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Da destruição das máquinas ao sindicalismo
categoria-história Ludismo Sindicatos edicao-2026-01-08 (10)

Da destruição das máquinas ao sindicalismo

Na década de 1830, os trabalhadores ingleses organizaram os primeiros sindicatos (trade unions) sob a forma de associações de base local, ou por ofício, para obter melhores condições de trabalho e de vida.

Osvaldo Coggiola
Das greves à organização operária
categoria-história Greve Sindicatos edicao-2025-12-18 (09)

Das greves à organização operária

A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade.

Osvaldo Coggiola
A primeira greve geral ocorrida em Portugal
categoria-história Greve República edicao-2025-12-05 (07)

A primeira greve geral ocorrida em Portugal

As consequências de algumas das primeiras grandes decisões políticas do Governo Provisório da Primeira República, implantada em 5 de outubro de 1910, destronaram rapidamente diversas expectativas do movimento operário português.

Diogo Ferreira
Das revoltas às greves
categoria-história Luditas Sabotagem edicao-2025-11-06 (03)

Das revoltas às greves

Em dezembro de 1831 escrevia o francês Journal des Débats: “A nossa sociedade comercial e industrial tem a sua praga como todas as outras sociedades...

Osvaldo Coggiola
As primeiras revoltas dos trabalhadores
categoria-história Marx Repressão Revoltas edicao-2025-10-16 (01)

As primeiras revoltas dos trabalhadores

Em julho de 1378, os ciompi ocuparam o centro do poder de Florença para exigir o direito de associação e participação na vida pública...

Osvaldo Coggiola
categoria-história Ludismo Sindicatos edicao-2026-01-08 (10)

Da destruição das máquinas ao sindicalismo

Na década de 1830, os trabalhadores ingleses organizaram os primeiros sindicatos (trade unions) sob a forma de associações de base local, ou por ofício, para obter melhores condições de trabalho e de vida.

Depois de se apagarem as agitações revolucionárias da década de 1790 na Europa, as lutas e a organização da classe operária continuaram. Na primeira grande greve de operários organizada segundo o modelo moderno, a greve geral dos fiadores de algodão de Manchester, em 1810, vários milhares de homens distribuíram entre si o fundo de greve, primeira instituição económica de combate dos trabalhadores industriais, que atingiu a cifra de 1500 libras por semana. O antecedente fora a grande greve de 1804-1805 realizada pelos tecelões de Glasgow, quando 40 mil trabalhadores de toda a Escócia pararam os teares. Em inícios do século XIX surgiu também o ludismo (“os destruidores de máquinas”), movimento que se insurgiu contra as profundas alterações sociais e laborais trazidas pela revolução industrial. As reclamações contra as máquinas e a substituição que elas faziam da mão de obra humana eram “normais”, costumeiras. Movimentos esparsos de “destruidores de máquinas” desenvolveram-se a partir de meados do século XVIII, com tal força e extensão que levaram o Parlamento britânico a aprovar em 1769 uma lei que punia a destruição de fábricas e máquinas com a pena de morte. Vários trabalhadores foram executados devido a essa lei, o que não impediu que o movimento ganhasse amplidão.

Foi em 1811, na Inglaterra, que o movimento de destruição de máquinas “estourou”, superando o nível da revolta espontânea e local, ganhando dimensão nacional. O seu nome derivava de Ned Ludd, um dos seus líderes, quem, em Nottingham, aborrecido com o patrão, destruiu a sua oficina têxtil. Os luditas invadiam fábricas e destruíam máquinas que, por incrementarem a produtividade dos trabalhadores, lhes tiravam também os empregos, requerendo, contudo, duras horas de jornada de trabalho dos operários remanescentes. As fábricas eram também ambientes com péssima iluminação, abafados e sujos. Numa carta ameaçadora que Ned Ludd endereçou a certo empresário de Hudersfield, em 1812, lia-se: "Recebemos a informação de que é dono dessas detestáveis tosquiadoras mecânicas. Fica avisado de que se elas não forem retiradas até ao fim da próxima semanal eu mandarei imediatamente um de meus representantes destruí-las. E se o senhor tiver a imprudência de disparar contra qualquer dos meus homens, eles têm ordem de matá-lo e queimar a sua casa.” Uma canção refletia o espírito do movimento ludita:

Brave ludits we are, for the breaking we come! / God save Ned Ludd! / Machines to hell, we want our dignity! / Breaking is good, join us and save the Europe! / Break! Break! Break or die working! / Monsters of industrialism, we want you broken! / Machines to the ground! / Crash! Crash! Bang! Bang! The sound of freedom these are! / Break one, break two, break three, break all! All!

