categoria-opinião

Os modernos “missionários da cultura urbana” Jorge Sanches da Cruz
categoria-opinião Agricultura super-intensiva Alqueva Desertificação edicao-2026-03-05 (18)

Os modernos “missionários da cultura urbana”

Prometeram-nos que as águas de Alqueva iam tornar o Alentejo num paraíso verde. Porém, todas as marcas de ordenamento do território que o homem construiu ao longo de milhares de anos estão desaparecendo. Para além da natureza, serão as pessoas e a cultura que desaparece.

Jorge Sanches da Cruz
Construir sobre o estuário do Tejo é terraplenar o futuro Carla Castelo
categoria-opinião Construção Oeiras Zonas ribeirinhas edicao-2026-02-26 (17)

Construir sobre o estuário do Tejo é terraplenar o futuro

A destruição do passeio marítimo de Algés, entre a Cruz Quebrada e Algés, voltou a obrigar ao encerramento da via pedociclável e está também a causar grandes constrangimentos à circulação de comboios na Linha de Cascais.

Carla Castelo
Miguel Arruda, o ex-deputado do Chega muito maleável Manuel da Silva Ramos
categoria-opinião Chega Deputado edicao-2026-02-26 (17)

Miguel Arruda, o ex-deputado do Chega muito maleável

Vejamos o palmarés do deputado Miguel Arruda: primeiro, foi executante da saudação nazi no Parlamento; segundo, foi o único deputado contra o voto de pesar pela morte da escritora Maria Teresa Horta e, terceiro, foi pária, passando os seus últimos dias na Assembleia em jogos relaxantes no telemóvel.

Manuel da Silva Ramos
Defesa civil ou guerra militar Mário Tomé
categoria-opinião Defesa Civil Forças Armadas edicao-2026-02-19 (16)

Defesa civil ou guerra militar

A Proteção Civil nunca estará apta a cumprir o que dela se exige enquanto não se tornar axial, um imperativo categórico, na sociedade portuguesa.

Mário Tomé
A UGT e a proposta “Trabalho com direitos XXI” João Leal Amado
categoria-opinião Pacote Laboral Trabalho com direitos UGT edicao-2026-02-19 (16)

A UGT e a proposta “Trabalho com direitos XXI”

As propostas da UGT alteram dezenas de artigos do nosso Código do Trabalho. O documento, segundo a UGT, não pretende ser uma tomada de posição sobre o anteprojeto do Governo, mas uma alternativa.

João Leal Amado
Bairros problemáticos Rui Pinto
categoria-opinião Cidade Habitação edicao-2026-02-19 (16)

Bairros problemáticos

O preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo.

Rui Pinto
Portugal a três tempos: a ideologia urbana e a resistência rural Duarte Figueiredo
categoria-opinião Rural Urbano edicao-2026-02-19 (16)

Portugal a três tempos: a ideologia urbana e a resistência rural

Numa mentalidade nacional onde o ser rural ainda é pacóvio e o urbano é cosmopolita, veremos ainda o coletivo rural a levantar-se do chão, revoltando-se contra a opressão que o quer curvar?

Duarte Figueiredo
O regime de Isaltino Duarte d'Araújo Mata
categoria-opinião Oeiras Ordenamento Territorial edicao-2026-02-12 (15)

O regime de Isaltino

Em Oeiras, nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país.

Duarte d'Araújo Mata
7305 dias depois Tiago Franco
categoria-opinião Emigração Imigração Suécia edicao-2026-02-12 (15)

7305 dias depois

Quando cheguei à Suécia, como qualquer emigrante que se preze, tinha como objectivo ficar apenas dois anos. Tudo era novidade. Jogging na neve? Por que não? Férias em sítios frios? Claro que sim. Salmão com batatas? Que iguaria.

Tiago Franco
Nos 80 anos do Jornal do Fundão Miguel Real
categoria-opinião Imprensa Liberdade edicao-2026-02-12 (15)

Nos 80 anos do Jornal do Fundão

O Jornal do Fundão, que agora perfaz 80 anos, não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução.

Miguel Real
Desventurazinhas António Simões do Paço
categoria-opinião Eleições Presidenciais Maio edicao-2026-02-05 (14)

Desventurazinhas

Esta é uma resposta ao texto “O desventura”, publicado por Jorge Costa (BE) no esquerda.net em que, na parte final (aquela que fica na retina do espectador) pega num alfinete para atacar uma suposta opção do Maio pelo apelo à abstenção na segunda volta das presidenciais.

António Simões do Paço
Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro Manuel Carlos Silva
categoria-opinião Eleições Presidenciais Manuel Carlos Silva Seguro Ventura edicao-2026-02-05 (14)

Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro

Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro.

Manuel Carlos Silva
categoria-opinião Agricultura super-intensiva Alqueva Desertificação edicao-2026-03-05 (18)

Os modernos “missionários da cultura urbana”

Prometeram-nos que as águas de Alqueva iam tornar o Alentejo num paraíso verde. Porém, todas as marcas de ordenamento do território que o homem construiu ao longo de milhares de anos estão desaparecendo. Para além da natureza, serão as pessoas e a cultura que desaparece.

O mundo rural e algumas das suas actividades características – práticas ancestrais ligadas profundamente ao território e à paisagem – estão a ser fortemente atacados pelos modernos “missionários da cultura urbana”, como foram baptizados por alguém com imenso conhecimento e sentido da realidade.

O mundo campesino em que vivemos (os que assim vivem) necessita de ser conhecido profundamente para ser compreendido. A nossa cultura, as suas práticas comunitárias, o território, a paisagem e seus respectivos ciclos, e ainda as suas características geográficas, climáticas e ecológicas, só se conseguem adquirir porque ao longo de milhares de anos se foram aprendendo e passando de pais para filhos. Só quem vive esta prática diária, ou a conhece muito bem, ou ainda quem tem suficiente abertura de espírito para as querer aprender, as pode interpretar na sua grandeza.

Os referidos “missionários da cultura urbana”, ignorantes desta realidade e desconhecedores do que é um regato ou uma terra dobrada, incapazes de diferenciar um sobreiro de uma azinheira, ou de distinguir uma silarca de um champignon parisiense, acreditam que o simples facto de virem da cidade cosmopolita e doutrinada os guinda a poderem impor a sua moral, ignara da experiência centenária que os velhos agricultores, camponeses e pastores acumularam, dia a dia, ano após ano, fortalecendo um conhecimento que só as rotinas de quem vive no campo domina e percebe. Por isso, quando esses artistas aparecem por aí, a quererem dar lições de moral sobre como se tratam os animais, a quererem cantar “à alentejana”, como se fosse simples, a irem para os campos orvalhados com sapatos de trapo, ou a quererem impingir as suas modernidades aos locais, com um certo ar de superioridade, nós, os que por cá se fizeram e aprenderam essas coisas naturalmente com os velhos, simplesmente rimos para dentro, porque não somos de querer desconsiderar quem precisa de aprender muita coisa.

Existe agora outro tipo de “missionários”, mais espertos e mais perigosos, que nos pretendem impingir os seus “negócios” e “investimentos”. E têm conseguido, à força do dinheiro, enchendo o território com novas agriculturas, culturas e processos. Mas quem arca com as consequências para os terrenos agrícolas, com os cheiros, os fumos e as poluições, os venenos a escorrer para os rios e os solos a depauperarem-se somos nós. Como estes “missionários” apenas procuram o lucro fácil e a curto prazo, não estão preocupados com as consequências desta nova agricultura. E os solos vão morrendo, a biodiversidade diminuindo, a paisagem tradicional desaparecendo.

Como estes ‘missionários’ apenas procuram o lucro fácil e a curto prazo, não estão preocupados com as consequências desta nova agricultura. E os solos vão morrendo, a biodiversidade diminuindo, a paisagem tradicional desaparecendo.

Para que os solos se mantenham produtivos, é necessário o uso de adubos orgânicos. Ora, a agricultura super-intensiva, não conservativa, não dá importância à deposição de matéria orgânica no solo. Acresce que a erosão provocada com as práticas do regadio, também os vai tornando “delgados”, sem estrutura. Se os solos não receberem fertilizantes orgânicos, porque esta agricultura apenas usa, e em excesso, adubos minerais, rapidamente se perderão os nutrientes naturais e a terra transforma-se em areia e pó.

