Este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem.
Candidato do Chega à União das Freguesias de Sé e São Lourenço em Portalegre, este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem. Estas poses eróticas e narcísicas foram divulgadas pelo Correio da Manhã e parece que localmente tiveram repercussão, pois o esbelto do Chega obteve 492 votos e um mandato. É caso para se dizer: mostra-te como és e serás recompensado.
Só que há um mas. Luís Portilheiro, que é licenciado em Psicologia, trabalha no Centro Distrital de Portalegre e é interlocutor em programas de colónias de férias, famílias de acolhimento e da Associação Ser Criança. É também responsável por programas ligados à infância, à deficiência e à proteção de crianças em risco. Perguntamos só isto: se fosse alentejano, confiaria a sua criança a um chegadinho destes?
Vivemos, argumenta o autor, “o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos” porque “os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário”.
Das quatro, uma: ou será Presidente um homem sem ideias, defensor da guerra (os filhos dos pobres, claro, esses é que serão enviados para combater em nome do “interesse nacional”, qual?), um militar “perito em generalidades”, como bem disse António Filipe, ou, muito pior e sempre pior será elegermos como Presidente André Ventura, o qual representa o pior da educação em Portugal. O duce do cheguismo, o oportunista das benesses que a democracia lhe deu (desde a tese de doutoramento ao seu lugar como deputado) é o espelho fiel da falência educativa em toda a sua extensão. A ser eleito, ou a passar à segunda volta, o facto será este: Portugal está profundamente doente. Doente de alienação, de estupidez, de ressentimento, de raiva e de ignorância. Ventura, o usurpador, aproveita-se da indigência dos políticos actuais, da cobardia dos que, com poder e saber, deveriam enfrentá-lo: políticos independentes, intelectuais empenhados na defesa da democracia, gentes (que ainda as há!) apostadas em não deixar passar nem mais um facínora fascista.
André Ventura, a ser Presidente, será o inimigo número um dos Portugueses, não tenhamos dúvidas. O mais irado e demagogo político português é, na senda dos fascistas de boa cepa – um Mussolini, um Franco, um Trump –, um mentiroso compulsivo, um manipulador da juventude profundamente desconhecedora da nossa história. Explora como nenhum outro a pobreza deste país de baixos salários; mente sobre a questão dos ciganos, dos negros e dos desvalidos de uma sociedade pobre, a nossa; mente sobre os imigrantes, espoliados da sua dignidade, vítimas da exploração no Alentejo e no Douro, no Algarve e em Lisboa e no Porto. Quando foi que nos tornámos vampiros e racistas, preconceituosos e hipócritas como Ventura?
Ventura mente sobre o contributo destes povos explorados em Portugal. Basta perguntar: sem eles como estaria a nossa Segurança Social? Sem eles, quem andaria nas motas, noite dentro, servindo pizas? André Ventura é alguém absolutamente nocivo para o país. Pelo ódio que destila, pela ignorância que manifesta quanto às funções presidenciais. Como modelo de comportamento e de valores (que os não tem), André é um veneno letal: que exemplo é o seu como deputado, líder de um partido, candidato seja ao que for? Em boa verdade, as gerações que têm hoje entre os 15 e os 25 anos, que vêem em Ventura? Nada mais do que isto: o rosto da raiva que eles, jovens, sem expectativas e roubados de todos os ideais, fazem seu. É triste que Abril seja traído em Janeiro e sejam os jovens, mas também muitos reformados e pensionistas, muitos desempregados, a pensar que uma dor de cabeça se cura cortando a cabeça. É triste e é sintomático.
Portugal é hoje um território que se encaminha, a passos largos, para um modo trumpista de viver, violento e acrítico.
Vivemos, portanto, o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos porque, aburguesados, europeizados no pior sentido, ou americanizados em sentido ainda pior; educados, primeiro pelas televisões e de há anos a esta parte pela tentacular ditadura das redes sociais, os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário. Pais e mães não são os principais educadores dos mais jovens, mas sim as fake news, o circo montado no sistema educativo que, das escolas às universidades, permite que a indigência, a boçalidade, a incuriosidade e a ignorância grassem um pouco por todo o lado.
Tenho dito e escrito, repetido sem cessar (e não estou isolado nessa constatação): Portugal, dominado por um sistema multimediático que estupidificou e infantilizou os adultos e bestializou os mais novos (a Geração Millenium, a Geração Z), é hoje um território que se encaminha, a passos largos, para um modo trumpista de viver, violento e acrítico. Estamos a poucos anos (dois, três?) de nos tornarmos ingovernáveis. Os factos sociais confirmam-no: violência doméstica, violência nas escolas e universidades; corrupção no seio do Governo (Montenegro evitando uma CPI); crimes de colarinho branco, ingerência do MP, verdadeira máquina torcionária de governos legítimos, redes de tráfico humano; a acelerada degradação da imagem e símbolo do Presidente da República; uma juventude indigente, brutalizada, insensível, sem leituras, sem saber escrever, sem saber, de facto, ler e interpretar a realidade.
Mas… e Marques Mendes e Cotrim? É fácil: Farão a tão almejada revisão da Constituição de 1976, trairão o 25 de Abril e não terão quaisquer complacências: liberalizar, flexibilizar as leis do trabalho, facilitar o despedimento colectivo sem justa causa, impedir as greves, asfixiar a democracia e estar ao serviço dos senhores da guerra (a NATO e o directório Berlim-Bruxelas), eis o que prometem Marques Mendes e Cotrim, tudo em nome de um neoliberalismo de alpaca. Cotrim, com ar sorridente e impante de vaidade, e Mendes, no seu ar de sacristia, só nos levam a um lugar: à cepa torta e à conivência com a direita fascista que o PS, diga-se, na sua política de tolerância, deixou passar. Jorge de Sena, em 1974, perguntou: “E agora, Portugueses?” Perdemos a coragem e a lucidez?
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) autoriza o Governo a aprovar um regime jurídico que regula determinados aspectos da organização do tempo de trabalho dos trabalhadores móveis em actividades de transporte rodoviário e a transpor para a ordem jurídica interna várias directivas.
Votaram a favor PSD, Chega, PS, CDS-PP e JPP. Votaram contra PCP, BE e Livre.
O que é que isto significa e em que se traduz, afinal, na vida dos motoristas?
O órgão legislativo competente para legislar sobre estas matérias seria o Parlamento, só podendo estar cometida ao Governo se for, como foi, aprovada a lei de autorização legislativa a que nos referimos supra, o que, desde logo, permite a aprovação num lapso de tempo muito mais curto e sem ser objecto de discussão entre as mais diversas forças políticas.
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho
Por outro lado ainda, ao se aprovar esta lei de autorização legislativa, o que se está a conceder ao Governo é a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, no sentido de um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas, como, aliás, sucedeu.
Entre as medidas constantes do decreto-lei proposto constam as seguintes regras:
a) Artigo 20.º
Tempo de disponibilidade
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho. Refere-se a períodos não correspondentes a períodos de pausa ou de repouso, durante os quais o trabalhador móvel não é obrigado a permanecer no seu posto de trabalho, mantendo-se, no entanto, disponível para responder a eventuais solicitações no sentido de iniciar ou retomar a condução ou de efetuar outros trabalhos relacionados com a atividade de transporte rodoviário. São ainda considerados tempos de disponibilidade, nomeadamente, os períodos durante os quais o trabalhador móvel acompanha um veículo embarcado num ferry-boat ou transportado de comboio, bem como os períodos de espera nas fronteiras ou devido a restrições à circulação. Para os trabalhadores móveis que conduzem em equipa, o tempo passado ao lado do condutor ou num beliche durante a marcha;
b) Artigo 21º
A duração do trabalho semanal dos trabalhadores móveis, incluindo trabalho suplementar, não pode exceder 60 horas, nem 48 horas em média num período de quatro meses. Por instrumento de regulamentação coletiva de trabalho, o período de referência previsto no número anterior pode ser aumentado até seis meses.
c) Artigo 22º
Não é considerado trabalho nocturno o tempo de disponibilidade.
Ou seja, e dito de outra forma, os partidos que aprovaram a lei de autorização legislativa aprovaram também o conteúdo do decreto-lei que lhe estava anexo e do qual constam, entre outras medidas gravosas, as que aqui são referidas.
*A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.
Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.
O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.
No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).
O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.
Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.
Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.
É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.
É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.
Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.
Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.
O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.
O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.
Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.
Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.
Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.
Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.
A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.
Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.
Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).
Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.
Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.
É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.
Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.
Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.
A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.
Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.
A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.
The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.
E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.
Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”
Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.
“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.
“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!
O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.
Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.
É impossível não recordar 2012 e a troika.
Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”
Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).
O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.
Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.
Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.
Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!
Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.
Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho. Do que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
Há duas formas, relativamente simples, de se perceber a importância da greve geral. A primeira é, obviamente, assistir ao raro acordo entre a UGT e a CGTP. Quando até os sindicatos afectos ao PSD (TSD) se juntam à luta, é porque o ataque é grande. A outra, que também não exige um olho propriamente treinado, é ver as voltas do cata-vento Ventura que passou, em poucas semanas, de opositor a promissor sindicalista. Ainda o Frazão, lá de cima da janela da Assembleia da República, insultava os manifestantes e já o Ventura, percebendo a onda que cativava a opinião pública, se juntava nas críticas ao governo. Às vezes, muito secretamente, desejo que o Andrezito chegue a presidente deste nosso rectângulo. Seria a sentença de morte daquele partido unipessoal que carrega todas as ambições de um homem profundamente frustrado. Para não lhe chamar outra coisa, já que este é um jornal de respeito.
Leitão Amaro foi, para mim, a estrela do dia no papel de Goebbels de Tondela. Excelente na propaganda e na tentativa de despejar uma narrativa para os jornais do dia. Disse ele que o "país escolheu trabalhar" e que a adesão à greve era praticamente residual. Entretanto, as imagens de ruas e avenidas do país, atafulhadas de gente, saltavam de mural em mural. Há uma fotografia exposta no "bunker de Berlim", um museu imperdível, onde se mostra uma montagem de Goebbels transformando uma parada de uns poucos numa manifestação de milhares. Brilhante trabalho de manipulação gráfica, que convenceu uns quantos milhões, feito uns bons 50 anos antes da invenção do Paint pela Microsoft. Leitão Amaro teve apenas o azar de estarmos em 2025, na era dos telefones que fazem tudo.
Antes já tinha dito, para quem o quisesse ouvir, que o novo pacote laboral não teria impacto na função pública, uma vez que estes trabalhadores estão protegidos pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. O regime geral do código do trabalho, segundo o ministro da Presidência, é que sofreria o impacto. Esta conversa tinha dois objectivos. Desde logo, desmotivar a função pública no seu protesto. Como se as lutas laborais não se fizessem de solidariedade entre mais e menos afectados. Como se o colectivo não fosse sempre mais forte quanto maior a sua expressão. E depois, a parte menos conhecida da opinião pública, como nos explicou Rita Garcia Pereira (notícia CNN), advogada especialista em direito do trabalho, já existem muitos trabalhadores na dependência do Estado que têm contratos individuais de trabalho e, portanto, de natureza privada, directamente afectados pelo novo pacote laboral.
Um dos grandes problemas dos nossos governantes é a bolha em que vivem e a distância entre as suas vidas e a realidade dos Portugueses. A crise da habitação por exemplo, que afecta boa parte da população e resulta em despejos diários, está a ser enfrentada por um primeiro-ministro que tem 55 imóveis, uma ministra do Trabalho, professora universitária, com um património superior a 5 milhões de euros e um ministro da Presidência, o nosso Goebbels de Tondela, que investiu 1,34 milhões de euros numa casa em Lisboa e que, por acaso, recebeu uns benefícios no IMI (notícia CM). Como é que esta gente enriquece com os salários declarados? E pior: como é que podem perceber as dificuldades do trânsito se circulam em via privada e sempre livre?
Com o pacote laboral o problema é essencialmente o mesmo. Discute-se a flexibilização como uma arma para o aumento da produtividade. Defende-se o fim dos sindicatos para ter menos entraves ao progresso. Apresenta-se o trabalho temporário como um benefício da rotatividade laboral. E no fim, para que ninguém duvide, explicam-nos que este é o caminho para sermos a próxima Alemanha, Suécia, Dinamarca ou Bélgica. É a aposta total na desinformação, na tentativa de meter trabalhadores contra trabalhadores, pobres contra pobres. Na Suécia, por exemplo, onde trabalhei durante 20 anos, a taxa de sindicalização anda perto dos 70% e praticamente 1/3 da força laboral está no sector público. A carga fiscal é elevadíssima e o lucro é fortemente taxado. Que o diga o já falecido fundador do IKEA, que se mudou para a Suíça, esse bastião de produtividade com o trabalho alheio e sempre protetor das fortunas.
Em Portugal as reformas laborais são sempre, mas sempre, feitas pelo lado do trabalhador. É preciso produzir mais, oferecer horas ao patronato, aceitar o despedimento sem justa causa, adiar a vida à espera de um contrato sem termo. O que não é preciso, em momento algum, é exigir que a riqueza criada pelos trabalhadores vá menos para os accionistas e mais para os bolsos de quem trabalha. Ou que a carga fiscal absurda que afecta os Portugueses se converta em creches públicas, atendimento decente na saúde ou transportes públicos que funcionem. No fundo, tenta o Governo e toda a direita em geral convencer uma legião de pobres de que o problema são eles, que trabalham pouco e que os 40% que estão no limiar da miséria antes das transferências sociais devem trabalhar ainda mais porque há uma elite política e empresarial que precisa de mais lucro. Até porque, aqui e ali, há um BES bem sólido que não se paga sozinho ou uns arranjos entre governantes e construtoras que não se fazem sem um saco azul profundo.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes, gente com formação que fala inglês se não se importarem de receber amendoins a troco de trabalho. A novidade é que o "investimento externo" já está em Portugal. Não faltam multinacionais que descobriram o filão português e do quão longe conseguem chegar com 1000 euros para oferecer. Na minha área, neste preciso momento, Portugal é visto como uma opção a considerar se comparado com o investimento no Vietname. No Vietname, meus amigos! Foi aqui que chegámos ao fim de 40 anos na União Europeia.
Temos mais auto-estradas, muitos hotéis de charme e tascas gourmet. Mas continuamos pobres, governados por gente que resume o CV a um cartão partidário, sem um dia de trabalho no mundo real e que enriquece enquanto nos convence de que o problema somos nós.
Talvez Leitão Amaro e Montenegro tenham razão quando dizem que o país não precisa de greves. Talvez não. Pelo aspecto da coisa, o que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870.
A bolha da inteligência artificial (IA) continua a inchar. Os Sete Magníficos da tecnologia continuam, em conjunto com as empresas de IA, a puxar pelo mercado accionista dos EUA. As cotações das dez empresas americanas com maior valor em bolsa, detentoras de mais de 40% da capitalização do índice S&P 500, têm continuado a subir, e muito acima da subida dos seus proveitos (lucros) registados.
Os resultados mais recentes das principais empresas de “hiper-escala” (empresas de desenvolvimento de IA) norte-americanas indicam que as vendas continuam em crescimento robusto. No entanto, os fluxos de caixa livres (cash flow) são absorvidos pela despesa de capital, que está em aceleração. As empresas têm de recorrer ao leasing e endividar-se se querem continuar na corrida ao desenvolvimento da IA. No ano transacto, as empresas que investem em IA representaram 75% do rendimento obtido pelas empresas integrantes do índice S&P 500, 80% do crescimento dos lucros e quase 90% do crescimento das despesas de capital. O investimento global em infra-estruturas de IA está próximo de atingir 400 mil milhões de dólares, em 2025, e a despesa acumulada poderá passar 5 ou mesmo 7 biliões (milhões de milhões) de dólares até 2030. Aproximadamente 60% desse investimento irá para semicondutores e computadores — um nível de investimento sem precedentes para uma nova tecnologia que mal começou a ter uso comercial.
Que o investimento em tecnologia da informação seja o único motor da actividade económica dos EUA não é toda a verdade. Muito do equipamento que entra nos centros de dados é importado, havendo, por conseguinte, efeitos negativos de contrabalanço ao PIB. Mesmo assim, a “montanha de silício” continua em erupção vertical. A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870. Naquele tempo, também as ferrovias eram vistas como uma poderosa nova tecnologia capaz de transformar os transportes e as viagens e, assim, impulsionar a produtividade. Isso deu azo a uma especulação desenfreada com as acções das ferroviárias, à medida que as empresas inauguravam, umas atrás das outras, novas linhas ferroviárias pela Grã-Bretanha fora durante a década de 1840 — e, mais tarde, por todos os Estados Unidos, na década de 1870, culminando na ligação ferroviária transcontinental.
No Reino Unido, a mania atingiu o seu auge em 1846, ano em que o Parlamento aprovou 263 actos de criação de novas empresas ferroviárias, totalizando as rotas propostas 9500 milhas (15 300 km). Cerca de um terço das ferrovias autorizadas nunca se construíram — as empresas ou faliram por mau planeamento financeiro, ou foram compradas por concorrentes maiores antes de construírem a sua linha ou revelaram-se empreendimentos fraudulentos para canalizar o dinheiro dos investidores para outros negócios. Entre as décadas de 1860 e 1900, as linhas ferroviárias transcontinentais transformaram a América. Ajudaram a povoar o Oeste e, tal como na Grã-Bretanha, desenvolveram uma nova forma de empresa capitalista, a sociedade por acções, ou seja, empresas cuja propriedade e financiamento eram públicos (no sentido de ‘publicamente transaccionáveis, em mercados abertos’ — nota do tradutor). A ferrovia ajudou a transformar os EUA numa superpotência que se estendia de oceano a oceano e revolucionou a finança. Como escreveu o historiador Richard White na sua história das transcontinentais, Railroaded, “ela criou a modernidade tanto por via dos seus fracassos como dos seus êxitos”, deixando atrás de si “um legado de falências, duas depressões, prejuízos ambientais, crises financeiras e agitação social”. Para já, o boom do investimento em IA ainda não atingiu a dimensão do investimento ferroviário do século XIX, que chegou a alcançar 6% do PIB dos EUA, a comparar com, por agora, 1,2% do PIB em investimentos em centros de dados de IA e 4% do PIB em tecnologia de informação globalmente. Mas para lá caminha.
Na “ferromania”, a bolha bolsista acabou por estourar. Nos EUA, o rastilho do pânico de 1873 foi acendido pela falência da Jay Cooke & Co., primeira instituição bancária da América. Cooke, que se fizera como financiador número um do Exército da União, concordou em financiar o projecto da Northern Pacific Railway de ligar a costa do Oregon à rede ferroviária existente no Nordeste. Contudo, já não era a primeira linha transcontinental, e preocupações com excesso de capacidade, juntamente com desconfiança crescente nos títulos de dívida das ferroviárias, fizeram que os preços das obrigações da Northern Pacific caíssem. A empresa de Cooke faliu em Setembro de 1873, precipitando o pânico na bolsa de acções que acabou por originar a depressão mundial que se estendeu pela década de 1890 adentro.
Marx comentou na altura que a enorme concentração dos investimentos dos mercados de acções nas empresas ferroviárias dos EUA “deu, numa palavra, um ímpeto insuspeito à concentração de capital e também à imensa aceleração e expansão da actividade cosmopolita do capital mutuável, assim envolvendo o mundo inteiro numa rede de aldrabice financeira e endividamento mútuo que é a forma capitalista da ‘fraternidade internacional’”. Quando as acções das ferroviárias caíram, caiu o resto do mercado, abrindo-se uma recessão económica.
Na Grã-Bretanha, a bolha ferroviária rebentou por volta de 1847. Marx só analisou a bolha cerca de 20 anos depois, no volume 3 de O Capital. Chamou-lhe a “grande aldrabice ferroviária”, para salientar como tinham sido deliberadamente empoladas as promessas das empresas ferroviárias dos enormes lucros que haveria a colher. Os investidores injectaram ingenuamente capital em projectos significativamente menos lucrativos do que eles esperavam e do que os promotores e directores haviam prometido. A ferromania da década de 1840 ocorreu quando a taxa média de lucro na Grã-Bretanha estava em queda – e em queda continuou ao longo da década. Marx observou que “na aldrabice ferroviária do Verão de 1844, os investidores nas ferrovias pareceram estar à espera de uma taxa de lucro muito superior à taxa média”. Chegados a 1847, tais esperanças tinham saído furadas.
Agora estamos na mesma. Se o retorno dos enormes investimentos em IA for menor do que o esperado e prometido, o resultado será uma correcção severa no mercado de acções. Por outras palavras, o mecanismo pelo qual o rebentamento da bolha da IA poderá causar uma recessão não é o de uma baixa repentina do crescimento, mas o da não obtenção do rendimento esperado do investimento.
Por enquanto, no sector da “tech” ainda reina o optimismo. Mark Zuckerberg previu recentemente que, dentro de um ano, metade do código da Meta seria escrito por IA. Até agora, porém, a maioria das empresas pouco ou nenhum benefício está a ver dos seus investimentos iniciais. Um estudo do MIT muito citado chegou à conclusão de que, por agora, 95% dos projectos de ‘IA generativa’ não se traduzem nem em crescimento de produtividade nem em lucros. Para justificar o investimento necessário, as receitas anuais dos centros de dados teriam de centuplicar dos actuais 20 mil milhões de dólares para cerca de 2 biliões de dólares. Às receitas existentes vão faltar 800 mil milhões de dólares, segundo a Bain & Company. Mesmo contando com ganhos de eficiência esperados, a diferença ilustra quanto as cotações actuais dependem de fluxos de receitas por demonstrar. A diferença terá de ser colmatada com empréstimos e aumentos de capital.