O ludismo teve o seu momento culminante no assalto noturno à manufatura de William Cartwright, no condado de York, em abril de 1812. No ano seguinte, na mesma cidade, teve lugar o maior processo contra os luditas: dos 64 acusados de terem atentado contra a manufatura de Cartwright, treze foram condenados à morte e dois a deportação para as colónias. Apesar da dureza das penas, o movimento não amainou até 1817, refletindo as péssimas condições de vida dos operários. Finalmente, a generalização da indústria (factory system) e a criação das primeiras trade unions (futuros sindicatos) limitaram o alcance e as possibilidades das revoltas luditas, fazendo que entrassem em declínio. Para o historiador Eric Hobsbawm, o ludismo “foi uma mera técnica de sindicalismo no período que precedeu a revolução industrial e nas suas primeiras fases”. O ludismo não foi um movimento exclusivamente inglês, tendo-se registado movimentos semelhantes na Bélgica, na Renânia, na Suíça e na Silésia; no mesmo período houve um movimento camponês inglês “primitivo” de revolta contra a modernização capitalista, em 1830, sob uma forma assemelhada ao “ludismo”, dirigido pelo lendário “Capitão Swing”. Karl Marx escreveu a respeito desses movimentos no Manifesto Comunista: “(Os operários) não se contentam com dirigir os seus ataques contra as relações burguesas de produção, e dirigem-se contra os próprios instrumentos de produção: destroem as mercadorias estrangeiras que lhes fazem concorrência, quebram as máquinas, incendeiam as fábricas, tentam reconquistar pela força a posição perdida do artesão da Idade Média.” No verão de 1812, doze mil soldados foram destacados para Leicester e York, na tentativa de deter o movimento de revolta. O valor das propriedades e máquinas destruídas ultrapassou 100 mil libras esterlinas. Lord Byron, nobre e poeta, membro da Câmara Alta (a Câmara dos Lordes), discursou em 1811 em defesa dos luditas e contra as inumanas condições de trabalho: "Não existem já bastantes coalhos de sangue nos vossos códigos, para que ainda queirais mais, até que os céus gritem e clamem contra vós? São esses os remédios com os quais quereis curar um povo faminto e desesperado?”

Quando, em 1819, se reuniram cem mil trabalhadores em Manchester, o Estado, através da cavalaria, provocou o ‘massacre de Peterloo’, que semeou de cadáveres o campo do mesmo nome.

A extraordinária “marcha da fome” sobre Londres (de 1817), ou o comício de Saint Peter’s Field em 1819, que reuniu a quantidade (inusitada para a época) de oitenta mil pessoas, produziram-se no meio do clima criado pela revolta dos operários e artesãos. No Norte do país eles decidiram eleger, fora do quadro legal, deputados para o Parlamento que os representassem; quando, em 1819, se reuniram cem mil trabalhadores em Manchester, o Estado, através da cavalaria, provocou o “massacre de Peterloo”, que semeou de cadáveres o campo do mesmo nome. Em 1824 foram criados na Inglaterra os primeiros centros de ajuda mútua e de formação profissional para operários. Não é correto, portanto, datar o nascimento do movimento operário em França e na Inglaterra entre 1832 e 1836. Ele tinha tido a sua origem, pelo menos, na última década do século precedente. Na Grã-Bretanha, as tentativas para unir todos os operários em “sindicatos gerais”, isto é, em entidades que superassem o isolamento local e regional dos grupos particulares de trabalhadores, levando-lhes uma solidariedade nacional e até universal da classe trabalhadora, começaram em 1818 e foram continuadas depois.