Existem alternativas: por exemplo, a transformação dos subprodutos e desperdícios orgânicos agrícolas e o seu aproveitamento. Os restolhos, restos das podas, frutos podres, folhas e outros, devidamente tratados e compostados, podem devolver matéria orgânica à terra. Os próprios bagaços da azeitona e da uva, que costumam ser queimados, podem ser utilizados como nutrientes.

Alguns agricultores, mais conscientes, estão a começar a ficar atentos a estes problemas e iniciam-se nestas práticas. Os novos “missionários”, que só têm interesse em retirar o maior lucro e o mais rapidamente possível, nem se preocupam com o que estão a provocar. Não é para eles. É para os proprietários a quem alugam os terrenos, ou para as empresas que depois de terem alcançado os objectivos calculados, descartam os terrenos como se fossem detritos comuns. Neste momento, os estudos realizados indicam que os valores dos nutrientes no solo estão a cerca de 25% dos necessários. Por outro lado, as culturas de regadio, ao usarem água em abundância e por vezes em excesso, uma vez que os caudais não são controlados, tendem a ir mineralizando o solo. Os processos de desertificação são por isso mais propícios em explorações de regadio.

Apesar deste cenário já ser mau, existem, infelizmente, ainda mais problemas associados a estes “investimentos grandiosos” e ao “desenvolvimento” que todos dizem sempre que é “sustentado”. A agricultura super-intensiva que a água do Alqueva trouxe ao Alentejo tem sido responsável pela destruição de parte do riquíssimo património arqueológico, mesmo classificado, bem como de imensos vestígios de humanidade na paisagem. Para dar espaço aos gigantes mecânicos de rega e para a abertura de uma rede de valas para passagem de condutas de água, tudo vai à frente das máquinas que não olham a nada: pontes e portos nas ribeiras; alinhamentos arbóreos; sebes de protecção dos ventos e das pragas; galerias ripícolas; modulações naturais do terreno; linhas de água; muros de pedra; tanques, poços, noras e sistemas de irrigação das hortas e quinchosos; caminhos rurais de pé posto; estradas sinuosas; espécies vegetais naturais usadas em temperos, mezinhas e chás como os calafitos, a hortelã da ribeira, os poejos e os espargos. Extinguem-se também processos agrícolas tradicionais e seculares; O sistema de troca de sementes entre agricultores e hortelões, para protecção das consanguinidades; os habitats das espécies cinegéticas, pequenos roedores, rastejantes e insectos; os locais de nidificação dos pássaros; espécies naturais e espontâneas como os cardos, as celgas, as alabaças, os catacuzes, os cogumelos, ou seja toda a biodiversidade. Enfim, caminhamos para a completa desertificação quer do solo quer da cultura local, que se transforma numa paisagem lunar, apenas destinada a meia dúzia de espécies, não autóctones, que não permitem e expulsam tudo o que é vida.

Isto é justamente o contrário do que nos prometeram: que as águas de Alqueva iam tornar o Alentejo num paraíso verde. Todas as marcas de ordenamento do território que o homem construiu ao longo de milhares de anos estão desaparecendo. Para além da natureza, serão as pessoas e a cultura que desaparece.

Por mais especialistas e técnicos, planos e departamentos, delegações e demais serviços do Estado, nada é eficaz perante o poder do dinheiro e do “desenvolvimento”. As poucas vozes que se levantam são apontadas pelos interessados nos silêncios como velhos do Restelo e inimigos do desenvolvimento “sustentado”. Este tipo de gente sabe usar as palavras em seu benefício e enganar os cidadãos desatentos, que são a maioria.

categoria-opinião Construção Oeiras Zonas ribeirinhas edicao-2026-02-26 (17)

Construir sobre o estuário do Tejo é terraplenar o futuro

A destruição do passeio marítimo de Algés, entre a Cruz Quebrada e Algés, voltou a obrigar ao encerramento da via pedociclável e está também a causar grandes constrangimentos à circulação de comboios na Linha de Cascais. Porém, o município de Oeiras tem planos aprovados para construir numa zona ribeirinha, vizinha do estuário do Tejo e junto à foz do Jamor e da ribeira de Algés.

Nas últimas semanas, registaram-se perdas irreparáveis de vidas humanas e elevados prejuízos materiais em todo o país. No município de Oeiras, a destruição do chamado passeio marítimo de Algés, entre a Cruz Quebrada e Algés, não é inédita e voltou a obrigar ao encerramento da via pedociclável. Mas desta vez, com um rombo mesmo junto à ferrovia, está também a causar grandes constrangimentos à circulação de comboios na Linha de Cascais, que opera em via única desde 5 de fevereiro.

Perante uma situação complexa, que afeta a vida de milhares de pessoas, a resposta do autarca de Oeiras veio, como habitualmente, em forma de vídeo nas redes sociais. Além de uma obra imediata de contenção do muro para permitir a reposição da circulação ferroviária, defende uma obra mais profunda em toda a extensão do passeio marítimo, com o alargamento do terrapleno cerca de 30 metros para cima do estuário do Tejo.

A ideia não é nova e as preocupações são óbvias face aos dados conhecidos. As alterações climáticas e a subida do nível médio do mar são mesmo para levar a sério.

São precisas soluções de proteção da costa baseadas no conhecimento científico e em estudos técnicos, para que sejam eficazes na sua funcionalidade e na utilização de dinheiros públicos.

Já no estudo encomendado pelo município de Oeiras à Faculdade de Ciências.ID – Associação para a Investigação e Desenvolvimento de Ciências, em 2017, denominado Plano Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas de Oeiras (PMAACO) afirmava-se que as áreas sujeitas a inundações costeiras podem quadruplicar nas próximas décadas, afetando zonas residenciais, vias de circulação e infraestruturas essenciais. O mesmo estudo apontava precisamente o passeio marítimo, a Avenida Marginal e a linha ferroviária como as áreas mais vulneráveis.

Construir mais nestes locais significa aumentar o risco e criar problemas que acabarão por ser pagos por todos

O PMAACO recomendava, por isso, o reforço de defesas costeiras, elevação de infraestruturas, desde logo a cota da linha ferroviária, e outras medidas de proteção, precisamente para reduzir a exposição ao risco. O que não recomendava era construir mais em zonas vulneráveis.

No entanto, é precisamente isso que está previsto, com sucessivas autorizações e até planos aprovados pelo município de Oeiras, para a zona. Numa ponta, o empreendimento imobiliário Porto Cruz, na outra, as instalações da Information Management School da Universidade Nova e, em toda a extensão entre Pedrouços e a Cruz Quebrada, o projeto Ocean Campus. Ou seja, mais e mais construção, numa zona ribeirinha, vizinha do estuário do Tejo e às fozes de um rio, o Jamor, e de uma ribeira, a de Algés.

Construir mais nestes locais significa aumentar o risco e criar problemas que, inevitavelmente, acabarão por ser pagos por todos, quando ocorrerem novos episódios extremos.

É incompreensível a insistência em projetos urbanísticos em zonas reconhecidamente vulneráveis. Todos estes projetos seguem o mesmo padrão: ocupar zonas onde o PMAACO já em 2019 alertava para o agravamento dos riscos climáticos. Por exemplo, na Cruz Quebrada, na foz do Jamor e rente ao estuário do Tejo, não faz sentido construir megaempreendimentos imobiliários, mas sim restaurar a zona – hoje muito degradada e com um passivo ambiental perigoso de amianto –, renaturalizá-la e deixá-la o mais livre possível de construções para prevenir perdas e danos.

O ordenamento do território implica decidir onde faz sentido construir e onde devemos deixar terreno não edificado, permeável à infiltração da água da chuva ou à inundação, precisamente para não colocar pessoas e bens em perigo.

