categoria-opinião

A UGT e a proposta “Trabalho com direitos XXI”
categoria-opinião Pacote Laboral Trabalho com direitos UGT edicao-2026-02-19 (16)

A UGT e a proposta “Trabalho com direitos XXI”

As propostas da UGT alteram dezenas de artigos do nosso Código do Trabalho. O documento, segundo a UGT, não pretende ser uma tomada de posição sobre o anteprojeto do Governo, mas uma alternativa.

João Leal Amado
Bairros problemáticos
categoria-opinião Cidade Habitação edicao-2026-02-19 (16)

Bairros problemáticos

O preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo.

Rui Pinto
Portugal a três tempos: a ideologia urbana e a resistência rural
categoria-opinião Rural Urbano edicao-2026-02-19 (16)

Portugal a três tempos: a ideologia urbana e a resistência rural

Numa mentalidade nacional onde o ser rural ainda é pacóvio e o urbano é cosmopolita, veremos ainda o coletivo rural a levantar-se do chão, revoltando-se contra a opressão que o quer curvar?

Duarte Figueiredo
O regime de Isaltino
categoria-opinião Oeiras Ordenamento Territorial edicao-2026-02-12 (15)

O regime de Isaltino

Em Oeiras, nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país.

Duarte d'Araújo Mata
7305 dias depois
categoria-opinião Emigração Imigração Suécia edicao-2026-02-12 (15)

7305 dias depois

Quando cheguei à Suécia, como qualquer emigrante que se preze, tinha como objectivo ficar apenas dois anos. Tudo era novidade. Jogging na neve? Por que não? Férias em sítios frios? Claro que sim. Salmão com batatas? Que iguaria.

Tiago Franco
Nos 80 anos do Jornal do Fundão
categoria-opinião Imprensa Liberdade edicao-2026-02-12 (15)

Nos 80 anos do Jornal do Fundão

O Jornal do Fundão, que agora perfaz 80 anos, não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução.

Miguel Real
Desventurazinhas
categoria-opinião Eleições Presidenciais Maio edicao-2026-02-05 (14)

Desventurazinhas

Esta é uma resposta ao texto “O desventura”, publicado por Jorge Costa (BE) no esquerda.net em que, na parte final (aquela que fica na retina do espectador) pega num alfinete para atacar uma suposta opção do Maio pelo apelo à abstenção na segunda volta das presidenciais.

António Simões do Paço
Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro
categoria-opinião Eleições Presidenciais Manuel Carlos Silva Seguro Ventura edicao-2026-02-05 (14)

Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro

Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro.

Manuel Carlos Silva
Até sempre, Mariano!
categoria-opinião Estivadores Mariano Sindicalismo edicao-2026-01-29 (13)

Até sempre, Mariano!

Na morte de António Mariano, que presidiu ao Sindicato dos Estivadores e à frente deste travou grandes lutas contra a precariedade, com vitórias e derrotas, Raquel Varela recorda o amigo e companheiro de algumas dessas batalhas.

Raquel Varela
Uma peça de teatro “escandalosa”
categoria-opinião Ópera Teatro

Uma peça de teatro “escandalosa”

Wagner, a Arte da Fuga, de Ana Rocha, descreve as ideias musicais e políticas do jovem Wagner em 1849, aquando da sublevação da população de Dresden contra o rei da Saxónia, e o seu encontro com personagens como Bakunine e Marx.

Miguel Real
Quando o jornalismo de mãos limpas afia o lápis azul
categoria-opinião Instrumentalização Jornalismo

Quando o jornalismo de mãos limpas afia o lápis azul

No jornalismo, os factos são essenciais, mas o fundamental é “os sentidos que possam ter”.

Sylvia Debossan Moretzsohn
O deputado que viaja para o passado
categoria-opinião Chega Deputado edicao-2026-01-15 (11)

O deputado que viaja para o passado

Manuel Magno Alves foi eleito pelo círculo eleitoral Fora da Europa e é um senhor baixinho e parece que não mexe uma palha. De longe, parece um desses campónios que vieram com bosta nos sapatos para conquistar a cidade, mas trazem sempre com eles um cheiro a vacas leiteiras

Manuel da Silva Ramos
categoria-opinião Pacote Laboral Trabalho com direitos UGT edicao-2026-02-19 (16)

A UGT e a proposta “Trabalho com direitos XXI”

As propostas da UGT alteram dezenas de artigos do nosso Código do Trabalho. O documento, segundo a UGT, não pretende ser uma tomada de posição sobre o anteprojeto do Governo, mas uma alternativa.

Depois de o Governo ter apresentado, em 24 de julho de 2025, o seu anteprojeto de revisão da legislação laboral, a que atribuiu o nome de “Trabalho XXI”, a UGT veio recentemente dar o seu contributo nesta matéria, tendo entregado ao Governo a sua proposta no dia 4 de fevereiro, a que chamou, sugestivamente, “Trabalho com direitos XXI”.

As propostas formuladas pela UGT são extensas, constam de um documento com mais de 30 páginas e alteram dezenas de artigos do nosso Código do Trabalho, sendo impossível, claro, condensá-las neste pequeno texto. Mas importa, ainda assim, deixar aqui algumas notas breves a este propósito.

A primeira, e talvez a mais importante, para sublinhar que esta não é uma contraproposta da UGT ao anteprojeto do Governo. Quanto a isso, a UGT reafirma que já tomou posição: “Esse Anteprojeto, pelo manifesto desequilíbrio que apresenta, com a totalidade das propostas a favorecerem o lado empregador, e pelos conteúdos gravosos que contém, com cortes de direitos em áreas centrais para os trabalhadores e os seus representantes, mereceu desde logo o rotundo não da UGT e dos seus Sindicatos”. Aliás, “essa posição de não partilha da visão do Governo para a legislação do trabalho e para a vida das empresas e trabalhadores foi expressa em parecer emitido em setembro de 2025, no qual a UGT não apenas emitiu posição sobre as propostas do Governo, assinalando nomeadamente aquelas que se revelam inaceitáveis, como apresentou um conjunto de novas matérias e propostas que gostaria de ver discutidas”. Assim sendo, a UGT é clara: “O presente documento não pretende ser uma tomada de posição sobre o anteprojeto do Governo”.

Seria um erro, para os sindicatos, permitirem que o Governo balizasse a discussão, centrando-a no conteúdo do [seu] anteprojeto.

Creio que este ponto é muito importante, porque mostra que a UGT – e bem – não se deixou acantonar nos temas eleitos pelo Governo quando elaborou o respetivo anteprojeto. Seria um erro, para os sindicatos, permitirem que o Governo balizasse a discussão, centrando-a no conteúdo do anteprojeto. A UGT adotou outra estratégia: olhou para a atual lei e formulou um conjunto de propostas de alteração dessa lei, sem privilegiar as matérias contantes do anteprojeto governamental. O Governo apresentou as suas propostas, a UGT fez o mesmo: o diálogo resultará do cruzamento dessas diversas propostas, sem dar especial relevo àquelas que o Governo fez constar do seu anteprojeto.

A segunda nota, relativa ao teor das propostas apresentadas pela UGT, serve para sublinhar que nas mesmas se deteta, sobretudo, uma preocupação com a valorização dos direitos de quem trabalha, designadamente em matéria de remuneração e outros direitos de índole patrimonial: acréscimos no pagamento do trabalho noturno e suplementar, regime legal dotado de imperatividade mínima nestas matérias, aumento significativo da compensação devida ao trabalhador em caso de caducidade dos contratos a termo, certo ou incerto, aumento da compensação devida ao trabalhador que seja alvo de um despedimento coletivo, por extinção do posto de trabalho ou por inadaptação, majoração da indemnização devida ao trabalhador em caso de despedimento ilícito sem reintegração, etc. A par disto, as propostas da UGT centram-se também num outro tema muito importante, o da redução dos limites do período normal de trabalho, diário e semanal (propõe-se a consagração da regra das 7 horas por dia e 35 horas por semana), medida que, por seu turno, aparece associada à recuperação do projeto da “semana de trabalho de quatro dias”, sem perda de retribuição.

