categoria-opinião

Até sempre, Mariano! Raquel Varela
categoria-opinião Estivadores Mariano Sindicalismo edicao-2026-01-29 (13)

Até sempre, Mariano!

Na morte de António Mariano, que presidiu ao Sindicato dos Estivadores e à frente deste travou grandes lutas contra a precariedade, com vitórias e derrotas, Raquel Varela recorda o amigo e companheiro de algumas dessas batalhas.

Raquel Varela
Uma peça de teatro “escandalosa” Miguel Real
categoria-opinião Ópera Teatro

Uma peça de teatro “escandalosa”

Wagner, a Arte da Fuga, de Ana Rocha, descreve as ideias musicais e políticas do jovem Wagner em 1849, aquando da sublevação da população de Dresden contra o rei da Saxónia, e o seu encontro com personagens como Bakunine e Marx.

Miguel Real
Quando o jornalismo de mãos limpas afia o lápis azul Sylvia Debossan Moretzsohn
categoria-opinião Instrumentalização Jornalismo

Quando o jornalismo de mãos limpas afia o lápis azul

No jornalismo, os factos são essenciais, mas o fundamental é “os sentidos que possam ter”.

Sylvia Debossan Moretzsohn
O deputado que viaja para o passado Manuel da Silva Ramos
categoria-opinião Chega Deputado edicao-2026-01-15 (11)

O deputado que viaja para o passado

Manuel Magno Alves foi eleito pelo círculo eleitoral Fora da Europa e é um senhor baixinho e parece que não mexe uma palha. De longe, parece um desses campónios que vieram com bosta nos sapatos para conquistar a cidade, mas trazem sempre com eles um cheiro a vacas leiteiras

Manuel da Silva Ramos
Luís Portilheiro, o desejável Manuel da Silva Ramos
categoria-opinião Autarca Chega edicao-2026-01-08 (10)

Luís Portilheiro, o desejável

Candidato do Chega à União das Freguesias de Sé e São Lourenço em Portalegre, este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem.

Manuel da Silva Ramos
Portugal e estas eleições, ou um país doente António Carlos Cortez
categoria-opinião Legislação laboral Motoristas edicao-2026-01-08 (10)

Portugal e estas eleições, ou um país doente

Vivemos, argumenta o autor, “o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos” porque “os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário”.

António Carlos Cortez
Aumentar o tempo de trabalho dos motoristas? Rita Garcia Pereira
categoria-opinião Legislação laboral Motoristas edicao-2025-12-18 (09)

Aumentar o tempo de trabalho dos motoristas?

Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.

Rita Garcia Pereira
Uma Igreja Católica de uns contra os outros Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião Igreja Mulheres edicao-2025-12-18 (09)

Uma Igreja Católica de uns contra os outros

Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.

Pe. José Luís Rodrigues
Quando o país vai bem, e o povo, mal, The Economist condecora Portugal Adriano Zilhão
categoria-opinião Portugal Economia edicao-2025-12-18 (09)

Quando o país vai bem, e o povo, mal, The Economist condecora Portugal

Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.

Adriano Zilhão
Quando pimenta no pacote (laboral) alheio é refresco Tiago Franco
categoria-opinião Pacote Laboral Propaganda edicao-2025-12-18 (09)

Quando pimenta no pacote (laboral) alheio é refresco

Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho.

Tiago Franco
A IA e a loucura ferroviária Michael Roberts
categoria-opinião IA Economia edicao-2025-12-12 (08)

A IA e a loucura ferroviária

A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870.

Michael Roberts
Chamam-lhe liberdade, nós chamamos-lhe exploração António Marçal
categoria-opinião Greve Pacote Laboral edicao-2025-12-12 (08)

Chamam-lhe liberdade, nós chamamos-lhe exploração

O Governo prepara um pacote laboral que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha.

António Marçal
categoria-opinião Estivadores Mariano Sindicalismo edicao-2026-01-29 (13)

Até sempre, Mariano!

Na morte de António Mariano, que presidiu ao Sindicato dos Estivadores e à frente deste travou grandes lutas contra a precariedade, com vitórias e derrotas, Raquel Varela recorda o amigo e companheiro de algumas dessas batalhas.

Morreu o meu amigo e ex-presidente do Sindicato dos Estivadores, António Mariano. Este é um texto muito difícil para mim. Porque cruza-se com as feridas de Portugal. Com as nossas glórias e derrotas, como país, questiona o movimento sindical, como um todo e também, imaginem, ilumina a greve geral de 23 de janeiro em Minneapolis, a primeira nos EUA desde 1946, contra o ICE.

Conhecemo-nos no British Bar em Lisboa, quando ainda se podia conspirar aí. Os estivadores faziam então um tipo de greve genial que eu só conhecia como historiadora, nunca tinha visto na realidade: “paramos se entrar aqui algum precário.” Todos os que entram têm de ter contrato. Contrastava com o sindicalismo pós 1980: “somos contra a precariedade, mas assinamos, podem vir os precários desde que para os mais velhos os direitos se mantenham”. Este é o resumo brutal do sindicalismo português desde 1980.

Queixam-se, mas assinam. E assinam lixar os mais novos. Lixando-se a si próprios. Porque isso destrói as relações sociais como um todo, a segurança social, etc. Por isso, hoje, num local de trabalho há dez pessoas que fazem o mesmo, todas com condições de trabalho distintas. Veja-se agora o silêncio, espero que por desconhecimento, perante a aprovação pela AD de que os novos professores serão todos precários.

Foram os estivadores que fizeram a manifestação “Precariedade nem para nós nem para ninguém”. Um cartaz lindo do Pedro Páscoa e essa palavra de ordem, que tanto debatemos. O Mariano olhava a classe trabalhadora como um todo. E pensava como um homem político. Tudo é política.

Quando lhe perguntaram até onde iriam os estivadores, ele respondeu, com a calma que o caracterizava: “Até o governo cair.” Foi aí que eu vi aquilo e liguei-lhe. Marcámos encontro no British, com uma cerveja branca. Não nos conhecíamos pessoalmente, sabíamos da existência um do outro. Selámos um pacto que cumprimos: dizer sempre a verdade.

Pouco depois, ele deu-me um presente de luxo. Pediu-me para explicar, numa reunião no sindicato internacional dos estivadores no Reino Unido, como a precariedade, se avançasse em Lisboa, ia contaminar todos os portos. Aprovada aqui, passariam para Algeciras, dizendo que se Algeciras não cumprisse iam para Lisboa, Tânger, Barcelona, até chegar a Gotemburgo. Eu estava cheia de febre com uma amigdalite, mas meti-me no avião com ele, aterrámos na reunião. Ele falou, determinado, sabia para onde ia e como ia, e tinha uma base organizada em plenários regulares, era essa a sua força. Falei eu a seguir, algumas perguntas e o John Harrison, um gigante do afeto e da luta, estivador dinamarquês, pede a palavra: “Nós, estivadores dinamarqueses, queremos bloquear as cargas para Lisboa. Por nós, podemos já passar à votação”, dito naquele estilo dele, não me tirem mais tempo. O John é daqueles que quando teve de ir ao diálogo social em Bruxelas, que ele é contra, sai e fica a beber cervejas. Eu vi o Mariano e o John, e pensei: “Agora os livros que li ganharam vida, eles existem.”

Esta foi a única greve europeia de solidariedade na crise de 2008. Fizemos história com ele, Mariano. Teve lugar, os patrões cederam um dia depois. Tínhamos vencido. Era o internacionalismo operário.

Seria impossível contar-vos aqui todos os momentos por que passámos. Eu ouvia-o fascinada. Ele ouvia-me com respeito, e pensava muito. Tínhamos reuniões de debate político, em torno de uma revista, a Rubra, porque ele “queria perceber o que se estava a passar no país”. Não era figura pública, era muito melhor, era um organizador coletivo.

Foi assim que eles prepararam a batalha de Setúbal. Durante meses reuniram em plenário com os precários, fizeram um fundo de greve dos fixos para os precários, e quando entraram em greve, venceram. Na altura estive lá, dias e noites, ajudando, orgulhosa, solidária.