Os riscos estão identificados. O nível do mar vai continuar a subir e os fenómenos extremos vão repetir-se. A questão é simples: escolhemos soluções que reduzem a exposição ao risco ou damos cabo do futuro?

categoria-opinião Chega Deputado edicao-2026-02-26 (17)

Miguel Arruda, o ex-deputado do Chega muito maleável

Os tachistas oportunistas #5

Vejamos o palmarés do deputado Miguel Arruda: primeiro, foi executante da saudação nazi no Parlamento; segundo, foi o único deputado contra o voto de pesar pela morte da escritora Maria Teresa Horta e, terceiro, foi pária, passando os seus últimos dias na Assembleia em jogos relaxantes no telemóvel.

É um caso muito singular e que deu a volta ao mundo. Durante um período de mais de três meses, mais exactamente entre Outubro de 2024 e Janeiro de 2025, o deputado do Chega Miguel Arruda roubou 20 malas no aeroporto Humberto Delgado e enquanto viajante anónimo nas suas deslocações entre Ponta Delgada e Lisboa. À medida que as furtava, ia-as colocando em sua casa ou no seu gabinete na Assembleia da República, tendo também alguns dos pertences alheios sido encontrados à venda na Internet. Porém, foi apanhado e expulso do partido, tendo depois continuado no Parlamento como deputado não inscrito durante alguns meses.

Sabe-se que este eleito açoriano esteve de cara tapada nos finais de 2024 numa manifestação do grupo neonazi 1143, já que era simpatizante do seu líder. Vejamos o palmarés do deputado Miguel Arruda: primeiro, foi executante da saudação nazi no Parlamento; segundo, foi o único deputado contra o voto de pesar pela morte da escritora Maria Teresa Horta e, terceiro, foi pária, passando os seus últimos dias na Assembleia em jogos relaxantes no telemóvel. Não pensem que o Arruda deixou de pensar em malas. Por estes dias chuvosos, quem for ao corredor do metro, no Martim Moniz, fica surpreendido. Abriu uma loja de malas, mochilas, malinhas de mão e outros objectos de viagem mesmo diante de outra que já lá estava há muito tempo e que pertence a um senhor paquistanês chamado Basim Sharif. “Arruda & Arruda”, é o nome do estabelecimento.

Mas o ex-deputado do Chega, na sua febre de fuga para a frente é que é o caminho, não se ficou por aqui. Na Avenida da Liberdade teve o descaramento de abrir uma loja moderna sempre com o mesmo nome “Arruda & Arruda – Artigos baratos de viagem”, mesmo ao lado do famosíssimo estabelecimento francês Louis Vuitton. Não sabemos qual é o objectivo do ilhéu com estes dois comércios. Mas sabemos que ainda continua com sequelas de um lumbago que contraiu em Dezembro de 2024 quando transportava pacatamente malas pesadas por lugares com escadas rolantes e elevadores avariados. Boa sorte ao empreendedor, que a este ritmo empresarial estará brevemente nos corredores dos supermercados e até do Contenente. É que neste ramo de negócio não há nada melhor do que a autopromoção.

categoria-opinião Defesa Civil Forças Armadas edicao-2026-02-19 (16)

Defesa civil ou guerra militar

A Proteção Civil nunca estará apta a cumprir o que dela se exige enquanto não se tornar axial, um imperativo categórico, na sociedade portuguesa.

Em nome daqueles que “não conseguiram evitar a morte”, como a insensibilidade cínica e cretina do primeiro-ministro se referiu às vítimas da tempestade Kristin, no seu jeito peculiar de sacudir a água do capote, não podemos, não devemos, embarcar, não apenas no discurso autodesculpabilizante, mas, e isso é ainda o mais grave, no discurso cinicamente premonitório de que estamos perante forças e circunstâncias que ultrapassam as capacidades humanas e que nos resta apanhar os destroços e acorrer com o que não temos para minimizar os efeitos das catástrofes.

A Proteção Civil nunca estará apta a cumprir o que dela se exige enquanto não se tornar axial, um imperativo categórico, na sociedade portuguesa. Como, aliás, todos sentimos, percebemos e, em geral, estamos prontos a aceitar que assim não seja!

Trata-se de uma escolha radical e decisiva, que é preciso assumir, conjurando as forças populares, os trabalhadores – o resto é conversa – para uma luta sem quartel, para impor a proteção civil a sério, a que chamarei defesa civil, para sublinhar o confronto radical com a defesa militar apodada de defesa nacional: o confronto entre a vida e a morte.

Trocando por miúdos: os cerca de 2 mil milhões que já gastamos anualmente, mais o projeto mortal de cinco mil milhões, que os para-robôs da UE, obedientes a Trump, nos querem impor com o nome de Defesa Nacional, a favor da indústria da morte, a do armamento pró Trump, e em geral pró-império do terror democrático liberal, que se resume à destruição de pessoas e bens, terão que ser convertidos em Defesa Civil: proteção de pessoas, de bens, infraestruturas e património.

Isto significa que as nossas gloriosas Forças Armadas, inspiradas no dia do senhor de 25 de Novembro, necessitam de um real aggiornamento inspirado no mês do povo de 25 de Abril.

Ao serviço do 25 de Novembro neoliberal, as FA têm sido usadas exatamente contra o que se proclama: não uma força de garantia da soberania nacional, mas uma força cúmplice do poder terrorista do imperialismo, na NATO.

As Forças Armadas, a manterem-se, devem ser reduzidas a um mínimo indispensável para o que se pode chamar desfile em parada e defesa imediata.

Assim, em favor da Defesa Civil que é a única que nos interessa, as Forças Armadas, a manterem-se, devem ser reduzidas a um mínimo indispensável para o que se pode chamar desfile em parada e defesa imediata. Para tal, no cumprimento do sempre violado artigo 7º da Constituição da República, temos de começar por sair da NATO.

As ameaças imperialistas devem ser entendidas nas reais condições da nossa inserção nas tensões geopolíticas existentes: nenhuma aliança de defesa significa defesa da nossa soberania.

A definição da nossa estratégia soberana só pode e deve ter como base o respeito pela Carta da ONU e a neutralidade absoluta, reivindicando e impondo total autonomia de decisão nas relações com outras nações no campo da economia, conhecimento e na cooperação pacífica a todos os níveis.

A Defesa Civil, como imperativo categórico, deve ser o instituto que serve o povo na paz e na guerra.

Na paz, dotada de todos os meios humanos e materiais necessários, a subtrair à chamada “defesa nacional”. Trata-se de assegurar a prevenção e resposta necessárias à segurança, proteção atempada e defesa da vida humana em todas as vertentes, de todas as ameaças e de todas as consequências nefastas e prejuízos associados aos desastres naturais, na realidade – desde as inundações, aos terramotos, aos incêndios destruidores –, consequência das alterações climáticas que, curiosamente, estão quase definitivamente arredadas das mais conspícuas preocupações dos gerentes apoderados da vida no planeta.

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Na guerra, se por ela formos atingidos, para acudir em tempo e capacidade aos desastres materiais e humanos por ela provocados ou induzidos, só uma poderosa Defesa Civil tem papel necessário e adequado.

Finalmente, ao contrário da defesa militar, que não passa de despesa sem retorno, fútil e exibicionista, a defesa civil a sério acarretará a criação de fortes dinâmicas na própria economia, no emprego e no serviço público, nomeadamente no ordenamento do território, florestação, urbanização, transportes, saúde, ensino.

Estamos, pois, perante o grande desafio dos nossos dias: guerra ou paz.

Só os trabalhadores, e só eles, estão interessados na paz. Os que os exploram dão tudo por uma boa guerra.

Ou seja, só os trabalhadores e a sua luta, em todos os campos, podem impedir a guerra e assegurar a resposta necessária aos desastres e calamidades que só a eles afetam verdadeiramente.

Os trabalhadores, e os estudantes, obrigo-me a acrescentar, lembrando as cheias de 1967 e as cerca de 700 vítimas mortais pelas condições miseráveis e de insegurança em que as famílias trabalhadoras eram obrigadas a viver. Como, aliás, hoje de novo aí as temos.

A catástrofe mobilizou centenas de estudantes da universidade, nomeadamente do Técnico, e mesmo dos liceus, em socorro e apoio às vítimas. O contacto com essa realidade, escamoteada pelo governo fascista, a evidência das condições desgraçadas em que viviam milhares de trabalhadores e suas famílias, traduziu-se num chamamento à intervenção política, donde se constituiu uma importantíssima massa de militância revolucionária, laica e católica, que, sete anos depois, teve papel importantíssimo no 25 de Abril e no PREC.

