracterizam-se por promover: 1) a cooperação e o coletivismo (entre todos os membros da sociedade); 2) a elevação de valores éticos e morais (em que o respeito, o bem-estar social e a liberdade de expressão são, efetivamente, valorizados); 3) a educação, a ciência, as técnicas e a tecnologia (as quais são totalmente direcionadas para o bem-comum, isto é, são unicamente utilizadas para benefício de toda a humanidade e representam um património que intrinsecamente lhe pertence, fruto do conhecimento passado de geração em geração); 4) a harmonia social e ambiental (é obrigatório manter uma relação equilibrada do Homem com a natureza). Resumidamente, uma sociedade utópica é uma sociedade progressista, emancipatória e humanista. O termo original foi criado por Thomas More, no seu livro Utopia (1516), cujo significado é, literalmente, "lugar nenhum" (originário do grego ou = não, e topos = lugar), que nos remete para um ideal inalcançável. Metaforicamente, é como se caminhássemos para tentar alcançar o lugar mais distante na linha do horizonte (mas, simultaneamente, quando mais caminhamos, novos lugares vão surgindo no nosso campo de visão).

Na realidade, os dois conceitos, distopia e utopia, tal como já referido, remetem-nos para sociedades imaginárias. Porém, atualmente, estamos submersos em sociedades que parecem mais próximas de poderem ser consideradas distópicas do que utópicas. Um elemento-chave que ajuda a compreender este fenómeno é o facto de vivermos em sociedades-do-lucro-omnipresente-e-omnipotente. Nesta conjuntura, o Homem deixou de ser um fim em si mesmo (Kant teria rejeitado essa visão utilitarista e instrumental do ser humano) e esse lugar passou a ser ocupado pelo “deus lucro”. Porém, isso representa uma extraordinária (e inaceitável) inversão de valores sociais e morais.

Os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza.

É verdade que os problemas sociais, económicos, políticos e ambientais do mundo hodierno são complexos e estão profundamente interligados. Não raras vezes, estes tópicos são exacerbados pelo processo de globalização, incluindo todas as suas contradições. Um dos paradoxos mais evidentes na atualidade é pautado pela relação (desestruturante) entre capital e trabalho, embora vá muito além dela. A título ilustrativo, enumeramos alguns exemplos de problemas marcantes vividos no mundo contemporâneo, nomeadamente ao nível das desigualdades económicas e sociais: os dados atuais demonstram que os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza. As três maiores fortunas do mundo possuem um montante superior ao PIB de quase 60 países mais pobres. Isto significa que vivemos num mundo em que reina a injustiça social e se reproduz uma atroz assimetria na distribuição dos recursos produzidos, por via do trabalho, através da classe trabalhadora. Paralelamente, as últimas estimativas revelam que mais de 200 milhões de trabalhadores vivem na condição de pobreza extrema, ganhando o equivalente a, aproximadamente, 2 euros por dia. Sublinho que estamos a falar de trabalhadores, ou seja, alguém que trabalha, mas, ainda assim, não consegue sair da pobreza extrema. Apresento, como exemplo, um episódio real relatado por Vincent Gaulejac, na obra La société malade de la gestion, o qual indica que um empresário de uma multinacional recebeu 16,2 milhões de euros por ter tomado a decisão de encerrar 38 lojas dessa empresa e, consequentemente, enviado para o desemprego centenas de trabalhadores. Este montante, auferido devido a um único ato de gestão, representa o equivalente a mil anos de salário médio dos trabalhadores que foram demitidos. Surpreendentemente, o mesmo empresário, referiu que não se sentia bem pago para exercer aquela “tão dura profissão”. Vale a pena interrogarmo-nos: qual o valor que atribuímos ao trabalho para sustentar uma tão grande discrepância de rendimentos? Como podemos explicar e justificar esta insanidade, sem a apelidar como algo profundamente distópico?

Segundo os dados de um relatório recente da OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho. Também dados recentes indicam que o desemprego global se cifra em cerca de 210 milhões de trabalhadores desempregados. Isto representa uma verdadeira hecatombe social, política e económica. É igualmente pertinente referir que, ao nível global, as disparidades no acesso à educação, aos serviços de saúde, à habitação, à quantidade e qualidade da alimentação (fome e/ou má nutrição) e a empregos decentes são gritantes e evidentes. Por vezes, muitos destes aspetos têm como pano de fundo as diferentes formas de violência, cujo expoente máximo está normalmente associado aos conflitos armados, ou ainda a situações oriundas de crises ambientais e alterações climáticas.

Em relação a este último ponto, vale a pena ler o relatório da Oxfam International, publicado em outubro de 2025, cujo título é expressivo: “Saque Climático: como poucos poderosos estão a levar o planeta ao colapso.” Neste documento, é afirmado que o grupo dos 0,1% mais ricos do planeta polui, em apenas um dia, mais do que uma pessoa dos 50% mais pobres durante um ano inteiro. É também defendido que a crise climática é uma crise de desigualdade. Estes são alguns traços que nos levam a sugerir que o mundo atual está mais próximo da distopia do que da utopia.

Segundo a OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho.

Agora, imaginem que num futuro próximo seria criado um parlamento global. Esse órgão político transnacional estava a discutir uma legislação que iria proibir todas as formas de exploração entre seres humanos. Anteriormente, já tinham sido dados passos significativos nesta direção, considerando que há uns anos os lucros das empresas (que maioritariamente iam para os bolsos dos acionistas ou proprietários) não poderiam agora ultrapassar a margem de 5% do lucro total. Uma parte dos restantes 95% dos lucros era distribuída, equitativamente, por todos os trabalhadores da empresa e, a outra parte, era alocada para o Estado Providência do respetivo país. Naturalmente que neste novo modelo não existia a possibilidade de rutura ou de falência da segurança social. O desemprego era igualmente proibido, visto que o trabalho que cada um executa representa aquilo que cada trabalhador pode oferecer ao bem comum. Ninguém é tido como “inútil”, porque a existência e a dignidade não estão associadas à capacidade de produzir. Uma sociedade de pleno emprego, deste ponto de vista, traduz-se no limite máximo da qualidade de vida dessa mesma sociedade. Porque a divisão social do trabalho é justa e equitativa. Claro que haveria pessoas que não trabalhavam (no sentido estrito do termo), não porque não quisessem, mas porque, efetivamente, não podiam! Imaginem também que o mesmo parlamento global fazia a promoção plena da paz mundial e proibia todo e qualquer tipo de guerra armada. A fome, a pobreza e a exclusão social eram igualmente proibidas.

Estes tópicos direcionam-nos para aquilo que hoje designaríamos como uma sociedade utópica. A eliminação das desigualdades tinha sido possível porque as populações tinham compreendido, verdadeiramente, o que tinha estado na base da sua génese (para isso evocamos as sábias palavras de Jean-Jaques Rousseau sobre a origem das desigualdades humanas): “O primeiro [Homem] que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado o género humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!”

Para terminar, peço-lhe que recorra uma última vez à imaginação e faça a seguinte experiência mental: pense que está no cenário idealizado por John Rawls, desiganado por “véu da ignorância”, ou seja, não sabe antecipadamente qual será a posição social que lhe irá caber, quais serão as suas capacidades e aptidões naturais, qual será a sua identidade (em termos de género, etnia ou orientação sexual), nem quais serão as suas crenças religiosas, filosóficas ou até as metas de vida. Perante este contexto idealizado e ignorando totalmente as características em que seria colocado no mundo, caso tivesse de fazer uma escolha, escolheria viver numa sociedade distópica ou utópica?

categoria-opinião Exploração Imigração edicao-2025-11-27 (06)

“Abuso de hospitalidade”?

O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?

Na semana passada, o governo direitista de Portugal, pressionado pelo partido de extrema-direita fascista Chega, conseguiu pôr termo à possibilidade de imigrantes dos países dependentes virem trabalhar para Portugal. Até agora, era possível a muitos estrangeiros entrarem com um visto de turista e depois “manifestarem interesse” em trabalhar, acabando por obter autorização de residência. Agora, os imigrantes potenciais passam a ter de candidatar-se, nos seus países de origem, a vistos para trabalhar. Mas vejam só: a regra não é aplicável a candidatos a empregos “altamente qualificados”. Profissionais estrangeiros com “qualificações avançadas” continuam a poder entrar em Portugal para procurar emprego e trabalho desde que sejam contratados antes de o visto expirar. Analogamente, os trabalhadores “remotos” continuam a ser elegíveis para viver e trabalhar em Portugal.

As novas leis são notoriamente discriminatórias contra os imigrantes pobres dos países dependentes do Sul. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso? As estatísticas da Comissão Europeia indicam que a mão de obra migrante não enfraqueceu a economia portuguesa; fortaleceu-a! “800 mil imigrantes contribuem com mais de mil milhões de euros para o sistema de segurança social, ao passo que só recebem aproximadamente 257 milhões de euros em benefícios sociais, deixando um saldo positivo de mil e seiscentos milhões de euros”.