Com a extensão da revolução industrial, os núcleos mais numerosos e concentrados de operários situaram-se nos setores mais desqualificados, ou seja, nos setores fabris dominados pelo maquinismo. As leis antissindicais inglesas haviam sido promulgadas em plena revolução industrial. Elas foram sendo derrotadas pelas greves e pelas lutas operárias, que obtiveram em 1825 a sua revogação. As leis contra as “coalizões” de trabalhadores entraram em colapso em 1825, diante da atitude ameaçadora do proletariado. Em consequência disso, na década de 1830, os trabalhadores ingleses organizaram os primeiros sindicatos (trade unions) sob a forma de associações de base local, ou por ofício, para obter melhores condições de trabalho e de vida. Nesse ano, formou-se o Sindicato dos Operários da Construção (Operative Builders Union), e em 1834 a primeira central de trabalhadores (Grand National Consolidated Trade Unions). Para atender aos acidentes de trabalho, doenças ou desemprego, os operários criaram as primeiras associações de auxílio mútuo, que funcionavam por meio de quotizações. Aos poucos, as trade unions inglesas foram-se consolidando, dirigindo mais greves, maiores protestos. Deixaram o patronato num dilema: já que eram proibidas, o empresário não tinha como negociar em momentos de greve. Isso gerava grandes prejuízos, principalmente quando não havia stocks e surgiam encomendas de produtos. Perante esse crescimento das lutas operárias, o Parlamento da Inglaterra aprovou, em 1824, a primeira lei sobre o direito de organização sindical dos trabalhadores. Em 1825 foi abolida a proibição do direito de associação, os Combination Acts, e surgiu paralelamente uma onda grevista. Foi só a partir do Factory Act de 1833, visando as manufaturas de algodão, lã, linho e seda, que foi fixado para a indústria um “dia normal de trabalho”. Em 1833 surgiu a primeira lei limitando a oito horas de trabalho a jornada das crianças operárias. Em 1842 proibiu-se o trabalho de mulheres em minas. Gradativamente, as associações operárias conquistaram a proibição do trabalho infantil, a limitação do trabalho feminino, o direito de greve e a limitação da jornada de trabalho dos adultos, o que teria efeitos decisivos: as horas de trabalho semanais para trabalhadores adultos nas indústrias têxteis eram, em 1780, em torno de 80 horas; em 1820, estavam reduzidas a 67 horas; em 1860, a 53 horas.

categoria-história Greve Sindicatos edicao-2025-12-18 (09)

Das greves à organização operária

A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade.

As primeiras lutas operárias trouxeram consigo os primórdios da organização. A passagem do artesanato para a condição operária não criava uma situação absolutamente nova. A organização de uniões operárias (trade unions) era uma velha tendência, presente desde 1720 na Inglaterra, com a União dos Entalhadores de Londres, destinada a obter aumentos salariais através de petições ao Parlamento. As primeiras associações permanentes de assalariados precederam em meio século o sistema manufatureiro e localizaram-se em ofícios onde o trabalho manual-artesanal predominava. O fator determinante não é a transformação técnica, mas o divórcio entre o trabalho e a propriedade dos meios de produção. Onde esse divórcio se consuma nasce o sindicato. Foi mais para defender uma situação privilegiada do que para melhorar uma má situação que se formaram os primeiros sindicatos. Com o aguçamento da luta contra os patrões, a forma e o conteúdo dos sindicatos alteraram-se.

Em 1724, os operários chapeleiros de Paris declararam greve por causa da redução dos seus salários. Criaram, para financiar essa ação, uma “caixa de greve”. A tradição das greves, já desenvolvida entre os artesãos, foi retomada e reformulada pelo proletariado moderno, até ser transformada em meio de luta capaz de abalar toda a sociedade. Entre 1753 e 1757 produziram-se greves espontâneas em diversas regiões de Inglaterra: pedreiros e carpinteiros em Manchester, marceneiros noutras cidades. Em 1765, 100 mil marinheiros e operários do carvão declararam greve em Londres. Durante o período mais radical da Revolução Francesa floresceram as greves. As revoltas precederam a organização dos sindicatos, que demoraram a aparecer e estabilizar-se como representação unificada da classe operária. Na Inglaterra, em 1721, foi proibida a organização dos alfaiates; e em 1726, a dos marceneiros. Em França, em 1791, a lei proposta pelo deputado Le Chapelier havia proibido as organizações operárias. No seu texto, afirmava-se, com base na ilusão liberal, mas também com um sentido de classe aguçado: “Já não há classes de corporação no Estado. Não existe mais do que o interesse particular de cada indivíduo e o interesse geral. Pertence aos convénios livres, de indivíduo para indivíduo, fixar o jornal para cada operário. É incumbência do operário manter o acordo feito com o empregador.” Os temíveis (mas burgueses) jacobinos permaneceram calados. O projeto de lei de Le Chapelier foi adotado por unanimidade pela Assembleia Nacional francesa.