O melhor, lamento, não posso contar. Porque, como sabem, há um Estado e uma lei, e os estivadores sabiam que o Estado e a lei eram seus inimigos.

Foi por inspiração desse trabalho coletivo, de que o Mariano era o organizador chave, que nasceram sindicatos independentes combativos – porque ele percebia que os estivadores sozinhos seriam derrotados. Solidário com professores, motoristas, enfermeiros, AutoEuropa, quantas horas e horas dedicámos a isso, entre eles o Carlos Renato Teixeira e tantos de nós, dezenas de nós, em tantos sectores, eles eram um exemplo de solidariedade real (fundos de greve entre fixos e precários), democracia real (plenários regulares sem manipulações administrativas e, claro, garra. Em vez do queixume. Sujeitos e não vítimas.

Éramos amigos, fizemos tantas patuscadas, ele era um grande cozinheiro – o que, já se sabe, é logo uma razão para a morte ser proibida; era um homem radicalmente honesto, reflexivo.

*/Banner Maio*/

Os estivadores foram derrotados em 2020. E a sua derrota foi a nossa, porque ele tinha sido a chave da organização de um sindicalismo que fazia lembrar o PREC e o socialismo de Antero. E quando eles, estivadores, foram derrotados – com uma estratégia de luta da qual discordei, e nunca em momento algum a nossa amizade se perdeu por isso –, no primeiro dia do estado de emergência da Covid, tive de lutar contra o desânimo.

Quando no Governo da Geringonça vi que as greves iam diminuindo e aumentando as “audições parlamentares”, quando Pedro Nuno Santos aparecia como o tipo porreiro “preocupado com os estivadores”, e já o Chega espreitava, os salários tinham caído com a Troika e a Mota Engil tinha ido ganhar mais para a ferrovia, e uns “turcos” tinham comprado a concessão do porto, aí começou o que fizeram na Lisnave: salários em atraso. Assim é a burguesia delicada. À facada.

Eu disse o que pensava: isto só vai lá com greves, sem audições parlamentares que não servem para nada, é preciso exigir a nacionalização dos portos e emprego público. Essa deve ser a estratégia. Nenhuma luta coletiva se ganha em tribunal.

O governo da Geringonça não está junto de quem trabalha, os de direita muito menos. A esquerda entreteve o caso no parlamento. A extrema-direita quer – em vez da força solidária dos estivadores com os precários – a violência contra os mais frágeis. Contra a luta comum de todos, os fascistas e neonazis semeiam armas, o ódio contra imigrantes e precários. Estão ao serviço dos patrões.

Sem qualquer apoio real de qualquer outro grande sindicato, com meses de salários em atraso, o Governo de Costa aprova um estado de emergência que no primeiro dia da Covid proíbe as greves, e nesse mesmo dia os estivadores de Lisboa veem o acesso ao porto bloqueado com uma carta de despedimento coletivo. As medidas de saúde podiam ter sido feitas ao abrigo da lei de saúde pública, mas Costa escolheu uma que proibia a greve em pleno pânico nacional (e assim derrotava os estivadores que queriam ter salários seguros e decentes). Costa, o homem da guerra, que ganha 35 mil euros/mês.

Depois desta derrota, o meu irredutível apoio aos estivadores e contra o estado de exceção foi a real razão, junto com a minha contratação na universidade, de uma campanha negra de um jornal dito de referência e mais uns membros da Geringonça na universidade, hoje em cargos de direção a gerir força de trabalho. Entrei num longo período de silêncio público sobre a derrota dos estivadores. Não falei nunca dessa derrota, porque senti que as circunstâncias que recaíam sobre eles eram esmagadoras.

Pode parecer exagero, porque as derrotas contam, mas morreu o maior dirigente sindical português desde os anos 1980.

Fiz uma reflexão política pessoal, que me levou a escrever um livro. Nesse livro, que escrevi com o meu marido e companheiro intelectual, respondia ao desafio do meu marido, Roberto della Santa: “tens de submeter à teoria da história o teu coração sindicalista revolucionário, o que aconteceu estava escrito que ia acontecer". Ele escreveu o livro a pensar na formação social em que vivemos, contra as ideias de um país que teria 900 anos, eu fiz a psicanálise do sindicalismo português, foi um empreendimento amoroso a nossa Breve História de Portugal. Concluímos que a burguesia portuguesa não existe hoje, e que a crise de direção política dos trabalhadores passa justamente pela ausência de estratégia política. Foi assim no PREC e foi assim no século XIX.

Sem uma coordenação política das lutas (um ou mais partidos, ou organizações) nos locais de trabalho que pensem politicamente o país, todas as greves, mesmo as mais radicais e combativas, serão derrotadas. Tanto que o sindicato internacional dos estivadores dividiu-se em dois, o europeu que mantém o espírito, e o dirigido pelos americanos da costa leste, que apoiam Trump!

O Mariano, quando começou a greve em Inglaterra em 1997 de fixos com precários, conheceu os dirigentes estivadores sindicalistas revolucionários da Suécia, o Peter, e trotskistas dos EUA e da Austrália, como o Bob Carnegie e o Jack Heyman. Este último começou a lutar contra a guerra do Vietname e bloqueou os portos contra a guerra do Iraque. E que romperam com a todo-poderosa Internacional Transport Federation, a burocracia sindical mundial que manda nos transportes, entre eles nos portos de Hamburgo e Roterdão. São uma âncora do capitalismo.

O Mariano ficou fascinado com o filme do Ken Loach sobre essa greve, A Chama Ardente. O Mariano era o regresso do espírito de Antero, na sua dupla dimensão, um olhar radical para a sua classe trabalhadora, mas ainda assim demasiado longe da política. Faltaram ainda mais uns pozinhos de política para não sermos derrotados.

A vida dele – estive lá, com eles, em São Francisco ou Brisbane, na Austrália – é a dos homens que embargaram as armas contra o apartheid, pararam contra a invasão do Iraque e o genocídio em Gaza. A vida dele esteve entrelaçada com a esperança que nasceu de um novo sindicalismo solidário, político e combativo em Portugal. E com períodos de luta contra a guerra e o capitalismo. Cujas armas e peças de drones circulam pelos contentores que eles descarregam. E também que eles podem parar.

Podia dizer que o Mariano foi um homem e as suas circunstâncias. A verdade é que ele foi além das circunstâncias. Pode parecer exagero, porque as derrotas contam, mas morreu o maior dirigente sindical português desde os anos 1980. Ele trouxe-nos a organização real entre a classe trabalhadora, ele empenhou-se nisso a sério, ele deu-nos esperança. Até sempre, companheiro!

categoria-opinião Ópera Teatro

Uma peça de teatro “escandalosa”

Wagner, a Arte da Fuga, de Ana Rocha, descreve as ideias musicais e políticas do jovem Wagner em 1849, aquando da sublevação da população de Dresden contra o rei da Saxónia, e o seu encontro com personagens como Bakunine e Marx.

Ana Rocha acabou de publicar nova peça de teatro, Wagner A Arte da Fuga1.

Em 2021, desenhara a vida de Antero de Quental numa outra peça, Antero Q., em que apontava ficcionalmente os três limites existenciais deste filósofo, visando um “Antero em carne e osso”: a doença enigmática que o atacara fortemente em 1874; a partida para Paris para consultar o médico Charcot em 1877, a paixão pela Baronesa Nelly, que conhece na clínica hidroterápica de Bellevue, senhora igualmente paciente de Charcot, e finalmente o conhecimento fictício do revolucionário clandestino Blanqui, ou seja, os limites sexuais (a cena com Nelly), os limites mentais (a cena com Charcot, traumas da educação da infância por via da devoção religiosa da mãe de Antero) e os limites revolucionários (episódio com o radical Blanqui). A peça foi representada pelo Teatro da Garagem, encenada por Carlos J. Pessoa e foi objeto de uma apresentação na Suíça.