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Naturalmente, muitas outras matérias constam desta proposta, desde férias e faltas, até diversos aspetos relativos a direitos coletivos (atividade sindical na empresa, manutenção de efeitos da convenção coletiva após a sua caducidade, etc.). Mas, em termos gerais, o contraste entre esta proposta da UGT e o anteprojeto do Governo é evidente: a UGT situa as suas propostas no rumo que havia sido traçado pela Agenda do Trabalho Digno, em 2023, procurando fazer agora o que então não foi feito, sobretudo relativamente a muitos direitos suprimidos no tempo da Troika e que nunca chegaram a ser repostos; o Governo, pelo seu lado, parece retomar a linha de rumo adotada pelo Código de Trabalho de 2003 e pela legislação da Troika, guiando-se não tanto pela ideia da dignidade do trabalho, mas sobretudo pela flexibilidade do mercado de trabalho e pela competitividade empresarial, mesmo que à custa da degradação do estatuto dos trabalhadores e da promoção da precariedade.

Isto dito, fica difícil imaginar que estas duas propostas possam encontrar-se a meio caminho e contrair matrimónio. Mas, confesso, se tal não suceder, se o Governo não abandonar as suas posições maximalistas e rumar ao parlamento sem acordo, não custa adivinhar o que irá suceder: o Governo vai colocar-se nas mãos do Chega. E colocar-se nas mãos do Chega, admitir aprovar uma profunda reforma das leis do trabalho com esse partido salazarento, justamente no ano em que se assinala o 50.º aniversário da Constituição da República, seria, isso sim, um autêntico despautério!

categoria-opinião Cidade Habitação edicao-2026-02-19 (16)

Bairros problemáticos

O preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo. Grande parte deste bolo é artificial, alimenta agiotas, intermediários, certificações e especuladores.

A serpente convenceu-os a comer a maçã proibida e logo foram expulsos do paraíso. No paraíso não precisavam de casa, dado que uma atmosfera amena dispensava o abrigo ou condições de conforto excepcionais. Se no paraíso não necessitavam de casa, dispensavam ainda agricultores, cozinheiros ou médicos, já que no paraíso os frutos caíam-lhes das árvores sobre a boca, da mesma forma que não consta que no paraíso alguém ficasse doente. Eva e Adão representam o primeiro caso de expulsão do lugar onde viviam, motivado pela transgressão dos valores morais divinos, momento equiparável aos que hoje não conseguem ser proprietários ou suportar os valores da renda de uma casa. Adão e Eva, fora do Éden, tiveram de procurar abrigo: primeiro numa caverna e depois, fartos da escuridão, com os troncos e ramagens que tinham à mão construíram a primeira cabana, momento tectónico que marca o aparecimento da arquitetura. Uns milénios mais tarde, nas visões protestantes puritanas, a maçã volta a servir de metáfora, mas desta vez a alusão é um pouco diferente: centra-se nos perigos da maçã desalinhada dentro do cesto, capaz de contaminar as demais maçãs, tenras, que de forma individual aspiram a ser ricas, tão ricas como as maçãs brilhantes que aparecem nos canais cor-de-rosa. Nascidos na cabana ancestral, Abel e Caim vieram a marcar a tensão fatal entre os possuidores de terra e os alienados da mesma. Abel representa o pastor nómada e Caim o agricultor proprietário que de forma violenta domesticou a terra e ergueu muros para a delimitar.

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Nos milénios intermédios, entre os dias da criação e os dias de hoje, tivemos ajuntamentos e múltiplas organizações: nómadas, pequenos povoados, cidades erguidas, palácios erguidos sobre elas, depois conquistadas ou destruídas, segundo um palimpsesto constante. Se os mitos nos ajudam a entender parte deste processo, os vestígios arqueológicos dos antigos assentamentos humanos são autênticos documentos que prestam informações vitais sobre a ocupação do território e sobre a organização política das comunidades humanas. Numa abordagem sobre este tema, em O princípio de tudo, um livro escrito entre David Graeber e David Wengrow (Bertrand, 2022), ressaltam dados importantes sobre os caçadores-recolectores da pré-história, comunidades que alternadamente viviam entre a viagem e a prática agrícola sedentária. De alguma forma desmontam a linha histórica que aprendemos na escola, que resume a revolução agrícola a um único episódio. Graeber e Wengrow dizem-nos ainda que muitos dos pulos civilizacionais foram dados em comunidades mais colaborativas, algo que os cientistas que estudam primatas já detectaram há muitos anos: comunidades de macacos territoriais e competitivas tendem a destruir-se, ao passo que as comunidades mais colaborativas e matriarcais tendem à prosperidade social.

As formas de habitar decifradas pela história e escavadas pela arqueologia dizem-nos muito sobre os ciclos políticos, sendo curioso comparar os totalitarismos do passado com o totalitarismo financeiro que comanda o mundo dos nossos dias, cada vez mais desigual, digital e distópico. A apropriação da cidade segundo a condição económica dos mais fortes é hoje demasiado assumida, sendo impossível negar que a cidade de hoje esteja a gerar fenómenos de gentrificação e distúrbios ambientais. Num interessante trabalho designado A Cidade Neoliberal (Deriva Editores, 2018), Ana Estevens fala-nos de uma cidade participada e em permanente conflito: de ideias, diferenças ou modos de estar, versus uma cidade neoliberal violenta: “homogénea, submissa, segura, a-conflituosa, competitiva, e em que não se conhecem, vivem alheados”.

A cidade atual não se deixa explicar pelo que observamos em domínios tão concretos como o seu ordenamento.

Os mitos lá tentam explicar o mundo e a cidade atual não se deixa explicar pelo que observamos em domínios tão concretos como o seu ordenamento: condomínios de luxo blindados ou bairros problemáticos construídos sobre áreas de elevado valor ambiental para os ricos; áreas disléxicas e desagarradas para uma população há muito degradada. Em Portugal temos hoje mais de treze mil pessoas que vivem nas ruas (na Europa, cerca de 1,2 milhões), número muito superior quando comparado com a crise da heroína dos anos 80. Nos EUA, país que nos vendeu o modelo do homem bem-sucedido, montado num descapotável devorador de dólares, temos hoje quarenta milhões de pobres, condicionados no acesso a uma casa, educação plena dos seus descendentes ou direito ao elementar acesso aos cuidados de saúde. Foi essa face da América, do sonho, onde tudo é imenso, incluindo a casa, a piscina e os clichés de Hollywood, que participou no desenho da paisagem da velha Europa: cidades temáticas rodeadas de vias rápidas entre shoppings e não-lugares logísticos. Se nos arredores das nossas cidades isso parece evidente, na província vemos o mesmo fenómeno: supermercados de alumínio pechisbeque (iguais em todo o lado), construídos pelas empresas de retalho, numa permanente competição entre si, sem qualquer relação com os contextos locais, assoladores do comércio local.

Por seu turno, o preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo. Grande parte deste bolo é artificial, alimenta agiotas, intermediários, certificações e especuladores. Neste regime de eficácia, excluem-se as artes, a arquitectura, os experimentalismos ou a utopia de um mundo melhor. Tudo tende à normalização, onde a IA e os BIM’s (Building Information Modeling /Modelagem da Informação da Construção) parecem convergir, prometendo mais celeridade e a superação da participação humana na ética de construir ou fazer cidade.

categoria-opinião Rural Urbano edicao-2026-02-19 (16)

Portugal a três tempos: a ideologia urbana e a resistência rural

Numa mentalidade nacional onde o ser rural ainda é pacóvio e o urbano é cosmopolita, veremos ainda o coletivo rural a levantar-se do chão, revoltando-se contra a opressão que o quer curvar?

Na banalidade do dia a dia somos algumas vezes confrontados com o discurso existencial da dualidade de realidades em Portugal, o mundo urbano e o mundo rural. Se de um lado é mera perceção politizada, para o outro é a realidade material do quotidiano e não é apenas atual, tem raízes históricas, criando moldes sobre como interpretamos as vivências diferenciadas entre a mente urbana e o coletivo rural moderno.

Se houve movimento cultural que dissecasse essa dualidade foi o neorrealismo português, nomeadamente, a sua expressão literária com autores de renome da intelectualidade popular portuguesa como o antropológico Alves Redol, o incisivo e crítico Saramago, o deambulante Fernando Namora ou o fugaz, mas eterno, Soeiro Pereira Gomes.

Numa leitura de Levantado do Chão, de Saramago, encontramos a narrativa romanesca dos tempos da opressão salazarista onde o rural é confrontado com a miséria da política urbana e centralista de um governo desfasado da realidade material dos trabalhadores rurais, muitos deles ambulantes da lavoura, malteses não por vocação, mas por sujeição à dureza da vida. O brilhantismo desta obra está no contar da história, esta de linguagem mundana, adequada aos tempos e à pessoa comum, que coletiviza o sofrimento diário de quem se castiga pela sobrevivência em contradição com as instâncias que criam este ambiente de aceitação e exploração, como a Igreja ou os agentes policiais ao serviço daqueles urbanos materialmente superiores, moralmente inferiores.