A tradição e o programa igualitário da Revolução Francesa foram transmitidos diretamente ao nascente movimento operário por um sobrevivente da Conspiração dos Iguais, Felipe Buonarroti, descendente do escultor italiano Michelangelo Buonarroti, que escreveu a História da Conspiração dos Iguais: o livro de Buonarroti era muito conhecido entre os operários. Pertencia à literatura popular junto com os discursos de Robespierre e os artigos de Marat. Na Inglaterra, os primórdios do movimento político operário vincularam-se ao movimento democrático radical, por direitos políticos iguais para todos. Foram surgindo novas direções políticas, inicialmente originadas nas classes abastadas. Filho de um rico comerciante, John Wilkes (1725-1797) começou a sua carreira política atacando, a partir do seu jornal, o North Briton, o rei Jorge III, transformando-se no paladino das liberdades civis fundamentais. Tornou-se líder popular em Londres, com grande apoio para o seu movimento de reforma democrática. Foi perseguido e detido diversas vezes. A 10 de maio de 1768, uma multidão de operários londrinos reuniu-se numa manifestação para exigir a sua liberdade.

Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados.

A repressão da manifestação provocou seis mortos e muitos feridos. Houve uma comoção social em Londres e nos condados vizinhos: estivadores, trabalhadores portuários, marceneiros e alfaiates declararam greve. Wilkes organizou a sua campanha eleitoral de 1774 a partir de um programa que defendia um sufrágio mais equitativo e a defesa dos direitos populares na Inglaterra, na Irlanda e na América. O movimento político radical que dirigia obteve a eleição, pese o reduzido número de eleitores (devido ao voto censitário), de doze membros no parlamento. A influência política de Wilkes durou até 1780, mas a luta por reformas continuou: a maior parte dos candidatos a políticos ingleses apresentava-se como reformadora. John Cartwright (1740-1824) publicou em 1776 a brochura Take Your Choice (Escolha!) que esboçava o programa que inspirou o movimento popular durante os 75 anos seguintes, insistindo na reforma eleitoral e no parlamento anual. A agitação operária nas cidades inglesas e britânicas percorreu todo o século XVIII. As greves não se esgotaram em si mesmas: entre 1763 e 1768 diversas categorias unificaram-se para levar petições ao rei Jorge III. Por outro lado, ganhou corpo a ideia de atacar diretamente o capital. Em 1768, os tecelões de Spitalfields levantaram-se em massa e destruíram uma grande quantidade de teares de seda. Organizaram um fundo de greve, depositando de 2 a 5 xelins por tear. Os tecelões de Spitalfields criaram uma união para pleitear perante a justiça, lançando a semente dos futuros sindicatos.