Wagner, a Arte da Fuga descreve as ideias musicais e políticas do jovem Wagner (35 anos) em 1849 aquando da sublevação de população de Dresden contra o rei da Saxónia. Para além de Wagner, são personagens Minna Planer, sua jovem mulher, os revolucionários Bakunine e Karl Marx, o advogado Heubner e o colecionador italiano de arte Poldi-Pezzoli. O ambiente é revolucionário, com barricadas da população contra o exército prussiano, que tinha invadido a Saxónia. Ao longo de todo o século XIX, a Prússia, com capital em Berlim, institui-se como a vanguarda da contrarrevolução na Europa. É o exército prussiano que esmaga a Comuna de Paris em 1870.

No primeiro ato, Wagner discute com Minna. Esta protesta por o marido ter abandonado o cargo de Kappelmeister da corte da Saxónia, cargo bem remunerado, e agora só tem batata para servir às refeições, e já há população que come batata com besouros. Neste ato surge a figura exótica do papagaio, com o qual Wagner vai viajar. Simbolicamente, a união entre Wagner e o papagaio deve querer significar que o músico se sente no ambiente aristocrático da corte como o papagaio se deve sentir preso numa gaiola e no frio gelado da Saxónia. Mas em casa ou em viagem, o papagaio deve ser encarado como uma personagem, sobretudo na encenação. Wagner conta a sua esposa que os seus músicos trocaram os seus instrumentos musicais por fuzis e ele próprio conclama que a aristocracia e o rei “odeiam a democracia e o povo! Mas, finalmente, a aristocracia vai acabar! Nós, os plebeus, vamos destituir os nobres! Que não podem impor que nós voltemos a ser servos! Declaro a Saxónia livre!! (p. 12).

A mobiliação é geral e as duas fações são inconciliáveis.

No II Ato, desenrola-se uma conversa entre Wagner e o revolucionário russo Bakunine, perseguido pelas polícias de toda a Europa. Aqui são feitas declarações “escandalosas” contra o casamento, tendo por base os livros de Schopenhauer. A revolução de Dresden atraiu Bakunine, que já tinha ouvido falar das reivindicações políticas de Wagner: “a abolição da aristocracia e a demolição da monarquia” (p. 20). Wagner explica a Bakunine os símbolos revolucionários que usa no Tannhaüser, bem como no Navio Fantasma: “A minha música revela estado de alma que nunca as palavras poderão traduzir” (p. 34). Wagner ataca a música de Rossini, de Meyerbeer e de Spontini “e toda essa tralha de música que eu considero ligeira (…) Em Paris toda aquela gente escreve óperas. Ora, eu não escrevo ópera. Escrevo dramas musicais” (p. 31).


Através das minhas óperas farei compreender aos homens da revolução qual o sentido dela.

Bakunine defende que o amor e o casamento são incompatíveis. Wagner concorda, o coito com a sua mulher Minna perdeu o encanto: “A verdadeira mulher ama incondicionalmente, como as personagens nas minhas quatro óperas Tristão e Isolda ou O Amor Proibido, Rienzi, Tannhaüser e O Holandês Voador ou O Navio Fantasma. Ambos estão de acordo com Schopenhauer: “O casamento é um pesadelo” (p. 35).

Wagner, porém, acredita em mulheres-anjo, “figuras femininas inocentes e infantis como a minha Senta n’ O Holandês Voador e também a minha Elsa no Lohengrin, a mulher do cisne prateado” (p. 30), que surge desenhada na capa do livro. Bakunine comenta: “O senhor fala-me de música e eu falo-lhe de revolução, que, para mim, é o Absoluto”. Wagner responde: “Para mim, o Absoluto é a minha música” (p. 39).

No III Ato junta-se a ambos o advogado Heubner, outro dos cabecilhas dos revolucionários de Dresden. Estão numa paragem da diligência que lhes permitirá a “fuga”. Wagner faz-se acompanhar do papagaio, os restantes passageiros protestam, mas Wagner não parte sem o seu papagaio. Este assobia a música de Beethoven, o final da quinta sinfonia e grita: “Mau Richard, Richard, Richard!” Segue também um colecionador de arte italiano, Poldi-Pezzoli, que se encontra em Dresden para comprar a Madonna de Rafael, personagem que representa o colecionismo italiano de arte, que é privado, e que é capaz de tudo para possuir o objeto de arte que ambiciona. É melhor não entrar na diligência, “Somos vistos, diz Bakunine, como republicanos, jacobinos, anticlericais, socialistas e anarquistas, e sei lá mais o quê.” Heubner confirma: “E como ateus, perigosos ateus (…) Queremos abolir a monarquia e acabar com os privilégios da aristocracia.” Wagner acrescenta: “e vamos com um perigoso anarquista russo que quer destruir tudo”. Bakunine comenta: “Eu quero destruir tudo. A única coisa que profetizo é que haverá um incêndio mundial e que nada será conservado” (p. 42).

No último ato, sai da diligência a personagem italiana e entra Marx, que conflitua com Bakunine. Marx diz que “É agora ou nunca. A escravatura ou a liberdade. Sem capitulação.” Marx tinha estado numa barricada “e agora, tal como os senhores, estou em fuga. Arrisquei a vida, mas senti bem acesa a revolução de Dresden” (p. 56). Bakunine continua a embirrar com o papagaio e ameaça de um dia ainda comer língua frita de papagaio.

Marx reconhece Wagner e louva-o pelas posições políticas que assume. Wagner justifica-as (talvez a frase mais importante da peça): “Só depois de uma profunda transformação social e política na Saxónia poderei pensar nos artistas e preparar o público para compreender a minha revolução musical. Através das minhas óperas farei compreender aos homens da revolução qual o sentido dela. O público atual não consegue compreender a minha música do futuro, os meus dramas musicais” (p. 58).
De repente, o cocheiro para – vê-se ao longe uma barricada prussiana.
Wagner pega na gaiola do papagaio e sai, com os restantes três revolucionários.

Já com três peças no ativo (a primeira, que não conhecemos, intitula-se A Origem do Mundo, quadro de Courbet, tão provocadora quanto esta), com o jovem Wagner, auxiliado por Bakunine e por Marx a querer destruir a aristocracia e a monarquia, as duas elites políticas e económicas mundiais e a contestar o casamento burguês, esta peça a ser representada só não é escandalosa porque no nosso tempo já não nos escandalizamos com nada.

Parabéns, Ana!


  1. Cf. Ana Rocha, Antero Q., Porto, Adab / Ed. Húmus, 2021, p. 123.
categoria-opinião Instrumentalização Jornalismo

Quando o jornalismo de mãos limpas afia o lápis azul

No jornalismo, os factos são essenciais, mas o fundamental é “os sentidos que possam ter”.

“Os factos são o que menos importa nas grandes reportagens”, escreveu certa vez o jornalista e professor Eugênio Bucci. Quis, com esta frase de impacto, alertar para uma verdade que se aplica à prática do jornalismo de modo geral: os factos são essenciais, mas o fundamental é “os sentidos que possam ter”.

Esta é uma forma simples de esclarecer o papel político do jornalismo, algo que a Comissão Hutchins, no seu famoso relatório “A Free and Responsible Press”, de 1947, definiria como a base da teoria da responsabilidade social: não bastava expor os factos verdadeiramente, era preciso “relatar a verdade sobre os factos”.

É o que torna complexo o compromisso comumente reconhecido pelos jornalistas de “dar os factos para que o público tire suas próprias conclusões”. Esse compromisso, porém, é frequentemente entendido de maneira formalista, como se significasse isenção ou imparcialidade. Foi o que chamei, há tempos, de “jornalismo de mãos limpas”: ouve-se um lado, ouve-se outro – ou tantos quantos houver, como se todos se equivalessem –, deixa-se a conclusão para o público e lava-se as mãos. É, muito claramente, uma forma de se demitir da responsabilidade que a profissão exige.

Associe-se isso ao vale-tudo na guerra pelas audiências e temos um perfeito quadro da degradação do jornalismo, com graves consequências políticas.