É gente desta estirpe que vai calcetando o verdadeiro caminho da paz: acabar com a exploração para uma sociedade ecossocialista.

categoria-opinião Pacote Laboral Trabalho com direitos UGT edicao-2026-02-19 (16)

A UGT e a proposta “Trabalho com direitos XXI”

As propostas da UGT alteram dezenas de artigos do nosso Código do Trabalho. O documento, segundo a UGT, não pretende ser uma tomada de posição sobre o anteprojeto do Governo, mas uma alternativa.

Depois de o Governo ter apresentado, em 24 de julho de 2025, o seu anteprojeto de revisão da legislação laboral, a que atribuiu o nome de “Trabalho XXI”, a UGT veio recentemente dar o seu contributo nesta matéria, tendo entregado ao Governo a sua proposta no dia 4 de fevereiro, a que chamou, sugestivamente, “Trabalho com direitos XXI”.

As propostas formuladas pela UGT são extensas, constam de um documento com mais de 30 páginas e alteram dezenas de artigos do nosso Código do Trabalho, sendo impossível, claro, condensá-las neste pequeno texto. Mas importa, ainda assim, deixar aqui algumas notas breves a este propósito.

A primeira, e talvez a mais importante, para sublinhar que esta não é uma contraproposta da UGT ao anteprojeto do Governo. Quanto a isso, a UGT reafirma que já tomou posição: “Esse Anteprojeto, pelo manifesto desequilíbrio que apresenta, com a totalidade das propostas a favorecerem o lado empregador, e pelos conteúdos gravosos que contém, com cortes de direitos em áreas centrais para os trabalhadores e os seus representantes, mereceu desde logo o rotundo não da UGT e dos seus Sindicatos”. Aliás, “essa posição de não partilha da visão do Governo para a legislação do trabalho e para a vida das empresas e trabalhadores foi expressa em parecer emitido em setembro de 2025, no qual a UGT não apenas emitiu posição sobre as propostas do Governo, assinalando nomeadamente aquelas que se revelam inaceitáveis, como apresentou um conjunto de novas matérias e propostas que gostaria de ver discutidas”. Assim sendo, a UGT é clara: “O presente documento não pretende ser uma tomada de posição sobre o anteprojeto do Governo”.

Seria um erro, para os sindicatos, permitirem que o Governo balizasse a discussão, centrando-a no conteúdo do [seu] anteprojeto.

Creio que este ponto é muito importante, porque mostra que a UGT – e bem – não se deixou acantonar nos temas eleitos pelo Governo quando elaborou o respetivo anteprojeto. Seria um erro, para os sindicatos, permitirem que o Governo balizasse a discussão, centrando-a no conteúdo do anteprojeto. A UGT adotou outra estratégia: olhou para a atual lei e formulou um conjunto de propostas de alteração dessa lei, sem privilegiar as matérias contantes do anteprojeto governamental. O Governo apresentou as suas propostas, a UGT fez o mesmo: o diálogo resultará do cruzamento dessas diversas propostas, sem dar especial relevo àquelas que o Governo fez constar do seu anteprojeto.

A segunda nota, relativa ao teor das propostas apresentadas pela UGT, serve para sublinhar que nas mesmas se deteta, sobretudo, uma preocupação com a valorização dos direitos de quem trabalha, designadamente em matéria de remuneração e outros direitos de índole patrimonial: acréscimos no pagamento do trabalho noturno e suplementar, regime legal dotado de imperatividade mínima nestas matérias, aumento significativo da compensação devida ao trabalhador em caso de caducidade dos contratos a termo, certo ou incerto, aumento da compensação devida ao trabalhador que seja alvo de um despedimento coletivo, por extinção do posto de trabalho ou por inadaptação, majoração da indemnização devida ao trabalhador em caso de despedimento ilícito sem reintegração, etc. A par disto, as propostas da UGT centram-se também num outro tema muito importante, o da redução dos limites do período normal de trabalho, diário e semanal (propõe-se a consagração da regra das 7 horas por dia e 35 horas por semana), medida que, por seu turno, aparece associada à recuperação do projeto da “semana de trabalho de quatro dias”, sem perda de retribuição.

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Naturalmente, muitas outras matérias constam desta proposta, desde férias e faltas, até diversos aspetos relativos a direitos coletivos (atividade sindical na empresa, manutenção de efeitos da convenção coletiva após a sua caducidade, etc.). Mas, em termos gerais, o contraste entre esta proposta da UGT e o anteprojeto do Governo é evidente: a UGT situa as suas propostas no rumo que havia sido traçado pela Agenda do Trabalho Digno, em 2023, procurando fazer agora o que então não foi feito, sobretudo relativamente a muitos direitos suprimidos no tempo da Troika e que nunca chegaram a ser repostos; o Governo, pelo seu lado, parece retomar a linha de rumo adotada pelo Código de Trabalho de 2003 e pela legislação da Troika, guiando-se não tanto pela ideia da dignidade do trabalho, mas sobretudo pela flexibilidade do mercado de trabalho e pela competitividade empresarial, mesmo que à custa da degradação do estatuto dos trabalhadores e da promoção da precariedade.

Isto dito, fica difícil imaginar que estas duas propostas possam encontrar-se a meio caminho e contrair matrimónio. Mas, confesso, se tal não suceder, se o Governo não abandonar as suas posições maximalistas e rumar ao parlamento sem acordo, não custa adivinhar o que irá suceder: o Governo vai colocar-se nas mãos do Chega. E colocar-se nas mãos do Chega, admitir aprovar uma profunda reforma das leis do trabalho com esse partido salazarento, justamente no ano em que se assinala o 50.º aniversário da Constituição da República, seria, isso sim, um autêntico despautério!

categoria-opinião Cidade Habitação edicao-2026-02-19 (16)

Bairros problemáticos

O preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo. Grande parte deste bolo é artificial, alimenta agiotas, intermediários, certificações e especuladores.

A serpente convenceu-os a comer a maçã proibida e logo foram expulsos do paraíso. No paraíso não precisavam de casa, dado que uma atmosfera amena dispensava o abrigo ou condições de conforto excepcionais. Se no paraíso não necessitavam de casa, dispensavam ainda agricultores, cozinheiros ou médicos, já que no paraíso os frutos caíam-lhes das árvores sobre a boca, da mesma forma que não consta que no paraíso alguém ficasse doente. Eva e Adão representam o primeiro caso de expulsão do lugar onde viviam, motivado pela transgressão dos valores morais divinos, momento equiparável aos que hoje não conseguem ser proprietários ou suportar os valores da renda de uma casa. Adão e Eva, fora do Éden, tiveram de procurar abrigo: primeiro numa caverna e depois, fartos da escuridão, com os troncos e ramagens que tinham à mão construíram a primeira cabana, momento tectónico que marca o aparecimento da arquitetura. Uns milénios mais tarde, nas visões protestantes puritanas, a maçã volta a servir de metáfora, mas desta vez a alusão é um pouco diferente: centra-se nos perigos da maçã desalinhada dentro do cesto, capaz de contaminar as demais maçãs, tenras, que de forma individual aspiram a ser ricas, tão ricas como as maçãs brilhantes que aparecem nos canais cor-de-rosa. Nascidos na cabana ancestral, Abel e Caim vieram a marcar a tensão fatal entre os possuidores de terra e os alienados da mesma. Abel representa o pastor nómada e Caim o agricultor proprietário que de forma violenta domesticou a terra e ergueu muros para a delimitar.