O investimento em activos ligados à IA é cada vez mais financiado por empréstimos e financiamentos contraídos pelas empresas de IA, ao passo que os investidores em acções contraem, por sua vez, mais empréstimos para alavancar as suas apostas financeiras na IA. Os parceiros dos centros de dados da OpenAI estão a caminho de acumular quase 100 mil milhões de dólares em empréstimos para investimento nesta. O SoftBank, a Oracle e a CoreWeave contraíram empréstimos no valor de, pelo menos, 30 mil milhões de dólares para investir, e um grupo de bancos está a negociar mais 38 mil milhões de dólares para emprestar à Oracle e à construtora de centros de dados Vantage, para financiar novos locais para a OpenAI. O grupo de investimentos Blue Owl Capital e empresas de infra-estruturas informáticas, como a Crusoe, contam também com acordos com a OpenAI para o serviço de dívidas no valor de cerca de 28 mil milhões. Os credores bancários e obrigacionistas começam a ficar preocupados e estão a reforçar as apólices de seguros de incumprimento sobre a Oracle, para o caso de esta ficar incapaz de pagar o serviço da dívida.
A ex-economista-chefe do FMI Gita Gopinath calculou que um estouro do mercado de acções ligado à IA equivalente àquele em que terminou o boom das dot.com riscaria do património das famílias americanas cerca de 20 biliões de dólares, e mais outros 15 biliões no estrangeiro: o suficiente para estrangular a despesa dos consumidores e induzir uma recessão global. Contudo, vê-se desenvolver-se o argumento de que, mesmo que haja um estouro financeiro, e ainda que a essa crise se siga uma recessão, sobreviverão então as melhores empresas, e os enormes ganhos de produtividade decorrentes da aplicação da IA em todos os sectores da economia acabarão por reverter numa mudança qualitativa no crescimento da produtividade do trabalho. A produção aumentará porque a IA substituirá trabalho
humano, reduzindo os custos das empresas e aumentando a rentabilidade. Não foi o que aconteceu antes, quando, apesar de o pânico de 1873 ter causado a ruína do mercado das acções ferroviárias e uma recessão profunda, os EUA acabaram por ficar com uma rede ferroviária em todo o continente? E na Grã-Bretanha, analogamente, após a recessão do final da década de 1840, não assentou o longo boom subsequente da década de 1850, em parte, nas 6000 milhas da rede ferroviária, que foi a espinha dorsal do sistema de transportes do país e ajudou a Grã-Bretanha a manter a sua hegemonia global?
Fará a IA o mesmo pelo capitalismo americano, que actualmente enfrenta rivalidade crescente à sua hegemonia global? É bem possível que não. Basta dizer que podem os Sete Magníficos estar na mó de cima nas bolsas de valores, mas a sua vantagem tecnológica está seriamente ameaçada. No ano passado, a China lançou o DeepSeek, um modelo de linguagem de grande escala (LLM) muito mais barato, mas quase tão bom como o ChatGPT da OpenAi. E este ano, houve novos lançamentos de LLMs chineses com desempenho semelhante, mas custo muitíssimo inferior ao investido pelas empresas norte-americanas.
Os economistas tradicionais continuam divididos sobre se a IA virá a ter o mesmo impacto que as ferrovias tiveram no século XIX, ou a internet no final do século XX. O economista da Universidade de Stanford Eric Brynjolfsson prevê que a IA seguirá uma “curva em J”, com um efeito inicial de produtividade lento, e até negativo, conforme as empresas investem maciçamente na tecnologia antes de colherem finalmente os seus frutos. Só então vem o boom. Pode-se observar a curva em J no crescimento da produtividade industrial dos EUA, que caiu em meados da década de 1980 e, após a recessão de 1991, acelerou fortemente até meados da década de 2000.
Contudo, Daron Acemoglu, economista do MIT e vencedor do Prémio Nobel de 2024, argumenta que os ganhos de produtividade da IA generativa serão muito menores e levarão muito mais tempo do que pensam os optimistas da IA. Além de que as empresas de IA estão demasiado focadas no ChatGPT e noutros produtos de IA que têm pouca relevância para a maior parte dos sectores. Há quem aponte que, apesar de smartphones, redes sociais e aplicações como a Slack e a Uber, as tecnologias digitais passadas pouco contribuíram para que a economia crescesse. O ano que vem mostrará quem tem razão.
Tradução de Adriano Zilhão.
O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
O Governo prepara um pacote laboral que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha.
O chamado “Trabalho XXI” que Luís Montenegro quer impor ao país é, na verdade, um regresso acelerado ao passado mais duro das relações laborais. Sob o pretexto da modernização e da competitividade, o Governo prepara um pacote que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha. Fala-se em “flexibilizar horários”, mas o que está em cima da mesa é o aumento das jornadas, o crescimento das horas extraordinárias obrigatórias e a normalização de horários irregulares que impedem qualquer conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar.
E quando se destrói essa conciliação, destrói-se também a família. Não há família sólida quando os pais chegam sempre tarde, esgotados e ausentes. Não há natalidade sustentável quando ter filhos significa empobrecer ou perder o emprego. Não há sociedade equilibrada quando se pede às mães e aos pais que sacrifiquem o lar para salvar os lucros de alguns. O ataque aos direitos laborais é, inevitavelmente, um ataque à parentalidade e ao futuro do país.
Chamam-lhe liberdade; nós chamamos-lhe exploração.
Fala-se em “simplificar vínculos”, mas a proposta é abrir portas a contratos cada vez mais curtos e intermitentes, generalizando a precariedade a gerações inteiras. Fala-se em “reduzir encargos”, mas o que o Governo quer é baixar as contribuições para a Segurança Social, fragilizando o sistema e deixando para amanhã uma bomba-relógio que pagaremos todos, sobretudo os mais jovens. Fala-se em “adaptabilidade”, mas o objetivo real é permitir despedimentos mais fáceis e mais baratos, onde a suposta “inadequação” do trabalhador à empresa basta para o pôr na rua. Entre sorrisos liberais e discursos de oportunidade, o que está a ser preparado é um mercado de trabalho onde quem manda decide tudo e quem trabalha cala e obedece, ou perde o sustento.
O novo pacote laboral não é progresso, é uma agenda ideológica de submissão, mascarada de futuro.
Isto não é progresso. Isto é uma agenda ideológica de submissão, mascarada de futuro. E não podemos assistir calados enquanto direitos que custaram gerações de luta são rasgados em meia dúzia de reuniões de Conselho de Ministros ou em simulacros de negociação.
O país não pode aceitar que a dignidade laboral seja tratada como empecilho. Os trabalhadores portugueses já deram demasiado: salários baixos, produtividade a subir, lucros empresariais em máximos históricos. E agora querem dizer-nos que ainda é pouco, que temos de trabalhar mais horas, com menos proteção e com a vida toda posta de joelhos perante o patrão.
Pois não. Não aceitaremos.
Foi a luta coletiva que conquistou férias pagas, limite de horas de trabalho, Segurança Social, descanso semanal, contratação coletiva. E é pela mesma luta que impediremos este retrocesso. A greve geral de 11 de dezembro é o momento de dizer, claramente, que o país não se governa contra quem o constrói todos os dias, que não deixaremos que nos transformem em instrumentos descartáveis da economia. O Governo quer levar-nos ao século XIX em nome do século XXI. Aqui, agora, é o momento de travar esta marcha atrás. Quem trabalha merece respeito, estabilidade, tempo para viver e tempo para cuidar da sua família e dos seus filhos. Merece um país decente. E esse país não se pede de joelhos. Conquista-se de pé.
Dia 11, paramos para avançar. Porque os direitos não se negociam — defendem-se. Sempre.
O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, conferindo ‘peso’ ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz.
“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever. Como começar pelo princípio, se estas coisas acontecem antes de acontecer?”
A Hora da Estrela, Clarisse Lispector (1977)
Imaginar uma sociedade onde o poder não reside no trono dos reinos, nas presidências vazias ou nas secretarias cheias de burocratas pode ser uma tarefa interessante, caso seja acompanhada da necessária visão crítica. Uma das alternativas, falando simplesmente do campo da imaginação criativa, seria um poder inspirado nos avanços mais recentes da física de partículas, que reside nas sombras infinitesimais do invisível, nos fragmentos quânticos que tecem os contornos da existência. Uma alegoria possível aos humildes constituintes da matéria e do espírito humano, onde cada colisão, cada excitação fraccionária, revela forças capazes de reescrever o destino colectivo.
O poder pode, na nossa imaginação, ser qualquer coisa como a “imaginação ao poder”. Recuemos a Maio 68, em que Paris veria dez milhões de grevistas nas ruas e se convocava a imaginação como força motriz da arte, da inovação e da utopia, um hino global, em que a tomada de poder iria varrer as estruturas rígidas, burocráticas e opressivas da sociedade, governos, capitalismos e hierarquias tradicionais. Ficou, no seu tempo, como um manifesto para que a “criatividade liberte e governe”, transformando o mundo num palco de possibilidades infinitas, em vez de uma prisão de regras. Que partículas desse poder ficariam no ar, mesmo na perspectiva surreal, quase seis décadas depois? Um poder em partículas, que poderia então emergir das profundezas do cidadão e guindá-lo à categoria superior das possibilidades, num vislumbre para além do véu da realidade podre, desenhada pelos atores pífios que conhecemos hoje, particularmente no hemisfério norte.
No universo da física quântica, teoria fundamental desenvolvida na década de 70 do século passado, descrevem-se as partículas elementares da matéria, onde existe um campo que é responsável pela massa dessas partículas. O campo de Higgs é invisível, embora funcione como agregador de todo o espaço, onde as partículas elementares ganham massa ao interagir com este campo e oferecem resistência ao movimento, ou seja, quanto maior a interacção de uma partícula com o campo, maior é a "resistência" ao seu movimento, ganhando mais massa, e onde as partículas que interagem menos têm menos massa. A aparente complexidade do conceito pode ser adaptada ao tecido social, uma espécie de campo de Higgs relacional onde nos movemos. Alguns indivíduos interagem com intensidade com esse campo, sabemos quem são e como se comportam, líderes, comunicadores, "influenciadores", que vão adquirindo “massa social” na sequência das suas interacções. Essa “massa” não é obviamente um atributo intrínseco, mas um fenómeno relacional, constituindo uma arquitetura da legitimidade, conferindo poder em estruturas duradouras, concedido aliás pelo campo social em que se está inserido. O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo, conferindo “peso” ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz. Sem a interacção com esse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, o poder seria apenas um potencial, uma partícula sem massa correndo à velocidade da luz, mas incapaz de formar estruturas duradouras. Portanto, o poder é concedido pelo campo social em que se está inserido.
As questões do poder e do direito foram exploradas ao longo dos tempos. Por exemplo, o “direito” que prevalece não é necessariamente o mais justo ou verdadeiro, mas aquele que é sustentado pela partícula de poder mais eficaz naquele contexto. Para o filósofo inglês do século XVII, Thomas Hobbes, o poder, original ou natural e instrumental, não é absoluto por depender do reconhecimento de outrem, mas sim uma “concorrência” entre inúmeras partículas de poder para impor a sua versão do "direito". Já para o escritor e cientista alemão do século XVIII, Johann von Goethe, a origem do direito está na tradição e na herança do poder institucionalizado. O autor de Fausto, diz, pela boca de Mefistófeles, que o direito não é uma questão de justiça inerente, mas sim das regras que o poder conseguiu impor e fazer passar por legítimas ao longo do tempo. Goethe afirma de forma clara que o "direito" é uma construção do poder e não um princípio moral universal. Para Marx e Engels, o poder de classe baseado na economia sempre esteve concentrado e a aparente dispersão na superfície política e mediática esconde uma concentração sem precedentes de poder económico e tecnológico. O que afirmaram e defenderam mantém, ainda hoje, uma coerência notável. Se os pudéssemos consultar, possivelmente nos diriam que a solução não é celebrar a fragmentação do poder em partículas, mas superá-la através da organização consciente da classe trabalhadora para conquistar o poder real e efectivo. É mais, pela lógica das suas teses, que a narrativa do empoderamento individual através da tecnologia, que poderia ser vista como uma nova forma de falsa consciência, onde a pessoa acredita que está conquistando poder, enquanto permanece estruturalmente subordinada ao capital, ou seja, uma perfeita ilusão da emancipação individual.
Sabemos hoje que a matéria visível, estrelas, planetas, todos nós, compõe apenas cinco por cento do universo. O resto é matéria e energia escura, que não emite luz, mas cuja gravidade e pressão regem as leis do universo. Pelo mesmo diapasão se rege a maior parte do poder real. Que é, na maior parte das situações, "obscuro" e reside em acordos não escritos, em inter-relacionamentos de bastidores, em enviesamentos culturais inconscientes, que são a matéria escura que estrutura um sistema onde parece existir uma energia submersa em narrativas hegemónicas, forças expansivas e invisíveis, como o algoritmo de uma rede social ou a corrente subterrânea da opinião pública, que determinam o que é pensável e o que é inquestionável, sem nunca se revelarem completamente.
Restará provavelmente nesta alegoria definir o indivíduo como uma partícula de poder. É o que fazem os novos doutrinadores burgueses, os burocratas que utilizam o poder como castrador de consciências, pretendendo suprimir (e mesmo eliminar) a crítica e o pensamento livre. São os partidários de uma “democracia” que nos diz que a nossa voz, o nosso voto, a nossa participação online podem, em conjunto com outras partículas, gerar um "direito" novo. São os mesmos que incentivam o consumo e o “encarceramento” das pessoas em “centros especiais”, como os comerciais, onde parecemos ser iguais, uma ilusão falsa e enganadora. Hoje, a luta pelo poder já não é apenas controlar um trono ou um reino. É, acima de tudo, controlar uma narrativa, um algoritmo, as normas sociais e a atenção das pessoas. Nesta nova frente de luta, o aforismo de que a força (militar, económica, social ou algorítmica) define a legitimidade permanece terrivelmente verdadeiro, actuando de uma forma infinitamente mais complexa e subtil. O poder em partículas é uma metáfora que não invalida o aforismo. Pelo contrário, amplifica-o e complexifica-o. Os pequenos poderes, pulverizados, distribuídos e atomizados em inúmeras "partículas", representam hoje obstáculos visíveis e influentes na “resistência” às mudanças sociais e devem ser combatidos, em favor dos processos libertadores e revolucionários, para a construção programada e organizada da sociedade sem amos.
*Alfredo Soares-Ferreira, escritor e cronista, é licenciado em Engenharia de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Atualmente aposentado, foi professor do ensino secundário, profissional e superior.
Apesar de sabermos que qualquer universo distópico se traduz num cenário imaginado de uma região, país ou sociedade, sabemos igualmente que ele representa o caos, a injustiça, a desigualdade, a opressão, o sofrimento, a tirania ou o totalitarismo. Nesse ambiente indesejável prevalecem o desamparo, a amargura, a angústia, o desespero, o autoritarismo, ou seja, é um sistema que restringe a liberdade, a autonomia e anula a subjetividade. A distopia pode funcionar como uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. As pessoas sentir-se-iam isoladas e sem capacidade para resistir, sem força para se opor. A distopia caracteriza-se, ainda, por possuir múltiplas formas de poder, dominação e controlo, as quais se manifestam, por vezes, de formas visíveis, outras vezes, por meios subtis. Em resumo, um universo distópico idealiza um mundo profundamente desigual, maléfico, doente, alienado e castrador. Porém, uma conjuntura distópica pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica para tudo aquilo que não queremos vivenciar ou experienciar.
Por oposição, a utopia representa o inverso, isto é, traduz-se naquilo que seria uma sociedade ideal, perfeita, harmoniosa, justa e desejável. É um lugar em que predomina o bem-estar, a igualdade, a ausência de pobreza ou de miséria social, e materializa-se num sistema de governo benevolente (ou até mesmo na ausência dele, embora mantendo o funcionamento da sociedade de forma organizada, equitativa e pacífica). As sociedades utópicas caracterizam-se por promover: 1) a cooperação e o coletivismo (entre todos os membros da sociedade); 2) a elevação de valores éticos e morais (em que o respeito, o bem-estar social e a liberdade de expressão são, efetivamente, valorizados); 3) a educação, a ciência, as técnicas e a tecnologia (as quais são totalmente direcionadas para o bem-comum, isto é, são unicamente utilizadas para benefício de toda a humanidade e representam um património que intrinsecamente lhe pertence, fruto do conhecimento passado de geração em geração); 4) a harmonia social e ambiental (é obrigatório manter uma relação equilibrada do Homem com a natureza). Resumidamente, uma sociedade utópica é uma sociedade progressista, emancipatória e humanista. O termo original foi criado por Thomas More, no seu livro Utopia (1516), cujo significado é, literalmente, "lugar nenhum" (originário do grego ou = não, e topos = lugar), que nos remete para um ideal inalcançável. Metaforicamente, é como se caminhássemos para tentar alcançar o lugar mais distante na linha do horizonte (mas, simultaneamente, quando mais caminhamos, novos lugares vão surgindo no nosso campo de visão).
Na realidade, os dois conceitos, distopia e utopia, tal como já referido, remetem-nos para sociedades imaginárias. Porém, atualmente, estamos submersos em sociedades que parecem mais próximas de poderem ser consideradas distópicas do que utópicas. Um elemento-chave que ajuda a compreender este fenómeno é o facto de vivermos em sociedades-do-lucro-omnipresente-e-omnipotente. Nesta conjuntura, o Homem deixou de ser um fim em si mesmo (Kant teria rejeitado essa visão utilitarista e instrumental do ser humano) e esse lugar passou a ser ocupado pelo “deus lucro”. Porém, isso representa uma extraordinária (e inaceitável) inversão de valores sociais e morais.
Os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza.
É verdade que os problemas sociais, económicos, políticos e ambientais do mundo hodierno são complexos e estão profundamente interligados. Não raras vezes, estes tópicos são exacerbados pelo processo de globalização, incluindo todas as suas contradições. Um dos paradoxos mais evidentes na atualidade é pautado pela relação (desestruturante) entre capital e trabalho, embora vá muito além dela. A título ilustrativo, enumeramos alguns exemplos de problemas marcantes vividos no mundo contemporâneo, nomeadamente ao nível das desigualdades económicas e sociais: os dados atuais demonstram que os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza. As três maiores fortunas do mundo possuem um montante superior ao PIB de quase 60 países mais pobres. Isto significa que vivemos num mundo em que reina a injustiça social e se reproduz uma atroz assimetria na distribuição dos recursos produzidos, por via do trabalho, através da classe trabalhadora. Paralelamente, as últimas estimativas revelam que mais de 200 milhões de trabalhadores vivem na condição de pobreza extrema, ganhando o equivalente a, aproximadamente, 2 euros por dia. Sublinho que estamos a falar de trabalhadores, ou seja, alguém que trabalha, mas, ainda assim, não consegue sair da pobreza extrema. Apresento, como exemplo, um episódio real relatado por Vincent Gaulejac, na obra La société malade de la gestion, o qual indica que um empresário de uma multinacional recebeu 16,2 milhões de euros por ter tomado a decisão de encerrar 38 lojas dessa empresa e, consequentemente, enviado para o desemprego centenas de trabalhadores. Este montante, auferido devido a um único ato de gestão, representa o equivalente a mil anos de salário médio dos trabalhadores que foram demitidos. Surpreendentemente, o mesmo empresário, referiu que não se sentia bem pago para exercer aquela “tão dura profissão”. Vale a pena interrogarmo-nos: qual o valor que atribuímos ao trabalho para sustentar uma tão grande discrepância de rendimentos? Como podemos explicar e justificar esta insanidade, sem a apelidar como algo profundamente distópico?
Segundo os dados de um relatório recente da OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho. Também dados recentes indicam que o desemprego global se cifra em cerca de 210 milhões de trabalhadores desempregados. Isto representa uma verdadeira hecatombe social, política e económica. É igualmente pertinente referir que, ao nível global, as disparidades no acesso à educação, aos serviços de saúde, à habitação, à quantidade e qualidade da alimentação (fome e/ou má nutrição) e a empregos decentes são gritantes e evidentes. Por vezes, muitos destes aspetos têm como pano de fundo as diferentes formas de violência, cujo expoente máximo está normalmente associado aos conflitos armados, ou ainda a situações oriundas de crises ambientais e alterações climáticas.
Em relação a este último ponto, vale a pena ler o relatório da Oxfam International, publicado em outubro de 2025, cujo título é expressivo: “Saque Climático: como poucos poderosos estão a levar o planeta ao colapso.” Neste documento, é afirmado que o grupo dos 0,1% mais ricos do planeta polui, em apenas um dia, mais do que uma pessoa dos 50% mais pobres durante um ano inteiro. É também defendido que a crise climática é uma crise de desigualdade. Estes são alguns traços que nos levam a sugerir que o mundo atual está mais próximo da distopia do que da utopia.
Segundo a OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho.
Agora, imaginem que num futuro próximo seria criado um parlamento global. Esse órgão político transnacional estava a discutir uma legislação que iria proibir todas as formas de exploração entre seres humanos. Anteriormente, já tinham sido dados passos significativos nesta direção, considerando que há uns anos os lucros das empresas (que maioritariamente iam para os bolsos dos acionistas ou proprietários) não poderiam agora ultrapassar a margem de 5% do lucro total. Uma parte dos restantes 95% dos lucros era distribuída, equitativamente, por todos os trabalhadores da empresa e, a outra parte, era alocada para o Estado Providência do respetivo país. Naturalmente que neste novo modelo não existia a possibilidade de rutura ou de falência da segurança social. O desemprego era igualmente proibido, visto que o trabalho que cada um executa representa aquilo que cada trabalhador pode oferecer ao bem comum. Ninguém é tido como “inútil”, porque a existência e a dignidade não estão associadas à capacidade de produzir. Uma sociedade de pleno emprego, deste ponto de vista, traduz-se no limite máximo da qualidade de vida dessa mesma sociedade. Porque a divisão social do trabalho é justa e equitativa. Claro que haveria pessoas que não trabalhavam (no sentido estrito do termo), não porque não quisessem, mas porque, efetivamente, não podiam! Imaginem também que o mesmo parlamento global fazia a promoção plena da paz mundial e proibia todo e qualquer tipo de guerra armada. A fome, a pobreza e a exclusão social eram igualmente proibidas.