Em junho de 2025, na reportagem sobre “O encanto do jornalismo pelo Chega”, João Pinhal mostrou a disparidade entre o número de entrevistas concedidas pelo líder desse partido e pelo líder do PSD, então na oposição em praticamente todo o período pesquisado, entre abril de 2019 (quando o Chega foi fundado) e junho de 2024. Nos grupos de TV privados, André Ventura, embora tivesse sido deputado único entre 2019 e 2022, com 1,29% dos votos (menos de 70 mil eleitores), teve direito nesse período “apenas a menos uma entrevista do que o líder do partido que conseguiu perto de 1 milhão e 500 mil votos”. A desproporção prosseguiria: entre as legislativas de 2022 e as de 2024, Ventura foi entrevistado 27 vezes nos canais privados, mais que o dobro do que o líder do PSD, atual primeiro-ministro, apesar da representatividade muito inferior.

Entre as legislativas de 2022 e as de 2024, Ventura foi entrevistado 27 vezes nos canais privados, mais que o dobro do que o líder do PSD, atual primeiro-ministro.

A pesquisa não abrange a cobertura de manifestações promovidas pelo Chega, que, embora com participação irrisória, mereceram longa exposição, mesmo nas TVs públicas. Seria mais um elemento a corroborar o quanto este jornalismo abriu caminho para algo que agora já não se pode ignorar, no melhor estilo das profecias autocumpridas.

Em sua dissertação de mestrado, sobre um aspecto da cobertura do Chega pela SIC, apresentada em outubro do ano passado na Universidade Nova de Lisboa, Diogo Cordeiro demonstra que os jornalistas entrevistados vivem uma permanente tensão entre o dever de informar e a necessidade de fugir à instrumentalização que normalizaria e amplificaria o discurso da extrema-direita. Mas a incompreensão, por parte dos jornalistas, sobre o papel político que desempenham fragiliza a hipótese de não se deixarem usar por alguém que sabe “tirar partido da forma como os media funcionam”.

“O Chega tem de facto mais tempo a aparecer que os outros partidos porque de facto sabe criar essas oportunidades também para aparecer mais”, diz um dos entrevistados. Seria, portanto, uma questão de competência? Se lideranças de esquerda, quer de partidos, sindicatos ou movimentos sociais, se qualificarem para isso, terão espaço correspondente? Mais: todas as “oportunidades” criadas são válidas e merecedoras de atenção?

Outro entrevistado diz: não se deve tratar o Chega de modo diferente, porque todos os partidos foram eleitos democraticamente. Ora, desde que surgiu o Chega foi tratado de modo muito diferente, como mostrou a reportagem de João Pinhal. Mais grave é considerar que se trata de um partido como os demais, quando não é, e a rigor já deveria ter sido proscrito, pelo seu discurso xenófobo, racista e contrário aos valores democráticos do 25 de Abril.

Por isso, insistir no jornalismo de mãos limpas diante de quem afirma a necessidade de três salazares para “pôr isto na ordem” não é nada menos do que ajudar a afiar o lápis azul.

categoria-opinião Chega Deputado edicao-2026-01-15 (11)

O deputado que viaja para o passado

Os tachistas oportunistas #4

Manuel Magno Alves foi eleito pelo círculo eleitoral Fora da Europa e é um senhor baixinho e parece que não mexe uma palha. De longe, parece um desses campónios que vieram com bosta nos sapatos para conquistar a cidade, mas trazem sempre com eles um cheiro a vacas leiteiras. Emigrou para o Brasil aos cinco anos e hoje é contra os imigrantes que vivem em Portugal. Pois este advogado, que pensa muito na sua carteira, pediu o reembolso de viagens à Assembleia da República fora de prazo e nas mesmas datas em que alegou doença para se ausentar do Parlamento. Passados alguns dias, vendo que tinha obtido vitória financeira, pediu outra vez, e fora de prazo, reembolso das suas deslocações ao Brasil. Porém, desta vez o presidente da AR Aguiar Branco não foi na fita e recusou.

Esta negativa constitui um problema, pois o viajante compulsivo e deputado do Chega já tinha realizado antes várias viagens à Alemanha e tencionava fazer-se reembolsar. Tinha viajado para o passado e assistira em 1934 ao 4º Congresso do Reich em Nuremberga, intitulado “Congresso do Poder”, e onde, do meio da multidão, batera palmas ao Führer. Em 1936, assistira no dia 1 de Agosto à abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim e ficara contente, pois não encontrara nenhum cigano na cidade, já que os 800 que ali viviam tinham sido presos e confinados num campo especial num bairro periférico. Em 1939, em Colónia assistira à espectacular e monumental parada nazi na Praça Adolf Hitler e depois fora comer uma chucrute a uma cervejaria famosa.

categoria-opinião Autarca Chega edicao-2026-01-08 (10)

Luís Portilheiro, o desejável

Os tachistas oportunistas #3

Este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem.

Candidato do Chega à União das Freguesias de Sé e São Lourenço em Portalegre, este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem. Estas poses eróticas e narcísicas foram divulgadas pelo Correio da Manhã e parece que localmente tiveram repercussão, pois o esbelto do Chega obteve 492 votos e um mandato. É caso para se dizer: mostra-te como és e serás recompensado.

Só que há um mas. Luís Portilheiro, que é licenciado em Psicologia, trabalha no Centro Distrital de Portalegre e é interlocutor em programas de colónias de férias, famílias de acolhimento e da Associação Ser Criança. É também responsável por programas ligados à infância, à deficiência e à proteção de crianças em risco. Perguntamos só isto: se fosse alentejano, confiaria a sua criança a um chegadinho destes?

categoria-opinião Legislação laboral Motoristas edicao-2026-01-08 (10)

Portugal e estas eleições, ou um país doente

Vivemos, argumenta o autor, “o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos” porque “os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário”.

Das quatro, uma: ou será Presidente um homem sem ideias, defensor da guerra (os filhos dos pobres, claro, esses é que serão enviados para combater em nome do “interesse nacional”, qual?), um militar “perito em generalidades”, como bem disse António Filipe, ou, muito pior e sempre pior será elegermos como Presidente André Ventura, o qual representa o pior da educação em Portugal. O duce do cheguismo, o oportunista das benesses que a democracia lhe deu (desde a tese de doutoramento ao seu lugar como deputado) é o espelho fiel da falência educativa em toda a sua extensão. A ser eleito, ou a passar à segunda volta, o facto será este: Portugal está profundamente doente. Doente de alienação, de estupidez, de ressentimento, de raiva e de ignorância. Ventura, o usurpador, aproveita-se da indigência dos políticos actuais, da cobardia dos que, com poder e saber, deveriam enfrentá-lo: políticos independentes, intelectuais empenhados na defesa da democracia, gentes (que ainda as há!) apostadas em não deixar passar nem mais um facínora fascista.

André Ventura, a ser Presidente, será o inimigo número um dos Portugueses, não tenhamos dúvidas. O mais irado e demagogo político português é, na senda dos fascistas de boa cepa – um Mussolini, um Franco, um Trump –, um mentiroso compulsivo, um manipulador da juventude profundamente desconhecedora da nossa história. Explora como nenhum outro a pobreza deste país de baixos salários; mente sobre a questão dos ciganos, dos negros e dos desvalidos de uma sociedade pobre, a nossa; mente sobre os imigrantes, espoliados da sua dignidade, vítimas da exploração no Alentejo e no Douro, no Algarve e em Lisboa e no Porto. Quando foi que nos tornámos vampiros e racistas, preconceituosos e hipócritas como Ventura?

Ventura mente sobre o contributo destes povos explorados em Portugal. Basta perguntar: sem eles como estaria a nossa Segurança Social? Sem eles, quem andaria nas motas, noite dentro, servindo pizas? André Ventura é alguém absolutamente nocivo para o país. Pelo ódio que destila, pela ignorância que manifesta quanto às funções presidenciais. Como modelo de comportamento e de valores (que os não tem), André é um veneno letal: que exemplo é o seu como deputado, líder de um partido, candidato seja ao que for? Em boa verdade, as gerações que têm hoje entre os 15 e os 25 anos, que vêem em Ventura? Nada mais do que isto: o rosto da raiva que eles, jovens, sem expectativas e roubados de todos os ideais, fazem seu. É triste que Abril seja traído em Janeiro e sejam os jovens, mas também muitos reformados e pensionistas, muitos desempregados, a pensar que uma dor de cabeça se cura cortando a cabeça. É triste e é sintomático.