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Nos milénios intermédios, entre os dias da criação e os dias de hoje, tivemos ajuntamentos e múltiplas organizações: nómadas, pequenos povoados, cidades erguidas, palácios erguidos sobre elas, depois conquistadas ou destruídas, segundo um palimpsesto constante. Se os mitos nos ajudam a entender parte deste processo, os vestígios arqueológicos dos antigos assentamentos humanos são autênticos documentos que prestam informações vitais sobre a ocupação do território e sobre a organização política das comunidades humanas. Numa abordagem sobre este tema, em O princípio de tudo, um livro escrito entre David Graeber e David Wengrow (Bertrand, 2022), ressaltam dados importantes sobre os caçadores-recolectores da pré-história, comunidades que alternadamente viviam entre a viagem e a prática agrícola sedentária. De alguma forma desmontam a linha histórica que aprendemos na escola, que resume a revolução agrícola a um único episódio. Graeber e Wengrow dizem-nos ainda que muitos dos pulos civilizacionais foram dados em comunidades mais colaborativas, algo que os cientistas que estudam primatas já detectaram há muitos anos: comunidades de macacos territoriais e competitivas tendem a destruir-se, ao passo que as comunidades mais colaborativas e matriarcais tendem à prosperidade social.

As formas de habitar decifradas pela história e escavadas pela arqueologia dizem-nos muito sobre os ciclos políticos, sendo curioso comparar os totalitarismos do passado com o totalitarismo financeiro que comanda o mundo dos nossos dias, cada vez mais desigual, digital e distópico. A apropriação da cidade segundo a condição económica dos mais fortes é hoje demasiado assumida, sendo impossível negar que a cidade de hoje esteja a gerar fenómenos de gentrificação e distúrbios ambientais. Num interessante trabalho designado A Cidade Neoliberal (Deriva Editores, 2018), Ana Estevens fala-nos de uma cidade participada e em permanente conflito: de ideias, diferenças ou modos de estar, versus uma cidade neoliberal violenta: “homogénea, submissa, segura, a-conflituosa, competitiva, e em que não se conhecem, vivem alheados”.

A cidade atual não se deixa explicar pelo que observamos em domínios tão concretos como o seu ordenamento.

Os mitos lá tentam explicar o mundo e a cidade atual não se deixa explicar pelo que observamos em domínios tão concretos como o seu ordenamento: condomínios de luxo blindados ou bairros problemáticos construídos sobre áreas de elevado valor ambiental para os ricos; áreas disléxicas e desagarradas para uma população há muito degradada. Em Portugal temos hoje mais de treze mil pessoas que vivem nas ruas (na Europa, cerca de 1,2 milhões), número muito superior quando comparado com a crise da heroína dos anos 80. Nos EUA, país que nos vendeu o modelo do homem bem-sucedido, montado num descapotável devorador de dólares, temos hoje quarenta milhões de pobres, condicionados no acesso a uma casa, educação plena dos seus descendentes ou direito ao elementar acesso aos cuidados de saúde. Foi essa face da América, do sonho, onde tudo é imenso, incluindo a casa, a piscina e os clichés de Hollywood, que participou no desenho da paisagem da velha Europa: cidades temáticas rodeadas de vias rápidas entre shoppings e não-lugares logísticos. Se nos arredores das nossas cidades isso parece evidente, na província vemos o mesmo fenómeno: supermercados de alumínio pechisbeque (iguais em todo o lado), construídos pelas empresas de retalho, numa permanente competição entre si, sem qualquer relação com os contextos locais, assoladores do comércio local.

Por seu turno, o preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo. Grande parte deste bolo é artificial, alimenta agiotas, intermediários, certificações e especuladores. Neste regime de eficácia, excluem-se as artes, a arquitectura, os experimentalismos ou a utopia de um mundo melhor. Tudo tende à normalização, onde a IA e os BIM’s (Building Information Modeling /Modelagem da Informação da Construção) parecem convergir, prometendo mais celeridade e a superação da participação humana na ética de construir ou fazer cidade.

categoria-opinião Rural Urbano edicao-2026-02-19 (16)

Portugal a três tempos: a ideologia urbana e a resistência rural

Numa mentalidade nacional onde o ser rural ainda é pacóvio e o urbano é cosmopolita, veremos ainda o coletivo rural a levantar-se do chão, revoltando-se contra a opressão que o quer curvar?

Na banalidade do dia a dia somos algumas vezes confrontados com o discurso existencial da dualidade de realidades em Portugal, o mundo urbano e o mundo rural. Se de um lado é mera perceção politizada, para o outro é a realidade material do quotidiano e não é apenas atual, tem raízes históricas, criando moldes sobre como interpretamos as vivências diferenciadas entre a mente urbana e o coletivo rural moderno.

Se houve movimento cultural que dissecasse essa dualidade foi o neorrealismo português, nomeadamente, a sua expressão literária com autores de renome da intelectualidade popular portuguesa como o antropológico Alves Redol, o incisivo e crítico Saramago, o deambulante Fernando Namora ou o fugaz, mas eterno, Soeiro Pereira Gomes.

Numa leitura de Levantado do Chão, de Saramago, encontramos a narrativa romanesca dos tempos da opressão salazarista onde o rural é confrontado com a miséria da política urbana e centralista de um governo desfasado da realidade material dos trabalhadores rurais, muitos deles ambulantes da lavoura, malteses não por vocação, mas por sujeição à dureza da vida. O brilhantismo desta obra está no contar da história, esta de linguagem mundana, adequada aos tempos e à pessoa comum, que coletiviza o sofrimento diário de quem se castiga pela sobrevivência em contradição com as instâncias que criam este ambiente de aceitação e exploração, como a Igreja ou os agentes policiais ao serviço daqueles urbanos materialmente superiores, moralmente inferiores.

Este retrato duro, no seu sentido mais lato, é uma descrição fiel daquilo que foi, durante décadas, o Portugal a dois tempos. É daqui que partimos até à atualidade, uma vivência diferente, em virtude da passagem do tempo, mas herdeira da lógica antiga. O Portugal atual é um Portugal a três tempos, um confronto entre uma lembrança histórica e o progresso desalmado e frio.

O primeiro tempo é aquele centralismo focado no urbano, desprovido das certezas que o interior enfrenta. A sua análise governativa é feita em laboratório, calculam-se as variáveis, gerem-se as incertezas e planeia-se o lucro. É certo que é o motor do progresso, mas a questão que se coloca é: progresso para quem? Afinal, o progresso técnico, à luz da crítica gramsciana, serve realmente à população local? Ou é mera formatação urbana à realidade rural? Não será mera coincidência. Fabrica-se consentimento na ausência de força de contestação para se cimentar a hegemonia de que em Lisboa se cria o futuro, seja este para o coletivo nacional ou apenas para os sujeitos litorais.

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Mas se a desruralização é intencional, o progresso urbano é faseado e entra em embate com o sujeito que pretende, paradoxalmente, extirpar e explorar: o sujeito rural. Entra assim o paradigma que é o segundo tempo, um híbrido semiperiférico que existe numa dialética eterna. Isto é, numa contradição entre a pressão moderna de se urbanizar – em torno de um progresso técnico que é desvirtuado da necessidade local – e a resistência da etnografia rural que vive na simplicidade da sua realidade material.

É também síndrome do modelo de desenvolvimento urbano que expulsa para estas zonas semiperiféricas os trabalhadores citadinos que fogem à crescente pressão dos altos custos de vida, fruto da gentrificação importada. Reduz-se assim a expressão destas zonas como meros “dormitórios” dos grandes centros urbanos.

Mas a questão não é romantizar nem enaltecer uma vida frugal e arcaica num meio rural, elevando o espírito ao contacto natural, como diria Agostinho da Silva. A intenção é, sim, alertar que este encontro entre o planeamento central e o território é desfasado da realidade material e cultural do local, afinal, e questionando novamente, a quem serve afinal este modelo de progresso industrial?

Por fim, entra a tragédia do esquecimento, o território periférico, rústico por intenção e propositadamente silencioso. Entra, assim, o Portugal a terceiro tempo, uma periferia que outrora albergava uma riqueza de tradição humana que foi esvaziada com o trajeto do tempo, fosse pelo êxodo rural ou pela massiva emigração. E mantém-se neste estado situacional, onde o Governo central falha em ir ao encontro, mas onde o capital chega para a extração, seja pela monocultura que esgota os solos e água, seja pelo eucaliptal intensivo que nos recorda anualmente que ali existe população que sofre as amarguras dos efeitos de um território desprovido de governação ajustada à vontade local.

Em terra de poucos ou nenhuns, a exploração é santa, o lucro é sigiloso e a demografia é silenciosa.