Este retrato duro, no seu sentido mais lato, é uma descrição fiel daquilo que foi, durante décadas, o Portugal a dois tempos. É daqui que partimos até à atualidade, uma vivência diferente, em virtude da passagem do tempo, mas herdeira da lógica antiga. O Portugal atual é um Portugal a três tempos, um confronto entre uma lembrança histórica e o progresso desalmado e frio.

O primeiro tempo é aquele centralismo focado no urbano, desprovido das certezas que o interior enfrenta. A sua análise governativa é feita em laboratório, calculam-se as variáveis, gerem-se as incertezas e planeia-se o lucro. É certo que é o motor do progresso, mas a questão que se coloca é: progresso para quem? Afinal, o progresso técnico, à luz da crítica gramsciana, serve realmente à população local? Ou é mera formatação urbana à realidade rural? Não será mera coincidência. Fabrica-se consentimento na ausência de força de contestação para se cimentar a hegemonia de que em Lisboa se cria o futuro, seja este para o coletivo nacional ou apenas para os sujeitos litorais.

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Mas se a desruralização é intencional, o progresso urbano é faseado e entra em embate com o sujeito que pretende, paradoxalmente, extirpar e explorar: o sujeito rural. Entra assim o paradigma que é o segundo tempo, um híbrido semiperiférico que existe numa dialética eterna. Isto é, numa contradição entre a pressão moderna de se urbanizar – em torno de um progresso técnico que é desvirtuado da necessidade local – e a resistência da etnografia rural que vive na simplicidade da sua realidade material.

É também síndrome do modelo de desenvolvimento urbano que expulsa para estas zonas semiperiféricas os trabalhadores citadinos que fogem à crescente pressão dos altos custos de vida, fruto da gentrificação importada. Reduz-se assim a expressão destas zonas como meros “dormitórios” dos grandes centros urbanos.

Mas a questão não é romantizar nem enaltecer uma vida frugal e arcaica num meio rural, elevando o espírito ao contacto natural, como diria Agostinho da Silva. A intenção é, sim, alertar que este encontro entre o planeamento central e o território é desfasado da realidade material e cultural do local, afinal, e questionando novamente, a quem serve afinal este modelo de progresso industrial?

Por fim, entra a tragédia do esquecimento, o território periférico, rústico por intenção e propositadamente silencioso. Entra, assim, o Portugal a terceiro tempo, uma periferia que outrora albergava uma riqueza de tradição humana que foi esvaziada com o trajeto do tempo, fosse pelo êxodo rural ou pela massiva emigração. E mantém-se neste estado situacional, onde o Governo central falha em ir ao encontro, mas onde o capital chega para a extração, seja pela monocultura que esgota os solos e água, seja pelo eucaliptal intensivo que nos recorda anualmente que ali existe população que sofre as amarguras dos efeitos de um território desprovido de governação ajustada à vontade local.

Em terra de poucos ou nenhuns, a exploração é santa, o lucro é sigiloso e a demografia é silenciosa.

O seu estatuto de resistente rural não é por conservadorismo cultural, mas por negligência estatal, ao deixar no abandono vasto território desprovidos de meios materiais para um progresso significativo e natural ao território. Esta vontade é reduzida e já pouca contestação consegue fazer, pois em terra de poucos ou nenhuns, a exploração é santa, o lucro é sigiloso e a demografia é silenciosa, sendo subvertida à lógica central de quem vê Portugal através de números e ouve o povo apenas em tempos eleitorais.

No entanto, seria ingenuidade achar que não existe também uma elite que, por vassalagem à tecnocracia cosmopolita ou por genuína vontade capital, beneficia deste silêncio populacional. Onde o poder político nacional se retira, alia-se o poder político local com o importado capital, impondo a sua presença – em nome do desenvolvimento, dizem eles. Mas geram-se frutos que o trabalhador local vê passar, mas não prova.

Da crítica não se pretende destratar o progresso, mas sim refletir em que moldes esta aventura política de vários governos proporcionou um desenvolvimento claro e equitativo para a realidade material. Afinal, a linha do tempo demonstra que o nível de desenvolvimento se dilui à medida que se vai perdendo Lisboa de vista.

Revela-se então uma hegemonia urbana que se espalha por um território nacional desigual, tanto na sua demografia como na sua etnografia, uma demonstração de que a questão geográfica é, na sua essência, uma questão de classes. Não serve para opor o trabalhador rural ao trabalhador urbano, mas sim para denunciar a contínua mentalidade cosmopolita que despreza o ser rural, no sentido existencial de ser, mas que o explora ao sabor do lucro e à distância de um clique.

Numa mentalidade nacional onde o ser rural ainda é pacóvio e o urbano é cosmopolita, será isto um sintoma da sociedade? Ou será a herança bastarda do Estado Novo que, intencional ou não, foi perpetuada pelo poder político? Ainda se alimenta as elites lisboetas com a exploração da precariedade do trabalhador ribatejano?

No final de Levantado do Chão, vemos o coletivo a levantar-se do chão, revoltando-se contra a opressão que os quer curvar. A questão que coloco é: ainda temos alguém disposto a levantar-se do chão? Ou iremos continuar vergados à apatia da governação?

categoria-opinião Oeiras Ordenamento Territorial edicao-2026-02-12 (15)

O regime de Isaltino

Em Oeiras, nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país.

A atração de investimento em Oeiras e a cada vez maior visibilidade mediática destacam um estilo de liderança. Simultaneamente, movimentos de cidadãos entre os quais se destaca o Movimento Evoluir Oeiras têm salientado desafios estruturais como o ordenamento do território sustentável, a adaptação às alterações climáticas ou a mobilidade, que a ânsia da dispersão urbana não contempla.

A gestão autárquica de Isaltino Morais não é por isso conhecida pela forma como silencia a oposição em reuniões de câmara, a desconsideração da participação pública e a falta de compromisso pela transparência, pelo congestionamento automóvel, pelas cheias urbanas crescentes e toda a gama larga de despesismos e obras de fachada, suportado nos estratosféricos gastos em propaganda: 1,3 milhões de euros só em diferentes aquisições para comunicação, redes sociais e marketing no último mandato 2021-2025. É obra.

O sucesso, esse, reside na especulação de solos, que é aliás uma das nossas melhores indústrias nacionais. Há décadas que Isaltino Morais a promove, agora embrulhada em fortes campanhas de marketing e numa estratégia de marca “Oeiras Valley”.

Vamos recordar: nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país, tendo como resultado geral mais tráfego automóvel e o afastamento de um modelo metropolitano compacto, sustentável e estruturado no transporte público pesado existente.

O sucesso reside na especulação de solos, que é aliás uma das nossas melhores indústrias nacionais.

Isto aconteceu. Mais grave é que, ignorando todos os impactos e externalidades, 40 anos depois a receita continua a mesma, quando o paradigma deveria ter mudado com a alteração do Regime dos Instrumentos de Gestão Territorial (RJIGT) em 2014, desenvolvido pelo então ministro do PSD, Jorge Moreira da Silva, apontando precisamente para a contenção dos perímetros urbanos. Em 2015, António Costa chegou a defender, e estava no seu programa eleitoral, áreas metropolitanas com verdadeiros poderes de decisão. Contudo, em 2019, essa ideia misteriosamente desapareceu do seu programa, deixando decisões estratégicas de claro impacto regional alicerçadas na esfera municipal.

Convém aqui também recordar o regresso de Isaltino Morais a Oeiras em 2017: regressa depois de cumprir pena de prisão por fraude fiscal e branqueamento de capitais, na sequência de um processo judicial iniciado com a investigação de contas bancárias não declaradas na Suíça onde depositou mais de 1,3 milhões de euros e onde, na sentença, os juízes sublinham que o arguido nunca demonstrou arrependimento.

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Refinado na sua receita de sempre quanto aos solos, juntou-lhe a ideia falaciosa de que é preciso construir mais para resolver o acesso à habitação, contra a lógica do RJIGT, e com isso fez aprovar em 2022 o seu Plano Diretor Municipal de Oeiras (PDMO), em claro desacordo com o espírito da lei. Isaltino trata a proteção de solos de elevado valor como radicalismo ambiental e desvaloriza a importância da produção local no novo contexto de circuitos curtos. É mais fácil a via verde extraordinária das mais-valias privadas, um verdadeiro “tanque de combustível”. O rosto do “construir-se mais e mais investe, porém, em apoios sociais, faz mais habitação pública do que a generalidade dos municípios portugueses e toma posição contra o líder da extrema-direita, aproveitando a popularidade crescente nas redes sociais e nas televisões. E é aqui que a esquerda cai na armadilha: Com o aparecimento da extrema-direita, um discurso moderado, a imagem de proximidade e a atenção às questões sociais deslumbram os mais incautos, trazendo a balança para o centro, apesar do modelo de ordenamento territorial liberal que poderia ter sido pensado pela Iniciativa Liberal.