Portugal é hoje um território que se encaminha, a passos largos, para um modo trumpista de viver, violento e acrítico.

Vivemos, portanto, o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos porque, aburguesados, europeizados no pior sentido, ou americanizados em sentido ainda pior; educados, primeiro pelas televisões e de há anos a esta parte pela tentacular ditadura das redes sociais, os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário. Pais e mães não são os principais educadores dos mais jovens, mas sim as fake news, o circo montado no sistema educativo que, das escolas às universidades, permite que a indigência, a boçalidade, a incuriosidade e a ignorância grassem um pouco por todo o lado.

Tenho dito e escrito, repetido sem cessar (e não estou isolado nessa constatação): Portugal, dominado por um sistema multimediático que estupidificou e infantilizou os adultos e bestializou os mais novos (a Geração Millenium, a Geração Z), é hoje um território que se encaminha, a passos largos, para um modo trumpista de viver, violento e acrítico. Estamos a poucos anos (dois, três?) de nos tornarmos ingovernáveis. Os factos sociais confirmam-no: violência doméstica, violência nas escolas e universidades; corrupção no seio do Governo (Montenegro evitando uma CPI); crimes de colarinho branco, ingerência do MP, verdadeira máquina torcionária de governos legítimos, redes de tráfico humano; a acelerada degradação da imagem e símbolo do Presidente da República; uma juventude indigente, brutalizada, insensível, sem leituras, sem saber escrever, sem saber, de facto, ler e interpretar a realidade.

Mas… e Marques Mendes e Cotrim? É fácil: Farão a tão almejada revisão da Constituição de 1976, trairão o 25 de Abril e não terão quaisquer complacências: liberalizar, flexibilizar as leis do trabalho, facilitar o despedimento colectivo sem justa causa, impedir as greves, asfixiar a democracia e estar ao serviço dos senhores da guerra (a NATO e o directório Berlim-Bruxelas), eis o que prometem Marques Mendes e Cotrim, tudo em nome de um neoliberalismo de alpaca. Cotrim, com ar sorridente e impante de vaidade, e Mendes, no seu ar de sacristia, só nos levam a um lugar: à cepa torta e à conivência com a direita fascista que o PS, diga-se, na sua política de tolerância, deixou passar. Jorge de Sena, em 1974, perguntou: “E agora, Portugueses?” Perdemos a coragem e a lucidez?


*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

categoria-opinião Legislação laboral Motoristas edicao-2025-12-18 (09)

Aumentar o tempo de trabalho dos motoristas?

Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.

A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) autoriza o Governo a aprovar um regime jurídico que regula determinados aspectos da organização do tempo de trabalho dos trabalhadores móveis em actividades de transporte rodoviário e a transpor para a ordem jurídica interna várias directivas.

Votaram a favor PSD, Chega, PS, CDS-PP e JPP. Votaram contra PCP, BE e Livre.

O que é que isto significa e em que se traduz, afinal, na vida dos motoristas?

O órgão legislativo competente para legislar sobre estas matérias seria o Parlamento, só podendo estar cometida ao Governo se for, como foi, aprovada a lei de autorização legislativa a que nos referimos supra, o que, desde logo, permite a aprovação num lapso de tempo muito mais curto e sem ser objecto de discussão entre as mais diversas forças políticas.

O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho

Por outro lado ainda, ao se aprovar esta lei de autorização legislativa, o que se está a conceder ao Governo é a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, no sentido de um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas, como, aliás, sucedeu.

Entre as medidas constantes do decreto-lei proposto constam as seguintes regras:

a) Artigo 20.º

Tempo de disponibilidade

O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho. Refere-se a períodos não correspondentes a períodos de pausa ou de repouso, durante os quais o trabalhador móvel não é obrigado a permanecer no seu posto de trabalho, mantendo-se, no entanto, disponível para responder a eventuais solicitações no sentido de iniciar ou retomar a condução ou de efetuar outros trabalhos relacionados com a atividade de transporte rodoviário. São ainda considerados tempos de disponibilidade, nomeadamente, os períodos durante os quais o trabalhador móvel acompanha um veículo embarcado num ferry-boat ou transportado de comboio, bem como os períodos de espera nas fronteiras ou devido a restrições à circulação. Para os trabalhadores móveis que conduzem em equipa, o tempo passado ao lado do condutor ou num beliche durante a marcha;



b) Artigo 21º

A duração do trabalho semanal dos trabalhadores móveis, incluindo trabalho suplementar, não pode exceder 60 horas, nem 48 horas em média num período de quatro meses. Por instrumento de regulamentação coletiva de trabalho, o período de referência previsto no número anterior pode ser aumentado até seis meses.



c) Artigo 22º

Não é considerado trabalho nocturno o tempo de disponibilidade.

Ou seja, e dito de outra forma, os partidos que aprovaram a lei de autorização legislativa aprovaram também o conteúdo do decreto-lei que lhe estava anexo e do qual constam, entre outras medidas gravosas, as que aqui são referidas.

*A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

categoria-opinião Igreja Mulheres edicao-2025-12-18 (09)

Uma Igreja Católica de uns contra os outros

Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.

As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.

Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.

O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.

No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).

O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.

Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.

Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.

É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.

É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.

Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.

Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.

O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.

O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.

Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.

Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.

Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.

Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.

A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.

Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.

Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).

Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.

Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.

É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.

Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.

Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.

A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.

categoria-opinião Portugal Economia edicao-2025-12-18 (09)

Quando o país vai bem, e o povo, mal, The Economist condecora Portugal

Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.

Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.

Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.

A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.

The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.

E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.

Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”

Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.

“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.

“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!

O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.

Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.

É impossível não recordar 2012 e a troika.

Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”

Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).

O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.

Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.

Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.

Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!

Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.

Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.


*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

categoria-opinião Pacote Laboral Propaganda edicao-2025-12-18 (09)

Quando pimenta no pacote (laboral) alheio é refresco

Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho. Do que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.

Há duas formas, relativamente simples, de se perceber a importância da greve geral. A primeira é, obviamente, assistir ao raro acordo entre a UGT e a CGTP. Quando até os sindicatos afectos ao PSD (TSD) se juntam à luta, é porque o ataque é grande. A outra, que também não exige um olho propriamente treinado, é ver as voltas do cata-vento Ventura que passou, em poucas semanas, de opositor a promissor sindicalista. Ainda o Frazão, lá de cima da janela da Assembleia da República, insultava os manifestantes e já o Ventura, percebendo a onda que cativava a opinião pública, se juntava nas críticas ao governo. Às vezes, muito secretamente, desejo que o Andrezito chegue a presidente deste nosso rectângulo. Seria a sentença de morte daquele partido unipessoal que carrega todas as ambições de um homem profundamente frustrado. Para não lhe chamar outra coisa, já que este é um jornal de respeito.

Leitão Amaro foi, para mim, a estrela do dia no papel de Goebbels de Tondela. Excelente na propaganda e na tentativa de despejar uma narrativa para os jornais do dia. Disse ele que o "país escolheu trabalhar" e que a adesão à greve era praticamente residual. Entretanto, as imagens de ruas e avenidas do país, atafulhadas de gente, saltavam de mural em mural. Há uma fotografia exposta no "bunker de Berlim", um museu imperdível, onde se mostra uma montagem de Goebbels transformando uma parada de uns poucos numa manifestação de milhares. Brilhante trabalho de manipulação gráfica, que convenceu uns quantos milhões, feito uns bons 50 anos antes da invenção do Paint pela Microsoft. Leitão Amaro teve apenas o azar de estarmos em 2025, na era dos telefones que fazem tudo.