O seu estatuto de resistente rural não é por conservadorismo cultural, mas por negligência estatal, ao deixar no abandono vasto território desprovidos de meios materiais para um progresso significativo e natural ao território. Esta vontade é reduzida e já pouca contestação consegue fazer, pois em terra de poucos ou nenhuns, a exploração é santa, o lucro é sigiloso e a demografia é silenciosa, sendo subvertida à lógica central de quem vê Portugal através de números e ouve o povo apenas em tempos eleitorais.

No entanto, seria ingenuidade achar que não existe também uma elite que, por vassalagem à tecnocracia cosmopolita ou por genuína vontade capital, beneficia deste silêncio populacional. Onde o poder político nacional se retira, alia-se o poder político local com o importado capital, impondo a sua presença – em nome do desenvolvimento, dizem eles. Mas geram-se frutos que o trabalhador local vê passar, mas não prova.

Da crítica não se pretende destratar o progresso, mas sim refletir em que moldes esta aventura política de vários governos proporcionou um desenvolvimento claro e equitativo para a realidade material. Afinal, a linha do tempo demonstra que o nível de desenvolvimento se dilui à medida que se vai perdendo Lisboa de vista.

Revela-se então uma hegemonia urbana que se espalha por um território nacional desigual, tanto na sua demografia como na sua etnografia, uma demonstração de que a questão geográfica é, na sua essência, uma questão de classes. Não serve para opor o trabalhador rural ao trabalhador urbano, mas sim para denunciar a contínua mentalidade cosmopolita que despreza o ser rural, no sentido existencial de ser, mas que o explora ao sabor do lucro e à distância de um clique.

Numa mentalidade nacional onde o ser rural ainda é pacóvio e o urbano é cosmopolita, será isto um sintoma da sociedade? Ou será a herança bastarda do Estado Novo que, intencional ou não, foi perpetuada pelo poder político? Ainda se alimenta as elites lisboetas com a exploração da precariedade do trabalhador ribatejano?

No final de Levantado do Chão, vemos o coletivo a levantar-se do chão, revoltando-se contra a opressão que os quer curvar. A questão que coloco é: ainda temos alguém disposto a levantar-se do chão? Ou iremos continuar vergados à apatia da governação?

categoria-opinião Oeiras Ordenamento Territorial edicao-2026-02-12 (15)

O regime de Isaltino

Em Oeiras, nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país.

A atração de investimento em Oeiras e a cada vez maior visibilidade mediática destacam um estilo de liderança. Simultaneamente, movimentos de cidadãos entre os quais se destaca o Movimento Evoluir Oeiras têm salientado desafios estruturais como o ordenamento do território sustentável, a adaptação às alterações climáticas ou a mobilidade, que a ânsia da dispersão urbana não contempla.

A gestão autárquica de Isaltino Morais não é por isso conhecida pela forma como silencia a oposição em reuniões de câmara, a desconsideração da participação pública e a falta de compromisso pela transparência, pelo congestionamento automóvel, pelas cheias urbanas crescentes e toda a gama larga de despesismos e obras de fachada, suportado nos estratosféricos gastos em propaganda: 1,3 milhões de euros só em diferentes aquisições para comunicação, redes sociais e marketing no último mandato 2021-2025. É obra.

O sucesso, esse, reside na especulação de solos, que é aliás uma das nossas melhores indústrias nacionais. Há décadas que Isaltino Morais a promove, agora embrulhada em fortes campanhas de marketing e numa estratégia de marca “Oeiras Valley”.

Vamos recordar: nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país, tendo como resultado geral mais tráfego automóvel e o afastamento de um modelo metropolitano compacto, sustentável e estruturado no transporte público pesado existente.

O sucesso reside na especulação de solos, que é aliás uma das nossas melhores indústrias nacionais.

Isto aconteceu. Mais grave é que, ignorando todos os impactos e externalidades, 40 anos depois a receita continua a mesma, quando o paradigma deveria ter mudado com a alteração do Regime dos Instrumentos de Gestão Territorial (RJIGT) em 2014, desenvolvido pelo então ministro do PSD, Jorge Moreira da Silva, apontando precisamente para a contenção dos perímetros urbanos. Em 2015, António Costa chegou a defender, e estava no seu programa eleitoral, áreas metropolitanas com verdadeiros poderes de decisão. Contudo, em 2019, essa ideia misteriosamente desapareceu do seu programa, deixando decisões estratégicas de claro impacto regional alicerçadas na esfera municipal.

Convém aqui também recordar o regresso de Isaltino Morais a Oeiras em 2017: regressa depois de cumprir pena de prisão por fraude fiscal e branqueamento de capitais, na sequência de um processo judicial iniciado com a investigação de contas bancárias não declaradas na Suíça onde depositou mais de 1,3 milhões de euros e onde, na sentença, os juízes sublinham que o arguido nunca demonstrou arrependimento.

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Refinado na sua receita de sempre quanto aos solos, juntou-lhe a ideia falaciosa de que é preciso construir mais para resolver o acesso à habitação, contra a lógica do RJIGT, e com isso fez aprovar em 2022 o seu Plano Diretor Municipal de Oeiras (PDMO), em claro desacordo com o espírito da lei. Isaltino trata a proteção de solos de elevado valor como radicalismo ambiental e desvaloriza a importância da produção local no novo contexto de circuitos curtos. É mais fácil a via verde extraordinária das mais-valias privadas, um verdadeiro “tanque de combustível”. O rosto do “construir-se mais e mais investe, porém, em apoios sociais, faz mais habitação pública do que a generalidade dos municípios portugueses e toma posição contra o líder da extrema-direita, aproveitando a popularidade crescente nas redes sociais e nas televisões. E é aqui que a esquerda cai na armadilha: Com o aparecimento da extrema-direita, um discurso moderado, a imagem de proximidade e a atenção às questões sociais deslumbram os mais incautos, trazendo a balança para o centro, apesar do modelo de ordenamento territorial liberal que poderia ter sido pensado pela Iniciativa Liberal.

Quando vemos Daniel Oliveira ou Mafalda Anjos a elogiarem sucessivamente o autarca de Oeiras, percebemos a dimensão do equívoco, que já não é local.

Foi a pensar para além de Oeiras que surgiu o seu empenhado investimento na figura do almirante Gouveia e Melo para Presidente da República. Não correu bem desta vez, mas não deixa de ter o sistema na mão.

categoria-opinião Emigração Imigração Suécia edicao-2026-02-12 (15)

7305 dias depois

Quando cheguei à Suécia, como qualquer emigrante que se preze, tinha como objectivo ficar apenas dois anos. Tudo era novidade. Jogging na neve? Por que não? Férias em sítios frios? Claro que sim. Salmão com batatas? Que iguaria.

Há exactamente 7305 dias saí de Portugal. Apanhei um voo para Dublin e daí para Gotemburgo. Queria fazer qualquer coisa diferente e, se possível, ver um bocado do mundo.

Trabalhava há cinco anos na Autoeuropa, a “empresa modelo”, e não raras vezes, no fim do dia, chegava ao carro, naquele enorme parque de estacionamento, e deixava cair umas lágrimas. Para quem nunca quis ser engenheiro, o trabalho que ali fazia apenas acumulava frustração à que já trazia de casa. Tinha colegas fantásticos, mas um conjunto de tarefas que não me diziam nada.

Quando cheguei à Suécia, como qualquer emigrante que se preze, tinha como objectivo ficar apenas dois anos. A minha vida mudou antes de Passos Coelho nos aconselhar a procurar oportunidades longe de Portugal ou de a troika voltar a meter a emigração com números dos tempos da guerra colonial.

Os primeiros anos foram fáceis. Tudo era novidade. Jogging na neve? Por que não? Férias em sítios frios? Claro que sim. Salmão com batatas? Que iguaria. Mar sem ondas? Que confortável.

Entrei sem dificuldades numa sociedade organizada onde tudo parecia acontecer por magia. Lembro-me de ligar para casa a contar que o IRS se entregava com um SMS e a palavra “sim”. Quando o meu filho nasceu, comecei a ter acesso ao famoso estado social, que tudo cobre na educação e na saúde. Os impostos, altíssimos, eram vistos como uma medida de progresso e organização social justa. Se o socialismo se aplicava algures como eu o imaginava, aquilo seria, provavelmente, o mais próximo que veria.