Quando vemos Daniel Oliveira ou Mafalda Anjos a elogiarem sucessivamente o autarca de Oeiras, percebemos a dimensão do equívoco, que já não é local.

Foi a pensar para além de Oeiras que surgiu o seu empenhado investimento na figura do almirante Gouveia e Melo para Presidente da República. Não correu bem desta vez, mas não deixa de ter o sistema na mão.

categoria-opinião Emigração Imigração Suécia edicao-2026-02-12 (15)

7305 dias depois

Quando cheguei à Suécia, como qualquer emigrante que se preze, tinha como objectivo ficar apenas dois anos. Tudo era novidade. Jogging na neve? Por que não? Férias em sítios frios? Claro que sim. Salmão com batatas? Que iguaria.

Há exactamente 7305 dias saí de Portugal. Apanhei um voo para Dublin e daí para Gotemburgo. Queria fazer qualquer coisa diferente e, se possível, ver um bocado do mundo.

Trabalhava há cinco anos na Autoeuropa, a “empresa modelo”, e não raras vezes, no fim do dia, chegava ao carro, naquele enorme parque de estacionamento, e deixava cair umas lágrimas. Para quem nunca quis ser engenheiro, o trabalho que ali fazia apenas acumulava frustração à que já trazia de casa. Tinha colegas fantásticos, mas um conjunto de tarefas que não me diziam nada.

Quando cheguei à Suécia, como qualquer emigrante que se preze, tinha como objectivo ficar apenas dois anos. A minha vida mudou antes de Passos Coelho nos aconselhar a procurar oportunidades longe de Portugal ou de a troika voltar a meter a emigração com números dos tempos da guerra colonial.

Os primeiros anos foram fáceis. Tudo era novidade. Jogging na neve? Por que não? Férias em sítios frios? Claro que sim. Salmão com batatas? Que iguaria. Mar sem ondas? Que confortável.

Entrei sem dificuldades numa sociedade organizada onde tudo parecia acontecer por magia. Lembro-me de ligar para casa a contar que o IRS se entregava com um SMS e a palavra “sim”. Quando o meu filho nasceu, comecei a ter acesso ao famoso estado social, que tudo cobre na educação e na saúde. Os impostos, altíssimos, eram vistos como uma medida de progresso e organização social justa. Se o socialismo se aplicava algures como eu o imaginava, aquilo seria, provavelmente, o mais próximo que veria.

Os contratos de trabalho feitos de acordo com a concertação social e o movimento sindical presente em todas as áreas profissionais. Mais emprego do que trabalhadores, uma economia pujante que, mesmo em períodos de crise, recuperava rapidamente nas costas do seu enorme tecido industrial e produtivo.

Ao fim de alguns anos, os regressos, especialmente os regressos no fim de cada verão, começaram a ficar mais difíceis. Algumas pessoas saíram da minha vida, outras foram envelhecendo, outras cresceram para perfis que perdi. O tempo começou a ser contado e a vista da janela do avião, deixando Lisboa para trás, passou a ser cada vez mais dolorosa. Na Suécia, o relativo sucesso profissional nunca ofuscou a falta de proximidade nas relações pessoais. Há momentos na vida em que uma sociedade desorganizada se aceita em troca de um abraço.

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Foi por essa altura que, a cada Setembro, concorri a vagas de emprego na esperança de poder voltar. Em cada uma dessas vezes interrompia as entrevistas no mesmo sítio. Os anos iam passando e os salários praticados eram, sem tirar nem pôr, os que tinha deixado na Autoeuropa. Com a pequena diferença de que o custo de vida em Portugal não parava de crescer. Em resumo, íamo-nos tornando mais pobres com o passar do tempo.

Fui assistindo a tudo, enquanto as facções do ódio cresciam com o aparecimento da extrema-direita. Primeiro na Suécia e depois em Portugal. Hoje representam essencialmente o mesmo eleitorado nos dois países. Um em cada cinco vota no Chega ou no SD. Portugal crescia na pobreza e nos conflitos sociais. A Suécia ia-se tornando mais avessa a imigrantes. Nenhum me parecia, ou parece, particularmente apelativo. Nada disto estava no plano inicial da emigração.

Não sou, nem nunca fui, ingrato para com o meu país de acolhimento. Tudo o que profissionalmente atingi e aprendi devo-o, em exclusivo, às oportunidades que ali tive. Cumpro hoje 20 anos de emigração e tentei, sempre, contribuir para aquela sociedade, com trabalho e responsabilidade social.

Tenho, por razões óbvias, uma imensa dificuldade em compreender o ódio aos imigrantes e toda a narrativa usada para nos dividir.

Chegado ao dia de hoje e quando penso no assunto, fá-lo-ia novamente? Provavelmente, sim. Mas a estrada teria sido outra e o destino final também. Passei na Suécia os momentos mais tristes da minha vida, mas também os mais felizes. Guardo pessoas que ficarão na minha memória para sempre e outras, como é normal, cuja passagem e nomes já esqueci.

Em 2006 imaginava que, no regresso, teria no meu país um porto seguro de acolhimento. Cresceram as auto-estradas, aumentou o turismo, multiplicaram-se os casos de corrupção. No essencial, parece-me, encontro um país pior do que aquele que deixei. Mas admito que possa ser apenas a desilusão de perceber que já não terei tempo de ver o país imaginado.

Tenho, por razões óbvias, uma imensa dificuldade em compreender o ódio aos imigrantes e toda a narrativa usada para nos dividir, usando apenas quem, como eu e outros, um dia quis fazer algo diferente para melhorar as condições de vida.

7305 dias depois já não tenho a certeza de querer envelhecer em Portugal. Esta era, curiosamente, a única certeza que tinha quando parti.

O tempo passou, para mim e para todos. Só para Portugal é que parece ter parado. Quiçá regredido, até aos loucos anos 30 do século passado.

categoria-opinião Imprensa Liberdade edicao-2026-02-12 (15)

Nos 80 anos do Jornal do Fundão

O Jornal do Fundão, que agora perfaz 80 anos, não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução.

Antes do 25 de Abril, para além do República, comprava religiosamente numa tabacaria do Rossio, em Lisboa, três jornais: o Notícias da Amadora (aqui perto de Lisboa), o Comércio do Funchal, dirigido pelo Vicente Jorge Silva, e o Jornal do Fundão, de António Paulouro. Nenhuma relação tinha com a Amadora, o Funchal e o Fundão. Comprava-os porque eram jornais diferentes, via neles uma luz social diferente, via neles o que ainda hoje vejo no Jornal do Fundão: um jornal de causas, a luta e a defesa por uma ampla justiça social que a todos iguale.

Antes do 25 de Abril, a luta oposicionista pela democracia; depois do 25 de Abril, a luta pela valorização do interior a todos os níveis.

A minha preferência atual pela leitura do Jornal do Fundão reside na sua capacidade semanal de desafiar o centro (Lisboa) e as instituições centrais do Estado.

O Jornal do Fundão é, todas as semanas, como voz popular, um jornal incómodo para a ordem instituída em Portugal, um combatente da liberdade, da igualdade e da justiça social.

A sua antiguidade (80 anos é muito ano) podia dar-lhe um lugar de conforto de burguesia provinciana satisfeita. Mas não, as suas páginas são escritas a partir do confronto com o centro em função do que devia ser o dever deste como pessoa de bem e de que se exime, ou o cumpre concedendo migalhas.

O Jornal do Fundão é, todas as semanas, como voz popular, um jornal incómodo para a ordem instituída em Portugal, um combatente da liberdade, da igualdade e da justiça social. Traz consigo essa marca antiga do seu fundador, a palavra sempre suspeita de quem recusa a neutralidade.

O Jornal do Fundão não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução. É nutrido por uma fidelidade obstinada aos mais frágeis, aos que não cabem nos discursos dominantes nem nas narrativas oficiais.

Assim espero que continue muitos anos.

categoria-opinião Eleições Presidenciais Maio edicao-2026-02-05 (14)

Desventurazinhas

Esta é uma resposta ao texto “O desventura”, publicado por Jorge Costa (BE) no esquerda.net em que, na parte final (aquela que fica na retina do espectador) pega num alfinete para atacar uma suposta opção do Maio pelo apelo à abstenção na segunda volta das presidenciais.