Há várias décadas que magotes de jovens deixam Portugal em busca de melhores oportunidades económicas noutros países da UE. Nos últimos anos, indianos, nepaleses e bengalis colmataram a lacuna deixada na força de trabalho portuguesa. Vêm trabalhar para explorações de frutos vermelhos no Alentejo agrícola. “Nós deixámos o nosso país. Jovens portugueses têm deixado o seu. Há quem não goste que nós cá estejamos, mas somos nós que estamos a revitalizar esta região e a fazer entrar cá muito dinheiro”, diz um trabalhador nepalês sob anonimato. “A razão principal por que Portugal tem visto aumentar o número de imigrantes é porque precisa deles”, diz Luís Pinheiro, ex-diretor da Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA). O sector agrícola português continua em expansão rápida, particularmente devido à procura cada vez maior de frutos silvestres, que depende principalmente de trabalhadores da Ásia Meridional. Em 2023, as receitas de exportação de bagas atingiram quase 300 milhões de euros, sendo a maioria enviada para supermercados alemães e britânicos. “Portugal tem uma grande procura de mão de obra em certas áreas de atividade económica, e estes migrantes continuam a chegar porque há procura de mão de obra”. Longe de ser abuso, a imigração tem sido um trunfo essencial para a economia portuguesa, particularmente em sectores-chave da agricultura e da indústria do lazer, assente em salários baixos, que correspondem a empregos que os cidadãos portugueses resistem a procurar, por os salários serem muito baixos. O atual salário mínimo é de apenas 820 euros por mês, que mal deixa a quem trabalha o suficiente para sobreviver. Depois de custear o alojamento, as dívidas e o envio de dinheiro para a família, muitos trabalhadores imigrantes ficam com apenas 100-150 euros por mês. Muitas destas aldeias e vilas ficam longe das cidades, no Alentejo, o que torna mais difícil documentar violações de direitos humanos e laborais. Muitos suportam condições extraordinariamente difíceis. “É uma espécie de militarização do trabalho. Tens de obedecer a tudo, mesmo que seja a coisa mais estúpida que se possa imaginar. Se trabalhas 12 horas, devias receber pagamento de horas extraordinárias; mas eles pagam apenas 6,50 euros e ainda queriam mais horas. Isso era para os trabalhadores permanentes. Imagina agora para os temporários”, diz o ativista laboral do Alentejo Alberto Matos.

Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia.

Shollomian, de Sylhet, no Bangladeche, que veio para Portugal com um visto de turista, trabalha numa quinta de frutos vermelhos em São Teotónio. Diz que trabalha entre 8 e 12 horas por dia, começando às 5-6 h da manhã. Foi-lhe dito que receberia uma autorização de residência no prazo de 12 a 14 meses, mas, 24 meses passados, continua à espera. Apesar disso, envia 100 a 400 euros à família sempre que pode e está otimista. “Vim para Portugal há dois anos quando vi anúncios de trabalho em Portugal nas redes sociais. Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia, em condições difíceis. Ganho 50 euros por dia. Temos de colher oito quilos por cada quatro horas. É dificílimo, na quinta faz muito calor, não nos dão água, às vezes sangro do nariz. Não nos dão comida, temos de trazer a nossa. Envio por mês 230-450 euros para a família, no Nepal. Ao fim de dois anos, continuo sem autorização de residência.”

“Há, atualmente, pelo menos, 400 mil pessoas, na sua maioria migrantes indianos e nepaleses, que aguardam renovação das suas autorizações de residência. Encontram-se numa situação muito vulnerável, porque os empregadores aproveitam-se. Não podem perder o emprego, por isso têm de aceitar todas as exigências dos empregadores”, afirma a Dra. Alexandra Pereira, bolseira de pós-doutoramento na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, especializada em migração nepalesa, particularmente para Portugal e a Europa.

A situação dos sul-asiáticos é perigosa, pois estão mais à mercê dos traficantes e das máfias que os trazem para Portugal e da exploração dos empregadores. No Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, há muitas agências que continuam a burlar e a lucrar à grande com os recém-chegados e migrantes com documentação insuficiente, convencendo-os a comprar serviços de que não precisam e fazendo-lhes crer que ainda é possível legalizarem a sua situação.

Ao fechar a porta à legalização, o Governo abriu o mercado negro de mão de obra humana. Muitos trabalhadores chegam profundamente endividados, depois de pagarem quantias exorbitantes para virem a Portugal com vistos de turista, de trabalho ou vistos UE expirados. Alberto Matos diz que os migrantes lhe contam que “bem, eu paguei 15 a 20 mil euros, na Índia, para vir trabalhar para Portugal. Eles endividam-se, têm de pagar as dívidas anos a fio, ficam escravos da dívida. As próprias famílias, no país de origem, são obrigadas a pagar a dívida e são ameaçadas pelas máfias locais”.

De acordo com a direção da Migração e Assuntos Internos da Comissão Europeia, “observou-se que a maioria das vítimas confirmadas de tráfico se enquadravam no tráfico de seres humanos para exploração laboral (72,8%); desses, 73,2% no sector agrícola”. As estatísticas são especificamente piores no Alentejo, onde se contaram 51,7% das vítimas confirmadas de tráfico de seres humanos em Portugal entre 2008 e 2021; dessas, 74,5% traficadas para fins de exploração laboral. “Devido à enorme extensão geográfica dos locais onde são colocados para trabalhar, geralmente no interior da região do Alentejo ou no Oeste do país, com condições de acesso difíceis, a deteção pelas autoridades responsáveis pela supervisão das condições de trabalho e permanência em Portugal é difícil.”

As grandes empresas frutícolas estão no âmago da situação. Como afirma Matos, “a Driscoll's controla Odemira inteira. Vendem as patentes e, pelo meio, há uma grande exploração. No fim da linha, dizem: ‘façam o favor de nos darem os frutos vermelhos, nós é que sabemos comercializá-los nos mercados internacionais.’ Costumamos dizer que a região de Odemira é uma espécie de barriga de aluguer da Driscoll’s.” Se há “abuso de hospitalidade”, como clama o primeiro-ministro Montenegro, quem abusa não são os imigrantes, são os empregadores.

Não tarda nada que gente como o Chega venha exigir a deportação de milhares de trabalhadores para os seus “países de origem”. Só que a situação económica e política no Bangladeche e no Nepal é horrenda. O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, embora o estilo de vida luxuoso das famílias políticas — roupas de marca, viagens ao estrangeiro e carros de luxo — contraste com a dura realidade que os jovens enfrentam. “Toda a gente se quer ir embora [do Nepal]. Há poucas oportunidades de emprego, crises políticas e económicas constantes; os jovens querem encontrar uma vida melhor, salários mais altos: as pessoas ganham 200 euros por mês.” Acrescem agora perigos reais. No mês passado, o governo do Nepal caiu e houve um golpe militar. A polícia matou 22 pessoas num protesto contra a corrupção.

A situação não é melhor no Bangladeche, país muitíssimo povoado. Há cerca de 37,7 milhões de pessoas em insegurança alimentar no país. Mais de um quarto das famílias endividam-se para suprir necessidades diárias, incluindo comida. Um inquérito do think tank South Asia Network on Economic Modeling mostrou que 28% das famílias recorrem a empréstimos para sobreviver. Quase duplicou o número médio de empréstimos por família. No ano passado, o exército e a polícia mataram mais de trezentas pessoas envolvidas em protestos contra o governo, até que a então primeira-ministra Hasina fugiu do país, levando milhares de milhões na bagagem.

Assim, as 400 mil pessoas que aguardam a renovação dos vistos não têm maneira de voltar para casa, ao contrário dos muitos portugueses que deixaram o seu país em busca de uma vida melhor e empregos melhores, mas podem regressar. Portugal precisa destes imigrantes, geralmente jovens e industriosos, e da sua mão-de-obra (e das suas receitas fiscais) para contribuir para sustentar quem vive no país. O que é necessário não são controlos de imigração rigorosos, enviesados contra os asiáticos pobres, nem deportações, que muito debilitariam a economia portuguesa. Necessário é que trabalhadores portugueses e imigrantes façam campanha juntos, com os sindicatos, para acabar com a exploração dos trabalhadores migrantes, aumentar o salário mínimo e melhorar as condições de trabalho para todos. Enquanto forem obrigados a trabalhar por salários baixos e em condições precárias, os trabalhadores imigrantes prejudicam a capacidade negocial de todos os trabalhadores em Portugal. É com este “abuso de hospitalidade” que temos de acabar, não aumentá-lo.

categoria-opinião edicao-2025-11-20 (05)

Cristina Vieira, a esfinge do Chega

"André, trocaste a palavra. É circuncidar e não cicatrizar."

Os tachistas oportunistas #2

A deputada do Chega Cristina Vieira continua silenciosa desde que foi eleita por este partido. A vida de deputado tem destas coisas. Há os que falam para dentro como papagaios e há aqueles que não podem falar nem para dentro, nem para fora, porque o líder os impede de abrir a boca. É que o chefe Venturão trata os seus deputados como números decimais e só ele tem direito a dizer as mentiras mais palpitantes. No outro dia, Cristina Vieira ficou estupefacta quando o chefão, pedindo a palavra no parlamento disse: “Temos de cicatrizar a sociedade portuguesa e podemos começar já pelo almirante Gouveia e Melo, que nasceu em Moçambique e teve uma ama muçulmana que usava burka e lhe lia o Corão.” Cristina Vieira riu-se para dentro dos seus ossinhos, mas soprou logo a palavra justa a um deputado com gosma que logo a lançou ao gordo Pedro Pinto que transmitiu sorrateiramente: “André, trocaste a palavra. É circuncidar e não cicatrizar.” Esta tolice provocou um riso geral no parlamento e até a barata Elvira, que é locatária há vinte anos da Assembleia da República, se mostrou a rir.