Estes tópicos direcionam-nos para aquilo que hoje designaríamos como uma sociedade utópica. A eliminação das desigualdades tinha sido possível porque as populações tinham compreendido, verdadeiramente, o que tinha estado na base da sua génese (para isso evocamos as sábias palavras de Jean-Jaques Rousseau sobre a origem das desigualdades humanas): “O primeiro [Homem] que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado o género humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!”
Para terminar, peço-lhe que recorra uma última vez à imaginação e faça a seguinte experiência mental: pense que está no cenário idealizado por John Rawls, desiganado por “véu da ignorância”, ou seja, não sabe antecipadamente qual será a posição social que lhe irá caber, quais serão as suas capacidades e aptidões naturais, qual será a sua identidade (em termos de género, etnia ou orientação sexual), nem quais serão as suas crenças religiosas, filosóficas ou até as metas de vida. Perante este contexto idealizado e ignorando totalmente as características em que seria colocado no mundo, caso tivesse de fazer uma escolha, escolheria viver numa sociedade distópica ou utópica?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
Na semana passada, o governo direitista de Portugal, pressionado pelo partido de extrema-direita fascista Chega, conseguiu pôr termo à possibilidade de imigrantes dos países dependentes virem trabalhar para Portugal. Até agora, era possível a muitos estrangeiros entrarem com um visto de turista e depois “manifestarem interesse” em trabalhar, acabando por obter autorização de residência. Agora, os imigrantes potenciais passam a ter de candidatar-se, nos seus países de origem, a vistos para trabalhar. Mas vejam só: a regra não é aplicável a candidatos a empregos “altamente qualificados”. Profissionais estrangeiros com “qualificações avançadas” continuam a poder entrar em Portugal para procurar emprego e trabalho desde que sejam contratados antes de o visto expirar. Analogamente, os trabalhadores “remotos” continuam a ser elegíveis para viver e trabalhar em Portugal.
As novas leis são notoriamente discriminatórias contra os imigrantes pobres dos países dependentes do Sul. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso? As estatísticas da Comissão Europeia indicam que a mão de obra migrante não enfraqueceu a economia portuguesa; fortaleceu-a! “800 mil imigrantes contribuem com mais de mil milhões de euros para o sistema de segurança social, ao passo que só recebem aproximadamente 257 milhões de euros em benefícios sociais, deixando um saldo positivo de mil e seiscentos milhões de euros”.
Há várias décadas que magotes de jovens deixam Portugal em busca de melhores oportunidades económicas noutros países da UE. Nos últimos anos, indianos, nepaleses e bengalis colmataram a lacuna deixada na força de trabalho portuguesa. Vêm trabalhar para explorações de frutos vermelhos no Alentejo agrícola. “Nós deixámos o nosso país. Jovens portugueses têm deixado o seu. Há quem não goste que nós cá estejamos, mas somos nós que estamos a revitalizar esta região e a fazer entrar cá muito dinheiro”, diz um trabalhador nepalês sob anonimato. “A razão principal por que Portugal tem visto aumentar o número de imigrantes é porque precisa deles”, diz Luís Pinheiro, ex-diretor da Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA). O sector agrícola português continua em expansão rápida, particularmente devido à procura cada vez maior de frutos silvestres, que depende principalmente de trabalhadores da Ásia Meridional. Em 2023, as receitas de exportação de bagas atingiram quase 300 milhões de euros, sendo a maioria enviada para supermercados alemães e britânicos. “Portugal tem uma grande procura de mão de obra em certas áreas de atividade económica, e estes migrantes continuam a chegar porque há procura de mão de obra”. Longe de ser abuso, a imigração tem sido um trunfo essencial para a economia portuguesa, particularmente em sectores-chave da agricultura e da indústria do lazer, assente em salários baixos, que correspondem a empregos que os cidadãos portugueses resistem a procurar, por os salários serem muito baixos. O atual salário mínimo é de apenas 820 euros por mês, que mal deixa a quem trabalha o suficiente para sobreviver. Depois de custear o alojamento, as dívidas e o envio de dinheiro para a família, muitos trabalhadores imigrantes ficam com apenas 100-150 euros por mês. Muitas destas aldeias e vilas ficam longe das cidades, no Alentejo, o que torna mais difícil documentar violações de direitos humanos e laborais. Muitos suportam condições extraordinariamente difíceis. “É uma espécie de militarização do trabalho. Tens de obedecer a tudo, mesmo que seja a coisa mais estúpida que se possa imaginar. Se trabalhas 12 horas, devias receber pagamento de horas extraordinárias; mas eles pagam apenas 6,50 euros e ainda queriam mais horas. Isso era para os trabalhadores permanentes. Imagina agora para os temporários”, diz o ativista laboral do Alentejo Alberto Matos.
Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia.
Shollomian, de Sylhet, no Bangladeche, que veio para Portugal com um visto de turista, trabalha numa quinta de frutos vermelhos em São Teotónio. Diz que trabalha entre 8 e 12 horas por dia, começando às 5-6 h da manhã. Foi-lhe dito que receberia uma autorização de residência no prazo de 12 a 14 meses, mas, 24 meses passados, continua à espera. Apesar disso, envia 100 a 400 euros à família sempre que pode e está otimista. “Vim para Portugal há dois anos quando vi anúncios de trabalho em Portugal nas redes sociais. Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia, em condições difíceis. Ganho 50 euros por dia. Temos de colher oito quilos por cada quatro horas. É dificílimo, na quinta faz muito calor, não nos dão água, às vezes sangro do nariz. Não nos dão comida, temos de trazer a nossa. Envio por mês 230-450 euros para a família, no Nepal. Ao fim de dois anos, continuo sem autorização de residência.”
“Há, atualmente, pelo menos, 400 mil pessoas, na sua maioria migrantes indianos e nepaleses, que aguardam renovação das suas autorizações de residência. Encontram-se numa situação muito vulnerável, porque os empregadores aproveitam-se. Não podem perder o emprego, por isso têm de aceitar todas as exigências dos empregadores”, afirma a Dra. Alexandra Pereira, bolseira de pós-doutoramento na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, especializada em migração nepalesa, particularmente para Portugal e a Europa.
A situação dos sul-asiáticos é perigosa, pois estão mais à mercê dos traficantes e das máfias que os trazem para Portugal e da exploração dos empregadores. No Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, há muitas agências que continuam a burlar e a lucrar à grande com os recém-chegados e migrantes com documentação insuficiente, convencendo-os a comprar serviços de que não precisam e fazendo-lhes crer que ainda é possível legalizarem a sua situação.
Ao fechar a porta à legalização, o Governo abriu o mercado negro de mão de obra humana. Muitos trabalhadores chegam profundamente endividados, depois de pagarem quantias exorbitantes para virem a Portugal com vistos de turista, de trabalho ou vistos UE expirados. Alberto Matos diz que os migrantes lhe contam que “bem, eu paguei 15 a 20 mil euros, na Índia, para vir trabalhar para Portugal. Eles endividam-se, têm de pagar as dívidas anos a fio, ficam escravos da dívida. As próprias famílias, no país de origem, são obrigadas a pagar a dívida e são ameaçadas pelas máfias locais”.
De acordo com a direção da Migração e Assuntos Internos da Comissão Europeia, “observou-se que a maioria das vítimas confirmadas de tráfico se enquadravam no tráfico de seres humanos para exploração laboral (72,8%); desses, 73,2% no sector agrícola”. As estatísticas são especificamente piores no Alentejo, onde se contaram 51,7% das vítimas confirmadas de tráfico de seres humanos em Portugal entre 2008 e 2021; dessas, 74,5% traficadas para fins de exploração laboral. “Devido à enorme extensão geográfica dos locais onde são colocados para trabalhar, geralmente no interior da região do Alentejo ou no Oeste do país, com condições de acesso difíceis, a deteção pelas autoridades responsáveis pela supervisão das condições de trabalho e permanência em Portugal é difícil.”
As grandes empresas frutícolas estão no âmago da situação. Como afirma Matos, “a Driscoll's controla Odemira inteira. Vendem as patentes e, pelo meio, há uma grande exploração. No fim da linha, dizem: ‘façam o favor de nos darem os frutos vermelhos, nós é que sabemos comercializá-los nos mercados internacionais.’ Costumamos dizer que a região de Odemira é uma espécie de barriga de aluguer da Driscoll’s.” Se há “abuso de hospitalidade”, como clama o primeiro-ministro Montenegro, quem abusa não são os imigrantes, são os empregadores.
Não tarda nada que gente como o Chega venha exigir a deportação de milhares de trabalhadores para os seus “países de origem”. Só que a situação económica e política no Bangladeche e no Nepal é horrenda. O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, embora o estilo de vida luxuoso das famílias políticas — roupas de marca, viagens ao estrangeiro e carros de luxo — contraste com a dura realidade que os jovens enfrentam. “Toda a gente se quer ir embora [do Nepal]. Há poucas oportunidades de emprego, crises políticas e económicas constantes; os jovens querem encontrar uma vida melhor, salários mais altos: as pessoas ganham 200 euros por mês.” Acrescem agora perigos reais. No mês passado, o governo do Nepal caiu e houve um golpe militar. A polícia matou 22 pessoas num protesto contra a corrupção.
A situação não é melhor no Bangladeche, país muitíssimo povoado. Há cerca de 37,7 milhões de pessoas em insegurança alimentar no país. Mais de um quarto das famílias endividam-se para suprir necessidades diárias, incluindo comida. Um inquérito do think tank South Asia Network on Economic Modeling mostrou que 28% das famílias recorrem a empréstimos para sobreviver. Quase duplicou o número médio de empréstimos por família. No ano passado, o exército e a polícia mataram mais de trezentas pessoas envolvidas em protestos contra o governo, até que a então primeira-ministra Hasina fugiu do país, levando milhares de milhões na bagagem.
Assim, as 400 mil pessoas que aguardam a renovação dos vistos não têm maneira de voltar para casa, ao contrário dos muitos portugueses que deixaram o seu país em busca de uma vida melhor e empregos melhores, mas podem regressar. Portugal precisa destes imigrantes, geralmente jovens e industriosos, e da sua mão-de-obra (e das suas receitas fiscais) para contribuir para sustentar quem vive no país. O que é necessário não são controlos de imigração rigorosos, enviesados contra os asiáticos pobres, nem deportações, que muito debilitariam a economia portuguesa. Necessário é que trabalhadores portugueses e imigrantes façam campanha juntos, com os sindicatos, para acabar com a exploração dos trabalhadores migrantes, aumentar o salário mínimo e melhorar as condições de trabalho para todos. Enquanto forem obrigados a trabalhar por salários baixos e em condições precárias, os trabalhadores imigrantes prejudicam a capacidade negocial de todos os trabalhadores em Portugal. É com este “abuso de hospitalidade” que temos de acabar, não aumentá-lo.
"André, trocaste a palavra. É circuncidar e não cicatrizar."
Os tachistas oportunistas #2
A deputada do Chega Cristina Vieira continua silenciosa desde que foi eleita por este partido. A vida de deputado tem destas coisas. Há os que falam para dentro como papagaios e há aqueles que não podem falar nem para dentro, nem para fora, porque o líder os impede de abrir a boca. É que o chefe Venturão trata os seus deputados como números decimais e só ele tem direito a dizer as mentiras mais palpitantes. No outro dia, Cristina Vieira ficou estupefacta quando o chefão, pedindo a palavra no parlamento disse: “Temos de cicatrizar a sociedade portuguesa e podemos começar já pelo almirante Gouveia e Melo, que nasceu em Moçambique e teve uma ama muçulmana que usava burka e lhe lia o Corão.” Cristina Vieira riu-se para dentro dos seus ossinhos, mas soprou logo a palavra justa a um deputado com gosma que logo a lançou ao gordo Pedro Pinto que transmitiu sorrateiramente: “André, trocaste a palavra. É circuncidar e não cicatrizar.” Esta tolice provocou um riso geral no parlamento e até a barata Elvira, que é locatária há vinte anos da Assembleia da República, se mostrou a rir.
Cristina Vieira, antes de ser deputada pelo Chega, foi outra pessoa. Conhecia-a quando ela ia a umas noturnas tertúlias culturais em Sintra, de gente jovem, simpática, culta e de esquerda. O local de encontro, lembro-me, era num café muito perto do centro. Fui lá várias vezes e até me convidaram uma vez para apresentar um livro, e foi assim que a conheci. Ela estava muito bem integrada nesta marginalidade sorridente e tolerante. Todos sabiam que era médica e participava muito nos debates. Qual não foi o meu espanto e o espanto dos nossos amigos de Sintra quando a descobrimos deputada na Assembleia da República pelo partido Chega! O que te aconteceu, Cristina? Endoideceste ou foste à procura de um tacho fácil como os teus colegas de bancada? Saiu-te a lotaria, confessa. Já agora, diz-nos: porque é que estás com esses incultos, tu que leste Philip Roth, Orhan Pamuk, Garcia Márquez, Vargas Llosa, Elena Ferrante, e outros? Ao menos diz-nos o que te aconteceu.
Mas agora já não há remédio. Ultrapassaste as linhas vermelhas da decência, da ética e da responsabilidade cidadã e estás no meio dos monstros. Só te resta um caminho: sair. Renegar a aVentura: suja, odiosa, bárbara, falaciosa, fascista.
Nas últimas eleições autárquicas, Cristina Vieira Henriques candidatou-se à Câmara de Óbidos e perdeu. O Chega recolheu 705 votos e não teve nenhum mandato.
Este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem.
Candidato do Chega à União das Freguesias de Sé e São Lourenço em Portalegre, este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem. Estas poses eróticas e narcísicas foram divulgadas pelo Correio da Manhã e parece que localmente tiveram repercussão, pois o esbelto do Chega obteve 492 votos e um mandato. É caso para se dizer: mostra-te como és e serás recompensado.
Só que há um mas. Luís Portilheiro, que é licenciado em Psicologia, trabalha no Centro Distrital de Portalegre e é interlocutor em programas de colónias de férias, famílias de acolhimento e da Associação Ser Criança. É também responsável por programas ligados à infância, à deficiência e à proteção de crianças em risco. Perguntamos só isto: se fosse alentejano, confiaria a sua criança a um chegadinho destes?
Vivemos, argumenta o autor, “o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos” porque “os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário”.
Das quatro, uma: ou será Presidente um homem sem ideias, defensor da guerra (os filhos dos pobres, claro, esses é que serão enviados para combater em nome do “interesse nacional”, qual?), um militar “perito em generalidades”, como bem disse António Filipe, ou, muito pior e sempre pior será elegermos como Presidente André Ventura, o qual representa o pior da educação em Portugal. O duce do cheguismo, o oportunista das benesses que a democracia lhe deu (desde a tese de doutoramento ao seu lugar como deputado) é o espelho fiel da falência educativa em toda a sua extensão. A ser eleito, ou a passar à segunda volta, o facto será este: Portugal está profundamente doente. Doente de alienação, de estupidez, de ressentimento, de raiva e de ignorância. Ventura, o usurpador, aproveita-se da indigência dos políticos actuais, da cobardia dos que, com poder e saber, deveriam enfrentá-lo: políticos independentes, intelectuais empenhados na defesa da democracia, gentes (que ainda as há!) apostadas em não deixar passar nem mais um facínora fascista.
André Ventura, a ser Presidente, será o inimigo número um dos Portugueses, não tenhamos dúvidas. O mais irado e demagogo político português é, na senda dos fascistas de boa cepa – um Mussolini, um Franco, um Trump –, um mentiroso compulsivo, um manipulador da juventude profundamente desconhecedora da nossa história. Explora como nenhum outro a pobreza deste país de baixos salários; mente sobre a questão dos ciganos, dos negros e dos desvalidos de uma sociedade pobre, a nossa; mente sobre os imigrantes, espoliados da sua dignidade, vítimas da exploração no Alentejo e no Douro, no Algarve e em Lisboa e no Porto. Quando foi que nos tornámos vampiros e racistas, preconceituosos e hipócritas como Ventura?
Ventura mente sobre o contributo destes povos explorados em Portugal. Basta perguntar: sem eles como estaria a nossa Segurança Social? Sem eles, quem andaria nas motas, noite dentro, servindo pizas? André Ventura é alguém absolutamente nocivo para o país. Pelo ódio que destila, pela ignorância que manifesta quanto às funções presidenciais. Como modelo de comportamento e de valores (que os não tem), André é um veneno letal: que exemplo é o seu como deputado, líder de um partido, candidato seja ao que for? Em boa verdade, as gerações que têm hoje entre os 15 e os 25 anos, que vêem em Ventura? Nada mais do que isto: o rosto da raiva que eles, jovens, sem expectativas e roubados de todos os ideais, fazem seu. É triste que Abril seja traído em Janeiro e sejam os jovens, mas também muitos reformados e pensionistas, muitos desempregados, a pensar que uma dor de cabeça se cura cortando a cabeça. É triste e é sintomático.
Portugal é hoje um território que se encaminha, a passos largos, para um modo trumpista de viver, violento e acrítico.
Vivemos, portanto, o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos porque, aburguesados, europeizados no pior sentido, ou americanizados em sentido ainda pior; educados, primeiro pelas televisões e de há anos a esta parte pela tentacular ditadura das redes sociais, os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário. Pais e mães não são os principais educadores dos mais jovens, mas sim as fake news, o circo montado no sistema educativo que, das escolas às universidades, permite que a indigência, a boçalidade, a incuriosidade e a ignorância grassem um pouco por todo o lado.
Tenho dito e escrito, repetido sem cessar (e não estou isolado nessa constatação): Portugal, dominado por um sistema multimediático que estupidificou e infantilizou os adultos e bestializou os mais novos (a Geração Millenium, a Geração Z), é hoje um território que se encaminha, a passos largos, para um modo trumpista de viver, violento e acrítico. Estamos a poucos anos (dois, três?) de nos tornarmos ingovernáveis. Os factos sociais confirmam-no: violência doméstica, violência nas escolas e universidades; corrupção no seio do Governo (Montenegro evitando uma CPI); crimes de colarinho branco, ingerência do MP, verdadeira máquina torcionária de governos legítimos, redes de tráfico humano; a acelerada degradação da imagem e símbolo do Presidente da República; uma juventude indigente, brutalizada, insensível, sem leituras, sem saber escrever, sem saber, de facto, ler e interpretar a realidade.
Mas… e Marques Mendes e Cotrim? É fácil: Farão a tão almejada revisão da Constituição de 1976, trairão o 25 de Abril e não terão quaisquer complacências: liberalizar, flexibilizar as leis do trabalho, facilitar o despedimento colectivo sem justa causa, impedir as greves, asfixiar a democracia e estar ao serviço dos senhores da guerra (a NATO e o directório Berlim-Bruxelas), eis o que prometem Marques Mendes e Cotrim, tudo em nome de um neoliberalismo de alpaca. Cotrim, com ar sorridente e impante de vaidade, e Mendes, no seu ar de sacristia, só nos levam a um lugar: à cepa torta e à conivência com a direita fascista que o PS, diga-se, na sua política de tolerância, deixou passar. Jorge de Sena, em 1974, perguntou: “E agora, Portugueses?” Perdemos a coragem e a lucidez?
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) autoriza o Governo a aprovar um regime jurídico que regula determinados aspectos da organização do tempo de trabalho dos trabalhadores móveis em actividades de transporte rodoviário e a transpor para a ordem jurídica interna várias directivas.
Votaram a favor PSD, Chega, PS, CDS-PP e JPP. Votaram contra PCP, BE e Livre.
O que é que isto significa e em que se traduz, afinal, na vida dos motoristas?
O órgão legislativo competente para legislar sobre estas matérias seria o Parlamento, só podendo estar cometida ao Governo se for, como foi, aprovada a lei de autorização legislativa a que nos referimos supra, o que, desde logo, permite a aprovação num lapso de tempo muito mais curto e sem ser objecto de discussão entre as mais diversas forças políticas.
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho
Por outro lado ainda, ao se aprovar esta lei de autorização legislativa, o que se está a conceder ao Governo é a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, no sentido de um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas, como, aliás, sucedeu.
Entre as medidas constantes do decreto-lei proposto constam as seguintes regras:
a) Artigo 20.º
Tempo de disponibilidade
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho. Refere-se a períodos não correspondentes a períodos de pausa ou de repouso, durante os quais o trabalhador móvel não é obrigado a permanecer no seu posto de trabalho, mantendo-se, no entanto, disponível para responder a eventuais solicitações no sentido de iniciar ou retomar a condução ou de efetuar outros trabalhos relacionados com a atividade de transporte rodoviário. São ainda considerados tempos de disponibilidade, nomeadamente, os períodos durante os quais o trabalhador móvel acompanha um veículo embarcado num ferry-boat ou transportado de comboio, bem como os períodos de espera nas fronteiras ou devido a restrições à circulação. Para os trabalhadores móveis que conduzem em equipa, o tempo passado ao lado do condutor ou num beliche durante a marcha;
b) Artigo 21º
A duração do trabalho semanal dos trabalhadores móveis, incluindo trabalho suplementar, não pode exceder 60 horas, nem 48 horas em média num período de quatro meses. Por instrumento de regulamentação coletiva de trabalho, o período de referência previsto no número anterior pode ser aumentado até seis meses.
c) Artigo 22º
Não é considerado trabalho nocturno o tempo de disponibilidade.