Antes já tinha dito, para quem o quisesse ouvir, que o novo pacote laboral não teria impacto na função pública, uma vez que estes trabalhadores estão protegidos pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. O regime geral do código do trabalho, segundo o ministro da Presidência, é que sofreria o impacto. Esta conversa tinha dois objectivos. Desde logo, desmotivar a função pública no seu protesto. Como se as lutas laborais não se fizessem de solidariedade entre mais e menos afectados. Como se o colectivo não fosse sempre mais forte quanto maior a sua expressão. E depois, a parte menos conhecida da opinião pública, como nos explicou Rita Garcia Pereira (notícia CNN), advogada especialista em direito do trabalho, já existem muitos trabalhadores na dependência do Estado que têm contratos individuais de trabalho e, portanto, de natureza privada, directamente afectados pelo novo pacote laboral.

Um dos grandes problemas dos nossos governantes é a bolha em que vivem e a distância entre as suas vidas e a realidade dos Portugueses. A crise da habitação por exemplo, que afecta boa parte da população e resulta em despejos diários, está a ser enfrentada por um primeiro-ministro que tem 55 imóveis, uma ministra do Trabalho, professora universitária, com um património superior a 5 milhões de euros e um ministro da Presidência, o nosso Goebbels de Tondela, que investiu 1,34 milhões de euros numa casa em Lisboa e que, por acaso, recebeu uns benefícios no IMI (notícia CM). Como é que esta gente enriquece com os salários declarados? E pior: como é que podem perceber as dificuldades do trânsito se circulam em via privada e sempre livre?

Com o pacote laboral o problema é essencialmente o mesmo. Discute-se a flexibilização como uma arma para o aumento da produtividade. Defende-se o fim dos sindicatos para ter menos entraves ao progresso. Apresenta-se o trabalho temporário como um benefício da rotatividade laboral. E no fim, para que ninguém duvide, explicam-nos que este é o caminho para sermos a próxima Alemanha, Suécia, Dinamarca ou Bélgica. É a aposta total na desinformação, na tentativa de meter trabalhadores contra trabalhadores, pobres contra pobres. Na Suécia, por exemplo, onde trabalhei durante 20 anos, a taxa de sindicalização anda perto dos 70% e praticamente 1/3 da força laboral está no sector público. A carga fiscal é elevadíssima e o lucro é fortemente taxado. Que o diga o já falecido fundador do IKEA, que se mudou para a Suíça, esse bastião de produtividade com o trabalho alheio e sempre protetor das fortunas.

Em Portugal as reformas laborais são sempre, mas sempre, feitas pelo lado do trabalhador. É preciso produzir mais, oferecer horas ao patronato, aceitar o despedimento sem justa causa, adiar a vida à espera de um contrato sem termo. O que não é preciso, em momento algum, é exigir que a riqueza criada pelos trabalhadores vá menos para os accionistas e mais para os bolsos de quem trabalha. Ou que a carga fiscal absurda que afecta os Portugueses se converta em creches públicas, atendimento decente na saúde ou transportes públicos que funcionem. No fundo, tenta o Governo e toda a direita em geral convencer uma legião de pobres de que o problema são eles, que trabalham pouco e que os 40% que estão no limiar da miséria antes das transferências sociais devem trabalhar ainda mais porque há uma elite política e empresarial que precisa de mais lucro. Até porque, aqui e ali, há um BES bem sólido que não se paga sozinho ou uns arranjos entre governantes e construtoras que não se fazem sem um saco azul profundo.

Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes, gente com formação que fala inglês se não se importarem de receber amendoins a troco de trabalho. A novidade é que o "investimento externo" já está em Portugal. Não faltam multinacionais que descobriram o filão português e do quão longe conseguem chegar com 1000 euros para oferecer. Na minha área, neste preciso momento, Portugal é visto como uma opção a considerar se comparado com o investimento no Vietname. No Vietname, meus amigos! Foi aqui que chegámos ao fim de 40 anos na União Europeia.

Temos mais auto-estradas, muitos hotéis de charme e tascas gourmet. Mas continuamos pobres, governados por gente que resume o CV a um cartão partidário, sem um dia de trabalho no mundo real e que enriquece enquanto nos convence de que o problema somos nós.

Talvez Leitão Amaro e Montenegro tenham razão quando dizem que o país não precisa de greves. Talvez não. Pelo aspecto da coisa, o que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.


*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

categoria-opinião IA Economia edicao-2025-12-12 (08)

A IA e a loucura ferroviária

A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870.

A bolha da inteligência artificial (IA) continua a inchar. Os Sete Magníficos da tecnologia continuam, em conjunto com as empresas de IA, a puxar pelo mercado accionista dos EUA. As cotações das dez empresas americanas com maior valor em bolsa, detentoras de mais de 40% da capitalização do índice S&P 500, têm continuado a subir, e muito acima da subida dos seus proveitos (lucros) registados.

ia-e-loucura-ferroviaria-img-01

Os resultados mais recentes das principais empresas de “hiper-escala” (empresas de desenvolvimento de IA) norte-americanas indicam que as vendas continuam em crescimento robusto. No entanto, os fluxos de caixa livres (cash flow) são absorvidos pela despesa de capital, que está em aceleração. As empresas têm de recorrer ao leasing e endividar-se se querem continuar na corrida ao desenvolvimento da IA. No ano transacto, as empresas que investem em IA representaram 75% do rendimento obtido pelas empresas integrantes do índice S&P 500, 80% do crescimento dos lucros e quase 90% do crescimento das despesas de capital. O investimento global em infra-estruturas de IA está próximo de atingir 400 mil milhões de dólares, em 2025, e a despesa acumulada poderá passar 5 ou mesmo 7 biliões (milhões de milhões) de dólares até 2030. Aproximadamente 60% desse investimento irá para semicondutores e computadores — um nível de investimento sem precedentes para uma nova tecnologia que mal começou a ter uso comercial.

ia-e-loucura-ferroviaria-img-03

Que o investimento em tecnologia da informação seja o único motor da actividade económica dos EUA não é toda a verdade. Muito do equipamento que entra nos centros de dados é importado, havendo, por conseguinte, efeitos negativos de contrabalanço ao PIB. Mesmo assim, a “montanha de silício” continua em erupção vertical.
A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870. Naquele tempo, também as ferrovias eram vistas como uma poderosa nova tecnologia capaz de transformar os transportes e as viagens e, assim, impulsionar a produtividade. Isso deu azo a uma especulação desenfreada com as acções das ferroviárias, à medida que as empresas inauguravam, umas atrás das outras, novas linhas ferroviárias pela Grã-Bretanha fora durante a década de 1840 — e, mais tarde, por todos os Estados Unidos, na década de 1870, culminando na ligação ferroviária transcontinental.

No Reino Unido, a mania atingiu o seu auge em 1846, ano em que o Parlamento aprovou 263 actos de criação de novas empresas ferroviárias, totalizando as rotas propostas 9500 milhas (15 300 km). Cerca de um terço das ferrovias autorizadas nunca se construíram — as empresas ou faliram por mau planeamento financeiro, ou foram compradas por concorrentes maiores antes de construírem a sua linha ou revelaram-se empreendimentos fraudulentos para canalizar o dinheiro dos investidores para outros negócios.
Entre as décadas de 1860 e 1900, as linhas ferroviárias transcontinentais transformaram a América. Ajudaram a povoar o Oeste e, tal como na Grã-Bretanha, desenvolveram uma nova forma de empresa capitalista, a sociedade por acções, ou seja, empresas cuja propriedade e financiamento eram públicos (no sentido de ‘publicamente transaccionáveis, em mercados abertos’ — nota do tradutor). A ferrovia ajudou a transformar os EUA numa superpotência que se estendia de oceano a oceano e revolucionou a finança. Como escreveu o historiador Richard White na sua história das transcontinentais, Railroaded, “ela criou a modernidade tanto por via dos seus fracassos como dos seus êxitos”, deixando atrás de si “um legado de falências, duas depressões, prejuízos ambientais, crises financeiras e agitação social”.
Para já, o boom do investimento em IA ainda não atingiu a dimensão do investimento ferroviário do século XIX, que chegou a alcançar 6% do PIB dos EUA, a comparar com, por agora, 1,2% do PIB em investimentos em centros de dados de IA e 4% do PIB em tecnologia de informação globalmente. Mas para lá caminha.

ia-e-loucura-ferroviaria-img-05

Na “ferromania”, a bolha bolsista acabou por estourar. Nos EUA, o rastilho do pânico de 1873 foi acendido pela falência da Jay Cooke & Co., primeira instituição bancária da América. Cooke, que se fizera como financiador número um do Exército da União, concordou em financiar o projecto da Northern Pacific Railway de ligar a costa do Oregon à rede ferroviária existente no Nordeste. Contudo, já não era a primeira linha transcontinental, e preocupações com excesso de capacidade, juntamente com desconfiança crescente nos títulos de dívida das ferroviárias, fizeram que os preços das obrigações da Northern Pacific caíssem. A empresa de Cooke faliu em Setembro de 1873, precipitando o pânico na bolsa de acções que acabou por originar a depressão mundial que se estendeu pela década de 1890 adentro.