Os contratos de trabalho feitos de acordo com a concertação social e o movimento sindical presente em todas as áreas profissionais. Mais emprego do que trabalhadores, uma economia pujante que, mesmo em períodos de crise, recuperava rapidamente nas costas do seu enorme tecido industrial e produtivo.

Ao fim de alguns anos, os regressos, especialmente os regressos no fim de cada verão, começaram a ficar mais difíceis. Algumas pessoas saíram da minha vida, outras foram envelhecendo, outras cresceram para perfis que perdi. O tempo começou a ser contado e a vista da janela do avião, deixando Lisboa para trás, passou a ser cada vez mais dolorosa. Na Suécia, o relativo sucesso profissional nunca ofuscou a falta de proximidade nas relações pessoais. Há momentos na vida em que uma sociedade desorganizada se aceita em troca de um abraço.

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Foi por essa altura que, a cada Setembro, concorri a vagas de emprego na esperança de poder voltar. Em cada uma dessas vezes interrompia as entrevistas no mesmo sítio. Os anos iam passando e os salários praticados eram, sem tirar nem pôr, os que tinha deixado na Autoeuropa. Com a pequena diferença de que o custo de vida em Portugal não parava de crescer. Em resumo, íamo-nos tornando mais pobres com o passar do tempo.

Fui assistindo a tudo, enquanto as facções do ódio cresciam com o aparecimento da extrema-direita. Primeiro na Suécia e depois em Portugal. Hoje representam essencialmente o mesmo eleitorado nos dois países. Um em cada cinco vota no Chega ou no SD. Portugal crescia na pobreza e nos conflitos sociais. A Suécia ia-se tornando mais avessa a imigrantes. Nenhum me parecia, ou parece, particularmente apelativo. Nada disto estava no plano inicial da emigração.

Não sou, nem nunca fui, ingrato para com o meu país de acolhimento. Tudo o que profissionalmente atingi e aprendi devo-o, em exclusivo, às oportunidades que ali tive. Cumpro hoje 20 anos de emigração e tentei, sempre, contribuir para aquela sociedade, com trabalho e responsabilidade social.

Tenho, por razões óbvias, uma imensa dificuldade em compreender o ódio aos imigrantes e toda a narrativa usada para nos dividir.

Chegado ao dia de hoje e quando penso no assunto, fá-lo-ia novamente? Provavelmente, sim. Mas a estrada teria sido outra e o destino final também. Passei na Suécia os momentos mais tristes da minha vida, mas também os mais felizes. Guardo pessoas que ficarão na minha memória para sempre e outras, como é normal, cuja passagem e nomes já esqueci.

Em 2006 imaginava que, no regresso, teria no meu país um porto seguro de acolhimento. Cresceram as auto-estradas, aumentou o turismo, multiplicaram-se os casos de corrupção. No essencial, parece-me, encontro um país pior do que aquele que deixei. Mas admito que possa ser apenas a desilusão de perceber que já não terei tempo de ver o país imaginado.

Tenho, por razões óbvias, uma imensa dificuldade em compreender o ódio aos imigrantes e toda a narrativa usada para nos dividir, usando apenas quem, como eu e outros, um dia quis fazer algo diferente para melhorar as condições de vida.

7305 dias depois já não tenho a certeza de querer envelhecer em Portugal. Esta era, curiosamente, a única certeza que tinha quando parti.

O tempo passou, para mim e para todos. Só para Portugal é que parece ter parado. Quiçá regredido, até aos loucos anos 30 do século passado.

categoria-opinião Imprensa Liberdade edicao-2026-02-12 (15)

Nos 80 anos do Jornal do Fundão

O Jornal do Fundão, que agora perfaz 80 anos, não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução.

Antes do 25 de Abril, para além do República, comprava religiosamente numa tabacaria do Rossio, em Lisboa, três jornais: o Notícias da Amadora (aqui perto de Lisboa), o Comércio do Funchal, dirigido pelo Vicente Jorge Silva, e o Jornal do Fundão, de António Paulouro. Nenhuma relação tinha com a Amadora, o Funchal e o Fundão. Comprava-os porque eram jornais diferentes, via neles uma luz social diferente, via neles o que ainda hoje vejo no Jornal do Fundão: um jornal de causas, a luta e a defesa por uma ampla justiça social que a todos iguale.

Antes do 25 de Abril, a luta oposicionista pela democracia; depois do 25 de Abril, a luta pela valorização do interior a todos os níveis.

A minha preferência atual pela leitura do Jornal do Fundão reside na sua capacidade semanal de desafiar o centro (Lisboa) e as instituições centrais do Estado.

O Jornal do Fundão é, todas as semanas, como voz popular, um jornal incómodo para a ordem instituída em Portugal, um combatente da liberdade, da igualdade e da justiça social.

A sua antiguidade (80 anos é muito ano) podia dar-lhe um lugar de conforto de burguesia provinciana satisfeita. Mas não, as suas páginas são escritas a partir do confronto com o centro em função do que devia ser o dever deste como pessoa de bem e de que se exime, ou o cumpre concedendo migalhas.

O Jornal do Fundão é, todas as semanas, como voz popular, um jornal incómodo para a ordem instituída em Portugal, um combatente da liberdade, da igualdade e da justiça social. Traz consigo essa marca antiga do seu fundador, a palavra sempre suspeita de quem recusa a neutralidade.

O Jornal do Fundão não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução. É nutrido por uma fidelidade obstinada aos mais frágeis, aos que não cabem nos discursos dominantes nem nas narrativas oficiais.

Assim espero que continue muitos anos.

categoria-opinião Eleições Presidenciais Maio edicao-2026-02-05 (14)

Desventurazinhas

Esta é uma resposta ao texto “O desventura”, publicado por Jorge Costa (BE) no esquerda.net em que, na parte final (aquela que fica na retina do espectador) pega num alfinete para atacar uma suposta opção do Maio pelo apelo à abstenção na segunda volta das presidenciais.

Jorge Costa, dirigente e ex-deputado do Bloco de Esquerda, aproveitou um texto publicado no esquerda.net para um ataque ao jornal Maio.

Saúdo e compartilho a sua tomada de posição sobre a necessidade de votar, na segunda volta das presidenciais, contra Ventura – e em António José Seguro, não em branco ou abstendo-se, para achatar ao máximo o resultado do candidato fascista.

Já não saúdo nem aprecio a forma “capelista” como termina o seu texto, tentando associar o jornal Maio a uma tomada de posição pela abstenção na segunda volta das eleições presidenciais. O Maio, ao contrário do esquerda.net, onde publica o seu texto, não é um jornal de partido. Nestas presidenciais convidou apoiantes de diversas candidaturas de esquerda a explicarem as razões do seu voto neste ou naquele candidato, incluindo a de António José Seguro, a de António Filipe e a candidata do Bloco, Catarina Martins, entre outros. Ninguém defendeu a abstenção, nem para a primeira, nem para a previsível segunda volta. No meu caso, quando defendi o voto na primeira volta em André Pestana, pronunciei-me até sobre a segunda: “Numa segunda volta, em face do que se perspetiva, o meu voto será quase certamente um voto contra. Então se o candidato fascista estiver presente, votarei obviamente contra ele. Contra o fascismo, votaria até numa mula, se fosse preciso.”

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No seu texto, Jorge Costa optou por separar dos parágrafos imediatamente anterior e posterior a uma frase de análise em que se critica a “conivência do PS e seus parceiros com a austeridade”, e se refere que “martirizado(s) pelas políticas de José Sócrates e da ‘geringonça’”, alguns se abstêm, “porque não ve(em) alternativa, não porque se esteja(m) nas tintas para Ventura ganhar”, aquilo que aí se afirma: “Uma vitória de Ventura significaria uma ameaça iminente de violenta degradação dos direitos, liberdades e garantias” e “Pode-se derrotar o fascismo nas urnas, mas só momentaneamente; definitivamente, o fascismo só se derrota nas ruas, nos locais de trabalho, na greve, na luta, na cooperação, nos movimentos associativos e culturais.”