Ou seja, e dito de outra forma, os partidos que aprovaram a lei de autorização legislativa aprovaram também o conteúdo do decreto-lei que lhe estava anexo e do qual constam, entre outras medidas gravosas, as que aqui são referidas.
*A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.
Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.
O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.
No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).
O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.
Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.
Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.
É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.
É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.
Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.
Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.
O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.
O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.
Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.
Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.
Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.
Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.
A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.
Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.
Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).
Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.
Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.
É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.
Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.
Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.
A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.
Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.
A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.
The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.
E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.
Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”
Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.
“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.
“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!
O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.
Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.
É impossível não recordar 2012 e a troika.
Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”
Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).
O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.
Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.
Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.
Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!
Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.
Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho. Do que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
Há duas formas, relativamente simples, de se perceber a importância da greve geral. A primeira é, obviamente, assistir ao raro acordo entre a UGT e a CGTP. Quando até os sindicatos afectos ao PSD (TSD) se juntam à luta, é porque o ataque é grande. A outra, que também não exige um olho propriamente treinado, é ver as voltas do cata-vento Ventura que passou, em poucas semanas, de opositor a promissor sindicalista. Ainda o Frazão, lá de cima da janela da Assembleia da República, insultava os manifestantes e já o Ventura, percebendo a onda que cativava a opinião pública, se juntava nas críticas ao governo. Às vezes, muito secretamente, desejo que o Andrezito chegue a presidente deste nosso rectângulo. Seria a sentença de morte daquele partido unipessoal que carrega todas as ambições de um homem profundamente frustrado. Para não lhe chamar outra coisa, já que este é um jornal de respeito.
Leitão Amaro foi, para mim, a estrela do dia no papel de Goebbels de Tondela. Excelente na propaganda e na tentativa de despejar uma narrativa para os jornais do dia. Disse ele que o "país escolheu trabalhar" e que a adesão à greve era praticamente residual. Entretanto, as imagens de ruas e avenidas do país, atafulhadas de gente, saltavam de mural em mural. Há uma fotografia exposta no "bunker de Berlim", um museu imperdível, onde se mostra uma montagem de Goebbels transformando uma parada de uns poucos numa manifestação de milhares. Brilhante trabalho de manipulação gráfica, que convenceu uns quantos milhões, feito uns bons 50 anos antes da invenção do Paint pela Microsoft. Leitão Amaro teve apenas o azar de estarmos em 2025, na era dos telefones que fazem tudo.
Antes já tinha dito, para quem o quisesse ouvir, que o novo pacote laboral não teria impacto na função pública, uma vez que estes trabalhadores estão protegidos pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. O regime geral do código do trabalho, segundo o ministro da Presidência, é que sofreria o impacto. Esta conversa tinha dois objectivos. Desde logo, desmotivar a função pública no seu protesto. Como se as lutas laborais não se fizessem de solidariedade entre mais e menos afectados. Como se o colectivo não fosse sempre mais forte quanto maior a sua expressão. E depois, a parte menos conhecida da opinião pública, como nos explicou Rita Garcia Pereira (notícia CNN), advogada especialista em direito do trabalho, já existem muitos trabalhadores na dependência do Estado que têm contratos individuais de trabalho e, portanto, de natureza privada, directamente afectados pelo novo pacote laboral.
Um dos grandes problemas dos nossos governantes é a bolha em que vivem e a distância entre as suas vidas e a realidade dos Portugueses. A crise da habitação por exemplo, que afecta boa parte da população e resulta em despejos diários, está a ser enfrentada por um primeiro-ministro que tem 55 imóveis, uma ministra do Trabalho, professora universitária, com um património superior a 5 milhões de euros e um ministro da Presidência, o nosso Goebbels de Tondela, que investiu 1,34 milhões de euros numa casa em Lisboa e que, por acaso, recebeu uns benefícios no IMI (notícia CM). Como é que esta gente enriquece com os salários declarados? E pior: como é que podem perceber as dificuldades do trânsito se circulam em via privada e sempre livre?
Com o pacote laboral o problema é essencialmente o mesmo. Discute-se a flexibilização como uma arma para o aumento da produtividade. Defende-se o fim dos sindicatos para ter menos entraves ao progresso. Apresenta-se o trabalho temporário como um benefício da rotatividade laboral. E no fim, para que ninguém duvide, explicam-nos que este é o caminho para sermos a próxima Alemanha, Suécia, Dinamarca ou Bélgica. É a aposta total na desinformação, na tentativa de meter trabalhadores contra trabalhadores, pobres contra pobres. Na Suécia, por exemplo, onde trabalhei durante 20 anos, a taxa de sindicalização anda perto dos 70% e praticamente 1/3 da força laboral está no sector público. A carga fiscal é elevadíssima e o lucro é fortemente taxado. Que o diga o já falecido fundador do IKEA, que se mudou para a Suíça, esse bastião de produtividade com o trabalho alheio e sempre protetor das fortunas.
Em Portugal as reformas laborais são sempre, mas sempre, feitas pelo lado do trabalhador. É preciso produzir mais, oferecer horas ao patronato, aceitar o despedimento sem justa causa, adiar a vida à espera de um contrato sem termo. O que não é preciso, em momento algum, é exigir que a riqueza criada pelos trabalhadores vá menos para os accionistas e mais para os bolsos de quem trabalha. Ou que a carga fiscal absurda que afecta os Portugueses se converta em creches públicas, atendimento decente na saúde ou transportes públicos que funcionem. No fundo, tenta o Governo e toda a direita em geral convencer uma legião de pobres de que o problema são eles, que trabalham pouco e que os 40% que estão no limiar da miséria antes das transferências sociais devem trabalhar ainda mais porque há uma elite política e empresarial que precisa de mais lucro. Até porque, aqui e ali, há um BES bem sólido que não se paga sozinho ou uns arranjos entre governantes e construtoras que não se fazem sem um saco azul profundo.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes, gente com formação que fala inglês se não se importarem de receber amendoins a troco de trabalho. A novidade é que o "investimento externo" já está em Portugal. Não faltam multinacionais que descobriram o filão português e do quão longe conseguem chegar com 1000 euros para oferecer. Na minha área, neste preciso momento, Portugal é visto como uma opção a considerar se comparado com o investimento no Vietname. No Vietname, meus amigos! Foi aqui que chegámos ao fim de 40 anos na União Europeia.
Temos mais auto-estradas, muitos hotéis de charme e tascas gourmet. Mas continuamos pobres, governados por gente que resume o CV a um cartão partidário, sem um dia de trabalho no mundo real e que enriquece enquanto nos convence de que o problema somos nós.
Talvez Leitão Amaro e Montenegro tenham razão quando dizem que o país não precisa de greves. Talvez não. Pelo aspecto da coisa, o que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870.
A bolha da inteligência artificial (IA) continua a inchar. Os Sete Magníficos da tecnologia continuam, em conjunto com as empresas de IA, a puxar pelo mercado accionista dos EUA. As cotações das dez empresas americanas com maior valor em bolsa, detentoras de mais de 40% da capitalização do índice S&P 500, têm continuado a subir, e muito acima da subida dos seus proveitos (lucros) registados.
Os resultados mais recentes das principais empresas de “hiper-escala” (empresas de desenvolvimento de IA) norte-americanas indicam que as vendas continuam em crescimento robusto. No entanto, os fluxos de caixa livres (cash flow) são absorvidos pela despesa de capital, que está em aceleração. As empresas têm de recorrer ao leasing e endividar-se se querem continuar na corrida ao desenvolvimento da IA. No ano transacto, as empresas que investem em IA representaram 75% do rendimento obtido pelas empresas integrantes do índice S&P 500, 80% do crescimento dos lucros e quase 90% do crescimento das despesas de capital. O investimento global em infra-estruturas de IA está próximo de atingir 400 mil milhões de dólares, em 2025, e a despesa acumulada poderá passar 5 ou mesmo 7 biliões (milhões de milhões) de dólares até 2030. Aproximadamente 60% desse investimento irá para semicondutores e computadores — um nível de investimento sem precedentes para uma nova tecnologia que mal começou a ter uso comercial.
Que o investimento em tecnologia da informação seja o único motor da actividade económica dos EUA não é toda a verdade. Muito do equipamento que entra nos centros de dados é importado, havendo, por conseguinte, efeitos negativos de contrabalanço ao PIB. Mesmo assim, a “montanha de silício” continua em erupção vertical. A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870. Naquele tempo, também as ferrovias eram vistas como uma poderosa nova tecnologia capaz de transformar os transportes e as viagens e, assim, impulsionar a produtividade. Isso deu azo a uma especulação desenfreada com as acções das ferroviárias, à medida que as empresas inauguravam, umas atrás das outras, novas linhas ferroviárias pela Grã-Bretanha fora durante a década de 1840 — e, mais tarde, por todos os Estados Unidos, na década de 1870, culminando na ligação ferroviária transcontinental.
No Reino Unido, a mania atingiu o seu auge em 1846, ano em que o Parlamento aprovou 263 actos de criação de novas empresas ferroviárias, totalizando as rotas propostas 9500 milhas (15 300 km). Cerca de um terço das ferrovias autorizadas nunca se construíram — as empresas ou faliram por mau planeamento financeiro, ou foram compradas por concorrentes maiores antes de construírem a sua linha ou revelaram-se empreendimentos fraudulentos para canalizar o dinheiro dos investidores para outros negócios. Entre as décadas de 1860 e 1900, as linhas ferroviárias transcontinentais transformaram a América. Ajudaram a povoar o Oeste e, tal como na Grã-Bretanha, desenvolveram uma nova forma de empresa capitalista, a sociedade por acções, ou seja, empresas cuja propriedade e financiamento eram públicos (no sentido de ‘publicamente transaccionáveis, em mercados abertos’ — nota do tradutor). A ferrovia ajudou a transformar os EUA numa superpotência que se estendia de oceano a oceano e revolucionou a finança. Como escreveu o historiador Richard White na sua história das transcontinentais, Railroaded, “ela criou a modernidade tanto por via dos seus fracassos como dos seus êxitos”, deixando atrás de si “um legado de falências, duas depressões, prejuízos ambientais, crises financeiras e agitação social”. Para já, o boom do investimento em IA ainda não atingiu a dimensão do investimento ferroviário do século XIX, que chegou a alcançar 6% do PIB dos EUA, a comparar com, por agora, 1,2% do PIB em investimentos em centros de dados de IA e 4% do PIB em tecnologia de informação globalmente. Mas para lá caminha.
Na “ferromania”, a bolha bolsista acabou por estourar. Nos EUA, o rastilho do pânico de 1873 foi acendido pela falência da Jay Cooke & Co., primeira instituição bancária da América. Cooke, que se fizera como financiador número um do Exército da União, concordou em financiar o projecto da Northern Pacific Railway de ligar a costa do Oregon à rede ferroviária existente no Nordeste. Contudo, já não era a primeira linha transcontinental, e preocupações com excesso de capacidade, juntamente com desconfiança crescente nos títulos de dívida das ferroviárias, fizeram que os preços das obrigações da Northern Pacific caíssem. A empresa de Cooke faliu em Setembro de 1873, precipitando o pânico na bolsa de acções que acabou por originar a depressão mundial que se estendeu pela década de 1890 adentro.
Marx comentou na altura que a enorme concentração dos investimentos dos mercados de acções nas empresas ferroviárias dos EUA “deu, numa palavra, um ímpeto insuspeito à concentração de capital e também à imensa aceleração e expansão da actividade cosmopolita do capital mutuável, assim envolvendo o mundo inteiro numa rede de aldrabice financeira e endividamento mútuo que é a forma capitalista da ‘fraternidade internacional’”. Quando as acções das ferroviárias caíram, caiu o resto do mercado, abrindo-se uma recessão económica.
Na Grã-Bretanha, a bolha ferroviária rebentou por volta de 1847. Marx só analisou a bolha cerca de 20 anos depois, no volume 3 de O Capital. Chamou-lhe a “grande aldrabice ferroviária”, para salientar como tinham sido deliberadamente empoladas as promessas das empresas ferroviárias dos enormes lucros que haveria a colher. Os investidores injectaram ingenuamente capital em projectos significativamente menos lucrativos do que eles esperavam e do que os promotores e directores haviam prometido. A ferromania da década de 1840 ocorreu quando a taxa média de lucro na Grã-Bretanha estava em queda – e em queda continuou ao longo da década. Marx observou que “na aldrabice ferroviária do Verão de 1844, os investidores nas ferrovias pareceram estar à espera de uma taxa de lucro muito superior à taxa média”. Chegados a 1847, tais esperanças tinham saído furadas.
Agora estamos na mesma. Se o retorno dos enormes investimentos em IA for menor do que o esperado e prometido, o resultado será uma correcção severa no mercado de acções. Por outras palavras, o mecanismo pelo qual o rebentamento da bolha da IA poderá causar uma recessão não é o de uma baixa repentina do crescimento, mas o da não obtenção do rendimento esperado do investimento.
Por enquanto, no sector da “tech” ainda reina o optimismo. Mark Zuckerberg previu recentemente que, dentro de um ano, metade do código da Meta seria escrito por IA. Até agora, porém, a maioria das empresas pouco ou nenhum benefício está a ver dos seus investimentos iniciais. Um estudo do MIT muito citado chegou à conclusão de que, por agora, 95% dos projectos de ‘IA generativa’ não se traduzem nem em crescimento de produtividade nem em lucros. Para justificar o investimento necessário, as receitas anuais dos centros de dados teriam de centuplicar dos actuais 20 mil milhões de dólares para cerca de 2 biliões de dólares. Às receitas existentes vão faltar 800 mil milhões de dólares, segundo a Bain & Company. Mesmo contando com ganhos de eficiência esperados, a diferença ilustra quanto as cotações actuais dependem de fluxos de receitas por demonstrar. A diferença terá de ser colmatada com empréstimos e aumentos de capital.
O investimento em activos ligados à IA é cada vez mais financiado por empréstimos e financiamentos contraídos pelas empresas de IA, ao passo que os investidores em acções contraem, por sua vez, mais empréstimos para alavancar as suas apostas financeiras na IA. Os parceiros dos centros de dados da OpenAI estão a caminho de acumular quase 100 mil milhões de dólares em empréstimos para investimento nesta. O SoftBank, a Oracle e a CoreWeave contraíram empréstimos no valor de, pelo menos, 30 mil milhões de dólares para investir, e um grupo de bancos está a negociar mais 38 mil milhões de dólares para emprestar à Oracle e à construtora de centros de dados Vantage, para financiar novos locais para a OpenAI. O grupo de investimentos Blue Owl Capital e empresas de infra-estruturas informáticas, como a Crusoe, contam também com acordos com a OpenAI para o serviço de dívidas no valor de cerca de 28 mil milhões. Os credores bancários e obrigacionistas começam a ficar preocupados e estão a reforçar as apólices de seguros de incumprimento sobre a Oracle, para o caso de esta ficar incapaz de pagar o serviço da dívida.
A ex-economista-chefe do FMI Gita Gopinath calculou que um estouro do mercado de acções ligado à IA equivalente àquele em que terminou o boom das dot.com riscaria do património das famílias americanas cerca de 20 biliões de dólares, e mais outros 15 biliões no estrangeiro: o suficiente para estrangular a despesa dos consumidores e induzir uma recessão global. Contudo, vê-se desenvolver-se o argumento de que, mesmo que haja um estouro financeiro, e ainda que a essa crise se siga uma recessão, sobreviverão então as melhores empresas, e os enormes ganhos de produtividade decorrentes da aplicação da IA em todos os sectores da economia acabarão por reverter numa mudança qualitativa no crescimento da produtividade do trabalho. A produção aumentará porque a IA substituirá trabalho
humano, reduzindo os custos das empresas e aumentando a rentabilidade. Não foi o que aconteceu antes, quando, apesar de o pânico de 1873 ter causado a ruína do mercado das acções ferroviárias e uma recessão profunda, os EUA acabaram por ficar com uma rede ferroviária em todo o continente? E na Grã-Bretanha, analogamente, após a recessão do final da década de 1840, não assentou o longo boom subsequente da década de 1850, em parte, nas 6000 milhas da rede ferroviária, que foi a espinha dorsal do sistema de transportes do país e ajudou a Grã-Bretanha a manter a sua hegemonia global?
Fará a IA o mesmo pelo capitalismo americano, que actualmente enfrenta rivalidade crescente à sua hegemonia global? É bem possível que não. Basta dizer que podem os Sete Magníficos estar na mó de cima nas bolsas de valores, mas a sua vantagem tecnológica está seriamente ameaçada. No ano passado, a China lançou o DeepSeek, um modelo de linguagem de grande escala (LLM) muito mais barato, mas quase tão bom como o ChatGPT da OpenAi. E este ano, houve novos lançamentos de LLMs chineses com desempenho semelhante, mas custo muitíssimo inferior ao investido pelas empresas norte-americanas.
Os economistas tradicionais continuam divididos sobre se a IA virá a ter o mesmo impacto que as ferrovias tiveram no século XIX, ou a internet no final do século XX. O economista da Universidade de Stanford Eric Brynjolfsson prevê que a IA seguirá uma “curva em J”, com um efeito inicial de produtividade lento, e até negativo, conforme as empresas investem maciçamente na tecnologia antes de colherem finalmente os seus frutos. Só então vem o boom. Pode-se observar a curva em J no crescimento da produtividade industrial dos EUA, que caiu em meados da década de 1980 e, após a recessão de 1991, acelerou fortemente até meados da década de 2000.
Contudo, Daron Acemoglu, economista do MIT e vencedor do Prémio Nobel de 2024, argumenta que os ganhos de produtividade da IA generativa serão muito menores e levarão muito mais tempo do que pensam os optimistas da IA. Além de que as empresas de IA estão demasiado focadas no ChatGPT e noutros produtos de IA que têm pouca relevância para a maior parte dos sectores. Há quem aponte que, apesar de smartphones, redes sociais e aplicações como a Slack e a Uber, as tecnologias digitais passadas pouco contribuíram para que a economia crescesse. O ano que vem mostrará quem tem razão.
Tradução de Adriano Zilhão.
O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
O Governo prepara um pacote laboral que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha.
O chamado “Trabalho XXI” que Luís Montenegro quer impor ao país é, na verdade, um regresso acelerado ao passado mais duro das relações laborais. Sob o pretexto da modernização e da competitividade, o Governo prepara um pacote que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha. Fala-se em “flexibilizar horários”, mas o que está em cima da mesa é o aumento das jornadas, o crescimento das horas extraordinárias obrigatórias e a normalização de horários irregulares que impedem qualquer conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar.
E quando se destrói essa conciliação, destrói-se também a família. Não há família sólida quando os pais chegam sempre tarde, esgotados e ausentes. Não há natalidade sustentável quando ter filhos significa empobrecer ou perder o emprego. Não há sociedade equilibrada quando se pede às mães e aos pais que sacrifiquem o lar para salvar os lucros de alguns. O ataque aos direitos laborais é, inevitavelmente, um ataque à parentalidade e ao futuro do país.
Chamam-lhe liberdade; nós chamamos-lhe exploração.
Fala-se em “simplificar vínculos”, mas a proposta é abrir portas a contratos cada vez mais curtos e intermitentes, generalizando a precariedade a gerações inteiras. Fala-se em “reduzir encargos”, mas o que o Governo quer é baixar as contribuições para a Segurança Social, fragilizando o sistema e deixando para amanhã uma bomba-relógio que pagaremos todos, sobretudo os mais jovens. Fala-se em “adaptabilidade”, mas o objetivo real é permitir despedimentos mais fáceis e mais baratos, onde a suposta “inadequação” do trabalhador à empresa basta para o pôr na rua. Entre sorrisos liberais e discursos de oportunidade, o que está a ser preparado é um mercado de trabalho onde quem manda decide tudo e quem trabalha cala e obedece, ou perde o sustento.
O novo pacote laboral não é progresso, é uma agenda ideológica de submissão, mascarada de futuro.
Isto não é progresso. Isto é uma agenda ideológica de submissão, mascarada de futuro. E não podemos assistir calados enquanto direitos que custaram gerações de luta são rasgados em meia dúzia de reuniões de Conselho de Ministros ou em simulacros de negociação.
O país não pode aceitar que a dignidade laboral seja tratada como empecilho. Os trabalhadores portugueses já deram demasiado: salários baixos, produtividade a subir, lucros empresariais em máximos históricos. E agora querem dizer-nos que ainda é pouco, que temos de trabalhar mais horas, com menos proteção e com a vida toda posta de joelhos perante o patrão.
Pois não. Não aceitaremos.
Foi a luta coletiva que conquistou férias pagas, limite de horas de trabalho, Segurança Social, descanso semanal, contratação coletiva. E é pela mesma luta que impediremos este retrocesso. A greve geral de 11 de dezembro é o momento de dizer, claramente, que o país não se governa contra quem o constrói todos os dias, que não deixaremos que nos transformem em instrumentos descartáveis da economia. O Governo quer levar-nos ao século XIX em nome do século XXI. Aqui, agora, é o momento de travar esta marcha atrás. Quem trabalha merece respeito, estabilidade, tempo para viver e tempo para cuidar da sua família e dos seus filhos. Merece um país decente. E esse país não se pede de joelhos. Conquista-se de pé.
Dia 11, paramos para avançar. Porque os direitos não se negociam — defendem-se. Sempre.
O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, conferindo ‘peso’ ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz.
“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever. Como começar pelo princípio, se estas coisas acontecem antes de acontecer?”