Jorge Costa, dirigente e ex-deputado do Bloco de Esquerda, aproveitou um texto publicado no esquerda.net para um ataque ao jornal Maio.

Saúdo e compartilho a sua tomada de posição sobre a necessidade de votar, na segunda volta das presidenciais, contra Ventura – e em António José Seguro, não em branco ou abstendo-se, para achatar ao máximo o resultado do candidato fascista.

Já não saúdo nem aprecio a forma “capelista” como termina o seu texto, tentando associar o jornal Maio a uma tomada de posição pela abstenção na segunda volta das eleições presidenciais. O Maio, ao contrário do esquerda.net, onde publica o seu texto, não é um jornal de partido. Nestas presidenciais convidou apoiantes de diversas candidaturas de esquerda a explicarem as razões do seu voto neste ou naquele candidato, incluindo a de António José Seguro, a de António Filipe e a candidata do Bloco, Catarina Martins, entre outros. Ninguém defendeu a abstenção, nem para a primeira, nem para a previsível segunda volta. No meu caso, quando defendi o voto na primeira volta em André Pestana, pronunciei-me até sobre a segunda: “Numa segunda volta, em face do que se perspetiva, o meu voto será quase certamente um voto contra. Então se o candidato fascista estiver presente, votarei obviamente contra ele. Contra o fascismo, votaria até numa mula, se fosse preciso.”

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No seu texto, Jorge Costa optou por separar dos parágrafos imediatamente anterior e posterior a uma frase de análise em que se critica a “conivência do PS e seus parceiros com a austeridade”, e se refere que “martirizado(s) pelas políticas de José Sócrates e da ‘geringonça’”, alguns se abstêm, “porque não ve(em) alternativa, não porque se esteja(m) nas tintas para Ventura ganhar”, aquilo que aí se afirma: “Uma vitória de Ventura significaria uma ameaça iminente de violenta degradação dos direitos, liberdades e garantias” e “Pode-se derrotar o fascismo nas urnas, mas só momentaneamente; definitivamente, o fascismo só se derrota nas ruas, nos locais de trabalho, na greve, na luta, na cooperação, nos movimentos associativos e culturais.”

Absolutamente claro, a menos que se esteja com os óculos embaciados.

Aprendi ao longo da vida que para qualquer combate, sobretudo os mais importantes, se procuram aliados, não se inventam inimigos.

Vamos lá derrotar o Ventura!

PS: Balanços sobre a desventurada política do Bloco durante a “geringonça” já há muitos e não é o momento de aqui fazer mais um.

categoria-opinião Eleições Presidenciais Manuel Carlos Silva Seguro Ventura edicao-2026-02-05 (14)

Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro

Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro.

Como é sabido, as escolhas dos Portugueses na primeira volta das eleições presidenciais fixaram-se em dois candidatos: António José Seguro e André Ventura. A candidata e candidatos de esquerda Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto, assim como os responsáveis do PS, do PCP, do BE e do Livre e doutros grupos sociopolíticos minoritários, não obstante as críticas na primeira volta a António José Seguro, não tiveram qualquer hesitação em declarar e recomendar a votação neste candidato na segunda volta. Num segundo momento, diversos (ex)responsáveis e figuras do PSD, da IL e do CDS têm vindo a declarar o seu voto em Seguro, considerando as ameaças à democracia representativa e entorses ou mesmo violações, por parte de Ventura, perante o figurino constitucional dos poderes do Presidente da República. O que já é difícil de entender é que, dadas tais ameaças aos princípios constitucionais e à própria democracia representativa, Luís Montenegro, como primeiro-ministro, perante este dilema, normalize o Chega e não se defina por razões calculistas e táticas, nomeadamente a de necessitar do Chega para alguns projetos-lei no quadro parlamentar, certamente lesivos da maioria dos Portugueses como, por exemplo, a contrarreforma do pacote laboral, tal como sucedeu com as leis sobre a imigração e a nacionalidade.

Se, no passado, nomeadamente entre os séculos XVI e XIX, a Europa expandiu parte de suas populações no contexto da colonização noutros continentes, a partir dos anos 1920-30, e sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, conheceu uma evolução em sentido inverso, ou seja, tornou-se importadora líquida de força de trabalho estrangeira por maior acumulação de capital nos países centrais e sobreabundância de mão de obra nos países periféricos. Estas migrações, embora não sejam as causas da atual reemergência do racismo na Europa, proporcionam o contexto, a ocasião ou o pretexto para partidos de extrema-direita como o Chega se aproveitarem das situações de descontentamento e até raiva perante efeitos de políticas neoliberais de sucessivos governos, corresponsáveis do agravamento das desigualdades sociais, da degradação das políticas públicas do ‘Estado Social’ sobretudo nas esferas da saúde, da educação e da habitação, provocando um mal-estar e insegurança socioeconómica de largas franjas das classes populares autóctones. Assim o Chega, como outros congéneres na Europa, não é antissistema, nem apresenta reais soluções para os problemas, mas aponta demagogicamente as minorias étnicas (vg. ciganos) e imigrantes como os ‘bodes expiatórios’ da situação de privação e sofrimento; acicatam o ódio a imigrantes negros e asiáticos, reforçando crescentes tensões e clivagens entre imigrantes e população autóctone, nomeadamente a mais empobrecida. Esta clivagem, contaminando outras forças de direita pela indevida e não comprovada associação de imigração com insegurança e criminalidade, é potenciada pelo facto de haver pessoas desinformadas e manipuladas por alguns media, redes sociais e pelo próprio Chega, sentindo-se aquelas receosas de perder os seus lugares face aos “vindos de fora”. Dada a baixa consciência política de camadas das classes populares e inclusive a presença de preconceitos de supremacia branca, estes são reforçados pelo Chega, nomeadamente por Ventura, que não se cansa de (i) elogiar a ditadura de Salazar (e a necessidade atual de “três Salazares”!), negar o sistema esclavagista implantado pelo secular colonialismo português e propor a deportação de imigrantes e “criminosos” islâmicos ou negros, incluindo legítimas deputadas eleitas para a Assembleia da República como Joacine Moreira; (ii) de pugnar por uma IV República e assumir demagogicamente que o 25 de Abril 1974, a Constituição de 1976 e os partidos daí resultantes e suas elites foram, de modo generalizado, geradores de “corrupção ao longo de 50 anos”, sem distinguir entre os reais casos de corrupção e os avanços e garantias de liberdades e direitos fundamentais (vida, expressão, trabalho, saúde, educação, segurança social, habitação, participação política) graças não só ao derrube do fascismo pelo MFA como às conquistas democráticas por via de comissões de moradores e de trabalhadores, de sindicatos, movimentos sociais, partidos e políticas públicas progressistas; (iii) advogar a necessidade de “implantar a ordem” e um Estado presidencialista securitário sem respeito pela separação de poderes e concretizar propostas contra o Estado de Direito e a Declaração de Direitos Humanos, tais como a castração química, a pena de prisão perpétua, o trabalho forçado para reclusos, a possível perseguição a cidadãos “socialistas” ou “comunistas” ou ainda a retirada da nacionalidade a ex-imigrantes naturalizados como portugueses.

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Em recente entrevista feita a Ventura a 21/1/2026, este, questionado sobre o seu posicionamento face a posturas de violência racista contra muçulmanos por parte do grupo neonazi 1143 – em que teriam estado implicados alguns membros do Chega – não se demarcou. O cientista político Riccardo Marchi – que em livro seu intitulado A Nova Direita Anti-Sistema - O Caso do Chega normalizou, branqueou e legitimou o Chega como partido radical de direita ‘antissistema’, mas não racista, não xenófobo nem de extrema-direita –, considerou acertada a posição de Ventura por, no quadro das atuais eleições presidenciais, não prescindir deste e doutros grupos neonazis pela sua relevância nas redes sociais. O alinhamento do Chega e do seu chefe Ventura com a ideologia autoritária de extrema-direita perpassada de elementos protofascizantes poder-se-á inferir; a) da adesão a slogans demagógicos e messiânicos em torno de “Deus, Pátria e Família” e posicionamentos racistas e xenófobos, expostos nomeadamente em cartazes; b) de propostas mistificadoras de proibição do chamado “marxismo cultural” nas escolas, de ataques antifeministas em torno da chamada ‘ideologia de género’ e outras propostas limitativas de liberdades para pessoas LGBTQI+; c) de hostilidade ao multiculturalismo, em particular a grupos étnico-raciais minoritários e crentes não cristãos, de imposição de assimilação forçada, de confinamento e criminalização de comunidades ciganas e ‘imigrantes’ classificados amiúde como “incumpridores da lei” e “parasitários do Estado Social”; e sobretudo d) da integração do Chega na família política da extrema-direita e/ou partidos/figuras neofascizantes na Europa e no mundo (vg. Vox na Espanha, Liga italiana, Rassemblement National francês, Partido pela Liberdade/Partij voor de Vrijheid neerlandês e outros no Norte da Europa e do Grupo de Visegrado, Trump e Bolsonaro).