Os membros dos comités operários reuniam-se nas tabernas, onde deveriam comparecer armados e disfarçados. A burguesia inglesa fugiu da revolução democrática pois, em vez de uma massa popular indiferenciada, viu desenhar-se por detrás dela a ação de uma classe com a sua própria política e métodos de organização. Em janeiro de 1792, oito operários ingleses criaram a London Corresponding Society, que se organizou em grupos de trinta membros, baseada numa contribuição financeira acessível aos operários. Em finais desse ano, a sociedade contava já com três mil membros. Os seus objetivos eram o sufrágio universal, a igualdade de representação, o parlamento honesto, o fim dos abusos contra os cidadãos humildes, o fim das pensões outorgadas pelo Parlamento aos membros das classes dirigentes, a redução da jornada de trabalho, a diminuição dos impostos e a entrega das terras comunais aos camponeses. Na mesma época, o livro de Tom Paine Os Direitos do Homem defendia a Revolução Francesa e a independência americana, atacando a monarquia inglesa em favor do republicanismo. Publicado em inglês, celta e gaélico, vendeu 200 mil exemplares na Grã-Bretanha. Em 1795, os dirigentes da London Corresponding Society foram presos e a sociedade começou a decair. Mas ela foi o antecedente da primeira grande organização política operária, o cartismo. Já prevenido pelo antecedente da sociedade operária e avisado pela experiência de França, o parlamento britânico proibiu as organizações operárias, condenando-as à clandestinidade ou a uma vida curta. O governo conseguiu também impedir as tentativas de se implantar um salário mínimo. Na década de 1790, a nova condição social dos trabalhadores, unida à influência da Revolução Francesa, deu um novo estatuto à repressão dos protestos sociais e suscitou novas formas de organização operária.

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A primeira greve geral ocorrida em Portugal

As consequências de algumas das primeiras grandes decisões políticas do Governo Provisório da Primeira República, implantada em 5 de outubro de 1910, destronaram rapidamente diversas expectativas do movimento operário português.

As consequências de algumas das primeiras grandes decisões políticas do Governo Provisório da Primeira República, implantada em 5 de outubro de 1910, destronaram rapidamente diversas expectativas do movimento operário português. Em 6 de dezembro seguinte, foi publicado o decreto relativo à regulamentação do direito à greve que, do mesmo modo, legalizou o lock-out: “É garantido aos operários, bem como aos patrões, o direito de se coligarem para a cessação simultânea do trabalho”.

Numa lógica semelhante, no ano seguinte, a primeira lei eleitoral do regime republicano não respeitou as promessas efetuadas no tempo da monarquia constitucional: negou o sufrágio universal aos trabalhadores. Estas foram apenas duas opções de um vasto leque de medidas que potenciaram o crescente sentimento de desilusão do mundo laboral que, a cada dia, viu mais longe a tão almejada república social e emancipadora.

A multiplicação de associações de classe, que foram surgindo um pouco por todo o país, promoveu a organização sindical necessária para que diferentes localidades recorressem à greve como plataforma de reivindicação de aumentos salariais ou da jornada diária de oito horas. Na cidade do Sado, epicentro nacional do sindicalismo revolucionário, entre 21 de fevereiro e 9 de abril de 1911, a indústria de conservas de peixe – setor dominante e hegemónico na Barcelona portuguesa – paralisou através das exigências das operárias em receberem 50 réis por hora (de dia ou de noite).


Os confrontos que se seguiram, entre operários e a Guarda Republicana, resultaram na morte de dois trabalhadores.

Pelo meio, em 13 de março, dois fabricantes conserveiros procuraram reduzir os efeitos da interrupção da produção, substituindo os grevistas por familiares e recorrendo à intervenção militar para escoltar os carroceiros que transportavam o seu produto final até à estação ferroviária. As sucessivas idas e voltas revoltaram os trabalhadores que se encontravam num trecho da Avenida Luísa Todi. Os confrontos que se seguiram, entre operários e a Guarda Republicana, resultaram na morte de dois trabalhadores, António Mendes e Mariana do Carmo Torres, como consequência dos disparos de que foram vítimas.

A tragédia associada aos “Acontecimentos de Setúbal” (foram assim descritos na imprensa periódica) chocou a opinião pública e provocou uma profunda cicatriz nas relações operariado-República. O sentimento de traição no âmago do bloco social de apoio da revolução republicana é explícito nas palavras do historiador João Medina: “O divórcio irremediável e catastrófico nascera ali, de maneira tão flagrante e clara: com aqueles dois cadáveres de Setúbal desaparecia o entendimento entre duas classes que tinham trabalhado juntas para demolir o provecto edifício brigantino.”

Em solidariedade com as vítimas e em protesto contra a violência policial, as associações de classe de Lisboa reuniram no dia 16 e elegeram um comité com o intuito de prepararem uma paralisação geral do trabalho por 24 horas a iniciar no dia 20. Apesar de ter sido pensada apenas para aquele concelho, contou com a adesão de alguns setores laborais de Almada e do Porto.