A Hora da Estrela, Clarisse Lispector (1977)
Imaginar uma sociedade onde o poder não reside no trono dos reinos, nas presidências vazias ou nas secretarias cheias de burocratas pode ser uma tarefa interessante, caso seja acompanhada da necessária visão crítica. Uma das alternativas, falando simplesmente do campo da imaginação criativa, seria um poder inspirado nos avanços mais recentes da física de partículas, que reside nas sombras infinitesimais do invisível, nos fragmentos quânticos que tecem os contornos da existência. Uma alegoria possível aos humildes constituintes da matéria e do espírito humano, onde cada colisão, cada excitação fraccionária, revela forças capazes de reescrever o destino colectivo.
O poder pode, na nossa imaginação, ser qualquer coisa como a “imaginação ao poder”. Recuemos a Maio 68, em que Paris veria dez milhões de grevistas nas ruas e se convocava a imaginação como força motriz da arte, da inovação e da utopia, um hino global, em que a tomada de poder iria varrer as estruturas rígidas, burocráticas e opressivas da sociedade, governos, capitalismos e hierarquias tradicionais. Ficou, no seu tempo, como um manifesto para que a “criatividade liberte e governe”, transformando o mundo num palco de possibilidades infinitas, em vez de uma prisão de regras. Que partículas desse poder ficariam no ar, mesmo na perspectiva surreal, quase seis décadas depois? Um poder em partículas, que poderia então emergir das profundezas do cidadão e guindá-lo à categoria superior das possibilidades, num vislumbre para além do véu da realidade podre, desenhada pelos atores pífios que conhecemos hoje, particularmente no hemisfério norte.
No universo da física quântica, teoria fundamental desenvolvida na década de 70 do século passado, descrevem-se as partículas elementares da matéria, onde existe um campo que é responsável pela massa dessas partículas. O campo de Higgs é invisível, embora funcione como agregador de todo o espaço, onde as partículas elementares ganham massa ao interagir com este campo e oferecem resistência ao movimento, ou seja, quanto maior a interacção de uma partícula com o campo, maior é a "resistência" ao seu movimento, ganhando mais massa, e onde as partículas que interagem menos têm menos massa. A aparente complexidade do conceito pode ser adaptada ao tecido social, uma espécie de campo de Higgs relacional onde nos movemos. Alguns indivíduos interagem com intensidade com esse campo, sabemos quem são e como se comportam, líderes, comunicadores, "influenciadores", que vão adquirindo “massa social” na sequência das suas interacções. Essa “massa” não é obviamente um atributo intrínseco, mas um fenómeno relacional, constituindo uma arquitetura da legitimidade, conferindo poder em estruturas duradouras, concedido aliás pelo campo social em que se está inserido. O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo, conferindo “peso” ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz. Sem a interacção com esse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, o poder seria apenas um potencial, uma partícula sem massa correndo à velocidade da luz, mas incapaz de formar estruturas duradouras. Portanto, o poder é concedido pelo campo social em que se está inserido.
As questões do poder e do direito foram exploradas ao longo dos tempos. Por exemplo, o “direito” que prevalece não é necessariamente o mais justo ou verdadeiro, mas aquele que é sustentado pela partícula de poder mais eficaz naquele contexto. Para o filósofo inglês do século XVII, Thomas Hobbes, o poder, original ou natural e instrumental, não é absoluto por depender do reconhecimento de outrem, mas sim uma “concorrência” entre inúmeras partículas de poder para impor a sua versão do "direito". Já para o escritor e cientista alemão do século XVIII, Johann von Goethe, a origem do direito está na tradição e na herança do poder institucionalizado. O autor de Fausto, diz, pela boca de Mefistófeles, que o direito não é uma questão de justiça inerente, mas sim das regras que o poder conseguiu impor e fazer passar por legítimas ao longo do tempo. Goethe afirma de forma clara que o "direito" é uma construção do poder e não um princípio moral universal. Para Marx e Engels, o poder de classe baseado na economia sempre esteve concentrado e a aparente dispersão na superfície política e mediática esconde uma concentração sem precedentes de poder económico e tecnológico. O que afirmaram e defenderam mantém, ainda hoje, uma coerência notável. Se os pudéssemos consultar, possivelmente nos diriam que a solução não é celebrar a fragmentação do poder em partículas, mas superá-la através da organização consciente da classe trabalhadora para conquistar o poder real e efectivo. É mais, pela lógica das suas teses, que a narrativa do empoderamento individual através da tecnologia, que poderia ser vista como uma nova forma de falsa consciência, onde a pessoa acredita que está conquistando poder, enquanto permanece estruturalmente subordinada ao capital, ou seja, uma perfeita ilusão da emancipação individual.
Sabemos hoje que a matéria visível, estrelas, planetas, todos nós, compõe apenas cinco por cento do universo. O resto é matéria e energia escura, que não emite luz, mas cuja gravidade e pressão regem as leis do universo. Pelo mesmo diapasão se rege a maior parte do poder real. Que é, na maior parte das situações, "obscuro" e reside em acordos não escritos, em inter-relacionamentos de bastidores, em enviesamentos culturais inconscientes, que são a matéria escura que estrutura um sistema onde parece existir uma energia submersa em narrativas hegemónicas, forças expansivas e invisíveis, como o algoritmo de uma rede social ou a corrente subterrânea da opinião pública, que determinam o que é pensável e o que é inquestionável, sem nunca se revelarem completamente.
Restará provavelmente nesta alegoria definir o indivíduo como uma partícula de poder. É o que fazem os novos doutrinadores burgueses, os burocratas que utilizam o poder como castrador de consciências, pretendendo suprimir (e mesmo eliminar) a crítica e o pensamento livre. São os partidários de uma “democracia” que nos diz que a nossa voz, o nosso voto, a nossa participação online podem, em conjunto com outras partículas, gerar um "direito" novo. São os mesmos que incentivam o consumo e o “encarceramento” das pessoas em “centros especiais”, como os comerciais, onde parecemos ser iguais, uma ilusão falsa e enganadora. Hoje, a luta pelo poder já não é apenas controlar um trono ou um reino. É, acima de tudo, controlar uma narrativa, um algoritmo, as normas sociais e a atenção das pessoas. Nesta nova frente de luta, o aforismo de que a força (militar, económica, social ou algorítmica) define a legitimidade permanece terrivelmente verdadeiro, actuando de uma forma infinitamente mais complexa e subtil. O poder em partículas é uma metáfora que não invalida o aforismo. Pelo contrário, amplifica-o e complexifica-o. Os pequenos poderes, pulverizados, distribuídos e atomizados em inúmeras "partículas", representam hoje obstáculos visíveis e influentes na “resistência” às mudanças sociais e devem ser combatidos, em favor dos processos libertadores e revolucionários, para a construção programada e organizada da sociedade sem amos.
*Alfredo Soares-Ferreira, escritor e cronista, é licenciado em Engenharia de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Atualmente aposentado, foi professor do ensino secundário, profissional e superior.
Apesar de sabermos que qualquer universo distópico se traduz num cenário imaginado de uma região, país ou sociedade, sabemos igualmente que ele representa o caos, a injustiça, a desigualdade, a opressão, o sofrimento, a tirania ou o totalitarismo. Nesse ambiente indesejável prevalecem o desamparo, a amargura, a angústia, o desespero, o autoritarismo, ou seja, é um sistema que restringe a liberdade, a autonomia e anula a subjetividade. A distopia pode funcionar como uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. As pessoas sentir-se-iam isoladas e sem capacidade para resistir, sem força para se opor. A distopia caracteriza-se, ainda, por possuir múltiplas formas de poder, dominação e controlo, as quais se manifestam, por vezes, de formas visíveis, outras vezes, por meios subtis. Em resumo, um universo distópico idealiza um mundo profundamente desigual, maléfico, doente, alienado e castrador. Porém, uma conjuntura distópica pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica para tudo aquilo que não queremos vivenciar ou experienciar.
Por oposição, a utopia representa o inverso, isto é, traduz-se naquilo que seria uma sociedade ideal, perfeita, harmoniosa, justa e desejável. É um lugar em que predomina o bem-estar, a igualdade, a ausência de pobreza ou de miséria social, e materializa-se num sistema de governo benevolente (ou até mesmo na ausência dele, embora mantendo o funcionamento da sociedade de forma organizada, equitativa e pacífica). As sociedades utópicas caracterizam-se por promover: 1) a cooperação e o coletivismo (entre todos os membros da sociedade); 2) a elevação de valores éticos e morais (em que o respeito, o bem-estar social e a liberdade de expressão são, efetivamente, valorizados); 3) a educação, a ciência, as técnicas e a tecnologia (as quais são totalmente direcionadas para o bem-comum, isto é, são unicamente utilizadas para benefício de toda a humanidade e representam um património que intrinsecamente lhe pertence, fruto do conhecimento passado de geração em geração); 4) a harmonia social e ambiental (é obrigatório manter uma relação equilibrada do Homem com a natureza). Resumidamente, uma sociedade utópica é uma sociedade progressista, emancipatória e humanista. O termo original foi criado por Thomas More, no seu livro Utopia (1516), cujo significado é, literalmente, "lugar nenhum" (originário do grego ou = não, e topos = lugar), que nos remete para um ideal inalcançável. Metaforicamente, é como se caminhássemos para tentar alcançar o lugar mais distante na linha do horizonte (mas, simultaneamente, quando mais caminhamos, novos lugares vão surgindo no nosso campo de visão).
Na realidade, os dois conceitos, distopia e utopia, tal como já referido, remetem-nos para sociedades imaginárias. Porém, atualmente, estamos submersos em sociedades que parecem mais próximas de poderem ser consideradas distópicas do que utópicas. Um elemento-chave que ajuda a compreender este fenómeno é o facto de vivermos em sociedades-do-lucro-omnipresente-e-omnipotente. Nesta conjuntura, o Homem deixou de ser um fim em si mesmo (Kant teria rejeitado essa visão utilitarista e instrumental do ser humano) e esse lugar passou a ser ocupado pelo “deus lucro”. Porém, isso representa uma extraordinária (e inaceitável) inversão de valores sociais e morais.
Os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza.
É verdade que os problemas sociais, económicos, políticos e ambientais do mundo hodierno são complexos e estão profundamente interligados. Não raras vezes, estes tópicos são exacerbados pelo processo de globalização, incluindo todas as suas contradições. Um dos paradoxos mais evidentes na atualidade é pautado pela relação (desestruturante) entre capital e trabalho, embora vá muito além dela. A título ilustrativo, enumeramos alguns exemplos de problemas marcantes vividos no mundo contemporâneo, nomeadamente ao nível das desigualdades económicas e sociais: os dados atuais demonstram que os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza. As três maiores fortunas do mundo possuem um montante superior ao PIB de quase 60 países mais pobres. Isto significa que vivemos num mundo em que reina a injustiça social e se reproduz uma atroz assimetria na distribuição dos recursos produzidos, por via do trabalho, através da classe trabalhadora. Paralelamente, as últimas estimativas revelam que mais de 200 milhões de trabalhadores vivem na condição de pobreza extrema, ganhando o equivalente a, aproximadamente, 2 euros por dia. Sublinho que estamos a falar de trabalhadores, ou seja, alguém que trabalha, mas, ainda assim, não consegue sair da pobreza extrema. Apresento, como exemplo, um episódio real relatado por Vincent Gaulejac, na obra La société malade de la gestion, o qual indica que um empresário de uma multinacional recebeu 16,2 milhões de euros por ter tomado a decisão de encerrar 38 lojas dessa empresa e, consequentemente, enviado para o desemprego centenas de trabalhadores. Este montante, auferido devido a um único ato de gestão, representa o equivalente a mil anos de salário médio dos trabalhadores que foram demitidos. Surpreendentemente, o mesmo empresário, referiu que não se sentia bem pago para exercer aquela “tão dura profissão”. Vale a pena interrogarmo-nos: qual o valor que atribuímos ao trabalho para sustentar uma tão grande discrepância de rendimentos? Como podemos explicar e justificar esta insanidade, sem a apelidar como algo profundamente distópico?
Segundo os dados de um relatório recente da OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho. Também dados recentes indicam que o desemprego global se cifra em cerca de 210 milhões de trabalhadores desempregados. Isto representa uma verdadeira hecatombe social, política e económica. É igualmente pertinente referir que, ao nível global, as disparidades no acesso à educação, aos serviços de saúde, à habitação, à quantidade e qualidade da alimentação (fome e/ou má nutrição) e a empregos decentes são gritantes e evidentes. Por vezes, muitos destes aspetos têm como pano de fundo as diferentes formas de violência, cujo expoente máximo está normalmente associado aos conflitos armados, ou ainda a situações oriundas de crises ambientais e alterações climáticas.
Em relação a este último ponto, vale a pena ler o relatório da Oxfam International, publicado em outubro de 2025, cujo título é expressivo: “Saque Climático: como poucos poderosos estão a levar o planeta ao colapso.” Neste documento, é afirmado que o grupo dos 0,1% mais ricos do planeta polui, em apenas um dia, mais do que uma pessoa dos 50% mais pobres durante um ano inteiro. É também defendido que a crise climática é uma crise de desigualdade. Estes são alguns traços que nos levam a sugerir que o mundo atual está mais próximo da distopia do que da utopia.
Segundo a OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho.
Agora, imaginem que num futuro próximo seria criado um parlamento global. Esse órgão político transnacional estava a discutir uma legislação que iria proibir todas as formas de exploração entre seres humanos. Anteriormente, já tinham sido dados passos significativos nesta direção, considerando que há uns anos os lucros das empresas (que maioritariamente iam para os bolsos dos acionistas ou proprietários) não poderiam agora ultrapassar a margem de 5% do lucro total. Uma parte dos restantes 95% dos lucros era distribuída, equitativamente, por todos os trabalhadores da empresa e, a outra parte, era alocada para o Estado Providência do respetivo país. Naturalmente que neste novo modelo não existia a possibilidade de rutura ou de falência da segurança social. O desemprego era igualmente proibido, visto que o trabalho que cada um executa representa aquilo que cada trabalhador pode oferecer ao bem comum. Ninguém é tido como “inútil”, porque a existência e a dignidade não estão associadas à capacidade de produzir. Uma sociedade de pleno emprego, deste ponto de vista, traduz-se no limite máximo da qualidade de vida dessa mesma sociedade. Porque a divisão social do trabalho é justa e equitativa. Claro que haveria pessoas que não trabalhavam (no sentido estrito do termo), não porque não quisessem, mas porque, efetivamente, não podiam! Imaginem também que o mesmo parlamento global fazia a promoção plena da paz mundial e proibia todo e qualquer tipo de guerra armada. A fome, a pobreza e a exclusão social eram igualmente proibidas.
Estes tópicos direcionam-nos para aquilo que hoje designaríamos como uma sociedade utópica. A eliminação das desigualdades tinha sido possível porque as populações tinham compreendido, verdadeiramente, o que tinha estado na base da sua génese (para isso evocamos as sábias palavras de Jean-Jaques Rousseau sobre a origem das desigualdades humanas): “O primeiro [Homem] que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado o género humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!”
Para terminar, peço-lhe que recorra uma última vez à imaginação e faça a seguinte experiência mental: pense que está no cenário idealizado por John Rawls, desiganado por “véu da ignorância”, ou seja, não sabe antecipadamente qual será a posição social que lhe irá caber, quais serão as suas capacidades e aptidões naturais, qual será a sua identidade (em termos de género, etnia ou orientação sexual), nem quais serão as suas crenças religiosas, filosóficas ou até as metas de vida. Perante este contexto idealizado e ignorando totalmente as características em que seria colocado no mundo, caso tivesse de fazer uma escolha, escolheria viver numa sociedade distópica ou utópica?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
Na semana passada, o governo direitista de Portugal, pressionado pelo partido de extrema-direita fascista Chega, conseguiu pôr termo à possibilidade de imigrantes dos países dependentes virem trabalhar para Portugal. Até agora, era possível a muitos estrangeiros entrarem com um visto de turista e depois “manifestarem interesse” em trabalhar, acabando por obter autorização de residência. Agora, os imigrantes potenciais passam a ter de candidatar-se, nos seus países de origem, a vistos para trabalhar. Mas vejam só: a regra não é aplicável a candidatos a empregos “altamente qualificados”. Profissionais estrangeiros com “qualificações avançadas” continuam a poder entrar em Portugal para procurar emprego e trabalho desde que sejam contratados antes de o visto expirar. Analogamente, os trabalhadores “remotos” continuam a ser elegíveis para viver e trabalhar em Portugal.
As novas leis são notoriamente discriminatórias contra os imigrantes pobres dos países dependentes do Sul. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso? As estatísticas da Comissão Europeia indicam que a mão de obra migrante não enfraqueceu a economia portuguesa; fortaleceu-a! “800 mil imigrantes contribuem com mais de mil milhões de euros para o sistema de segurança social, ao passo que só recebem aproximadamente 257 milhões de euros em benefícios sociais, deixando um saldo positivo de mil e seiscentos milhões de euros”.
Há várias décadas que magotes de jovens deixam Portugal em busca de melhores oportunidades económicas noutros países da UE. Nos últimos anos, indianos, nepaleses e bengalis colmataram a lacuna deixada na força de trabalho portuguesa. Vêm trabalhar para explorações de frutos vermelhos no Alentejo agrícola. “Nós deixámos o nosso país. Jovens portugueses têm deixado o seu. Há quem não goste que nós cá estejamos, mas somos nós que estamos a revitalizar esta região e a fazer entrar cá muito dinheiro”, diz um trabalhador nepalês sob anonimato. “A razão principal por que Portugal tem visto aumentar o número de imigrantes é porque precisa deles”, diz Luís Pinheiro, ex-diretor da Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA). O sector agrícola português continua em expansão rápida, particularmente devido à procura cada vez maior de frutos silvestres, que depende principalmente de trabalhadores da Ásia Meridional. Em 2023, as receitas de exportação de bagas atingiram quase 300 milhões de euros, sendo a maioria enviada para supermercados alemães e britânicos. “Portugal tem uma grande procura de mão de obra em certas áreas de atividade económica, e estes migrantes continuam a chegar porque há procura de mão de obra”. Longe de ser abuso, a imigração tem sido um trunfo essencial para a economia portuguesa, particularmente em sectores-chave da agricultura e da indústria do lazer, assente em salários baixos, que correspondem a empregos que os cidadãos portugueses resistem a procurar, por os salários serem muito baixos. O atual salário mínimo é de apenas 820 euros por mês, que mal deixa a quem trabalha o suficiente para sobreviver. Depois de custear o alojamento, as dívidas e o envio de dinheiro para a família, muitos trabalhadores imigrantes ficam com apenas 100-150 euros por mês. Muitas destas aldeias e vilas ficam longe das cidades, no Alentejo, o que torna mais difícil documentar violações de direitos humanos e laborais. Muitos suportam condições extraordinariamente difíceis. “É uma espécie de militarização do trabalho. Tens de obedecer a tudo, mesmo que seja a coisa mais estúpida que se possa imaginar. Se trabalhas 12 horas, devias receber pagamento de horas extraordinárias; mas eles pagam apenas 6,50 euros e ainda queriam mais horas. Isso era para os trabalhadores permanentes. Imagina agora para os temporários”, diz o ativista laboral do Alentejo Alberto Matos.
Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia.
Shollomian, de Sylhet, no Bangladeche, que veio para Portugal com um visto de turista, trabalha numa quinta de frutos vermelhos em São Teotónio. Diz que trabalha entre 8 e 12 horas por dia, começando às 5-6 h da manhã. Foi-lhe dito que receberia uma autorização de residência no prazo de 12 a 14 meses, mas, 24 meses passados, continua à espera. Apesar disso, envia 100 a 400 euros à família sempre que pode e está otimista. “Vim para Portugal há dois anos quando vi anúncios de trabalho em Portugal nas redes sociais. Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia, em condições difíceis. Ganho 50 euros por dia. Temos de colher oito quilos por cada quatro horas. É dificílimo, na quinta faz muito calor, não nos dão água, às vezes sangro do nariz. Não nos dão comida, temos de trazer a nossa. Envio por mês 230-450 euros para a família, no Nepal. Ao fim de dois anos, continuo sem autorização de residência.”
“Há, atualmente, pelo menos, 400 mil pessoas, na sua maioria migrantes indianos e nepaleses, que aguardam renovação das suas autorizações de residência. Encontram-se numa situação muito vulnerável, porque os empregadores aproveitam-se. Não podem perder o emprego, por isso têm de aceitar todas as exigências dos empregadores”, afirma a Dra. Alexandra Pereira, bolseira de pós-doutoramento na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, especializada em migração nepalesa, particularmente para Portugal e a Europa.
A situação dos sul-asiáticos é perigosa, pois estão mais à mercê dos traficantes e das máfias que os trazem para Portugal e da exploração dos empregadores. No Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, há muitas agências que continuam a burlar e a lucrar à grande com os recém-chegados e migrantes com documentação insuficiente, convencendo-os a comprar serviços de que não precisam e fazendo-lhes crer que ainda é possível legalizarem a sua situação.
Ao fechar a porta à legalização, o Governo abriu o mercado negro de mão de obra humana. Muitos trabalhadores chegam profundamente endividados, depois de pagarem quantias exorbitantes para virem a Portugal com vistos de turista, de trabalho ou vistos UE expirados. Alberto Matos diz que os migrantes lhe contam que “bem, eu paguei 15 a 20 mil euros, na Índia, para vir trabalhar para Portugal. Eles endividam-se, têm de pagar as dívidas anos a fio, ficam escravos da dívida. As próprias famílias, no país de origem, são obrigadas a pagar a dívida e são ameaçadas pelas máfias locais”.