Marx comentou na altura que a enorme concentração dos investimentos dos mercados de acções nas empresas ferroviárias dos EUA “deu, numa palavra, um ímpeto insuspeito à concentração de capital e também à imensa aceleração e expansão da actividade cosmopolita do capital mutuável, assim envolvendo o mundo inteiro numa rede de aldrabice financeira e endividamento mútuo que é a forma capitalista da ‘fraternidade internacional’”. Quando as acções das ferroviárias caíram, caiu o resto do mercado, abrindo-se uma recessão económica.

Na Grã-Bretanha, a bolha ferroviária rebentou por volta de 1847. Marx só analisou a bolha cerca de 20 anos depois, no volume 3 de O Capital. Chamou-lhe a “grande aldrabice ferroviária”, para salientar como tinham sido deliberadamente empoladas as promessas das empresas ferroviárias dos enormes lucros que haveria a colher. Os investidores injectaram ingenuamente capital em projectos significativamente menos lucrativos do que eles esperavam e do que os promotores e directores haviam prometido. A ferromania da década de 1840 ocorreu quando a taxa média de lucro na Grã-Bretanha estava em queda – e em queda continuou ao longo da década. Marx observou que “na aldrabice ferroviária do Verão de 1844, os investidores nas ferrovias pareceram estar à espera de uma taxa de lucro muito superior à taxa média”. Chegados a 1847, tais esperanças tinham saído furadas.

ia-e-loucura-ferroviaria-img-06

Agora estamos na mesma. Se o retorno dos enormes investimentos em IA for menor do que o esperado e prometido, o resultado será uma correcção severa no mercado de acções. Por outras palavras, o mecanismo pelo qual o rebentamento da bolha da IA poderá causar uma recessão não é o de uma baixa repentina do crescimento, mas o da não obtenção do rendimento esperado do investimento.

Por enquanto, no sector da “tech” ainda reina o optimismo. Mark Zuckerberg previu recentemente que, dentro de um ano, metade do código da Meta seria escrito por IA. Até agora, porém, a maioria das empresas pouco ou nenhum benefício está a ver dos seus investimentos iniciais. Um estudo do MIT muito citado chegou à conclusão de que, por agora, 95% dos projectos de ‘IA generativa’ não se traduzem nem em crescimento de produtividade nem em lucros. Para justificar o investimento necessário, as receitas anuais dos centros de dados teriam de centuplicar dos actuais 20 mil milhões de dólares para cerca de 2 biliões de dólares. Às receitas existentes vão faltar 800 mil milhões de dólares, segundo a Bain & Company. Mesmo contando com ganhos de eficiência esperados, a diferença ilustra quanto as cotações actuais dependem de fluxos de receitas por demonstrar. A diferença terá de ser colmatada com empréstimos e aumentos de capital.

O investimento em activos ligados à IA é cada vez mais financiado por empréstimos e financiamentos contraídos pelas empresas de IA, ao passo que os investidores em acções contraem, por sua vez, mais empréstimos para alavancar as suas apostas financeiras na IA. Os parceiros dos centros de dados da OpenAI estão a caminho de acumular quase 100 mil milhões de dólares em empréstimos para investimento nesta. O SoftBank, a Oracle e a CoreWeave contraíram empréstimos no valor de, pelo menos, 30 mil milhões de dólares para investir, e um grupo de bancos está a negociar mais 38 mil milhões de dólares para emprestar à Oracle e à construtora de centros de dados Vantage, para financiar novos locais para a OpenAI. O grupo de investimentos Blue Owl Capital e empresas de infra-estruturas informáticas, como a Crusoe, contam também com acordos com a OpenAI para o serviço de dívidas no valor de cerca de 28 mil milhões. Os credores bancários e obrigacionistas começam a ficar preocupados e estão a reforçar as apólices de seguros de incumprimento sobre a Oracle, para o caso de esta ficar incapaz de pagar o serviço da dívida.

ia-e-loucura-ferroviaria-img-07

A ex-economista-chefe do FMI Gita Gopinath calculou que um estouro do mercado de acções ligado à IA equivalente àquele em que terminou o boom das dot.com riscaria do património das famílias americanas cerca de 20 biliões de dólares, e mais outros 15 biliões no estrangeiro: o suficiente para estrangular a despesa dos consumidores e induzir uma recessão global. Contudo, vê-se desenvolver-se o argumento de que, mesmo que haja um estouro financeiro, e ainda que a essa crise se siga uma recessão, sobreviverão então as melhores empresas, e os enormes ganhos de produtividade decorrentes da aplicação da IA em todos os sectores da economia acabarão por reverter numa mudança qualitativa no crescimento da produtividade do trabalho. A produção aumentará porque a IA substituirá trabalho

humano, reduzindo os custos das empresas e aumentando a rentabilidade. Não foi o que aconteceu antes, quando, apesar de o pânico de 1873 ter causado a ruína do mercado das acções ferroviárias e uma recessão profunda, os EUA acabaram por ficar com uma rede ferroviária em todo o continente? E na Grã-Bretanha, analogamente, após a recessão do final da década de 1840, não assentou o longo boom subsequente da década de 1850, em parte, nas 6000 milhas da rede ferroviária, que foi a espinha dorsal do sistema de transportes do país e ajudou a Grã-Bretanha a manter a sua hegemonia global?

Fará a IA o mesmo pelo capitalismo americano, que actualmente enfrenta rivalidade crescente à sua hegemonia global? É bem possível que não. Basta dizer que podem os Sete Magníficos estar na mó de cima nas bolsas de valores, mas a sua vantagem tecnológica está seriamente ameaçada. No ano passado, a China lançou o DeepSeek, um modelo de linguagem de grande escala (LLM) muito mais barato, mas quase tão bom como o ChatGPT da OpenAi. E este ano, houve novos lançamentos de LLMs chineses com desempenho semelhante, mas custo muitíssimo inferior ao investido pelas empresas norte-americanas.

Os economistas tradicionais continuam divididos sobre se a IA virá a ter o mesmo impacto que as ferrovias tiveram no século XIX, ou a internet no final do século XX. O economista da Universidade de Stanford Eric Brynjolfsson prevê que a IA seguirá uma “curva em J”, com um efeito inicial de produtividade lento, e até negativo, conforme as empresas investem maciçamente na tecnologia antes de colherem finalmente os seus frutos. Só então vem o boom. Pode-se observar a curva em J no crescimento da produtividade industrial dos EUA, que caiu em meados da década de 1980 e, após a recessão de 1991, acelerou fortemente até meados da década de 2000.

ia-e-loucura-ferroviaria-img-08

Contudo, Daron Acemoglu, economista do MIT e vencedor do Prémio Nobel de 2024, argumenta que os ganhos de produtividade da IA generativa serão muito menores e levarão muito mais tempo do que pensam os optimistas da IA. Além de que as empresas de IA estão demasiado focadas no ChatGPT e noutros produtos de IA que têm pouca relevância para a maior parte dos sectores. Há quem aponte que, apesar de smartphones, redes sociais e aplicações como a Slack e a Uber, as tecnologias digitais passadas pouco contribuíram para que a economia crescesse. O ano que vem mostrará quem tem razão.