Cristina Vieira, antes de ser deputada pelo Chega, foi outra pessoa. Conhecia-a quando ela ia a umas noturnas tertúlias culturais em Sintra, de gente jovem, simpática, culta e de esquerda. O local de encontro, lembro-me, era num café muito perto do centro. Fui lá várias vezes e até me convidaram uma vez para apresentar um livro, e foi assim que a conheci. Ela estava muito bem integrada nesta marginalidade sorridente e tolerante. Todos sabiam que era médica e participava muito nos debates. Qual não foi o meu espanto e o espanto dos nossos amigos de Sintra quando a descobrimos deputada na Assembleia da República pelo partido Chega! O que te aconteceu, Cristina? Endoideceste ou foste à procura de um tacho fácil como os teus colegas de bancada? Saiu-te a lotaria, confessa. Já agora, diz-nos: porque é que estás com esses incultos, tu que leste Philip Roth, Orhan Pamuk, Garcia Márquez, Vargas Llosa, Elena Ferrante, e outros? Ao menos diz-nos o que te aconteceu.

Mas agora já não há remédio. Ultrapassaste as linhas vermelhas da decência, da ética e da responsabilidade cidadã e estás no meio dos monstros. Só te resta um caminho: sair. Renegar a aVentura: suja, odiosa, bárbara, falaciosa, fascista.


  1. Nas últimas eleições autárquicas, Cristina Vieira Henriques candidatou-se à Câmara de Óbidos e perdeu. O Chega recolheu 705 votos e não teve nenhum mandato.
categoria-opinião IA IA Degenerativa edicao-2025-11-13 (04)

Uma legião de zumbis

Controlar a “inteligência artificial degenerativa” é fundamental para conter o mais radical processo de alienação da humanidade.

As respostas estapafúrdias que a IA generativa frequentemente produz costumam provocar chacota, mas o assunto é sério demais para nos deixarmos levar apenas pela zombaria. O desenvolvimento desta tecnologia, deixado nas mãos dos comandantes das big techs e seus delírios supremacistas, conduz à mais radical alienação que jamais imaginamos.

Primeiramente, é preciso esclarecer que “inteligência artificial” é uma expressão equívoca, porque não é inteligência, qualidade própria da matéria orgânica, nem artificial, porque depende do trabalho humano para todas as fases fundamentais do treinamento dos modelos. Em recente entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, de São Paulo, o neurocientista Miguel Nicolelis insistiu neste ponto e ressaltou que esta indústria é hoje talvez a que mais emprega pessoas no trabalho semiescravo ao redor do mundo.

Esta denominação incorreta resulta de seu apelo publicitário, que facilita a obtenção de financiamento e se presta à “humanização” (e fetichização) dos robôs, como se não fossem fruto do engenho humano. É o que alimenta a discussão absolutamente estéril sobre se, afinal, eles vão suplantar-nos: a eterna, e falsa, dicotomia homem x máquina que acompanha o desenvolvimento tecnológico.

Trata-se de algo ainda mais grave que o impacto desta tecnologia sobre o mundo do trabalho: a progressiva delegação de tarefas intelectuais na máquina e a aceitação acrítica do que ela produz levam à corrosão da capacidade de pensar e contribuem para configurar um ambiente de permanente incerteza quanto àquilo em que se pode acreditar.

Podemos zombar de respostas estapafúrdias, mas deveríamos nos preocupar diante de outras perfeitamente credíveis. Recentemente, em sua página no Facebook, o jornalista Miguel Szymanski deu um notável exemplo de tentativa de fraude, quando confrontou a máquina com uma informação errada e ela lhe respondeu, após muito relutar: “formulei o texto para reforçar a ilusão de rigor e sustentar minha hipótese”.

Ou seja: tentou convencê-lo de que uma informação falsa era verdadeira.

No mundo acadêmico, proliferam tutoriais que ensinam a solicitar pesquisas entregues em minutos, alegadamente imunes a esse tipo de “erro”. Um texto desses servirá apenas de base para a elaboração de um trabalho próprio? Ainda mais numa atividade submetida ao produtivismo que é o critério da avaliação de desempenho?

É claro que não. Assim, em breve, os robôs vão se encarregar de gerar textos – ou qualquer outro material – a partir do manancial de fontes de que já dispõem, inventando outras, embaralhando tudo.

Isto é nada menos que o fim da pesquisa acadêmica. E o fim, também, da segurança sobre a legitimidade da autoria e da fidedignidade das informações, que nos conduzem a um estado de dúvida permanente, à maneira do que acontece com o que circula em moto contínuo nas redes sociais.

Pensemos então nas gerações “nativas digitais”, estimuladas desde antes de começarem a falar a se distrair nas telas de um telemóvel, o cérebro em formação acostumando-se a rolar as telas ininterruptamente, sem se fixar em nada.

Em sua entrevista, Nicolelis esclarece que não se trata de “negar as vantagens e benefícios da tecnologia”, mas de “entender os riscos que corremos ao delegar nossas funções cognitivas a elas”. Porque, “quando a gente começa a subcontratar a nossa mente para um sistema digital”, o cérebro vai entender que não precisa mais consumir energia para pensar. “E começa a subcontratar. E começa a esquecer. Começa a esquecer a forma de raciocinar”.

Será este o sentido mais profundo da expressão “inteligência artificial degenerativa”, cunhada pelo sociólogo Ricardo Antunes, que aponta “a necessidade imperiosa de controlar a inteligência artificial para que ela não seja destrutiva”.

Do contrário, só nos restará o deserto, habitado por uma legião de zumbis.

categoria-opinião OE2026 Saúde edicao-2025-11-13 (04)

O estado da saúde

A destruição das carreiras médicas (…) levou ao abandono de muitos médicos do SNS e ao recurso a tarefeiros.

“A cobertura universal da saúde é o conceito mais poderoso que a saúde pública tem a oferecer”
Margareth Chan, ex-diretora da OMS

O Serviço Nacional de Saúde universal, geral e gratuito é considerado como a maior conquista da Revolução de Abril, sendo um dos sistemas menos dispendiosos e o mais efetivo garante da equidade, identificando e intervindo nos múltiplos fatores determinantes da má saúde e da doença.

A situação da saúde em Portugal, vergonhosa durante o fascismo, com índices de saúde muito baixos, deu um salto quantitativo e qualitativo.

A mortalidade infantil, que em 1973 era de 44,8‰ passou para 2,6‰ em 2023; a mortalidade materna, que era de 59‰ em 2022 estava em 8,8‰. A Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2011, classificou o SNS português em 12.º lugar, entre os melhores a nível mundial.

O ataque ao SNS iniciou-se logo após a sua criação em 1979. A lei é aprovada com os votos contra do CDS e do PPD e votos a favor do PS, PCP, UDP e três deputados independentes, enfrentando uma greve convocada pela Ordem dos Médicos.

Esta atitude reforça-se com a ideologia neoliberal durante os governos de Cavaco Silva, nos anos 80 do século passado, com a política de destruição do Estado Social.

Os gestores foram ensinados a reduzir todos os atos médicos e cirúrgicos a números, consequência da gestão empresarial introduzida nos hospitais. O processo começou em 2002 com a criação das primeiras sociedades anónimas de capitais exclusivamente públicos e, mais tarde, convertidas em Entidades Públicas Empresariais, modelo que se generalizou à maioria dos hospitais.

O recurso à terceirização hospitalar, com a motivação de reduzir custos, ficou excessivamente dependente de empresas externas, com perda de controlo sobre a qualidade. Ela abrange vários serviços, desde limpeza e higiene até apoio logístico e administrativo, assim como sistemas de informação.

A contratação de empresas de trabalho temporário iniciou-se com o ministro Paulo Macedo (2011/2015) e o que seria um recurso temporário tornou-se permanente, na obsessão da diminuição da despesa. O resultado foi a criação do exercício de uma medicina desumanizada e, paradoxalmente, um enorme aumento da despesa (cerca de 213,30 milhões de euros).

A destruição das carreiras médicas, não valorizando a competência técnico-profissional para a designação de chefe de serviço, a introdução dos contratos individuais de trabalho e horários desfasados (25, 35, 42 horas) e horas extraordinárias durante a manhã (para diminuir custos), levou ao abandono de muitos médicos do SNS e ao recurso a tarefeiros.

A “grande” reforma do SNS, com foco nas Unidades Locais de Saúde (ULS) e na nomeação de um diretor executivo, baseou-se numa perspetiva “hospitalocêntrica”, que considero errada e resultou na descontinuidade de serviços, entre outros riscos.

Este modelo não melhorou o acesso e a eficiência (1 644 809 utentes sem médico de família), várias urgências de obstetrícia encerradas, o que levou à insatisfação dos cidadãos e dos profissionais de saúde.

A transição digital, para a qual 300 milhões de euros foram disponibilizados pelo PRR, tem de ser completa e mais bem gerida. O Processo Clínico Eletrónico/Registo de Saúde Eletrónico, propriedade do cidadão, proposto por várias associações há quatro anos, evitaria as falhas de comunicação entre os diferentes executores na saúde, e ainda não foi executado.

A IA pode ser útil na área de gestão e administrativa, aliviando os médicos de todo o trabalho burocrático e dando-lhes mais tempo para se dedicarem aos doentes. No entanto, ela não deve interferir na relação médico-doente (património imaterial da humanidade) que estabelece uma relação de confiança e empatia, essencial para um cuidado de saúde eficaz e humanizado.

O Orçamento de 2026 para a saúde é preocupante com um corte previsto de cerca de 208 milhões de euros que vai incidir fundamentalmente nas compras de medicamentos e material de consumo clínico.

O Executivo fala em “gestão eficiente”, mas no terreno a realidade é outra: serviços exaustos e profissionais desmotivados. O risco é claro: um SNS a encolher, empurrando mais portugueses para o setor privado.

Para reverter esta situação, é urgente criar carreiras médicas com remunerações condignas; incentivar a exclusividade; levar a cabo uma gestão democrática com eleições das direções clínicas; orçamentos reais e a expansão das unidades de saúde familiar (USF) com horários alargados.

categoria-opinião Gestor Mercados edicao-2025-11-06 (03)

Para que serve um gestor?