De acordo com a direção da Migração e Assuntos Internos da Comissão Europeia, “observou-se que a maioria das vítimas confirmadas de tráfico se enquadravam no tráfico de seres humanos para exploração laboral (72,8%); desses, 73,2% no sector agrícola”. As estatísticas são especificamente piores no Alentejo, onde se contaram 51,7% das vítimas confirmadas de tráfico de seres humanos em Portugal entre 2008 e 2021; dessas, 74,5% traficadas para fins de exploração laboral. “Devido à enorme extensão geográfica dos locais onde são colocados para trabalhar, geralmente no interior da região do Alentejo ou no Oeste do país, com condições de acesso difíceis, a deteção pelas autoridades responsáveis pela supervisão das condições de trabalho e permanência em Portugal é difícil.”
As grandes empresas frutícolas estão no âmago da situação. Como afirma Matos, “a Driscoll's controla Odemira inteira. Vendem as patentes e, pelo meio, há uma grande exploração. No fim da linha, dizem: ‘façam o favor de nos darem os frutos vermelhos, nós é que sabemos comercializá-los nos mercados internacionais.’ Costumamos dizer que a região de Odemira é uma espécie de barriga de aluguer da Driscoll’s.” Se há “abuso de hospitalidade”, como clama o primeiro-ministro Montenegro, quem abusa não são os imigrantes, são os empregadores.
Não tarda nada que gente como o Chega venha exigir a deportação de milhares de trabalhadores para os seus “países de origem”. Só que a situação económica e política no Bangladeche e no Nepal é horrenda. O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, embora o estilo de vida luxuoso das famílias políticas — roupas de marca, viagens ao estrangeiro e carros de luxo — contraste com a dura realidade que os jovens enfrentam. “Toda a gente se quer ir embora [do Nepal]. Há poucas oportunidades de emprego, crises políticas e económicas constantes; os jovens querem encontrar uma vida melhor, salários mais altos: as pessoas ganham 200 euros por mês.” Acrescem agora perigos reais. No mês passado, o governo do Nepal caiu e houve um golpe militar. A polícia matou 22 pessoas num protesto contra a corrupção.
A situação não é melhor no Bangladeche, país muitíssimo povoado. Há cerca de 37,7 milhões de pessoas em insegurança alimentar no país. Mais de um quarto das famílias endividam-se para suprir necessidades diárias, incluindo comida. Um inquérito do think tank South Asia Network on Economic Modeling mostrou que 28% das famílias recorrem a empréstimos para sobreviver. Quase duplicou o número médio de empréstimos por família. No ano passado, o exército e a polícia mataram mais de trezentas pessoas envolvidas em protestos contra o governo, até que a então primeira-ministra Hasina fugiu do país, levando milhares de milhões na bagagem.
Assim, as 400 mil pessoas que aguardam a renovação dos vistos não têm maneira de voltar para casa, ao contrário dos muitos portugueses que deixaram o seu país em busca de uma vida melhor e empregos melhores, mas podem regressar. Portugal precisa destes imigrantes, geralmente jovens e industriosos, e da sua mão-de-obra (e das suas receitas fiscais) para contribuir para sustentar quem vive no país. O que é necessário não são controlos de imigração rigorosos, enviesados contra os asiáticos pobres, nem deportações, que muito debilitariam a economia portuguesa. Necessário é que trabalhadores portugueses e imigrantes façam campanha juntos, com os sindicatos, para acabar com a exploração dos trabalhadores migrantes, aumentar o salário mínimo e melhorar as condições de trabalho para todos. Enquanto forem obrigados a trabalhar por salários baixos e em condições precárias, os trabalhadores imigrantes prejudicam a capacidade negocial de todos os trabalhadores em Portugal. É com este “abuso de hospitalidade” que temos de acabar, não aumentá-lo.
"André, trocaste a palavra. É circuncidar e não cicatrizar."
Os tachistas oportunistas #2
A deputada do Chega Cristina Vieira continua silenciosa desde que foi eleita por este partido. A vida de deputado tem destas coisas. Há os que falam para dentro como papagaios e há aqueles que não podem falar nem para dentro, nem para fora, porque o líder os impede de abrir a boca. É que o chefe Venturão trata os seus deputados como números decimais e só ele tem direito a dizer as mentiras mais palpitantes. No outro dia, Cristina Vieira ficou estupefacta quando o chefão, pedindo a palavra no parlamento disse: “Temos de cicatrizar a sociedade portuguesa e podemos começar já pelo almirante Gouveia e Melo, que nasceu em Moçambique e teve uma ama muçulmana que usava burka e lhe lia o Corão.” Cristina Vieira riu-se para dentro dos seus ossinhos, mas soprou logo a palavra justa a um deputado com gosma que logo a lançou ao gordo Pedro Pinto que transmitiu sorrateiramente: “André, trocaste a palavra. É circuncidar e não cicatrizar.” Esta tolice provocou um riso geral no parlamento e até a barata Elvira, que é locatária há vinte anos da Assembleia da República, se mostrou a rir.
Cristina Vieira, antes de ser deputada pelo Chega, foi outra pessoa. Conhecia-a quando ela ia a umas noturnas tertúlias culturais em Sintra, de gente jovem, simpática, culta e de esquerda. O local de encontro, lembro-me, era num café muito perto do centro. Fui lá várias vezes e até me convidaram uma vez para apresentar um livro, e foi assim que a conheci. Ela estava muito bem integrada nesta marginalidade sorridente e tolerante. Todos sabiam que era médica e participava muito nos debates. Qual não foi o meu espanto e o espanto dos nossos amigos de Sintra quando a descobrimos deputada na Assembleia da República pelo partido Chega! O que te aconteceu, Cristina? Endoideceste ou foste à procura de um tacho fácil como os teus colegas de bancada? Saiu-te a lotaria, confessa. Já agora, diz-nos: porque é que estás com esses incultos, tu que leste Philip Roth, Orhan Pamuk, Garcia Márquez, Vargas Llosa, Elena Ferrante, e outros? Ao menos diz-nos o que te aconteceu.
Mas agora já não há remédio. Ultrapassaste as linhas vermelhas da decência, da ética e da responsabilidade cidadã e estás no meio dos monstros. Só te resta um caminho: sair. Renegar a aVentura: suja, odiosa, bárbara, falaciosa, fascista.
Nas últimas eleições autárquicas, Cristina Vieira Henriques candidatou-se à Câmara de Óbidos e perdeu. O Chega recolheu 705 votos e não teve nenhum mandato.
Este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem.
Candidato do Chega à União das Freguesias de Sé e São Lourenço em Portalegre, este alentejano acalorado mostrou-se uns dias antes das autárquicas muito despido, mostrando o rabo e simulando fazer sexo com outro homem. Estas poses eróticas e narcísicas foram divulgadas pelo Correio da Manhã e parece que localmente tiveram repercussão, pois o esbelto do Chega obteve 492 votos e um mandato. É caso para se dizer: mostra-te como és e serás recompensado.
Só que há um mas. Luís Portilheiro, que é licenciado em Psicologia, trabalha no Centro Distrital de Portalegre e é interlocutor em programas de colónias de férias, famílias de acolhimento e da Associação Ser Criança. É também responsável por programas ligados à infância, à deficiência e à proteção de crianças em risco. Perguntamos só isto: se fosse alentejano, confiaria a sua criança a um chegadinho destes?
Vivemos, argumenta o autor, “o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos” porque “os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário”.
Das quatro, uma: ou será Presidente um homem sem ideias, defensor da guerra (os filhos dos pobres, claro, esses é que serão enviados para combater em nome do “interesse nacional”, qual?), um militar “perito em generalidades”, como bem disse António Filipe, ou, muito pior e sempre pior será elegermos como Presidente André Ventura, o qual representa o pior da educação em Portugal. O duce do cheguismo, o oportunista das benesses que a democracia lhe deu (desde a tese de doutoramento ao seu lugar como deputado) é o espelho fiel da falência educativa em toda a sua extensão. A ser eleito, ou a passar à segunda volta, o facto será este: Portugal está profundamente doente. Doente de alienação, de estupidez, de ressentimento, de raiva e de ignorância. Ventura, o usurpador, aproveita-se da indigência dos políticos actuais, da cobardia dos que, com poder e saber, deveriam enfrentá-lo: políticos independentes, intelectuais empenhados na defesa da democracia, gentes (que ainda as há!) apostadas em não deixar passar nem mais um facínora fascista.
André Ventura, a ser Presidente, será o inimigo número um dos Portugueses, não tenhamos dúvidas. O mais irado e demagogo político português é, na senda dos fascistas de boa cepa – um Mussolini, um Franco, um Trump –, um mentiroso compulsivo, um manipulador da juventude profundamente desconhecedora da nossa história. Explora como nenhum outro a pobreza deste país de baixos salários; mente sobre a questão dos ciganos, dos negros e dos desvalidos de uma sociedade pobre, a nossa; mente sobre os imigrantes, espoliados da sua dignidade, vítimas da exploração no Alentejo e no Douro, no Algarve e em Lisboa e no Porto. Quando foi que nos tornámos vampiros e racistas, preconceituosos e hipócritas como Ventura?
Ventura mente sobre o contributo destes povos explorados em Portugal. Basta perguntar: sem eles como estaria a nossa Segurança Social? Sem eles, quem andaria nas motas, noite dentro, servindo pizas? André Ventura é alguém absolutamente nocivo para o país. Pelo ódio que destila, pela ignorância que manifesta quanto às funções presidenciais. Como modelo de comportamento e de valores (que os não tem), André é um veneno letal: que exemplo é o seu como deputado, líder de um partido, candidato seja ao que for? Em boa verdade, as gerações que têm hoje entre os 15 e os 25 anos, que vêem em Ventura? Nada mais do que isto: o rosto da raiva que eles, jovens, sem expectativas e roubados de todos os ideais, fazem seu. É triste que Abril seja traído em Janeiro e sejam os jovens, mas também muitos reformados e pensionistas, muitos desempregados, a pensar que uma dor de cabeça se cura cortando a cabeça. É triste e é sintomático.
Portugal é hoje um território que se encaminha, a passos largos, para um modo trumpista de viver, violento e acrítico.
Vivemos, portanto, o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos porque, aburguesados, europeizados no pior sentido, ou americanizados em sentido ainda pior; educados, primeiro pelas televisões e de há anos a esta parte pela tentacular ditadura das redes sociais, os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário. Pais e mães não são os principais educadores dos mais jovens, mas sim as fake news, o circo montado no sistema educativo que, das escolas às universidades, permite que a indigência, a boçalidade, a incuriosidade e a ignorância grassem um pouco por todo o lado.
Tenho dito e escrito, repetido sem cessar (e não estou isolado nessa constatação): Portugal, dominado por um sistema multimediático que estupidificou e infantilizou os adultos e bestializou os mais novos (a Geração Millenium, a Geração Z), é hoje um território que se encaminha, a passos largos, para um modo trumpista de viver, violento e acrítico. Estamos a poucos anos (dois, três?) de nos tornarmos ingovernáveis. Os factos sociais confirmam-no: violência doméstica, violência nas escolas e universidades; corrupção no seio do Governo (Montenegro evitando uma CPI); crimes de colarinho branco, ingerência do MP, verdadeira máquina torcionária de governos legítimos, redes de tráfico humano; a acelerada degradação da imagem e símbolo do Presidente da República; uma juventude indigente, brutalizada, insensível, sem leituras, sem saber escrever, sem saber, de facto, ler e interpretar a realidade.
Mas… e Marques Mendes e Cotrim? É fácil: Farão a tão almejada revisão da Constituição de 1976, trairão o 25 de Abril e não terão quaisquer complacências: liberalizar, flexibilizar as leis do trabalho, facilitar o despedimento colectivo sem justa causa, impedir as greves, asfixiar a democracia e estar ao serviço dos senhores da guerra (a NATO e o directório Berlim-Bruxelas), eis o que prometem Marques Mendes e Cotrim, tudo em nome de um neoliberalismo de alpaca. Cotrim, com ar sorridente e impante de vaidade, e Mendes, no seu ar de sacristia, só nos levam a um lugar: à cepa torta e à conivência com a direita fascista que o PS, diga-se, na sua política de tolerância, deixou passar. Jorge de Sena, em 1974, perguntou: “E agora, Portugueses?” Perdemos a coragem e a lucidez?
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Ao aprovar a Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) está a conceder-se ao Governo a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas.
A Proposta de Lei n.º 17/XVII/1.ª (GOV) autoriza o Governo a aprovar um regime jurídico que regula determinados aspectos da organização do tempo de trabalho dos trabalhadores móveis em actividades de transporte rodoviário e a transpor para a ordem jurídica interna várias directivas.
Votaram a favor PSD, Chega, PS, CDS-PP e JPP. Votaram contra PCP, BE e Livre.
O que é que isto significa e em que se traduz, afinal, na vida dos motoristas?
O órgão legislativo competente para legislar sobre estas matérias seria o Parlamento, só podendo estar cometida ao Governo se for, como foi, aprovada a lei de autorização legislativa a que nos referimos supra, o que, desde logo, permite a aprovação num lapso de tempo muito mais curto e sem ser objecto de discussão entre as mais diversas forças políticas.
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho
Por outro lado ainda, ao se aprovar esta lei de autorização legislativa, o que se está a conceder ao Governo é a possibilidade de legislar, sozinho e sem vozes dissonantes, no sentido de um aumento do tempo real de trabalho dos motoristas, como, aliás, sucedeu.
Entre as medidas constantes do decreto-lei proposto constam as seguintes regras:
a) Artigo 20.º
Tempo de disponibilidade
O tempo de disponibilidade não é considerado tempo de trabalho. Refere-se a períodos não correspondentes a períodos de pausa ou de repouso, durante os quais o trabalhador móvel não é obrigado a permanecer no seu posto de trabalho, mantendo-se, no entanto, disponível para responder a eventuais solicitações no sentido de iniciar ou retomar a condução ou de efetuar outros trabalhos relacionados com a atividade de transporte rodoviário. São ainda considerados tempos de disponibilidade, nomeadamente, os períodos durante os quais o trabalhador móvel acompanha um veículo embarcado num ferry-boat ou transportado de comboio, bem como os períodos de espera nas fronteiras ou devido a restrições à circulação. Para os trabalhadores móveis que conduzem em equipa, o tempo passado ao lado do condutor ou num beliche durante a marcha;
b) Artigo 21º
A duração do trabalho semanal dos trabalhadores móveis, incluindo trabalho suplementar, não pode exceder 60 horas, nem 48 horas em média num período de quatro meses. Por instrumento de regulamentação coletiva de trabalho, o período de referência previsto no número anterior pode ser aumentado até seis meses.
c) Artigo 22º
Não é considerado trabalho nocturno o tempo de disponibilidade.
Ou seja, e dito de outra forma, os partidos que aprovaram a lei de autorização legislativa aprovaram também o conteúdo do decreto-lei que lhe estava anexo e do qual constam, entre outras medidas gravosas, as que aqui são referidas.
*A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.
As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.
Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.
O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.
No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).
O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.
Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.
Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.
É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.
É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.
Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.
Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.
O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.
O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.
Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.
Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.
Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.
Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.
A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.
Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.
Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).
Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.
Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.
É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.
Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.
Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.
A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.
Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.
Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.
A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.
The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.
E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.
Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”
Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.
“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.
“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!
O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.
Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.
É impossível não recordar 2012 e a troika.
Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”
Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).
O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.
Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.
Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.
Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!
Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.
Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo, o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes e gente com formação que fala inglês sem se importar de receber amendoins a troco de trabalho. Do que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
Há duas formas, relativamente simples, de se perceber a importância da greve geral. A primeira é, obviamente, assistir ao raro acordo entre a UGT e a CGTP. Quando até os sindicatos afectos ao PSD (TSD) se juntam à luta, é porque o ataque é grande. A outra, que também não exige um olho propriamente treinado, é ver as voltas do cata-vento Ventura que passou, em poucas semanas, de opositor a promissor sindicalista. Ainda o Frazão, lá de cima da janela da Assembleia da República, insultava os manifestantes e já o Ventura, percebendo a onda que cativava a opinião pública, se juntava nas críticas ao governo. Às vezes, muito secretamente, desejo que o Andrezito chegue a presidente deste nosso rectângulo. Seria a sentença de morte daquele partido unipessoal que carrega todas as ambições de um homem profundamente frustrado. Para não lhe chamar outra coisa, já que este é um jornal de respeito.
Leitão Amaro foi, para mim, a estrela do dia no papel de Goebbels de Tondela. Excelente na propaganda e na tentativa de despejar uma narrativa para os jornais do dia. Disse ele que o "país escolheu trabalhar" e que a adesão à greve era praticamente residual. Entretanto, as imagens de ruas e avenidas do país, atafulhadas de gente, saltavam de mural em mural. Há uma fotografia exposta no "bunker de Berlim", um museu imperdível, onde se mostra uma montagem de Goebbels transformando uma parada de uns poucos numa manifestação de milhares. Brilhante trabalho de manipulação gráfica, que convenceu uns quantos milhões, feito uns bons 50 anos antes da invenção do Paint pela Microsoft. Leitão Amaro teve apenas o azar de estarmos em 2025, na era dos telefones que fazem tudo.
Antes já tinha dito, para quem o quisesse ouvir, que o novo pacote laboral não teria impacto na função pública, uma vez que estes trabalhadores estão protegidos pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. O regime geral do código do trabalho, segundo o ministro da Presidência, é que sofreria o impacto. Esta conversa tinha dois objectivos. Desde logo, desmotivar a função pública no seu protesto. Como se as lutas laborais não se fizessem de solidariedade entre mais e menos afectados. Como se o colectivo não fosse sempre mais forte quanto maior a sua expressão. E depois, a parte menos conhecida da opinião pública, como nos explicou Rita Garcia Pereira (notícia CNN), advogada especialista em direito do trabalho, já existem muitos trabalhadores na dependência do Estado que têm contratos individuais de trabalho e, portanto, de natureza privada, directamente afectados pelo novo pacote laboral.
Um dos grandes problemas dos nossos governantes é a bolha em que vivem e a distância entre as suas vidas e a realidade dos Portugueses. A crise da habitação por exemplo, que afecta boa parte da população e resulta em despejos diários, está a ser enfrentada por um primeiro-ministro que tem 55 imóveis, uma ministra do Trabalho, professora universitária, com um património superior a 5 milhões de euros e um ministro da Presidência, o nosso Goebbels de Tondela, que investiu 1,34 milhões de euros numa casa em Lisboa e que, por acaso, recebeu uns benefícios no IMI (notícia CM). Como é que esta gente enriquece com os salários declarados? E pior: como é que podem perceber as dificuldades do trânsito se circulam em via privada e sempre livre?
Com o pacote laboral o problema é essencialmente o mesmo. Discute-se a flexibilização como uma arma para o aumento da produtividade. Defende-se o fim dos sindicatos para ter menos entraves ao progresso. Apresenta-se o trabalho temporário como um benefício da rotatividade laboral. E no fim, para que ninguém duvide, explicam-nos que este é o caminho para sermos a próxima Alemanha, Suécia, Dinamarca ou Bélgica. É a aposta total na desinformação, na tentativa de meter trabalhadores contra trabalhadores, pobres contra pobres. Na Suécia, por exemplo, onde trabalhei durante 20 anos, a taxa de sindicalização anda perto dos 70% e praticamente 1/3 da força laboral está no sector público. A carga fiscal é elevadíssima e o lucro é fortemente taxado. Que o diga o já falecido fundador do IKEA, que se mudou para a Suíça, esse bastião de produtividade com o trabalho alheio e sempre protetor das fortunas.
Em Portugal as reformas laborais são sempre, mas sempre, feitas pelo lado do trabalhador. É preciso produzir mais, oferecer horas ao patronato, aceitar o despedimento sem justa causa, adiar a vida à espera de um contrato sem termo. O que não é preciso, em momento algum, é exigir que a riqueza criada pelos trabalhadores vá menos para os accionistas e mais para os bolsos de quem trabalha. Ou que a carga fiscal absurda que afecta os Portugueses se converta em creches públicas, atendimento decente na saúde ou transportes públicos que funcionem. No fundo, tenta o Governo e toda a direita em geral convencer uma legião de pobres de que o problema são eles, que trabalham pouco e que os 40% que estão no limiar da miséria antes das transferências sociais devem trabalhar ainda mais porque há uma elite política e empresarial que precisa de mais lucro. Até porque, aqui e ali, há um BES bem sólido que não se paga sozinho ou uns arranjos entre governantes e construtoras que não se fazem sem um saco azul profundo.
Quando nos dizem que a flexibilização trará mais investimento externo o que estão a dizer, no fundo, é que as multinacionais irão de bom grado para um país de brandos costumes, gente com formação que fala inglês se não se importarem de receber amendoins a troco de trabalho. A novidade é que o "investimento externo" já está em Portugal. Não faltam multinacionais que descobriram o filão português e do quão longe conseguem chegar com 1000 euros para oferecer. Na minha área, neste preciso momento, Portugal é visto como uma opção a considerar se comparado com o investimento no Vietname. No Vietname, meus amigos! Foi aqui que chegámos ao fim de 40 anos na União Europeia.
Temos mais auto-estradas, muitos hotéis de charme e tascas gourmet. Mas continuamos pobres, governados por gente que resume o CV a um cartão partidário, sem um dia de trabalho no mundo real e que enriquece enquanto nos convence de que o problema somos nós.
Talvez Leitão Amaro e Montenegro tenham razão quando dizem que o país não precisa de greves. Talvez não. Pelo aspecto da coisa, o que podemos, de facto, vir a precisar, é de uma revolução.
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870.