De acordo com alguns jornais, cerca de 70 mil indivíduos aderiram ao movimento, destacando-se as mulheres das unidades fabris de Xabregas e de Poço de Bispo e os fragateiros, que impossibilitaram o desembarque de mercadorias. O movimento foi igualmente alvo de repressão, tendo sido presos seis operários. Na concentração do Terreiro do Paço ouviram-se gritos de “Viva a greve!” e “Viva a República Social!”. Foi a primeira vez que uma greve-geral foi convocada em Portugal num largo espectro geográfico.


¹ Diário do Governo, I Série, n.º 53 de 07/12/1910.
2 Fernando Rosas, Lisboa Revolucionária – Roteiro dos confrontos armados no século XX, Tinta-da-China, Lisboa, 2007.
3 MEDINA, João, “Prefácio - Setúbal e o drama da 1.ª República” in Greves, Sindicalismo – Setúbal (1910-1913), Assembleia Distrital de Setúbal, Lisboa, 1981, p. 16.
4 PEREIRA, Joana Dias, A produção social da solidariedade operária: o caso de estudo da península de Setúbal (1890-1930), Tese de Doutoramento em História, NOVA FCSH, Lisboa, 2013.

categoria-história Luditas Sabotagem edicao-2025-11-06 (03)

Das revoltas às greves

Em dezembro de 1831 escrevia o francês Journal des Débats: “A nossa sociedade comercial e industrial tem a sua praga como todas as outras sociedades. Essa praga são os operários. Mas não existem fábricas sem operários!”

O capitalismo industrial reduziu a esperança média de vida dos operários, enquanto a das classes mais abastadas ou da “classe média” crescia vertiginosamente. Alguns trabalhadores entregavam-se ao alcoolismo. Outros rebelavam-se contra as máquinas e as fábricas, destruídas em Lancaster (1769) e no Lancashire (1779), anunciando o movimento dos “destruidores de máquinas” (luditas). Proprietários e governo organizaram uma defesa militar para proteger as empresas. Em 1803, Thomas Spence escreveu: “Em vez de trabalhar apenas seis dias por semana, somos obrigados a trabalhar oito ou nove, e, no entanto, mal conseguimos subsistir... e ainda e sempre ouvimos gritar: trabalha, trabalha, não estejas a mandriar... Nós, Deus nos ajude, caímos sob o jugo do mais endurecido conjunto de patrões que já existiu.” A declaração, publicada, valeu ao seu autor uma sentença de três anos de prisão.

Com a rotina imposta pelo sistema fabril, o operário assalariado tinha, como únicas alternativas, a submissão ou a inanição e a morte. Foi-se gerando uma vontade coletiva de mudança, de melhoria das condições de trabalho e de vida e até de abolição do capitalismo. La Chanson des Canuts (os tecelões), composta depois da insurreição operária na cidade de Lyon, em 1831, testemunhou a miséria operária francesa e a revolta social dos trabalhadores, e incorporou-se no cancioneiro popular do país, com o seu refrão desafiador: Nous sommes les canuts, nous n’irons plus nus! No Journal des Débats francês de dezembro de 1831, imediatamente posterior à primeira insurreição operária de Lyon, podia-se ler: “A sedição de Lyon revelou um grave segredo, o da luta intestina que tem lugar na sociedade entre a classe que possui e a que não possui. A nossa sociedade comercial e industrial tem a sua praga como todas as outras sociedades. Essa praga são os operários. Mas não existem fábricas sem operários! E com uma população de operários sempre crescente, sempre necessitada, não há repouso para a sociedade. Cada fabricante vive na sua fábrica como os plantadores das colónias no meio dos escravos, na condição de um contra cem.” Um historiador que estudou a classe operária parisiense na primeira metade do século XIX, composta por umas 63.500 pessoas, não vacilou em qualificá-la de “naturalmente criminosa”.


“A greve é escandalosa porque incomoda precisamente aqueles a quem ela não diz respeito. É a razão que sofre e se revolta.”