Nas últimas décadas, nas grandes empresas do capitalismo moderno, a figura do gestor agigantou-se. A paga dessa figura, então, como se agigantou!

Desculpe o leitor a pergunta estúpida.

Nas últimas décadas, nas grandes empresas do capitalismo moderno, a figura do gestor agigantou-se. A paga dessa figura, então, como se agigantou!

Dizem os dados1 que, entre 1990 e 2020, a proporção entre a remuneração global do chefe executivo duma grande empresa e a do seu trabalhador médio passou de 60 para 350 vezes nos EUA, de 40 para 150 vezes na União Europeia, e de 25 para 130 vezes em Portugal. Por outras palavras, em Portugal, o gestor médio passou a ganhar num ano o que o seu trabalhador médio ganha(ria) em 130 anos.

Se a pergunta em título já era estúpida, mais estúpida fica. Caramba, se o gestor não fosse necessário, digo, vital para a empresa, porque haveriam os investidores de lhe pagar tanto?! Pura evidência. Porque são os prados verdes, o enxofre, amarelo?

Mas há quem não se contente com evidências. Inevitavelmente, aparecem populistas a cacarejar objecções: ah, mas olha que, imagina, o gestor, doente em casa, os trabalhadores, na fábrica a laborar: produz-se, vende-se, lucra-se até. Agora, o gestor na fábrica, mas os trabalhadores doentes ou em greve: nada se produz, nada se vende, nada se lucra, sequer!

A desproporção entre a remuneração dos “gestores” e a dos trabalhadores (mesmo os mais qualificados) é reflexo do nulo papel que as necessidades humanas e os bens e serviços necessários para lhes responder desempenham na economia moderna.

Fantasias simplistas. Com aprumo e sem tossicar, o mínimo recém desavençado do Violas replicará: a proeminente posição, a correlativa proeminentíssima remuneração, do executivo, que, em português moderno, se diz CEO e se pronuncia “si e ão”, radicam na necessidade de ter alguém capaz de “liderar” uma organização tão complexa como uma empresa moderna; alguém capaz de assumir a responsabilidade (leia-se esta palavra como se tivesse vinte e quatro sílabas) pelos enormes riscos associados às grandes decisões que tal organização constantemente tem de tomar.

Assunto resolvido, então.

Seja. Mas uma vez começado um artigo, é preciso acabá-lo. Sejamos coca-bichinhos, para continuar a ter assunto. Vamos ao encontro de quem ficou insatisfeito e quer mais conversa.

O melhor é sempre um exemplo. Seja: uma empresa de aviação. Mais complexo, é difícil. Seja: a Boeing, americana. Maior, mais complexo, não há muito.

Subtraiamos ao nosso construtor de aviões os seus gestores. Vejamos o que sobra. Sobra quem sabe desenhar um avião e as suas diferentes partes? Sobra. Sobra quem sabe construir um avião? Sobra. Sobra quem sabe com quem falar para fazer certas peças necessárias e encomendá-las? Sobra. Sobra quem sabe verificar a qualidade das peças recebidas? Sobra. Sobra quem sabe montar o avião? Sobra. Sobra quem sabe ensaiar o avião? Sobra. Sobra quem sabe garantir a segurança do avião? Sobra. Sobra quem sabe avaliar, registar e controlar os custos das matérias-primas, peças, energia e mão de obra? Sobra. Sobra quem sabe melhorar e modernizar o desenho do avião quando for o tempo e o caso? Sobra.

Sobra então, na empresa, pós-subtracção dos gestores, tudo o que é preciso? Parece que sim. Mas, alto lá, calma! Não ficou demonstrado que os gestores também não sejam precisos, digo, vitais!

Os gestores podem ser necessários por uma necessidade que não venha propriamente de dentro da empresa de aviação. Nem de dentro do sector industrial da aviação. Nem sequer da contabilidade e da economia da fabricação de aviões. Podem vir de uma necessidade importantíssima que venha doutro lado!

Mas que lado?

Para investigar, voltemos à Boeing. Em 2018, a Boeing viveu um escândalo que quase a levou à falência (entre nós seja dito: só não faliu porque também era uma das principais empresas de armamento dos EUA).

Vinte anos antes, em 1997, a Boeing comprara a sua maior concorrente americana, a McDonell Douglas, tornando-se num quase monopolista da construção de aviões de passageiros.

Mas nessa altura aconteceu uma coisa inusitada. A cultura do novo colosso, em vez de manter a cultura dos “engenheiros tradicionais” da Boeing — afinal, a empresa compradora — passou a ser mais a da McDonell, a empresa comprada. Uma “cultura” aparentemente mais alinhada com os novos tempos.

Conta o semanário alemão Der Spiegel que o chefe da McDonell, Harry Stonecipher, feito n.º 2 do grupo fundido, achava que a construção de aviões dava pouco lucro em comparação com outros ramos. Confidenciou ele à revista, em 2001: “se você for um investidor, vai querer investir em empresas que cresçam 20% por ano, não 6%”.

A cotação em bolsa, que mede o “apetite” dos investidores, passou a principal critério de gestão da Boeing. Toca a cortar nas despesas de desenvolvimento de aviões. Toca a usar o dinheiro assim poupado para pagar dividendos aos accionistas (entre eles os próprios altos executivos, que recebiam parte do ordenado em acções e “opções”, de valor dependente da cotação). Entre 2013 e 2019, mais de 60 mil milhões de dólares foram assim “reafectados” (equivale a mais de um terço do PIB português da altura). Em 2018, só o ordenado do “si e ão” excedeu 23 milhões. E tudo corria bem no melhor dos mundos.

Em 2018 e 2019, ocorreram dois dos maiores desastres aéreos da história. Dois Boeing 737 Max, novo modelo acabado de desenvolver pela Boeing a partir do velho 737, despenharam-se. 346 mortos.

Foram-se conhecendo pormenores. As linhas aéreas consideravam que o novo modelo da Airbus europeia, o A320, era superior ao 737. Sobretudo, muito mais económico. Querendo competir, a Boeing ia ter de criar um modelo novo. Custo estimado: 20 mil milhões de dólares— mais muitos anos de desenvolvimento, mais longos ensaios, mais a formação dos pilotos.

Entretanto, a quota de mercado e a cotação da Boeing iam caindo.

Os gestores tomaram uma decisão: desenvolver uma coisa de que pudessem convencer o regulador ser um mero “upgrade” do velho 737, por meros 2500 milhões: punham-se-lhe motores novos, mais económicos; compensavam-se os inevitáveis desajustes do desenho global com software; e fintava-se a obrigação de formar pilotos. Cortavam-se à machadada custos e tempo2. Partes do software, por exemplo, foram subcontratadas na Índia, a nove dólares hora/programador.3

Apesar das sérias preocupações manifestadas por vários pilotos e linhas aéreas, apesar de solicitações explícitas de formação dos pilotos, a Boeing “dissuadiu-os”.

O manual do não-novo avião nem mencionava o novo software, a não ser no glossário…

Lição desta história? Os engenheiros e operários sabiam construir um avião sólido e fiável. Mas “o mercado”, pela voz dos gestores, não os deixou. Os engenheiros e operários sabiam que era preciso investir tempo e recursos para ter um produto seguro. Mas os accionistas, pela voz dos gestores, disseram-lhes: ai sim, então desempatamos o nosso capital e empatamo-lo noutras paragens.

Em nome do mercado e dos accionistas, os gestores sacrificaram a segurança dos passageiros.

Afinal, uma empresa privada existe porque os donos nela investiram capital com o objectivo de o multiplicar, não com o objectivo particular de construir aviões ou transportar passageiros. Para multiplicar capital, tanto servem aviões como gelados ou cocaína. Aviões não rendem? Tire-se de lá o capital, ponha-se na cocaína ou em gelados.

Não são precisos “gestores” para que quem sabe fazer aquilo de que a sociedade necessita o faça. Porém, sem gestores, o mercado não transmite os seus “sinais” para dentro da empresa. Sem gestores, os proprietários do capital da empresa não podem guiá-la por onde sejam melhores as oportunidades de aumentar esse capital.

O agigantamento social e monetário do gestor é, assim, simbólico do agigantamento da “tesoura” entre economia de mercado e necessidades humanas.

O gestor traz para dentro da empresa o poder do mercado e o poder do accionista. É simultaneamente delegado do mercado na empresa, portanto, delegado do interesse colectivo de todos os capitalistas; e delegado dos grandes accionistas/capitalistas específicos da empresa.

Do que ele não é delegado é da necessidade social em bens e serviços. Nem da capacidade técnica de produzir e melhorar a produção, seja de que bens e serviços for.

A desproporção entre a remuneração dos “gestores” e a dos trabalhadores (mesmo os mais qualificados) é reflexo do nulo papel que as necessidades humanas e os bens e serviços necessários para lhes responder desempenham na economia moderna.

Que surpresa que tudo isto dê numa fenomenal orgia de desperdício de recursos sociais, sem comparação possível com o desperdício burocrático na antiga União Soviética ou na China, porém muito mais falados, nem com as — porém badaladíssimas — ineficiências do SNS, do Estado português (e dos outros Estados), que enchem as capas dos jornais!

Eis para que serve um gestor.


  1. Do Economic Policy Institute americano, do Eurostat e do Banco de Portugal.
  2. Cf. Financial Times, Michael Skapinker, 14 de Dezembro de 2021.
  3. Cf. Der Spiegel de 1 de Julho de 2019.


categoria-opinião Guerra NATO Portugal Rearmarmento

Canhões ou manteiga?

O presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Armindo Monteiro, afirmou que, preparando-se os países da NATO para aumentar a despesa em matéria de defesa até 5% dos PIBs nacionais, Portugal devia converter algumas das suas fábricas à produção de armas. “Por que não dedicar a capacidade [do sector automóvel] à produção militar?”, questionou Monteiro.

Recentemente, o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Armindo Monteiro, afirmou que, preparando-se os países da NATO para aumentar a despesa em matéria de defesa até 5% dos PIBs nacionais, Portugal devia converter algumas das suas fábricas à produção de armas. “Temos de reativar algumas indústrias de defesa que ainda temos, mas sobretudo aproveitar algumas indústrias que estão plenamente operacionais e convertê-las. Um exemplo é o sector automóvel, que está a sofrer uma recessão; por que não dedicar essa capacidade à produção militar?”, questionou Monteiro, acrescentando ser relativamente simples transformar a fabricação de automóveis em fabrico de armas e que tal estava já a acontecer.

Mas será fabricar armas para a guerra a melhor maneira de Portugal e outros países europeus aumentarem a produção nacional e o emprego? As grandes potências parecem determinadas a transformar o mundo num imenso quartel. A despesa global com armamento ascendeu a 2,7 biliões de dólares no ano passado e está para acelerar. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs um plano de rearmamento da Europa (Rearm Europe), que visa mobilizar até 800 mil milhões de euros para financiar um incremento maciço da despesa com defesa. “Estamos numa era de rearmamento, e a Europa está pronta para aumentar maciçamente a despesa com a defesa.” Enquanto isso, a ameaça existencial representada pela emergência climática está a chegar a uma etapa crítica, devendo a comunidade internacional andar antes a mobilizar recursos dessa ordem de grandeza para a criação de uma economia pós-carbono.

“A questão de fundo é saber se estamos dispostos a aceitar que a corrida global aos armamentos é inevitável, e as alterações climáticas irreversíveis.”

Os governantes costumam argumentar que o aumento da despesa militar criará emprego e puxará pela economia. Então, mas para criar emprego, somos a favor de fabricar armas que servem para matar gente? O economista ortodoxo Maynard Keynes disse uma vez que, para puxar pela economia, “os governos deviam pagar gente para cavar buracos no chão e depois voltar a enchê-los”. O leitor ficará tentado a responder: “Mas que estupidez, não era melhor pagar para construir estradas e escolas?” Keynes responderia: “Está bem, paguem-lhes para construir escolas. A questão, aqui, é que não interessa o que façam, desde que o Estado crie emprego.”

Só que Keynes estava enganado. Interessa, sim. Se o tipo de empregos não interessasse, por que não aumentar drasticamente a produção de tabaco e promover o vício, assim criando emprego? A maior parte das pessoas opor-se-lhe-ia, por isso prejudicar diretamente a saúde. Ora, fabricar armas (convencionais e não convencionais) é extremamente prejudicial.

Não faltam produtos e serviços socialmente úteis que poderiam proporcionar emprego e salário aos trabalhadores. Infelizmente, muitos dirigentes sindicais apoiam as indústrias armamentistas porque muitos filiados seus nelas conseguem empregos seguros e bem remunerados, em que podem praticar orgulhosamente as suas competências especializadas. No entanto, diversificar a produção em detrimento do armamento poderia ser tão fácil quanto Monteiro pensa que é passar do fabrico de automóveis para o fabrico de tanques e bombas. Mais: teria maior potencial de criação de emprego. A produção de armas é particularmente intensiva em capital, gerando, por isso, menos empregos, em termos relativos, do que a produção civil. Um estudo norte-americano concluiu que, se o governo dos EUA investisse mil milhões de dólares em sectores civis alternativamente à produção militar, geraria até 140% mais emprego. Os investimentos em energia limpa, cuidados de saúde e educação criam também número muito maior de empregos em todas as faixas salariais, incluindo empregos de rendimento médio e alto.

Portugal tem um pequeno sector de produção de armamento, originalmente controlado pelo Estado para apoiar as forças armadas, particularmente durante as guerras coloniais do pós-1945. Essa estrutura acabou quando se deu a Revolução dos Cravos, em 1974-75. Atualmente, a indústria do armamento gera apenas 73 milhões de dólares por ano, correspondentes principalmente a sete grandes empresas privadas e cerca de trezentas micro, pequenas e médias empresas, que empregam apenas 32 mil pessoas, abarcando os sectores da aeronáutica, construção e reparação naval, têxtil, automação e robótica, metalurgia e desenvolvimento de software.

Em vez de apelar à expansão deste sector para satisfazer os objetivos bélicos da NATO e puxar pelos lucros das empresas privadas de armamento, como o presidente da federação empresarial portuguesa gostava, o governo português podia assumir o controlo pleno do sector e usar os recursos e as competências da força de trabalho para a produção civil, fosse de energias renováveis ou de desenvolvimento de inteligência artificial. São sectores que requerem competências idênticas e oferecem salários tão bons como a indústria de armamento. Seriam empregos melhores para os trabalhadores e para todos nós: postos de trabalho em indústrias que muito carecem de expansão e que não contribuem para um mundo mais perigoso, mas para um mundo mais seguro.

Nem sequer é certo que os trabalhadores atualmente empregados na produção de armamento se opusessem à mudança. Um estudo que perguntou aos trabalhadores da indústria armamentista se eles se opunham à diversificação indicou que os trabalhadores se dividiam; mas a mensagem forte que ficou foi que, para qualquer mudança, era preciso consultá-los. Eles detinham conhecimento indispensável em matéria do que fosse necessário fazer para tal diversificação.

Assim, propostas de redução da produção de armamento não podem vir de cima para baixo. Têm de dar voz e um papel aos sindicalistas, ouvir as ideias dos trabalhadores a respeito de planos alternativos praticáveis. O governo deveria criar uma agência para a diversificação que concebesse um programa de transição que, na reafectação a novos empregos, preservasse qualificações, empregos, salários e pensões.

Porém, a questão de fundo ainda é saber se estamos dispostos a aceitar que a corrida global aos armamentos é inevitável, e as alterações climáticas irreversíveis. Ou se, em alternativa, erguemos uma nova economia, assente nas orgulhosas tradições do movimento operário, de internacionalismo e luta pelo desarmamento, uma economia em que as qualificações dos trabalhadores possam servir para produções socialmente úteis, não para fazer armas de destruição maciça.

categoria-opinião Professores edicao-2025-10-23 (02) Educação

As palavras pesam: aura & educação

COLUNA VERTEBRAL

É triste quando um ministro – que é também professor – não compreende que, como escreveu Carlos de Oliveira (1921-1981), poeta e ficcionista que Alexandre não deverá nunca ter lido, “as palavras pesam, mais do que as lajes ou a vida”.

De facto, as palavras pesam. Aura é uma delas. Para Walter Benjamin é justamente a ausência da aura uma das causas daquilo que era já, no seu tempo, sintoma de decadência do Ocidente. Ou da cultura ocidental, com epicentro na Alemanha. Sem aura, a Europa estava refém, desde meados do século XIX, de uma mentalidade e de uma acção políticas sem qualquer outro fim que não o do lucro, o do mecanicismo mais soez. É justamente a aura (ou a auréola) o que cai no boulevard de Paris num conhecido poema de Baudelaire: aura como sinónimo de qualidade única e autêntica, inscrição no tempo e no espaço de um sujeito que transporta consigo uma presença. Uma presença de espírito. Baudelaire teria visto, segundo Benjamin, a Modernidade como tempo técnico em que tudo é mercadoria. O poeta, esse, no boulevard, depois da queda da aura, não volta atrás: na Modernidade técnica já não hipótese aurática de estarmos no mundo.

Fernando Alexandre tem da educação, como tantos outros responsáveis por esta tutela, uma concepção mecânica e instrumental da profissão de professor. O professor, para ele e a sua equipa, é um mero executor de tarefas ditadas de cima, dos superiores. A aura que um professor possa ter, perde-se, disse o ministro, quando o professor se manifesta na rua. Mas acontece que o direito à indignação existe e, no fundo, se olharmos para os últimos 25, 35 anos da educação em Portugal, foi justamente por sucessivas políticas educativas lesarem a aura dos professores que estes se transformaram em frágeis actores educativos. Criou-se mesmo, nas escolas e na universidade, uma mentalidade servil que garantiu a muitos professores a subida nas carreiras, a obtenção de lugares de chefia. O preço foi a perda da aura. Um professor, na verdade, se tem desta profissão uma consciência histórica, saberá que, em algum momento da sua vida de estudante, terá tido um ou outro professor que o marcaram precisamente porque as aulas tiveram aura.

Com livros, com memória e com coragem, o ensino público defende-se quando os professores têm a aura. Ou têm a coragem de dizer não à formatação em curso

No tempo em que vivemos, quando a atmosfera geral é de rarefacção das democracias e da liberdade nas escolas, julgo que estas palavras de Fernando Alexandre encerram um sentido que não posso desvincular de uma outra palavra que também tem peso: obscurantismo. A história do ensino e da cultura em Portugal é a história da luta de uns poucos homens e mulheres com aura contra os mandos e desmandos de decisores que detestam a aura desses poucos. Lembro um livro de Joaquim Barradas de Carvalho, O Obscurantismo Salazarista (Seara Nova, 1976), no qual o historiador elenca os muitos professores das mais diversas áreas que, no fascismo, foram perseguidos e, por via disso, se exilaram, emigraram, indo ensinar em escolas e universidades no estrangeiro. A lista de homens e de mulheres de sólida formação científica e cultural é enorme. Mas é em Isabel Aboim Inglês que se reúne a questão maior da perseguição dos regimes obscurantistas a figuras de grande craveira cultural e com aura. Proibida de ensinar na universidade, proibida de dirigir um colégio que fundou, a sua licença de ensino foi-lhe retirada. Igualmente foi perseguida ao ponto de deixar de facultar explicações privadas. Convidada a leccionar no Brasil, o fascismo cassou-lhe o passaporte. Tornou-se, para sustentar a sua família, costureira, morrendo pouco depois… A sua filha, professora também, igualmente mereceu o ódio da ditadura.