Absolutamente claro, a menos que se esteja com os óculos embaciados.

Aprendi ao longo da vida que para qualquer combate, sobretudo os mais importantes, se procuram aliados, não se inventam inimigos.

Vamos lá derrotar o Ventura!

PS: Balanços sobre a desventurada política do Bloco durante a “geringonça” já há muitos e não é o momento de aqui fazer mais um.

categoria-opinião Eleições Presidenciais Manuel Carlos Silva Seguro Ventura edicao-2026-02-05 (14)

Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro

Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro.

Como é sabido, as escolhas dos Portugueses na primeira volta das eleições presidenciais fixaram-se em dois candidatos: António José Seguro e André Ventura. A candidata e candidatos de esquerda Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto, assim como os responsáveis do PS, do PCP, do BE e do Livre e doutros grupos sociopolíticos minoritários, não obstante as críticas na primeira volta a António José Seguro, não tiveram qualquer hesitação em declarar e recomendar a votação neste candidato na segunda volta. Num segundo momento, diversos (ex)responsáveis e figuras do PSD, da IL e do CDS têm vindo a declarar o seu voto em Seguro, considerando as ameaças à democracia representativa e entorses ou mesmo violações, por parte de Ventura, perante o figurino constitucional dos poderes do Presidente da República. O que já é difícil de entender é que, dadas tais ameaças aos princípios constitucionais e à própria democracia representativa, Luís Montenegro, como primeiro-ministro, perante este dilema, normalize o Chega e não se defina por razões calculistas e táticas, nomeadamente a de necessitar do Chega para alguns projetos-lei no quadro parlamentar, certamente lesivos da maioria dos Portugueses como, por exemplo, a contrarreforma do pacote laboral, tal como sucedeu com as leis sobre a imigração e a nacionalidade.

Se, no passado, nomeadamente entre os séculos XVI e XIX, a Europa expandiu parte de suas populações no contexto da colonização noutros continentes, a partir dos anos 1920-30, e sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, conheceu uma evolução em sentido inverso, ou seja, tornou-se importadora líquida de força de trabalho estrangeira por maior acumulação de capital nos países centrais e sobreabundância de mão de obra nos países periféricos. Estas migrações, embora não sejam as causas da atual reemergência do racismo na Europa, proporcionam o contexto, a ocasião ou o pretexto para partidos de extrema-direita como o Chega se aproveitarem das situações de descontentamento e até raiva perante efeitos de políticas neoliberais de sucessivos governos, corresponsáveis do agravamento das desigualdades sociais, da degradação das políticas públicas do ‘Estado Social’ sobretudo nas esferas da saúde, da educação e da habitação, provocando um mal-estar e insegurança socioeconómica de largas franjas das classes populares autóctones. Assim o Chega, como outros congéneres na Europa, não é antissistema, nem apresenta reais soluções para os problemas, mas aponta demagogicamente as minorias étnicas (vg. ciganos) e imigrantes como os ‘bodes expiatórios’ da situação de privação e sofrimento; acicatam o ódio a imigrantes negros e asiáticos, reforçando crescentes tensões e clivagens entre imigrantes e população autóctone, nomeadamente a mais empobrecida. Esta clivagem, contaminando outras forças de direita pela indevida e não comprovada associação de imigração com insegurança e criminalidade, é potenciada pelo facto de haver pessoas desinformadas e manipuladas por alguns media, redes sociais e pelo próprio Chega, sentindo-se aquelas receosas de perder os seus lugares face aos “vindos de fora”. Dada a baixa consciência política de camadas das classes populares e inclusive a presença de preconceitos de supremacia branca, estes são reforçados pelo Chega, nomeadamente por Ventura, que não se cansa de (i) elogiar a ditadura de Salazar (e a necessidade atual de “três Salazares”!), negar o sistema esclavagista implantado pelo secular colonialismo português e propor a deportação de imigrantes e “criminosos” islâmicos ou negros, incluindo legítimas deputadas eleitas para a Assembleia da República como Joacine Moreira; (ii) de pugnar por uma IV República e assumir demagogicamente que o 25 de Abril 1974, a Constituição de 1976 e os partidos daí resultantes e suas elites foram, de modo generalizado, geradores de “corrupção ao longo de 50 anos”, sem distinguir entre os reais casos de corrupção e os avanços e garantias de liberdades e direitos fundamentais (vida, expressão, trabalho, saúde, educação, segurança social, habitação, participação política) graças não só ao derrube do fascismo pelo MFA como às conquistas democráticas por via de comissões de moradores e de trabalhadores, de sindicatos, movimentos sociais, partidos e políticas públicas progressistas; (iii) advogar a necessidade de “implantar a ordem” e um Estado presidencialista securitário sem respeito pela separação de poderes e concretizar propostas contra o Estado de Direito e a Declaração de Direitos Humanos, tais como a castração química, a pena de prisão perpétua, o trabalho forçado para reclusos, a possível perseguição a cidadãos “socialistas” ou “comunistas” ou ainda a retirada da nacionalidade a ex-imigrantes naturalizados como portugueses.

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Em recente entrevista feita a Ventura a 21/1/2026, este, questionado sobre o seu posicionamento face a posturas de violência racista contra muçulmanos por parte do grupo neonazi 1143 – em que teriam estado implicados alguns membros do Chega – não se demarcou. O cientista político Riccardo Marchi – que em livro seu intitulado A Nova Direita Anti-Sistema - O Caso do Chega normalizou, branqueou e legitimou o Chega como partido radical de direita ‘antissistema’, mas não racista, não xenófobo nem de extrema-direita –, considerou acertada a posição de Ventura por, no quadro das atuais eleições presidenciais, não prescindir deste e doutros grupos neonazis pela sua relevância nas redes sociais. O alinhamento do Chega e do seu chefe Ventura com a ideologia autoritária de extrema-direita perpassada de elementos protofascizantes poder-se-á inferir; a) da adesão a slogans demagógicos e messiânicos em torno de “Deus, Pátria e Família” e posicionamentos racistas e xenófobos, expostos nomeadamente em cartazes; b) de propostas mistificadoras de proibição do chamado “marxismo cultural” nas escolas, de ataques antifeministas em torno da chamada ‘ideologia de género’ e outras propostas limitativas de liberdades para pessoas LGBTQI+; c) de hostilidade ao multiculturalismo, em particular a grupos étnico-raciais minoritários e crentes não cristãos, de imposição de assimilação forçada, de confinamento e criminalização de comunidades ciganas e ‘imigrantes’ classificados amiúde como “incumpridores da lei” e “parasitários do Estado Social”; e sobretudo d) da integração do Chega na família política da extrema-direita e/ou partidos/figuras neofascizantes na Europa e no mundo (vg. Vox na Espanha, Liga italiana, Rassemblement National francês, Partido pela Liberdade/Partij voor de Vrijheid neerlandês e outros no Norte da Europa e do Grupo de Visegrado, Trump e Bolsonaro).

Tendo consciência da porosidade de preconceitos étnico-raciais enraizados e clivagens interétnicas, nomeadamente face a ciganos e imigrantes, estamos nesta curva histórica com uma excecional premência.

As sondagens dão vantagem a António José Seguro. Porém, tendo consciência da porosidade de preconceitos étnico-raciais enraizados e clivagens interétnicas, nomeadamente face a ciganos e imigrantes – aliás não valorizadas ou até desconsideradas por vários partidos, inclusive de esquerda – mas constatados em diversos estudos nacionais1, estamos nesta curva histórica com uma excecional premência a nível (inter)nacional, mesmo em relação às eleições presidenciais de 1986. Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro, em prol da democracia e pela criação de condições mínimas para novas lutas e conquistas socioeconómicas e políticas.


  1. Cf., entre outros, Vala, J.; Lopes,D. e Brito, R. (1999), Novos racismos: Perspetivas comparativas. Oeiras: Celta; Silva, M.C. (2022), Etnicidade e racismo. Representações sociais de portugueses(as) sobre minorias étnicas negra e cigana no distrito de Braga, Porto: Afrontamento.
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Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro.

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