Tendo consciência da porosidade de preconceitos étnico-raciais enraizados e clivagens interétnicas, nomeadamente face a ciganos e imigrantes, estamos nesta curva histórica com uma excecional premência.

As sondagens dão vantagem a António José Seguro. Porém, tendo consciência da porosidade de preconceitos étnico-raciais enraizados e clivagens interétnicas, nomeadamente face a ciganos e imigrantes – aliás não valorizadas ou até desconsideradas por vários partidos, inclusive de esquerda – mas constatados em diversos estudos nacionais1, estamos nesta curva histórica com uma excecional premência a nível (inter)nacional, mesmo em relação às eleições presidenciais de 1986. Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro, em prol da democracia e pela criação de condições mínimas para novas lutas e conquistas socioeconómicas e políticas.


  1. Cf., entre outros, Vala, J.; Lopes,D. e Brito, R. (1999), Novos racismos: Perspetivas comparativas. Oeiras: Celta; Silva, M.C. (2022), Etnicidade e racismo. Representações sociais de portugueses(as) sobre minorias étnicas negra e cigana no distrito de Braga, Porto: Afrontamento.
categoria-opinião Estivadores Mariano Sindicalismo edicao-2026-01-29 (13)

Até sempre, Mariano!

Na morte de António Mariano, que presidiu ao Sindicato dos Estivadores e à frente deste travou grandes lutas contra a precariedade, com vitórias e derrotas, Raquel Varela recorda o amigo e companheiro de algumas dessas batalhas.

Morreu o meu amigo e ex-presidente do Sindicato dos Estivadores, António Mariano. Este é um texto muito difícil para mim. Porque cruza-se com as feridas de Portugal. Com as nossas glórias e derrotas, como país, questiona o movimento sindical, como um todo e também, imaginem, ilumina a greve geral de 23 de janeiro em Minneapolis, a primeira nos EUA desde 1946, contra o ICE.

Conhecemo-nos no British Bar em Lisboa, quando ainda se podia conspirar aí. Os estivadores faziam então um tipo de greve genial que eu só conhecia como historiadora, nunca tinha visto na realidade: “paramos se entrar aqui algum precário.” Todos os que entram têm de ter contrato. Contrastava com o sindicalismo pós 1980: “somos contra a precariedade, mas assinamos, podem vir os precários desde que para os mais velhos os direitos se mantenham”. Este é o resumo brutal do sindicalismo português desde 1980.

Queixam-se, mas assinam. E assinam lixar os mais novos. Lixando-se a si próprios. Porque isso destrói as relações sociais como um todo, a segurança social, etc. Por isso, hoje, num local de trabalho há dez pessoas que fazem o mesmo, todas com condições de trabalho distintas. Veja-se agora o silêncio, espero que por desconhecimento, perante a aprovação pela AD de que os novos professores serão todos precários.

Foram os estivadores que fizeram a manifestação “Precariedade nem para nós nem para ninguém”. Um cartaz lindo do Pedro Páscoa e essa palavra de ordem, que tanto debatemos. O Mariano olhava a classe trabalhadora como um todo. E pensava como um homem político. Tudo é política.

Quando lhe perguntaram até onde iriam os estivadores, ele respondeu, com a calma que o caracterizava: “Até o governo cair.” Foi aí que eu vi aquilo e liguei-lhe. Marcámos encontro no British, com uma cerveja branca. Não nos conhecíamos pessoalmente, sabíamos da existência um do outro. Selámos um pacto que cumprimos: dizer sempre a verdade.

Pouco depois, ele deu-me um presente de luxo. Pediu-me para explicar, numa reunião no sindicato internacional dos estivadores no Reino Unido, como a precariedade, se avançasse em Lisboa, ia contaminar todos os portos. Aprovada aqui, passariam para Algeciras, dizendo que se Algeciras não cumprisse iam para Lisboa, Tânger, Barcelona, até chegar a Gotemburgo. Eu estava cheia de febre com uma amigdalite, mas meti-me no avião com ele, aterrámos na reunião. Ele falou, determinado, sabia para onde ia e como ia, e tinha uma base organizada em plenários regulares, era essa a sua força. Falei eu a seguir, algumas perguntas e o John Harrison, um gigante do afeto e da luta, estivador dinamarquês, pede a palavra: “Nós, estivadores dinamarqueses, queremos bloquear as cargas para Lisboa. Por nós, podemos já passar à votação”, dito naquele estilo dele, não me tirem mais tempo. O John é daqueles que quando teve de ir ao diálogo social em Bruxelas, que ele é contra, sai e fica a beber cervejas. Eu vi o Mariano e o John, e pensei: “Agora os livros que li ganharam vida, eles existem.”

Esta foi a única greve europeia de solidariedade na crise de 2008. Fizemos história com ele, Mariano. Teve lugar, os patrões cederam um dia depois. Tínhamos vencido. Era o internacionalismo operário.

Seria impossível contar-vos aqui todos os momentos por que passámos. Eu ouvia-o fascinada. Ele ouvia-me com respeito, e pensava muito. Tínhamos reuniões de debate político, em torno de uma revista, a Rubra, porque ele “queria perceber o que se estava a passar no país”. Não era figura pública, era muito melhor, era um organizador coletivo.

Foi assim que eles prepararam a batalha de Setúbal. Durante meses reuniram em plenário com os precários, fizeram um fundo de greve dos fixos para os precários, e quando entraram em greve, venceram. Na altura estive lá, dias e noites, ajudando, orgulhosa, solidária.

O melhor, lamento, não posso contar. Porque, como sabem, há um Estado e uma lei, e os estivadores sabiam que o Estado e a lei eram seus inimigos.

Foi por inspiração desse trabalho coletivo, de que o Mariano era o organizador chave, que nasceram sindicatos independentes combativos – porque ele percebia que os estivadores sozinhos seriam derrotados. Solidário com professores, motoristas, enfermeiros, AutoEuropa, quantas horas e horas dedicámos a isso, entre eles o Carlos Renato Teixeira e tantos de nós, dezenas de nós, em tantos sectores, eles eram um exemplo de solidariedade real (fundos de greve entre fixos e precários), democracia real (plenários regulares sem manipulações administrativas e, claro, garra. Em vez do queixume. Sujeitos e não vítimas.

Éramos amigos, fizemos tantas patuscadas, ele era um grande cozinheiro – o que, já se sabe, é logo uma razão para a morte ser proibida; era um homem radicalmente honesto, reflexivo.

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Os estivadores foram derrotados em 2020. E a sua derrota foi a nossa, porque ele tinha sido a chave da organização de um sindicalismo que fazia lembrar o PREC e o socialismo de Antero. E quando eles, estivadores, foram derrotados – com uma estratégia de luta da qual discordei, e nunca em momento algum a nossa amizade se perdeu por isso –, no primeiro dia do estado de emergência da Covid, tive de lutar contra o desânimo.

Quando no Governo da Geringonça vi que as greves iam diminuindo e aumentando as “audições parlamentares”, quando Pedro Nuno Santos aparecia como o tipo porreiro “preocupado com os estivadores”, e já o Chega espreitava, os salários tinham caído com a Troika e a Mota Engil tinha ido ganhar mais para a ferrovia, e uns “turcos” tinham comprado a concessão do porto, aí começou o que fizeram na Lisnave: salários em atraso. Assim é a burguesia delicada. À facada.

Eu disse o que pensava: isto só vai lá com greves, sem audições parlamentares que não servem para nada, é preciso exigir a nacionalização dos portos e emprego público. Essa deve ser a estratégia. Nenhuma luta coletiva se ganha em tribunal.

O governo da Geringonça não está junto de quem trabalha, os de direita muito menos. A esquerda entreteve o caso no parlamento. A extrema-direita quer – em vez da força solidária dos estivadores com os precários – a violência contra os mais frágeis. Contra a luta comum de todos, os fascistas e neonazis semeiam armas, o ódio contra imigrantes e precários. Estão ao serviço dos patrões.