Sócrates, o filósofo, mestre de Platão, Jesus de Nazaré, mas também nomes capitais da cultura e da política nos últimos cem anos – de Anna Arendt a George Steiner, de Alain a Sartre, de Unamuno a Rafael Argullol, de Ernest Curtius a Umberto Eco – foram professores. Tinham a aura da comunicação com que as aulas se tornaram lugares do espírito, do encontro entre espíritos. De Gaulle, aquando das manifestações de Maio de 68, disse de Sartre, mestre de gerações de estudantes, o seguinte: “Não se pode calar Voltaire.” E na luta contra o obscurantismo fascista, Lindley Cintra, “o Príncipe”, linguista e homem de densa cultura – nunca hesitou em exercer a sua aura: defendeu, com risco físico, os estudantes que lutavam contra a guerra colonial e pela liberdade. David Mourão-Ferreira, Vergílio Ferreira, Maria de Lurdes Belchior, João Bénard da Costa, Paulo Freyre, eis alguns nomes da história da educação que detinham essa rara qualidade, esse raríssimo fogo da energia vital, essa singular autenticidade da alma a que chamamos aura. As aulas, senhor ministro, sem aura, são a “seca” de que os estudantes, com razão, se queixam. E, no fundo, os professores, tão desprezados nestes últimos 30 anos, para voltarem a ser professores, necessitam é que um ministro lhes fale da aura perdida e de como se pode recuperar essa aura.

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As suas palavras denunciam, em rigor, o desejo de que os professores sejam a carneirada obediente com que sempre os poderes contam para mandar e desmandar. Professores que se manifestam contra políticas que visam empobrecer a qualidade das aulas, justamente porque sabem que um professor com aura é um homem livre e consciente, e por isso perigoso porque se manifesta, isso é o que está por detrás da sua infeliz observação. Se puder, senhor ministro, leia As Lições dos Mestres. É um livro urgente para quem, tutelando a pasta da Educação num país onde nenhum político transporta a aura com que libertar o povo do ódio e da intriga que nos mina, diz que a aura se perde quando há manifestações.

Não, Fernando Alexandre, caro colega: mais do que nunca, com livros, com memória e com coragem, o ensino público defende-se quando os professores têm a aura. Ou têm a coragem de dizer não à formatação em curso. Um professor não pode ser um funcionário como Eichmann. Esse perdeu a aura e a alma. Nós não.

categoria-opinião Montenegro(político) Passos Coelho PSD Salazar edicao-2025-10-23 (02)

A reserva salazarista do PSD

Na “ânsia de ultrapassar o discurso de ódio de Ventura, a direita deixou-se enredar numa teia de saudosistas de Salazar”

Nos anos de maior pujança socialista, o PSD agarrava-se à reserva moral de Cavaco Silva, o algarvio apreciador de bolos que, durante 30 anos, ocupou os maiores cargos públicos da nação, mas insistia que não era um político profissional, antes um professor de economia.

O homem das maiorias e dos rios de fundos comunitários, despejados em estradas, era o D. Sebastião laranja nos anos de Sócrates e no período áureo da geringonça.

O país mudou, um pouco a reboque da Europa, e o Aníbal, já mais mumificado, deixou de servir como referência. Deu o seu lugar a Pedro Passos Coelho, o homem providencial que foi apeado do poder por uma geringonça, apesar de ter vencido as eleições.

Nos anos seguintes passou pela oposição até se afastar, definitivamente, depois de perder copiosamente as autárquicas de 2017, dando início ao reinado de Rui Rio.

Passos Coelho foi o pior primeiro-ministro de que me lembro na idade adulta e aquele que, provavelmente, mais impacto teve na minha geração. Não negando a fase difícil em que pegou no país (numas eleições forçadas pelo PSD, convém lembrar), mais do que gerir as exigências da troika, Passos Coelho destacou-se por ir além das exigências de bancos e seguradoras, numa constante tentativa de se mostrar um bom aluno aos olhos de Angela Merkel.

Fez o que ninguém lhe exigiu e, nesse caminho, congelou as carreiras públicas, condenando professores e demais trabalhadores a um empobrecimento garantido durante uma década. Disse, em altura de plena convulsão social, que os trabalhadores não podiam ser piegas e que as fronteiras da UE estavam abertas. A emigração como consequência do governo de Passos Coelho só tem comparação com a que aconteceu na década de 60, na fuga à guerra colonial.

Passos Coelho era um jotinha com um currículo absolutamente miserável que, perto dos 40 anos, resolveu concluir um curso numa privada qualquer, para não andar nos bastidores da política com o 12.º ano e uma vida a abanar bandeirinhas. Fez o percurso clássico desde as jotas: parlamento, oposição, liderança do partido e acesso ao poder. Um percurso sem estudo ou entrevistas de trabalho, mas carregado de bastidores e amizades nos sítios certos.

Quando a geringonça de António Costa deixou Passos Coelho fora da cadeira do poder, ainda ali existia um político moderado de direita que, mesmo depois de abandonar a política ativa e ir dar aulas, não sei bem de quê, parecia estar em paz com a vida. Admito, de antemão, que a forma como a geringonça o atropelou possa ter causado um trauma que, à primeira vista não era óbvio. Pelo menos para mim.

Montenegro tratou de acabar com as linhas vermelhas e dedicou estes primeiros meses do mandato às políticas do Chega.

Rui Rio pegou no PSD e viu o crescimento da extrema-direita, traçando e respeitando sempre as linhas vermelhas no contacto com o partido fascista. Montenegro, quando sucedeu a Rio, ainda manteve o discurso do cordão sanitário ao Chega, numa altura em que vozes no PSD já defendiam o contrário.

Foi aqui que Passos Coelho começou a escolher os momentos para aparecer e deixar linhas orientadoras para o futuro, transformando-se no novo D. Sebastião laranja. Lembram-se, nos governos de António Costa, de que ex-vergonha laranja, entretanto recuperado pela CNN como senador, ia defendendo que o cordão sanitário não fazia sentido e que era necessário falar com o Chega? Miguel Relvas, o companheiro de Passos Coelho, mestre das equivalências e camarada da Tecnoforma.

O próprio Passos Coelho, nas raras aparições, reforçava essa ideia, dando a entender que o futuro, como ele o via, não incluía o combate ao fascismo, mas sim um abraço de consensos. Embora tenha achado Passos Coelho um péssimo primeiro-ministro, em 2017, quando ele se afastou, não era esta a ideia que tinha dele. De um pequeno ditador escondido no armário.

Não sei se o azedume da geringonça durante estes anos ou, eventualmente, a morte da mulher, transformaram o homem e, por arrasto, o político, mas o que vejo, sempre que Passos aparece nos dias de hoje, é um parceiro de jogo perfeito para Ventura.

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A reserva moral do PSD, que já foi um partido com gente decente, é alguém que diz que por este andar, qualquer dia os Portugueses sentem-se imigrantes no seu próprio país. Ele, logo ele, que nos incentivou a fazer as malas e aliviar o erário público. É preciso ter uma lata fenomenal ou estar a dormir, todas as noites, com pijamas banhados a ódio e formol.

Montenegro, que apesar de rural (como diz o nosso Marcelo), não é propriamente estúpido, tratou de acabar com as linhas vermelhas e dedicou estes primeiros meses do mandato às políticas do Chega. O objetivo, assumo, é esvaziar, em simultâneo, o saco de Ventura e Passos Coelho.

De repente, é curioso constatar, nesta ânsia de ultrapassar o discurso de ódio de Ventura, a direita deixou-se enredar numa teia de saudosistas de Salazar. E é indiferente o alcance da nossa observação. Chega, IL, CDS e PSD estão embrulhados num discurso que, além da naftalina, já não é original. E se algo falhar, ficamos todos com a sensação de que Passos está ao virar da esquina para ajustar contas com o passado e partir o pouco que estes ainda não conseguiram.

Nunca a esquerda foi tão necessária e, ao mesmo tempo, quase inexistente. Tem de ser o povo, novamente, a ir para a rua.

categoria-opinião Portugal Viriato edicao-2025-10-16 (01)

Os complexos comportamentais dos Portugueses

DÚVIDA METÓDICA

Segundo Camões, a Lusitânia, donde os Portugueses derivariam por continuidade histórica, evidencia-se como a diferença específica entre a "Espanha" e Portugal; e Viriato, como chefe da Lusitânia, surge igualmente e consequentemente como pai histórico ancestral dos Portugueses.

Complexos comportamentais são atitudes constantes que, nascidas e desenvolvidas historicamente, impregnam os hábitos coletivos dos Portugueses. São quatro os complexos comportamentais: 1) o complexo viriatino, retrato do português “puro”, a “essência” do português. Imagem nascida no Renascimento; 2) o complexo vieirino, o português que, por via do seu grandioso passado no século XVI, se concebe no futuro de novo um povo superior (o Quinto Império); 3) o complexo pombalino, a crença de Portugal ser construtivamente um povo atrasado e que só poderá desenvolver-se indo buscar capital e tecnologia à Europa; 4) o complexo canibalista, que evidencia que, tendo vivido moderna e contemporaneamente sob uma constante repressão, desenvolveu para com o outro atitudes negativistas, fundadas na humilhação, na delação, na inveja.