A aproximação entre a moderna escravidão assalariada e a escravidão colonial não era inapropriada. A comparação das duas formas de escravidão (a metropolitana e a colonial) talvez revelasse até desvantagem para os trabalhadores “livres” da metrópole: numa petição de operários ingleses, estes referiam-se à melhor condição de vida dos escravos americanos que, ao menos, trabalhavam ao ar livre. A burguesia descobria a luta de classes do regime capitalista. Uma forma de luta utilizada nos primórdios do movimento operário foi o boicote, palavra derivada do nome de um oficial inglês encarregado de administrar os negócios do Conde Erne, da Irlanda. Sir Boycott era conhecido pelos seus métodos truculentos no tratamento com os empregados. Recusava-se a negociar e os trabalhadores passaram a fazer o mesmo, propondo que os habitantes do povoado não consumissem os produtos do conde, que teve um grande prejuízo e afastou o oficial inglês do cargo. A sabotagem também foi usada nesse período como mecanismo de pressão dos trabalhadores. O termo tem origem francesa e deriva de sabot, que significa tamanco. Os operários franceses usavam esse calçado para danificar as máquinas, emperrando a produção. O salto na ação desse jovem proletariado deu-se com o recurso à greve para pressionar o patronato. A origem do termo encontra-se na Place de Grève, atualmente Hôtel de Ville, em Paris. Quando desempregados ou para tratarem de assuntos relativos ao trabalho, os operários costumavam reunir-se ali.

Para a nova classe capitalista, a greve era inadmissível. Nas Mitologias, Roland Barthes escreve: “A burguesia, que assumira o poder há pouco tempo, executa uma espécie de crase entre a moral e a natureza, oferecendo a uma a caução da outra; temendo-se a naturalização da moral, moraliza-se a natureza, finge-se confundir a ordem política e a ordem natural, e conclui-se decretando imoral tudo o que conteste as leis estruturais da sociedade que se quer defender. Para os prefeitos de Carlos X, a greve constitui, em primeiro lugar, um desafio às prescrições da razão moralizada: fazer greve é mais do que infringir uma legalidade cívica, é infringir uma moralidade ‘natural’, atentar contra o bom senso, misto de moral e de lógica, fundamento filosófico da sociedade burguesa (...) A greve é escandalosa porque incomoda precisamente aqueles a quem ela não diz respeito. É a razão que sofre e se revolta (...) Face à mentira da essência e da parte, a greve institui o devir e a verdade do todo. Ela significa que o homem é total, que todas as suas funções são solidárias umas das outras, que os papéis de utente, de contribuinte ou de militar são muralhas demasiado frágeis para poderem opor-se à contaminação dos factos, e que, numa sociedade, tudo diz respeito a todos. Protestando contra a greve que a incomoda, a burguesia revela a coesão das funções sociais.” A greve prejudicava a produção, mas recuperava a humanidade.


1 Do personagem Ned Ludd, alegado fundador do movimento.

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As primeiras revoltas dos trabalhadores

Em julho de 1378, os ciompi ocuparam o centro do poder de Florença para exigir o direito de associação e participação na vida pública, conseguindo o reconhecimento de três novas corporações, que passaram a representar as classes populares.

En 1378 Revolte des Ciompi a Florence. Illustration de 1872 par Louis LION (19 s.) pour Histoire des Proletaires par Yves GUYOT (1843-1928) et Sigismond LACROIX (1845-1909). Credit : Collection Jonas/Kharbine-Tapabor.

Diversos autores, Marx incluído, apontaram as primeiras manifestações de capitalismo na Itália dos séculos XIII e XIV. A revolta dos explorados pelo novo sistema de produção manifestou-se desde cedo, sem, no entanto, conseguir abrir uma perspetiva de sociedade própria. Na Florença medieval, a república estava fundada sobre a exclusão de parte importante dos seus habitantes da vida política. A sua democracia não estava baseada na reivindicação de direitos fundamentais de todos os cidadãos, mas no privilégio de uma parte deles de exercer o poder. Nessa “democracia oligárquica”, em 1344, o setor mais empobrecido da sociedade, liderado por Ciuto Brandini, protagonizou uma rebelião social que transcendeu a sua época. O seu objetivo imediato era estabelecer uma corporação que representasse os setores mais pobres, afastados da vida pública e política. Chamados “gente magra”, eles eram uma camada social composta por pequenos comerciantes arruinados e trabalhadores agrários, que tinham vindo do campo para as cidades para satisfazer a necessidade de mão de obra barata.