Sem qualquer apoio real de qualquer outro grande sindicato, com meses de salários em atraso, o Governo de Costa aprova um estado de emergência que no primeiro dia da Covid proíbe as greves, e nesse mesmo dia os estivadores de Lisboa veem o acesso ao porto bloqueado com uma carta de despedimento coletivo. As medidas de saúde podiam ter sido feitas ao abrigo da lei de saúde pública, mas Costa escolheu uma que proibia a greve em pleno pânico nacional (e assim derrotava os estivadores que queriam ter salários seguros e decentes). Costa, o homem da guerra, que ganha 35 mil euros/mês.

Depois desta derrota, o meu irredutível apoio aos estivadores e contra o estado de exceção foi a real razão, junto com a minha contratação na universidade, de uma campanha negra de um jornal dito de referência e mais uns membros da Geringonça na universidade, hoje em cargos de direção a gerir força de trabalho. Entrei num longo período de silêncio público sobre a derrota dos estivadores. Não falei nunca dessa derrota, porque senti que as circunstâncias que recaíam sobre eles eram esmagadoras.

Pode parecer exagero, porque as derrotas contam, mas morreu o maior dirigente sindical português desde os anos 1980.

Fiz uma reflexão política pessoal, que me levou a escrever um livro. Nesse livro, que escrevi com o meu marido e companheiro intelectual, respondia ao desafio do meu marido, Roberto della Santa: “tens de submeter à teoria da história o teu coração sindicalista revolucionário, o que aconteceu estava escrito que ia acontecer". Ele escreveu o livro a pensar na formação social em que vivemos, contra as ideias de um país que teria 900 anos, eu fiz a psicanálise do sindicalismo português, foi um empreendimento amoroso a nossa Breve História de Portugal. Concluímos que a burguesia portuguesa não existe hoje, e que a crise de direção política dos trabalhadores passa justamente pela ausência de estratégia política. Foi assim no PREC e foi assim no século XIX.

Sem uma coordenação política das lutas (um ou mais partidos, ou organizações) nos locais de trabalho que pensem politicamente o país, todas as greves, mesmo as mais radicais e combativas, serão derrotadas. Tanto que o sindicato internacional dos estivadores dividiu-se em dois, o europeu que mantém o espírito, e o dirigido pelos americanos da costa leste, que apoiam Trump!

O Mariano, quando começou a greve em Inglaterra em 1997 de fixos com precários, conheceu os dirigentes estivadores sindicalistas revolucionários da Suécia, o Peter, e trotskistas dos EUA e da Austrália, como o Bob Carnegie e o Jack Heyman. Este último começou a lutar contra a guerra do Vietname e bloqueou os portos contra a guerra do Iraque. E que romperam com a todo-poderosa Internacional Transport Federation, a burocracia sindical mundial que manda nos transportes, entre eles nos portos de Hamburgo e Roterdão. São uma âncora do capitalismo.

O Mariano ficou fascinado com o filme do Ken Loach sobre essa greve, A Chama Ardente. O Mariano era o regresso do espírito de Antero, na sua dupla dimensão, um olhar radical para a sua classe trabalhadora, mas ainda assim demasiado longe da política. Faltaram ainda mais uns pozinhos de política para não sermos derrotados.

A vida dele – estive lá, com eles, em São Francisco ou Brisbane, na Austrália – é a dos homens que embargaram as armas contra o apartheid, pararam contra a invasão do Iraque e o genocídio em Gaza. A vida dele esteve entrelaçada com a esperança que nasceu de um novo sindicalismo solidário, político e combativo em Portugal. E com períodos de luta contra a guerra e o capitalismo. Cujas armas e peças de drones circulam pelos contentores que eles descarregam. E também que eles podem parar.

Podia dizer que o Mariano foi um homem e as suas circunstâncias. A verdade é que ele foi além das circunstâncias. Pode parecer exagero, porque as derrotas contam, mas morreu o maior dirigente sindical português desde os anos 1980. Ele trouxe-nos a organização real entre a classe trabalhadora, ele empenhou-se nisso a sério, ele deu-nos esperança. Até sempre, companheiro!

categoria-opinião Ópera Teatro

Uma peça de teatro “escandalosa”

Wagner, a Arte da Fuga, de Ana Rocha, descreve as ideias musicais e políticas do jovem Wagner em 1849, aquando da sublevação da população de Dresden contra o rei da Saxónia, e o seu encontro com personagens como Bakunine e Marx.

Ana Rocha acabou de publicar nova peça de teatro, Wagner A Arte da Fuga1.

Em 2021, desenhara a vida de Antero de Quental numa outra peça, Antero Q., em que apontava ficcionalmente os três limites existenciais deste filósofo, visando um “Antero em carne e osso”: a doença enigmática que o atacara fortemente em 1874; a partida para Paris para consultar o médico Charcot em 1877, a paixão pela Baronesa Nelly, que conhece na clínica hidroterápica de Bellevue, senhora igualmente paciente de Charcot, e finalmente o conhecimento fictício do revolucionário clandestino Blanqui, ou seja, os limites sexuais (a cena com Nelly), os limites mentais (a cena com Charcot, traumas da educação da infância por via da devoção religiosa da mãe de Antero) e os limites revolucionários (episódio com o radical Blanqui). A peça foi representada pelo Teatro da Garagem, encenada por Carlos J. Pessoa e foi objeto de uma apresentação na Suíça.

Wagner, a Arte da Fuga descreve as ideias musicais e políticas do jovem Wagner (35 anos) em 1849 aquando da sublevação de população de Dresden contra o rei da Saxónia. Para além de Wagner, são personagens Minna Planer, sua jovem mulher, os revolucionários Bakunine e Karl Marx, o advogado Heubner e o colecionador italiano de arte Poldi-Pezzoli. O ambiente é revolucionário, com barricadas da população contra o exército prussiano, que tinha invadido a Saxónia. Ao longo de todo o século XIX, a Prússia, com capital em Berlim, institui-se como a vanguarda da contrarrevolução na Europa. É o exército prussiano que esmaga a Comuna de Paris em 1870.

No primeiro ato, Wagner discute com Minna. Esta protesta por o marido ter abandonado o cargo de Kappelmeister da corte da Saxónia, cargo bem remunerado, e agora só tem batata para servir às refeições, e já há população que come batata com besouros. Neste ato surge a figura exótica do papagaio, com o qual Wagner vai viajar. Simbolicamente, a união entre Wagner e o papagaio deve querer significar que o músico se sente no ambiente aristocrático da corte como o papagaio se deve sentir preso numa gaiola e no frio gelado da Saxónia. Mas em casa ou em viagem, o papagaio deve ser encarado como uma personagem, sobretudo na encenação. Wagner conta a sua esposa que os seus músicos trocaram os seus instrumentos musicais por fuzis e ele próprio conclama que a aristocracia e o rei “odeiam a democracia e o povo! Mas, finalmente, a aristocracia vai acabar! Nós, os plebeus, vamos destituir os nobres! Que não podem impor que nós voltemos a ser servos! Declaro a Saxónia livre!! (p. 12).

A mobiliação é geral e as duas fações são inconciliáveis.

No II Ato, desenrola-se uma conversa entre Wagner e o revolucionário russo Bakunine, perseguido pelas polícias de toda a Europa. Aqui são feitas declarações “escandalosas” contra o casamento, tendo por base os livros de Schopenhauer. A revolução de Dresden atraiu Bakunine, que já tinha ouvido falar das reivindicações políticas de Wagner: “a abolição da aristocracia e a demolição da monarquia” (p. 20). Wagner explica a Bakunine os símbolos revolucionários que usa no Tannhaüser, bem como no Navio Fantasma: “A minha música revela estado de alma que nunca as palavras poderão traduzir” (p. 34). Wagner ataca a música de Rossini, de Meyerbeer e de Spontini “e toda essa tralha de música que eu considero ligeira (…) Em Paris toda aquela gente escreve óperas. Ora, eu não escrevo ópera. Escrevo dramas musicais” (p. 31).


Através das minhas óperas farei compreender aos homens da revolução qual o sentido dela.

Bakunine defende que o amor e o casamento são incompatíveis. Wagner concorda, o coito com a sua mulher Minna perdeu o encanto: “A verdadeira mulher ama incondicionalmente, como as personagens nas minhas quatro óperas Tristão e Isolda ou O Amor Proibido, Rienzi, Tannhaüser e O Holandês Voador ou O Navio Fantasma. Ambos estão de acordo com Schopenhauer: “O casamento é um pesadelo” (p. 35).