1 - VIRIATO – Origem exemplar de Portugal

No justo momento histórico em que Portugal inicia o processo de declínio do império, na segunda metade do século XVI, desponta a imagem de Viriato como símbolo da origem exemplar de Portugal.

Resgatada dos fundos da história por Sá de Miranda, a imagem de Viriato dá corpo à crítica deste autor aos modos culturais dominantes em Portugal na segunda metade do século XVI, imagem que, quatrocentos anos depois, os republicanos figuram no Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro, e o Estado Novo recupera na sua visão fantasmática e delirante da história de Portugal com o cognome de “Pai da Pátria”.

Com efeito, no final do período da Expansão, são literariamente traçados os contornos simbólicos da dupla imagem viriatina que até aos nossos dias iluminará a figuração histórica deste chefe lusitano. Neste aspeto particular, as mais importantes referências histórico-literárias que se encontram, neste período, são as de Sá de Miranda e de Luís de Camões. Com efeito, são estes dois autores que, possivelmente fazendo-se eco da leitura de traduções italianas e portuguesas dos autores latinos que abundavam no Renascimento, fixarão a imagética que, desde então, por afirmação reiterada (Frei Bernardo de Brito, Brás Garcia Mascarenhas, Teófilo Braga, Mendes Corrêa/A. Schulten, João de Barros) ou por negação absoluta (Alexandre Herculano, António Sérgio, Amílcar Guerra/Carlos Fabião) têm composto o conjunto de vetores simbólicos sintetizados na dupla imagem histórico-mítica de Viriato.

Esta dupla imagem pode ser sintetizada do seguinte modo:

  1. Destacam-se na imagética clássica viriatina os traços míticos do "patriarca" ou "pai da pátria", enquanto seu fundador longínquo, espécie de raiz primordial de Portugal, que Fernando Pessoa, no século XX, cristalizará designando Viriato como figura de "antemanhã", uma espécie de sol nascente eticamente exemplar, cuja lisa conduta face aos seus companheiros e face ao estrangeiro se constituirá como paradigma moral para os Portugueses de sempre. Delineia-se aqui a imagética moral de Viriato, que Sá de Miranda acentuará;
  2. A imagem histórica de Viriato surge também como padrão militar heróico cujo exemplo ressoará e será imitado pela longa genealogia de homens ilustres que compõem o destino guerreiro de Portugal. Delineia-se neste caso a imagética de exemplar bravura militar face a inimigos poderosos e às adversidades de Portugal, que Luís de Camões acentuará fortemente.

Em Sá de Miranda, encontramos uma importante referência a Viriato na "Carta a António Pereira, Senhor do Basto, Quando se Partiu para a Corte co’a Casa Toda". Leiamos um excerto desta "carta", redigida em data incerta, mas sempre depois de 1529/30 (casamento e instalação de Sá de Miranda no Minho):

Como eu vi correr pardaus
Por Cabeceiras de Basto,
cresceram cercas e gasto,
vi, por caminhos tão maus,
tal trilha e tamanho rasto.
Logo os meus olhos ergui
à casa antiga e à torre,
e disse comigo assi:
"Se Deus não nos val aqui,
perigoso imigo corre!"
Não me temo de Castela,
donde inda guerra não soa;
mas temo-me de Lisboa,
que, ao cheiro desta canela,
o Reino nos despovoa.
E que algum embique e caia,
(afora vá o mau agouro!)
falar por aquela praia
da grandeza de Cambraia,
Narsinga das torres d’ouro!
Ouves, Viriato, o estrago
que cá vai dos teus costumes?
Os leitos, mesas e os lumes,
todo cheira: eu óleos trago;
vem outros, trazem perfumes.
E ao bom trajo dos pastores,
com que saíste à peleja
dos Romãos tam vencedores,
são mudados os louvores;
não há quem t’haja enveja.

Sá de Miranda socorre-se da figura de Viriato como arquétipo moral de Portugal, evidenciando por contraste uma acelerada dissolução de costumes sociais trazida pela riqueza quinhentista proveniente da "canela", dos "pardaus" (moeda corrente na Índia) e pela atração mirífica de "Cambraia" e "Narsinga". Assim, Sá de Miranda focaliza a imagem de Viriato comparando o carácter impoluto e heroico deste, que, usando o "trajo dos pastores" (indício semântico de simplicidade e austeridade), saiu dos "Romãos" vencedor, com o carácter dos portugueses de Quinhentos que, "ao cheiro desta canela", atraídos pela riqueza do Oriente, "o Reino nos despovoa". Ou seja: se os Portugueses persistirem no exemplo espartano de Viriato, serão vencedores de outros povos; mas se se abandonarem ao uso de "perfumes", correndo atrás de "pardaus", só se salvarão se "Deus" os valer "aqui", onde o "imigo" é o próprio português.

A escrita desta "carta", na primeira metade do século XVI, num tempo em que a nobreza do interior de Portugal abandonava as quintas e os solares para assumir uma função meramente cortesã, sem um útil papel social, cristaliza definitivamente a imagem mítica de Viriato como paradigma moral da nação, figura de pastor impoluto que, devido às suas qualidades exemplares, dificultara longamente o domínio romano na Península Ibérica.

Em Os Lusíadas, escrito na segunda metade do século XVI (1.ª edição 1572), Luís de Camões fixa definitivamente a segunda vertente imagética da figura histórico-mítica de Viriato. Camões representa Viriato como "patriarca" militar dos Portugueses, modelo originário e motor de heroísmo a partir dos quais se conformam todos os feitos ilustres dos Portugueses, seja enquanto defesa bélica do território português, seja enquanto promotor "da lusitana antiga liberdade" (I, 6), isto é, dos valores da liberdade e independência nacionais, seja, ainda, enquanto exemplo militar e moral dos feitos que os Portugueses cometiam nos "novos mundos" do mundo. No "Concílio dos Deuses", do Canto I, Camões põe no discurso de Júpiter a descrição daquela "forte gente" que eram os Portugueses:

"Eternos moradores do luzente,
Estelífero pólo e claro assento,
Se, do grande valor da forte gente
De Luso não perdeis o pensamento
Deveis de ter sabido claramente,
Como é dos fados grandes certo intento,
Que por ela se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
"Já lhe foi (bem o vistes) concedido,
C’um poder tão singelo e tão pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Pois contra o Castelhano tão temido
Sempre alcançou favor do céu sereno;
Assi que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve os troféus pendentes da vitória.
"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
Que co’a gente de Rómulo alcançaram,
Quando com Viriato, na inimiga
Guerra romana, tanto se afamaram;
Também deixo a memória que os obriga
A grande nome, quando alevantaram
Um por seu capitão, que, peregrino,
Fingiu na cerva espírito divino.
(I, 24 - 26)

Júpiter declara que os Portugueses já venceram o "Mouro forte e guarnecido" e o "Castelhano tão temido" e, numa autêntica viagem no tempo, que reflete o saber histórico renascentista, recua a Viriato e a Sertório (este identificado pela lenda da "cerva" ou corça, que o seguiria e lhe sussurraria ao ouvido as táticas militares romanas – três últimos versos). Nestas estâncias, a figura de Viriato é moldada historicamente segundo a "fama antiga" que os Portugueses levantam, vencendo sempre os seus inimigos: os Romanos enquanto ainda Lusitanos, posteriormente os Mouros e os Castelhanos. E se estes povos surgem como os três inimigos dos Portugueses na constelação imagética de Camões, as três figuras "heróicas" deles vencedores são Viriato (I, 26), D. Afonso Henriques (III, 30 a 84) e Nuno Álvares Pereira (IV, 13 a 50).

No Canto III, o discurso de Vasco da Gama ao "rei" de Melinde permite uma caracterização ainda mais clara da figura de Viriato no imaginário camoniano. Vasco da Gama trata, em primeiro lugar, da "larga terra" (III, 5), relatando elementos identificadores da geografia humano-mítica da Europa (III, 6-16); seguidamente, caracteriza a própria Europa (III, 17-19), e, finalmente, descreve Portugal, designando-o como "Reino Lusitano" (III, 30), "Ditosa pátria minha amada" (III, 21). Assim, depois de Camões concentrar geográfica e literariamente o Mundo na Europa, a Europa na "Espanha" e esta em Portugal, trata-se agora de saber como estabelecerá a mais antiga, primitiva e originária separação entre "Espanha" (no sentido da totalidade da Península Ibérica) e Portugal. E a resposta vem logo na estância seguinte:

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
de Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os íncolas primeiros.
Desta o Pastor nasceu, que no seu nome
Se vê que de homem forte os feitos teve,
Cuja fama ninguém virá que dome,
Pois a grande de Roma não se atreve.
Esta, o velho que os filhos próprios come,
Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
Veio a fazer no mundo tanta parte,
Criando-a Reino ilustre, e foi desta arte:
(III, 21-22)

Assim, segundo Camões, a Lusitânia, donde os Portugueses derivariam por continuidade histórica, evidencia-se como a diferença específica entre a "Espanha" e Portugal; e Viriato, como chefe da Lusitânia, surge igualmente e consequentemente como pai histórico ancestral dos Portugueses. Por isso, o nome de "Viriato" não pode ser um nome comum, mas, como o de todos os "patriarcas", tem de possuir um significado simbólico e ontológico refletor da sua imagética mítica: Camões aponta, nos dois primeiros versos da estância 22, a origem etimológica do nome de "Viriato" como proveniente do substantivo latino vir, viris, designando homem forte, nobre, ilustre. Deste modo, a figuração lendária de Viriato surge, em Camões, como o elemento distintivo ou o primeiro marco histórico-mítico que terá originariamente retirado Portugal da indeterminação geográfica (a "Espanha") e da indeterminação temporal, e que, como modelo e fermento, ecoará na geração de heróis cujos feitos, seguindo o seu exemplo, originou o Portugal das Descobertas. É justamente por esta identificação territorial entre a região dos Lusitanos e Portugal e por esta identificação moral e militar, ambas de natureza mítico-imagética (isto é, sem fundamentação em fontes históricas seguras), que Camões se permitirá designar abundantemente Portugal por "Reino Lusitano" e os "Portugueses" por "Lusitanos". Porém – e esta distinção é muitíssimo importante – Camões não inverte a ordem dos termos, designando os "Lusitanos" por "Portugueses", tornando historicamente indistintos ambos os povos, o que só acontecerá 25 anos depois, na "Parte I" da Monarquia Lusitana de Frei Bernardo de Brito (1597).