A bolha da inteligência artificial (IA) continua a inchar. Os Sete Magníficos da tecnologia continuam, em conjunto com as empresas de IA, a puxar pelo mercado accionista dos EUA. As cotações das dez empresas americanas com maior valor em bolsa, detentoras de mais de 40% da capitalização do índice S&P 500, têm continuado a subir, e muito acima da subida dos seus proveitos (lucros) registados.
Os resultados mais recentes das principais empresas de “hiper-escala” (empresas de desenvolvimento de IA) norte-americanas indicam que as vendas continuam em crescimento robusto. No entanto, os fluxos de caixa livres (cash flow) são absorvidos pela despesa de capital, que está em aceleração. As empresas têm de recorrer ao leasing e endividar-se se querem continuar na corrida ao desenvolvimento da IA. No ano transacto, as empresas que investem em IA representaram 75% do rendimento obtido pelas empresas integrantes do índice S&P 500, 80% do crescimento dos lucros e quase 90% do crescimento das despesas de capital. O investimento global em infra-estruturas de IA está próximo de atingir 400 mil milhões de dólares, em 2025, e a despesa acumulada poderá passar 5 ou mesmo 7 biliões (milhões de milhões) de dólares até 2030. Aproximadamente 60% desse investimento irá para semicondutores e computadores — um nível de investimento sem precedentes para uma nova tecnologia que mal começou a ter uso comercial.
Que o investimento em tecnologia da informação seja o único motor da actividade económica dos EUA não é toda a verdade. Muito do equipamento que entra nos centros de dados é importado, havendo, por conseguinte, efeitos negativos de contrabalanço ao PIB. Mesmo assim, a “montanha de silício” continua em erupção vertical. A bolha da IA, porque é disso mesmo que se trata, apresenta surpreendentes semelhanças com a chamada ‘railway mania’ (que poderá traduzir-se por ‘ferromania’ ou ‘mania ferroviária’) na Grã-Bretanha na década de 1840 e, mais tarde, nos EUA na década de 1870. Naquele tempo, também as ferrovias eram vistas como uma poderosa nova tecnologia capaz de transformar os transportes e as viagens e, assim, impulsionar a produtividade. Isso deu azo a uma especulação desenfreada com as acções das ferroviárias, à medida que as empresas inauguravam, umas atrás das outras, novas linhas ferroviárias pela Grã-Bretanha fora durante a década de 1840 — e, mais tarde, por todos os Estados Unidos, na década de 1870, culminando na ligação ferroviária transcontinental.
No Reino Unido, a mania atingiu o seu auge em 1846, ano em que o Parlamento aprovou 263 actos de criação de novas empresas ferroviárias, totalizando as rotas propostas 9500 milhas (15 300 km). Cerca de um terço das ferrovias autorizadas nunca se construíram — as empresas ou faliram por mau planeamento financeiro, ou foram compradas por concorrentes maiores antes de construírem a sua linha ou revelaram-se empreendimentos fraudulentos para canalizar o dinheiro dos investidores para outros negócios. Entre as décadas de 1860 e 1900, as linhas ferroviárias transcontinentais transformaram a América. Ajudaram a povoar o Oeste e, tal como na Grã-Bretanha, desenvolveram uma nova forma de empresa capitalista, a sociedade por acções, ou seja, empresas cuja propriedade e financiamento eram públicos (no sentido de ‘publicamente transaccionáveis, em mercados abertos’ — nota do tradutor). A ferrovia ajudou a transformar os EUA numa superpotência que se estendia de oceano a oceano e revolucionou a finança. Como escreveu o historiador Richard White na sua história das transcontinentais, Railroaded, “ela criou a modernidade tanto por via dos seus fracassos como dos seus êxitos”, deixando atrás de si “um legado de falências, duas depressões, prejuízos ambientais, crises financeiras e agitação social”. Para já, o boom do investimento em IA ainda não atingiu a dimensão do investimento ferroviário do século XIX, que chegou a alcançar 6% do PIB dos EUA, a comparar com, por agora, 1,2% do PIB em investimentos em centros de dados de IA e 4% do PIB em tecnologia de informação globalmente. Mas para lá caminha.
Na “ferromania”, a bolha bolsista acabou por estourar. Nos EUA, o rastilho do pânico de 1873 foi acendido pela falência da Jay Cooke & Co., primeira instituição bancária da América. Cooke, que se fizera como financiador número um do Exército da União, concordou em financiar o projecto da Northern Pacific Railway de ligar a costa do Oregon à rede ferroviária existente no Nordeste. Contudo, já não era a primeira linha transcontinental, e preocupações com excesso de capacidade, juntamente com desconfiança crescente nos títulos de dívida das ferroviárias, fizeram que os preços das obrigações da Northern Pacific caíssem. A empresa de Cooke faliu em Setembro de 1873, precipitando o pânico na bolsa de acções que acabou por originar a depressão mundial que se estendeu pela década de 1890 adentro.
Marx comentou na altura que a enorme concentração dos investimentos dos mercados de acções nas empresas ferroviárias dos EUA “deu, numa palavra, um ímpeto insuspeito à concentração de capital e também à imensa aceleração e expansão da actividade cosmopolita do capital mutuável, assim envolvendo o mundo inteiro numa rede de aldrabice financeira e endividamento mútuo que é a forma capitalista da ‘fraternidade internacional’”. Quando as acções das ferroviárias caíram, caiu o resto do mercado, abrindo-se uma recessão económica.
Na Grã-Bretanha, a bolha ferroviária rebentou por volta de 1847. Marx só analisou a bolha cerca de 20 anos depois, no volume 3 de O Capital. Chamou-lhe a “grande aldrabice ferroviária”, para salientar como tinham sido deliberadamente empoladas as promessas das empresas ferroviárias dos enormes lucros que haveria a colher. Os investidores injectaram ingenuamente capital em projectos significativamente menos lucrativos do que eles esperavam e do que os promotores e directores haviam prometido. A ferromania da década de 1840 ocorreu quando a taxa média de lucro na Grã-Bretanha estava em queda – e em queda continuou ao longo da década. Marx observou que “na aldrabice ferroviária do Verão de 1844, os investidores nas ferrovias pareceram estar à espera de uma taxa de lucro muito superior à taxa média”. Chegados a 1847, tais esperanças tinham saído furadas.
Agora estamos na mesma. Se o retorno dos enormes investimentos em IA for menor do que o esperado e prometido, o resultado será uma correcção severa no mercado de acções. Por outras palavras, o mecanismo pelo qual o rebentamento da bolha da IA poderá causar uma recessão não é o de uma baixa repentina do crescimento, mas o da não obtenção do rendimento esperado do investimento.
Por enquanto, no sector da “tech” ainda reina o optimismo. Mark Zuckerberg previu recentemente que, dentro de um ano, metade do código da Meta seria escrito por IA. Até agora, porém, a maioria das empresas pouco ou nenhum benefício está a ver dos seus investimentos iniciais. Um estudo do MIT muito citado chegou à conclusão de que, por agora, 95% dos projectos de ‘IA generativa’ não se traduzem nem em crescimento de produtividade nem em lucros. Para justificar o investimento necessário, as receitas anuais dos centros de dados teriam de centuplicar dos actuais 20 mil milhões de dólares para cerca de 2 biliões de dólares. Às receitas existentes vão faltar 800 mil milhões de dólares, segundo a Bain & Company. Mesmo contando com ganhos de eficiência esperados, a diferença ilustra quanto as cotações actuais dependem de fluxos de receitas por demonstrar. A diferença terá de ser colmatada com empréstimos e aumentos de capital.
O investimento em activos ligados à IA é cada vez mais financiado por empréstimos e financiamentos contraídos pelas empresas de IA, ao passo que os investidores em acções contraem, por sua vez, mais empréstimos para alavancar as suas apostas financeiras na IA. Os parceiros dos centros de dados da OpenAI estão a caminho de acumular quase 100 mil milhões de dólares em empréstimos para investimento nesta. O SoftBank, a Oracle e a CoreWeave contraíram empréstimos no valor de, pelo menos, 30 mil milhões de dólares para investir, e um grupo de bancos está a negociar mais 38 mil milhões de dólares para emprestar à Oracle e à construtora de centros de dados Vantage, para financiar novos locais para a OpenAI. O grupo de investimentos Blue Owl Capital e empresas de infra-estruturas informáticas, como a Crusoe, contam também com acordos com a OpenAI para o serviço de dívidas no valor de cerca de 28 mil milhões. Os credores bancários e obrigacionistas começam a ficar preocupados e estão a reforçar as apólices de seguros de incumprimento sobre a Oracle, para o caso de esta ficar incapaz de pagar o serviço da dívida.
A ex-economista-chefe do FMI Gita Gopinath calculou que um estouro do mercado de acções ligado à IA equivalente àquele em que terminou o boom das dot.com riscaria do património das famílias americanas cerca de 20 biliões de dólares, e mais outros 15 biliões no estrangeiro: o suficiente para estrangular a despesa dos consumidores e induzir uma recessão global. Contudo, vê-se desenvolver-se o argumento de que, mesmo que haja um estouro financeiro, e ainda que a essa crise se siga uma recessão, sobreviverão então as melhores empresas, e os enormes ganhos de produtividade decorrentes da aplicação da IA em todos os sectores da economia acabarão por reverter numa mudança qualitativa no crescimento da produtividade do trabalho. A produção aumentará porque a IA substituirá trabalho
humano, reduzindo os custos das empresas e aumentando a rentabilidade. Não foi o que aconteceu antes, quando, apesar de o pânico de 1873 ter causado a ruína do mercado das acções ferroviárias e uma recessão profunda, os EUA acabaram por ficar com uma rede ferroviária em todo o continente? E na Grã-Bretanha, analogamente, após a recessão do final da década de 1840, não assentou o longo boom subsequente da década de 1850, em parte, nas 6000 milhas da rede ferroviária, que foi a espinha dorsal do sistema de transportes do país e ajudou a Grã-Bretanha a manter a sua hegemonia global?
Fará a IA o mesmo pelo capitalismo americano, que actualmente enfrenta rivalidade crescente à sua hegemonia global? É bem possível que não. Basta dizer que podem os Sete Magníficos estar na mó de cima nas bolsas de valores, mas a sua vantagem tecnológica está seriamente ameaçada. No ano passado, a China lançou o DeepSeek, um modelo de linguagem de grande escala (LLM) muito mais barato, mas quase tão bom como o ChatGPT da OpenAi. E este ano, houve novos lançamentos de LLMs chineses com desempenho semelhante, mas custo muitíssimo inferior ao investido pelas empresas norte-americanas.
Os economistas tradicionais continuam divididos sobre se a IA virá a ter o mesmo impacto que as ferrovias tiveram no século XIX, ou a internet no final do século XX. O economista da Universidade de Stanford Eric Brynjolfsson prevê que a IA seguirá uma “curva em J”, com um efeito inicial de produtividade lento, e até negativo, conforme as empresas investem maciçamente na tecnologia antes de colherem finalmente os seus frutos. Só então vem o boom. Pode-se observar a curva em J no crescimento da produtividade industrial dos EUA, que caiu em meados da década de 1980 e, após a recessão de 1991, acelerou fortemente até meados da década de 2000.
Contudo, Daron Acemoglu, economista do MIT e vencedor do Prémio Nobel de 2024, argumenta que os ganhos de produtividade da IA generativa serão muito menores e levarão muito mais tempo do que pensam os optimistas da IA. Além de que as empresas de IA estão demasiado focadas no ChatGPT e noutros produtos de IA que têm pouca relevância para a maior parte dos sectores. Há quem aponte que, apesar de smartphones, redes sociais e aplicações como a Slack e a Uber, as tecnologias digitais passadas pouco contribuíram para que a economia crescesse. O ano que vem mostrará quem tem razão.
Tradução de Adriano Zilhão.
O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
O Governo prepara um pacote laboral que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha.
O chamado “Trabalho XXI” que Luís Montenegro quer impor ao país é, na verdade, um regresso acelerado ao passado mais duro das relações laborais. Sob o pretexto da modernização e da competitividade, o Governo prepara um pacote que fragiliza direitos elementares, trata o trabalhador como variável descartável e entrega às empresas um poder quase absoluto sobre a vida de quem trabalha. Fala-se em “flexibilizar horários”, mas o que está em cima da mesa é o aumento das jornadas, o crescimento das horas extraordinárias obrigatórias e a normalização de horários irregulares que impedem qualquer conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar.
E quando se destrói essa conciliação, destrói-se também a família. Não há família sólida quando os pais chegam sempre tarde, esgotados e ausentes. Não há natalidade sustentável quando ter filhos significa empobrecer ou perder o emprego. Não há sociedade equilibrada quando se pede às mães e aos pais que sacrifiquem o lar para salvar os lucros de alguns. O ataque aos direitos laborais é, inevitavelmente, um ataque à parentalidade e ao futuro do país.
Chamam-lhe liberdade; nós chamamos-lhe exploração.
Fala-se em “simplificar vínculos”, mas a proposta é abrir portas a contratos cada vez mais curtos e intermitentes, generalizando a precariedade a gerações inteiras. Fala-se em “reduzir encargos”, mas o que o Governo quer é baixar as contribuições para a Segurança Social, fragilizando o sistema e deixando para amanhã uma bomba-relógio que pagaremos todos, sobretudo os mais jovens. Fala-se em “adaptabilidade”, mas o objetivo real é permitir despedimentos mais fáceis e mais baratos, onde a suposta “inadequação” do trabalhador à empresa basta para o pôr na rua. Entre sorrisos liberais e discursos de oportunidade, o que está a ser preparado é um mercado de trabalho onde quem manda decide tudo e quem trabalha cala e obedece, ou perde o sustento.
O novo pacote laboral não é progresso, é uma agenda ideológica de submissão, mascarada de futuro.
Isto não é progresso. Isto é uma agenda ideológica de submissão, mascarada de futuro. E não podemos assistir calados enquanto direitos que custaram gerações de luta são rasgados em meia dúzia de reuniões de Conselho de Ministros ou em simulacros de negociação.
O país não pode aceitar que a dignidade laboral seja tratada como empecilho. Os trabalhadores portugueses já deram demasiado: salários baixos, produtividade a subir, lucros empresariais em máximos históricos. E agora querem dizer-nos que ainda é pouco, que temos de trabalhar mais horas, com menos proteção e com a vida toda posta de joelhos perante o patrão.
Pois não. Não aceitaremos.
Foi a luta coletiva que conquistou férias pagas, limite de horas de trabalho, Segurança Social, descanso semanal, contratação coletiva. E é pela mesma luta que impediremos este retrocesso. A greve geral de 11 de dezembro é o momento de dizer, claramente, que o país não se governa contra quem o constrói todos os dias, que não deixaremos que nos transformem em instrumentos descartáveis da economia. O Governo quer levar-nos ao século XIX em nome do século XXI. Aqui, agora, é o momento de travar esta marcha atrás. Quem trabalha merece respeito, estabilidade, tempo para viver e tempo para cuidar da sua família e dos seus filhos. Merece um país decente. E esse país não se pede de joelhos. Conquista-se de pé.
Dia 11, paramos para avançar. Porque os direitos não se negociam — defendem-se. Sempre.
O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, conferindo ‘peso’ ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz.
“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever. Como começar pelo princípio, se estas coisas acontecem antes de acontecer?”
A Hora da Estrela, Clarisse Lispector (1977)
Imaginar uma sociedade onde o poder não reside no trono dos reinos, nas presidências vazias ou nas secretarias cheias de burocratas pode ser uma tarefa interessante, caso seja acompanhada da necessária visão crítica. Uma das alternativas, falando simplesmente do campo da imaginação criativa, seria um poder inspirado nos avanços mais recentes da física de partículas, que reside nas sombras infinitesimais do invisível, nos fragmentos quânticos que tecem os contornos da existência. Uma alegoria possível aos humildes constituintes da matéria e do espírito humano, onde cada colisão, cada excitação fraccionária, revela forças capazes de reescrever o destino colectivo.
O poder pode, na nossa imaginação, ser qualquer coisa como a “imaginação ao poder”. Recuemos a Maio 68, em que Paris veria dez milhões de grevistas nas ruas e se convocava a imaginação como força motriz da arte, da inovação e da utopia, um hino global, em que a tomada de poder iria varrer as estruturas rígidas, burocráticas e opressivas da sociedade, governos, capitalismos e hierarquias tradicionais. Ficou, no seu tempo, como um manifesto para que a “criatividade liberte e governe”, transformando o mundo num palco de possibilidades infinitas, em vez de uma prisão de regras. Que partículas desse poder ficariam no ar, mesmo na perspectiva surreal, quase seis décadas depois? Um poder em partículas, que poderia então emergir das profundezas do cidadão e guindá-lo à categoria superior das possibilidades, num vislumbre para além do véu da realidade podre, desenhada pelos atores pífios que conhecemos hoje, particularmente no hemisfério norte.
No universo da física quântica, teoria fundamental desenvolvida na década de 70 do século passado, descrevem-se as partículas elementares da matéria, onde existe um campo que é responsável pela massa dessas partículas. O campo de Higgs é invisível, embora funcione como agregador de todo o espaço, onde as partículas elementares ganham massa ao interagir com este campo e oferecem resistência ao movimento, ou seja, quanto maior a interacção de uma partícula com o campo, maior é a "resistência" ao seu movimento, ganhando mais massa, e onde as partículas que interagem menos têm menos massa. A aparente complexidade do conceito pode ser adaptada ao tecido social, uma espécie de campo de Higgs relacional onde nos movemos. Alguns indivíduos interagem com intensidade com esse campo, sabemos quem são e como se comportam, líderes, comunicadores, "influenciadores", que vão adquirindo “massa social” na sequência das suas interacções. Essa “massa” não é obviamente um atributo intrínseco, mas um fenómeno relacional, constituindo uma arquitetura da legitimidade, conferindo poder em estruturas duradouras, concedido aliás pelo campo social em que se está inserido. O poder, como o bosão de Higgs, é a manifestação desse campo, conferindo “peso” ao discurso do político, à opinião do especialista, à decisão do juiz. Sem a interacção com esse campo de crenças colectivas e legitimidade concedida, o poder seria apenas um potencial, uma partícula sem massa correndo à velocidade da luz, mas incapaz de formar estruturas duradouras. Portanto, o poder é concedido pelo campo social em que se está inserido.
As questões do poder e do direito foram exploradas ao longo dos tempos. Por exemplo, o “direito” que prevalece não é necessariamente o mais justo ou verdadeiro, mas aquele que é sustentado pela partícula de poder mais eficaz naquele contexto. Para o filósofo inglês do século XVII, Thomas Hobbes, o poder, original ou natural e instrumental, não é absoluto por depender do reconhecimento de outrem, mas sim uma “concorrência” entre inúmeras partículas de poder para impor a sua versão do "direito". Já para o escritor e cientista alemão do século XVIII, Johann von Goethe, a origem do direito está na tradição e na herança do poder institucionalizado. O autor de Fausto, diz, pela boca de Mefistófeles, que o direito não é uma questão de justiça inerente, mas sim das regras que o poder conseguiu impor e fazer passar por legítimas ao longo do tempo. Goethe afirma de forma clara que o "direito" é uma construção do poder e não um princípio moral universal. Para Marx e Engels, o poder de classe baseado na economia sempre esteve concentrado e a aparente dispersão na superfície política e mediática esconde uma concentração sem precedentes de poder económico e tecnológico. O que afirmaram e defenderam mantém, ainda hoje, uma coerência notável. Se os pudéssemos consultar, possivelmente nos diriam que a solução não é celebrar a fragmentação do poder em partículas, mas superá-la através da organização consciente da classe trabalhadora para conquistar o poder real e efectivo. É mais, pela lógica das suas teses, que a narrativa do empoderamento individual através da tecnologia, que poderia ser vista como uma nova forma de falsa consciência, onde a pessoa acredita que está conquistando poder, enquanto permanece estruturalmente subordinada ao capital, ou seja, uma perfeita ilusão da emancipação individual.
Sabemos hoje que a matéria visível, estrelas, planetas, todos nós, compõe apenas cinco por cento do universo. O resto é matéria e energia escura, que não emite luz, mas cuja gravidade e pressão regem as leis do universo. Pelo mesmo diapasão se rege a maior parte do poder real. Que é, na maior parte das situações, "obscuro" e reside em acordos não escritos, em inter-relacionamentos de bastidores, em enviesamentos culturais inconscientes, que são a matéria escura que estrutura um sistema onde parece existir uma energia submersa em narrativas hegemónicas, forças expansivas e invisíveis, como o algoritmo de uma rede social ou a corrente subterrânea da opinião pública, que determinam o que é pensável e o que é inquestionável, sem nunca se revelarem completamente.
Restará provavelmente nesta alegoria definir o indivíduo como uma partícula de poder. É o que fazem os novos doutrinadores burgueses, os burocratas que utilizam o poder como castrador de consciências, pretendendo suprimir (e mesmo eliminar) a crítica e o pensamento livre. São os partidários de uma “democracia” que nos diz que a nossa voz, o nosso voto, a nossa participação online podem, em conjunto com outras partículas, gerar um "direito" novo. São os mesmos que incentivam o consumo e o “encarceramento” das pessoas em “centros especiais”, como os comerciais, onde parecemos ser iguais, uma ilusão falsa e enganadora. Hoje, a luta pelo poder já não é apenas controlar um trono ou um reino. É, acima de tudo, controlar uma narrativa, um algoritmo, as normas sociais e a atenção das pessoas. Nesta nova frente de luta, o aforismo de que a força (militar, económica, social ou algorítmica) define a legitimidade permanece terrivelmente verdadeiro, actuando de uma forma infinitamente mais complexa e subtil. O poder em partículas é uma metáfora que não invalida o aforismo. Pelo contrário, amplifica-o e complexifica-o. Os pequenos poderes, pulverizados, distribuídos e atomizados em inúmeras "partículas", representam hoje obstáculos visíveis e influentes na “resistência” às mudanças sociais e devem ser combatidos, em favor dos processos libertadores e revolucionários, para a construção programada e organizada da sociedade sem amos.