Wagner, porém, acredita em mulheres-anjo, “figuras femininas inocentes e infantis como a minha Senta n’ O Holandês Voador e também a minha Elsa no Lohengrin, a mulher do cisne prateado” (p. 30), que surge desenhada na capa do livro. Bakunine comenta: “O senhor fala-me de música e eu falo-lhe de revolução, que, para mim, é o Absoluto”. Wagner responde: “Para mim, o Absoluto é a minha música” (p. 39).

No III Ato junta-se a ambos o advogado Heubner, outro dos cabecilhas dos revolucionários de Dresden. Estão numa paragem da diligência que lhes permitirá a “fuga”. Wagner faz-se acompanhar do papagaio, os restantes passageiros protestam, mas Wagner não parte sem o seu papagaio. Este assobia a música de Beethoven, o final da quinta sinfonia e grita: “Mau Richard, Richard, Richard!” Segue também um colecionador de arte italiano, Poldi-Pezzoli, que se encontra em Dresden para comprar a Madonna de Rafael, personagem que representa o colecionismo italiano de arte, que é privado, e que é capaz de tudo para possuir o objeto de arte que ambiciona. É melhor não entrar na diligência, “Somos vistos, diz Bakunine, como republicanos, jacobinos, anticlericais, socialistas e anarquistas, e sei lá mais o quê.” Heubner confirma: “E como ateus, perigosos ateus (…) Queremos abolir a monarquia e acabar com os privilégios da aristocracia.” Wagner acrescenta: “e vamos com um perigoso anarquista russo que quer destruir tudo”. Bakunine comenta: “Eu quero destruir tudo. A única coisa que profetizo é que haverá um incêndio mundial e que nada será conservado” (p. 42).

No último ato, sai da diligência a personagem italiana e entra Marx, que conflitua com Bakunine. Marx diz que “É agora ou nunca. A escravatura ou a liberdade. Sem capitulação.” Marx tinha estado numa barricada “e agora, tal como os senhores, estou em fuga. Arrisquei a vida, mas senti bem acesa a revolução de Dresden” (p. 56). Bakunine continua a embirrar com o papagaio e ameaça de um dia ainda comer língua frita de papagaio.

Marx reconhece Wagner e louva-o pelas posições políticas que assume. Wagner justifica-as (talvez a frase mais importante da peça): “Só depois de uma profunda transformação social e política na Saxónia poderei pensar nos artistas e preparar o público para compreender a minha revolução musical. Através das minhas óperas farei compreender aos homens da revolução qual o sentido dela. O público atual não consegue compreender a minha música do futuro, os meus dramas musicais” (p. 58).
De repente, o cocheiro para – vê-se ao longe uma barricada prussiana.
Wagner pega na gaiola do papagaio e sai, com os restantes três revolucionários.

Já com três peças no ativo (a primeira, que não conhecemos, intitula-se A Origem do Mundo, quadro de Courbet, tão provocadora quanto esta), com o jovem Wagner, auxiliado por Bakunine e por Marx a querer destruir a aristocracia e a monarquia, as duas elites políticas e económicas mundiais e a contestar o casamento burguês, esta peça a ser representada só não é escandalosa porque no nosso tempo já não nos escandalizamos com nada.

Parabéns, Ana!


  1. Cf. Ana Rocha, Antero Q., Porto, Adab / Ed. Húmus, 2021, p. 123.
categoria-opinião Instrumentalização Jornalismo

Quando o jornalismo de mãos limpas afia o lápis azul

No jornalismo, os factos são essenciais, mas o fundamental é “os sentidos que possam ter”.

“Os factos são o que menos importa nas grandes reportagens”, escreveu certa vez o jornalista e professor Eugênio Bucci. Quis, com esta frase de impacto, alertar para uma verdade que se aplica à prática do jornalismo de modo geral: os factos são essenciais, mas o fundamental é “os sentidos que possam ter”.

Esta é uma forma simples de esclarecer o papel político do jornalismo, algo que a Comissão Hutchins, no seu famoso relatório “A Free and Responsible Press”, de 1947, definiria como a base da teoria da responsabilidade social: não bastava expor os factos verdadeiramente, era preciso “relatar a verdade sobre os factos”.

É o que torna complexo o compromisso comumente reconhecido pelos jornalistas de “dar os factos para que o público tire suas próprias conclusões”. Esse compromisso, porém, é frequentemente entendido de maneira formalista, como se significasse isenção ou imparcialidade. Foi o que chamei, há tempos, de “jornalismo de mãos limpas”: ouve-se um lado, ouve-se outro – ou tantos quantos houver, como se todos se equivalessem –, deixa-se a conclusão para o público e lava-se as mãos. É, muito claramente, uma forma de se demitir da responsabilidade que a profissão exige.

Associe-se isso ao vale-tudo na guerra pelas audiências e temos um perfeito quadro da degradação do jornalismo, com graves consequências políticas.

Em junho de 2025, na reportagem sobre “O encanto do jornalismo pelo Chega”, João Pinhal mostrou a disparidade entre o número de entrevistas concedidas pelo líder desse partido e pelo líder do PSD, então na oposição em praticamente todo o período pesquisado, entre abril de 2019 (quando o Chega foi fundado) e junho de 2024. Nos grupos de TV privados, André Ventura, embora tivesse sido deputado único entre 2019 e 2022, com 1,29% dos votos (menos de 70 mil eleitores), teve direito nesse período “apenas a menos uma entrevista do que o líder do partido que conseguiu perto de 1 milhão e 500 mil votos”. A desproporção prosseguiria: entre as legislativas de 2022 e as de 2024, Ventura foi entrevistado 27 vezes nos canais privados, mais que o dobro do que o líder do PSD, atual primeiro-ministro, apesar da representatividade muito inferior.

Entre as legislativas de 2022 e as de 2024, Ventura foi entrevistado 27 vezes nos canais privados, mais que o dobro do que o líder do PSD, atual primeiro-ministro.

A pesquisa não abrange a cobertura de manifestações promovidas pelo Chega, que, embora com participação irrisória, mereceram longa exposição, mesmo nas TVs públicas. Seria mais um elemento a corroborar o quanto este jornalismo abriu caminho para algo que agora já não se pode ignorar, no melhor estilo das profecias autocumpridas.

Em sua dissertação de mestrado, sobre um aspecto da cobertura do Chega pela SIC, apresentada em outubro do ano passado na Universidade Nova de Lisboa, Diogo Cordeiro demonstra que os jornalistas entrevistados vivem uma permanente tensão entre o dever de informar e a necessidade de fugir à instrumentalização que normalizaria e amplificaria o discurso da extrema-direita. Mas a incompreensão, por parte dos jornalistas, sobre o papel político que desempenham fragiliza a hipótese de não se deixarem usar por alguém que sabe “tirar partido da forma como os media funcionam”.

“O Chega tem de facto mais tempo a aparecer que os outros partidos porque de facto sabe criar essas oportunidades também para aparecer mais”, diz um dos entrevistados. Seria, portanto, uma questão de competência? Se lideranças de esquerda, quer de partidos, sindicatos ou movimentos sociais, se qualificarem para isso, terão espaço correspondente? Mais: todas as “oportunidades” criadas são válidas e merecedoras de atenção?

Outro entrevistado diz: não se deve tratar o Chega de modo diferente, porque todos os partidos foram eleitos democraticamente. Ora, desde que surgiu o Chega foi tratado de modo muito diferente, como mostrou a reportagem de João Pinhal. Mais grave é considerar que se trata de um partido como os demais, quando não é, e a rigor já deveria ter sido proscrito, pelo seu discurso xenófobo, racista e contrário aos valores democráticos do 25 de Abril.

Por isso, insistir no jornalismo de mãos limpas diante de quem afirma a necessidade de três salazares para “pôr isto na ordem” não é nada menos do que ajudar a afiar o lápis azul.

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Esta negativa constitui um problema, pois o viajante compulsivo e deputado do Chega já tinha realizado antes várias viagens à Alemanha e tencionava fazer-se reembolsar. Tinha viajado para o passado e assistira em 1934 ao 4º Congresso do Reich em Nuremberga, intitulado “Congresso do Poder”, e onde, do meio da multidão, batera palmas ao Führer. Em 1936, assistira no dia 1 de Agosto à abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim e ficara contente, pois não encontrara nenhum cigano na cidade, já que os 800 que ali viviam tinham sido presos e confinados num campo especial num bairro periférico. Em 1939, em Colónia assistira à espectacular e monumental parada nazi na Praça Adolf Hitler e depois fora comer uma chucrute a uma cervejaria famosa.

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