Se, em Sá de Miranda, o apelo à figura de Viriato é envolvido de considerações morais e se, em Luís de Camões, a imagética viriatina funciona como uma espécie de certidão de nascimento heróico de Portugal, embora ambos os autores possuam uma vinculação ideológica à atmosfera do poder político ligado à Expansão, seja utilizando o nome de Viriato para a glorificação desta (Camões), seja para a sua crítica moral (Sá de Miranda), os autores que, de um ponto de vista cronológico, tratam imediatamente a seguir o tema de Viriato e dos Lusitanos, Frei Bernardo de Brito e Brás Garcia Mascarenhas, possuem já uma perspetiva muito diferente.

De facto, o tornado ideológico em que consistira a derrota de D. Sebastião em Alcácer Quibir, em 1578, a consequente perda da independência de Portugal, em 1580, e a aclamação de Filipe II de Espanha como Filipe I de Portugal nas Cortes de Tomar, em 1581, possuem fortíssimas repercussões na imagética histórico-mítica de Viriato, que a literatura exprimirá muito solidamente. Enquanto em Sá de Miranda e Luís de Camões, como vimos, era postulada uma genealogia moral, militar e territorial entre os Lusitanos e os Portugueses, o que provocava semelhante identificação entre Viriato e os Portugueses "ilustres", nos dois autores seguintes, um sob o efeito da perda de independência de Portugal (Frei Bernardo de Brito), outro sob o efeito da Guerra da Restauração (Brás Garcia Mascarenhas), de que foi um "herói", estas genealogia e identificação propostas no século XVI são de tal modo absolutizadas e extremadas que, verdadeiramente, a identificação entre "Lusitanos" e "Portugueses" deixa de ser apenas moral e militar, de natureza genealógica e mítica, e passa a ser total: os Lusitanos são os Portugueses de antigamente e os Portugueses coevos são os Lusitanos de antigamente. Assim, em Frei Bernardo de Brito e em Brás Garcia Mascarenhas, nos livros Monarquia Lusitana e Viriato Trágico, respetivamente, os lusitanos que combatem os romanos são amiúde designados por "Portugueses", estabelecendo-se deste modo uma continuidade histórica real e factual que não só não estava contida em Sá de Miranda e em Luís de Camões, como igualmente nenhuma fonte documental objetiva podia então (como hoje) comprovar. Foram as profundas alterações motivadas pela ocupação castelhana de Portugal, no caso de Frei Bernardo de Brito, e pela Restauração, no caso de Brás Garcia Mascarenhas, que provocaram uma idêntica alteração na imagem literária de Viriato. Por isso, se em 1572, Luís de Camões apenas usa uma vez o qualificativo de "liberdade" para caracterizar a ação dos Lusitanos (I, 6), em 1597, Brás Garcia Mascarenhas usa abundantemente expressões como "livre" e "liberdade" para qualificar a ação dos Lusitanos. A repercussão das alterações do poder político nacional na construção semântica da narrativa histórico-literária de Frei Bernardo de Brito torna-se, por vezes, tão manifesta que, intercalada na descrição das façanhas dos Lusitanos ditos "portugueses", este autor não se coíbe de evidenciar intenções político-ideológicas totalmente exteriores ao fio narrativo.

Assim, das obras de Sá de Miranda, Camões, Bernardo de Brito e Brás Garcia Mascarenhas, reflexo de um Portugal decadentista, nasce a imagem de Viriato como exemplo moral e militar, imagem recorrente e complexo histórico de que os Portugueses se socorrem sempre que, em momentos de crise, se sentem ameaçados na sua identidade histórica e cultural.

categoria-opinião Doenças da miséria Inflação Reaparecimento de doenças

O ressurgimento de uma doença de outros tempos: o escorbuto ou a peste do mar​

Retrato da França (1)

O ressurgimento de doenças como o escorbuto, a tuberculose e a sarna em países ricos revela a crescente desigualdade na repartição da riqueza gerada pelos trabalhadores.

O escorbuto é uma doença provocada por uma carência profunda e prolongada em vitamina C que tinha sido praticamente erradicada no século XX nos países industrializados, principalmente na Europa. O escorbuto pode ser responsável, entre outros sintomas, por dores ósseas intensas e uma fraqueza muscular invalidante, hemorragias da pele e das gengivas e uma alteração do estado geral, podendo, na ausência de tratamento (absorção de vitamina C) levar à morte. Segundo um estudo levado a cabo por uma equipa de pediatras hospitalares franceses em colaboração com investigadores do INSERM e publicado em 6 de dezembro de 2024 na revista científica inglesa The Lancet Regional Health – Europe, o reaparecimento desta doença é preocupante, revelando as possíveis consequências do aumento da precariedade socioeconómica na situação nutricional das crianças em França.

Abrangendo dois períodos distintos, pré-pandemia (2015-2020) e pós-pandemia (2020-2023), o estudo integrou factores socioeconómicos como a malnutrição severa ou o índice de preços ao consumo. O aumento de casos de crianças hospitalizadas com escorbuto desde 2015 (888 casos diagnosticados no conjunto do território francês) foi mais importante no período pós-pandémico: entre 2020 e 2023, o aumento acumulado foi de 34,5% tendo mesmo atingido 200% nas crianças com idade compreendida entre 5 e 10 anos. Incidindo apenas nas crianças hospitalizadas, o número de casos diagnosticados pode não ser significativo do total de casos de escorbuto em França.

Porque é que, em meados da segunda década do século XXI, uma doença do passado ressurge naquela que é considerada a sétima potência mundial e a segunda da União Europeia? Se o escorbuto era conhecido como a doença dos corsários ou a peste do mar, é porque ela atingia os marinheiros, privados durante as longas travessias do mar, de fruta e legumes. Uma outra população atingida era a população carcerária – donde a expressão ainda hoje em voga em França, de “levar laranjas aos reclusos” – pelas mesmas razões: a carência de vitaminas e, neste caso de vitamina C. É a razão pela qual os autores procuraram relacionar a evolução do escorbuto com a da malnutrição severa e esta com a inflação, incidindo em particular sobre os bens alimentares e, no seio destes, sobre os alimentos frescos.

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Sem que se possa estabelecer uma correlação a 100%, na medida em que o fenómeno poderá também decorrer de maus hábitos alimentares, o certo é que, durante o mesmo período, a malnutrição severa aumentou de 20% em França. No caso das crianças hospitalizadas após março de 2020, 22,6% sofriam de malnutrição severa, 4% de disfuncionamentos autísticos e 5% de anorexia, ou seja, patologias que também podem explicar uma nutrição deficiente. Posto isto, é difícil não ver neste aumento da malnutrição os efeitos devastadores da inflação que assolou a França e, para além desta, uma grande parte do mundo no pós-pandemia, devido à desorganização das redes de abastecimento, num primeiro tempo, e à guerra na Ucrânia e às sanções à Rússia, num segundo tempo, com o consequente aumento dos preços da energia (e outras matérias-primas), difundindo-se ao conjunto das economias.

Por fim e mesmo depois do aumento de preços decorrente destes factores ter sido absorvido, continuaram a verificar-se evoluções exponenciais de preços, particularmente no que concerne aos bens alimentares e de primeira necessidade, reflectindo a voracidade das cadeias de produção e distribuição para manter ou elevar as margens. Neste contexto e na ausência de indexação dos salários à inflação, verificou-se uma quebra dos rendimentos reais dos trabalhadores, mais importante no caso dos de baixos rendimentos, onde o peso da alimentação na estrutura dos consumos é mais elevado. Não é, por conseguinte, de admirar que o consumo de bens alimentares tenha caído em 2023 de 11,4% em volume e que, em 2024, oito franceses em cada dez ganhando o salário mínimo ou um rendimento inferior declare não ter meios para alimentar correctamente os filhos.

O escorbuto não é a única doença do passado a cujo ressurgimento assistimos em França. De há alguns anos a esta parte vimos surgir outras doenças que tinham sido erradicadas nos países desenvolvidos, como a tuberculose e a sarna. À semelhança do escorbuto, trata-se do que podemos chamar doenças da miséria, que, surgindo em países ricos, revelam a crescente desigualdade que preside à repartição da riqueza gerada pelos trabalhadores.


*Economista. A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

No próximo artigo, “O aumento da mortalidade infantil em França”.

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Imaginar uma sociedade onde o poder não reside no trono dos reinos, nas presidências vazias ou nas secretarias cheias de burocratas pode ser uma tarefa interessante, caso seja acompanhada da necessária visão crítica.

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