*Alfredo Soares-Ferreira, escritor e cronista, é licenciado em Engenharia de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Atualmente aposentado, foi professor do ensino secundário, profissional e superior.
Apesar de sabermos que qualquer universo distópico se traduz num cenário imaginado de uma região, país ou sociedade, sabemos igualmente que ele representa o caos, a injustiça, a desigualdade, a opressão, o sofrimento, a tirania ou o totalitarismo. Nesse ambiente indesejável prevalecem o desamparo, a amargura, a angústia, o desespero, o autoritarismo, ou seja, é um sistema que restringe a liberdade, a autonomia e anula a subjetividade. A distopia pode funcionar como uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. As pessoas sentir-se-iam isoladas e sem capacidade para resistir, sem força para se opor. A distopia caracteriza-se, ainda, por possuir múltiplas formas de poder, dominação e controlo, as quais se manifestam, por vezes, de formas visíveis, outras vezes, por meios subtis. Em resumo, um universo distópico idealiza um mundo profundamente desigual, maléfico, doente, alienado e castrador. Porém, uma conjuntura distópica pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica para tudo aquilo que não queremos vivenciar ou experienciar.
Por oposição, a utopia representa o inverso, isto é, traduz-se naquilo que seria uma sociedade ideal, perfeita, harmoniosa, justa e desejável. É um lugar em que predomina o bem-estar, a igualdade, a ausência de pobreza ou de miséria social, e materializa-se num sistema de governo benevolente (ou até mesmo na ausência dele, embora mantendo o funcionamento da sociedade de forma organizada, equitativa e pacífica). As sociedades utópicas caracterizam-se por promover: 1) a cooperação e o coletivismo (entre todos os membros da sociedade); 2) a elevação de valores éticos e morais (em que o respeito, o bem-estar social e a liberdade de expressão são, efetivamente, valorizados); 3) a educação, a ciência, as técnicas e a tecnologia (as quais são totalmente direcionadas para o bem-comum, isto é, são unicamente utilizadas para benefício de toda a humanidade e representam um património que intrinsecamente lhe pertence, fruto do conhecimento passado de geração em geração); 4) a harmonia social e ambiental (é obrigatório manter uma relação equilibrada do Homem com a natureza). Resumidamente, uma sociedade utópica é uma sociedade progressista, emancipatória e humanista. O termo original foi criado por Thomas More, no seu livro Utopia (1516), cujo significado é, literalmente, "lugar nenhum" (originário do grego ou = não, e topos = lugar), que nos remete para um ideal inalcançável. Metaforicamente, é como se caminhássemos para tentar alcançar o lugar mais distante na linha do horizonte (mas, simultaneamente, quando mais caminhamos, novos lugares vão surgindo no nosso campo de visão).
Na realidade, os dois conceitos, distopia e utopia, tal como já referido, remetem-nos para sociedades imaginárias. Porém, atualmente, estamos submersos em sociedades que parecem mais próximas de poderem ser consideradas distópicas do que utópicas. Um elemento-chave que ajuda a compreender este fenómeno é o facto de vivermos em sociedades-do-lucro-omnipresente-e-omnipotente. Nesta conjuntura, o Homem deixou de ser um fim em si mesmo (Kant teria rejeitado essa visão utilitarista e instrumental do ser humano) e esse lugar passou a ser ocupado pelo “deus lucro”. Porém, isso representa uma extraordinária (e inaceitável) inversão de valores sociais e morais.
Os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza.
É verdade que os problemas sociais, económicos, políticos e ambientais do mundo hodierno são complexos e estão profundamente interligados. Não raras vezes, estes tópicos são exacerbados pelo processo de globalização, incluindo todas as suas contradições. Um dos paradoxos mais evidentes na atualidade é pautado pela relação (desestruturante) entre capital e trabalho, embora vá muito além dela. A título ilustrativo, enumeramos alguns exemplos de problemas marcantes vividos no mundo contemporâneo, nomeadamente ao nível das desigualdades económicas e sociais: os dados atuais demonstram que os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza. As três maiores fortunas do mundo possuem um montante superior ao PIB de quase 60 países mais pobres. Isto significa que vivemos num mundo em que reina a injustiça social e se reproduz uma atroz assimetria na distribuição dos recursos produzidos, por via do trabalho, através da classe trabalhadora. Paralelamente, as últimas estimativas revelam que mais de 200 milhões de trabalhadores vivem na condição de pobreza extrema, ganhando o equivalente a, aproximadamente, 2 euros por dia. Sublinho que estamos a falar de trabalhadores, ou seja, alguém que trabalha, mas, ainda assim, não consegue sair da pobreza extrema. Apresento, como exemplo, um episódio real relatado por Vincent Gaulejac, na obra La société malade de la gestion, o qual indica que um empresário de uma multinacional recebeu 16,2 milhões de euros por ter tomado a decisão de encerrar 38 lojas dessa empresa e, consequentemente, enviado para o desemprego centenas de trabalhadores. Este montante, auferido devido a um único ato de gestão, representa o equivalente a mil anos de salário médio dos trabalhadores que foram demitidos. Surpreendentemente, o mesmo empresário, referiu que não se sentia bem pago para exercer aquela “tão dura profissão”. Vale a pena interrogarmo-nos: qual o valor que atribuímos ao trabalho para sustentar uma tão grande discrepância de rendimentos? Como podemos explicar e justificar esta insanidade, sem a apelidar como algo profundamente distópico?
Segundo os dados de um relatório recente da OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho. Também dados recentes indicam que o desemprego global se cifra em cerca de 210 milhões de trabalhadores desempregados. Isto representa uma verdadeira hecatombe social, política e económica. É igualmente pertinente referir que, ao nível global, as disparidades no acesso à educação, aos serviços de saúde, à habitação, à quantidade e qualidade da alimentação (fome e/ou má nutrição) e a empregos decentes são gritantes e evidentes. Por vezes, muitos destes aspetos têm como pano de fundo as diferentes formas de violência, cujo expoente máximo está normalmente associado aos conflitos armados, ou ainda a situações oriundas de crises ambientais e alterações climáticas.
Em relação a este último ponto, vale a pena ler o relatório da Oxfam International, publicado em outubro de 2025, cujo título é expressivo: “Saque Climático: como poucos poderosos estão a levar o planeta ao colapso.” Neste documento, é afirmado que o grupo dos 0,1% mais ricos do planeta polui, em apenas um dia, mais do que uma pessoa dos 50% mais pobres durante um ano inteiro. É também defendido que a crise climática é uma crise de desigualdade. Estes são alguns traços que nos levam a sugerir que o mundo atual está mais próximo da distopia do que da utopia.
Segundo a OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho.
Agora, imaginem que num futuro próximo seria criado um parlamento global. Esse órgão político transnacional estava a discutir uma legislação que iria proibir todas as formas de exploração entre seres humanos. Anteriormente, já tinham sido dados passos significativos nesta direção, considerando que há uns anos os lucros das empresas (que maioritariamente iam para os bolsos dos acionistas ou proprietários) não poderiam agora ultrapassar a margem de 5% do lucro total. Uma parte dos restantes 95% dos lucros era distribuída, equitativamente, por todos os trabalhadores da empresa e, a outra parte, era alocada para o Estado Providência do respetivo país. Naturalmente que neste novo modelo não existia a possibilidade de rutura ou de falência da segurança social. O desemprego era igualmente proibido, visto que o trabalho que cada um executa representa aquilo que cada trabalhador pode oferecer ao bem comum. Ninguém é tido como “inútil”, porque a existência e a dignidade não estão associadas à capacidade de produzir. Uma sociedade de pleno emprego, deste ponto de vista, traduz-se no limite máximo da qualidade de vida dessa mesma sociedade. Porque a divisão social do trabalho é justa e equitativa. Claro que haveria pessoas que não trabalhavam (no sentido estrito do termo), não porque não quisessem, mas porque, efetivamente, não podiam! Imaginem também que o mesmo parlamento global fazia a promoção plena da paz mundial e proibia todo e qualquer tipo de guerra armada. A fome, a pobreza e a exclusão social eram igualmente proibidas.
Estes tópicos direcionam-nos para aquilo que hoje designaríamos como uma sociedade utópica. A eliminação das desigualdades tinha sido possível porque as populações tinham compreendido, verdadeiramente, o que tinha estado na base da sua génese (para isso evocamos as sábias palavras de Jean-Jaques Rousseau sobre a origem das desigualdades humanas): “O primeiro [Homem] que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado o género humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!”
Para terminar, peço-lhe que recorra uma última vez à imaginação e faça a seguinte experiência mental: pense que está no cenário idealizado por John Rawls, desiganado por “véu da ignorância”, ou seja, não sabe antecipadamente qual será a posição social que lhe irá caber, quais serão as suas capacidades e aptidões naturais, qual será a sua identidade (em termos de género, etnia ou orientação sexual), nem quais serão as suas crenças religiosas, filosóficas ou até as metas de vida. Perante este contexto idealizado e ignorando totalmente as características em que seria colocado no mundo, caso tivesse de fazer uma escolha, escolheria viver numa sociedade distópica ou utópica?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
Na semana passada, o governo direitista de Portugal, pressionado pelo partido de extrema-direita fascista Chega, conseguiu pôr termo à possibilidade de imigrantes dos países dependentes virem trabalhar para Portugal. Até agora, era possível a muitos estrangeiros entrarem com um visto de turista e depois “manifestarem interesse” em trabalhar, acabando por obter autorização de residência. Agora, os imigrantes potenciais passam a ter de candidatar-se, nos seus países de origem, a vistos para trabalhar. Mas vejam só: a regra não é aplicável a candidatos a empregos “altamente qualificados”. Profissionais estrangeiros com “qualificações avançadas” continuam a poder entrar em Portugal para procurar emprego e trabalho desde que sejam contratados antes de o visto expirar. Analogamente, os trabalhadores “remotos” continuam a ser elegíveis para viver e trabalhar em Portugal.
As novas leis são notoriamente discriminatórias contra os imigrantes pobres dos países dependentes do Sul. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso? As estatísticas da Comissão Europeia indicam que a mão de obra migrante não enfraqueceu a economia portuguesa; fortaleceu-a! “800 mil imigrantes contribuem com mais de mil milhões de euros para o sistema de segurança social, ao passo que só recebem aproximadamente 257 milhões de euros em benefícios sociais, deixando um saldo positivo de mil e seiscentos milhões de euros”.
Há várias décadas que magotes de jovens deixam Portugal em busca de melhores oportunidades económicas noutros países da UE. Nos últimos anos, indianos, nepaleses e bengalis colmataram a lacuna deixada na força de trabalho portuguesa. Vêm trabalhar para explorações de frutos vermelhos no Alentejo agrícola. “Nós deixámos o nosso país. Jovens portugueses têm deixado o seu. Há quem não goste que nós cá estejamos, mas somos nós que estamos a revitalizar esta região e a fazer entrar cá muito dinheiro”, diz um trabalhador nepalês sob anonimato. “A razão principal por que Portugal tem visto aumentar o número de imigrantes é porque precisa deles”, diz Luís Pinheiro, ex-diretor da Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA). O sector agrícola português continua em expansão rápida, particularmente devido à procura cada vez maior de frutos silvestres, que depende principalmente de trabalhadores da Ásia Meridional. Em 2023, as receitas de exportação de bagas atingiram quase 300 milhões de euros, sendo a maioria enviada para supermercados alemães e britânicos. “Portugal tem uma grande procura de mão de obra em certas áreas de atividade económica, e estes migrantes continuam a chegar porque há procura de mão de obra”. Longe de ser abuso, a imigração tem sido um trunfo essencial para a economia portuguesa, particularmente em sectores-chave da agricultura e da indústria do lazer, assente em salários baixos, que correspondem a empregos que os cidadãos portugueses resistem a procurar, por os salários serem muito baixos. O atual salário mínimo é de apenas 820 euros por mês, que mal deixa a quem trabalha o suficiente para sobreviver. Depois de custear o alojamento, as dívidas e o envio de dinheiro para a família, muitos trabalhadores imigrantes ficam com apenas 100-150 euros por mês. Muitas destas aldeias e vilas ficam longe das cidades, no Alentejo, o que torna mais difícil documentar violações de direitos humanos e laborais. Muitos suportam condições extraordinariamente difíceis. “É uma espécie de militarização do trabalho. Tens de obedecer a tudo, mesmo que seja a coisa mais estúpida que se possa imaginar. Se trabalhas 12 horas, devias receber pagamento de horas extraordinárias; mas eles pagam apenas 6,50 euros e ainda queriam mais horas. Isso era para os trabalhadores permanentes. Imagina agora para os temporários”, diz o ativista laboral do Alentejo Alberto Matos.
Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia.
Shollomian, de Sylhet, no Bangladeche, que veio para Portugal com um visto de turista, trabalha numa quinta de frutos vermelhos em São Teotónio. Diz que trabalha entre 8 e 12 horas por dia, começando às 5-6 h da manhã. Foi-lhe dito que receberia uma autorização de residência no prazo de 12 a 14 meses, mas, 24 meses passados, continua à espera. Apesar disso, envia 100 a 400 euros à família sempre que pode e está otimista. “Vim para Portugal há dois anos quando vi anúncios de trabalho em Portugal nas redes sociais. Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia, em condições difíceis. Ganho 50 euros por dia. Temos de colher oito quilos por cada quatro horas. É dificílimo, na quinta faz muito calor, não nos dão água, às vezes sangro do nariz. Não nos dão comida, temos de trazer a nossa. Envio por mês 230-450 euros para a família, no Nepal. Ao fim de dois anos, continuo sem autorização de residência.”
“Há, atualmente, pelo menos, 400 mil pessoas, na sua maioria migrantes indianos e nepaleses, que aguardam renovação das suas autorizações de residência. Encontram-se numa situação muito vulnerável, porque os empregadores aproveitam-se. Não podem perder o emprego, por isso têm de aceitar todas as exigências dos empregadores”, afirma a Dra. Alexandra Pereira, bolseira de pós-doutoramento na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, especializada em migração nepalesa, particularmente para Portugal e a Europa.
A situação dos sul-asiáticos é perigosa, pois estão mais à mercê dos traficantes e das máfias que os trazem para Portugal e da exploração dos empregadores. No Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, há muitas agências que continuam a burlar e a lucrar à grande com os recém-chegados e migrantes com documentação insuficiente, convencendo-os a comprar serviços de que não precisam e fazendo-lhes crer que ainda é possível legalizarem a sua situação.
Ao fechar a porta à legalização, o Governo abriu o mercado negro de mão de obra humana. Muitos trabalhadores chegam profundamente endividados, depois de pagarem quantias exorbitantes para virem a Portugal com vistos de turista, de trabalho ou vistos UE expirados. Alberto Matos diz que os migrantes lhe contam que “bem, eu paguei 15 a 20 mil euros, na Índia, para vir trabalhar para Portugal. Eles endividam-se, têm de pagar as dívidas anos a fio, ficam escravos da dívida. As próprias famílias, no país de origem, são obrigadas a pagar a dívida e são ameaçadas pelas máfias locais”.
De acordo com a direção da Migração e Assuntos Internos da Comissão Europeia, “observou-se que a maioria das vítimas confirmadas de tráfico se enquadravam no tráfico de seres humanos para exploração laboral (72,8%); desses, 73,2% no sector agrícola”. As estatísticas são especificamente piores no Alentejo, onde se contaram 51,7% das vítimas confirmadas de tráfico de seres humanos em Portugal entre 2008 e 2021; dessas, 74,5% traficadas para fins de exploração laboral. “Devido à enorme extensão geográfica dos locais onde são colocados para trabalhar, geralmente no interior da região do Alentejo ou no Oeste do país, com condições de acesso difíceis, a deteção pelas autoridades responsáveis pela supervisão das condições de trabalho e permanência em Portugal é difícil.”
As grandes empresas frutícolas estão no âmago da situação. Como afirma Matos, “a Driscoll's controla Odemira inteira. Vendem as patentes e, pelo meio, há uma grande exploração. No fim da linha, dizem: ‘façam o favor de nos darem os frutos vermelhos, nós é que sabemos comercializá-los nos mercados internacionais.’ Costumamos dizer que a região de Odemira é uma espécie de barriga de aluguer da Driscoll’s.” Se há “abuso de hospitalidade”, como clama o primeiro-ministro Montenegro, quem abusa não são os imigrantes, são os empregadores.
Não tarda nada que gente como o Chega venha exigir a deportação de milhares de trabalhadores para os seus “países de origem”. Só que a situação económica e política no Bangladeche e no Nepal é horrenda. O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, embora o estilo de vida luxuoso das famílias políticas — roupas de marca, viagens ao estrangeiro e carros de luxo — contraste com a dura realidade que os jovens enfrentam. “Toda a gente se quer ir embora [do Nepal]. Há poucas oportunidades de emprego, crises políticas e económicas constantes; os jovens querem encontrar uma vida melhor, salários mais altos: as pessoas ganham 200 euros por mês.” Acrescem agora perigos reais. No mês passado, o governo do Nepal caiu e houve um golpe militar. A polícia matou 22 pessoas num protesto contra a corrupção.
A situação não é melhor no Bangladeche, país muitíssimo povoado. Há cerca de 37,7 milhões de pessoas em insegurança alimentar no país. Mais de um quarto das famílias endividam-se para suprir necessidades diárias, incluindo comida. Um inquérito do think tank South Asia Network on Economic Modeling mostrou que 28% das famílias recorrem a empréstimos para sobreviver. Quase duplicou o número médio de empréstimos por família. No ano passado, o exército e a polícia mataram mais de trezentas pessoas envolvidas em protestos contra o governo, até que a então primeira-ministra Hasina fugiu do país, levando milhares de milhões na bagagem.
Assim, as 400 mil pessoas que aguardam a renovação dos vistos não têm maneira de voltar para casa, ao contrário dos muitos portugueses que deixaram o seu país em busca de uma vida melhor e empregos melhores, mas podem regressar. Portugal precisa destes imigrantes, geralmente jovens e industriosos, e da sua mão-de-obra (e das suas receitas fiscais) para contribuir para sustentar quem vive no país. O que é necessário não são controlos de imigração rigorosos, enviesados contra os asiáticos pobres, nem deportações, que muito debilitariam a economia portuguesa. Necessário é que trabalhadores portugueses e imigrantes façam campanha juntos, com os sindicatos, para acabar com a exploração dos trabalhadores migrantes, aumentar o salário mínimo e melhorar as condições de trabalho para todos. Enquanto forem obrigados a trabalhar por salários baixos e em condições precárias, os trabalhadores imigrantes prejudicam a capacidade negocial de todos os trabalhadores em Portugal. É com este “abuso de hospitalidade” que temos de acabar, não aumentá-lo.
"André, trocaste a palavra. É circuncidar e não cicatrizar."
Os tachistas oportunistas #2
A deputada do Chega Cristina Vieira continua silenciosa desde que foi eleita por este partido. A vida de deputado tem destas coisas. Há os que falam para dentro como papagaios e há aqueles que não podem falar nem para dentro, nem para fora, porque o líder os impede de abrir a boca. É que o chefe Venturão trata os seus deputados como números decimais e só ele tem direito a dizer as mentiras mais palpitantes. No outro dia, Cristina Vieira ficou estupefacta quando o chefão, pedindo a palavra no parlamento disse: “Temos de cicatrizar a sociedade portuguesa e podemos começar já pelo almirante Gouveia e Melo, que nasceu em Moçambique e teve uma ama muçulmana que usava burka e lhe lia o Corão.” Cristina Vieira riu-se para dentro dos seus ossinhos, mas soprou logo a palavra justa a um deputado com gosma que logo a lançou ao gordo Pedro Pinto que transmitiu sorrateiramente: “André, trocaste a palavra. É circuncidar e não cicatrizar.” Esta tolice provocou um riso geral no parlamento e até a barata Elvira, que é locatária há vinte anos da Assembleia da República, se mostrou a rir.
Cristina Vieira, antes de ser deputada pelo Chega, foi outra pessoa. Conhecia-a quando ela ia a umas noturnas tertúlias culturais em Sintra, de gente jovem, simpática, culta e de esquerda. O local de encontro, lembro-me, era num café muito perto do centro. Fui lá várias vezes e até me convidaram uma vez para apresentar um livro, e foi assim que a conheci. Ela estava muito bem integrada nesta marginalidade sorridente e tolerante. Todos sabiam que era médica e participava muito nos debates. Qual não foi o meu espanto e o espanto dos nossos amigos de Sintra quando a descobrimos deputada na Assembleia da República pelo partido Chega! O que te aconteceu, Cristina? Endoideceste ou foste à procura de um tacho fácil como os teus colegas de bancada? Saiu-te a lotaria, confessa. Já agora, diz-nos: porque é que estás com esses incultos, tu que leste Philip Roth, Orhan Pamuk, Garcia Márquez, Vargas Llosa, Elena Ferrante, e outros? Ao menos diz-nos o que te aconteceu.
Mas agora já não há remédio. Ultrapassaste as linhas vermelhas da decência, da ética e da responsabilidade cidadã e estás no meio dos monstros. Só te resta um caminho: sair. Renegar a aVentura: suja, odiosa, bárbara, falaciosa, fascista.
Nas últimas eleições autárquicas, Cristina Vieira Henriques candidatou-se à Câmara de Óbidos e perdeu. O Chega recolheu 705 votos e não teve nenhum mandato.
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