Tradução de Adriano Zilhão.

O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

categoria-opinião Greve Pacote Laboral edicao-2025-12-12 (08)

Chamam-lhe liberdade, nós chamamos-lhe exploração

O Governo prepara um pacote laboral que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha.

O chamado “Trabalho XXI” que Luís Montenegro quer impor ao país é, na verdade, um regresso acelerado ao passado mais duro das relações laborais. Sob o pretexto da modernização e da competitividade, o Governo prepara um pacote que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha. Fala-se em “flexibilizar horários”, mas o que está em cima da mesa é o aumento das jornadas, o crescimento das horas extraordinárias obrigatórias e a normalização de horários irregulares que impedem qualquer conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar.

E quando se destrói essa conciliação, destrói-se também a família. Não há família sólida quando os pais chegam sempre tarde, esgotados e ausentes. Não há natalidade sustentável quando ter filhos significa empobrecer ou perder o emprego. Não há sociedade equilibrada quando se pede às mães e aos pais que sacrifiquem o lar para salvar os lucros de alguns. O ataque aos direitos laborais é, inevitavelmente, um ataque à parentalidade e ao futuro do país.

Chamam-lhe liberdade; nós chamamos-lhe exploração.

Fala-se em “simplificar vínculos”, mas a proposta é abrir portas a contratos cada vez mais curtos e intermitentes, generalizando a precariedade a gerações inteiras. Fala-se em “reduzir encargos”, mas o que o Governo quer é baixar as contribuições para a Segurança Social, fragilizando o sistema e deixando para amanhã uma bomba-relógio que pagaremos todos, sobretudo os mais jovens. Fala-se em “adaptabilidade”, mas o objetivo real é permitir despedimentos mais fáceis e mais baratos, onde a suposta “inadequação” do trabalhador à empresa basta para o pôr na rua. Entre sorrisos liberais e discursos de oportunidade, o que está a ser preparado é um mercado de trabalho onde quem manda decide tudo e quem trabalha cala e obedece, ou perde o sustento.

O novo pacote laboral não é progresso, é uma agenda ideológica de submissão, mascarada de futuro.

Isto não é progresso. Isto é uma agenda ideológica de submissão, mascarada de futuro. E não podemos assistir calados enquanto direitos que custaram gerações de luta são rasgados em meia dúzia de reuniões de Conselho de Ministros ou em simulacros de negociação.

O país não pode aceitar que a dignidade laboral seja tratada como empecilho. Os trabalhadores portugueses já deram demasiado: salários baixos, produtividade a subir, lucros empresariais em máximos históricos. E agora querem dizer-nos que ainda é pouco, que temos de trabalhar mais horas, com menos proteção e com a vida toda posta de joelhos perante o patrão.

Pois não. Não aceitaremos.

Foi a luta coletiva que conquistou férias pagas, limite de horas de trabalho, Segurança Social, descanso semanal, contratação coletiva. E é pela mesma luta que impediremos este retrocesso. A greve geral de 11 de dezembro é o momento de dizer, claramente, que o país não se governa contra quem o constrói todos os dias, que não deixaremos que nos transformem em instrumentos descartáveis da economia. O Governo quer levar-nos ao século XIX em nome do século XXI. Aqui, agora, é o momento de travar esta marcha atrás. Quem trabalha merece respeito, estabilidade, tempo para viver e tempo para cuidar da sua família e dos seus filhos. Merece um país decente. E esse país não se pede de joelhos. Conquista-se de pé.

Dia 11, paramos para avançar. Porque os direitos não se negociam — defendem-se. Sempre.

Até sempre, Mariano!
Uma peça de teatro “escandalosa”
Quando o jornalismo de mãos limpas afia o lápis azul
O deputado que viaja para o passado
Luís Portilheiro, o desejável
Manuel Ramos
Portugal e estas eleições, ou um país doente
Aumentar o tempo de trabalho dos motoristas?
Uma Igreja Católica de uns contra os outros
Quando o país vai bem, e o povo, mal, The Economist condecora Portugal
Quando pimenta no pacote (laboral) alheio é refresco
A IA e a loucura ferroviária
Chamam-lhe liberdade, nós chamamos-lhe exploração
Até sempre, Mariano! Raquel Varela
categoria-opinião Estivadores Mariano Sindicalismo edicao-2026-01-29 (13)

Até sempre, Mariano!

Na morte de António Mariano, que presidiu ao Sindicato dos Estivadores e à frente deste travou grandes lutas contra a precariedade, com vitórias e derrotas, Raquel Varela recorda o amigo e companheiro de algumas dessas batalhas.

Raquel Varela
Uma peça de teatro “escandalosa” Miguel Real
categoria-opinião Ópera Teatro

Uma peça de teatro “escandalosa”

Wagner, a Arte da Fuga, de Ana Rocha, descreve as ideias musicais e políticas do jovem Wagner em 1849, aquando da sublevação da população de Dresden contra o rei da Saxónia, e o seu encontro com personagens como Bakunine e Marx.

Miguel Real
Quando o jornalismo de mãos limpas afia o lápis azul Sylvia Debossan Moretzsohn
categoria-opinião Instrumentalização Jornalismo

Quando o jornalismo de mãos limpas afia o lápis azul

No jornalismo, os factos são essenciais, mas o fundamental é “os sentidos que possam ter”.

Sylvia Debossan Moretzsohn
O deputado que viaja para o passado Manuel da Silva Ramos
categoria-opinião Chega Deputado edicao-2026-01-15 (11)

O deputado que viaja para o passado

Manuel Magno Alves foi eleito pelo círculo eleitoral Fora da Europa e é um senhor baixinho e parece que não mexe uma palha. De longe, parece um desses campónios que vieram com bosta nos sapatos para conquistar a cidade, mas trazem sempre com eles um cheiro a vacas leiteiras

Manuel da Silva Ramos
Luís Portilheiro, o desejável Manuel da Silva Ramos
categoria-opinião Autarca Chega edicao-2026-01-08 (10)

Luís Portilheiro, o desejável

Candidato do Chega à União das Freguesias de Sé e São Lourenço em Portalegre, este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem.

Manuel da Silva Ramos
Portugal e estas eleições, ou um país doente António Carlos Cortez
categoria-opinião Legislação laboral Motoristas edicao-2026-01-08 (10)

Portugal e estas eleições, ou um país doente

Vivemos, argumenta o autor, “o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos” porque “os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário”.

António Carlos Cortez
Aumentar o tempo de trabalho dos motoristas? Rita Garcia Pereira
categoria-opinião Legislação laboral Motoristas edicao-2025-12-18 (09)

Aumentar o tempo de trabalho dos motoristas?

Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.

Rita Garcia Pereira
Uma Igreja Católica de uns contra os outros Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião Igreja Mulheres edicao-2025-12-18 (09)

Uma Igreja Católica de uns contra os outros

Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.

Pe. José Luís Rodrigues
Quando o país vai bem, e o povo, mal, The Economist condecora Portugal Adriano Zilhão
categoria-opinião Portugal Economia edicao-2025-12-18 (09)

Quando o país vai bem, e o povo, mal, The Economist condecora Portugal

Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.

Adriano Zilhão
Quando pimenta no pacote (laboral) alheio é refresco Tiago Franco
categoria-opinião Pacote Laboral Propaganda edicao-2025-12-18 (09)

Quando pimenta no pacote (laboral) alheio é refresco

Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho.

Tiago Franco
A IA e a loucura ferroviária Michael Roberts
categoria-opinião IA Economia edicao-2025-12-12 (08)

A IA e a loucura ferroviária

A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870.

Michael Roberts
Chamam-lhe liberdade, nós chamamos-lhe exploração António Marçal
categoria-opinião Greve Pacote Laboral edicao-2025-12-12 (08)

Chamam-lhe liberdade, nós chamamos-lhe exploração

O Governo prepara um pacote laboral que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha.

António Marçal

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.