Poucas décadas depois explodiu em Siena a revolta encabeçada por Francesco d’Agnolo, conhecido como Barbicone, trabalhador têxtil. Era o ano de 1371 e os iniciadores da revolta eram trabalhadores sujeitos ao despotismo da guilda Arte della Lana, contra o qual se revoltaram. O protesto estendeu-se a outros setores da população de Siena e abriu um período de conflitos entre cidadãos e grandes senhores. Poucos anos depois, novamente em Florença, houve o motim dos ciompi, em 1378; os seus iniciadores foram os trabalhadores menos qualificados, trabalhadores da cardação, responsáveis por cardar e pentear a lã. A situação social florentina era grave devido à “guerra dos oito santos”, na qual se confrontaram Florença e diversas cidades italianas contra os Estados papais, guerra que resultou na derrota das cidades e numa pesada multa contra Florença, onde a corporação de artesãos se rebelou contra os banqueiros e grandes mercadores que detinham o poder da cidade, revolta que recebeu o apoio dos ciompi, a camada social mais pobre, que assumiram o controle da situação.

Em julho de 1378, os ciompi ocuparam o centro do poder de Florença para exigir o direito de associação e participação na vida pública, conseguindo o reconhecimento de três novas corporações, que passaram a representar as classes populares (o “povo de Deus”): a dos ciompi, a dos alfaiates e a dos tintureiros. Sob a direção de Michele di Lando, os trabalhadores ocuparam o Palazzo dei Priori (Palazzo Vecchio) e obtiveram satisfação parcial para os seus pedidos, alguns dos quais diziam respeito à representação política. Di Lando tornou-se gonfaloniere (magistrado) da justiça. O governo encabeçado por Di Lando, principal dirigente dos ciompi, viu crescer as exigências das camadas populares, como o cancelamento das dívidas, e, por outro lado, a resistência dos mais ricos. Porém, o novo líder da cidade, embora oriundo da “arraia miúda”, alinhou-se com os mais ricos para reprimir os protestos populares. Ocorreu uma feroz batalha contra as guildas maiores, lideradas pela corporação dos açougueiros. Os ciompi e os seus aliados foram massacrados numa jornada sangrenta. Os ciompi protagonizaram uma revolta de explícito caráter social, já não apenas religioso, aspecto dominante durante a Idade Média. Porém, a sua direção, quando sobreveio a repressão contra o povo, acabou por ficar do lado dos repressores.

Na Europa da Idade Média não faltaram homens que esperavam o advento do reino de Deus e a destruição da ordem social existente. O milenarismo refazia-se sempre, sobretudo a partir do século XIV, quando a sociedade feudal começou a ruir sobre os seus fundamentos. Assim se explica o caráter social assumido por alguns movimentos, primeiro na Inglaterra, depois na Boémia em torno de Jan Huss e os taboritas, e finalmente na Alemanha durante as guerras camponesas, com a criação, em Münster, de uma “Jerusalém celeste”. Segundo Engels, que estudou esses e outros movimentos, eles defendiam ideias sociais sob invólucro religioso devido ao contexto ideológico geral da época. No Manifesto Comunista lemos que as primeiras revoltas dos trabalhadores despossuídos fracassaram “não só por causa do estado embrionário do próprio proletariado, como também devido à ausência das condições materiais da sua emancipação, que apenas surgem como produto da época burguesa”. Essas condições incluíram “séculos para que o trabalhador ‘livre’ se adaptasse voluntariamente, ou seja, fosse socialmente obrigado a vender todo o seu período ativo de vida pelo preço dos seus meios habituais de subsistência. Com a sua própria capacidade de trabalhar, foi forçado a vender o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas”. A repressão das suas primeiras revoltas foi um dos aspetos dessa adaptação; ela preparou a vitória incontestada de um novo modo de produção.

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